A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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segunda-feira, março 25, 2013

Marx e O Capital: um debate esclarecedor

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25 de Março de 2013 - 15h13
 
Roberto Schwarz, João Quartim de Moraes, Sofia Manzano, Emir Sader e José Arthur Giannotti (Foto: Ana Yumi Kajiki)

Marx e O Capital: um debate esclarecedor


Na tarde da sexta-feira 22 de março de 2013, ocorreu o debate sobre os estudos d’O Capital no Brasil, no âmbito do seminário "Margem Esquerda — Marx e O Capital", com as presenças de Emir Sader (sociólogo), João Quartim de Moraes (filósofo), José Arthur Giannotti (filósofo) e Roberto Schwarz (crítico literário), mediado pela professora e pesquisadora Sofia Manzano.

Por Osvaldo Bertolino, do Portal Maurício Grabois
O evento, realizado pela Boitempo Editorial em parceria com o Sesc, com apoio da Fundação Maurício Grabois, Fundação Lauro Campos, Fundação Rosa Luxemburgo e FAU-USP, ocorreu no Sesc Pinheiros, na cidade de São Paulo.

Os debates começaram com a exposição de Roberto Schwarz. Ele disse que teve a sorte de participar de um momento de apreciação crítica do marxismo, referindo-se a um grupo que começou a estudar O Capital, a partir de 1958, na Faculdade de Filosofia. Segundo ele, o grupo deu vários professores, que escreveram livros de qualidade, fazendo com que em pouco tempo o ponto de vista marxista se tornasse uma presença forte na academia. Quando o seminário começou a se reunir, lembrou Roberto Schwarz, as figuras constantes eram José Arthur Giannotti, Fernando Novais, Paul Singer, Octavio Ianni, Ruth Cardoso e Fernando Henrique Cardoso. Ele elogiou o grande público presente no Sesc Pinheiros, interessado na obra de Marx.

O debate teve como ponto alto a polêmica entre José Arthur Giannotti e João Quartim de Moraes sobre a essência do pensamento de Karl Marx. A preocupação quanto à forma de ler Marx e por que estudar sua obra está sempre presente, na visão de Giannotti. Segundo ele, O Capital é fascinante; o leitor fica espantado ao ler, por exemplo, a parte sobre a acumulação de capital, também chamada de “acumulação primitiva”. São capítulos de uma grandeza de reconstrução histórica que espanta qualquer pessoa, enfatizou.
Vulgata marxista
No terceiro volume, disse Giannotti, o processo de alienação da mercadoria se explicita e o leitor fica extasiado diante da descrição de como o capital financeiro se desliga do movimento social e do próprio capital. Ele afirmou que teria de retomar o capítulo sobre o valor para se apoiar nele e desenvolver algumas ideais. Antes, ressalvou que era preciso não esquecer que O Capital é um livro inacabado, fechado por Friedrich Engels. E que está dentro da escrita de Marx uma ideia de história muito peculiar, adaptada do hegelianismo. Para Giannotti, houve uma simplificação dessa ideia pelo que ele chamou de “vulgata marxista” — uma alusão aos métodos de estudo e difusão da teoria de Marx com matriz na União Soviética.

Ele disse que para a “vulgata marxista” essa ideia partiria do comunismo primitivo, quando não haveria propriedade privada dos meios de produção, passaria por uma evolução que instalara a luta de classes e, finalmente, chegaria à configuração de uma contradição que seria superada por uma sociedade sem classes, terminando a pré-história para entrar na história de verdade. Trata-se, segundo Giannotti, de um esquema com uma parte conceitual hegeliana que está muito presente em vários momentos da escrita de Marx, um conceito formado por movimentos. Tanto que quando se quer pensar o conceito de Marx em Hegel, é bom pensar em gênero e espécie, exemplificou.

Segundo Giannotti, Marx não queria apenas escrever um livro teórico. Basta ler a última “Teses sobre Feuerbach” para saber que ele queria transformar o mundo, lembrou. E esse momento de transformação foi realizado de uma maneira muito extraordinária, disse Giannotti, porque ele inspirou vários movimentos sociais e a Revolução Russa. E a partir dela, em particular depois que a Revolução se fechou na Terceira Internacional, o marxismo-hegelianismo de Marx e Engels se tornou o pai da Revolução, quando o marxismo se transformou em “vulgata”.
Manuais marxistas
De acordo com Giannotti, a partir dali a maioria dos que estudavam Marx liam manuais. Tiraram da análise de Marx a explicação sobre como funcionam os modos de produção e em particular como é o modo de produção capitalista, algo “substancial”, substituido por uma teoria do conhecimento. E, avaliou, quando o marxismo se tornou na “vulgata marxista”, uma teoria do conhecimento, foi um momento obscuro da inteligência do século XX. Em termos físicos, por exemplo, disse Giannotti, falando na concepção, Engels também entrou na “besteira” de pensar na dialética da natureza, para a qual a noção de contradição seria possível.

No Brasil, Giannotti citou o caso de Caio Prado Júnior, segundo ele um historiador extraordinário, que adotou o método da “vulgata marxista”. Para ele, esse método impediu a percepção de Marx como um clássico, que entraria para o patrimônio da humanidade. Giannotti afirmou que Marx sempre foi lido das mais diferentes maneiras. Citou que na passagem do século XIX para o século XX existiram leituras de Marx grandemente diferenciadas, como na Alemanha, onde Karl Kautsky e Rosa Luxemburgo tinham interpretações bem diferentes. Citou também a União Soviética, onde havia a leitura de Vladimir Lênin e a de Nikolai Bukharin. Na Itália e na França igualmente haveria leituras díspares. Mas todas elas recorriam a Hegel, de uma maneira diferente.

Segundo Giannotti, essa recorrência a Hegel é claramente percebida para quem se detém no primeiro capítulo d’O Capital. Do ponto de vista da economia, afirmou, o primeiro capítulo se refere basicamente à teoria do valor-trabalho. Ele explicou que Marx faz uma objeção a David Ricardo, de suma importância: o economista britânico não entendia que o valor é uma substância, não simplesmente um sistema de relação entre valor de troca e valor de uso. Há uma coisa a mais. Obviamente, disse Giannotti, Marx estava recorrendo à concepção hegeliana de substância.
Marxismo e comunismo
João Quartim de Moraes disse que o marxismo entrou no Brasil na bagagem do comunismo. Esse fenômeno, essa inversão, não foi exclusivo, mas uma peculiaridade da história das lutas sociais brasileiras, afirmou. Segundo ele, o mesmo não ocorreu, por exemplo, nos vizinhos do Cone Sul. Na Argentina, para citar o caso mais nítido, enfatizou, o pensamento marxista havia desembarcado bem antes. Na última década do século XIX, informou Quartim de Moraes, os socialistas de lá fundaram o seu próprio partido. E um desses fundadores foi o primeiro tradutor d’O Capital para o espanhol.

Dessa peculiaridade brasileira de que o comunismo veio antes do marxismo, disse Quartim de Moraes, decorre um período para que a obra de Marx começasse a ser estudada de modo aprofundado, quando O Capital começou a ser lido com rigor teórico. Não só por Caio Prado Júnior, mas também por Nelson Werneck Sodré e, um pouco mais adiante, por Jocob Gorender e outros, lembrou. Eles se serviram do aparelho conceitual marxista em debates importantes sobre o programa revolucionário brasileiro, observou João Quartim de Moares.

Ele citou como exemplo o V Congresso do Partido Comunista do Brasil (PCB), quando houve debates profundos sobre a questão agrária, que levou a um conhecimento, à própria apropriação teórica do marxismo por parte de muitos dos intelectuais comunistas que dele participaram. Essa experiência teórica, afirmou Quartim de Moares, depois seria limitada e bloqueada com a repressão dos anos de chumbo.

Quando ela retornou para o debate dos movimentos sociais era um momento em que os comunistas eram forças secundárias; o principal partido de esquerda era o Partido dos Trabalhadores (PT) que, embora nunca o tenha rejeitado, o marxismo não estava em sua prioridade teórica. Segundo Quartim de Moares, esse interregno não exerceu nenhum efeito de atrofia na leitura d’O Capital. Ele disse que via na nova geração um interesse muito grande na obra de Marx e sua leitura se espalhou, assim como a cultura marxista.
Filosofia em Lênin
Quartim de Moares lembrou a presença de Marx no mundo acadêmico, mas enfatizou que ao mesmo tempo há uma injustificável ausência de Lênin. A firmeza com que o líder da Revolução Russa defendeu a posição materialista em filosofia, embora não fosse filósofo profissional, merecia ser ressaltada, afirmou. E sem a teoria do imperialismo não se compreende o século 20, simplesmente, disse Quartim de Moraes.

Para ele, colonialismo e imperialismo são termos chaves para a história do século 20 e começo do século 21. Por iniciativa de um nome que “não posso citar aqui”, destacou, o famoso dístico “Proletários do mundo inteiro uni-vos!” se transformou em “Proletários e povos coloniais do mundo inteiro uni-vos!”. Essa foi uma mudança fantástica, avaliou.

A União Soviética, apesar de vitoriosa em muitas questões, acabou destruída e os soviéticos derrotaram o nazismo, comentando que a versão dominante propagada por Hollywood dá conta da derrota da Alemanha nazista com o desembarque das tropas ocidentais na Normandia em 1944, uma falsificação da história. Naquele tempo, a União Soviética já havia destroçados os nazistas em Stalingrado e na batalha de Kursk, a maior de toda a história, informou. “De modo que com todos os defeitos da União Soviética, eu acho que foi um desastre para a humanidade o desastre que a destruiu”, concluiu.
Desequilíbrio do capitalismo
Emir Sader retomou o argumento de Quartim de Moraes para dizer que sua visão coincidia com o conceito de imperialismo teorizado por Lênin. A hegemonia americana e a modalidade exacerbada do capitalismo neoliberal constituem outro elemento essencial para entender o mundo de hoje, disse ele. Com o fim da Guerra Fria, afirmou, Marx foi assassinado novamente. Por uma quantidade enorme de razões, bem ou mal historicamente ele estava identificado com aquele socialismo que naufragou, disse Emir Sader. Difundiu-se que a partir dali o capitalismo não teria crise e estava identificado com dinamismo, eficácia, bem-estar etc.

Foi necessário chegar a crise de 2008 para que outra palavra fundamental identificada com Marx voltasse à baila, e que descreve o capitalismo como nenhuma outra: crise. Já no Manifesto do Partido Comunista Marx e Elgels fizeram o reconhecimento formidável da capacidade extraordinária do capitalismo de desenvolver as forças produtivas e demonstrou sua incapacidade de distribuir renda para absorver a produção, comentou. A crise do capitalismo é estrutural, porque há um desequilíbrio entre produção e consumo, como demonstrou Marx e Engels, e foi isso que voltou a acontecer com a crise atual.

Emir Sader comentou também que em geral o neoliberalismo dizia que a economia deixou de crescer pelas excessivas regulamentações. Todo ideário neoliberal pode ser unificado na defesa da desregulamentação, afirmou, com a ideia de que o capital voltaria a investir e a economia cresceria para beneficiar a todos. Mas esqueceram da tese de Marx de que o capital não foi feito para produzir, mas para acumular, destacou. Desregulamentar significa transferir uma quantidade gigantesca de capitais do setor produtivo para o setor especulativo, o setor financeiro, observou.
Crítica científica
Com esse dado, aparece a força extraordinária de Marx, sua explicação dos mecanismos clássicos de acumulação para as finanças, afirmou Sader. Para ele, o único aspecto permanente do marxismo é o método; sua readequação histórica é diferenciada, comentou, complementando que o horizonte de reflexão do marxismo hoje em dia é muito mais claro pela característica que assume o papel do Estado. Ele citou o caso da destruição do Estado de bem-estar social na Europa — a maior construção civilizatória da história dos “trinta anos gloriosos da Europa” —, que está sendo formalizada pela crise atual, destruindo direitos fundamentais.
Michael Heinrich
À noite, ocorreu a conferência “Os manuscritos de Karl Marx e Friedrich Engels”, com Michael Heinrich (MEGA, Alemanha), mediada por Augusto Buonicore, da Fundação Maurício Grabois.

Heinrich disse que Marx negava ter criado um sistema final, fechado. Ele sempre foi um cientista e deixou registrado no prefácio do primeiro volume d’O capital que cada crítica científica seria bem-vinda. Marx era um cientista aberto a críticas, afirmou. Michael Heinrich disse ainda que nos anos 1960 Marx foi redescoberto por ativistas e jovens estudantes fora dos partidos comunistas tradicionais, pelo menos da Europa ocidental e nos Estados Unidos.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Capitalismo e desemprego: a história se repete como tragédia - Osvaldo Bertolino


cartoon - Artur Bicalho

Economia

Vermelho - 11 de Janeiro de 2010 - 11h29

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Os dados do desemprego nos países ricos, revelados na semana passada, são de assustar. Estados Unidos e Europa, que concentram uma imensa fatia do PIB mundial, apresentam taxas de desemprego em torno dos dois dígitos — fato que aponta o potencial longevo e destrutivo da atual crise global.

Por Osvaldo Bertolino

Em recente artigo no The New York Times, Paul Krugman comentou o relatório do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos, alertando que a criação de alguns postos de trabalho pela primeira vez em dois anos poderia suscitar apelos por um fim ao estímulo econômico e pela reversão dos passos que o governo e o Fed (Banco Central norte-americano) estão tomando para impulsionar a economia. Qual o problema?
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Se esses apelos forem considerados, repete-se o grande equívoco de 1937, quando o Fed e a administração do presidente Franklin Roosevelt decidiram que a Grande Depressão havia acabado e que já era hora de a economia jogar fora suas muletas, explicou Krugman. Os gastos foram cortados, a política monetária foi apertada, e a economia imediatamente mergulhou de novo nas profundezas.
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O economista lembrou que tanto Ben Bernanke, o presidente do Fed, quanto Christina Romer, que lidera o Conselho de Assessores Econômicos do presidente Barack Obama, são estudiosos da Grande Depressão. Cristina foi explicitamente alertada contra a possibilidade de reeditar os acontecimentos de 1937, lembrou. “Porém, aqueles que lembram o passado ainda assim o repetem algumas vezes”, advertiu Krugman.
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Reflexo da crise no emprego
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A advertência é séria. Em 1937, os Estados Unidos estavam no auge do debate sobre os efeitos do desemprego no prolongamento da crise econômica. Semelhanças com o estado atual da crise, com potencial para se prolongar por tempo indefinido com conseqüências catastróficas para as demais economias, chamam a atenção e fazem pensar.
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Informa o site Cubadebate que o número de estadunidenses e de empresas que solicitaram declaração de falência aumentou em 32% no ano passado. Foram apresentados 1,4 milhão de pedidos de falência, mais do que em qualquer outro ano, após o Congresso rever as leis da falência, em 2005. No Arizona, o número de falências aumentou subitamente em 77% e na Califórnia, Wyoming e Nevada, em mais de 50%.
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A crise tem reflexos imediatos no índice de emprego. Foram cortadas 85 mil vagas apenas em dezembro, segundo o relatório do PIB norte-americano. O número de novembro foi revisto para melhor, apontando 4 mil contratações ante informação preliminar de 11 mil demissões. Mas houve revisões também em outubro, o que fez com que nesses dois meses a economia tenha perdido mil empregos a mais que o inicialmente divulgado.
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Bancos encalacrados
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Em dezembro, a taxa de desemprego ficou estável em 10%. O desemprego nos Estados Unidos chegou a dois dígitos (10,2%, em outubro, o maior nível desde abril de 1983). O presidente Barack Obama classificou a taxa como “um duro apelo à realidade”, lembrando que um bom nível de emprego acarreta, tradicionalmente, a retomada econômica.
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Desde o início da recessão nos Estados Unidos, em dezembro de 2007, o desemprego no país já avançou 5,3 pontos percentuais, com 8,2 milhões de demissões. Para o economista Adriano Benayon, da Universidade de Brasília (UnB), os bancos usaram os recursos dos bancos centrais, nos Estados Unidos e na Europa, para inflar novas bolhas especulativas, em detrimento do financiamento à produção e à conseqüente geração de empregos.
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“Os BCs emitiram muito dinheiro e o repassaram aos bancos encalacrados com títulos tóxicos. Empresas produtivas hoje são risco alto para eles. É uma política contrária à sociedade. Em vez de crédito público para financiar diretamente a produção e fomentar emprego, contemplou-se apenas a oligarquia”, critica Benayon, acrescentando que, nos seis primeiros meses após à quebra do Lehmann Brothers, em 15 de setembro de 2008, somente o Fed emitiu US$ 8 trilhões.
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Alta constante do desemprego
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Frisando que “os bancos procuram sempre o que lhes parece mais seguro ou rentável”, o economista apontou um paradoxo na crise atual: “Quando há recessão, normalmente preços de ações e commodities caem, mas nesta ocorreu o contrário.” Benayon disse, ainda, que os especuladores estão contraindo empréstimos em dólar, com juro negativo, e investindo em ações e em títulos de países, como o Brasil, nos quais há tendência de valorização cambial. “É um ganho duplo de capital: com juros e valorização da moeda local. É uma guerra cambial na qual o Brasil entra de gaiato, graças ao BC”, resumiu.
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Na Zona do Euro, o índice de desemprego também voltou a bater recorde e chegou em novembro pela primeira vez a 10%, anunciou a agência europeia de estatísticas, Eurostat. O nível de desemprego em novembro é o mais elevado desde agosto de 1998, que estabeleceu registros para os meses anteriores à criação da Zona Euro em 1999.
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Em outubro, o desemprego na Eurozona, integrada por 16 países, afetava 9,9% da população ativa, segundo dados revisados para cima. O desemprego registra uma alta constante desde o agravamento da crise financeira mundial de 2008. Em novembro de 2008, o índice era de 8%.
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Uma Áustria e Irlanda sem emprego
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Na União Europeia (UE), integrada por 27 países (incluindo os 16 da Zona Euro), o desemprego em novembro foi de 9,5%, contra 9,4% em outubro. O número também é um recorde desde o início da atual série estatística, iniciada em janeiro de 2000. Os desempregados da Zona Euro somam 15,712 milhões, uma alta de 102 mil em novembro na copmparação com outubro. Na UE, são 22,899 milhões — com variação positiva de 185 mil desempregados.
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A Europa tem uma Áustria e Irlanda sem emprego Apesar dos discursos róseos sobre o fim da crise, os Estados Unidos e a Zona do Euro fecharam 2009 com desemprego próximo dos dois dígitos. Além de o desemprego ter permanecido em 10% em dezembro, ele ainda não atingiu o pico, alertou o economista Ken Goldstein, da organização de pesquisa e projeções econômicas Conference Board. A taxa ficou pouco abaixo dos 10,1% de outubro de 2009, mas Goldstein avisa que o número ainda irá avançar para entre 10,3% e 10,4% entre abril e maio.
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Falando na conferência “Novo mundo, Novo capitalismo”, na Escola Militar de Paris, o primeiro-ministro português José Sócrates disse que a crise mostrou a importância “do bom e velho Estado” nas políticas de apoio à economia. Muitos “olharam para o Estado à espera de uma resposta” e o “novo capitalismo tem que contar com a presença do Estado”, considerou.
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O patrão ficou louco
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Qual papel o Estado pode ter nos desdobramentos da crise é uma incógnita. O certo é que no período recente o achincalhe ao Estado pelo neoliberalismo resultou em efeitos desastrosos. Em artigo reproduzido no Monitor Mercatil, Petros Panayotídis diz que a década foi iniciada com a conclusão da gigantesca redistribuição da riqueza social a favor dos ricos por intermédio da "loucura monetária".
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Aquilo que o mundo viveu quando jogou e perdeu nas bolsas de valores suas poupanças, pensando ingenuamente que o “patrão ficou louco e está distribuindo dinheiro” foi apenas parcela de um fenômeno mundial, diz ele. “Em todos os países a classe média e até os pobres entregaram suas economias aos empresários. Tratava-se da maior redistribuição da riqueza com métodos pacíficos registrada pela história”, escreve.
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Segundo Petros Panayotídis, realiza-se, novamente, uma gigantesca redistribuição da riqueza social, com os pobres tornando-se mais pobres ainda — desta vez por intermédio da crise econômica — e com os ricos tornando-se mais riscos ainda, graças às medidas de salvação do arcabouço financeiro e econômico mundial.
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Experiência da Grande Depressão
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As contradições internas do capitalismo e o antagonismo capitalista internacional alcançaram um nível no qual as conseqüências recaem pesadamente sobre os trabalhadores. O que acontece hoje é a desvalorização do capital sob todas as formas e a desvalorização da força de trabalho como mercadoria. Aconteceu no passado e voltará a acontecer no futuro, enquanto existir capitalismo.
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A contradição entre capital e trabalho manifesta-se, entre outras formas, no fato de que em geral o capitalista e a ideologia de sua classe só enxergam a possibilidade de prosperidade econômica por meio do aumento incessante do grau de exploração dos trabalhadores. A experiência da Grande Depressão de 1929 demonstra essa constatação.
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Em outubro daquele ano fatídico, pouco menos de um milhão de pessoas estavam desempregadas nos Estados Unidos. Em dezembro de 1931, mais de dez milhões estavam sem trabalho. Seis meses depois, o número de desempregados havia pulado para 13 milhões. No auge da Depressão, em março de 1933, 15 milhões de trabalhadores estavam desocupados.
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Esse crescimento vertiginoso do desemprego levou a central sindical AFL-CIO a acelerar a campanha pela redução da jornada de trabalho, iniciada nos anos 20. Os dirigentes sindicais norte-americanos argumentavam, basicamente, que essa era uma forma para que todos pudessem ter emprego e poder aquisitivo suficiente para dinamizar a economia.
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Dia de trabalho mais curto
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O matemático e filósofo inglês Bertrand Russell defendeu a redução da jornada de trabalho com essa frase: "Não deveria haver oito horas diárias para alguns e zero para outros, mas quatro horas diárias para todos." Em julho de 1932, o Conselho Executivo da AFL, reunido em Atlantic City, redigiu um documento pedindo ao presidente da República, Herbert Hoover, uma conferência com líderes empresariais e sindicais para debater a necessidade de uma semana de trabalho de 30 horas. A idéia ganhou simpatia entre poucos empresários que, voluntariamente, cortaram a semana de trabalho para não demitir mais trabalhadores.
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Uma das empresas que promoveram a redução da jornada foi a Kellog's. Em 1935, a empresa divulgou um estudo detalhado, mostrando que após cinco anos de semana de seis horas por dia o custo unitário das despesas operacionais fora reduzido em 25% (...), os acidentes reduzidos em 41% (...) e 39% mais pessoas do que em 1929 trabalhavam na Kellog's.
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"Para nós, isso não é apenas teoria. Provamos isso com cinco anos de experiência concreta. Descobrimos que, com um dia de trabalho mais curto, a eficiência e o moral de nossos funcionários ficam tão elevados que os acidentes e as taxas de seguro declinaram. E com o custo unitário da produção tão reduzido podemos pagar por seis horas de trabalho o mesmo que costumávamos pagar por oito", diz o estudo.
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Jornada semanal de 30 horas
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Em dezembro de 1932, o senador Hugo Lafayette Black, do Estado do Alabama, apresentou um projeto de lei requerendo a semana de trabalho de 30 horas. O senador dirigiu-se à nação pelo rádio, conclamando os norte-americanos a apoiarem seu projeto — que, segundo suas previsões, se aprovado levaria à imediata readmissão de mais de 6,5 milhões de desempregados. Black disse ainda que esses empregos e suas rendas estimulariam a geração de milhões de novos assalariados.
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O Senado aprovou o projeto no dia 6 de abril de 1933. Sua aprovação entusiasmou o país e estremeceu Wall Street. Enviado imediatamente para a Câmara dos Deputados, ele logo foi aprovado na Comissão do Trabalho e os trabalhadores norte-americanos imaginavam que estavam prestes a serem os primeiros do mundo a ter uma jornada semanal de 30 horas. Mas as horas do projeto estavam contadas.
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O presidente Franklin Roosevelt, em conluio com líderes empresariais, imediatamente tomou providências para afundar a idéia. Roosevelt pediu à Comissão de Estudos da Câmara que acabasse com o projeto em troca da sua famosa "Lei de Recuperação da Indústria Nacional". O presidente alegou que a redução da jornada afetaria a capacidade dos Estados Unidos de "competir" internacionalmente.
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O grande desafio
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Já os empresários não viam com bons olhos uma legislação que institucionalizaria a semana de 30 horas. Mais tarde, em 1937, numa sessão especial no Congresso convocada para tratar do agravamento do desemprego, Roosevelt disse que estava arrependido por não ter apoiado o projeto. "O que o país realmente ganha se encorajarmos o empresariado a ampliar a capacidade de produção da indústria e se não fizermos nada para que os rendimentos da nossa população trabalhadora efetivamente aumentem para criar mercados e absorver a produção gerada?", indagou.
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No pós-guerra, a intervenção do Estado na economia garantiu, em muitos países,  um bom nível de empregabilidade — empregando diretamente ou irrigando a economia com recursos indiretos (obras públicas e indústria bélica, por exemplo). O Estado foi o agente de equilíbrio que absorveu o impacto das crises econômicas e da automação na iniciativa privada.
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Com o Estado transformado em comitê de administração da ciranda financeira pelo neoliberalismo, os efeitos da longa crise iniciada em meados da década de 70 aparecem por toda parte — e o desemprego recorde é uma das suas manifestações mais cruéis. O cassino global, uma máquina predadora da economia real sempre esfomeada, dotou os Estados de uma parafernália que funciona dia e noite a serviço da especulação financeira. Enfrentá-lo é o grande desafio, principalmente para os trabalhadores, nos dias que correm.

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  • visão da crise

    11/01/2010 18h20 Parabéns ao Osvaldo Bertolino pela matéria. Realmente é uma tragédia que se repete e anunciada.

    Jorge Vieira
    Recife - PE


  • Alto nível [correções]

    11/01/2010 18h07 Caro Bertolino: dois registros. 1) A estimativa da "The Economist" para o desemprego em 2010, na União Européia, bate na casa dos 11%. Claro,ideóloga - desde as leituras críticas do gênio Marx -das pilantragens teóricas neoclássicas degeneradas, a "Economist" sempre mente. Portanto...provavelemente... 2) No combate mortal à Grande Depressão, F. D. Roosevelt, além e ao lado de, enquadrou a burguesia financeira norte-americana;criou vários programas sociais, inclusive um (econômico)que "limpava" o gigantesco endividamento das famílias; restringiu pela lei e com força o poder dos monopólios; fez um grande programa de investimentos em infraestrutura etc. Inobstante mesmo, seu artigo está excelente e deve servir de exemplo de jornalismo econômico sério e rigoroso - a quem interessar possa. Sérgio Barroso São Paulo - SP

    Sérgio Barroso
    São Paulo - SP


  • Alto nível

    11/01/2010 17h00
    Caro Bertolino: dois registros. 1) A estimativa da "The Economist" para o desemprego em 2010, na União Européia, bate na cas do 11%. Claro,ideólaga - desde as leituras críticas do gênio Marx -das pilantragens teóricas neoclássicas degeneradas, a "Economist" sempre mente. Portanto...provavelemente... 2) No combate mortal à Grande Depressão, F. D. Roosevelt, além e ao lado de, enquadrou a burguesia financeira norte-americana;criu vários programas sociais, inclusive um (econômico)que "limpava" o gigantesco endividamento das famílias; restringiu pela lei e com força o poder dos monopólios; fez um grande programa de investimentos em infraestrutura etc. Inobstante mesmo, seu artigo está excelente e deve servir de exemplo de jornalismo econômico sério e rigoroso - a quem interessar possa.
    Sérgio Barroso
    São Paulo - SP
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sábado, agosto 04, 2007

Cansei: o silêncio dos culpados e o grito dos inocentes
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* Osvaldo Bertolino
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A manifestação da elite brasileira, agora organizada em torno dos líderes do movimento “Cansei”, não é algo que deva ser visto apenas como uma marcha sem maiores conseqüências. Ela tem um pano de fundo com forte coloração ideológica e tende a ganhar raízes como um movimento conservador e golpista.
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O “Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros”, liderado pela Ordem dos Advogados do Brasil — Seccional São Paulo (OAB-SP) e apoiado pelos latifúndios midiáticos, anuncia que “visa (sic) sensibilizar os brasileiros a pararem durante um minuto, às 13 horas do dia 17 de agosto, quando o acidente com o avião da TAM completará 30 dias”. “Não se trata de um ato político, mas de uma manifestação cívica de cidadania e de amor ao Brasil”, afirma Luiz Flávio Borges D’Urso, presidente da OAB-SP. “Com o silêncio, a sociedade poderá expressar sua solidariedade e indignação de forma pacífica, equilibrada e organizada”, explica ele.
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Data venia. Alguém acha que D’Urso pode falar em nome do povo brasileiro? Alguém acha que ele tem o poder de expressar os sentimentos dos cidadãos do país? D’Urso está obtendo seus minutos — ou bravatas — de glória com o caso da explosão do avião da TAM. É evidente que ele tem a obrigação de exercer o seu papel de presidente da mais importante seccional da OAB, assumindo a vanguarda dos debates sobre grandes temas nacionais. Mas a OAB sempre foi considerada um refúgio seguro dos oprimidos e injustiçados — uma entidade defensora da lei, da justiça, dos direitos humanos, da ética e da Constituição.
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Filme visto na Venezuela
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É difícil imaginar numa atividade tão prosaica alguém, como D’Urso, tão entretido em ''defender'' o país. É igualmente difícil dizer que ele, um jurista com sólida carreira, esteja em busca de projeção política ou profissional. Se ele não está atrás dos holofotes, o que o move então? A resposta parece estar na crença de que o Brasil realmente precisa de sua ''defesa'' contra um vilão vago e difuso que, à falta de melhor definição, atende por “apagão aéreo” — termo usado para fazer analogia com o apagão elétrico decorrente de irresponsabilidades do governo FHC. O pano de fundo tem cores ideológicas. D’Urso tem demonstrado ser um duro contestador do rumo político que o governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva vem imprimindo ao país.
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Ou seja: ele luta contra um programa de governo e suas engrenagens básicas — que estão fornecendo a viga mestra em que se assentará o futuro próximo do país. Os códigos e as convenções deste governo não servem para levar adiante a plataforma ideológica da parcela da sociedade a qual pertence D’Urso. No seu mundo, o Estado como principal agente da sociedade é um anátema. Daí a sua pregação ideológica e taxativa, de viés conservador e golpista, sobre os mais variados assuntos de interesse público. É um filme que já vimos várias vezes na Venezuela do presidente Hugo Chávez.
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“Socialites” profissionais

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A luta ideológica de D’Urso e sua claque é contra a natureza dos regimes de estilo popular que emergem triunfantes em muitos países da América Latina — uma forma de organização política e econômica propensa a equalizar o escandaloso desnivelamento social da região. A direita defende o que ela chama de lei e ordem — tradução de imobilidade social. Isso ocorre porque a quase totalidade dos seus privilégios advém da exclusão social.
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Ou seja: a elite brasileira nunca aceitou de quem ela julga seus subordinados uma postura que ultrapassasse a obediência à ordem por ela estabelecida. Não é raro ouvir dessa gente que ladrão bom é ladrão morto, especialmente se ele for pobre e preto. Na prática, essas manifestações da direita servem de palco para líderes políticos geralmente sem platéia e sem votos — além de “socialites” profissionais, desocupados e até cantores. (Na manifestação do “Cansei” do dia 29 de julho em São Paulo, apareceu por lá o músico Seu Jorge — um dos poucos negros presentes à passeata.)
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Cobertura de saturação
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Quem acredita honestamente na honestidade dessa gente deve olhar friamente para a manifestação do dia 29 de julho em São Paulo. Algumas conclusões: a marcha resultará em quase nada de concreto para os próximos meses. Mas eles voltarão a se manifestar. É errado que a oposição se manifeste? É claro que não. É natural que tente mobilizar seus quadros? Sem nenhuma dúvida. É compreensível que os líderes inchem ao máximo o número de participantes? Sim, ainda que isso produza números ridículos. Tudo isso faz parte do atual jogo político brasileiro.
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O que se deve lamentar é, de um lado, o profundo desprezo pelas regras democráticas demonstrado por alguns dos líderes desse movimento. De outro, o disparate entre a real dimensão de uma manifestação sem maiores conseqüências à vida política e sua repercussão na mídia. A marcha foi um estrondoso sucesso como ocupação de espaço na mídia e um indisfarçável fracasso como ocupação de espaço na rua. O evento mereceu aquilo que os jornalistas denominam cobertura de saturação — induzida pela criação de uma falsa expectativa de que se iria presenciar uma manifestação de proporções excepcionais.
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Movimentos mais ousados
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Não se está argumentando aqui que tudo são rosas pelo caminho. É claro que os desafios que o país tem pela frente são enormes. E que o governo precisa fazer movimentos mais ousados para vencê-los. Tampouco se pretende negar aqui que há insatisfações em relação ao governo. A economia do país marcha a passos de tartaruga. Há uma dívida social gigantesca sendo rolada. A especulação financeira não cansa de se fartar na farra dos juros altos. As pessoas cobram soluções rápidas para seus problemas. Mas, infelizmente, não existe milagre. Consertar a economia e resgatar a dívida social é obra de gerações
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Essa inquietação é absolutamente legítima, bem como seu uso político por parte da oposição. O problema é quando essa inquietação flerta com o golpismo. Nessa hora, o terreno é fértil para soluções autoritárias, para saídas fáceis. A história brasileira é exemplar em aventuras. Já deu para aprender que os atalhos costumam ser muito perigosos — como ocorreu com o golpe militar de 1964.
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Expansão dos negócios
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A verdade é que a direita está se aproveitando da tragédia da TAM para criar uma falsa imagem do país. O dado concreto — diria Lula — é que a aviação é como energia elétrica. Quando o PIB cresce 4%, o transporte aéreo cresce 6% ou 7%. Para se ter uma idéia de grandeza: em São Paulo, se concentra um terço do movimento doméstico total de passageiros do Brasil e 67% dos vôos internacionais. Tal como no caso dos passageiros, cerca de 30% do transporte de carga aérea doméstica está concentrado na Grande São Paulo. E a região responde por mais de 80% das cargas internacionais.
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A expansão dos negócios nessa área aguçou o interesse de todas as companhias aéreas. E o governo não fechou os olhos para a situação. Qualquer pessoa honesta que tenha viajado de avião nos últimos tempos pode testemunhar o avanço que tem ocorrido nos aeroportos brasileiros. Encarregada de administrar 66 aeroportos no país, a Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) é responsável pelo maior número de obras no atual governo.
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Avião velho e piloto novo
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É evidente que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) deveria ser mais dura com as companhias aéreas. Como dizia o comandante Rolim Amaro, fundador da TAM, existe uma temível combinação no transporte aéreo: a mistura de avião velho com piloto novo. Da mesma forma, os investimentos em infra-estrutura, destruída pela “era FHC”, deveriam ser priorizados. Essas deficiências decorrem da tibieza do governo Lula no enfrentamento com os resquícios neoliberais.
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Mas é inegável que o Brasil está avançando no rumo progressista — para desgosto da direita, que ainda sonha com utopias neoliberais. O paradigma que está se formando na América Latina impõe novos desafios. Nesse jogo, os perdedores de agora não estão acostumados a se ajeitar no mesmo patamar dos vencedores. O problema é que muitos vão ter que sentar na última fila. O que fazer com essa gente? A resposta não é fácil.
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Desafios nas entrelinhas
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É certo que quase todos eles têm pelo menos um ou dois milhões de dólares em seu patrimônio cuja origem não conseguem explicar. Mas falam pelos cotovelos, publicam lixos como a revista Veja e congêneres, promovem passeatas pedindo “mais segurança” e pregam sistematicamente contra o governo Lula. São eles também que atribuem a criminalidade à “frouxidão” das autoridades e pregam uma dura política repressiva como prova visível de que o crime não compensa. Essa contradição fundamental chama a atenção e faz pensar.
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Qual seria a melhor maneira de organizar a maioria da sociedade ao redor da resistência aos ataques às idéias progressistas? Quais são os desafios que há nas entrelinhas dessa nova realidade? Para eles, manifestações populares são sinônimo de baderna, de afronta à “sociedade”. Querem tirar do seu caminho qualquer obstáculo a massacres de populares, como os ocorridos em Corumbiara (RO) e Eldorado dos Carajás (PA). Daí a inadmissibilidade, para eles, de um governo com perfil progressista. Uma coisa é certa: é preciso gritar em alto e bom som contra os abusos dessa gente.
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in Vermelho 2007.08.02