A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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quinta-feira, fevereiro 28, 2013

André Macedo - Economia para tótós

Diário de Notícias
ANDRÉ MACEDO

Economia para totós

por ANDRÉ MACEDOOntem69 comentários

 
Vou escrever sobre a última do Camilo Lourenço. Digo a última porque parece que ele faz de propósito. Reconheço que, dentro do estilo, ele até é relativamente moderado, embora seja a favor da über austeridade e eu não consiga perceber porquê. Desta vez, o Camilo decidiu afirmar que é um disparate tirar uma licenciatura em humanidades porque não há mercado. A escolha de uma profissão deve ser feita, diz ele, tendo como norte as leis da oferta e da procura. Optar por uma profissão é, digamos assim, um processo linear e previsível. Tiras o curso de História, vais para o desemprego. Tiras o curso de Gestão, acabas na Goldman, vais de férias para o Taiti e regalas-te numa piscina a transbordar de garotas.
Isso das garotas interessa-me, é um belo incentivo, mas não julgo ser preciso citar as estatísticas que demonstram ser elevadíssimo o desemprego entre todos os jovens, licenciados ou não, embora haja áreas em que é certamente mais elevada. Mas o Camilo não se limita a dizer que há profissões em que há mais desemprego. Isso é evidente. O que ele sugere é mais abrasivo: que os mais novos devem fazer as escolhas tendo em conta não a vocação e o talento individual, mas o mercado. Faltam médicos? Vou para cirurgião, apesar de odiar sangue. Os portugueses têm uma higiene oral horrível? As cáries são uma excelente oportunidade de negócio.
De acordo com este método, as grandes escolhas de vida são coisas rasteiras. Ser ou não ser é um sentimentalismo literário que já não vende. No essencial, a vida é uma espécie de economia para totós. Quer escolher uma carreira? Abra o Expresso Emprego e veja o que está a dar. Nada de dramas, impulsos, romantismos: siga a manada. Na escola, a mesma coisa. As disciplinas dividem-se entre as úteis e as inúteis. No primeiro grupo, a Matemática, as Ciências, o Chinês e, claro, o Alemão. No segundo, a Literatura, a Música, as Artes.
O problema com este raciocínio é que não é raciocínio: é preconceito. Os nossos sistemas educativos - defende a Harvard Business Review - centram-se em ensinar os alunos de ciências e de gestão a controlar, prever, verificar, garantir e testar dados. Não ensinam como navegar nas questões "e se..." ou em futuros desconhecidos. "Se quer um pensamento original" - acrescenta a HBR -, "precisa de libertar a criatividade das pessoas. Os humanistas são treinados para serem criativos. Steve Jobs reconheceu como estudar caligrafia o levou a criar o Mac."
Não são estas também as ferramentas que se exigem num mundo cada vez mais complexo e dinâmico? Eu diria que sim. Diria que, em vez de apostar no Excel para moldar o futuro - e falhar -, talvez faça sentido cultivar uma maior variedade de talentos. Só assim um dia podemos fazer alguma coisa de original em vez de passar o tempo a olhar para o retrovisor à procura do que era para ser e, afinal, nunca será.
P. S. Já agora: há banqueiros da Goldman licenciados em História...

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3078994&seccao=Andr%E9&page=-1

quinta-feira, maio 26, 2011

Apelo aos estudantes de Coimbra (a propósito das manobras provocatórias a pretexto da defesa do património da Universidade)


por Ângelo Alves a Quarta-feira, 25 de Maio de 2011 às 16:58
Que os estudantes de Coimbra - as duas dezenas de milhar de estudantes que não foram ontem à escadas monumentais protagonizar um triste espectáculo de arruaça e provocação política, e mesmo os que foram, pensando que estavam bem intencionados - reflictam sobre este acontecimento, sobre o que ele significa, sobre a História da Academia e sobre o papel da Associação Académica que é suposto representá-los.

É que é a primeira vez que o Presidente da AAC se envolve e objectivamente alimenta uma provocação político-partidária e interfere directa e publicamente numa campanha eleitoral, tudo em nome de uma suposta defesa de património da Universidade.

Como antigo estudante de Coimbra, ex-dirigente da AAC e activista em defesa da Universidade e do Ensino Superior Público, sinto profunda tristeza e vergonha por ver estas três letras e essa grande instituição - que tanto dizem a tanta gente e que tantas vidas marcaram -  envolvidas numa tão baixa manobra partidária dirigida a partir dos gabinetes daqueles que ao longo dos anos têm dado machadadas atrás de machadadas no ensino superior público, têm condenado a Universidade de Coimbra ao constante aperto de cinto e têm tratado os estudantes de Coimbra como uns mariolas que só sabem gastar dinheiro aos pais e ir para as ruas fazer barulho.

Esses são os mesmos que não lutaram contra o fascismo, tendo alguns mesmo apoiado a ditadura. Esses são os mesmos que não sabem o que é receber a notícia que um companheiro de luta morreu ou foi preso porque decidiu lutar pela liberdade e também pela Universidade como espaço de criação e resistência. Esses são os mesmos que não sabem o que foram as reuniões e encontros clandestinos na baixinha de Coimbra para organizar e dar força ao movimento estudantil contra o fascismo. Esses são os que não conviveram bem com o movimento das repúblicas e que hoje, apesar dos discursos, as continuam a olhar com desconfiança. Esses são os mesmos que não estavam na sala 17 de Abril, que calaram ou fugiram quando os cavalos da GNR subiram à alta.
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Esses são os mesmos que não foram às manifestações em defesa do ensino superior público, que não sabem o que foi organizar a primeira manifestação em Coimbra contra as propinas contra a opinião da DG/AAC da altura. Esses são os que nunca souberam o que é apanhar da polícia apenas por defender o direito às bolsas e às residências, que não sabem o que é dar horas e forças da nossa vida a dinamizar secções da AAC e a discutir como arranjar dinheiro para pagar bolsas atrasadas ou salários aos funcionários da AAC. Esses são os mesmos que não sabem o que é passar noites em claro a produzir comunicados e panfletos e depois, de manhã, ir para o cimo das Escadas monumentais fazer distribuições e falar com milhares de estudantes.

Esses são aqueles que não sabem o que é passar dias inteiros a ir falar às turmas explicando o que era, e que mal fazia, a lei de financiamento do PSD (primeiro) e do PS (anos depois). São os mesmos que nunca sentiram o coração a palpitar numa Assembleia Magna, que nunca sentiram o orgulho e a alegria de ver, na Estação de Santa Apolónia, sair de dois grandes comboios uma imensa mole humana de estudantes vestidos de negro – sim o mesmo traje que foi usado ontem – gritando “Académica!”.

Esses nunca saberão a emoção que ainda hoje se sente quando se pronuncia a frase “estudantes unidos jamais serão vencidos!”
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Não venham falar de respeito pela Universidade!!! Respeito pela Universidade é lutar por ela, é dar parte da nossa vida a ela, é defender o seu património todo, o seu coração – as pessoas e os princípios - e a sua história de luta! Pintando as escadas monumentais sim senhor! como tantas vezes se fez, e fazendo tantas outras coisas e tão bonitas, como um concerto de música clássica no pátio da universidade para comemorar o aniversário da AAC ou como uma invasão pacifica da “Cabra” para dizer que estávamos em luta!

Respeito pela Universidade é conhecer a sua História, os seus corredores, os seus problemas, as suas dores, e também as suas alegrias, conquistas, belezas e potencialidades, e não apenas umas escadas que, despidas da história de resistência de que foram palco, são apenas pedras mandadas colocar por Salazar que, fique sabendo-se, destruíram outras que ali existiram antes – as Escadas do liceu.

Fiquem sabendo aqueles que consideram as escadas monumentais o “símbolo” da Universidade que a concentração de edifícios na alta universitária mandada erigir por Salazar foi-o com um objectivo: restringir a circulação dos estudantes àquele espaço. E fiquem sabendo esses mesmos que a construção desses “símbolos” implicou a destruição de parte considerável do centro histórico de Coimbra, nomeadamente edifícios como a antiga sede da AAC, o Governo Civil, a Biblioteca Geral, igrejas e parte da muralha medieval da cidade.

Não venham invocar o respeito pela Universidade! Respeito pela Universidade é não atacar e não provocar aqueles que a defendem, mesmo que esses não partilhem a nossa ideologia. Respeito pela Universidade é saber o que significa de facto o conceito da unidade. É saber (como os comunistas souberam e sabem) trabalhar lado a lado com gente muito diferente, defendendo o direito à educação, respeitando as tradições da Academia (mesmo não concordando muitas vezes com todas elas) e trabalhando para que a Universidade continue a ser um espaço de profunda democracia, de irreverência plena de conteúdo, de participação, de partilha de saberes e experiencias, de solidariedade, fraternidade, amizade e amor a causas.

Respeito pela Universidade não é dizer que aquelas escadas são da AAC ou da Universidade, como pobre e tristemente afirmou o estudante que hoje assume o cargo de Presidente da AAC. Como muitos sempre defenderam, e como tantas vezes a DG/AAC soube interpretar sabiamente, a Universidade é dos estudantes, da academia e da cidade, é de todos, e não de alguns! Ninguém é dono dela!
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Aqueles que invocando UNESCO's e afins querem divorciar a Universidade de Coimbra da cidade saibam que estão a matar a Academia aos poucos! A Universidade e os seus edifícios não são museus, são pedras com vida e com história, são aquilo que em cada momento os estudantes e as gentes de Coimbra quiserem que ela seja! Aquelas escadas não são um monumento, são umas escadas! Mas umas escadas especiais, muito especiais, porque nelas e através delas, já se lutou muito pela democracia, pela liberdade, pela justiça e pela Universidade.
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Sou Comunista. Os comunistas sempre estiveram ao lado dos estudantes de Coimbra, temos um património e uma acção presente da qual muito nos orgulhamos. Somos respeitados por isso e temos grandes amizades junto daqueles que connosco aprenderam, lutaram e trabalharam pela AAC e pela Academia, e com os quais aprendemos tanto também! Esses sabem que pintar as escadas monumentais é tudo menos um acto leviano, de desrespeito para com quem quer que seja.

É natural que alguns dos que estiveram ontem envolvidos na provocação à CDU não saibam a história toda daquelas escadas e da luta estudantil em Coimbra (antes e depois do 25 de Abril, antes e depois das lutas das propinas). Mas faço um apelo, que se informem e concluam que pintar as escadas monumentais com slogans que defendem os estudantes e o ensino superior público gratuito e de qualidade foi um profundo acto de respeito! Não para com as escadas, que são pedras, mas para com aquilo que de melhor já lá se passou, para com a Universidade, para com os estudantes, para com a Academia e para com a cidade de Coimbra. Foi um acto de propaganda legítima, mas também uma homenagem!

E foi também um grito de alerta para chamar a atenção que a política não passa apenas na televisão, como uma qualquer novela. Que a política é criatividade, é esforço pessoal, é generosidade e pode e deve ser feita por todos!

Aos estudantes e às gentes de Coimbra fica o apelo: reflictam… reflictam se vale a pena tentar calar aqueles que não se resignam à política espectáculo, à política “plástica” desprovida de ideias, ideais e sonhos.
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Reflictam se é nos que insistem – como a CDU - num método de propaganda legal e legítimo, que está referenciado nos anais da História da Universidade de Coimbra e que inclusive faz parte do acervo que agora é candidato a património mundial, que está o perigo de destruição do património da Universidade, dos Estudantes, da AAC e da bonita cidade de Coimbra.


Ângelo Alves - 25.05.2011
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A Crise Académica de Coimbra, 1969, inspirações e aspirações.




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A Crise Académica de Coimbra, 1969, inspirações e aspirações.


 
    Para que possamos introduzir este subcapítulo, optamos por gizar um pequeno comentário em relação ao nome que lhe atribuímos à hora de abordar o caso português.
    Nesta alínea do trabalho, iremos defender a ideia de que o processo de contestação juvenil, que Portugal conheceu durante os anos 60, mais concretamente em 1969, com a crise académica de Coimbra, foi beber muitas das suas características ao que já havia acontecido na Europa, em que os estudantes portugueses ter-se-ão inspirado.
    Paris, Maio de ’68. Coimbra, Abril de ’69. A distância de um ano não anulou o alinhamento dos processos, sendo estes bastante semelhantes. Tal como o caso de França, estas contestações não surgiram espontaneamente, foram sim, uma herança de outras manifestações de esquerda, em que clamaram e reivindicaram incessantemente. Rock (ié-ié, nome que os estudantes portugueses atribuíram à adaptação do rock bem presente no pais durante esta década), rebeldia, afronto às autoridades, foram algumas das características que marcaram esta crise académica, tal como os movimentos de França.
    Tal como podemos ver, este episódio da história de Portugal viveu muito da contestação feita a partir de cartazes, e para que melhor possamos sustentar a ideia que é enunciada a partir do “mote” que o título anuncia, iremos fazer, através dos muitos cartazes a que tivemos acesso a um pequeno descritivo do que foi a crise académica de ’69.
    Com a entrada nos anos 60, os jovens começaram a ser uma das maiores preocupações da sociedade portuguesa. Queria preparar-se as gerações adultas para a vida profissional, melhorando a educação, e desse modo, no ano de 1964, Salazar decreta que a escolaridade obrigatória seria alargada, passando de 4 para 6 anos. No ponto de vista actual muitas pessoas não entenderão a diferença, mas naquela época era algo importante. Era um meio de fazer com que os estudantes prolongassem os seus estudos, permitindo-lhes chegar a uma universidade, e desse meio aumentar o número de jovens licenciados (e no fundo um meio para escapar da Guerra Colonial, visto que muitos jovens fora da escolaridade eram recrutados à força). Graças a isso, o número de licenciados disparou para o dobro entre os anos 60 e 70. Mas aconteceu algo que o governo salazarista não esperava: as universidades e academias abriram portas a quase todos os tipos de jovens, desde grupos de alunos excluídos de escolas superiores a jovens de classe média, e estes eram normalmente mais radicais e mais descontentes.
    Ainda havia dificuldades para os académicos. Durante vários anos não houve uma associação de estudantes para organizar ou apoiar os jovens, a polícia e a PIDE reprimia e expulsava qualquer acto de revolta entre os académicos (sendo muitos deles detidos) e havia relatos de uso das universidades para contexto político.
    Os académicos portugueses recebiam influências da cultura francesa desde os anos 50, sendo muitos deles fiéis às tendências musicais daí vindas. Mas com a chegada dos anos 60, e o aparecimento da beatlemania e da geração hippy, os jovens viraram-se para os anglicanismos muitas vezes longe dos olhares dos professores, adultos ou outros que os reprimissem. No entanto não era estranho ver jovens com trajes considerados berrantes, ou aparecimento de bandas de ié-ié (rock) nas academias. Não demorou muito até começarem a aparecer iniciativas culturais, sessões musicais de “música-protesto” (copiando as tendências hippies) e manifestações.
    Em 1968, dois meses após Marcelo Caetano subir ao poder, os académicos têm uma surpresa quando o ano lectivo começou (a Novembro desse ano). As associações de estudantes voltam a ser legais, normalizando a vida académica. Infelizmente não foi duradouro. No mês seguinte o Instituto Superior Técnico de Lisboa é fechado por ser considerado um centro subversivo, tudo por causa da produção e transmissão de panfletos com exigências dos estudantes. A Janeiro de 1969, a Faculdade de Direito de Lisboa e a Academia do Porto são também encerrados por situações idênticas.
    O acréscimo da contestação juvenil no início do ano de ‘69 não foi um caso originário de Portugal. Os estudantes portugueses basearam-se no movimento francês do Maio de ’68, seguindo muito dos ideais revolucionários que os jovens franceses usaram para conseguir o seu objectivo. Eram jovens cultos e, apesar de censura, sabiam o que se passava “lá fora”.
    A gota de água foi a 17 de Abril de 1969. Durante a inauguração do edifício da matemática da Academia de Coimbra, Alberto Martins, presidente da AAC (Associação Académica de Coimbra) pede a palavra ao presidente Américo Tomás, que tinha comparecido para fazer a inauguração. Alberto Martins deseja falar pelos alunos, mas o seu pedido é negado, e a cerimónia de inauguração é abruptamente encerrada. Nessa mesma noite, Alberto Martins é detido à porta da AAC. Com ele são também alvos de perseguição da polícia e da PIDE centenas de alunos que ficaram do seu lado. Nos dias seguintes dão-se episódios de luta entre estudantes e a PSP, à mistura de actos de solidariedade e de unidade entre alunos.
    A 30 de Abril desse ano o ministro da educação nacional, José Hermano Saraiva, através de um comunicado televisivo, acusa os estudantes de desrespeito e insultos ao chefe de estado. Nesse contexto cerca de 4000 alunos juntaram-se numa assembleia magna a 1 de Maio para reafirmarem a convicção em criar uma universidade nova. No mês seguinte faz-se a maior assembleia magna da história da Academia de Coimbra, onde 6000 alunos se juntam e decretam a abstenção aos exames (a que 85% dos universitários aderiram). É também organizada a “Operação Balão” e a “Operação Flor”, com o objectivo de distribuir flores e balões em forma de protesto contra a detenção e suspensão de alunos e professores, exigindo também que não fossem marcadas faltas durante o protesto e o luto académico.
    Houve um grande choque a 22 de Junho quando, na final do campeonato com jogo entre Benfica e Académica, os jogadores do Académica entraram em jogo com a capa académica, mostrando o seu luto. Durante este acto foram distribuídos 35 mil comunicados à sociedade civil, onde estavam expostas as razões para a luta estudantil. O jogo não foi transmitido na televisão. No mês seguinte a lei de adiamento militar foi revista e alterada de maneira a que os estudantes detidos fossem chamados a serviço militar obrigatório.
    Em Agosto de 1969 o Governo encerra a AAC e demite todos os seus corpos gerentes, e em Setembro do mesmo ano uma assembleia magna é proibida, sendo depois dispersa com violência a manifestação que lhe seguiu. Quase meia centena dos membros do movimento são chamados para serviço militar obrigatório e são enviados para África.
    Nos anos que se seguiram a ’69 a agitação juvenil radicalizou-se (exemplo disso foi a ocupação do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras por estudantes, onde foram administrados “cursos livres” e onde se editavam anti-sebentas com teses marxistas e outros textos proibidos). Desde que se deu o eclodir da crise de ‘69 registou-se um agravar da situação em que os estudantes continuavam a lutar pelos direitos que exigiam, protestando cada vez mais intensamente. A falta de uma solução imediatapara a resolução deste problema por parte de José Hermano Saraiva, levou a que este fosse substituído por Veiga Simão, a 15 de Janeiro de 1970.
    As lutas estudantis eram organizadas em torno da autonomia universitária, do direito à livre associação, da reforma do ensino (no ano de 1970, Portugal só tinha 2% de PNB gastos na educação. Era muito baixo, mesmo em comparação com outros países, como por exemplo, a Grécia, que tinha 2,2% de PNB), e claro, do descontentamento geral dos alunos, que era pretexto para iniciar muitas vezes movimentos estudantis. Deste modo as universidades formaram tanta oposição como quadros, onde participaram milhares de estudantes, dezenas destes foram detidos, outros exilados e outros enviados para África para participarem na Guerra Colonial (mas neste ponto final, foram os estudantes que levaram os soldados portugueses a perguntarem-se qual era realmente o objectivo da luta armada com as colónias).
    Em suma, podemos afirmar que Portugal não foi um caso isolado, mas que aconteceu como uma repercussão dos acontecimentos na Europa, com o aparecimento dos jovens como classe contestatária. A música, as formas de reacção rebelde contra as autoridades, os reitores, são alguns dos exemplos que podemos levantar. Temos, claro de ter em conta que todos os movimentos que se deram durante esta crise foram de alguma forma inspirados no Maio de ’68 e em parte da Primavera de Praga, (onde os jovens foram buscar inspiração.)
    Enquanto em processos como o Vietname a liberdade de imprensa e o jornal são parte grande integrante do processo, no caso Português, a censura não permitiu que o movimento juvenil contaminasse tanto quanto desejaria o resto da sociedade Portuguesa. Os estudantes compreenderam bem. Por isso foram ao estádio (mas o jogo foi proibido de ser transmitido) mas a emissão televisiva foi cortada. Na sequência da greve universitária souberam distribuir flores à população numa operação de charme em tempos de Guerra.
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http://grupo68.webnode.com/a%20crise%20academica%20de%20coimbra,%201969,%20inspira%C3%A7%C3%B5es%20e%20aspira%C3%A7%C3%B5es-/

terça-feira, julho 13, 2010

Portugal - 54 mil licenciados no desemprego

Formação: Candidaturas ao Ensino Superior iniciam-se hoje
Pedro Catarino
Em 2007, havia 43 mil licenciados em trabalhos de baixa qualificação ou não qualificados


Número de vagas para o Ensino Superior é semelhante à quantidade depessoas sem trabalho e com nível de ensino igual ou superior à licenciatura.
  • 0h30 - 2010.07.13
Por:André Pereira/P.G./J.N.P./J.S./Bernardo Esteves
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Portugal tem 54 600 desempregados com habilitações de Ensino Superior: licenciaturas, mestrados ou doutoramentos. Os dados são do Instituto Nacional de Estatística (INE), relativos ao primeiro trimestre deste ano, o que significa mais 8,5 por cento (4300) do que no mesmo período de 2009. Hoje inicia-se a primeira fase de candidaturas ao Ensino Superior, para a qual foram disponibilizadas 53 986 vagas, quase tantas quanto o número de licenciados sem emprego.
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Perante este cenário, as perspectivas de arranjar um trabalho na área de formação são cada vez mais reduzidas. Os recém-licenciados deixam as universidades e em pouco tempo desistem de procurar um local onde possam exercer uma profissão relacionada com a sua formação. As estatísticas, mais uma vez, não podiam ser mais claras: em 2007, havia pelo menos 43 mil licenciados em trabalhos de baixa qualificação ou não qualificados, como limpezas ou construção civil.
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Raquel Seno, de 33 anos, licenciou-se em Engenharia do Ambiente há sete anos e nunca trabalhou na área. Hoje trabalha numa empresa de telecomunicações: 'Quando terminei o curso foi frustrante. Gostava de fazer algo na área, mas já não procuro nada.' João Amaral, por sua vez, esteve três anos num laboratório a exercer a profissão que escolheu. As condições de quem sobrevive em função das bolsas atribuídas aos projectos fizeram-no desistir. 'Formei-me em Biotecnologia em 1991/92 e ainda estive três anos num laboratório. Tive de desistir e desde então já tive trabalhos em várias áreas', conta.
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Licenciada em Psicologia, com uma pós-graduação em Comportamento Organizacional, Sílvia Ferreira, de 26 anos, lamenta o investimento: 'Já desisti. Só se surgir uma colocação por recomendação. De outra forma não vale a pena pensar nisso. É frustrante.'
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AUMENTO DE VAGAS EM DIREITO É 'UMA FRAUDE'
O bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, considerou ontem 'uma fraude' o aumento do número de vagas para os cursos de Direito (abriram 1330 lugares), justificando que o mercado já tem excesso de licenciados na área. 
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No dia em que foram conhecidas as vagas para o Superior público, a Ordem dos Enfermeiros divulgou os resultados de um questionário feito a enfermeiros, que indica que quase vinte por cento dos licenciados não exercem a profissão.
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PORTUGAL LIDERA FUGA DE CÉREBROS NA EUROPA
Portugal é o país da Europa em que mais licenciados partem, todos os anos, para o estrangeiro à procura de trabalho. Nos últimos dez anos foram 450 mil os diplomados no País e quase vinte por cento decidiram emigrar, de acordo com dados divulgados pela OCDE relativos a 2007. Áreas de saúde e engenharias são as mais atingidas. No estudo da OCDE, o Haiti é o país com mais alta taxa de fuga de diplomados: 83,6%.
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DEPOIMENTOS
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'INVESTI 15 A 17 MIL EUROS NO CURSO DE DESIGN', Marcos Evangelista, 27 anos, Design Multimédia, Almeirim
'Investi 15 a 17 mil euros no curso de Design Multimédia. O mercado está muito difícil. Já passei por três empresas que nunca me deram estabilidade profissional.'
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'QUIS FAZER MESTRADO MAS NÃO VALIA A PENA', Fábio Fontes, 26 anos, Tradução Inglês/Francês, Évora
'Acabei o curso de Tradução Inglês/Francês em 2006 e a ocupação temporária no Cybercenter acabou por se tornar definitiva. Ainda quis fazer mestrado, mas não valia a pena.'
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'NÃO TENHO EXPECTATIVAS DE TRABALHAR NA ÁREA', Catarina Matos, 29 anos, Geografia e Urbanismo, Lisboa
'Nunca trabalhei na área de formação, nem tenho expectativas de o fazer. Tive uns estágios profissionais, mas não consegui. Foi sempre noutras áreas, como call centers.'
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DISCURSO DIRECTO
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'PARA O ANO ABRIRÃO MAIS CEM VAGAS EM MEDICINA', Mariano Gago, Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior 
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Correio da Manhã – As vagas no ensino superior voltam a aumentar. Porquê?
Mariano Gago – Portugal tem metade dos licenciados dos países desenvolvidos. Precisamos de profissionais qualificados para atrair investimento.
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– O bastonário dos Advogados reitera que há excesso de vagas em Direito.
– O curso de Direito não é só para formar advogados e magistrados, mas também para muitas outras áreas. Os alunos sabem isso.
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– As vagas de Medicina são criticadas pelo bastonário dos Médicos, que teme que não haja internato para todos os alunos.
– Já telefonei à ministra da Saúde e garantiu-me que haverá internato para todos. Para o ano abrirão mais cem vagas em Medicina e um curso novo, em Aveiro. Toda a gente sabe que há falta de médicos.
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Confirma que vinte mil estudantes podem perder apoios devido à nova fórmula de cálculo das bolsas de estudo?
– Não esperamos uma diminuição muito significativa de bolsas. A nova fórmula é mais justa e impede alunos de famílias abastadas de obterem bolsas.
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Crise: Empréstimos para pagar os estudos

Alunos pediram 128 milhões aos bancos

A época de crise económica tem levado ao aumento do pedido de empréstimos dos estudantes do ensino superior, que recorrem à linha de crédito criada pelo Governo há três anos.
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Por:Edgar Nascimento
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Em Dezembro de 2009, contabilizavam-se 11 108 empréstimos, quando no final de 2008 eram 6452 e no final do ano lectivo 2007/08 eram 3693. Até ao final de 2009, o valor do crédito contratado ascendia a 128 milhões de euros. Os empréstimos entre 10 mil e 15 mil euros foram os mais contratados (3522), seguindo-se os empréstimos entre 5 mil e 10 mil euros (2875). Dois terços dos empréstimos concedidos são para estudantes matriculados em estabelecimentos de ensino superior público e são os que frequentam cursos de Enfermagem (590) quem mais recorre ao crédito.
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O valor de cada empréstimo está relacionado com a duração do curso, num máximo de cinco anos e até cinco mil euros por ano.
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Mobilidade: Naturais do Brasil e PALOP lideram lista

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Gabinete de Estatística do Ensino Superior analisou situação dos estudantes em Portugal

Nove mil estrangeiros estão a tirar o curso em Portugal

Representam cinco por cento dos alunos do ensino superior português, num total de 8663 estudantes. No ano lectivo 2008-09 estavam matriculados 174 mil alunos no ensino superior, dos quais 165 337 de nacionalidade portuguesa.
  • 11 Julho 2010
Por:Edgar Nascimento
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De acordo com o documento ‘Inscritos no Ensino Superior: Informação Socioeconómica’, elaborado pelo Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, a maioria dos alunos estrangeiros é de nacionalidade brasileira (3813), angolana (3587), cabo-verdiana (3544) e moçambicana (876). De países europeus, são os espanhóis os que mais optam pelas instituições portuguesas para iniciar, continuar ou concluir um curso superior: 679 estavam inscritos no ano lectivo 2008-09. Seguem-se os franceses (584) e os italianos (334). Mas também há alunos provenientes de países tão distantes como a Polinésia Francesa (2) ou Vanuatu (1), ambos da Oceânia. 
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No que respeita aos caloiros estrangeiros, em 2008-09 foram 6225: África (2665), América (2111), Europa (1196), Ásia (239) e Oceânia (14). Mais uma vez, são os nascidos no Brasil e nos países africanos de língua oficial portuguesa quem lidera a lista dos estrangeiros caloiros. Do continente asiático, matricularam-se 57 chineses, 32 iranianos e 31 timorenses.
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570 COM MENOS DE 18 ANOS
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O Inquérito ao Registo de Alunos Inscritos e Diplomados do Ensino Superior, realizado pelo GPEARI/MCTES, referente a 2008-09, indica que estavam matriculados 570 estudantes com menos de 18 anos de idade: nove tinham 16 anos e 561 contavam 17 anos. No outro extremo encontravam-se os estudantes com mais de 45 anos: 16 689 (8864 mulheres). O escalão etário com mais alunos em todos os graus de ensino superior é o dos 25-34: 94 878 inscritos.
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52 MIL ENTRAM NA 1ª OPÇÃO
Quase metade (44 por cento) dos alunos inscritos pela 1ª vez no ensino superior público em 2008-09 conseguiu entrar na 1ª opção de ingresso. Na 2ª opção entraram 8422 estudantes (7,1 por cento). De acordo com o estudo do GPEARI/MCTES, 2,7 por cento ficaram colocados nas 5ª e 6ª opções (3234 alunos). No entanto, ressalve-se que 46 832 (39,7 por cento do total) não responderam a esta questão do Inquérito ao Registo de Alunos Inscritos e Diplomados. 
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quinta-feira, maio 27, 2010

O Dia a Dia de Eduardo Dâmaso

Dia a dia

Quanto vale um curso?

 

Setenta por cento dos funcionários da nova loja do IKEA, em Loures, são licenciados. Todo o trabalho é digno, sobretudo nos tempos que correm, mas setenta por cento daqueles jovens andaram a estudar para se especializar noutras profissões. Investiram dinheiro, tempo, expectativas de uma vida profissional próxima daquilo que sonharam sem que a economia real os consiga enquadrar em função dos conhecimentos que adquiriram.
  • 26 Maio 2010 - Correio da Manhã
Por:Eduardo Dâmaso, Director-Adjunto
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Tiveram a sorte de conseguir emprego, é certo, por entre um vastíssimo leque de candidatos, mas engrossam uma fileira estatística que mostra o fosso cada vez maior entre o ensino e a vida activa. Não é só o número de jovens licenciados no desemprego que todos os dias cresce. É também o número de jovens licenciados que não arranja trabalho na área dos seus cursos. É este divórcio entre ensino e economia, este sinal tremendo de uma economia com baixa incorporação de conhecimento, sem inovação tecnológica e sem competitividade, que nos liquida a esperança de sair do buraco em que entrámos nos últimos dois anos. O problema não está só no déficit das contas públicas. Está nesta economia anémica que desvia a sua juventude para um patamar de ambição que se limita à mais elementar das sobrevivências. O sonho, esse, tornou-se proibido!
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  • Comentário feito por: Anónimo
  • 26 Maio 2010
Só oiço papagaios, ainda nao perceberam que necessitamos duma nova ordem, a continuar assim acabamos por ser governados pelo fmi, enche-se a boca com as pme e diariamente finam-se, agricultura,pesca,industria onde estao?
  • Comentário feito por:vitor manuel
  • 26 Maio 2010
plenamente de acordo,mas quem escutou a ministra ontem na inauguração da dita loja ao referir-se á incorporação de mão de obra na mesma,parece uma coisa normalissima um licenciado em arquitectura andar a vender sofás,não que isto seja vergonha para ninguem mas que é sintomatico de que algo não está bem,para já de certeza que á alguem com menos habilitações que poderia desempenhar estas funções e não outras que fica de fora
  • Comentário feito por:venancio ramos
  • 26 Maio 2010
Um curso com o tipo de economia que temos,dá mais conhecimento mas não mais possibilidades profissionais.Temos uma economi áfulinada´onde cabem poucos a ganhar muito e bastantes a ganhar pouco.Regressem as micro-pequenas e medias empresas e muita coisa se resolce--almada
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quarta-feira, março 03, 2010

Os mitos da educação por Pedro Lomba






Os mitos da educação

Por Pedro Lomba

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Segundo um estudo da OCDE ontem comentado nos jornais, a mobilidade social em Portugal está num nível de lástima. Na Europa os portugueses estão no fim da tabela no que respeita à ascensão de classe. Isso significa que a condição de pobre ou remediado é por cá persistente, senão imutável. Só à custa de um acaso é que uma pessoa acaba por se libertar do meio onde nasceu. 
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.O contexto económico e cultural das famílias é decisivo e tende a perpetuar-se. Quem herda um estatuto dificilmente o perde. Portugueses filhos de pais com baixos índices de escolaridade não chegam à universidade. Pior: o mercado de trabalho reflecte o mesmo padrão. Certamente por causa do seu menor "poder" social ou do seu espírito menos reivindicativo, os filhos de pais menos instruídos também auferem salários substancialmente mais baixos do que os outros.
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A educação continua a ser o recurso mais eficaz para os pobres e a classe média-baixa atingirem uma relativa mobilidade social. Aqui, convém dizer que o peso da educação supera inclusive a rigidez do mercado laboral (embora também ajude perceber que Portugal tem das leis do trabalho mais protectoras dos países da OCDE). Porque o nosso problema começa antes, logo na frequência da escola. Mesmo na hipótese de o mercado de trabalho ser liberalizado, se os filhos da classe pobre e média-baixa nem sequer chegam à universidade e se abandonam prematuramente a escola, nem com mercados liberalizados podemos ter ascensão social.
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A inflexibilidade das nossas leis laborais afecta em especial aqueles que estão fora do mercado de trabalho mas passaram pela escola pública e chegaram à universidade. Esses sim formam os outsiders de um mercado laboral fechado. A par deles, existem outros outsiders cuja situação é ainda mais drástica: o mercado penaliza-os simplesmente porque não estudaram, nem têm forma de se encaixar nos mercados de trabalho disponíveis.
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Tudo isto sugere que a cultura da imobilidade existente na sociedade portuguesa tem de ser combatida primeiramente através de uma ruptura na educação. Nada que não soubéssemos já, nem que não nos tivesse sido dito centenas de vezes. O que não nos disseram ainda é que temos ser capazes de quebrar alguns mitos que têm alimentado o nosso sistema de ensino. O projecto da mobilidade social requer uma educação mais diferenciadora, responsabilizadora e aberta.
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São três esses mitos perniciosos. Ao primeiro podemos chamar-lhe o mito da uniformização. Na ausência de regras que permitam às famílias escolher as escolas dos filhos e de programas que assegurem uma maior diversidade classista dentro das escolas, o resultado acaba por ser uma escola que agrava as desigualdades familiares preexistentes.
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O segundo mito está no igualitarismo. Faço notar que igualitarismo não é o mesmo que igualdade. A escola, por natureza, é uma instituição igualitária. Acontece que a nossa educação está empenhada num programa igualitarista, uma vez que rejeita fazer quaisquer distinções entre escolas. Na Holanda, por exemplo, as escolas são todas cooperativas de direito privado que têm que concorrer todos os cinco anos a financiamento pelo Estado. Se quiserem manter o emprego e o financiamento, têm que mostrar resultados. Devíamos caminhar para um sistema semelhante.
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O terceiro mito é o da irresponsabilidade. Sem autonomia, sem descentralização, sem poder para adaptar os seus projectos educativos às suas necessidades, toda a responsabilidade fica concentrada nas mãos do ministério e não nas escolas. Nada disso favorece um ensino orientado para a mobilidade social. Jurista
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