A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
Mostrar mensagens com a etiqueta Economia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Economia. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, março 07, 2013

Guilherme da Fonseca-Statter - A dívida absurda ou a aberração da dívida

     


por Guilherme da Fonseca-Statter
Somos alguns milhões – só em Portugal – a sermos esbulhados, por meio de impostos e contribuições cada vez mais exorbitantes, para pagarmos uma dívida pública "externa" que não contraímos. Alguns papagaios, comentadores e "economistas" de aviário dizem-nos também que "não há alternativa", temos mesmo que pagar ("eles emprestaram ou não emprestaram"?...).

Vamos por uns minutos imaginar que esta dívida pública (esta e as outras, dos outros páises todos...) é uma dívida legítima. Que até resulta de empréstimos feitos por entidades que tinham acumulado esses capitais financeiros com toda a legitimidade e, sobretudo, sem terem fugido ao pagamento dos impostos sobre os lucros ao longo de várias décadas. Mesmo assim, nessas hipotéticas circunstâncias de legitimidade, o que me parece mais aberrante (estupidamente aberrante...) é que isso, o pagamento da dívida (se por milagre alguma vez acontecesse...), não serve para nada...

Ou seja, aquele dinheiro todo "que nos vai sendo emprestado e que nós vamos pagando" não vai ter uma qualquer outra aplicação que não seja voltar a ser emprestado. Acumulando juros e "capital emprestado".

Quando muito na compra ("investimento" dizem eles...) de coisas que já existem...
Per secula seculorum... Se entretanto os povos não se revoltarem, claro...

Acontece que existe no sistema capitalista um característica muito peculiar e que eu designo por "esgotamento progressivo de oportunidades de investimento". Investimento lucrativo, claro. Não é difícil demonstrar a existência dessa característica, mas isso não cabe agora aqui. Em todo o caso essa demonstração está feita e disponível para quem estiver interessado.

Em consequência desse esgotamento progressivo das oportunidades de investimento, os donos e gestores de todo aquele capital financeiro procuram naturalmente aplicações alternativas. Vamos imaginar que na busca de aplicações financeiras rentáveis conseguem todos os seus objectivos; ou seja a obtenção de oportunidades de aplicação rentável em coisas ou actividades úteis e necessárias à sociedade e que sejam susceptíveis de "compra e venda" (os mercados, sempre os mercados....).

Como vão assinalando os observadores mais atentos, aquelas "coisas ou actividades úteis e necessárias à sociedade" que constituem aquelas oportunidades de investimento e que estão assim "à mão de semear", são a privatização de tudo e mais alguma coisa que compete a um Estado moderno, progressista e com um mínimo de preocupação por tudo quanto é social.

Vamos pois imaginar que eles conseguem privatizar todos os ensinos públicos e todos os serviços nacionais de saúde e que conseguem também privatizar toda a distribuição de água (um monopólio natural por execelência...). Acrescentemos a isso a privatização de portos e transportes (vias férreas e todo o tipo de estradas) e ainda (porque não, já agora...) a privatização da segurança interna e da Justiça.

Vamos então imaginar que com todas essas privatizações, e através da manipulação de preços, os donos do capital financeiro, conseguem obter taxas de lucro melhores do que as "meras" aplicações financeiras. Nessa altura, em vez de nos retirarem "poder de compra" por via dos impostos para "pagarmos a dívida", vão-nos retirar "poder de compra" por via dos preços – que teríamos que pagar – por aqueles serviços que antes eram prestados de modo tendencialmente gratuito pelo Estado.

E depois?...

Nesse cenário de pesadelo absurdo de onde viria o "poder de compra" necessário e suficiente para escoar a oferta daqueles serviços todos?...

É neste contexto que se coloca a questão da aberração do pagamento indefinido de uma dívida absurda. Se os senhores da "troika" e seus mandatários locais (aqui ou na Grécia, por exemplo) tivessem um pingo de bom senso, talvez fosse possível perguntar-lhes "o que vão fazer com o dinheiro dos pagamentos das dívidas públicas"...

Para onde vão todos esses fundos financeiros?... Para que servem?... Em que vão ser aplicados (ou "investidos")?

Muito provavelmente responderiam que "não temos nada a ver com isso", o dinheiro é deles (ou melhor dos seus patrões...) e eles, os patrões, é que têm que decidir o que querem fazer com os dinheiros que alguém fabricou, sendo que este "fabrico de dinheiro" resultou a partir de lucros empresariais minimanente legitimos (mas sobretudo engordados com o não pagamento de impostos) , ou a partir da fabricação de dinheiro ou capital fictício resultante da criação de empréstimos bancários virtuais...

Mas a resposta mais prosaica seria muito provavelmente a de que esses fundos financeiros todos serão de novo aplicados na compra de mais dívida pública...

É evidente que o Planeta está cheio de oportunidades para fazer coisas, úteis e necessárias; desde a regeneração do meio ambiente (o mar e as florestas...) até à renovação de estruturas físicas e desenvolvimento de novas tecnologias de fontes de energia e de aproveitamento "verde" das coisas da Natureza.

Só que isso, tudo isso, cai cada vez mais no âmbito da coisa pública...

Não constitui oportunidade de investimento que tenha o lucro como objectivo imediato.

Ou seja, o sistema parece ter entrado num beco sem saída.

Mas "saídas" há: o caos (e a barbárie...) ou o Socialismo.
O original encontra-se em umoutroparadigma.blogspot.pt/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

05/Mar/13

Pedro Nuno Santos - a fortuna de soares dos santos

Caro Soares dos Santos


Caro Alexandre Soares dos Santos, sou cidadão português e deputado na Assembleia da República. Sou, portanto, um dos destinatários dos inúmeros conselhos que tanto gosta de dar aos políticos, aos jovens e aos portugueses em geral. Mas eu também tenho algumas coisas para lhe dizer. O senhor é um dos poucos vencedores do euro e das taxas de juro baixas – com uma moeda mais forte que o escudo conseguiu passar a importar mais barato, e com taxas de juro historicamente baixas, conseguiu o crédito necessário para, em poucos anos, alargar a todo o país a sua rede de distribuição e investir no estrangeiro. Pelo caminho, contribuiu negativamente para o saldo da nossa balança comercial, “aniquilou” o comércio tradicional e esmagou as margens de lucro dos pequenos produtores agrícolas. Como se isto não fosse suficiente, ainda teve o descaramento de, em plena crise, transferir a domiciliação fiscal do seu grupo económico para outro país. E assim, ironicamente, enquanto o povo português faz das tripas coração para pagar esta crise, o senhor (ao que parece, um dos homens mais ricos do mundo) deixa de pagar em Portugal os impostos que eram devidos pelo lucro obtido cá, para pagar menos na Holanda. Encontrou ainda, apesar de a economia portuguesa estar em recessão, uma oportunidade de negócio em mais um sector protegido da concorrência internacional – depois de o sector da distribuição, o sector da saúde – montando uma rede de clínicas médicas low cost. À luz deste investimento, compreendem-se melhor as críticas que faz à “subsidiodependência”, ou quando afirma que “andamos sempre a mamar na teta do Estado” – quanto menos o Estado investir no Serviço Nacional de Saúde, maior será o número dos seus clientes, correcto? Caro Alexandre Soares dos Santos, permita-me a ousadia de lhe dar um conselho: use parte da fortuna que amealhou neste país para investir na indústria. Desenvolva, por exemplo, uma bicicleta eléctrica: proponha-se entrar no capital de uma empresa portuguesa de bicicletas já existente, contrate uma equipa de jovens engenheiros para conceberem baterias eléctricas, invista no design da bicicleta e na sua promoção e use a rede de distribuição de que dispõe para as lançar no mercado. Arrisque, mostre que também é capaz de produzir coisas e de as exportar; como fazem já os empresários do sector do calçado, que desenvolvem produtos reconhecidos internacionalmente, que correm meio mundo para garantir encomendas e ainda contribuem para o aumento da produção nacional e positivamente para o saldo da nossa balança comercial.
 
(crónica publicada às quartas-feiras no jornal i)
 

segunda-feira, março 04, 2013

Roberto Cunha - "Espelho de enganos, teatro de verdades" da pós-modernidade

Página Inicial

4 de Março de 2013 - 13h45


A pós-modernidade e o neoliberalismo elaboraram um receita velhacamente eficaz e
algumas idiotices brilhantemente sublimes.

Por Roberto Cunha*


Os “contra poderes”: agricultura familiar - canonização do camponês; movimentos “sociais”; políticas públicas focadas; lutas das minorias; multiculturalismo; gêneros; trabalhadores e trabalhadoras no lugar da classe operária; credo na benevolência humana; paz e esperança que “um novo mundo é possível”; “o agronegócio é deletério a saúde humana”; “o capital financeiro é coisa de imperialismo”, “ o capitalismo não é um salto civilizacional” e que os únicos e eficazes remédios são “consciência ambiental”, a “sustentabilidade” e destruição de tudo que foi feito até aqui. E a maioria das esquerdas do século 21 se apoderou com unhas e dentes de tal receituário infalível.

Não falo aqui no sentido filistino.

Sentimentalismos e tapeações nús. Sublevações impotentes e ineficazes. Isso nada
mais é que uma contribuição para o melhoramento refinado das contradições de classe,
a teatralização dos conflitos e movimentos sociais, maior largueza dos lucros dos
capitalistas e a exploração requintada da mais-valia dos trabalhadores. E garantem às
gerações futuras, novas e inéditas formas de misérias e higienização social via terabyte.
A adesão a esse formulário representa zona sideral da total abnegação pelo fim da
luta de classe. Está claro que se trata de um sintoma esquizóide maligno. Adotar esses
modelos equivocados, irrealistas, significa elevar a loucura da miséria, da pauperização
das dignidades do povo à "encarnação do realismo". É um nirvana mortalmente
paradoxal.

Só me resta concordar com o colosso Padre Antônio Vieira: “... destas faço aqui praça
e lhas descubro todas, mostrando seus enganos como em espelhos e minhas verdades
como em teatro, para fazer de tudo um mostrador certíssimo das horas, momentos e
pontos em que a gazua destes piratas faz seu ofício. Não ensina ladrões o meu discurso,
ainda que se intitula Arte de Furtar, ensina só a conhecê-los, para os evitar..."

*****

A delinquência chamada pós-modernidade tem tratado e estimulado inúmeras formas
de ativismo insípido e fragmentado com o único e obstinado objetivo de exterminar o
sujeito histórico classe operária. Existe uma onda pecuniária para estandartizar a classe
operária como um peça do Louvre. (Quem quiser saber mais uma dica: Quem pagou
a conta? A CIA na guerra fria da cultura – de Frances Stonor Saunders, editora
Record).

A maioria das esquerdas do século XXI, com a pós-modernidade até a medula, tem
suas leituras do real baseadas na metafísica dos “contra-poderes”. Perdem a noção de
conjunto, partindo do específico para o todo. Vilipendiam o processo histórico e são
antagonicamente diametral às categorias chaves do marxismo: formação social x modo
de produção; forças produtivas x relações de trabalho; base econômica x superestrutura.
As ideias de classes não são mais as ideias das classes dominantes? Defendem um
anacronismo brilhantemente estúpido da aristocracia trabalhadora. Andam sem
dimensionar profundidades e abrem mão do trabalhador puro, ou seja, aquele explorado
pela mais-valia absoluta e relativa e dão margem a “biologização cultural” despertando
os new adeptos do 3° Reich. Como lidar com essa “biologização” do trabalhador? Os
capitalistas não entendem mais que o trabalhador é só um apêndice de uma máquina?

Ou não é preciso mais se preocupar com isso? Estão satisfeitos com os programas
de "responsabilidade social", "reinserção ao mercado de trabalho", “programa de
divisão de lucros” "ética no trabalho” “recuperação de drogados”, “confraternizações
de piso”, “prêmios de produtividade” , elaborados pelos departamentos de Capital
Humano das multinacionais?

E os piquetes?

Nada contra as diversas formas de manifestações universais que serve de mobilização
e somente só. Qual a verdadeira função de uma conferência temática, um FSM, ou
um ocuppy the Wall Street? Quem participa desses movimentos acredita cabalmente
que poderá, só com boa vontade e fé, acabar com a centralização de capital? Superar
a ordem estabelecida ou destruir o que até aqui foi construído? Isso curará doença
sem minar os alicerces do sistema? Ou basta acreditar nas diretrizes para os relatórios
de sustentabilidade da ONU e nos vários projetos sociais executados por milhares de
ONG's que seduzem jovens “voluntários” para salvar o mundo?

Acredito articamente no que 160 anos atrás, dizia Marx: os mortos se apoderam
dos vivos. Vale lembrar o que Ulisses fez para não cair no suave e atraente recital
das sereias: amarrando-se no mastro principal de seu barco e colocando cera nos
ouvidos de seus marujos. Temos que combater fielmente a “negação a estratégicas” e o
endeusamento das flexões táticas, pois essas ultimas se tomaram um deus ex machina.

*****

O dinamismo do desenvolvimento das forças produtivas dentro do capitalismo, superam
as suas próprias contradições. Exemplo: as suntuosas indústrias da reciclagem em varias
matizes.

Por outro lado, a “Las Vegas” de ideias revolucionárias dos “revolucionários”,
embebidos no cálice da pós-modernidade, exorcizam o “demônio” do agronegócio em
detrimento da agricultura familiar. Os partidários do conhecimento pós-moderno sofrem
de uma grande amnésia. Apresentam coisas que em si mesmo, não representam nada.
Colocam uma pá de cal no desenvolvimento histórico e são veementes hostis a realidade
concreta. Quando usam o empirismo abstrato da agricultura familiar, lembro-me de
Spinoza: "a morte era dada por aparências, pelas descrições meramente formais, as
estatísticas alinhadas pelo simples prazer de manipular números, as classificações com
as quais se pretendem aprisionar toda realidade”.

Projetos de ornamentos de garrafa PET e biscuit, tudo em nome da “consciência
ambiental”, fazem parte do novo breviário do desenvolvimento econômico. Será que
no futuro veremos carros feitos de garrafas PET nos morros do Rio de Janeiro, motores
e eletrodomésticos feitos com a reciclagem do CO2, roupas feitas dos bagaços das
laranjas orgânicas, tudo isso sob um ar puro e sereno das árvores que a Gisele Bündchen
planta? Será que temos um futuro brilhante pela frente com as indústrias do politica e
ambientalmente correto?

Lembro-me de Charles Dickens em Oliver Twist

“... senhores do júri, não há dúvida de que a garganta desse homem foi cortada, mas a
culpa não é minha, a culpa é da faca. Devemos nós, por esse inconveniente temporário,
abolir o uso da faca? Se os senhores abolirem a faca, estarão lançando-nos de volta nas
profundezas do barbarismo”.

E se abolimos os agronegócios e voltaremos ao tempo do arado de madeira? Isso
será o futuro? (Recomendo a leitura do texto de José Sidinei Gonçalves in http://
www.iea.sp.gov.br/out/publicacoes/pdf/tec1-0405.pdf  ).

No Brasil, esse mimetismo pós-moderno, confundem os menos atentos marxistas que
vociferam que a panacéia da humanidade é o “desenvolvimento sustentável”. Isso
é o fim em si mesmo. Apenas um automatismo de linguagem revolucionária. Uma
verdadeira orquestração da harmonia do atraso.

Enquanto não pensarmos grande, ficando apenas na pequena produção santificada, ou
seja, na reprodução simples do capital, M-D-M, da idade da pedra, seremos eternos
vassalos. Divagações e adjetivações fundadas no abstrato têm além da conta. "A
produção não se mede, de maneira alguma, pelo comprimento, volume ou peso do
produto, mas pela utilidade que lhe foi dada". (Jean Baptiste Say)

Depois da década de 1950, no Brasil urge a reprodução ampliada de capital. Tudo isso
tem uma única forma: capital financeiro. Isso está disponível desde 1885 no segundo
livro do O Capital. A Lógica é D-M-D. O capital financeiro nacional é a grande força
motriz para quebrar o cinto de castidade do desenvolvimento e a garantia intransigente
da soberania nacional. Mas a ideia de capital financeiro brasileiro está pejorativamente
vinculada ao imperialismo. “Tudo está organizado para que nada aconteça”.

*****

O diletantismo de inclinações revolucionárias e a teoria sem práxis são forma de
“masturbação escolástica”, inférteis e sem consequências. A pós-modernidade
mantém um sublime show de propaganda hiperbólica onde mimeticamente
tudo é universalmente aceito e não precisa comprovação. Vincent Van Gogh
salientava "quando um cego grita pra outro cego, os dois tropeçam na mesma pedra”.

A pós-modernidade com seus maneirismos, suas revoltantes atrocidades, seus yahoos
impotentes, suas falseabilidades institucionalizadas formam uma colcha de retalhos de
ideias reeditadas e judiadas. Por onde passa, deixa esqueletos dentro dos armários.

O novo é aquilo que ainda não foi feito. O desconhecido, o destemido, o medo dos
fracos, a coragem dos bravos. Novas ideias são aquelas que chocam, que interpretam
os esforços do passado sendo o único acesso para os “futuros esforços”. Milton Santos
dizia que “não há esforço crítico sem risco”. Sem medo do pelourinho da historia e do
isolamento político, é preciso buscar a verdade científica, a essência e não o sucesso
efêmero da aparência. Como disse Hegel na Filosofia do Direito “a coruja de Minerva
só abre as asas ao cair da noite”.

*****

Será que as lições históricas nunca serviram para clarificação da verdade ou iremos
viver eternamente em "teatro de verdades"?

Roberto César Cunha é geógrafo
 
 

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

André Macedo - Economia para tótós

Diário de Notícias
ANDRÉ MACEDO

Economia para totós

por ANDRÉ MACEDOOntem69 comentários

 
Vou escrever sobre a última do Camilo Lourenço. Digo a última porque parece que ele faz de propósito. Reconheço que, dentro do estilo, ele até é relativamente moderado, embora seja a favor da über austeridade e eu não consiga perceber porquê. Desta vez, o Camilo decidiu afirmar que é um disparate tirar uma licenciatura em humanidades porque não há mercado. A escolha de uma profissão deve ser feita, diz ele, tendo como norte as leis da oferta e da procura. Optar por uma profissão é, digamos assim, um processo linear e previsível. Tiras o curso de História, vais para o desemprego. Tiras o curso de Gestão, acabas na Goldman, vais de férias para o Taiti e regalas-te numa piscina a transbordar de garotas.
Isso das garotas interessa-me, é um belo incentivo, mas não julgo ser preciso citar as estatísticas que demonstram ser elevadíssimo o desemprego entre todos os jovens, licenciados ou não, embora haja áreas em que é certamente mais elevada. Mas o Camilo não se limita a dizer que há profissões em que há mais desemprego. Isso é evidente. O que ele sugere é mais abrasivo: que os mais novos devem fazer as escolhas tendo em conta não a vocação e o talento individual, mas o mercado. Faltam médicos? Vou para cirurgião, apesar de odiar sangue. Os portugueses têm uma higiene oral horrível? As cáries são uma excelente oportunidade de negócio.
De acordo com este método, as grandes escolhas de vida são coisas rasteiras. Ser ou não ser é um sentimentalismo literário que já não vende. No essencial, a vida é uma espécie de economia para totós. Quer escolher uma carreira? Abra o Expresso Emprego e veja o que está a dar. Nada de dramas, impulsos, romantismos: siga a manada. Na escola, a mesma coisa. As disciplinas dividem-se entre as úteis e as inúteis. No primeiro grupo, a Matemática, as Ciências, o Chinês e, claro, o Alemão. No segundo, a Literatura, a Música, as Artes.
O problema com este raciocínio é que não é raciocínio: é preconceito. Os nossos sistemas educativos - defende a Harvard Business Review - centram-se em ensinar os alunos de ciências e de gestão a controlar, prever, verificar, garantir e testar dados. Não ensinam como navegar nas questões "e se..." ou em futuros desconhecidos. "Se quer um pensamento original" - acrescenta a HBR -, "precisa de libertar a criatividade das pessoas. Os humanistas são treinados para serem criativos. Steve Jobs reconheceu como estudar caligrafia o levou a criar o Mac."
Não são estas também as ferramentas que se exigem num mundo cada vez mais complexo e dinâmico? Eu diria que sim. Diria que, em vez de apostar no Excel para moldar o futuro - e falhar -, talvez faça sentido cultivar uma maior variedade de talentos. Só assim um dia podemos fazer alguma coisa de original em vez de passar o tempo a olhar para o retrovisor à procura do que era para ser e, afinal, nunca será.
P. S. Já agora: há banqueiros da Goldman licenciados em História...

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3078994&seccao=Andr%E9&page=-1

domingo, fevereiro 24, 2013

Ricardo Paes Mamede - a ‘produtividade do trabalho’ não é determinada pelo esforço dos trabalhadores

Ladrões de Bicicletas

 

Domingo, 24 de Fevereiro de 2013


Pela n-ésima vez: a ‘produtividade do trabalho’ não é determinada pelo esforço dos trabalhadores

Volta não volta temos de voltar a isto. Um comentador económico aparece na televisão, põe um ar sério e ufano, e diz: “o problema da economia portuguesa é a baixa produtividade do trabalho”. E logo a seguir qualquer coisa do tipo “em Portugal trabalha-se pouco e mal” ou “os trabalhadores portugueses são preguiçosos” ou “é preciso liberalizar o mercado de trabalho para fazer as pessoas trabalhar mais”.

Este tipo raciocínio é tão absurdo que às vezes apetece-me responder ao mesmo nível, com algo do género:

QUEM DIZ QUE A BAIXA PRODUTIVIDADE DO TRABALHO EM PORTUGAL SE DEVE À FALTA DE ESFORÇO DOS TRABALHADORES É IDIOTA OU DESONESTO – OU AMBOS. 

Mas já percebi que esta é uma ideia feita que passa tão bem ou melhor que outros mitos do senso comum, pelo que vale a pena tentar, uma vez mais, desconstruir isto.

A produtividade é um conceito que remete para a relação entre factores produtivos e valor acrescentado pela produção. Ou seja, uma economia (ou um sector, uma empresa, etc.) é mais produtiva do que outra se consegue gerar mais valor acrescentado com os mesmos recursos, ou o mesmo valor acrescentado com menos recursos, ou uma mistura das duas. A produtividade, enquanto conceito, é importante porque existe uma forte associação entre o crescimento da produtividade e o crescimento económico – e, diria eu contra algumas sensibilidades, o aumento do bem-estar geral.

Se o conceito de produtividade é relativamente fácil de entender, é muitíssimo mais difícil de medir. O problema é que os factores produtivos são muitos e diversificados, e colocá-los sob a mesma unidade de medida é semelhante a querer comparar laranjas com maçãs.

Os factores de produção clássicos são a terra, o trabalho e o capital. Mas a terra não tem toda a mesma qualidade, existem infinitas formas de capital, e os tipos de trabalho utilizados na produção dos bens e serviços das sociedades modernas são tudo menos homogéneos – e, logo, dificilmente comparáveis. Para além disto poderíamos (e deveríamos) acrescentar factores de produção imateriais como o conhecimento científico e tecnológico, as formas de organização, etc. Medir isto tudo e colocar sob a mesma unidade de medida, para perceber se uma economia está a gerar mais ou menos valor com recursos produtivos equivalentes, é um bico-de-obra.

Esta é uma das razões pelas quais frequentemente se simplifica a análise usando um indicador que está facilmente disponível – um indicador que dá pelo maldito nome de “produtividade do trabalho”.

Em geral, quando os economistas falam em “produtividade do trabalho” referem-se a um rácio entre o valor acrescentado gerado numa economia e o número de trabalhadores (ou de horas trabalhadas) associados a essa produção num dado ano. Ou seja:

“Produtividade do trabalho”= “Valor acrescentado”/ “Nº de trabalhadores” 

É só isto. Não há aqui nada a dizer se esta economia é muito ou pouco intensiva em capital (máquinas, equipamentos, redes de transportes e comunicações, etc.), nem a qualidade desse capital (já desgastado ou ainda novo, com grande incorporação de tecnologia avançada ou rudimentar), etc. Também não sabemos se esta economia recorre mais a trabalho altamente qualificado ou a mão-de-obra barata e desqualificada. Não sabemos se as empresas são bem ou mal geridas, como se posicionam nas cadeias de valor internacional, se assentam a sua competitividade nos baixos preços ou em factores avançados como o design de produto, a engenharia de produção ou a investigação e desenvolvimento.

O facto de o rácio acima apresentado ser mais elevado nuns países do que noutros é explicado por todos estes factores. Um país bem pode ter o povo mais esforçado do mundo que se não tiver máquinas e equipamentos modernos, boas infraestruturas e de transportes e comunicações, competências e conhecimentos avançados ou estratégias empresariais adequadas a cada contexto, terá sempre uma “produtividade do trabalho” modesta.

Por outras palavras, dizer que o nosso problema é a “baixa produtividade do trabalho” é o mesmo que dizer que chegámos ao que chegámos por culpa dos gambuzinos. Na verdade, é mais correcto atribuir a baixa produtividade da economia portuguesa aos gambuzinos do que dizer, com ar sério e ufano, que a culpa é da preguiça endémica que assola o nosso país.

Este post, escrito há mais de 5 anos, tentava avançar um pouco na discussão. Mas está visto que, volta não volta, temos de voltar ao tema.

7 comentários:

Anónimo disse...
Este post deveria ser repetido até à exaustão ! Devia ser viral (como está na moda dizer...). Porque o que de facto existe é uma ignorancia de alto a baixo nas hierarquias do Estado, dos governos e dos comentadores/jornalistas e empresas , sobre o assunto.
Apontam o factor trabalho como a única causa de todos os males e isso é mais uma criatividade lusa, olá se é!
D., Hdisse...
Ignorando as relações de trabalho e todas as forças de produção (que não só os trabalhadores, obviamente), o “ónus” da produtividade acaba sempre por recair sobre a única variável “disponível”: os trabalhadores (esses preguiçosos!)
Esses avençados (comentadores económicos da TV) não são burros, fazem-se…
Lídia C. disse...
Ricardo:
Para mim o mais importante é o numerador do rácio e a determinante, não só do VA, mas de todo o output e que é o PREÇO. A análise desta variável conduz-nos ao poder, à força que domina a «seleção natural» que já passou ao discurso despudorado. O mais forte impõe o preço. Os avençados chamam-lhe mercado. E continuam a medinacarreirar-nos os ouvidos.
Lídia (Vila Real)
Anónimo disse...
A baixa produtividade em Portugal não se deve ao factor trabalho , mas a outros factores
O Raio disse...
Concordo com o comentário do anónimo, este post devia ser repetido até à exaustão.

Sobre a produtividade há ainda um factor que parece que não foi referido.

Empresas como a PT, Autoeuropa, Cimpor (antes do descalabro provocado pelos novos patrões brasileiros), etc. têm uma produtividade elevada, mais elevada, por exemplo que a do sapateiro aqui ao pé de casa (patrão e um "colaborador").

E isto é importante, Portugal tem micro empresas a mais, parece que cerca de 250.000! E estas micro empresas têm sempre uma produtividade baixa.

O que Portugal precisa não é de um programa de empreendorismo para cada um criar o seu posto de trabalho mas antes um programa de engorda de empresas pois o mix de micro, pequenas, médias e grandes empresas encontra-se demasiado inclinado para as micro empresas. A Alemanha tem uma produtividade maior do que Portugal, a Alemanha ou o Japão mas estes países têm uma percentagem menor de micro empresas e uma percentagem maior de empresas médias.

Se 1% das micro empresas (2.500) passassem a empresas médias com uns 300 trabalhadores em vez dos um ou dois das micro empresas, criavam-se 750.000 postos de trabalho, isto é, o desemprego passava a ser um mínimo técnico e tínhamos de voltar a receber imigrantes, o PIB dava um salto e a produtividade aumentava.

E o que faz o governo? Faz propaganda para convencer que qualquer jovem que não crie uma micro empresa, isto é, não crie o seu posto de trabalho é atrasado mental ou cobarde e, ao mesmo tempo, em vez de ajudar as micro empresas a crescer, afoga-as em impostos e até as obriga, muitas vezes, a endividar para pagar adiantadamente o IVA.

Porque é que o governo não dá um "prémio" fiscal quando uma empresa cresce? Isto é, empresa que aumente as vendas, contrate mais trabalhadores e melhore a sua produtividade, em vez do castigo de pagar mais impostos, não teria antes direito a um desconto nesses mesmos impostos?
Anónimo disse...
Em Portugal Temos um sector primário e secundário muito débeis e um sector terciário de serviços tradicionais o que torna este país numa sociedade bloqueada
F. G. disse...
O país chegou á falência em 2011, por vários motivos dos quais saliento: foram feitas obras que não necessitavam ser feitas, tais como estádios de futebol (Leiria, Aveiro e outros), parques de estacionamento (Armação de Pera e outros...), agora fechados, autoestradas (onde agora não passam carros)por isso não fazem falta, porquê??? porque muita gente meteu dinheiro no bolso indevidamente, politicos, presidentes de camaras, advogados, imobiliários, .... para comprar montes no Alenteja e outros. Agoram digam que é da produtividade e dos gastos do Zé povinho. F.

domingo, fevereiro 10, 2013

Raquel Varela - Não emigrem

Não Emigrem!

Merkel acredita em mercado de trabalho europeu único
Um jornalista holandês perguntou-me, em tom de desafio, se fosse holandesa, se também defenderia a suspensão da dívida no sul. Claro, respondi-lhe, se a pagarmos é porque o valor da força de trabalho desceu tanto no sul que acabarão por emigrar para o norte e 1) ou tirar-vos os postos de trabalho ou 2)ser uma pressão objectiva para vos obrigar a aceitar salários mais baixos para não perderem para nós os postos de trabalho.
 
A  crise da dívida, se não tiver uma resposta de confronto social, vai precarizar os trabalhadores do sul, que agora não são beirões ou alentejanos com a 2ª classe mas mão de obra altamente formada e produtiva, que vão ser a pressão sobre os do norte para aceitarem salários baixos. Disse-lhe que isso chama-se «a criação de um mercado de trabalho na Europa». Da mesma forma que se usaram os desempregados e os precários para descer os salários dos trabalhadores com contratos e reformados vai-se usar o contingente de precários do sul para fazer descer os salários dos do norte. Merkel disse-o hoje com todas as letras.
 
Fica o incentivo de Merkel e o meu modesto aviso. Programas como os «portugueses lá fora» foram cuidadosamente seleccionados para incentivar a emigração. Estive na minha vida em algumas dezenas de conferências de trabalho migrante, em países ricos e pobres, com ou sem escolaridade, e é um calvário. Um penoso caminho que enfrenta baixos salários, descriminação, competição, xenofobia e, claro, saudades, muitas saudades. Comum nos estudos da emigração é que quase «todos querem voltar». O emigrante, médio, formado ou não, não tem nem boas condições de vida nem é feliz, porque partiu expulso do seu país. Quem emigra para ganhar 4 vezes mais vai gastar 4 vezes mais e o seu salário não será o do português feliz no estrangeiro a enviar divisas mas, na minha opinião, um salário de subsistência. Em Londres não vão jantar fora peixe grelhado, nem em Berlim vão à praia (lago) dar um mergulho porque salário não é aquilo que se recebe ao fim do mês mas o que se consegue fazer com o que se recebe no fim do mês, isto é, salário social, salário família (apoios da família não só em dinheiro mas em espécie,  ajuda a cuidar de filhos e netos, etc), salário real (poder comprar peixe ou legumes), ter dinheiro para se deslocar na cidade, no país, ter uma imensa rede de solidariedade social e familiar, tudo isso é salário. Ver o sol e o Tejo, o Douro, o oceano, sorrir ao lado dos amigos, ver crescer os irmãos, isso também é salário.
 
Emigrar não é uma saída, a saída é perceber que não há saída enquanto o governo for assente na política de acumulação por elevação das dívidas públicas, destruição do Estado social e construção do salário nacional de subsistência, o tal com que Merkel sonha para partir a espinha aos seus sindicatos
.
images

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Crise: ONU alerta para grave recessão e aumento do desemprego



Página Inicial

17 DE JANEIRO DE 2013 - 8H04 

Crise: ONU alerta para grave recessão e aumento do desemprego


Em alerta divulgado nesta quarta-feira (16), a Organização das Nações Unidas (ONU) externou sua preocupação com o “grave risco de nova recessão”. De acordo com a ONU devem ser adotadas medidas de combate ao aumento do desemprego no mundo.



Baseada eminformações da pesquisa denominado 'Situação e Perspetivas da Economia Mundial 2013', o Órgão externou que as perspectivas são influenciadas pelos impactos da crise econômica internacional em vários países.

Em pronunciiamento à imprensa internacional, o diretor do estudo, Rob Vos, disse que o aprofundamento da crise na zona do euro -  que é composta por 17 países -, a ampliação do abismo do Orçamento nos Estados Unidos e um recuo da economia chinesa poderão causar nova recessão global. Segundo ele,  "cada um desses riscos poderá resultar em perdas produtivas globais entre 1% e 3 %".

A ONU estima um crescimento na zona do euro de 0,3 % em 2013 e de 1,4 % em 2014; nos Estados Unidos, de 1,7 % em 2013 e de 2,7 % em 2014; no Japão, de 0,6 % este ano e de 0,8 % no próximo; e na China, de 7,9 % em 2013 e de 8 % em 2014.

Medidas de austeridade

A ONU ainda criticou as políticas econômicas baseadas em medidas de austeridade fiscal. Para o Órgão tais medidas não são suficientes para recuperar a economia e conter a crise do emprego. “Apesar de os esforços terem sido significativos, especialmente na zona do euro, a combinação de austeridade no Orçamento e de políticas monetárias expansivas teve um êxito desigual”, destacou Vos.

De acordo com o estudo, a estratégia deve ser alterada na tentativa de adotar ações coordenadas com políticas de criação de emprego e de crescimento sustentável. “A economia mundial enfraqueceu consideravelmente em 2012. [A perspectiva é que se mantenha] deprimida nos próximos dois anos”, com a previsão de crescimento de 2,4 % para 2013 e de 3,2 % para 2014”, diz o relatório.

Com informações da Agência Brasil


Alemanha: queda na economia é novo golpe para eurozona


Página Inicial
17 DE JANEIRO DE 2013 - 15H22 
Zona do euro
  

Alemanha: queda na economia é novo golpe para eurozona


A contração econômica da Alemanha no último trimestre de 2012 e a redução oficial das projeções de crescimento para este ano são um novo golpe para a zona do euro. Segundo o Escritório Federal de Estatísticas da Alemanha a contração foi de 0,5%. Segundo o Banco Central alemão, a economia crescerá 0,4% este ano, muito menos do que o 1,6% previstos. A crise dos países do sul da zona do euro está alcançando a Alemanha. 

Por Marcelo Justo, de Londres


Na primeira metade do ano passado o crescimento alemão evitou uma recessão do conjunto da eurozona. É óbvio que as coisas estão mudando. A crise dos países do sul da zona do euro está alcançando a Alemanha e apagando a ilusão de um desacoplamento graças à mítica eficiência produtiva germânica. Em 2009, a Alemanha sofreu uma contração de 5% como consequência da crise mundial, mas em 2010 e 2011 teve uma rápida recuperação com um crescimento de 4,2% e 3% respectivamente. A queda foi abrupta na segunda metade do ano passado e deixou o Produto Interno Bruto (PIB) alemão com um anêmico aumento de 0,7%. Em declarações ao Financial Timesnesta quarta-feira (16) o presidente do governo da Espanha, mariano Rajoy, que aceitou o plano de ajuste em seu país, pediu às nações credoras da eurozona que ponham em marcha políticas de estímulo ao crescimento. “Este é o momento de colocar em marcha essas políticas. Está claro que não se pode pedir a Espanha que adote políticas de expansão, mas sim aos países da zona do euro que estão em condições de fazê-lo”, afirmou.

Um dado deveria favorecer esta mudança. Segundo o mesmo Escritório de Estatísticas, a Alemanha obteve um superávit fiscal de 0,1%, o primeiro desde 2007. Mas o ministro de Finanças alemão, Wolfgang Schauble reafirmou, na terça-feira (15), a posição de austeridade de seu governo.

As duas eurozonas

Desde o estouro da crise da dívida na Grécia em 2010, a zona do euro vem apresentando uma história de realidades paralelas. Enquanto os PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) afundavam na recessão, a Alemanha, segundo exportador mundial depois da China, crescia graças a suas vendas ao exterior. Segundo Marie Dirone, economista sênior da consultora internacional Ernest and Young, os novos dados provam que a Alemanha não pode se desvencilhar do destino de seus vizinhos. “Durante um certo tempo causou assombro a capacidade alemã para resistir à debilidade do sul da Europa com a diversificação de suas exportações para a China e outros mercados emergentes. Está claro que isso tem limites. A Alemanha está sentindo a queda da demanda nos outros países da zona do euro”, disse.

Não chega a surpreender. A metade das exportações alemãs tem como destino os países da zona do euro. O dado se reflete nas estatísticas oficiais. O setor exportador, que representa mais da terça parte do PIB alemão, sofreu uma queda abrupta no último trimestre do ano passado. Esta queda arrastou a zona do euro que terminou 2012 em recessão (dois trimestres consecutivos de contração).

Os novos dados oficiais mostram também que o euro segue sofrendo do desequilíbrio estrutural entre economias muito distintas, o que vem colocando em perigo o projeto da moeda única europeia. Entre Alemanha ou França e Grécia ou Portugal sempre houve um abismo de produtividade e competitividade. Estas diferenças não eram incorrigíveis. No coração do projeto pan-europeu estava a ideia de homogeneizar economias diversas por meio do investimento público nas zonas mais atrasadas.

Mas o euro nasceu em meio à grande festa financeira. Graças à moeda única, os países da periferia, os PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), tiveram uma taxa de juro muito baixa que financiou bônus de investimento e consumo pagos com um crescente endividamento. O resultado foi que os países do norte europeu exportaram e os do sul consumiram com base em um déficit de conta corrente. O ajuste decidido pelo governo alemão socialdemocrata de Gerhard Schroeder em 2003 aprofundou o desequilíbrio: os salários alemães tiveram uma estagnação relativa aos do Sul que encareceu os produtos que vinham dos PIGS.

O ajuste unidimensional

Segundo uma escola de pensamento, sendo a zona do euro uma unidade, o desequilíbrio não deveria importar tanto: a queda de uma região seria compensada pelo crescimento de outra. Mas o especialista alemão da London School of Economic, Henning Meyer, opina que a unidade da zona do euro é uma ficção sem mecanismos concretos que compensem os desequilíbrios. “A zona do euro não tem transferências fiscais que compensem a queda de uma região. E a política que está sendo impulsionada no conjunto da região é exatamente a contrária a um mecanismo desta natureza. Há um ajuste assimétrico pelo qual os países que têm déficit estão adotando políticas recessivas enquanto que os países que apresentam superávit não estão adotando políticas expansivas”, disse Meyer.

A chanceler alemã Angela Merkel é a grande papisa da austeridade na zona do euro em meio a uma contração que começa a afetar os interesses do poderoso setor exportador alemão. Estes programas de ajuste, que o jornal espanhol El País batizou como “austericídio”, são uma corda no pescoço que o governo alemão segue apertando. É preciso reconhecer que o fundamentalismo alemão é coerente. Há duas semanas, o ministro de Finanças, Wolfgang Schauble assinalou que a própria Alemanha necessita de um ajuste fiscal.

Isso dependerá muito do que ocorrer com sua economia. O fantasma que começa a rondar entre os analistas é a possibilidade de uma recessão alemã. A este fantasma econômica se somam as eleições de setembro, nas quais a chanceler Merkel tem que renovar seu mandato. “A Alemanha tem vivido em um mundo paralelo no qual a crise da zona do euro era uma coisa que se via pela televisão. Se a economia alemã se deteriorar, isso pode ter um forte impacto no resultado das eleições, na política adotada e no conjunto da eurozona”, disse Meyer.

Fonte: Carta Maior

quarta-feira, janeiro 16, 2013

Banco Mundial reduz estimativa para PIB global


Página Inicial

16 DE JANEIRO DE 2013 - 9H10 

Banco Mundial reduz estimativa para PIB global


As batalhas orçamentárias nos Estados Unidos estão restringindo o crescimento ao redor do mundo e significam um risco maior para a economia mundial do que um agravamento da crise na zona do euro, disse nesta terça-feira (15) o Banco Mundial. 


Em novas previsões econômicas, o banco informou que espera que a economia mundial cresça 2,4% neste ano, pouco acima do ritmo de 2012. A nova previsão para 2013 é inferior ao crescimento de 3% projetado pela instituição em junho.

Os EUA podem entrar em recessão se houver cortes orçamentários, como previsto, a partir do início de março. A desaceleração na zona do euro (contração de 0,1% prevista para 2013), por sua vez, deve prosseguir ao longo deste ano. E os países em desenvolvimento, avalia o Banco Mundial, estão crescendo a algumas das menores taxas da última década. A economia chinesa deve crescer 8,4% em 2013. "É um ano arriscado", disse o economista-chefe do Banco Mundial, Kaushik Basu.

Uma divisão persiste na maioria dos países: a confiança dos investidores está se recuperando, impulsionada pelos poderosos estímulos monetários e pela diminuição dos temores relacionados à possibilidade de deterioração da situação na zona do euro; ainda assim, os fundamentos econômicos permanecem letárgicos. "Os mercados financeiros estão mais calmos, mas não há uma recuperação do crescimento", disse Baidu. "É possível manter os mercados calmos por um ou dois anos. Mas, se não houver crescimento real, poderemos ter uma nova rodada de riscos financeiros chegando."

O banco prevê uma expansão de 1,9% para a economia americana em 2013. Em um cenário alternativo, porém, considera a possibilidade de "paralisia fiscal", caso o país implemente amplos cortes de gastos a partir de março e o Congresso autorize apenas um aumento do teto do endividamento para o curto prazo. Neste cenário, a economia americana poderia encolher 0,4%, desencadeando uma retração mais pronunciada para a Europa neste ano e reduzindo a perspectiva de crescimento global em 1,4 ponto percentual. Em outro cenário, de agravamento da crise do euro, o crescimento mundial seria afetado em 1,3 ponto percentual.

Fonte: Valor Econômico

terça-feira, janeiro 01, 2013

Carlos Carvalhas - A luta ideológica em torno da crise


Nº 315 - Nov/Dez 2011 • Economia

A luta ideológica em torno da crise

A crise do sistema capitalista que estamos a viver e que continua em desenvolvimento tem dado lugar a uma intensa propaganda e criatividade de linguagem para desviar o pensamento das massas das verdadeiras causas da crise e fazê-las aceitar as falsas respostas.

A tese de que a crise teve origem na cupidez, na ganância, na ambição desmedida de alguns, e que hoje, sobretudo na Europa, ela é a consequência da dívida pública, continua a fazer o seu caminho.

É certo que houve especulação e complacência dos Bancos Centrais, que a crise rebentou em Agosto de 2007 e que começou no sector da habitação, que tomou proporções inesperadas para muitos e que a «inovação financeira» aumentou do «ponto de vista agregado o risco na economia, colocando o sistema à beira do colapso». Mas a crise não resultou da ganância de alguns, nem da falta de regulação do sistema bancário, nem do «crescimento excessivo do endividamento», que alguns consideram o exemplo mais recente e um dos mais notáveis do capitalismo na «dinâmica de expansão e contracção das economias. (1) Tudo isto se verificou. Mas são apenas as aparências casuais, os epifenómenos. Também não estamos perante «uma crise excepcional» (2), mas sim perante uma crise cíclica do capitalismo com características novas e específicas, agravada por novas situações – liberdade de circulação de capitais, deslocalizações, crescente peso das actividades financeiras e do «capital fictício», parasitário, especulativo, num quadro de domínio da ideologia neoliberal.

Crise de sobreprodução, crise de excesso de capital, cuja síntese passa pela destruição desse excesso em relação à taxa de lucro esperada. Uma crise de sobreprodução com extensão praticamente planetária «tendencialmente mundial», «sistémica», em relação ao subconsumo das massas (procura solvente).

Perante a concentração da riqueza e a perda do poder de compra dos trabalhadores, a tentativa de saída para a produção em relação à procura solvável das massas, foi o recurso ao crédito fácil e às exportações. Isto é, procurar saídas nos mercados dos outros e numa procura a crédito.

Para salvar os banqueiros e os accionistas, os Estados foram em socorro da banca com dinheiros públicos, nacionalizaram os prejuízos, criaram os «bad banks», para depois privatizar os lucros e endossar a factura aos contribuintes através dos impostos e do corte de despesa nas funções sociais do Estado. (3)

Depois da falência do Lemon Brothers até inventaram o «Big to Fail», isto é serem muito grandes para falirem, deixando cair milhares de pequenas e médias empresas e bancos, nomeadamente nos EUA.

Com uma campanha avassaladora fizeram esquecer a dívida privada, a dívida da banca ao exterior, que em muitos países é superior à dívida pública, como é o caso de Portugal, e conseguiram esconder que uma boa parte do crescimento da dívida pública se deveu à crise – injecção de dinheiro público na banca, nos subsídios de desemprego e prestações sociais, injecção de dinheiros públicos para tentar estimular a economia.

Conseguiram também fazer esquecer a responsabilidade da banca nesta crise e o facto de que o posterior aumento de impostos e o corte nas despesas sociais foram a outra face dos milhões que foram canalizados para o sistema financeiro.
Ao longo destes anos temos estado a resolver os problemas da dívida privada à custa da dívida pública.
Para justificar a drenagem de recursos para a banca através do corte na despesa orçamental, inventaram com criatividade a expressão corte «nas gorduras do Estado». Não há «papagaio» que não fale nas gorduras do Estado. É a linguagem do Spa, muito na moda e que aproveita a corrente das campanhas contra a obesidade.

Mas no essencial as medidas não vão no sentido da racionalização, nem da eliminação de gastos supérfluos, mas sim do desmantelamento do «Estado social». São cortes fundamentais na saúde, no ensino e na segurança social.

Por exemplo, em Portugal o Governo não corta nos subsídios à banca na ordem de milhões e esta despesa, verdadeira gordura do Estado, para utilizar a expressão destes, vai engordar os já anafados e obesos banqueiros e accionistas.

Mas não é só ao nível da linguagem e das expressões criativas. É também ao nível das Universidades e do ensino da teoria económica. Muitas destas universidades privadas, institutos e fundações, pertença directa ou indirecta de grandes grupos económicos (mas também as há públicas), o que ensinam é uma retórica e vulgata neoliberal, bem elaborada, a que não faltam expressões matemáticas para lhe dar um certo ar de cientificidade ao serviço das classes dominantes. Charlatanismo económico com os seus respectivos «catedráticos», os seus «académicos», que procuram com argumentos de autoridade e a conivência dos media, impor as suas ideias. As ideias dominantes são as da classe dominante e a ideologia económica dominante é a do neoliberalismo, vulgarizada por economistas e analistas nas universidades e grandes meios de comunicação, umas vezes por ignorância, por mimetismo, por interesse de classe e outras por interesse material (o filme «inside jobs» é muito esclarecedor destes casos). E, para além da linguagem, das expressões criativas e da produção ideológica nas universidades, temos também a simbiose entre o poder político e o poder económico, mesmo à «esquerda». Lembrar que Tony Blair deixou o governo e foi trabalhar para a J. P. Morgan, que Peter Mendelson está no Lazard, Roman Prodi na Goldeman Sachs, Gerard Shroeder no opaco conglemercardo financeiro, energético, da Gazpron.

Nos meios académicos, como testemunhava entre nós ainda recentemente um docente universitário (4), (…) «Os alunos aprendem logo no primeiro ano que a instituição de um salário mínimo cria desemprego. Mais tarde, ao nível pós-graduado, será confidenciado aos poucos que lá chegarem que, à luz da evidência disponível, essa proposição é tudo menos certa. Nessa fase do processo de doutrinação, porém, eles já estarão pouco disponíveis para questionar os dogmas da profissão. Quanto aos que não atingiram esse patamar, virão cá para fora de boa-fé papaguear a pseudo-ciência que lhes foi ministrada.
Os Nóbeis atribuídos nos últimos anos comprovam que os economistas investigam assuntos de grande relevância para o entendimento do funcionamento dos mercados, como sejam a psicologia dos consumidores, a informação assimétrica, as falhas de coordenação, os obstáculos à cooperação dentro das empresas ou as condições que favorecem o alargamento das desigualdades.

Todavia, a síntese dessa investigação que é servida aos estudantes e à opinião pública ignora sistematicamente as limitações da racionalidade humana e as falhas dos sistemas económicos que delas decorrem, em favor de uma visão cor-de-rosa do funcionamento dos mercados desregulados. Assim, embora o estudo do comportamento dos agentes económicos demonstre que os pressupostos da microeconomia estão errados, ela continua a ser ensinada como se nada fosse.» (...)

E todos estes sábios repetem mil vezes que «não há alternativa!» O conhecido acrónimo thatcheriano «Tina», «there is no alternative», é a resposta do pensamento único e dos que são responsáveis pela situação em que nos encontramos. Não há alternativa ao capitalismo, não há alternativa ao neoliberalismo, não há alternativa ao cumprimento do acordo com a troika...

Como já alguém disse, estes propagandistas da submissão e do conformismo também não descuram o marketing e a propaganda.

O salário é sempre na boca destes um «custo do trabalho», a diminuição dos salários é embrulhada na expressão «aumento de flexibilidade sobre o mercado do trabalho» ou «moderação salarial» e o desmantelamento do Estado Social naquilo que designam por «reformas estruturais». As quotizações sociais são sempre «encargos sociais», os patrões são «empregadores», a exploração desapareceu do léxico e os trabalhadores passaram definitivamente a «colaboradores», etc., etc.

A crise do sistema monetário internacional
O curso do dólar e o euro tem sido errático ao longo destes tempos. A chamada «guerra cambial» ou «guerra das moedas» tem-se traduzido nas disputas entre países na procura de ganhos de competitividade – desvalorizações para aumentar as exportações, movimentos especulativos sobre tal ou tal divisa (o yen japonês, o franco suíço...) e a luta pela manutenção dos privilégios do dólar, moeda de reserva mundial e intermediária internacional de troca, designadamente na compra de matérias-primas – petróleo, gás – contra o euro que se quer afirmar como moeda de reserva mundial.

O dólar tem visto o seu estatuto de moeda de reserva ser posto em causa devido à dívida externa dos EUA, à emissão de dólares sem correspondência à produção de bens e serviços para a resolução dos problemas do sobre-endividamento. Por isso, os EUA, acompanhado a maior parte das vezes pela Inglaterra, tem procurado ampliar e tirar partido dos problemas da zona euro, designadamente os ligados à dívida externa dos países periféricos, para descredibilizar o euro.

As reservas de divisas mundiais representam actualmente o equivalente a 9694 milhares de milhão de dólares (FMI, 31.03.2011), sendo 61% titulados em dólares US e 27% em euros. As duas moedas representam cerca de 90% das reservas de troca mundiais. A libra e o yen são respectivamente a terceira e quarta moeda mais importantes. Há dez anos a parte correspondente ao dólar era 10% superior à actual e a do euro era menor. O euro tem vindo a afirmar-se como moeda de reserva e investidores asiáticos, tal como russos, brasileiros e outros, têm procurado ficar menos dependentes do dólar. Para se ter uma ideia dos ganhos e perdas que se podem ter com a flutuação cambial das moedas e os movimentos especulativos, basta ver que o montante médio diário das transacções em 2010 foi de 4000 milhares de milhão de dólares. Estes fluxos monetários continuam a ser dominados pelo dólar. O euro subiu ligeiramente, passou de 18,5% para 19,5%. Mas a disputa continua, num quadro de grande instabilidade financeira, económica e social.

O Banco Asiático para o Desenvolvimento há muito que pressiona os seus membros para a criação de uma moeda comum, mas poucos passos foram dados. A Rússia, a Venezuela e o Brasil têm vindo a aumentar as suas trocas nas moedas nacionais e a pressão para a reformulação do sistema monetário internacional, da parte destes países e da China, tem aumentado. A evolução para uma moeda tendo por referência um cabaz de moedas fortes com uma parte em ouro, ou para a utilização dos direitos de saque especiais do FMI com base num mesmo cabaz, são propostas que surgem com peso, periodicamente. Mas que esbarram com a oposição directa ou indirecta dos EUA e da Inglaterra, que utilizam toda a sua força e pressão – designadamente militar – junto dos países produtores de petróleo, para que a sua cotação e transacção se faça em dólares, mantendo o status quo do sistema monetário internacional.

O euro tem flutuado entre 1,39 e 1,45, em relação ao dólar, embora o dólar tenha manifestado uma tendência para a baixa a longo prazo. A China e o Brasil, a Suíça e o Japão vão lutando contra as pressões e movimentos especulativos no sentido da apreciação das suas moedas.

Nos EUA, o recente aumento do tecto da dívida decidida pelo Congresso não suscitou nenhuma reacção por parte da China. Mas este país não tem estado a comprar Títulos de Tesouro americanos desde Outubro do ano passado e terá mesmo reduzido o seu montante em cerca de 15 milhares de milhão. O Ministro das Finanças americano estima que a China detém 1160 milhares de milhão de dólares de Títulos do Tesouro dos EUA. A China e o Japão são os maiores detentores da dívida americana.

A confrontação entre o dólar pela manutenção dos privilégios e o euro e outras divisas que procuram conquistar posições como moedas de reserva e de troca internacionais é uma luta estratégica que explica muito dos comportamentos dos EUA e da Wall Street, bem como da Inglaterra e da City e do Banco Central Europeu.~

A construção de um euro forte à imagem do marco de modo a credibilizar a moeda internacionalmente como moeda de reserva é a principal linha orientadora da política monetária e cambial do BCE e não a coesão económica e o desenvolvimento da zona euro como um todo, o que implicaria um euro muito menos valorizado. Esta política tem dificultado as exportações e agravado a situação dos países com economias mais débeis.(5)

Por sua vez, na União Europeia muitos dos países com dívidas públicas e privadas e dívidas externas extremamente elevadas jamais terão possibilidade de as resgatar. A solução, mais cedo ou mais tarde, terá de passar pelo corte da dívida (hair cut). Reestruturação das dívidas de forma mais ou menos planeada. A recusa e o protelamento da resolução das dívidas destes países põem em causa toda a estratégia de credibilização do euro. É uma contradição insanável. E tudo isto se irá complicar quando a Grécia declarar o incumprimento, ou tiver de pedir novos empréstimos (está-se só a ganhar tempo, já se fala num corte da dívida grega de 50%) e quando a crise chegar com mais acuidade à Espanha e à Itália, pois estes dois países, como já alguém disse, são muito grandes para falirem e são também muito grandes para serem salvos «too big to fail» e «too big to save»!

Os cortes das dívidas públicas a «mata-cavalos», em períodos tão curtos, afundam os países no marasmo e na recessão, acentuando a sua insolvabilidade. E as privatizações de empresas altamente rentáveis alivia, ganha tempo, mas é a condenação a maior dependência e a maior drenagem de recursos (dividendos, lucros) para o exterior.

Os recentes ataques de Fundos Americanos a bancos europeus, nomeadamente franceses, deixando-os desprovidos de dólares, o que fez baixar a sua cotação e notação, bem assim como a posterior intervenção coordenada dos Bancos Centrais, inserem-se na estratégia anglo-saxónica de enfraquecer o euro e o sistema bancário europeu e de mostrar ao mundo a importância do dólar. Os bancos europeus tinham euros mas não tinham dólares e não conseguem financiar a compra do gás, do petróleo, por exemplo! Na mesma linha está a ampliação através da comunicação social e da imprensa financeira e económica especializada, dominada pela City e Wall Street, dos problemas da zona euro e das dívidas públicas dos países periféricos. Mesmo algumas das declarações de Barack Obama não são inocentes e visam o mesmo objectivo: descredibilizar a zona euro em benefício do dólar (6). É por isso que quando a Alemanha, a União Europeia e o Banco Central Europeu quiseram penalizar a Grécia, ou fazem chantagem sobre a Grécia e outros países, pensando que estão sozinhos no mundo, Wall Street e a City de Londres, e as suas correias de transmissão, as empresas de «notação», aproveitaram a situação para criar um clima negativo e de dúvida sobre a zona euro, o que os obriga a «meter a chantagem no saco» e a tentar resolver os problemas.

A dívida externa dos EUA também não é resgatável e só se pode manter enquanto o mundo continuar a comprar dólares e Títulos do Tesouro americanos.

A resposta à crise, sobretudo da parte da UE, tem-se inscrito na ortodoxia neoliberal – diminuição dos salários, liquidação de direitos, desmantelamento do Estado Social, privatizações, com todos os países a procurar ao mesmo tempo nas exportações a solução para a marasmo económico. A absolutização da redução do défice através da diminuição de salários, pensões e prestações sociais vai continuar a agravar não só a situação social, como a situação económica e financeira.

Na verdade, todos estes planos de austeridade têm em comum passar a factura para os contribuintes e os trabalhadores, alimentar a recessão e sobrestimar as receitas futuras. Por isso, não é de estranhar as sucessivas revisões em baixa do crescimento destes países e de crescimento mundial. Está-se numa nova espiral descendente económica e financeira. E os dois principais vectores da política económica continuam a ser: diminuição dos salários e mais crédito para relançar o crescimento. Precisamente os vectores que estiveram na origem da crise do «sub-prime» e desta crise – uma distribuição desigual do Rendimento Nacional, a concentração da riqueza e o desenvolvimento do crédito para manter o consumo.

As contradições do capitalismo têm-se agudizado, bem assim como as rivalidades inter-imperialistas, designadamente em torno das perspectivas do sistema monetário internacional. É a esta luz que têm que ser vistos os desacordos entre os EUA e a UE na resposta à crise, ou as declarações de Tim Geihner em nome dos americanos, na reunião dos ministros das Finanças da UE, na Polónia, no dia 27 de Setembro, de que os europeus deveriam reforçar o Fundo Europeu de Estabilização Financeiro (FEEF) a fim de terem meios para reforçar os seus bancos.

Estas divergências ainda ficaram mais claras na reunião anual de Washington de 24 e 25 de Setembro de 2011, do FMI e BM: os americanos dando prioridade aos programas de criação monetária para relançar a economia e a UE dando prioridade à estabilização das finanças públicas e da banca através de dinheiros públicos. (7)

Contradições do capitalismo
São conhecidas as contradições fundamentais do capitalismo, que esta crise expressa com toda a clareza e evidência, bem como a luta de classes nos seus diversos planos. E a este propósito não deixa de ser reveladora a declaração há uns meses atrás do multimilionário americano Buffet de que ele sabia que estava a haver luta de classes, mas que era a sua classe que estava a ganhar, para mais recentemente vir defender um novo imposto sobre os ricos («deixem-se de apaparicar os ricos»). É a consciência de quem sente que é melhor dar alguma coisa antes que as coisas dêem para o torto!

Mas no quadro actual há uma nova contradição, simultaneamente ampliada e consequência de uma das maiores conquistas das classes dominantes na nossa época: a liberdade de circulação de capitais.

Essa contradição resulta das deslocalizações facilitadas pela livre circulação de capitais e impulsionadas pelo avanço das novas tecnologias, designadamente telecomunicações, informação e que têm também estado no centro de uma mistificação ideológica. É a exportação de capitais de forma exponencial (Lénine, O imperialismo estado supremo do capitalismo), expressa nas fórmulas de globalização das mercadorias e globalização financeira (ver, entre outros, Jacques Sapir, La demondialization, ou Eric Laurent, Le scandale des deslocalizations).

As deslocalizações, sobretudo pelos grandes grupos económicos e financeiros (mas até pelas administrações públicas) (8), deram lugar a altíssimas taxas de lucro destas empresas e a uma fantástica evasão fiscal. Mas com a passagem do tempo viu-se que a destruição de empresas resultante das deslocalizações maciças não foi compensada pela criação de empregos nos serviços e novas tecnologias. Que os empregos perdidos não se situavam só nos baixos salários, pois atingem hoje os empregos mais qualificados e os níveis salariais mais altos – investigadores, quadros informáticos, engenheiros e especialistas de ponta –, nem que a repatriação dos lucros tenha irrigado toda a economia – teoria do derrame. O que se verificou e está a verificar é a intensificação da concentração da riqueza, condenando o consumo de massas e o consumo popular (9) e agravando a procura solvente e o escoamento da produção. Hoje esta situação tende a agudizar o quadro social e as tensões sociais e políticas.

Por um lado, os governos sentem-se pressionados pelas populações sem emprego e com sucessivas reduções de poder de compra e nível de vida, e é a essa luz que se têm de ver os apelos de Barack Obama e Sarkozy à reindustrialização dos respectivos países, e, por outro, a pressão do grande capital que quer manter o status quo defendendo cada vez maior liberalização do comércio internacional, maiores garantias para os seus capitais exportados e opondo-se a qualquer forma de defesa da produção local ou interna. O proteccionismo passou a ser um tabu e a «livre concorrência não falseada», o dogma dos dogmas e o mito dos mitos do desenvolvimento económico. Os que lucraram, com as deslocalizações até se servem de argumentos sociais. É curioso ver representantes do grande capital a exaltar o livre-cambismo que, segundo eles, criou «milhões de empregos no Terceiro Mundo» e retirou «milhões da fome e da miséria». A intensa campanha ideológica deixou desarmada certa «esquerda» que não põe em causa o capitalismo e que se colocou na primeira linha na repetição de slogans bem elaborados, como o «não à Europa fortaleza», «não ao proteccionismo», «sim à globalização regulada»...

Hoje mais de metade dos produtos manufacturados consumidos nos EUA e na Europa são importados. E, agudizando ainda mais as contradições, os produtos que antes tinham ciclos de vida longos têm vindo a a ter ciclos de vida cada vez mais curtos pela variação de pequenas alterações tecnológicas, de forma, de cor, tornando cada vez mais difícil a sua amortização.

Nos EUA são cada vez mais os que se interrogam sobre se as deslocalizações são benéficas ou nefastas para a América.

Para convencer os americanos dos benefícios das deslocalizações, os grandes grupos económicos contratam empresas especializadas e académicos, pagando e subsidiando «estudos» enganadores e parciais.~


Vários relatórios são autênticos documentos de lobbying pró-deslocalizações. No entanto, depois de vários estudos, a publicação do «Outsourcing América» pelo «American Management Association» sobressaltou políticos e académicos ao evidenciar os efeitos negativos e ao mostrar que apesar disso muitos responsáveis políticos e promotores das deslocalizações continuam numa situação de negação.´

É neste quadro de crise global do capitalismo, com as velhas e novas contradições, que se devem analisar os acontecimentos e impulsionar a luta de massas, a luta popular, em todas as frentes.


Notas
(1) Fernando Alexandre, Crise Financeira Internacional. Estado de Arte. Ver Gandra Martins e outros. Universidade de Coimbra, 2009.
(2) Ibiden.
(3) O BPN e o BPP irão custar ao erário público muito perto de 4,5 mil milhões de euros.
(4) João Pinto e Castro, Jornal de Negócios, 15.06.2011.
(5) Portugal tem sido particularmente afectado pelo euro forte devido à estrutura das suas exportações e ainda porque a Taxa de Câmbio definida no momento adesão se traduziu numa desvalorização da peseta em 30% e do escudo em apenas 12%.
(6) Com a recente campanha americana sobre a crise europeia – veja-se, entre outras, a recente declaração (26.09.2011) de Barack Obama, em Silicon Valley, de que a crise do euro assustou o mundo, o dólar recuperou terreno e os Títulos do Tesouro americanos voltaram a ser reconhecidos como valores refúgio! Fantástico!
7) Com o agravamento da crise, mesmo os mais ortodoxos vão cedendo: Wolfgang Schauble, ministro das finanças alemão, disse que não se opõe a que a criação do Mecanismo Europeu de Estabilidade, que deve substituir o Fundo Europeu de Estabilidade, não espere por 2013. Por sua vez, a nova directora do FMI pede com urgência o aumento dos meios financeiros do FMI, no que tem tido o apoio dos chineses e a oposição dos americanos!
(8) Eric Laurent, no seu livro Le scandale des deslocalizations, cita o caso de um trabalhador americano que, telefonando para a segurança social para procurar conhecer os seus direitos por ter perdido o emprego, se deu conta que estava a falar para a Índia, para onde se tinha deslocalizado aquele serviço da Administração Pública.
(9) Joseph Stiglitz diz que os EUA são cada vez mais um país rico com populações pobres.

CARLOS CARVALHAS

http://www.omilitante.pcp.pt/pt/315/Economia/648/A-luta-ideol%C3%B3gica-em-torno-da-crise.htm