A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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terça-feira, março 15, 2011

Angola 1961: o terror maciço e cru




15.03.2011 - 15:12 Por João Manuel Rocha
Os massacres que marcaram o início da guerra em Angola começaram há 50 anos. Havia indícios de que se preparava um levantamento, mas ninguém esperava tamanha violência. Os relatos de uma sublevação de cariz tribal dão conta de barbaridades indescritíveis. A revolta bacongo não poupa negros de outras origens. Os mortos são aos milhares, centenas deles brancos. O "15 de Março" prolonga-se até Outubro, já depois do "rapidamente e em força" proclamado por Salazar.
Os maus acessos tinham deixado muitas regiões fora do controlo das autoridades coloniais 
Os maus acessos tinham deixado muitas regiões fora do controlo das autoridades coloniais (Foto: DR)

Só em Setembro, seis meses depois, José Rocha Dinis conseguiu ir a S. José do Encoje, Nova Caipemba, a uns cem quilómetros de Carmona, no Norte de Angola. O que ele e 15 a 20 voluntários viram foram esqueletos que sobravam da decomposição de cadáveres acelerada pelo calor e humidade. Certeza de quem era quem, só a teve sobre um capataz e a mulher: os restos mortais ainda estavam sobre o colchão apodrecido no chão da casa em que dormiam.

Na fazenda do distrito do Uíge estavam por enterrar mais de meia centena de trabalhadores - negros, mestiços e dois brancos, homens, mulheres e crianças. Meio século depois, José, hoje com 89 anos, tem bem presente essa viagem de reconhecimento a uma boa dúzia de propriedades da região feita a partir de Carmona, com voluntários idos de Luanda. Mas não quer falar de tudo o que viveu naquele ano em que a violência bárbara irrompeu no Norte de Angola, com incidência muito forte na zona dos Dembos. "Vimos ossadas em todas as fazendas", diz apenas.

Os ataques dos meses anteriores, a insegurança, a falta de homens armados para uma expedição, a incerteza sobre o que iriam encontrar e os maus acessos tinham deixado aquela e outras regiões fora do controlo das autoridades coloniais nos seis meses passados sobre o 15 de Março de 1961. Naquele dia, há exactamente 50 anos, ao alvorecer, sob a bandeira da União das Populações de Angola (UPA), a violência irrompeu de modo bárbaro. "Mata! Mata! UPA! UPA!", ecoou no Norte de Angola. O número de mortos está longe de ser consensual, mas as estimativas mais referidas apontam para cerca de 800 brancos, em muitos casos gente pobre e humilde, e milhares de trabalhadores africanos recrutados noutras regiões da colónia.

Munidos de "catanas e armas de fogo rudimentares", revoltosos "assaltam povoações e fazendas", em regiões de acesso difícil. Sto. António do Zaire, S. Salvador do Congo e Maquela do Zombo, próximo da fronteira com o ex-Congo belga, mas também Ambrizete, Negaje, Mucaba, Sanza-Pombo são alvo de ataques. "Toda a baixa do Cassange está em alvoroço" e os assaltantes estão às portas de Carmona. "São claros para as autoridades os propósitos de implantar o terror", escreveuFranco Nogueira, o diplomata que, em Maio seguinte, se tornaria ministro dos Negócios Estrangeiros.

"Em menos de 48 horas, pelos distritos do Zaire e do Uíge é a devastação maldita. Plantações e casas solitárias são saqueadas e incendiadas; aldeias são arrasadas; é posto cerco a vilas e pequenas povoações, cortando-se-lhes os abastecimentos; vias e meios de comunicação ficam destruídos", diz o relato de Franco Nogueira no livro Salazar volume V - A Resistência (ed. Civilização).

"Não se faz distinção de etnias, nem de sexo, nem de idades tão-pouco. É o terror, maciço e cru", refere Franco Nogueira na sua descrição, considerada "uma boa síntese" dos acontecimentos por Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus, autores do recém-editado Angola 61: Guerra Colonial, Causas e Consequências, o 4 de Fevereiro e o 15 de Março (Texto Editora). "Como nos tempos remotos das grandes barbáries, são assassinados homens, mulheres, velhos e crianças, autoridades administrativas, agentes da ordem, brancos, negros e mestiços; ou fuzilados; ou queimados dentro de casas e cubatas: ou esquartejados, e degolados; ou serrados vivos", escreveu o embaixador.

Os relatos do horror abundam. "Ao longo do caminho vimos enorme morticínio de pessoas brancas e pretas, sem braços, sem pernas, sem olhos", contou a angolana Ana Inglês, filha de um pastor protestante e depois presa política, a Dalila Mateus, investigadora do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Empresa (ISCTE), no livro Memórias do Colonialismo e da Guerra(ed. Asa). Os ataques, o medo e a insegurança imperam numa área equivalente à de Portugal Continental.

"Nas povoações", escreveram os autores de Angola 61, os atacantes "entravam mal as casas comerciais abriam as suas portas, atacando homens, mulheres e crianças com catanas, que traziam escondidas. E nas fazendas, faziam-no durante a formatura habitual da manhã, assassinando" proprietários e outros brancos, para além de nativos que lhes eram fiéis. "Estávamos irritados com tanto tempo de opressão", disse um dos revoltosos na série documental A Guerra, realizada pelo jornalista Joaquim Furtado para a RTP.A partir de um documento constante do arquivo de Salazar, e de diversas outras fontes, o casal Mateus descreve como características do levantamento a sua "rapidez fulminante", a "violência e ferocidade de processos", os "barbarismos cometidos contra brancos, mestiços e alguns pretos", o "fanatismo dos atacantes convencidos da sua invulnerabilidade", o "pânico das populações brancas, acrescido ao constatarem que, entre os que colaboravam nesses ataques, havia criados e cipaios".

O carácter tribal

Para Dalila e Álvaro Mateus, os contornos de violência do 15 de Março terão sido o reflexo de um conjunto de factores: "O carácter tribal da UPA, as contradições no seu seio, a impreparação dos seus quadros, as debilidades orgânicas, a falta de disciplina, as dificuldades em apaziguar ódios recalcados e em suster ímpetos primitivos."

O "carácter tribal" da revolta desencadeada pela UPA, "um movimento com profundas raízes" nos bacongos, manifesta-se, segundo os autores do mais recente estudo sobre as revoltas de há 50 anos em Angola, no número de mortos africanos, "uns quatro a cinco mil", designadamente ovimbundos e quimbundos. "Os factos demonstram que se procura a independência para os bacongos, porventura com o propósito de reconstituir o reino de S. Salvador", disseram ao P2.

"Foi um movimento completamente desvairado, racista, com todo aquele ingrediente de raiva de ódio mal dirigido", afirma Adelino Torres, professor jubilado do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), à época um jovem de 20 anos residente em Luanda, a preparar-se para estudar Direito em Lisboa. A consciência anticolonial que já então o animava não o impede de considerar que "foi uma barbaridade imperdoável". " Por muitas razões que os africanos tivessem contra o colonialismo, e tinham." Mais tarde, chegou a conhecer na Argélia representantes da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), designação depois adoptada pela UPA. "Constatei que não tinham nada na cabeça. Fiquei com uma impressão deplorável dessa gente", afirma.

Angola estava em ebulição, como fora prenunciado pelos ataques de 4 de Fevereiro em Luanda, e, antes disso, pela revolta contra os abusos laborais no cultivo do algodão na Baixa de Cassange. "Nos círculos do Governo central, na alta administração, toma-se então consciência de que em Angola há uma situação de guerra", reconheceu Franco Nogueira. Para o historiador Filipe Ribeiro de Meneses, tratou-se de uma tentativa de "extirpar a presença portuguesa do Norte de Angola". O "maior fracasso de Salazar ao longo das quatro décadas no poder terá sido a sua incapacidade de proteger a população branca e os seus trabalhadores no Norte de Angola em 1961", escreveu na sua biografia sobre o chefe do Estado Novo, publicada no ano passado pela D. Quixote. O efectivo militar à data do levantamento seria de 7800 homens para todo o território angolano.

Os sinais de que alguma coisa estaria para acontecer não faltavam. Não era só o ambiente internacional favorável à descolonização nem a vaga de 17 independências que varrera África no ano anterior. Os próprios colonos, pelo menos parte deles, não estariam alheios ao clima de pré-insurreição. Mas Salazar desvalorizaria informações obtidas por via diplomática norte-americana sobre o risco de incidentes, bem como relatórios da PIDE que davam conta da iminência de ataques.

"Fomos apanhados de surpresa, mas havia indícios de que queriam fazer alguma coisa. Sabíamos que mandavam fulanos que passavam pelos povos a fazer doutrinação e a dizer: "É preciso correr com os brancos"", conta José Rocha Dinis, que recorda uma conversa, em Novembro de 1960, na fazenda de Nova Caipemba, com um pequeno fazendeiro negro, antigo cabo do Exército: "Está-se a organizar uma matança. Prepare-se, avise as autoridades, mas não diga que fui eu que disse". Foi o que Rocha Dinis fez: alertou o chefe do posto administrativo, que não lhe terá dado ouvidos. O antigo cabo seria um dos mortos de 1961. 
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Sementes de revolta

As sementes da revolta vinham a ser lançadas há algum tempo. Os autores de Angola 61 lembram declarações de Holden Roberto, líder da UPA, segundo o qual em 1959, aquando de manifestações pela independência do ainda Congo belga, dois mil a três mil angolanos foram expulsos da colónia e entregues às autoridades portuguesas. Esses repatriados, afirmam, foram enviados para as fazendas, "onde desenvolveram uma actividade política e propagandística". Por altura do levantamento no Norte, "terão entrado em Angola mais umas centenas de elementos da UPA", disseram ao P2. A organização adoptou também uma "política de recrutamento forçado", e o "comando dos revoltosos foi, em regra, das autoridades tradicionais".

O historiador angolano Carlos Pacheco tem menos certezas. Está convicto de que "as coisas fugiram ao controlo da UPA em Leopoldville" e de que "não foi só" a organização a protagonizar os ataques. Chegou a confrontar Holden Roberto com essa tese. "Sempre senti um grande constrangimento da parte dele", afirma. O autor do livro Angola - Um gigante com pés de barro acredita que a Abako, Aliança dos Bacongos, "esteve no terreno" e refere um projecto do seu líder, Joseph Kasavubu, primeiro Presidente da actual República Democrática do Congo, de "tomar conta do Baixo Congo".

Se as autoridades portuguesas admitiam uma revolta, não esperariam, contudo, a dimensão nem os contornos que assumiu. "O que perturbou militares, polícias e autoridades administrativas não foi a rebelião em si, mas a sua intensidade, rapidez e selvajaria", consideram Dalila e Álvaro Mateus. "Os governantes de então não quiseram tirar a lição dos acontecimentos, pois pensavam que tal situação não era possível, dada a excelência do seu colonialismo", afirmam. Rocha Dinis parece dar-lhes razão: "Tínhamos a ilusão de que não ia acontecer nada, porque nós tratávamo-los melhor do que os belgas. O Congo belga olhava para o preto como inferior."

Face à brutalidade do levantamento, cujas imagens correm mundo, Holden Roberto, em Nova Iorque - onde, no Conselho de Segurança, os Estados Unidos votam, nesse mesmo dia, pela primeira vez, contra a política colonial portuguesa - hesita na reivindicação dos ataques. "Vi imagens que não me agradaram". "Fomos ultrapassados", dirá na série A Guerra. Mas acaba por assumir a autoria, aparentemente por receio de que o rival MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola, o partido nopoder desde a independência) o fizesse, como acontecera com o 4 de Fevereiro em Luanda.

Os ataques e o medo prolongam-se muito para além dos primeiros dias. Os fazendeiros isolados procuram refúgio em núcleos populacionais maiores. "Sempre que possível, normalmente em pequenas vilas e lugarejos, os colonos e as forças de segurança locais criavam milícias para se defenderem enquanto esperavam pela chegada da polícia e das tropas regulares", segundo Ribeiro de Meneses. Mas "passaram-se semanas sem mudanças significativas no terreno e com as autoridades a temerem revoltas violentas noutras regiões de Angola - fosse em Cabinda, fosse no Sul".

As estradas e pontes cortadas dificultam a progressão das tropas portuguesas. E mesmo quando a evacuação se tornou possível", muitos colonos ficaram em "ilhotas de teimosia", como, segundo Meneses, lhes chamou Jorge Jardim, empresário influente junto de Salazar. "Mas para além dessas ilhotas, havia áreas muito mais vastas que se encontravam agora fora do controlo português", escreveu o historiador. A fazenda do sogro, a 14 quilómetros do Songo e que José Rocha Dinis administrava, é evacuada já no final de Abril e será assaltada a 2 de Maio. Dois dias depois, é a própria vila a ser atacada, numa acção que terá provocado a morte de 220 atacantes. Fazendeiro e proprietário voltarão em Julho para as colheitas. Noutros lugares a insegurança será mais longa. Ao longo de meses há notícias de ataques e confrontos com os rebeldes, que vão perdendo fôlego.

"A política de recrutamento forçado da UPA só poderia resultar no curto prazo e se a vitória fosse rápida. A médio prazo e depois dos primeiros reveses, no Verão de 1961, os rebeldes ficaram sem dirigentes, sem ordens, sem ajuda, o que levou a revolta a transformar-se numa anarquia. E os combatentes recrutados à força começaram a fugir e a render-se", disseram ao P2 Dalila e Álvaro Mateus.

Em Outubro, com a recuperação de Caiongo, distrito de Uíge, as autoridades coloniais retomam oficialmente o controlo da situação, ainda que, segundo os dois investigadores, o 15 de Março se tenha "prolongado por quatro anos", até ao momento em que, de acordo com um relatório do cônsul belga ao seu Governo, "o Norte fica sob controlo total das tropas portuguesas, embora os guerrilheiros da UPA permaneçam no terreno". É também em Outubro que grupos de africanos revoltosos que se tinham refugiado nas matas começam a entregar-se às autoridades coloniais. A guerra continuará,no modo de guerrilha.

O medo dos negros

Logo após os primeiros ataques, começam a afluir a Luanda refugiados, muitos dos quais apenas fazem da cidade ponto de trânsito para a Metrópole, a vulgar designação de Portugal continental. Adelino Torres lembra-se de colonos a chegarem à cidade, "sem nada, aterrorizados". Lembra-se também do clima de medo. "Toda a gente correu para as casas de armas a comprar pistolas, com receio de apanhar uma catanada."

Por esse tempo, havia quem visse em cada negro um terrorista. "Bastava alguém ter uma epiderme um pouco mais escura", afirma Carlos Pacheco, à época com 16 anos, que recorda uma situação vivida em sua casa, na capital de Angola: "A minha mãe recomendava ao nosso empregado, que era negro: "Não saias de casa." Arriscava-se, ao transpor os muros da casa, a ser morto." Foi assim durante meses. "Se já havia violência provocada pelo processo colonizador, a violência a partir daí foi ainda maior."

Franco Nogueira também se referiu ao alargamento do fosso racial: "Os brancos vêem em cada negro um possível terrorista, os negros vêem em cada branco um homem que se quer vingar e que agora mata sem hesitar. Deste modo, e além das atrocidades dos assaltantes, assumem gravidade o ataque preventivo e a retaliação indiscriminada de brancos sobre negros e destes sobre aqueles. Homem a homem, nas ruas, nos empregos, em toda a parte, espiam-se com rancor, e a um gesto equívoco é abatido o suposto adversário."

O "terror negro" dá lugar ao "terror branco". Dalila e Álvaro Mateus referem os "massacres e matanças indiscriminadas" que se seguiram ao levantamento da UPA, atestados por ofícios e relatórios de autoridades administrativas e militares. Há referências a "troféus de guerra", designadamente "frascos de álcool com dedos, orelhas e até cabeças de negros".

O "horror dos massacres criou o pânico" entre os brancos de Angola. E em Portugal as notícias da "barbárie e do morticínio" "abalaram as consciências e reforçaram o regime, apostado na guerra como solução para o problema colonial", consideram os autores de Angola 61. O rasto de sangue e o extremar de posições tornava mais difícil um futuro diferente em Angola. E nas outras colónias portuguesas em África. 
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sábado, fevereiro 05, 2011

4 de Fevereiro de 1961 - O princípio do fim da ordem estabelecida



Feridos são evacuados no Leste de Angola in A Guerra de África 1961-1974
Guerra colonial

O princípio do fim da ordem estabelecida

Por João Manuel Rocha
Meio século depois, os ataques de 4 de Fevereiro de 1961 em Luanda continuam a ter leituras diferentes. As investigações mais recentes indicam que o cónego Manuel das Neves, frequentemente referido como chefe do movimento, não o liderou e estava mesmo contra a acção. O levantamento foi um fracasso, mas marcou o início das guerras contra o colonialismo português Meio século depois, os ataques de 4 de Fevereiro de 1961 em Luanda continuam a ter leituras diferentes. As investigações mais recentes indicam que o cónego Manuel das Neves, referido como chefe do movimento, não o liderou e estava mesmo contra a acção. O levantamento foi um fracasso, mas marcou o início das guerras contra o colonialismo português. 
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Por João Manuel Rocha Fotografias de Fernando Farinha

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Os olhos e ouvidos estavam virados para o Recife. O paquete Santa Maria, desviado por Henrique Galvão, já nas mãos das autoridades navais brasileiras, ia nesse dia ser entregue ao adido militar da embaixada portuguesa no Rio de Janeiro. Mas a notícia acabou por chegar de Luanda: coisa nunca vista, grupos armados tinham atacado de madrugada cadeias e instalações oficiais, numa acção que, só mais tarde se perceberia, marcava o início das guerras coloniais.

O tom e as palavras do comunicado oficial do Governo-Geral de Angola divulgado naquele 4 de Fevereiro de 1961 pretendiam ser tranquilizadores - "os responsáveis já estão presos na maior parte e a ordem está restabelecida". O futuro mostrou que a apreciação era incorrecta: os acontecimentos de Luanda eram apenas o início da guerra nos territórios controlados por Portugal em África. A ordem nunca mais seria restabelecida.

Durante a madrugada, grupos de angolanos, armados sobretudo com catanas, procuraram assaltar a Casa de Reclusão Militar, a Cadeia da Administração de São Paulo, a Companhia Móvel da PSP, a Companhia Indígena e os Correios de Luanda. Resultado: sete elementos das forças de segurança e cerca de 15 atacantes mortos, um número indeterminado de feridos e também um sinal claro de que a harmonia colonial era um mito.

Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus, autores do livro Angola 61: Guerra Colonial, Causa e Consequências, o 4 de Fevereiro e o 15 de Março, ontem apresentado em Lisboa, reconhecem que o levantamento ainda é "objecto de discussão e luta ideológica, sendo reivindicado quer pelo MPLA [que se tornaria no partido do poder no pós-independência], quer pela FNLA/UPA", outro dos movimentos de libertação angolanos.

Mas a investigadora de História Contemporânea Portuguesa no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) e o marido, antigo dirigente da Casa dos Estudantes do Império e professor - que com ela escreveu Purga em Angola: o 27 de Maio de 1977 - consideram que, "apesar de alguns dos participantes militarem nestes movimentos (numa época em que a pertença a este ou àquele grupo não era um dado adquirido), a acção foi desencadeada à margem deles, por iniciativa duma improvisada direcção e por pressão de angolanos detidos e ameaçados de sair de Angola para outras prisões".

Já para o historiador angolano Carlos Pacheco, os ataques foram "evidentemente" uma acção da UPA, tanto mais que nessa altura o MPLA estava em fase embrionária e "reduzia-se a meia dúzia de pessoas em Conacri", afirmou ao P2. No livro Angola, um Gigante com Pés de Barro, publicado no ano passado, é ainda mais taxativo: "Nenhum dos revoltosos do 4 de Fevereiro tinha ligações ao MPLA."

A acção será no entanto reivindicada em Conacri pelo MPLA, no que, segundo Carlos Pacheco, terá sido uma ideia de Mário de Andrade, um dos seus primeiros dirigentes. A mesma versão é também apresentada por José Freire Antunes, que no livroA Guerra de África 1961-1977, do Círculo de Leitores, cita o irmão, Joaquim Pinto de Andrade. "O Mário disse para o Viriato da Cruz: " Temos que reivindicar isto". Mas, na verdade, o MPLA nada teve a ver com o 4 de Fevereiro."

Mas se o levantamento foi da UPA, por que não o reivindicou ela? "Havia duas UPA - A UPA do interior e a UPA do exterior, que não concordava com qualquer acção na capital e por isso não a reivindicou", afirma Pacheco.

Os sinais de mudança multiplicavam-se naquele início da década de 60. O sopro independentista traduzira-se, no ano anterior, no nascimento de 17 novos estados em África, entre eles o vizinho Congo, que vivia agora tempos conturbados. Nas Nações Unidas imperava a vontade descolonizadora, mas Portugal argumentava que os seus domínios ultramarinos não eram colónias ou territórios associados e que o que ali se passava era assunto interno.

Sinais de mudança
No terreno, o descontentamento e hostilidade para com o sistema colonial vinha também crescendo. "Já em 1956, o governador-geral de Angola tinha proibido fotografias de Nasser [Presidente egípcio] em jornais angolanos, visto serem depois afixadas nas casas como sinal de desafio a Portugal. E, em Novembro de 1958, a polícia secreta relatava que o "movimento separatista" redobrava os seus esforços para espalhar a mensagem por Angola", escreveu Filipe Ribeiro de Meneses na obra Salazar - uma Biografia Política, editada no ano passado pela D. Quixote. "Em finais de 1960 já não restavam dúvidas de que a violência estava prestes a chegar a Angola. A questão agora era apenas quando ela rebentaria e se podia ou não ser contida." Relatos de deserções e rumores que circulavam em partes de Angola de que os portugueses tinham envenenado o óleo de amendoim "com o objectivo de matar tantos negros quanto possível" aumentavam a preocupação das autoridades coloniais.

No início de Janeiro, os trabalhadores das fazendas de algodão da Baixa do Cassange, distrito de Malange, "pousaram as ferramentas em protesto contra as terríveis condições de trabalho" a que eram sujeitos pela empresa Cotanang, um tratamento que o próprio governador-geral, Álvaro da Silva Tavares, considerava necessário modificar. O protesto, violentamente reprimido, é considerado por Dalila e Álvaro Mateus um "verdadeiro levantamento contra o regime colonial, embora nunca tivesse sido colocada a consigna da independência nacional".

Já a 4 de Fevereiro as motivações eram claramente outras. No livro que editou no ano passado, Carlos Pacheco procura reconstituir a preparação e o desenrolar da acção. Os revoltosos ter-se-ão concentrado a partir de 8 de Janeiro nas pedreiras de Cacuaco, nos arredores de Luanda, em pequenos grupos, para não chamarem a atenção da polícia, e aí receberam "rudimentos de treino" de Bento António, identificado como pedreiro a cumprir serviço militar no Exército português. Paralelamente, "ritualizaram-se sessões de reza em feitiçaria, mediante a ingestão de três doses de cadingolo [bebida semelhante à aguardente] por cabeça", para desse modo "imunizar os combatentes "contra as balas dos brancos"".

Os ataques em Luanda, escreveu, estariam apenas previstos para 13 de Março, coincidindo com a sublevação que veio a ocorrer a 15 desse mês no Norte de Angola - a outra data marcante no início das guerras em África - e com um debate sobre o território agendado pelas Nações Unidas. Terá sido a presença de jornalistas estrangeiros - que se tinham deslocado a Luanda na expectativa de que o Santa Maria pudesse rumar a Angola - a levar os revoltosos a "não esperar mais". Também Dalila e Álvaro Mateus consideram que a data "não foi casual" e "aproveitava o facto de estarem em Luanda dezenas de jornalistas estrangeiros".

Logo nas primeiras notícias sobre o caso é referida uma eventual relação entre o levantamento de Luanda e o desvio do paquete, mas nenhum dos investigadores encontrou elementos que dêem corpo a essa hipótese. Ainda assim, os autores de Angola 1961, editado pela Texto, referiram ao P2 que um dos envolvidos no 4 de Fevereiro, Imperial Francisco Santana, afirmou ter ouvido Domingos Manuel António, o "chefe-geral", dizer que o ataque se fazia naquela ocasião "para coincidir com as revoltas que os portugueses promoviam na Metrópole contra o governo de Salazar". Dalila e Álvaro Mateus consideram "perfeitamente possível que houvesse contactos entre alguns dirigentes do 4 de Fevereiro e elementos da oposição portuguesa em Angola".

Na manhã de 3 de Fevereiro, segundo o relato de Carlos Pacheco, um dos revoltosos, Salvador Sebastião, deslocou-se à Igreja dos Remédios e explicou ao cónego Manuel das Neves, membro da UPNA - antecessora da UPA - desde 1955 e inspirador da luta contra o colonialismo, a mudança de planos e a decisão dos chefes operacionais de passarem à acção na madrugada seguinte.

O sacerdote considerava que era tempo de "os africanos converterem a sua cultura pacífica de protesto num grande momento de rebelião capaz de provocar violento abanão no edifício colonial". "Se não querem o diálogo ou não querem negociar, então não há outra solução", respondeu, segundo Pacheco, a alguém que, em 1960, o abordou na Sé Catedral, perguntando o que pensava dos movimentos nacionalistas. Mas agora, Manuel das Neves manifestava "muitas reticências" à iminente acção porque "percebeu que a revolta ainda não estava suficientemente madura" e "não interessava atacar às cegas". Terá, no entanto, concluído que "os seus argumentos nessa altura soavam inadequados" e que "não lhe restava outra alternativa senão resignar-se e abençoar a impaciência e o destemor daquele punhado de homens". "Acabou por ser ultrapassado, achava que a acção era extemporânea", confirmou agora o autor angolano.

Cónego estava contra
Dalila e Álvaro Mateus também dão crédito às informações que referem as reservas de Manuel das Neves, que tinha como pseudónimo "Amigo de Makarius", e era o principal dirigente do movimento no território. No depoimento dado invocam o testemunho de um participante na acção, Mateus Sebastião Francisco, segundo o qual o sacerdote declarou na véspera: "Olhem, meus amigos, se quiserem fazer, façam. Mas eu é que não posso assumir a responsabilidade." E também o de Porto Duarte, um subdirector da PIDE, segundo o qual o prelado tivera conhecimento da preparação do 4 de Fevereiro, mas nada fizera para o evitar.

Os autores do livro ontem apresentado citam mesmo um relatório enviado ainda em Fevereiro por Neves à direcção da UPA, onde o cónego escreveu que "os tumultos" foram "estupidamente engendrados". "Peço mesmo licença para dizer que deviam ser fuzilados por nós, angolanos, todos quantos os idealizaram, porque sabiam que daria em fracasso e, consequentemente, morte de gente em massa", refere o documento, constante dos arquivos da polícia política. A PIDE teria aproveitado a situação para se ver livre de Neves, que seria preso em Março e enviado para Portugal no mês seguinte.

Carlos Pacheco defende que à cabeça dos revoltosos estava Adão Neves Bendinha, um empregado de escritório, militante da UPA, "figura central" do movimento, e responsável pelo recrutamento de boa parte dos nacionalistas angolanos envolvidos na acção e que seriam sobretudo carpinteiros, pedreiros, marceneiros, sapateiros, pescadores, alfaiates e pintores da construção civil. Mas o casal Mateus chegou a uma conclusão bem diferente: o "chefe-geral" do levantamento foi Domingos Manuel Agostinho, presidente de uma "sociedade" que tinha como objectivo central lutar pela independência de Angola. Agostinho, referem, "manifestou, por mais de uma vez e a vários participantes, a sua simpatia por Agostinho Neto e por outros elementos conotados com o MPLA". Para eles, Bendinha era um personagem secundário, que teria sido informado por um membro da UPA da existência de um grupo que estava a preparar-se para fazer "confusão" e que foi "recrutado tardiamente", já em Janeiro de 1961.

Um fracasso
Como previa o cónego Manuel das Neves, a primeira grande acção armada contra o colonialismo português saldou-se por um fracasso. Um grupo que se proporia atacar o Aeroporto Craveiro Lopes e incendiar aviões dispersou antes de chegar ao local, alegadamente por ter ouvido tiros. E nos outros objectivos os atacantes foram rechaçados, sem que conseguissem libertar presos ou obter armas de fogo.

O ponto de partida para a acção foi, segundo Carlos Pacheco, nas traseiras da estação ferroviária do Mota, a pouca distância do Campo da Académica. "Todos levavam à cintura uma fita com um sortilégio ou um pauzinho nos dentes [de 20 centímetros de comprimento], que se acreditava conter propriedades imunizantes." Os participantes nos ataques são estimados em mais de 200 em ambas as investigações.

O grupo que se dirigia à Casa de Reclusão deparou-se com um carro da PSP que o terá procurado interceptar - matou os quatro ocupantes e apoderou-se das suas armas. Mas no que era o seu objectivo principal não passou do pátio e, ainda que tivesse provocado baixas entre os defensores, foi repelido a fogo de metralhadora.

Os que se propunham assaltar a Companhia Indígena recuaram também face aos disparos que os receberam. Sempre segundo Pacheco, na Cadeia da Administração de São Paulo, foi morto um guarda, mas, face à reacção, o grupo assaltante fugiu. Na estação central dos correios na Baixa de Luanda foi morto um militar, mas, após alguma luta, os atacantes recuaram, seguindo em direcção à Companhia Móvel da PSP, um centro prisional de onde não conseguiram aproximar-se devido ao fogo cerrado que saía do interior.

O primeiro comunicado do Governo-Geral de Angola sobre o 4 de Fevereiro invoca "informações" recebidas nos dias anteriores de que estaria a preparar-se "uma alteração da ordem pública", mas Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus consideram que a acção foi "uma surpresa para militares, polícias e autoridades civis". Ao contrário do que sucederia uma semana depois, na noite de 10 para 11, quando se deu uma nova tentativa de assalto à Administração Civil da Cadeia de São Paulo, bem como à Companhia Indígena. Esta segunda acção já seria "esperada pelas autoridades coloniais, razão que explica o elevado número de mortos e feridos" e inúmeras prisões entre os revoltosos. As acções de Fevereiro de 1961 fizeram virar os olhares para Angola e deram visibilidade à luta contra o colonialismo português.

As retaliações e a repressão não tardaram. No funeral dos polícias mortos no dia 4, depois de alegadamente provocados, civis brancos abriram "fogo indiscriminadamente" contra africanos, numa acção que terá provocado 19 mortos e muitos feridos. Como escreveu Filipe Ribeiro de Meneses, "a população branca de Luanda resolveu fazer justiça pelas próprias mãos".

O "fosso racial", como o descreve um relatório militar de Abril de 1961, era agora bem evidente. Mas o pior estava para vir. A 15 de Março, dá-se a sublevação no Norte de Angola, uma revolta "prevista", mas que "surpreendeu e perturbou" pela "intensidade, rapidez e selvajaria", como a descreve o casal Mateus, e que provoca a morte de mais de 800 brancos e milhares de negros ao seu serviço, segundo as estimativas conhecidas.

Uma carta escrita no início de Abril por um oficial superior da polícia ao pai, que chegou ao conhecimento de Oliveira Salazar e é citada por Meneses, mostra o ponto a que se tinha chegado, com a actuação de milícias civis, que, dizia, "caçam pretos como quem caça coelhos". Mas essa é já outra história. "O 4 e o 11 de Fevereiro foram as primeiras acções, clara e conscientemente, dirigidas contra o colonialismo português", consideram Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus. "Teve, simbolicamente, a importância de ser o ponto de arranque", refere Carlos Pacheco.

Quando, pela segunda vez nos seus governos, a 13 de Abril, assume a pasta da Defesa, e dessa forma anula o frustrado golpe de Botelho Moniz, Salazar justifica a remodelação com a situação na maior das colónias africanas, fala da necessidade de a defender a todo o custo e usa palavras que haviam de ficar célebres, ao determinar que era altura de "andar rapidamente e em força" para Angola.
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segunda-feira, novembro 22, 2010

Todos os anos cem milhões ficam pobres por se tratarem

Relatório anual da Organização Mundial de Saúde

22.11.2010 - 21:00 Por João Manuel Rocha
Cem milhões de pessoas são todos os anos atiradas para a pobreza devido aos encargos com a saúde. O problema é mais comum em países vulneráveis, mas atinge também economias desenvolvidas, refere o relatório anual da Organização Mundial de Saúde (OMS).
“Ninguém deve ser forçado à ruína para se tratar”, indignou-se Margaret Chan, directora da OMS  
“Ninguém deve ser forçado à ruína para se tratar”, indignou-se Margaret Chan, directora da OMS (Tobias Schwarz/Reuters)
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O caso mais flagrante de países desenvolvidos onde a “facturação dos cuidados de saúde” recai essencialmente sobre os utentes é o dos Estados Unidos. Um estudo da Universidade de Harvard referido pela OMS, e citado pela AFP, indica que as doenças e gastos com a saúde foram em 2007 responsáveis por 62 por cento das situações de ruína de famílias norte-americanas, contra 50 por cento em 2001.

Portugal é referido pela OMS como um dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) em que parte da população enfrenta dificuldades financeiras para suportar os custos de saúde. “Ninguém deve ser forçado à ruína para se tratar”, indignou-se Margaret Chan, directora-geral da organização.

O Relatório sobre a Saúde do Mundo 2010, apresentado em Berlim, no início de uma conferência ministerial sobre financiamento do sector, aponta três caminhos para melhorar os cuidados: reforço do financimento público, através de soluções inovadoras; obtenção de fundos de modo mais equitativo e melhoria da eficiência dos serviços de saúde.

O documento é divulgado quando o mundo está longe da cobertura universal a que os 192 membros da organização das Nações Unidas para a saúde se comprometeram em 2005. Surge também numa altura em que a crise aumentou as dificuldades orçamentais e muitos países enfrentam uma subida dos encargos devido ao envelhecimento populacional.

40 por cento de desperdício

A OMS calcula que 20 a 40 por cento do dinheiro investido em saúde seja desperdiçado, o que a leva a recomendar medidas que permitam uma maior eficiência, através do uso de medicamentos genéricos sempre que possível e da melhoria de funcionamento das redes hospitalares. A organização refere que metade a dois terços do financiamento público é absorvido pelos hospitais e calcula em quase 300 mil milhões de dólares o desperdício provocado pela sua falta de eficiência.

“Num momento em que o dinheiro escasseia, o conselho é o seguinte: antes de procurarem onde cortar gastos com assistência médica, há que procurar opções que melhorem a sua eficiência”, refere Margaret Chan.

Se essas recomendações podem servir a alguns países, noutros o problema é mesmo o fraco financiamento. A OMS calcula em 44 dólares per capita o financiamento para garantir serviços mínimos de qualidade nos países com menores recursos e se muitos já conseguem afectar o equivalente a esse valor, 31 países gastam menos de 35 dólares anuais por pessoa e, nesses casos, a ajuda internacional é importante.

Uma estimativa da organização indica que se os 49 países mais pobres do mundo destinassem 15 por cento dos orçamentos à saúde, isso representaria 15 mil milhões de dólares suplementares por ano, o que quase duplicaria os meios de que dispõem. A meta de 15 por cento foi um compromisso assumido pelos chefes de Estado africanos em 2000 e que a Libéria, Ruanda e Tanzânia já alcançaram.

O aumento de verbas poderia ser conseguido com uma maior eficiência do sistema fiscal, como fez a Indonésia – que desse modo aumentou as receitas em dez por cento – ou por novas formas de obtenção de fundos, caso de taxas sobre vendas ou transacções financeiras. Esta última via foi seguida no Gana, que paga parcialmente o seu seguro nacional de saúde com 2,5 por cento do que arrecada em IVA. A Índia é referida como exemplo de um país que poderia obter 370 milhões de dólares anuais com o agravamento de 0,005 por cento da taxa sobre transacções em divisas.

Outro dos caminhos apontados é o aumento de impostos sobre o tabaco.

Para evitar que o pagamento dos cuidados de saúde recaia excessivamente sobre quem adoece e conseguir uma distribuição “mais equitativa” dos meios para assegurar a saúde, a OMS refere como opção o sistema de “contribuições obrigatórias”, através de seguros de saúde ou de impostos. A solução, de que países como o Japão são um expoente, ganhou na última década terreno em muitos estados, do Chile à Turquia ou ao Brasil.
 
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domingo, junho 06, 2010

Vaga de compra de jornais independentes em Angola



Semanário Angolense, A Capital e Novo Jornal adquiridos por accionista desconhecido

05.06.2010 - 19:29 Por João Manuel Rocha
Um grupo de capitais privados angolanos até agora desconhecido, mas que terá laços com o Governo, anunciou anteontem a compra de três dos jornais mais independentes do país, que se têm caracterizado por um posicionamento crítico.
A Capital foi um dos jornais comprado pelo desconhecido grupo 
Media Investments, 
A Capital foi um dos jornais comprado pelo desconhecido grupo Media Investments, (Mike Hutchings/Reuters)



O negócio está a levantar preocupações sobre a liberdade de imprensa, reforçadas pela mudança de direcção no Semanário Angolense.

A operação traduziu-se na aquisição pelo grupo Media Investments da totalidade do capital do Semanário Angolense e A Capital e de 40 por cento do Novo Jornal. No caso deste último, a entrada no jornal decorreu da cedência de parte da participação da portuguesa ESCOM, do Grupo Espírito Santo, que era de 55 por cento.

Um comunicado do grupo comprador, citado pela Lusa, refere que foi “uma transacção normal, ditada exclusivamente por factores de mercado”. O nome dos accionistas e os montantes envolvidos não foram divulgados. A Media Investments torna-se assim no terceiro maior grupo de media do país, a seguir ao Governo e à Media Nova, cujos proprietários têm supostamente ligações ao executivo.

Nas jornais comprados têm escrito algumas das vozes mais críticas do Governo, caso de Rafael Marques, no Semanário Angolense, e do escritor José Eduardo Agualusa, autor de uma coluna em A Capital. As aquisições ocorrem numa altura em que, notou a Reuters, o Semanário Angolense intensificara as reportagens sobre corrupção.

Um dos primeiros efeitos da compra deste último jornal – que, nas suas investigações, tem tido como um dos alvos mais frequentes o presidente da empresa petrolífera Sonangol, Manuel Vicente – foi a saída do fundador e director, Graça Campos, e o fim da colaboração de Rafael Marques. “O director saiu e disseram-me que eu não escrevo mais para o Semanário Angolense”, afirmou o jornalista à agência. “É muito estranho que o Semanário Angolense seja vendido a uma empresa desconhecida, quando aumentava as críticas ao Governo”, acrescentou.

Reginaldo Silva, jornalista e membro do Conselho Nacional de Comunicação Social, considera importante esclarecer os montantes envolvidos e saber quem são os accionistas da Media Investments. Em declarações à rádio Luanda Antena Comercial, citadas pela Lusa, disse que é preciso saber qual o interesse do grupo em “investir tanto na comunicação social”.
  

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http://publico.pt/1440682

Comentários 1 a 10 de 10

  1. CarlosLux . 05.06.2010 20:44
    Via PÚBLICO

    Democracia?

    Mas porque carga d'água vocês querem tanto mal aos Angolanos? Já viram o que a Democracia fez a este rectângulo à beira mal plantado? Deixem lá os Angolanos serem felizes.
  2. Camila , Coimbra. 05.06.2010 23:43

    A imagem do hemisfério sul pós-colonial...

    Floresce o que de pior foi lá plantado pelos colonizadores. Um dia talvez se volte contra os netos e os bisnetos dos colonizadores, aparvalhados que andam com a massificação dos ideais do Maio de 68, if you know what I mean. A felicidade e o prazer a todo o preço, aqui e agora, estupidificam.
  3. jornas... , a voz do dono. 05.06.2010 21:33

    .....

    mas que notícia da treta, olhem para o vosso umbigo...então aqui o publicosinho não é dum "grupo económico" com vastos interesses políticos e que apesar de há decadas dar prejuízo, ainda funciona..porque será...digam lá...
  4. Partido dos Pobres , Portugal. 05.06.2010 21:11

    Grupo económico é grupo económico!!!!

    É normal os jornais em Portugal e na Europa também foram comprados por grupos económicos por razões políticas! Querem um exemplo! Claro! Cá vai! Os jornais são neo-liberais (95%, incluindo RTP, TVI e SIC) pelo que anunciam como salvação da crise o que levou à crise! Não acreditam???? A Hungria afirmou que ia reduzir os impostos (a famosa competitividade de Cavaco Silva, Bagão Félix, Portas, CDS e PSD)! Ora o que se esperava de tantas boas notícias!!! Que a Hungria subisse para AAAAAA . CERTO! O que aconteceu depois do anúncio de tantas boas práticas neo-liberais???? As bolsas Europeias entraram em pânico! Pois era Hungria ameaçou transformar-se em mais uma Grécia!!!!! Como vêem ATÉ já o grande capital foge do neo-liberalismo! Pois sabe que país que não tem rendimentos (fiscais) não paga dívidas! - - - - Assim se vê que quem compra jornais a perder dinheiro outras intenções tem!
  5. Não quero Saber , Algueres em Angola. 05.06.2010 21:08

    que se lixe

    Não quero saber, desde que eu faça o meu cumbo, por mim quero lá saber quem manda em Angola, só quero a minha parte do bolo, o resto que se lixe não quero nem saber...
  6. Anónimo , Cadaval, Portugal. 05.06.2010 20:38

    a fotocópia

    ... devem ter lido no Sol os escritos sobre a compra da TVI pela PT e ... lemnbraram-se de aplicar algo de similar às vozes críticas ... que falta de originalidade ... eh eh
  7. Senra Lopes , Braga. 05.06.2010 20:22

    Serão?

    Não serão os mesmos que estão por detrás do Sol?
  8. beachboy , lx. 05.06.2010 20:19

    o actual governo angolano...

    ...torna o antigo presidente do zaire, Mobutu um menino do coro!...em matéria de corrupção não à pior...enquanto o seu pvo vive na mais profunda miséria!...é um dos governos mais repugnates do mundo!...
  9. Jakim , Perafita. 05.06.2010 20:10

    ai,ai

    Capitais desconhecidos? Para mim cheira-me que é a Santos
  10. Media Investor , Gibraltar. 05.06.2010 19:57

    Media Investments?

    Cheira-me a offshore, devidamente protegida, criada por membros do governo Angolano, com o firme proposito de calar os que escrevem e criticam... penso eu de que...
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terça-feira, março 30, 2010

Guerra: o negócio que dá milhões


Foi na América do Sul que se registou o salto mais significativo DIMA KOROTAYEV/REUTERS

Nem a crise económica trava corrida internacional ao armamento

Por João Manuel Rocha
China e Índia estão mais contidas, mas mantêm liderança nas compras. EUA, Rússia e três grandes da UE são os principais fornecedores

Há uma corrida às armas na Ásia e na América do Sul, e, ainda que em menor escala, no Médio Oriente. Em África moram também importantes clientes de armamento convencional, uma indústria em que os compradores até podem ir variando, mas os grandes vendedores são quase sempre os mesmos.

É isso, e mais, que diz o último relatório do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri). O estudo confirma que no período 2005-2009 as vendas aumentaram 22 por cento face aos cinco anos anteriores, apesar da crise, e que a distribuição regional se manteve relativamente estável, com a região Ásia-Oceânia como principal compradora, seguida por Europa, Médio Oriente, Américas e África. Os aviões de combate representam 27 por cento do volume de transacções, refere o estudo do Sipri, que desde 1966 faz o levantamento dos movimentos de armas convencionais, caso de aviões, blindados, artilharia, sensores, mísseis, navios ou submarinos. As armas ligeiras e munições não estão incluídas.

"Estados com recursos compraram quantidades consideráveis de aviões de combate a preços elevados. Os países vizinhos reagiram a essas aquisições com as suas próprias en- comendas", observa Paul Holtom, responsável pelo programa de acompanhamento da transferência de armas do Sipri. "As encomendas e entregas dessas armas potencialmente desestabilizadoras levaram a uma corrida ao armamento em regiões onde reina a tensão: Médio Oriente, Norte de África, América do Sul, Ásia do Sul e Sudeste asiático", assinala o relatório.

O trabalho do instituto não regista os fluxos financeiros reais das operações. Para elaborar as suas tabelas, o Sipri compara períodos de cinco anos e calcula o valor dos equipamentos tendo em conta o seu "poder militar". "É uma forma de comparar a uma escala global, uma vez que algumas armas são vendidas a "preço de saldo" em alguns países e como "bens de luxo" noutros", explicou ao PÚBLICO a directora de comunicação do Sipri, Stephanie Blenckner. O instituto fez até 2007 estimativas de custos, mas abandonou essa prática, até porque informação rigorosa é coisa que muitos governos não fornecem. As tendências e variações percentuais registadas permitem, no entanto, identificar fluxos de armamento e pólos de tensão no globo.

A China e a Índia abrandaram as compras, em 20 por cento e sete por cento, respectivamente, mas continuam a ser os dois grandes compradores mundiais. Mas outros países seguiram a tendência inversa. Foi o caso de Singapura, Estados Unidos, Paquistão ou Malásia, que nos últimos anos reforçaram os investimentos em equipamento militar. O grupo dos cinco principais compradores - em que à China e Índia se juntam Emirados Árabes Unidos, Coreia do Sul e Grécia - foi responsável por 32 por cento do total das aquisições, uma quota ligeiramente menor do que os 38 por cento do quinquénio anterior.

Riscos de desestabilização

Os países agrupados na categoria Ásia-Oceânia importaram 41 por cento das armas convencionais, o que representa uma subida de 11 por cento face a 2000-2004. Para o Nordeste asiático foram vendidas 46 por cento do total de armas compradas na região, contra 27 por cento da Ásia do Sul e 20 por cento do Sudeste asiático.

Entre os dez principais importadores mundiais cinco são asiáticos: à China e Índia somam-se a Coreia do Sul, na terceira posição, Singapura, na sétima, e Paquistão, na décima. No Sudeste asiático as compras quase duplicaram, com alguns países a registarem crescimentos astronómicos: 722 por cento a Malásia, 146 Singapura, 84 a Indonésia. Singapura tornou-se no primeiro estado da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) a integrar a lista de maiores compradores de armas desde o fim da guerra do Vietname, nos anos 1970, destaca o Sipri.

A "vaga de aquisições pode desestabilizar a região, pondo em causa décadas de paz", afirma o especialista do instituto em Ásia, Siemon Wezeman. Analistas citados pelo Financial Times e pela BBC vêem o crescimento das compras de armamento na região como uma resposta ao poderio da China e associam-no a receios de que as disputas territoriais possam assumir um carácter bélico.

A Europa recebeu 24 por cento das armas transaccionadas, uma ligeira quebra percentual face aos 25 por cento do período anterior, mas mantém-se como segundo grande blo- co importador. E nela é a Grécia o principal receptor, ainda que tenha descido da terceira para a quinta posição mundial. A transferência de 26 aviões de combate norte-americanos F-16C e de 25 Mirage-2000-9 franceses representou por si só 38 por cento das importações de Atenas, tradicional grande comprador devido à histórica tensão com a vizinha Turquia.

Os países das Américas ficaram com 11 por cento das importações globais, percentagem equivalente à dos cinco anos anteriores. Os Estados Unidos são o maior cliente do continente, oitavo na tabela global, o que não é uma surpresa. Mas foi na América do Sul que, com um crescimento de 150 por cento sobre o período anterior, se registou o salto mais significativo. O Chile, com aquisições recentes de tanques alemães e aviões de combate brasileiros, surge como o principal comprador da região, décimo terceiro na tabela global. Mas a Venezuela, o Brasil e o Peru têm também estado muito activos. "Há sinais de com- petição na compra de armas na América do Sul. Isto mostra que precisamos de mais transparência e medidas de confiança para reduzir a tensão na região", comentou Mark Bromley, investigador do Sipri e especialista em América Latina.

O Médio Oriente, destino de 17 por cento das armas transaccionadas, registou um aumento de 22 por cento nas importações. Uma análise mais fina mostra que o principal cliente na região, quarto a nível mundial, foram os Emirados Árabes Unidos, com 33 por cento, seguidos de Israel, com 20, e Egipto, com 13. O Irão surge num discreto vigésimo nono lugar, mas foi o segundo maior cliente da China, tendo-lhe comprado, segundo dados complementares divulgados pela agência AP, mais de mil mísseis terra-ar e terra-mar e meia centena de veículos de combate.

África representa uma fatia de sete por cento no negócio de armas convencionais, um por cento a mais do que nos cinco anos precedentes. A Argélia, com 43 por cento das compras do continente e presença no top ten mundial, e a África do Sul, com 28 por cento, são os grandes importadores. O terceiro cliente de armas convencionais é o Sudão, com cinco por cento do total. Os fluxos de armas para zonas instáveis mantêm-se: Chade e Quénia são, além do Sudão, destinos referenciados pelo Sipri, que faz eco de rumores de que parte do equipamento enviado para este último país teria como destino final o Governo do Sul do Sudão.

Os conflitos locais levaram a que sete dos 12 embargos a vendas de armas aprovados no ano passado pelas Nações Unidas, muitos com uma eficácia duvidosa e frequentemente violados, visassem países africanos. "Em diversos casos, volumes relativamente pequenos de armas fornecidas a países da África subsariana tiveram um forte impacto nas dinâmicas dos conflitos regionais", lembra o instituto.
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Cinco países vendem três quartos do total

Portugal é vigésimo oitavo exportador mundial

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Estados Unidos da América, Rússia, Alemanha, França e Reino Unido. À excepção da troca de posições entre Alemanha e França, a tabela de grandes fornecedores mundiais de armas convencionais manteve, no período 2005-2009, os mesmos países nos lugares que já ocupavam no período anterior. Todos juntos, os cinco maiores exportadores foram responsáveis por 76 por cento do total das vendas, abaixo dos 80 por cento do período anterior.

Nos últimos cinco anos, os Estados Unidos, que em 2005-2009 exportaram 30 por cento do total das armas convencionais transaccionadas, venderam equipamento militar a sete dezenas de países e à Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). Os seus principais clientes foram países da Ásia, 39 por cento, do Médio Oriente, 36 por cento, e Europa, 18 por cento, refere o relatório do Sipri.

Os aviões de combate representam 39 por cento das vendas norte-americanas, um valor percentualmente semelhante aos 40 por cento que o mesmo tipo de material de guerra pesou nas transacções feitas pela Rússia, a segunda grande fornecedora global. O mercado asiático foi o destino de 69 por cento das exportações de Moscovo.

A Alemanha duplicou as suas exportações face aos cinco anos anteriores, em boa medida devido à transacção de blindados, principalmente a outros estados europeus, e ultrapassou a França, embora esta tenha aumentado as vendas em 30 por cento, muito à custa de venda de aviões Mirage 2000. No conjunto de países que completam o top 5de fornecedores, o Reino Unido baixou 13 por cento.

Portugal, que não surgia entre os 50 primeiros das tabelas do relatório do instituto sueco no período 2000-2004, aparece em 2005-2009 no vigésimo oitavo lugar na lista de exportadores e em trigésimo primeiro na de importadores. J.M.R.
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sexta-feira, maio 18, 2007



Agravamento do desemprego dá razão à Greve Geral

* CGTP

A evolução do mercado de emprego no 1º trimestre de 2007 fica novamente marcada pelo aumento do desemprego. É o segundo trimestre consecutivo em que se verifica um crescimento do desemprego em termos homólogos e o segundo em que a taxa desemprego é superior à verificada em termos médios na União Europeia a 27.

A taxa de desemprego subiu 0,7 pontos percentuais no último ano e 0,2 pontos percentuais em termos trimestrais, sendo agora de 8,4%. A situação é particularmente grave entre os jovens, com uma taxa de desemprego de 18,1%. As mulheres são também particularmente atingidas, com uma taxa de 9,9%.

Há mais 40 mil desempregados do que no 1º trimestre de 2006, atingindo o desemprego oficial 469,9 mil pessoas, o que corresponde a um agravamento de 9,4%. O desemprego cresceu mais entre as mulheres (mais 10%), entre os jovens da faixa etária 25-34 anos (15,1%), entre os diplomados com ensino superior (mais 32,2%, atingindo já 55,9 milhares). A taxa de desemprego mais elevada verifica-se no Norte (9,5%), tendo havido aumentos em todas as regiões, excepto no Alentejo. O desemprego de longa duração continua elevado, com um peso de 49,2% no total dos desempregados.

Apenas os serviços e a construção criaram emprego (mais 0,1% e 1,6%, respectivamente, em termos homólogos), o que se traduziu num aumento negligenciável do emprego global (0,2%). A taxa de emprego (15-64 anos) teve também uma diminuição face ao trimestre homólogo e ao trimestre anterior, situando-se agora nos 67,4%.

A precariedade aumentou 12,6% neste período, atingindo mais de 835 mil trabalhadores e elevando a percentagem de contratos não permanentes para os 21,5%. Os trabalhadores com emprego estável (contrato sem termo) reduziram-se em 2,4%, ao mesmo que houve uma quebra no emprego a tempo inteiro e um aumento de 9,2% do emprego a tempo parcial.

Estes dados contrastam com o aumento do crescimento económico divulgado esta semana pelo INE que, além de não ser suficiente para aumentar o emprego e estancar o desemprego, é inferior ao observado na UE27 (2,1% face a 3,2%).

E contradizem os dados do IEFP referentes aos desempregados inscritos nos centros de emprego em Abril (bem como dos meses anteriores) que apontam para uma diminuição do desemprego registado em 10,4%.

Os dados agora divulgados reforçam as razões que levaram a CGTP-IN a marcar a Greve Geral de 30 de Maio e justificam a exigência de uma mudança de rumo nas políticas que têm vindo a ser seguidas.

Lisboa, 17 de Maio de 2007

CGTP - Comunicado à Imprensa n.º 022/07

Taxa de desemprego subiu para o valor mais alto dos últimos 21 anos

* João Manuel Rocha, Sérgio Aníbal


Depois de no início da semana ter dado a conhecer que a economia portuguesa acelerou no primeiro trimestre para um valor acima dos dois por cento, ontem, o Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou os números de desemprego referentes aos primeiros três meses de 2007: o número de desempregados voltou a aumentar e para encontrar um valor superior ao anunciado ontem é preciso recuar 21 anos, mais precisamente, até ao segundo trimestre de 1986.

Os números mostram, assim, que Portugal tinha 469.900 desempregados no final do primeiro trimestre deste ano, número que representa uma taxa de desemprego de 8,4 por cento, mais 0,7 pontos percentuais do que no mesmo período do ano passado e mais 0,2 pontos acima do último trimestre de 2006. Mas as estatísticas divulgadas mostram também que o actual ritmo de crescimento económico, apesar de estar em aceleração, não é ainda suficiente para alimentar uma descida do desemprego.

Desagregando os números ontem divulgados, verifica-se, por outro lado, que o desemprego não afecta todos de igual forma e a situação mais grave é a que se verifica na população entre os 15 e os 24 anos, com uma taxa de desemprego de 18,1 por cento, um valor que representa um aumento face aos 15,7 por cento registados no período homólogo e aos 17,9 por cento do final de 2006.

A subida do desemprego anunciada ontem explica-se mais por um fenómeno de incapacidade de arranjar emprego do que perdas de postos de trabalho. A análise dos fluxos do mercado de trabalho mostra que das cerca de 165 mil pessoas que entraram na vida activa, apenas 65 mil conseguiram emprego. As outras cerca de cem mil engrossaram o lote de desempregados.

Como varia o desemprego

De acordo com o INE, o aumento de desemprego face ao trimestre anterior resulta do efeito conjugado do aumento da população desempregada (2,5 por cento, abrangendo 11.300 pessoas), acompanhado por um decréscimo da população empregada (0,1 por cento, abrangendo 7100 pessoas).

A variação do desemprego entre os primeiros trimestres de 2006 e 2007 é explicada essencialmente pelo aumento do desemprego nalguns grupos bem identificados: mulheres, indivíduos com idade entre os 25 e os 34 anos, pessoas com habilitações que não vão além do 9.º ano de escolaridade, os que estão à procura de novo emprego — sobretudo oriundos das áreas da indústria, construção, energia e água —, e os que procuram novo trabalho há seis meses ou menos. Em números absolutos, no caso das mulheres deu-se um aumento de 23.500 desempregadas (contra 16.600 homens), entre os mais jovens o número de desempregados aumentou 20.400.

No primeiro trimestre deste ano, as taxas de desemprego mais elevadas foram registadas nas regiões Norte e Alentejo (9,5 por cento em ambos os casos) e Lisboa (8,8 por cento). Os valores mais baixos foram verificados nos Açores (4,7 por cento) e no Centro (6,7 por cento). Face ao trimestre homólogo, nota-se um acréscimo em todas as regiões, excepto no Alentejo, onde se registou uma descida de 0,3 pontos percentuais. A maior subida aconteceu na Madeira (2,3 pontos percentuais que empurraram a taxa para 6,9 por cento).

Numa reacção aos indicadores ontem divulgados, o ministro do Trabalho, Vieira da Silva, disse à Lusa que há dados que contrariam a tendência de aumento do desemprego mostrada pelo INE e que, a manter-se a aceleração do crescimento económico, Portugal está em condições de conter e começar a reduzir o desemprego. Este problema é "uma preocupação da sociedade e do Governo", mas há "dados recentemente divulgados que mostram um sentido contrário" aos elementos do INE e que apontam para "alguma recuperação", acrescentou.

in Público 2007.05.18

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