A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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sábado, fevereiro 12, 2011

Chomsky: EUA estão seguindo seu velho manual no Egito

Mundo

Vermelho - 9 de Fevereiro de 2011 - 10h39

Em entrevista a Amy Goodman, do Democracy Now, o linguista e professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Noam Chomsky, analisa o desenrolar dos protestos no Egito e o comportamento do governo dos Estados Unidos diante deles. Na sua avaliação, o governo Obama está seguindo o manual tradicional de Washington nestas situações.

Nas últimas semanas, os levantes populares ocorridos no mundo árabe provocaram a destituição do ditador Zine El Abidine Bem Ali, o iminente fim do regime do presidente egípcio Hosni Mubarak, a nomeação de um novo governo na Jordânia e a promessa do ditador de tantos anos do Iêmen de abandonar o cargo ao final de seu mandato.

Leia também:
Noam Chomsky fala nesta entrevista sobre o que isso significa para o futuro do Oriente Médio e da política externa dos EUA na região. Indagado sobre os recentes comentários do presidente Obama sobre Mubarak, Chomsky disse: “Obama foi muito cuidadoso para não dizer nada; está fazendo o que os líderes estadunidenses fazem habitualmente quando um de seus ditadores favoritos têm problemas, tentam apoiá-lo até o final. Se a situação chega a um ponto insustentável, mudam de lado”. Veja abaixo a entrevista completa.


Democracy Now: Qual é sua análise sobre o que está acontecendo e como pode repercutir no Oriente Médio?

Noam Chomsky: Em primeiro lugar, o que está ocorrendo é espetacular. A coragem, a determinação e o compromisso dos manifestantes merecem destaque, E, aconteça o que aconteça, estes são momentos que não serão esquecidos e que seguramente terão consequências a posteriori: constrangeram a polícia, tomaram a praça Tahrir e permaneceram ali apesar dos grupos mafiosos de Mubarak.


O governo organizou esses bandos para tratar de expulsar os manifestantes ou para gerar uma situação na qual o exército pode dizer que teve que intervir para restaurar a ordem e depois, talvez, instaurar algum governo militar. É muito difícil prever o que vai acontecer.


Os Estados Unidos estão seguindo seu manual habitual. Não é a primeira vez que um ditador “próximo” perde o controle ou está em risco de perdê-lo. Há uma rotina padrão nestes casos: seguir apoiando o tempo que for possível e se ele se tornar insustentável – especialmente se o exército mudar de lado – dar um giro de 180 graus e dizer que sempre estiveram do lado do povo, apagar o passado e depois fazer todas as manobras necessárias para restaurar o velho sistema, mas com um novo nome.


Presumo que é isso que está ocorrendo agora. Estão vendo se Mubarak pode ficar. Se não aguentar, colocarão em prática o manual.


Democracy Now: Qual sua opinião sobre o apelo de Obama para que se inicie a transição no Egito?

Noam Chomsky: Curiosamente, Obama não disse nada. Mubarak também estaria de acordo com a necessidade de haver uma transição ordenada. Um novo gabinete, alguns arranjos menores na ordem constitucional, isso não é nada. Está fazendo o que os líderes norteamericanos geralmente fazem.


Os Estados Unidos têm um poder constrangedor neste caso. O Egito é o segundo país que mais recebe ajuda militar e econômica de Washington. Israel é o primeiro. O mesmo Obama já se mostrou muito favorável a Mubarak. No famoso discurso do Cairo, o presidente estadunidense disse: “Mubarak é um bom homem. Ele fez coisas boas. Manteve a estabilidade. Seguiremos o apoiando porque é um amigo”.


Mubarak é um dos ditadores mais brutais do mundo. Não sei como, depois disso, alguém pode seguir levando a sério os comentários de Obama sobre os direitos humanos. Mas o apoio tem sido muito grande. Os aviões que estão sobrevoando a praça Tahrir são, certamente, estadunidenses.


Os EUA representam o principal sustentáculo do regime egípcio. Não é como na Tunísia, onde o principal apoio era da França. Os EUA são os principais culpados no Egito, junto com Israel e a Arábia Saudita. Foram estes países que prestaram apoio ao regime de Mubarak. De fato, os israelenses estavam furiosos porque Obama não sustentou mais firmemente seu amigo Mubarak.


Democracy Now: O que significam todas essas revoltas no mundo árabe?

Noam Chomsky: Este é o levante regional mais surpreendente do qual tenho memória. Às vezes fazem comparações com o que ocorreu no leste europeu, mas não é comparável. Ninguém sabe quais serão as consequências desses levantes.


Os problemas pelos quais os manifestantes protestam vem de longa data e não serão resolvidos facilmente. Há uma grande pobreza, repressão, falta de democracia e também de desenvolvimento. O Egito e outros países da região recém passaram pelo período neoliberal, que trouxe crescimento nos papéis junto com as consequências habituais: uma alta concentração da riqueza e dos privilégios, um empobrecimento e uma paralisia da maioria da população. E isso não se muda facilmente.


Democracy Now: Você crê que há alguma relação direta entre esses levantes e os vazamentos de Wikileaks?

Noam Chomsky: Na verdade, a questão é que Wikileaks não nos disse nada novo. Nos deu a confirmação para nossas razoáveis conjecturas.


Democracy Now: O que acontecerá com a Jordânia?

Noam Chomsky: Na Jordânia, recém mudaram o primeiro ministro. Ele foi substituído por um ex-general que parece ser moderadamente popular, ou ao menos não é tão odiado pela população. Mas essencialmente não mudou nada.


Fonte: Carta Maior

Tradução: Katarina Peixoto
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domingo, dezembro 12, 2010

O fim da esperança, segundo Noam Chomsky

Mundo

Vermelho - 10 de Dezembro de 2010 - 17h42

Em entrevista feita por Roberto Antonini e publicada no jornal italiano La Reppublica, na última terça-feira (7), o linguista estadunidense Noam Chomsky discorre sobre o atual a frustração e raiva que premeia a sociedade americana, o estado da economia dos Estados Unidos e o papel que o presidente Barack Obama desempenhou para que os ricos ficassem ainda mais ricos.

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Leia a seguir trechos da entrevista de Chomsky:
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La Reppublica: Os Estados Unidos estão hoje atravessados por uma onda de frustração e de raiva. Como se explica esse sentimento?

Noam Chomsky: Durante 30 anos, a renda da maioria da população, que nunca foi muito elevada, permaneceu mais ou menos igual ou até diminuiu, enquanto as horas de trabalho aumentaram. As famílias se viram graças ao trabalho de ambos os genitores, mas os Estados Unidos não dispõem de um sistema forte de ajuda social e, portanto, não existe nenhuma ou quase nenhuma ajuda à família, e esse é um fardo pesado.

E o presidente Obama em tudo isso?
Obama chegou à Casa Branca na onda de um grandíssimo entusiasmo e na esperança de que conseguiria mudar essa situação. Pelo contrário, não fez nada mais do que piorar as coisas. Não completamente, é certo. O seu pacote de incentivos econômicos permitiu que se salvassem alguns milhões de postos de trabalho. Permitiu, é verdade, coloca um remendo no rasgão de um sistema financeiro defeituoso, mas de tal modo que os culpados do desastre são agora ainda mais ricos e poderosos do que antes. E os norte-americanos veem bem que a sua renda estagna e que as suas condições de vida pioram, enquanto uma pequeníssima faixa da população controla riquezas enormes.

O senhor não acha paradoxal, porém, que, nesse contexto de luta política, de batalha desencadeada contra Obama pelas grandes corporações, pela esquerda, particularmente muitos intelectuais de esquerda, não apoiaram o presidente?
Foi Obama mesmo que criou os pressupostos para essa situação, que deve ser analisada detalhadamente. Tomemos como exemplo a reforma do sistema de saúde, o seu grande sucesso. Quando Obama foi eleito presidente, ele disse ser favorável a um programa nacional de seguro de saúde, algo semelhante ao que existe em outros países do mundo. Uma grande maioria da população era favorável. Mas ele renunciou a ele imediatamente.

O senhor, em seu posicionamento filosófico, muitas vezes faz referência a von Humboldt, a Descartes, a alguns anárquicos, também a Adam Smith. E a sua relação com Karl Marx?
Os primeiros manuscritos de Karl Marx vêm diretamente dessa tradição, do Iluminismo romântico, de fato quase textualmente. É daí que provém o conceito de alienação. Nos escritos posteriores, Marx fez uma análise crítica muito forte dos elementos constitutivos fundamentais do sistema capitalista e das mudanças históricas. Há muito a aprender. O fato de que se possa aplicar o marxismo à sociedade contemporânea é discutível, mas seguramente a contribuição intelectual de Marx é de grande importância. Não me definiria como marxista, nem cartesiano, nem outra coisa. Não devemos venerar os indivíduos, mas sim interessar-nos pelas ideias.

Fonte: Adital. Tradução de Moisés Sbardelotto
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sexta-feira, julho 30, 2010

Chomsky: “Os EUA são o maior terrorista do mundo”

Mundo

Vermelho - 29 de Julho de 2010 - 20h17

Noam Abraham Chomsky, intelectual estadunidense, pai da linguística e polêmico ativista por suas posturas contra o intervencionismo militar dos Estados Unidos, visitou a Colômbia para ser homenageado pelas comunidades indígenas do Departamento de Cauca. Falou com exclusividade para Luis Angel Murcia, do jornal Semana.com, em 21 de Julho de 2010.

O morro El Bosque, um pedaço de vida natural ameaçado pela riqueza aurífera que se esconde em suas entranhas, desde a semana passada tem uma importância de ordem internacional. Essa reserva, localizada no centro da cidade de Cauca, muito próxima ao Maciço colombiano, é o cordão umbilical que hoje mantêm aos indígenas da região conectados com um dos intelectuais e ativistas da esquerda democrática mais prestigiados do planeta.

Noam Abraham Chomsky. Quem o conhece assegura que é o ser humano vivo cujas obras, livros ou reflexões, são as mais lidas depois da Bíblia. Sem duvida, Chomsky, com 81 anos de idade, é uma autoridade em geopolítica e Direitos Humanos.

Sua condição de cidadão estadunidense lhe dá autoridade moral para ser considerado um dos mais recalcitrantes críticos da política expansionista e militar que os EUA aplica no hemisfério. No seu país e na Europa é ouvido e lido com muito respeito, já ganhou todos os prêmios e reconhecimentos como ativista político e suas obras, tanto em linguística como em análise política, foram premiadas.

Sua passagem discreta pela Colômbia não era para proferir as laureadas palestras, mas para receber uma homenagem especial da comunidade indígena que vive no Departamento de Cauca. O morro El Bosque foi rebatizado como Carolina, que é o mesmo nome de sua esposa, a mulher que durante quase toda sua vida o acompanhou. Ela faleceu em dezembro de 2008.

Em sua agenda, coordenada pela CUT e pela Defensoria do Povo do Vale, o Senhor Chomsky dedicou alguns minutos para responder exclusivamente a Semana.com e conversar sobre tudo.

Quê significado tem para o senhor esta homenagem?

Estou muito emocionado; principalmente por ver que pessoas pobres que não possuem riquezas se prestem a fazer esse tipo de elogios, enquanto que pessoas mais ricas não dão atenção para esse tipo de coisa.

Seus três filhos sabem da homenagem?

Todos sabem disso e de El Bosque. Uma filha que trabalha na Colômbia contra as companhias internacionais de mineração também está sabendo.

Nesta etapa da sua vida o que o apaixona mais: a linguística ou seu ativismo político?

Tenho estado completamente esquizofrênico desde que eu era jovem e continuo assim. É por isso que temos dois hemisférios no cérebro.

Por conta desse ativismo teve problemas com alguns governos, um deles e o mais recente foi com Israel, que o impediu de entrar nas terras da palestina para dar uma palestra.

É verdade, não pude viajar, apesar de ter sido convidado por uma universidade palestina, mas me deparei com um bloqueio em toda a fronteira. Se a palestra fosse para Israel, teriam me deixado passar.

Essa censura tem a ver com um de seus livros intitulado ‘Guerra ou Paz no Oriente Médio?

É por causa dos meus 60 anos de trabalho pela paz entre Israel e a Palestina. Na verdade, eu vivi em Israel.

Como qualifica o que se passa no Oriente Médio?

Desde 1967, o território palestino foi ocupado e isso fez da Faixa de Gaza a maior prisão ao ar livre do mundo, onde a única coisa que resta a fazer é morrer.

Chegou a se iludir com as novas posturas do presidente Barack Obama?

Eu já tinha escrito que é muito semelhante a George Bush. Ele fez mais do que esperávamos em termos de expansionismo militar. A única coisa que mudou com Obama foi a retórica.

Quando Obama foi galardoado com o prêmio Nobel de Paz, o quê o senhor pensou?

Meia hora após a nomeação, a imprensa norueguesa me perguntou o que eu pensava do assunto e respondi: “Levando em conta o seu recorde, este não foi a pior nomeação”. O Nobel da Paz é uma piada.

Os EUA continuam a repetir seus erros de intervencionismo?

Eles tem tido muito êxito. Por exemplo, a Colômbia tem o pior histórico de violação dos Direitos Humanos desde o intervencionismo militar dos EUA.

Qual é a sua opinião sobre o conceito de guerra preventiva que os Estados Unidos apregoam?

Não existe esse conceito, é simplesmente uma forma de agressão. A guerra no Iraque foi tão agressiva e terrível que se assemelha ao que os nazistas fizeram. Se aplicarmos essa mesma regra, Bush, Blair e Aznar teriam de ser enforcados, mas a força é aplicada aos mais fracos.

O que acontecerá com o Irã?

Hoje existe uma grande força naval e aérea ameaçando o Irã e, somente a Europa e os EUA pensam que isso está certo. O resto do mundo acredita que o Irã tem o direito de enriquecer urânio. No Oriente Médio três países (Israel, Paquistão e Índia) desenvolveram armas nucleares com a ajuda dos EUA e não assinaram nenhum tratado.

O senhor acredita na guerra contra o terrorismo?

Os EUA são os maiores terroristas do mundo. Não consigo pensar em qualquer país que tenha feito mais mal do que eles. Para os EUA, terrorismo é o que você faz contra nós e não o que nós fazemos a você.

Há alguma guerra justa dos Estados Unidos?

A participação na Segunda Guerra Mundial foi legítima, entretanto eles entraram na guerra muito tarde.

Essa guerra por recursos naturais no Oriente Médio pode vir a se repetir na América Latina?

É diferente. O que os EUA tem feito na América Latina é, tradicionalmente, impor brutais ditaduras militares que não são contestados pelo poder da propaganda.

A América Latina é realmente importante para os Estados Unidos?

Nixon afirmou: “Se não podemos controlar a América Latina, como poderemos controlar o mundo”.

A Colômbia tem algum papel nessa geopolítica ianque?

Parte da Colômbia foi roubada por Theodore Roosevelt com o Canal do Panamá. A partir de 1990, este país tem sido o principal destinatário da ajuda militar estadunidense e, desde essa mesma data tem os maiores registros de violação dos Direitos Humanos no hemisfério. Antes o recorde pertencia a El Salvador que, curiosamente também recebia ajuda militar.

O senhor sugere que essas violações têm alguma relação com os Estados Unidos?

No mundo acadêmico, concluiu-se que existe uma correlação entre a ajuda militar dada pelos EUA e violência nos países que a recebem.

Qual é sua opinião sobre as bases militares gringas que há na Colômbia?

Não são nenhuma surpresa. Depois de El Salvador, é o único país da região disposto a permitir a sua instalação. Enquanto a Colômbia continuar fazendo o que os EUA pedir que faça, eles nunca vão derrubar o governo.

Está dizendo que os EUA derruba governos na América Latina?

Nesta década, eles apoiaram dois golpes. No fracassado golpe militar da Venezuela em 2002 e, em 2004, seqüestraram o presidente eleito do Haiti e o enviaram para a África. Mas agora é mais difícil fazê-lo porque o mundo mudou. A Colômbia é o único país latinoamericano que apoiou o golpe em Honduras.

Tem algo a dizer sobre as tensões atuais entre Colômbia, Venezuela e Equador?

A Colômbia invadiu o Equador e não conheço nenhum país que tenha apoiado isso, salvo os EUA. E sobre as relações com a Venezuela, são muito complicadas, mas espero que melhorem.

A América Latina continua sendo uma região de caudilhos?

Tem sido uma tradição muito ruim, mas, nesse sentido, a América Latina progrediu e, pela primeira vez, o cone sul do continente está a avançando rumo a uma integração para superar seus paradoxos, como, por exemplo, ser uma região muito rica, mas com uma grande pobreza.

O narcotráfico é um problema exclusivo da Colômbia?

É um problema dos Estados Unidos. Imagine que a Colômbia decida fumigar a Carolina do Norte e o Kentucky, onde se cultiva tabaco, o qual provoca mais mortes do que a cocaína.

Fonte: Agência de Notícias Nova Colômbia. Original em http://www.semana.com/noticias-mundo/parte-colombia-robada-roosevelt/142043.aspx
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sábado, julho 10, 2010

Nuvens Negras Sobre o Irão - Noam Chomsky

Noam Chomsky*
06.Jul.10 :: Outros autores
Noam 
ChomskyQue o Irão não tem uma política agressiva nem pretende avançar para a bomba nuclear reconhece-o o Pentágono num relatório ao Congresso dos EUA de Abril passado: “A doutrina militar do Irão é estritamente «defensiva (…) concebida para atrasar uma invasão e forçar uma solução diplomática das hostilidades». O relatório diz ainda que «o programa nuclear do Irão e a sua vontade de manter aberta a possibilidade de desenvolver [sublinhado de odiario.info] armas nucleares (são) uma parte central da sua estratégia de dissuasão»”. No entanto isso não impede os EUA de ameaçarem o Irão com uma invasão devastadora, com recurso a armamento nuclear.
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A grave ameaça do Irão é a mais séria crise da política externa que enfrenta a Administração Obama. O Congresso acaba de endurecer as sanções contra aquele país, com penas mais pesadas às companhias estrangeiras que ali negoceiem. A Administração expandiu a capacidade ofensiva dos EUA na ilha africana Diego Garcia, reclamada pelo Reino Unido, que expulsou a população a fim de que os EUA pudessem construir uma grande base para atacar o Médio Oriente e a Ásia Central.
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A Marinha estaduniense informou que tinha enviado para a ilha equipamento para apoiar os submarinos dotados de mísseis Tomahawk, com capacidade para transportar ogivas nucleares. De acordo com o relatório de carga da Marinha, apanhado pelo Sunday Herald, de Glasgow, o equipamento militar inclui 387 destruidores de bunkers para fazerem explodir estruturas subterrâneas reforçadas. «Estão a activar a engrenagem para destruir o Irão», disse a esse jornal o director do Centro de Estudos Internacionais e Diplomáticos da Universidade de Londres, Dan Plesch. «Os bombardeiros e os mísseis de longo alcance dos EUA estão preparados para destruir 10.000 objectivos no Irão em poucas horas». A imprensa árabe informa que uma frota estadunidense (com um navio israelense) passou recentemente o canal do Suez a caminho do Golfo Pérsico, com a missão de fazer «aplicar as sanções contra o Irão e supervisionar os barcos que entram e saem desse país». Alguns meios de comunicação britânicos e israelenses informam que a Arábia Saudita está a providenciar um corredor aéreo para um eventual bombardeamento israelense ao Irão (o que os sauditas negam).
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No seu regresso de uma visita ao Afeganistão para tranquilizar os seus aliados da NATO depois da demissão do general Stanley McChrystal, o almirante Michael Mullen, responsável máximo da Junta de chefes de Estado-Maior, visitou Israel para se encontrar com o chefe de Estado-maior das Forças de Defesa israelenses, gabi Ashkenazi, e continuar um diálogo estratégico anual. A reunião ceentrou-se na «preparação de Israel e dos Estados Unidos perante a possibilidade de um Irão com capacidade nuclear», de acordo com o Haaretz, que, além disso, informou que Mullen tinha enfatizado: «Procuro sempre ver os desafios numa perspectiva israelense».
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Alguns analistas descrevem a ameaça iraniana em termos apocalípticos. «Os EUA deverão enfrentar o Irão ou entregar o Médio oriente» adverte Amitai Etzioni. Se o programa nuclear se concretiza, disse, a Turquia, a Arábia Saudita e outros Estados «mover-se-ão» em direcção á nova «superpotência» iraniana. Numa retórica menos acalorada, isso significa que poderia dar forma a uma aliança regional independente dos EUA. 
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No jornal do Exército estadunidense Military Review, Etzioni pressiona os EUA para um ataque não só contra as instalações nucleares do Irão, mas também contra os seus activos militares não nucleares, incluindo infra-estruturas – isto é, sociedade civil. «Este tipo de acção militar é semelhante às sanções: provocar danos com o objectivo de mudar posturas, ainda que por meios mais poderosos», escreve.
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Uma análise autorizada sobre a ameaça iraniana é dada pelo relatório do departamento de Defesa dos EUA apresentado ao Congresso em Abril passado. Os gastos militares do Irão são «relativamente baixos em comparação com o resto da região» sustenta o documento. A doutrina militar do Irão é estritamente «defensiva (…) concebida para atrasar uma invasão e forçar uma solução diplomática das hostilidades». O relatória diz ainda que «o programa nuclear do Irão e a sua vontade de manter aberta a possibilidade de desenvolver armas nucleares (são) uma parte central da sua estratégia de dissuasão».
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Para Washington, a capacidade dissuasória do Irão é um exercício ilegítimo de soberania que interfere nos desígnios globais dos EUA. Concretamente, se ameaça o controlo estadunidense dos recursos energéticos do Médio Oriente. Mas a ameaça do Irão vai mais além da dissuasão. Teerão também está a procurar expandir a sua influência na região, o que é visto como um factor de «desestabilização», presumivelmente em contraste com a «estabilizadora» invasão e ocupação militar estadunidense dos vizinhos do Irão. Para além desses crimes – prossegue o relatório do Pentágono –, o Irão está a apoiar o terrorismo com o seu apoio ao Hezbollah e ao Hamas, as maiores forças políticas do Líbano e da Palestina (se é que as eleições contam).
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O modelo de democracia no mundo muçulmano, apesar dos seus sérios defeitos, é a Turquia, que tem eleições relativamente livres. A Administração Obama indignou-se quando a Turquia se aliou ao Brasil na procura de um compromisso com o Irão para que restringisse o seu enriquecimento de urânio. Os EUA minaram rapidamente o acordo promovendo uma resolução do Conselho de Segurança da ONU com novas sanções contra o Irão, tão carentes de sentido que a China logo as apoiou alegremente, assumindo que, quando muito, impediriam os interesses ocidentais de concorrer com a China nos recursos do Irão. E sem qualquer surpresa, a Turquia (tal como o Brasil) votou contra a iniciativa dos EUA. O outro membro do Conselho de Segurança da região, o Líbano, absteve-se.
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Estas actuações provocaram ainda maior consternação em Washington. Philip Gordon, o diplomata mais prestigiado da Administração Obama em assuntos europeus, advertiu a Turquia que as suas acções não são compreendidas nos EUA e que deveria «demonstrar o seu compromisso de parceiro do Ocidente», segundo informou a Associated Press. Uma admoestação rara a um aliado crucial da NATO. A classe política também assim pensa. Steven A. Cook, um perito do Conselho de Relações Exteriores, defende que a pergunta crítica é: «Como manter os turcos dentro dos carris?» - ou seja, como bons democratas obedecerem às ordens.
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Não há indícios de que outros países da região sejam mais favoráveis às sanções promovidas pelos EUA que às posições da Turquia. O Paquistão e o Irão, reunidos em Ancara, assinaram recentemente um acordo para um novo gasoduto. O mais preocupante para os EUA é que o gasoduto possa estender-se à Índia. O tratado de 2008 entre os EUA e a Índia, apoiando os seus programas nucleares, pretende evitar que este país se una ao gasoduto, de acordo com Moeed Yusuf, um assessor em assuntos subasiáticos do Instituto da Paz dos EUA.
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A Índia e o Paquistão são dois dos três países que recusaram assinar o Tratado de Não Proliferação (TNP). Israel é o terceiro. Todos eles desenvolveram armamentos nucleares com o apoio dos EUA, e continuam a fazê-lo.
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Ninguém de bom senso quer que o Irão, ou qualquer outro país, desenvolva armas nucleares. Uma maneira óbvia de mitigar ou eliminar esta ameaça consiste no estabelecimento de uma zona livre de armas nucleares no Médio oriente. Este tema foi levantado (uma vez mais) na conferência do TNP nas Nações Unidas em começos de Março passado. O Egipto, como presidente do Movimento dos Não Alinhados – constituído por 118 países – propôs que a conferência apoiasse um plano de início das negociações em 2011 propôs um Médio Oriente livre de armas nucleares, como foi acordado pelos países ocidentais, incluídos os EUA, na conferência do TNP de 1995. Formalmente, Washington ainda está de acordo, mas insiste que Israel fique isento – e não há qualquer elemento que permita dizer que as deliberações do pacto se apliquem aos EUA.
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Em vez de dar passos efectivos para a redução da escaldante ameaça de proliferação de armas nucleares no Irão ou em qualquer outra parte, os EUA movimentam-se no sentido do seu controlo das vitais regiões produtoras de petróleo do Médio Oriente, de forma violenta, se não puder ser de outra maneira.
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* Noam Chomsky é professor de linguística do MIT (Massachusetts Institute of Technology). 
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Este texto foi publicado no diário espanhol Público e pode ser consultado em http://blogs.publico.es/noam-chomsky/10/nubes-de-tormenta-sobre-iran/
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Tradução de José Paulo Gascão
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http://www.odiario.info/?p=1661
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domingo, maio 23, 2010

Noam Chomsky impedido de entrar em Israel


 


2010-05-18

Ana Isabel Oliveira
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O conhecido teórico e esquerdista norte-americano, convidado para discursar numa universidade palestiniana, viu vetada, no passado domingo, a sua entrada na Cisjordânia, situação que despertou polémica no estado isrealita. Chomsky já anunciou que não voltará a entrar em Israel, sendo a palestra realizada através de videoconferência.
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Noam Chomsky foi impedido pelos serviços de imigração israelitas de entrar na Cisjordânia. A decisão, divulgada no passado domingo, está a causar controvérsia em Israel.
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O conhecido académico e activista de esquerda tinha sido convidado para dar uma conferência na Universidade de Birzeit, uma instituição palestiniana. Em declarações à Reuters, Chomsky afirma ter-se dirigido à Ponte de Allenby, no rio Jordão, um dos postos fronteiriços entre Israel e a Palestina. O norte-americano foi, então, impedido de atravessar a fronteira pelas autoridades israelitas.
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"Aparentemente, não gostaram da ideia de eu dar uma palestra numa universidade palestiniana e não numa instituição israelita", explicou Chomsky.
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O responsável pelo convite, o legista Mustafa al-Barghouti, mostrou-se indignado com a atitude dos funcionários israelitas. "Esta decisão é fascista e quase uma violação à liberdade de expressão", declarou Barghouti.
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Representantes do governo de Tel-Aviv já anunciaram publicamente estarem "chocados" com o sucedido, e entendem que se tratou de uma decisão isolada de um membro do Ministério da Administração Interna a trabalhar naquele posto fronteiriço e não representa a posição do Estado.
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"A ideia de que Israel está a barrar a entrada a pessoas cuja opinião é contrária aos valores defendidos pelo Governo é absurda", disse Mark Regev, citado pelo "New York Times". "Um oficial fronteiriço ultrapassou os limites da sua autoridade".
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Noam Chomsky já fez, entretanto, saber que não vai voltar a Israel, sendo que a conferência prevista na Universidade de Birzeit será dada através de uma videoconferência na cidade de Amman, capital da Jordânia.
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Com 81 anos de idade, Noam Chomsky é um dos mais conhecidos e controversos activistas políticos norte-americanos. Professor jubilado pelo Massachussets Institute of Technology, viveu em Israel na década de 50 e é um crítico acérrimo das políticas norte-americanas e israelitas. Chomsky mostrou-se contra a constituição de Israel como um estado judaico, mas defende a ideia da criação de dois estados.
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http://santoespirito.files.wordpress.com/2008/01/noam_chomsky.jpg 
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sábado, maio 22, 2010

Noam Chomsky: A fúria da faixa industrial dos Estados Unidos

http://www.webmoly.com/en/wp-content/uploads/2009/07/noam_chomsky.jpg

Economia

Vermelho - 22 de Maio de 2010 - 16h35

Em 18 de fevereiro, Joe Stack, um engenheiro de computação de 53 anos de idade, se suicidou chocando seu pequeno avião contra um edifício em Austin, Texas, destruindo um escritório do Serviço de Arrecadação Fiscal (IRS, na sua sigla em inglês), matando outra pessoa e feriando várias mais no ato.

Por Noam Chomsky*
 

Stack deixou um manifesto contra o governo que explicava suas ações. A história começa quando ele era um adolescente que vivia na penúria em Harrisburg, Pensilvânia, próximo ao coração do que alguma vez foi um grande centro industrial.

Sua vizinha, uma octogenária que sobrevivia com alimento para gatos, era a viúva de um operário metalúrgico aposentado. Seu esposo trabalhara toda a sua vida nas fundições do centro da Pensilvânia, confiante nas promessas das grandes empresas e do sindicato de que, por seus 30 anos de serviço, teria uma pensão e assistência médica durante sua aposentadoria.

"Em vez disso, foi um dos milhares que não receberam nada porque a incompetente administração das fundições e o sindicato corrupto (para não mencionar o governo) incursionaram em seus fundos de pensões e roubaram sua aposentadoria. O único que ela tinha para viver era a seguridade social".

Poderia haver acrescentado que os muito ricos e seus aliados políticos prosseguem tratando de acabar com a seguridade social.

Stack decidiu que não poderia confiar nas grandes empresas e que emprenderia seu próprio caminho, só para descobrir que tampouco poderia confiar num governo ao qual não lhe interessava as pessoas como ele, mas só os ricos e privilegiados; ou em um sistema legal no qual "há duas 'interpretações' de cada lei, uma para os muito ricos e outra para todos nós".

O governo nos deixa com "a piada que chamamos de sistema de saúde estadunidense, incluídas as companhías farmacêuticas e de seguros (que) estão assassinando dezenas de milhares de pessoas ao ano", pois racionam a assistência, em grande medida, com base na riqueza e não na necessidade.

Stack remonta a origem destes males a uma ordem social na qual "um punhado de rufiões e saqueadores podem cometer atrocidades impensáveis... e quando é a hora de que sua fonte de dinheiro fácil se esgote sob o peso de sua cobiça e de sua abrumadora estupidez, a força de todo o governo federal não tem dificuldade de acudir em sua ajuda em questão de dias, se não é de horas".

O manifesto de Stack termina com duas frases evocadoras: "O credo comunista: de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo sua necessidade. O credo capitalista: que cada um dê segundo sua ingenuidade, que cada um receba segundo sua cobiça".

Estudos comovedores das zonas industriais abandonadas dos Estados Unidos revelam uma indignação comparável entre os indivíduos que foram deslocados à medida que os programas corporativo-estatais fecham fábricas e destroem famílias e comunidades.

Uma aguda sensação de traição se percebe nas pessoas que aceditavam que haviam cumprido seu dever com a sociedade num pacto moral com as empresas e o governo, só para descobrirem que foram instrumentos do lucro e do poder.

Existem semelhanças assombrosas na China, a segunda maior economia do mundo, investigada pela especialista da UCLA Ching Kwan Lee.

Lee comparou a indignação e o desespero da classe operária nos descartados setores industriais dos Estados Unidos com o que ela chama de a zona industrial da China: o centro industrial socialista estatal no nordeste, agora abandonado pelo desenvolvimento da zona de rápido crescimento no sudeste.

Em ambas as regiões, Lee encontrou protestos laborais maciços, mas de diferentes características. Na zona industrial abandonada, os operários expressam a mesma sensação de traição que suas contrapartes nos EE.UU.; em seu caso, a traição dos princípios maoístas de solidaridade e dedicação ao desenvolvimento da sociedade que eles consideravam um pacto social, só para descobrir que, fosse o que fosse, agora é uma amarga fraude.

Em todo o país, vintenas de milhões de milhões de trabalhadores separados de suas unidades de trabalho "estão embargados por uma profunda sensação de insegurança" que engendra "fúria e desespero", escreve Lee.

O trabalho de Lee e estudos da zona industrial abandonada dos Estados Unidos deixam claro que não deveríamos subestimar a profundidade da indignação moral que radica por trás da amargura furiosa, a miúdo autodestrutiva, em relação ao governo e ao poder empresarial.

Nos Estados Unidos, o movimento populista chamado Tea Party - e mais ainda nos círculos mais amplos a que chega - reflete o espírito da desilusão. O extremismo antifiscal do Tea Party não é tão imediatamente suicida como o protesto de Joe Stack, mas não obstante é suicida.

Atualmente, a Califórnia é um exemplo dramático. O maior sistema público de educação superior do mundo está sendo desmantelado.

O governador Arnold Schwarzenegger diz que terá que eliminar os programas estatais de saúde e de assistência social, a menos que o governo federal aporte uns 7.000 milhões de dólares. Outros governadores estão se unindo a ele.

Enquanto isso, um poderoso movimento recente pelos direitos dos estados está demandando que o governo federal não se meta em nossos assuntos, um bom exemplo do que Orwell chamou "duplo pensar": a capacidade de ter em mente duas ideias contraditórias quando se acredita em ambas, praticamente um lema de nossos tempos.

A situação da Califórnia é o resultado, em grande parte, de um fanatismo antifiscal. É muito similar em outras partes, inclusive em subúrbios ricos.

Alentar o sentimento antifiscal tem caracterizado a propaganda empresarial. As pessoas devem ser doutrinadas para odiar e temer o governo por boas razões: dos sistemas de poder existentes, o governo é o único que, a princípio e ocasionalmente de fato, responde ao público e pode restringir as depredações do poder privado.

Entretanto, a propaganda antigovernamental deve ser matizada. As empresas, por suposto, favorecem um Estado poderoso que trabalhe para as instituições multinacionais e financeiras, e inclusive as resgate quando destroem a economia.

Mas, num exercício brilhante de duplo pensamento, as pessoas são levadas a odiar e temer o déficit. Dessa forma, os sócios das empresas em Washington poderiam acordar a redução de benefícios sociais e direitos como a seguridade social (mas não os resgates).

Ao mesmo tempo, as pessoas não deveriam opor-se ao que, em grande medida, está criando o déficit: o crescente orçamento militar e o sistema de assistência médica privatizado completamente ineficiente.

É fácil ridiculizar como Joe Stack e outros como ele expressam suas inquietações, mas é muito mais apropiado compreender o que está por trás de suas percepções e ações numa época em que as pessoas com verdadeiros motivos de queixa estão sendo mobilizadas em formas que representam um grande perigo para elas mesmas e para os outros.

*Noam Chomsky é professor emérito de linguística e filosofia no Instituto Tecnológico de Massachusetts, em Cambridge, Massachusetts.

Fonte: Cuba Debate
Tradução: Sergio Granja, para o Pravda.Ru
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quinta-feira, julho 23, 2009

O Irão é muito independente e desobediente, ironiza Chomsky

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Em entrevista a Kourosh Ziabari, do site Foreign Policy Journal, o acadêmico e ativista americano Noam Chomsky critica a política de dois pesos, duas medidas contra o Estado do Irã e sua política nuclear, demonstrando que, durante o regime do Xá Reza Pahlevi, os EUA defendiam o desenvolvimento de tecnologia nuclear pelo país, na época submetido aos interesses americanos.


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Leia abaixo a íntegra da entrevista, traduzida por João Manuel Pinheiro para o site O Diário.info.

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Noam Chomsky não precisa de apresentação. De acordo com o The Guardian, trata-se, indiscutivelmente, do catedrático e analista sócio-político mais importante da era contemporânea e está considerado junto a Marx, Shakespeare e a Bíblia, como uma das dez fontes mais citadas das humanidades, e é também o único escritor, entre eles, que ainda está vivo.

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Em referência ao livro Hegemonia e Sobrevivência de Chomsky, o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, dirigindo-se à Nações Unidas, disse: "Convido-os, com todo o respeito, a quem ainda não tenha lido o livro, a que o façam."

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Em resposta à pergunta formulada numa entrevista em 2006 sobre que ações tomaria se fosse presidente, Chomsky respondeu: "Instauraria um Tribunal de Crimes de Guerra para os meus próprios crimes pois caso tivesse assumido essa posição teria que tratar com a estrutura institucional e com a cultura, a cultura intelectual. A cultura deve ser curada".

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Nesta entrevista, conversei com o professor Chomsky sobre o Irã, os assuntos nucleares, as relações entre Washington e Teerã e o impacto global dos lobbies sionistas. Um resumo desta conversa foi primeiramente publicado no diário iraniano de língua inglesa "Teheran Times".

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Kourosh Ziabari: Professor Chomsky, o senhor tem reiterado em numerosas ocasiões que a maior parte dos países do mundo, incluindo os membros do Movimento dos Países Não Alinhados, apoia o programa nuclear iraniano, no entanto, os neoconservadores dos Estados Unidos continuam a proclamar o seu lema agressivo.

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Noam Chomsky: O Movimento dos Países Não Alinhados, mas também a grande maioria dos americanos pensa que o Irã tem o direito de desenvolver energia nuclear. Todavia, quase ninguém nos Estados Unidos tem consciência disso. Isto inclui todos aqueles que são inquiridos e que provavelmente acreditam que são os únicos que pensam assim. Nunca se publica nada sobre este tema. O que aparece constantemente nas mídias é que a comunidade internacional exige que o Irã suspenda o enriquecimento de urânio. Em quase nenhum meio se explica que a designação "comunidade internacional" é utilizada convencionalmente para se referir a Washington e a quem estiver de acordo, não só sobre este assunto mas em geral.

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Kourosh Ziabari: A maioria dos analistas de assuntos internacionais ainda não pôde assimilar o duplo critério nuclear do governo dos Estados Unidos. Apesar de apoiar o arsenal atômico de Israel continua a pressionar o Irã para que suspenda os seus programas nucleares. Quais são as razões? Possui a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) autoridade suficiente para investigar os casos de armamento nuclear em Israel?

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Noam Chomsky: O ponto fundamental foi explicado com franqueza por Henry Kissinger. O Washington Post perguntou-lhe por que razão ele agora afirma que o Irã não necessita da energia nuclear e que, por conseguinte, deve estar a trabalhar para construir uma bomba, enquanto em 1970 insistiu que o Irã necessitava de ter energia nuclear e que os Estados Unidos deviam prover o xá com os meios necessários para o conseguir. Foi uma resposta típica à Kissinger. Era um país aliado e, por isso, precisava de energia nuclear. Agora, que já não era um país aliado, não necessitava de energia nuclear. Israel, pelo seu lado, é um país aliado, mais precisamente um estado-cliente. Por isso, herda do amo o direito a fazer o que quer.

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A AIEA possui a autoridade, contudo os Estados Unidos nunca permitiriam que a exerça. A nova administração dos Estados Unidos não tem dado provas de nenhuma alteração nesse sentido."

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Kourosh Ziabari: Existem quatro estados soberanos que ainda não ratificaram o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) e que desenvolvem livremente bombas atômicas. Será o Irã libertado das pressões constantes; deve obter a sua ratificação e abandonar o tratado?

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Noam Chomsky: Não, isso só faria aumentar as pressões. Excluindo a Coreia do Norte, todos esses países recebem apoio extensivo dos Estados Unidos. O governo de Reagan, fingia ignorar que o seu aliado Paquistão desenvolvia armas nucleares, para que a ditadura recebesse ajuda massiva dos Estados Unidos. Também os Estados Unidos, aceitaram ajudar a Índia a desenvolver as suas instalações nucleares; Israel é um caso especial.

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Kourosh Ziabari: Que prováveis fatores poderiam dificultar a realização de conversações diretas entre o Irã e os Estados Unidos? É maior a influência do lobby judaico do que a dos sistemas empresariais dos Estados Unidos?

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Noam Chomsky: O lobby judaico tem alguma influência mas é limitada. Isto foi demonstrado, uma vez mais, no caso do Irã no verão passado, durante a campanha presidencial, quando a influência dos lobbies se encontrava no seu apogeu. O lobby israelita pretendia que o Congresso aprovasse uma legislação que se aproximasse de um ato de bloqueio ao Irã, um ato de guerra. A medida obteve um apoio considerável, mas desapareceu de imediato, provavelmente devido à Casa Branca deixar bem claro, discretamente, que se opunha.

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Quanto aos verdadeiros fatores, ainda não temos registros suficientes, de modo que é necessário especular. Sabemos que a grande maioria dos americanos quer ter uma relação normal com o Irã, mas a opinião pública raramente influencia a política. As grandes companhias dos Estados Unidos, incluindo as poderosas empresas de energia, gostariam de explorar os recursos petrolíferos do Irã. Contudo, o Estado insiste no contrário. Suponho que a razão principal, é que o Irã é demasiado independente e desobediente. As grandes potências não toleram aquilo que eles consideram ser parte dos seus domínios e as regiões de maior produção de energia do mundo há muito que são consideradas domínio da aliança anglo-americana, agora com o Reino Unido reduzido a sócio subalterno.

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Kourosh Ziabari: Haverá uma transformação táctica ou sistemática na aproximação dos principais meios de comunicação social ao Irã durante a presidência de Obama? Podemos esperar uma redução da propaganda anti-Irã?

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Noam Chomsky: Em geral, as mídias aderem ao sistema geral da política de estado embora algumas vezes os programas políticos sejam criticados com fundamentos tácticos. Muito irá depender, portanto, da postura que assuma o governo de Obama.

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Kourosh Ziabari : Finalmente, acredita que o presidente dos Estados Unidos deveria seguir a proposta do Irã e pedir desculpa, pelos seus crimes históricos contra o Irã?

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Noam Chomsky: Creio que os poderosos sempre devem reconhecer os seus crimes e pedir desculpa às vítimas e ainda reparar os danos causados. Infelizmente, o mundo rege-se maioritariamente pela máxima de Tucidides: os fortes fazem o que querem e os fracos sofrem como lhes é devido. Lentamente, a pouco e pouco, o mundo, em geral, torna-se mais civilizado. Mas ainda tem muito caminho a percorrer.

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O original foi publicado em www.foreignpolicyjournal.com.

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O Diário.info
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in Vermelho - 27 DE MAIO DE 2009 - 16h49
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segunda-feira, junho 08, 2009

Obama sobre Israel-Palestina

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Noam Chomsky:

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Uma manchete da CNN sobre os planos de Obama para seu discurso no Cairo diz: “Obama quer tocar a alma do mundo muçulmano”. Talvez a frase capture sua intenção, mas mais significativo é o conteúdo que a postura retórica oculta – ou, mais precisamente, omite.

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Por Noam Chomsky

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No caso Israel-Palestina – o discurso não ofereceu nada relevante sobre outros tópicos – Obama incentivou árabes e israelenses a não “apontar dedos” um para o outro e a não “ver este conflito apenas de um lado ou do outro”.

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O terceiro lado, no entanto, são os Estados Unidos, que têm tido um papel decisivo na manutenção do conflito. Obama não indicou que o papel dos EUA deva mudar ou mesmo ser reavaliado.

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Mais uma vez, Obama elogiou a Iniciativa Árabe de Paz, dizendo que os árabes deveriam considerá-la “um começo importante, mas não um fim para suas responsabilidades”. Como a administração de Obama deve ver isso?

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Obama e seus conselheiros estão cientes de que a Iniciativa reitera o consenso internacional, de longa data, que demanda o acordo com a criação de dois países na fronteira internacional (antes de junho de 1967), talvez com “pequenas e mútuas modificações”, para tomar emprestada a linguagem usada pelo governo dos Estados Unidos. A Iniciativa Árabe de Paz convoca os países árabes a normalizarem as relações com Israel no contexto do consenso internacional.

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Obama pediu que os países árabes prossigam com a normalização, ignorando cuidadosamente o crucial acordo político, que é sua pré-condição. A Iniciativa não pode ser um “começo” se os EUA continuarem recusando-se a aceitar seus princípios fundamentais, ou mesmo a reconhecê-los.

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O que Israel fará em retribuição ao esforço dos países árabes para normalizar as relações? Até agora, a posição mais enérgica enunciada pela administração Obama é a de que Israel deve cumprir a Fase I do Road Map 2003: “Israel deve paralisar todas as atividades de assentamento (inclusive o crescimento natural de assentamentos)”.

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Foi desprezado no debate sobre os assentamentos o fato de que mesmo se Israel aceitasse a Fase I, isso deixaria no lugar todo o projeto de assentamento que já foi desenvolvido, com apoio-chave dos EUA.

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Os assentamentos garantem que Israel tomará a terra de valor dentro do “muro de separação” ilegal (incluindo as fontes primárias de água da região), assim como o Vale do Jordão, aprisionando, assim, os palestinos dentro de um território limitado que, além disso, está sendo dividido em cantões pela invasão de assentamentos/infraestrutura que se estendem muito a leste.

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Também não foi mencionado que Israel está tomando a Grande Jerusalém, o local de seus principais programas de desenvolvimento atuais, deslocando muitos árabes, de forma que aquilo que restar aos palestinos será separado do centro de sua vida cultural, econômica e sociopolítica.

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E esta atividade de assentamento viola a legislação internacional.

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Vale lembrar que houve uma quebra no apoio EUA-Israelense que bloqueou o consenso internacional. O Presidente Clinton reconheceu que os termos que havia oferecido nas reuniões fracassadas em Camp David, em 2000, não eram aceitáveis para nenhum palestino e, em dezembro, ele propôs seus “parâmetros,” que avançaram em direção a um possível acordo. Ele então anunciou que ambos os lados tinham aceitado os parâmetros, embora com suas reservas.

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Os negociadores israelenses e palestinos se reuniram em Taba, no Egito, para resolver as diferenças, e fizeram um progresso considerável. Em sua última coletiva à imprensa, eles anunciaram que uma resolução total poderia ser alcançada em poucos dias. Contudo, Israel cancelou prematuramente as negociações, que não foram formalmente retomadas.

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Esta única exceção indica que se um presidente americano tiver a intenção de tolerar um acordo diplomático significativo, é provável que este seja alcançado.

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A administração Bush I foi um pouco além das palavras na objeção a projetos israelenses de assentamentos ilegais, a saber, ao negar-lhes apoio econômico dos EUA. Em contraste, as autoridades da administração Obama afirmaram que tais medidas “não estão sob discussão” e que quaisquer pressões sobre Israel para que cumpra os termos do Road Map serão, “em grande parte, simbólicas”, como noticiou o New York Times.

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Nos bastidores da viagem ao Oriente Médio está a meta da administração Obama, claramente enunciada pelo Senador John Kerry, Presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, de forjar uma aliança entre Israel e os países árabes “moderados” contra o Irã. Tal aliança serviria como uma salvaguarda para a dominação dos EUA sobre as regiões vitais de produção de energia. (O termo “moderado”, aliás, nada tem a ver com o caráter do país, mas mostra sua intenção de cumprir as demandas dos EUA).

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Os serviços sem paralelo que Israel oferece às agências de inteligência e militares dos EUA, assim como à indústria de alta tecnologia, permitem certa liberdade para desafiar as ordens vindas de Washington – embora com o risco de ofender seu patrocinador. O extremismo do atual governo israelense tem sido controlado por elementos mais sérios.

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Caso Israel vá muito longe, na verdade isso poderia irromper uma confrontação da política entre EUA e Israel do tipo que muitos comentadores percebem hoje – até agora, com pouca base factual, no discurso do Cairo ou em outro lugar. A previsão para a política dos EUA na área Israel-Palestina provavelmente apresentará mais do mesmo.

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Noam Chomsky é professor emérito de lingüística e filosofia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts em Cambridge, Massachusetts. Artigo distribuído pelo The New York Times Syndicate.

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Terra Magazine
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in Vermelho - 7 DE JUNHO DE 2009 - 19h25
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segunda-feira, março 02, 2009

Chomsky vê na AL atual ''o lugar mais interessante do mundo''


Chomsky: ''Capitalismo só no 3º Mundo''
1 DE MARÇO DE 2009 - 15h07




Para o linguista americano Noam Chomsky, 80 anos, o Brasil ''parece estar andando na direção certa'' e, ''além disso, há a tendência de integração regional e independência'', na qual ele vê ''um papel central'' para o Brasil. ''De maneira geral, isso torna a América do Sul, do meu ponto de vista, o lugar mais interessante do mundo atualmente'', afirma o influente pensador de esquerda nesta entrevista para Maíra Magro, na revista IstoÉ. Veja a íntegra.



Chomsky: ''Capitalismo só no 3º Mundo'' Ele foi considerado o intelectual mais importante do mundo pelo jornal The New York Times. Em 2005, ficou no topo da lista dos principais acadêmicos do planeta, segundo pesquisa feita pelas influentes revistas Foreign Policy, dos Estados Unidos, e Prospect, da Inglaterra. Aos 80 anos, Noam Chomsky, americano descendente de judeus russos, é reconhecido também como o papa da linguística moderna, por ter revolucionado a área com suas pesquisas sobre aquisição de linguagem.

Professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) há mais de meio século, Chomsky é também filósofo e comentarista político. A decisão de nadar contra o pensamento político dominante veio com a guerra do Vietnã, nos anos 60. Publicou mais de 70 livros e mil artigos. Em geral, obras de repercussão mundial sobre atentados terroristas, neoliberalismo e política internacional.


Um dos maiores críticos da política internacional americana, Chomsky está lançando no Brasil Estados fracassados: o abuso do poder e o ataque à democracia (Bertrand, 349 págs., R$ 45), no qual argumenta que os Estados Unidos assumiram as características de um Estado fracassado e padecem de um déficit democrático. Nesta entrevista concedida à IstoÉ, o intelectual diz que não vê perspectivas de mudanças com o presidente Barack Obama, mas deposita um mar de esperanças na América do Sul: ''Neste momento, é a região mais interessante do mundo.''


IstoÉ: Barack Obama pode mudar o que o sr. chama de ''Estado fracassado''?


Noam Chomsky: Possibilidades sempre existem, mas não há nada que aponte para isso. As nomeações têm sido basicamente do lado dos falcões (defensores da guerra), e as ações também. Obama intensificou a guerra no Afeganistão, aumentou os ataques ao Paquistão e rejeitou os apelos dos presidentes desses países para eliminar os bombardeios que atingem alvos civis.


Quanto à questão de Israel e da Palestina, ele já deixou bem claro que não tem a intenção de buscar um acordo. Em sua primeira declaração sobre política internacional, afirmou que a responsabilidade primária dos Estados Unidos é proteger a segurança de Israel, e não a dos palestinos, que são os que precisam de proteção.


IstoÉ: O sr. está dizendo que Obama é igual a George W. Bush?


Chomsky: Para começar, há uma distinção entre o primeiro e o segundo mandato de Bush. O primeiro foi muito arrogante e agressivo, desconsiderou as leis internacionais e foi tão abusivo que se distanciou de países aliados. O segundo mandato amaciou a retórica e as ações, que estavam causando danos demais aos interesses dos Estados Unidos. É possível que Obama dê continuidade às políticas do segundo mandato. Em alguns aspectos, Obama ainda é mais agressivo, como no Paquistão e no Afeganistão, que, pelo que vejo, são suas principais preocupações internacionais.


IstoÉ: Os Estados Unidos são uma democracia fracassada?


Chomsky: Se você comparar as eleições de 2008 com as de um dos países mais pobres do hemisfério, a Bolívia, o processo é radicalmente diferente. Você pode gostar ou não das políticas do presidente Evo Morales, mas elas vêm da população. Ele foi escolhido por um eleitorado popular que traçou suas próprias políticas. As questões são muito significativas: controle dos recursos naturais, direitos culturais... A população não se envolveu apenas no dia das eleições, essas lutas estão ocorrendo há anos. Isso é uma democracia. Os Estados Unidos são exatamente o oposto. O melhor comentário sobre as eleições foi feito pela indústria da publicidade, que deu à campanha de Obama o prêmio de melhor campanha de marketing do ano.


IstoÉ: Alguns presidentes sul-americanos são chamados de populistas.


Chomsky: Populista quer dizer alguém atento à opinião popular.


IstoÉ: Mesmo quando a distribuição de recursos não é sustentável?


Chomsky: Distribuição de recursos tem a ver com política econômica. Nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, a política econômica é definida por instituições financeiras, por pessoas que levaram o país à ruína e estão levando boa parte do mundo à ruína. Isso não é populismo, é política econômica destinada a enriquecer um setor bem pequeno. Você pode até discutir se a forma que Evo Morales distribui recursos é correta, mas chamar isso de populismo é usar palavras feias para políticas que desagradam aos ricos.


IstoÉ: O presidente Hugo Chávez acaba de passar por um referendo que permite sua reeleição ilimitada. Isso é aceitável em uma democracia?


Chomsky: Você acha que os Estados Unidos foram um Estado fascista até 1945, quando tínhamos a mesma regra?


O presidente (Franklin) Roosevelt foi eleito quatro vezes seguidas. Eu, pessoalmente, não aprovo, mas não posso dizer que isso seja incompatível com a democracia, a não ser que você diga que os Estados Unidos nunca foram uma democracia. Isso é uma hipocrisia total. Isso vale também para outras democracias parlamentaristas, em que o primeiro-ministro pode ser reeleito de forma indefinida.


IstoÉ: O sr. avalia o governo Chávez positivamente?


Chomsky: A pergunta que importa é: o que os venezuelanos pensam do governo? Em pesquisas feitas pelo Latinobarômetro, uma organização chilena muito respeitada, desde a eleição de Chávez, a Venezuela fica no topo ou perto do topo de uma lista de países quanto ao apoio popular ao governo e à democracia.


IstoÉ: O sr. acha que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva representou alguma mudança para o Brasil?


Chomsky: De forma geral, suas políticas têm sido bastante construtivas. A disposição inicial de aceitar a disciplina das instituições financeiras internacionais foi questionável. Até havia justificativa para isso, mas ele poderia ter escolhido políticas alternativas que teriam estimulado mais a economia. Acho também que as políticas poderiam dar mais apoio a organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Mas, em geral, o País parece estar andando na direção certa. A disposição de lidar com os problemas internos de desigualdade extrema, da fuga de capital, entre outros, está pelo menos na agenda. Além disso, há a tendência de integração regional e independência. A União de Nações Sul- Americanas (Unasul) é um exemplo, mas existem muitos outros, e a integração é um pré-requisito para a independência. De maneira geral, isso torna a América do Sul, do meu ponto de vista, o lugar mais interessante do mundo atualmente.


IstoÉ: E qual o papel do Brasil?


Chomsky: O Brasil tem um papel central na integração regional, pois é o país mais rico e poderoso da região. O presidente Lula tem tomado uma posição muito boa, garantindo que países que os EUA tentam arruinar, principalmente a Bolívia e a Venezuela, estejam integrados ao sistema. O Brasil também está aumentando as relações com outros países do Sul. Mas a dependência das exportações agrícolas é uma forma questionável de desenvolvimento. Deveria haver tentativas de desenvolvimento que não dependessem tanto de exportações, como a da soja.


IstoÉ: Como o sr. vê o ressurgimento de medidas protecionistas nos Estados Unidos e na União Européia?


Chomsky: Antes de falar sobre isso, temos que eliminar uma grande quantidade de mitologia. Os Estados Unidos, o país mais rico do mundo, sempre foram altamente protecionistas. Sua economia avançada depende crucialmente do setor estatal. Se você pensa em computadores, internet, tecnologia da informação, laser, tudo isso foi financiado pelo Estado. Você não pode falar em livre mercado porque eles não acreditam nisso.


IstoÉ: O capitalismo está entrando em colapso com a crise?


Chomsky: O único lugar onde o capitalismo existe é nos países do Terceiro Mundo, onde ele é imposto à força.


IstoÉ: Os anticapitalistas têm algum modelo para oferecer?


Chomsky: Existem diversas pessoas propondo coisas interessantes, basta ver o encontro em Belém (Fórum Social Mundial). Elas não são totalmente novas, vêm dos movimentos dos trabalhadores no século 19. São propostas de se democratizar a sociedade inteira. Isso significa o controle democrático da manufatura, das finanças, dos sistemas de informação, e por aí em diante.


IstoÉ: Vê algo de positivo no papel dos Estados Unidos atualmente?


Chomsky: Sim. Mas não se deve esperar que os países mais poderosos sejam agentes da moralidade. Não faz sentido ficar elogiando esses países pelas coisas decentes que fazem. Os Estados Unidos deveriam, por exemplo, ter um papel fundamental na reconstrução de Gaza depois das terríveis agressões feitas junto com Israel - foi um ataque em conjunto, pois eles estavam usando armas dos EUA, é claro. A estrangulação de Gaza pelos Estados Unidos e Israel, apoiada pela União Européia, começou imediatamente após as eleições, que foram reconhecidas como livres e justas, mas os Estados Unidos não gostaram do resultado e punem as pessoas. É uma boa indicação da aversão extrema que as elites ocidentais nutrem pela democracia.


IstoÉ: O sr. concorda que os intelectuais de hoje são menos engajados que nos anos 60 e 70, por exemplo?


Chomsky: Não concordo com isso. É uma ilusão pensar que intelectuais eram diferentes no passado. De modo geral, os intelectuais são altamente subordinados ao poder. Isso também era verdade nos anos 60. Veja, por exemplo, a guerra do Vietnã, que era uma questão importantíssima na época. Se você olhar o The New York Times ou outro jornal importante nos quais intelectuais se expressavam, a crítica mais forte que poderá encontrar da guerra é - bem, estou citando a crítica mais extrema - de que a guerra começou com esforços de fazer o bem, mas se transformou em um desastre com custos muito altos para nós mesmos.


IstoÉ: O sr. dedicou a vida a pensar as questões mais importantes do mundo. Como se sente hoje?


Chomsky: Há passos em direção a um mundo mais livre, justo e democrático. Isso não cai do céu como um presente, vem da luta popular engajada. E, sim, ela tem sido muito bem sucedida. Então, na medida em que sou parte dela, eu me sinto feliz. Os movimentos populares que se desenvolveram a partir dos anos 60 tiveram um impacto muito significativo no mundo, de diversas formas. Veja um exemplo óbvio, das últimas eleições nos Estados Unidos: o Partido Democrata tinha dois candidatos, uma mulher e um afro-americano. Isso seria inconcebível 20 anos atrás.


Fonte: IstoÉ
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in Vermelho Brasil, segunda-feira, 2 de março de 2009
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sábado, março 15, 2008

Noam Chomsky e a guerra omitida da campanha nos EUA

Há uma voz que falta no debate sobre a guerra: a dos iraquianos. Ou melhor: ela não é digna de ser mencionada. E parece que ninguém se importa. Isso tem sentido na habitual presunção tácita de quase todos os discursos sobre política internacional: somos donos do mundo, o que importa, então, o que outros pensem?


Por Noam Chomsky, para a Agência Carta Maior



Não faz muito tempo, ainda se dava por descontado que a guerra do Iraque seria o tema central na campanha presidencial, como já foi nas eleições da metade do mandato, em 2006. Mas praticamente desapareceu, o que tem provocado uma certa perplexidade.


Não deveria ser assim. O "The Wall Street Journal" esteve perto de acertar em um artigo de primeira página sobre a Super Terça-feira, aquele dia de múltiplas primárias: "Os temas passam ao segundo plano na campanha de 2008 na medida em que os eleitores vão se focando na personalidade".


Para colocar a coisa de maneira mais específica, os temas deixam de estar em primeiro plano, enquanto os candidatos e suas agências de relações públicas se concentram na personalidade. Como de costume, os temas podem ser perigosos. A teoria democrata progressista sustenta que a população ("marginais ignorantes e intrometidos") deveria ser "espectadora" e não "partícipe" da ação, como escreveu Walter Lippmann.


Os partícipes estão conscientes de que ambos os partidos políticos estão bem à direita da população e de que a opinião pública é consistente através do tempo, assunto analisado no útil estudo "A falta de conexão da política exterior", de Benjamin Page e Marshall Bouton. É importante, então, que a atenção seja desviada para outro lado.


O trabalho concreto do mundo é do domínio de uma liderança iluminada. E isso revela-se mais na prática do que nas palavras. O Presidente Wilson, por exemplo, afirmou que se devia empoderar uma elite de cavalheiros de "altos ideais" para preservar a "estabilidade e a correção", essencialmente na perspectiva dos Pais Fundadores (dos Estados Unidos). Em anos mais recentes, esses cavalheiros transmutaram-se na "elite tecnocrática", "intelectuais de ação", os neocons "straussianos" de Bush II e outras configurações. Para esta vanguarda, as razoes de que o Iraque seja retirado da tela do radar não deveriam ser obscuras.


Foram convincentemente explicadas pelo distinguido historiador Arthur M. Schlesinger, articulando a posição dos "pombas" há 40 anos, quando a invasão do Vietnã pelos Estados Unidos estava em seu quarto ano e Washington se preparava para somar outros 100 mil efetivos militares aos 175 mil que já estavam deixando o Vietnã do Sul em cacos. Na época, a invasão implicava em árduos custos, razão pela qual Schlesinger e outros liberais da linha de Kennedy resistiam-se a passar de falcões a pombas.


Em 1966, Schlesinger escreveu que "todos oramos" porque os falcões tenham razão ao pensar que o aumento militar do momento poderá "eliminar a resistência" e, se fizer isso, "todos poderíamos estar saudando a sabedoria e a capacidade estadista do Governo" ao obter a vitória, deixando ao mesmo tempo o "trágico país destruído e devastado pelos bombardeios, arrasado pelo napalm, transformado em uma terra baldia pela defoliação química, uma terra em ruínas", com seu "tecido político e institucional" pulverizado. Mas a escalada provavelmente não terá êxito e vai acabar sendo cara demais para nós; ou seja, que talvez seria necessário repensar a estratégia. Na medida em que os custos começaram a subir severamente, logo ocorreu que todos tinham sido "ferrenhos opositores à guerra".


O raciocínio da elite e as atitudes que o acompanham apresentam hoje poucas mudanças. E apesar de que as críticas à guerra do Iraque são muito maiores e estão mais estendidas que no caso do Vietnã em qualquer etapa comparável, os princípios que Schlesinger articulou continuam vigentes. E ele mesmo adotou uma posição muito diferente perante a invasão do Iraque. Quando as bombas começaram a cair sobre Bagdá escreveu que as políticas de Bush são "alarmantemente similares à política que o Japão imperial aplicou em Pearl Harbor, em uma data que, como disse um Presidente americano anterior, vai perdurar na infâmia.


"Franklin D. Roosevelt tinha razão, mas hoje somos nós que vivemos na infâmia". Que o Iraque é "uma terra em ruínas" não é questionável. Recentemente a agência britânica Oxford Research Business atualizou sua estimativa de mortes adicionais causadas pela guerra em 1,03 milhões, excluindo Karbala e Anbar, duas das piores regiões. Seja correta essa estimativa, ou exagerada, segundo alguns, não há dúvida de que o balanço é horrendo. Vários milhões de pessoas estão deslocadas internamente.


Graças à generosidade da Jordânia e da Síria, os milhões de refugiados que fogem do colapso do Iraque, incluindo a maioria profissional, não foram, simplesmente, exterminados. Mas essa acolhida fica enfraquecida porque a Jordânia e a Síria não recebem nenhum apoio significativo de parte dos autores dos crimes em Washington e Londres; a idéia de que eles possam admitir essas vítimas, para além de casos pontuais, é estapafúrdia demais para ser considerada. A guerra sectária devastou o Iraque. Bagdá e outras áreas foram submetidas a uma limpeza étnica brutal e deixadas em mãos de senhores da guerra e de milícias, a primeira cartada da atual estratégia de contra-insurgência desenvolvida pelo general Petraeus.


Um dos mais informados jornalistas que se aprofundaram na chocante tragédia, Nir Rosen, publicou recentemente um epitáfio, "A morte do Iraque", em "Current History". Escreve Rosen: "O Iraque foi assassinado, para nunca mais se levantar. A ocupação americana tem sido mais desastrosa que a dos mongóis, que saquearam Bagdá no século 13", percepção comum dos iraquianos. "Somente os tolos falam agora em 'soluções'. Não há solução. A única esperança é que, talvez, o dano possa ser limitado".


Independiente da catástrofe, o Iraque continua sendo um tema marginal na campanha presidencial. Isso é natural, dado o espectro falcão-pomba da opinião elitista. As pombas liberais aderem ao seu raciocínio e atitudes tradicionais, rezando para que os falcões estejam com a razão, que os EUA obtenham uma vitória e imponham "estabilidade", palavra código para subordinação à vontade de Washington.


Os falcões são alentados e as pombas silenciadas com relatórios entusiastas sobre menores baixas após o aumento de tropas. Em dezembro, o Pentágono difundiu "boas notícias" sobre o Iraque: um estudo mostrava que os iraquianos têm "opiniões divididas", com o que a reconciliação deveria ser possível. As opiniões eram duas. Primeiro, que a invasão dos EUA é a causa da violência sectária que deixou o Iraque aos pedaços. Segundo, que os invasores deveriam se retirar.


Umas poucas semanas depois do relatório do Pentágono, o especialista militar no Iraque do The New York Times, Michael R. Gordon, escreveu uma análise arrazoada sobre as opções referentes ao Iraque que enfrentam os candidatos presidenciais. Há uma voz que falta no debate: a dos iraquianos. Ou melhor: ela não é digna de ser mencionada.


E parece que ninguém se importa. Isso tem sentido na habitual presunção tácita de quase todos os discursos sobre política internacional: somos donos do mundo, o que importa, então, o que outros pensem? São "não-pessoas", pegando de empréstimo o termo usado pelo historiador britânico Mark Curtis em seu trabalho sobre os crimes imperiais do Reino Unido. Por rotina, os americanos unem-se aos iraquianos em ser não-pessoas. Suas preferências também não oferecem opções.


O original encontra-se em IAR Notícias/The New York Times Syndicate

Título do Vermelho 14 DE MARÇO DE 2008 - 12h21


terça-feira, março 11, 2008

Terrorismo internacional - a lista dos mais procurados,


por Noam Chomsky criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
08-Mar-2008
Os apologistas mais vulgares dos crimes dos EUA e Israel explicam com solenidade digna de melhor causa que, enquanto os árabes têm o propósito de matar pessoas, os EUA e Israel não têm a menor intenção de fazê-lo. Os seus mortos são, simplesmente, acidentais e não podem ser comparados com os de seus adversários.
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Artigo de Noam Chomsky, traduzido e publicado por Carta Maior
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No dia 13 de Fevereiro passado, foi assassinado em Damasco Imad Moughniyeh, um veterano dirigente do Hezbollah. "O mundo é um lugar melhor sem este homem", disse o porta-voz do Departamento de Estado, Sean McComarck, e acrescentou que "de um modo ou de outro, foi feita justiça". E Mike McConnell, Director da Inteligência Nacional, acrescentou que Moughniyeh "foi o terrorista responsável pelo maior número de mortes de norte-americanos e israelitas depois de Osama bin Laden". Israel também deu vazão à sua alegria: "um dos homens mais procurados pelos EUA e por Israel" teria sido justiçado, segundo informou o Financial Times. Com o título de "Um militante procurado em todo o mundo", foi publicado um relatório segundo o qual Moughniyeh vinha logo após Osama bin Laden na lista dos mais procurados após o 11/9 e, portanto, era o segundo entre os "militantes mais procurados no mundo".

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A terminologia é suficientemente precisa, de acordo com as regras do discurso anglo-americano, que entende por "mundo" a classe política de Washington e Londres (e todos aqueles que concordem com eles em determinados assuntos). Assim, por exemplo, é frequente ler que todo "o mundo" apoiou George Bush quando ele ordenou o bombardeamento do Afeganistão. E isto pode ser verdade para "o mundo", mas dificilmente para o mundo, como teve boa ocasião de revelar a agência internacional de pesquisa Gallup logo após o anúncio do bombardeamento. O apoio mundial foi mínimo. A percentagem de aceitação numa América Latina com ampla experiência nas condutas dos EUA oscilou entre os 2% do México e os 16% do Panamá, e inclusive esse minúsculo apoio estava condicionado à prévia identificação dos suspeitos (segundo o FBI, eles ainda estavam sem identificar oito meses depois), e a que os alvos civis estivessem a salvo, coisa que não ocorreu. O mundo mostrava uma esmagadora preferência pela via diplomático-jurídica, mas "o mundo" descartou isso completamente.

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Atrás do rastro do terror

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No caso presente, se "o mundo" fosse todo o mundo, poderíamos encontrar outros candidatos dignos de honra como arqui-inimigos mais odiados. E é instrutivo que nos perguntemos por quê.

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O Financial Times informou que a maioria das acusações contra Moughniyeh não estavam provadas, mas "uma das poucas vezes em que é possível afirmar com certeza sua participação [é no] sequestro do avião da companhia TWA, em 1985, quando foi assassinado um mergulhador da armada norte-americana". Esta foi uma das duas atrocidades terroristas que, segundo uma pesquisa entre directores de jornais, fez com que o terrorismo no Médio Oriente se transformasse na notícia mais importante de 1985; a outra foi o sequestro do navio de linha Archille Lauro, no qual resultou brutalmente assassinado Leon Klinghoffer, um inválido norte-americano. Isto reflecte o julgamento do "mundo". É possível que o mundo visse as coisas de outra maneira.

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O sequestro do Achille Lauro foi a represália pelo bombardeamento da Tunísia, ordenado uma semana antes pelo Primeiro-Ministro israelita Shimón Peres. A sua força aérea assassinou setenta e cinco tunisinos e palestinianos com bombas inteligentes que os deixaram em mil pedaços, entre outras atrocidades narradas de maneira vívida pelo destacado jornalista israelita Amnon Kapeliouk. Washington colaborou, uma vez que omitiu advertir o seu aliado tunisino de que as bombas estavam a caminho, e é impossível que a Sexta Frota e a inteligência norte-americana não soubessem do iminente ataque. George Schultz, então Secretário de Estado, comunicou ao Ministro israelita de Assuntos Exteriores, Yitzhak Shamir, que em Washington "a acção israelita despertou uma enorme simpatia", e qualificou essa acção -com o aplauso geral- como uma "resposta legítima" aos "ataques terroristas".

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Poucos dias depois, o Conselho de Segurança da ONU denunciou de forma unânime (com a abstenção dos EUA) os bombardeamentos como um "acto de agressão armada". Sobra dizer que "agressão" é um crime muito mais grave que terrorismo internacional. Mas, concedendo o benefício da dúvida aos EUA e a Israel, vamos deixar que recaia sobre os responsáveis apenas a acusação menos grave.

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Poucos dias antes, Peres foi a Washington para consultar com o principal terrorista internacional do momento, Ronald Reagan, que denunciou "o terrível flagelo do terrorismo", novamente com o aplauso geral do "mundo".

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Os "ataques terroristas" que Shultz e Peres pretextaram para bombardear a Tunísia foram os assassinatos de três israelitas em Larnaca, Chipre. Os assassinos, como admitiu Israel, não tinham nenhuma relação com a Tunísia, mas talvez tivessem conexões com a Síria. Contudo, a Tunísia era um alvo bem melhor: estava inerme, diferente de Damasco. Além disso, proporcionava um prazer adicional: ali podiam ser assassinados mais palestinos exilados.

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Por sua vez, os assassinatos de Larnaca foram considerados uma represália de seus perpetradores: uma resposta aos sistemáticos sequestros israelitas em águas internacionais, que resultaram nos assassinatos de muitas pessoas e no sequestro e conseguinte encarceramento de muitas outras, retidas sem acusações por longos períodos em cárceres israelitas. A mais famosa destas foi a prisão/câmara-de-tortura 1391. Há muita informação sobre isso na imprensa israelita e estrangeira. Esses crimes sistemáticos, é claro, são conhecidos pelas redacções dos jornais dos EUA e, de vez em quando, são mencionados quase de passagem.

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O assassinato de Klinghoffer's foi vivenciado com uma verdadeira sensação de horror e é muito célebre. Transformou-se em tema de uma ópera aclamada e em roteiro de um filme feito para a televisão. Mas também causaram horror os assombrosos comentários condenando a selvajaria dos palestinianos: "bestas bicéfalas" (segundo o Primeiro-Ministro Menachen Begin), "baratas drogadas debatendo-se em uma garrafa" (segundo o Chefe da Equipe Raful Eitan), "como grilos, comparados a nós", seres cujas cabeças deveriam ser "transformadas em picadinho batendo-as contra o canto rodado das paredes" (disse o Primeiro-Ministro Yitzhak Shamir). Ou, simplesmente, chamados de araboushim, o equivalente ao nosso "judeu" ou ao nosso "negro".

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Assim, depois de uma exibição particularmente depravada de terror militar e de uma intencionada humilhação na cidade de Halhul, na Ribeira Ocidental, em Dezembro de 1982 (deixou incomodados até os falcões israelitas!), o conhecido analista militar e político Yoram Peri escreveu consternado: "hoje, um dos objectivos do nosso exército [é] demolir os direitos de pessoas inocentes simplesmente porque são araboushim que vivem em territórios que Deus prometeu a nós", tarefa, esta, cada vez mais urgente, e que se realiza com crescente brutalidade desde que os araboushim começaram a "levantar a cabeça" uns anos atrás.

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Não é difícil averiguar se os sentimentos expressados com motivo do assassinato de Klinghoffer foram sinceros. Basta investigar a reacção diante dos crimes israelitas apoiados pelos EUA. Vamos pensar, por exemplo, no assassinato de dois inválidos palestinos em Abril de 2002, Kemal Zughayer e Jamal Rashid, pelas mãos das forças israelitas em incursão no campo de refugiados de Jenin, na Ribeira Ocidental. Os jornalistas britânicos encontraram o corpo esmagado de Zughayer e os restos da sua cadeira de rodas, junto com o que restava de uma bandeira branca que ele segurava no momento de ser assassinado, quando tentava fugir dos tanques israelitas que foram lançados sobre ele partindo o seu rosto em dois pedaços e amputando braços e pernas. Jamal Rashid terminou esmagado na sua cadeira de rodas quando uma das enormes pás escavadoras fornecidas pelos EUA destruiu a sua casa em Jenin, com toda a sua família dentro. A diferente reacção, ou por melhor dizer, a falta absoluta de reacção, é a rotina, e é tão fácil de explicar que não precisa de maiores comentários.

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Carro-Bomba

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Simplesmente, o bombardeamento da Tunísia em 1985 foi um crime terrorista infinitamente mais grave do que o sequestro do Achille Lauro, ou que o crime ocorrido nesse mesmo ano em que a participação de Moughniyeh`s "podia ser estabelecida com certeza". Mas mesmo o bombardeamento tunisino tem competidores para o prémio no concurso das maiores atrocidades terroristas no Médio Oriente desse ano ímpar que foi 1985.

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Um dos aspirantes foi o carro-bomba colocado em Beirute na saída de uma Mesquita e programado para explodir quando os devotos se retiravam depois das suas orações de sexta-feira. A bomba matou 80 pessoas e feriu outras 256. A maioria dos mortos eram meninas e mulheres que saíam da Mesquita, apesar de que a ferocidade da onda expansiva "carbonizou bebés em seus berços", "matou uma noiva que estava a comprar o seu enxoval", e "fez voar pelos ares três crianças que voltavam para casa vindas da Mesquita". Também devastou a rua principal do subúrbio densamente povoado de Beirute oeste, como informou há três anos Nora Boustany no Washington Post.

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O alvo pretendido era o clérigo Shiita Sheikh Mohammad Hussein Fadlallah, que conseguiu escapar com vida. O atentando foi perpetrado pela CIA de Reagan e seus aliados sauditas, com ajuda britânica, e autorizado especificamente pelo Diretor da CIA, William Casey, segundo o relato do jornalista do Washington Post, Bob Woodward, no seu livro "O Véu: as guerras secretas da CIA 1981-1987". Muito pouco se conhece além dos meros factos, graças à escrupulosa aceitação da doutrina, segundo a qual não se deve investigar os nossos próprios crimes (a menos que fiquem conhecidos demais para que possamos negá-los e a investigação fique limitada ao círculo de umas poucas "maçãs podres" subalternas que, todo o mundo já sabe, agem de modo "descontrolado").

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"Aldeões terroristas"

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O terceiro candidato ao prémio do terrorismo no Médio Oriente de 1985 foram as operações "Iron Fist" [Punho de Ferro] do Primeiro-Ministro Peres nos territórios do sudeste do Líbano, ocupados nesse momento por Israel, violando as ordens do Conselho de Segurança da ONU. O objectivo, segundo os altos comandos israelitas, era os chamados "terroristas aldeões". Neste caso, os crimes de Peres derraparam pelos novos caminhos da "brutalidade calculada" e do "assassinato arbitrário", segundo palavras de um diplomata ocidental entendido nestes temas, afirmações posteriormente corroboradas pelas filmagens ao vivo dos factos. Mas como nada disso interessava ao "mundo", não foram investigados. Como de costume. Seria legítimo perguntar se esses crimes se enquadram sob a categoria de terrorismo internacional ou sob a categoria, bem mais grave, de crime de agressão. Mas vamos conceder, mais uma vez, o benefício da dúvida a Israel e seus sequazes de Washington, e vamos conformar-nos com a acusação menos grave de terrorismo.

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Essas são algumas das ideias que podem passar pela cabeça das pessoas de qualquer lugar do mundo - que não nas do "mundo"-, quando pensam naquela "ocasião", "uma das poucas" em que Imad Moughniyeh esteve claramente envolvido num crime terrorista.

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Os EUA acusam-no, também, de ter sido responsável pelos ataques arrasadores contra a marinha dos EUA e os barracões de pára-quedistas franceses no Líbano, em 1983, ataques perpetrados com um camião bomba e dois suicidas e que resultaram na morte de 241 marines e 58 pára-quedistas. E também de um ataque anterior contra a Embaixada dos EUA em Beirute, que matou sessenta e três pessoas e foi particularmente grave, porque nesse momento estava a realizar-se uma reunião em que participavam funcionários da CIA.

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Contudo, o Financial Times atribuiu o ataque contra os barracões à Jihad islâmica e não ao Hezbollah. Fawz Gerges, um dos académicos destacados no estudo dos movimentos Jihad e do Líbano, escreveu que um "grupo desconhecido denominado Jihad islâmica" assumiu a responsabilidade. Uma voz que falava em árabe clássico instou todos os norte-americanos a deixarem o Líbano, ou enfrentariam a morte. Tem sido dito que Moughniyeh era, nesse momento, o cabeça da Jihad islâmica, mas, até onde alcança o meu conhecimento, há escassas provas disso.

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Não existem sondagens da opinião mundial a esse respeito, mas é bem provável que se deva chamar de "ataque terrorista" ao ataque a uma base militar radicada em um país estrangeiro, especialmente porque as forças dos EUA e da França estavam a desenvolver vigorosos bombardeamentos navais e aéreos no Líbano pouco depois que os EUA prestassem um apoio decisivo à invasão israelita do Líbano em 1982, que acabou com a vida de umas 20.000 pessoas e devastou o sul, deixando grande parte de Beirute em ruínas. Finalmente, o Presidente Reagan suspendeu os ataques quando o protesto internacional após os massacres de Sabra e Shatila subiu de tom a tal ponto, que não pôde mais ser ignorado.

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Geralmente, nos EUA, a invasão israelita do Líbano é descrita como uma reacção aos ataques terroristas no norte de Israel, a partir de bases libanesas, por parte da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), explicação que torna compreensível a nossa crucial contribuição para esses crimes de guerra maiores. No mundo real, a fronteira libanesa esteve quieta durante um ano, apesar de repetidos ataques israelitas, muitos deles sangrentos, tendentes a provocar alguma resposta da OLP que servisse como pretexto para uma invasão já decidida e planeada. Os comentaristas e líderes israelitas não confessaram o seu verdadeiro propósito nesse momento: salvaguardar o poder israelita na zona ocupada da Margem Ocidental.

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Não carece de interesse o facto de que o único erro grave do livro de Jimmy Carter ("Palestina: Paz ou Apartheid") seja a reiteração deste coquetel propagandístico, segundo o qual os ataques da OLP a partir do Líbano foram a causa da invasão por parte de Israel. Sobre o livro choveram ataques e têm sido feitos esforços desesperados para encontrar alguma frase que pudesse ser mal interpretada, mas este erro flagrante, o único, foi ignorado. E com razão, porque assim se cumpre com o critério de respeitar as falsificações doutrinárias úteis.

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Matar sem querer

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Outra das acusações contra Moughniyeh: foi transformado no "cérebro" da bomba na Embaixada de Israel em Buenos Aires que, no dia 17 de Março de 1992, matou vinte e nove pessoas. Foi uma resposta - como disse o Financial Times - ao assassinato por parte de Israel do antigo chefe do Hezbollah, Abbas Al-Mussawi no decurso de um ataque aéreo no sul do Líbano". Sobre o assassinato não são necessárias maiores provas, porque Israel assumiu com orgulho o mérito. Mas o mundo poderia ter um certo interesse no resto da história. Al-Mussawi foi assassinado com um helicóptero fornecido pelos EUA numa zona muito ao norte da "zona de segurança" ilegalmente afixada por Israel no sul do Líbano. Estava a caminho de Sidon vindo de Jibshit, depois de dissertar num acto em memória de outro imã assassinado pelas forças israelitas. O ataque do helicóptero também acabou com a sua esposa e o seu filho de cinco anos. Após o ataque, Israel serviu-se de outros helicópteros, também fornecidos pelos EUA, para atacar um caminhão que transportava os sobreviventes do primeiro ataque para um hospital.

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Depois do assassinato da família, o Hezbollah "mudou as regras do jogo", informou o Primeiro-Ministro Rabin perante o Parlamento israelita. Nunca antes tinham sido lançados mísseis contra Israel. Até aquele momento, as regras do jogo eram que Israel podia lançar ataques mortíferos onde quisesse e segundo o seu arbítrio, e o Hezbollah tinha que se limitar a responder dentro do território libanês ocupado por Israel.

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Após o assassinato do seu líder (e da sua família), o Hezbollah começou a responder aos crimes de Israel no Líbano atacando o norte de Israel. Isto é, evidentemente, terror intolerável, ou seja que Rabin lançou uma invasão que expulsou de seus lares 500.000 pessoas e matou mais de 100. Os inclementes ataques israelitas chegaram até o norte do Líbano.

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No Sul, 80% da cidade de Tiro fugiu e Nabatiye ficou reduzida a uma "cidade fantasma". Segundo um porta-voz do exército israelita, Jibshit foi destruída em 70%, e ele acrescentou que o objectivo era "destruir a cidade por completo, dada a sua importância para a população shiita do sul do Líbano". O objectivo era "apagar as cidades da face da terra e semear destruição em seu entorno", segundo descreveu essa operação um veterano oficial do comando norte israelita.

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É possível que Jibshit tenha sido um objectivo cobiçado porque foi a terra do Sheik Abdul Karim Obeid, sequestrado e levado para Israel vários anos antes. A pátria de Obeid "recebeu o impacto directo de um míssil", informou o jornalista britânico Robert Fisk, "ainda que o mais provável é que os israelitas estivessem a atirar contra a sua mulher e os seus três filhos". Mark Nicholson escreveu no Financial Times que aqueles que não escaparam esconderam-se aterrorizados, "porque era possível que qualquer movimento dentro ou fora das suas casas atraísse a atenção da artilharia israelita, a qual estava a disparar os seus projécteis repetida e arrasadoramente sobre objectivos seleccionados". Por momentos, os projécteis da artilharia alvejavam algumas aldeias a um ritmo de mais de dez disparos por minuto.

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Todos estes fatos contaram com o firme aval do Presidente Bill Clinton, que entendeu a necessidade de instruir com severidade os araboushim sobre "as regras do jogo". E Rabin apareceu como o outro grande herói, como o homem da paz, muito diferente das "bestas bicéfalas", "dos grilos" e das "baratas drogadas". Esta é, simplesmente, uma pequena amostra dos fatos que poderiam ter interesse para o mundo, uma vez relacionados com a suposta responsabilidade de Moughniyeh no acto de vingança terrorista em Buenos Aires.

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Outra das acusações é que Moughniyeh ajudou a preparar as defesas do Hezbollah contra a invasão israelita do Líbano, em 2006, um crime terrorista intolerável, conforme os critérios do "mundo", convencido de que nada deve cruzar-se no caminho do justo terror e da agressão praticados pelos EUA e pelos seus clientes.

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Os apologistas mais vulgares dos crimes dos EUA e Israel explicam com solenidade digna de melhor causa que, enquanto os árabes têm o propósito de matar pessoas, os EUA e Israel - sendo, como são, sociedades democráticas- não têm a menor intenção de fazê-lo. Os seus mortos são, simplesmente, acidentais, e por isso os seus assassinatos não podem ser comparados, no ponto da depravação moral, com os dos seus adversários. Esta foi, por exemplo, a posição do Tribunal Supremo de Israel quando recentemente autorizou um severo correctivo colectivo contra o povo de Gaza, privando-o de electricidade (e de água, de eliminação de resíduos e águas servidas e de outros elementos básicos da vida civilizada).

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Uma linha de defesa, esta, que é recorrente na hora de enfrentar outros velhos pecadilhos de Washington. Por exemplo, a destruição da Fábrica Farmacêutica ao-Shifa no Sudão, em 1998. Aparentemente, o ataque custou dez mil vidas, mas não houve qualquer intenção de matá-las; daí que não fosse um crime resultante de uma ordem com expressa intenção de matar. Assim nos ensinam esses moralistas sistematicamente empenhados em apagar toda réplica efectiva a essas vulgares tentativas de autojustificação. Vamos dizer mais uma vez: é possível distinguir três categorias de crimes: assassinato intencional, morte acidental e assassinato premeditado mas sem uma intenção específica. As atrocidades dos EUA e Israel são um caso típico da terceira categoria.

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Assim, quando Israel destruiu o fornecimento de energia em Gaza ou colocou obstáculos para viajar para a Cisjordânia, não teve a intenção específica de assassinar as pessoas que morreriam pela contaminação da água, ou em ambulâncias que não podiam chegar até aos hospitais. E quando Bill Clinton ordenou o bombardeamento da fábrica ao-Shifa, era óbvio que isso poderia terminar numa catástrofe humana. O Observatório de Direitos Humanos deu a ele essa informação imediatamente, facilitando todo o tipo de detalhes, mas nem Clinton nem os seus assessores quiseram matar pessoas concretas entre aqueles que inevitavelmente morreriam quando metade das instalações da fábrica farmacêutica foram destruídas num país africano pobre que não poderia reconstruí-la.

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Ocorre, na verdade, que eles e os seus apologistas olham para os africanos sentindo o que nós sentiríamos ao esmagar uma formiga quando caminhamos pela rua. Estamos conscientes de que é possível que ocorra (se nos incomodarmos em pensar sobre isso), mas não queremos matá-las, porque não são dignas nem dessa consideração. Não é necessário dizer que ataques similares perpetrados por araboushim em áreas habitadas por seres humanos seriam considerados de maneira muito diferente.

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Se por um momento fôssemos capazes de adoptar a perspectiva do mundo, poderíamos perguntar quem são os criminosos "mais procurados no mundo inteiro".

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Noam Chomsky é professor emérito de linguística no Instituto de Tecnologia de Massachussets.

Tradução de: Naila Freitas / Verso Tradutores

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