A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
Mostrar mensagens com a etiqueta Sérgio Vilarigues. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sérgio Vilarigues. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, maio 07, 2007


Sérgio Vilarigues -
«Para a ditadura,Tarrafal queria dizer morrer longe»


Escrito por Revista «O Militante»
01-Set-2006

O campo de concentração do Tarrafal, emblema das mais sinistras prisões da ditadura fascista chefiada por Salazar, foi aberto há 70 anos, na ilha de Santiago no arquipélago de Cabo Verde, então colónia portuguesa e hoje país independente. Para o campo do Tarrafal foram enviados centenas de presos antifascistas, dos quais cerca de três dezenas haveriam de morrer em condições desumanas.

A história sinistra do Tarrafal foi escrita a sangue pela coragem, espírito de luta e abnegação heróica de centenas de patriotas portugueses e africanos ali sujeitos a condições prisionais arbitrárias e extremamente penosas.

Sérgio Vilarigues, actualmente com 91 anos, integrou o grupo dos primeiros presos enviados para o Tarrafal. Tinha sido preso em Lisboa, no mês de Setembro de 1934, com um grupo de seis camaradas. Espancado na esquadra do Calvário, julgado e condenado por pertencer às Juventudes Comunistas e ao PCP, cumpriu integralmente a sua pena no presídio de Angra do Heroísmo. Mas, em vez de ser restituído à liberdade, foi obrigado a embarcar para o novo cativeiro do Tarrafal, de onde só viria a sair em 1940, a título “condicional”, devido à chamada amnistia dos Centenários... Esta breve conversa com Sérgio Vilarigues, dirigente histórico do nosso Partido que durante muitos anos integrou os seus organismos executivos, pretende dar uma ideia do que representou, no quadro da repressão fascista, a criação do Campo de Concentração do Tarrafal.

Camarada Sérgio Vilarigues, em que contexto decidiu a ditadura salazarista criar o Campo de Concentração do Tarrafal?

Na minha opinião, e penso que não será só a minha, o campo destinava-se a liquidar, em condições menos expostas, uma boa parte dos elementos mais firmes da luta contra o fascismo.

Era para não se ouvir aqui a sua voz?

Penso que sim, esperavam que de tão longe não chegasse cá a voz dos presos. Mas acabou por chegar, e bem.

Era o vosso famoso sistema de comunicação?

A primeira das nossas preocupações em nova situação prisional era combater o isolamento que nos queriam impor, era estudar novos meios de comunicação entre nós. Tratava-se de uma forma de luta e resistência. E de sobrevivência, como muitas outras.

Como foi a ida para Cabo Verde?

Quando fui para lá já tinha acabado de cumprir a pena havia três meses. Estava em Angra do Heroísmo, na Fortaleza de S. João Baptista. Aí foram largados setenta e tal presos dos que vinham do Continente e escolheram outros setenta e tal para seguirem viagem. Ia também uma companhia da GNR para nos guardar, provisoriamente, no Tarrafal. Fez um cerco quando chegou a Angra a ameaçou logo que, ao mais pequeno pio, trabalhariam as metralhadoras e as mangueiras do barco com água a ferver. Ainda a propósito de comunicação entre nós: chegámos ao barco e dez minutos depois já estávamos em comunicação com o outro porão. Os presos são assim, há quem diga que nas prisões não se luta, mas eu digo-te: luta-se e de que maneira!

Mesmo no campo de concentração?

Claro, quantas lutas, e vitoriosas, lá fizemos. Eram combates pelos nossos direitos, se assim se pode dizer de um sítio onde é quase caricato falar de direitos, mas sobretudo pela nossa sobrevivência. Porque era disso que se tratava: mandaram-nos para ali para morrermos ali. Isso mesmo nos dizia o Seixas, chefe dos pides do campo: “Tudo o que veio para aqui foi para morrer, lapas e tudo”. Acabou por morrer de podre depois do 25 de Abril, era um depravado, não foi por qualquer castigo pelo mal que fez a tantas pessoas. Ele e todos os outros. E olha que, não sendo eu de vinganças, nada disso, mas não tenho problemas em dizer ainda hoje que não me repugnava ver um Pide sofrer só um pouco, um pouquinho, daquilo que nós sofremos às mãos deles.

Então a mudança para o Tarrafal...

Mudaram-nos para o Tarrafal porque em Angra era muito mais difícil matar, o clima e as condições sanitárias não eram tão maus. Não havia paludismo, não havia malária, e havia uma população à qual os nossos gritos chegavam facilmente. E estávamos mais perto do Continente. As ligações não eram muitas, mas sempre havia um barco, creio que semanal, o que tornava mais fácil e mais rápido fazer chegar as notícias ao Continente.

E havia a célebre “frigideira”...

Sim, havia a frigideira no Tarrafal, mas em Angra também tínhamos a poterna, que não era melhor... A frigideira contribuiu para a morte de vários presos, mas pior do que ela talvez fosse a insalubridade, a água absolutamente inquinada, a falta de higiene, a ausência de assistência médica, a desumanidade, o mal... Até os medicamentos pessoais, que tínhamos connosco ou que nos eram enviados de Portugal, com muitos sacrifícios, pelas nossas famílias e pela solidariedade de amigos, nos eram roubados. Por eles, pelos guardas, pelos esbirros, pelo sistema...

Não achas que os governos de Portugal e Cabo Verde deviam colaborar com vista a preservar a memória de um dos símbolos mais terríveis da repressão fascista contra Portugueses e Africanos?

Lá achar, acho. Mas o que tem sido feito, e eu até já fui convidado para uma dessas excursões, são visitas com muitos empresários e muito boa mesa. E depois acompanham esses cruzeiros com evocações mais ou menos idiotas que resultam em choradeiras pelo macaquinho que morreu, coitadinho, e em desculpas do regimes fascista, que afinal nem era assim tão fascista e afinal os presos do Tarrafal nem morreram todos. Para isso já dei. Quanto à memória do Tarrafal, não sei se os políticos no poder estão de facto interessados em preservá-la. Parece-me até que não. Houve promessas, palavras ditas, projectos ao vento, até de um filme... Sabes dizer-me onde estão as obras?

Seja como for é necessário que os antifascistas, e em primeiro lugar os comunistas – que foram quem pagou o preço mais alto pelo seu amor à liberdade – persistam na luta para que não caia no esquecimento o que foi e o que significou o Tarrafal.


Amílcar



Durante mais de três décadas, em tempos duros de clandestinidade, tornou-se um nome lendário entre membros do Partido.

Poucos sabiam quem era.

O homem que vivia sob esse pseudónimo fascinava pela força da sua personalidade aqueles que tinham oportunidade de o conhecer pessoalmente. O que era muito raro. Os cuidados de defesa conspirativa assim o exigiam. Mas registe-se que também era avesso a protagonismos.

Tinha a enorme dimensão de um saber nascido de uma visão realista e concreta da vida. Conseguia um pensamento raramente culto, entre o popular e o erudito.

Mantinha nas mais duras condições uma alegria genuína de viver, num carácter marcado pela tenacidade, lealdade, sentido da realidade, solidariedade.

Foi um campeão da luta clandestina.

Quando o livro «A resistência em Portugal», agora reeditado com o nome do seu autor Dias Coelho, foi publicado clandestinamente, apresentava como autor o nome de Amílcar Gomes Duarte.

Eram os pseudónimos usados pelos então três membros do secretariado clandestino do PCP, um dos quais ele próprio. Gomes era o pseudónimo de Pires Jorge, Duarte era Álvaro Cunhal.

Gomes foi preso em 1961. Duarte em 1949. Sobre Amílcar recaiu o peso de uma parte insubstituível da continuidade do trabalho do Partido. Desde o conhecimento dos quadros e das organizações, à memória das experiências e lições da clandestinidade, e à manutenção da experiência política e da orientação ideológica.

No Secretariado do Partido fez barreira às vagas da repressão fascista. Com bom senso, reflexão ampla e meditada. Tinha um talento inexcedível para as tácticas e a estratégia necessárias à defesa do partido e dos quadros na luta clandestina. E conduzia a sua acção política com um conhecimento profundo da vida e das pessoas, considerando-as na sua humanidade, nas suas qualidades e defeitos, compreendendo-as e ajudando-as, sensível aos seus problemas humanos.

Amílcar foi quem durante mais anos ficou como responsável pelo «Avante!» clandestino, entre 1947 e 1972. E nesses anos de desesperada repressão as notícias que a censura queria a todo o custo calar passavam todas elas pelas mãos de Amílcar.

Foi uma luta de persistência, conduzida com enorme inteligência, força vigorosa, contagiante, calma - e também encorajante e jovial.

Durante mais de 32 anos, nas sombras luminosas dos subterrâneos da clandestinidade, Amílcar esteve lá, consciente da necessidade imperiosa do exercício da liberdade pelo Partido em condições de clandestinidade na luta contra a ditadura fascista.

Com o 25 de Abril Amílcar desapareceu.

Foi o último camarada da direcção do Partido a sair da clandestinidade.

Apareceu à luz do dia o camarada Sérgio Vilarigues.

Esteve connosco, no seu, no nosso Partido, até ao passado dia 8.


Artigo publicado na Edição Nº1733 AVANTE

quinta-feira, maio 03, 2007

70 anos - Tarrafal «Campo da Morte Lenta» -

Nunca mais! Abril Sempre!

Segunda, 23 Outubro 2006 Dossier

A MARÉ NEGRA DO FASCISMO CHEGA A PORTUGAL

Nos anos 20 do século passado vivia-se em toda Europa um período de grande crise social e política. Os grupos financeiros e as classes dominantes queriam reconstituir e reforçar o seu poder, abalado com a I Grande Guerra, de 1914-18. As camadas populares, com os trabalhadores na primeira linha, procuravam o reconhecimento dos seus direitos sociais e económicos, com um ânimo em grande parte estimulado pelo avanço desses direitos na Rússia, após a revolução soviética de 1917. E o anticomunismo foi a bandeira que as forças políticas mais reaccionárias ergueram para fundamento da sua expressão mais agressiva que então começava crescendo no mundo: o nazi-fascismo.

Foto01


Na Alemanha, os grandes grupos financeiros e industriais do aço, da energia, do armamento, promoveram a tomada do poder pelo partido nazi de Hitler. Na Itália, o partido fascista de Mussolini tomara o poder. A maré negra do nazi-fascismo começou alastrando pela Europa e levou ao desencadeamento da II Guerra Mundial.

Foto02

Da esquerda para a direita, de cima para baixo:
Prisão do Aljube, Lisboa; Prisão de Caxias; Prisão de Peniche; Prisão da PIDE no Porto


Em 1926, a maré reaccionária que alastrava na Europa chegou a Portugal. A 28 de Maio um golpe de Estado militar instaura a ditadura. Começou, para o povo português, um período negro de repressão, obscurantismo, miséria e opressão, que se prolongou por quase meio século.

O golpe de Estado de 28 de Maio de 1926 fez Portugal um país sob ocupação militar e policial, num regime de opressão, repressão e exploração - a que chamaram «Estado Novo» e que encontrou em Salazar o seu mentor.Salazar tomou como modelo as ditaduras fascistas de Mussolini e de Hitler. Foi incondicional aliado de Franco na Guerra Civil espanhola (1936-39) para a instauração da ditadura em Espanha. Apoiou as ditaduras nazi-fascistas de Hitler e Mussolini, na II Guerra Mundial, até à sua derrota militar.

Foto03


TARRAFAL “CAMPO DA MORTE LENTA”

A mais brutal expressão da violência repressiva da ditadura, nesta época, foi a abertura do Campo de Concentração do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde, a milhares de quilómetros de Portugal.

Foto05
Fragata atacada pela forças do regime fascista contra os marinheiros em Setembro de 1936

O campo do Tarrafal, inaugurado em Outubro de 1936, foi inspirado nos campos de concentração nazis, que Hitler nessa altura começava a montar na Alemanha e depois estendeu, como campos de extermínio, por todos os países ocupados pelo exército nazi.

Foto06

Prisão dos Marinheiros da Revolta de Setembro de 1936

Foto07
Grupo de presos do Campo do Tarrafal

Foto08
Cemitério do Campo do Tarrafal

Foto04

No Tarrafal não havia câmaras de gás, como nos campos de concentração nazis, mas os presos eram submetidos a um regime de morte lenta - por isso ficou conhecido como o «Campo da Morte Lenta». Os maus tratos e a má alimentação, as doenças sem tratamento e o clima, numa das mais insalubres regiões de Cabo Verde, mataram 32 dos portugueses que para lá foram deportados. Nas primeiras levas de prisioneiros enviados para o Tarrafal encontravam-se muitos dos participantes nas greves do 18 de Janeiro de 1934 e da revolta dos marinheiros de Setembro de 1936, na sua grande maioria comunistas, mas também outros antifascistas, sindicalistas e anarquistas. Entre os presos políticos enviados para o Tarrafal encontrava-se o Secretário-Geral do PCP, Bento Gonçalves, onde viria a ser assassinado.

Foto09


Foto10

Foto Bento Gonçalves

BENTO GONÇALVES

Jovem operário do Arsenal, activista e dirigente sindical, Bento Gonçalves teve um papel decisivo na reorganização de 1929: no combate às concepções anarquistas,
na ligação do Partido à classe operária, na sua transformação num partido leninista.

Afirmando-se, como operário, por uma rara competência técnica e por um sólido espírito de classe e de camaradagem, Bento Gonçalves granjeou a estima e a admiração dos seus camaradas e companheiros de luta.

Os que com ele privaram nas prisões e na luta clandestina consideravam-no um homem «exemplar no trato, sóbrio e leal.»

Em 1927, por ocasião do 10º aniversário da revolução de Outubro, efectuou uma viagem à União Soviética, à frente de uma delegação de operários arsenalistas após o que aderiu ao Partido Comunista Português.

Na qualidade de secretário-geral do PCP, participou no VII Congresso da Internacional Comunista, em 1935, tendo apresentado um relatório sobre a situação em Portugal e as tarefas dos comunistas.

Foi preso em 11 de Novembro desse ano, condenado pelo Tribunal especial Militar e enviado para a Fortaleza de Angra do Heroísmo. Daí, em Outubro de 1936, foi transferido para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde morreu em 11 de Setembro de 1942.



TESTEMUNHOS

NA ACHADA GRANDE DO TARRAFAL

«Na Achada Grande do Tarrafal montou o governo fascista o campo de concentração. Na Achada Grande há pântanos, mosquitos e paludismo. A Achada Grande era a zona mais temida pela gente de Cabo Verde.Na ilha que o mar guardava melhor que o arame farpado e as armas dos carcereiros, o mosquito seria um executor discreto.

Sem possibilidade de ferver a água inquinada, sem mosquiteiros, sem medicamentos, com má alimentação, trabalhos forçados, espancamentos, semanas na «frigideira», todas as resistências orgânicas se desmoronavam abrindo caminho fácil ao paludismo e às biliosas.»

«As mortes dos antifascistas no Tarrafal foram premeditadas. Tão claro era objectivo que o director do Campo não o escondeu. Afirmou-o para que todos os presos soubessem a que estavam destinados.

“Quem vem para o Tarrafal vem para morrer!”

E muitos morreram e lá ficaram no cemitério que tão perto estava do Campo»

«A baía do Tarrafal, entre Julho e Novembro, quando o nordeste não sopra, é zona de paludismo. O mosquito anófele alimenta-se com sangue e é nos glóbulos vermelhos que se reproduz e se completa o ciclo evolutivo do plasmódio, causa do paludismo. O mosquito é o transmissor.Ali morreram dezenas de antifascistas, e muitos outros morreram prematuramente já depois de libertados, em consequência directa das violências e maus tratos lá sofridos.»

MAIS DE DOIS MIL ANOS DE PRISÃO

No Campo do Tarrafal, muitos dos presos não tinham sido julgados ou de há muito haviam cumprido a sua pena.

O tempo de prisão dos 340 presos que passaram pelo Tarrafal somou dois mil anos, cinco meses e onze dias.

Dois mil anos de vida sacrificados num campo de paludismo e morte!


PARA ALÉM DO TARRAFAL

«O Tarrafal, perante o desenvolvimento da luta do povo português pela liberdade e pela democracia, não chegava para albergar todos os que se levantavam contra o regime. A ditadura criou toda uma rede carcerária por onde passaram, antes e depois do Tarrafal, milhares de presos políticos: a Fortaleza de S. João Baptista, nos Açores, a cadeia do Aljube em Lisboa e o Forte de Caxias, o Forte de Peniche, as cadeias da Rua do Heroísmo, junto à sede da PIDE no Porto - para além da sede da PIDE da Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, onde a maioria dos presos eram submetidos a dias seguidos de interrogatórios e tortura e onde alguns foram mesmo torturados até à morte.»

«O regime prisional em todas estas prisões salazaristas era de vigilância constante, alimentação deficiente, privação de exercício físico. Os castigos e torturas faziam parte do regular arsenal repressivo fascista.

Os contactos com as famílias faziam-se em «parlatórios» com os presos por detrás das janelas de um corredor pelo qual passeava um guarda, para ouvir as conversas.
Prisioneiros houve que passaram na prisão cinco, dez, quinze, vinte e mais anos.»


A FRIGIDEIRA

«A frigideira era uma caixa de cimento, construída perto do aquartelamento dos soldados angolanos. Tinha uma forma rectangular. O tecto era uma espessa placa de betão. Uma parede dividia-a interiormente em duas celas quase quadradas. Tinha cada uma delas a sua porta de ferro, perfurada em baixo com cinco orifícios onde mal se podia enfiar um dedo. Por cima, junto ao tecto, havia um postigo gradeado em forma de meia lua com menos de cinquenta centímetros de largura por uns trinta de altura. Estava exposta ao sol de manhã à noite. Lá dentro era um forno. Aquela prisão merecia o nome que os presos lhe davam: a frigideira.»


«O sol batia na porta de ferro e o calor ia-se tornando sempre mais difícil de suportar. Íamos tirando a roupa, mas o suor corria incessantemente. A frigideira teria capacidade para dois ou três presos por cela. Chegámos a ser doze numa área de nove metros quadrados.

A luz e o ar entravam com muita dificuldade pelos buracos na porta e em cima pela abertura junto ao tecto. Quatro passos era o percurso de uma parede a outra. Dentro havia uma constante penumbra.»


O POÇO DO CHAMBÃO

«No Campo do Tarrafal, a água que nos estava destinada vinha de um poço, situado a uns setecentos metros. Ali se juntavam mulheres e crianças. Vinham de bem longe com as suas vasilhas. Carregavam-nas à cabeça e seguiam para suas casas.

Era esta a água que bebíamos. Estava contaminada com excrementos de cabras e burros lazarentos que ali iam beber todos os dias. Pelo tempo das chuvas, raras mas torrenciais, as enxurradas que desabavam das montanhas arrastavam consigo burros, cães, aves mortas. O poço ficava no caminho das torrentes e com a sua água bebíamos também a outra, a das chuvadas que corriam para o oceano.

Ficava o poço a uns duzentos metros do mar que se infiltrava e tornava integralmente salobra a água que bebíamos. Pelas marés vivas mais salgada era ainda»


A BILIOSA
EXECUTOR SILENCIOSO


«A biliosa aparecia de repente. Não era pressentida. E a todos nós assustava e nos fazia vigiar ansiosamente a urina. Porque quando se urinava sangue, quando a urina trazia um tom de café, era a biliosa»


«Havia sempre paludismo, mas pela época das chuvas era o seu período. Tal como durante todo o ano se podiam dar «biliosas», embora no final de Outubro fossem mais frequentes.

A biliosa era a fase final do paludismo crónico. Aparecia sempre naqueles que anteriormente já tinham sido vítimas do paludismo.»

«Naquela manhã entrou o Joaquim Amaro que nos gritou a má nova:

O Bento está com uma biliosa!

Corremos à caserna. Bento Gonçalves estava já a ser levado para a enfermaria.

E com aquele seu ar meio despreocupado, meio sorridente, disse-nos:

Mais um, camaradas! Preparem outra mesa!

E, na verdade, tudo parecia que teríamos de fazer mais um caixão. Não tardou a cair em coma, com uma cor arroxeada e uma respiração difícil. Bento Gonçalves adoecera com a forma mais grave da biliosa, aquela a que chamamos perniciosa e para a qual não havia esperança. A 11 de Setembro de 1942, o doutor Moreira verificou o óbito.

A morte de Bento Gonçalves era uma grande perda para nós.

- Mais um que mataram! Dizíamos.»

PRESOS POLÍTICOS
QUE MORRERAM NO TARRAFAL


FRANCISCO JOSÉ PEREIRA
-MORREU EM 20.09.1937

PEDRO DE MATOS FILIPE
-MORREU EM 20.09.1937

FRANCISCO DOMINGOS QUINTAS
-MORREU EM 22.09.1937

RAFAEL TOBIAS
-MORREU EM 22.09.1937

AUGUSTO DA COSTA
-MORREU EM 22.09.1937

CANDIDO ALVES BARJA
-MORREU EM 24.09.1937

ABILIO AUGUSTO BELCHIOR
-MORREU EM 29.10.1937

FRANCISCO ESTEVES
-MORREU EM 29.01.1938

ARNALDO SIMÕES JANUÁRIO
-MORREU EM 27.03.1938

ALFREDO CALDEIRA
-MORREU EM 01.12.1938

FERNANDO ALCOBIA
-MORREU EM 19.12.1939

JAIME DE SOUSA
-MORREU EM 07.07.1940

ALBINO COELHO
-MORREU EM 11.08.1940

MÁRIO DOS SANTOS CASTELHANO
-MORREU EM 12.10.1940

JACINTO FARIA VILAÇA
-MORREU EM 03.01.1941

CASIMIRO FERREIRA
-MORREU EM 24.09.1941

ALBINO ANTÓNIO CARVALHO
-MORREU EM 23.10.1941

ANTÓNIO OLIVEIRA E SILVA
-MORREU EM 03.11.1941

ERNESTO JOSÉ RIBEIRO
-MORREU EM 08.12.1941

JOÃO DINIS
-MORREU EM 12.12.1941

HENRIQUE VALE DOMINGUES
-MORREU EM 07.07.1942

BENTO ANTÓNIO GONÇALVES
-MORREU EM 11.09.1942

DAMÁSIO MARTINS PEREIRA
-MORREU EM 11.11.1942

ANTÓNIO JESUS BRANCO
-MORREU EM 28.12.1942

PAULO JOSÉ DIAS
-MORREU EM 13.01.1943

JOAQUIM MONTES
-MORREU EM 14.02.1943

MANUEL ALVES DOS REIS
-MORREU EM 11.06.1943

FRANCISCO NASCIMENTO GOMES
-MORREU EM 15.11.1943

EDMUNDO GONÇALVES
-MORREU EM 13.06.1944

MANUEL DA COSTA
-MORREU EM 03.06.1945

JOAQUIM MARREIROS
-MORREU EM 03.11.1948

ANTÓNIO GUERRA
-MORREU EM 28.12.1948

EXTINÇÃO DO TARRAFAL
GRANDE REIVINDICAÇÃO NACIONAL


8 e 9 de Maio de 1945

O povo português festejou nas Jornadas da Vitória a derrota do nazi-fascismo.

Em Lisboa, Margem Sul, Porto, Coimbra, Viana do Castelo, Marinha Grande, Alentejo e muitas outras regiões do País o povo vem para a rua, em grandiosas manifestações, festejando o fim da guerra e a derrota do nazismo, reclamando eleições livres e a libertação dos presos políticos.

A extinção do Tarrafal aparece, em todas as manifestações, como uma das principais reclamações do povo português.


Outubro-Dezembro de 1945

Mobilização de milhares de trabalhadores para as eleições nos sindicatos fascistas, com vitórias das listas democráticas unitária em mais de 50 sindicatos.

Desenvolve-se por todo o país um grande movimento nacional reclamando o imediato encerramento do Campo de Concentração do Tarrafal e a libertação dos antifascistas aí condenados à morte lenta.


Outubro/Novembro de 1945

Poderosas manifestações e comícios da 0posição Democrática marcam a campanha eleitoral que Salazar é forçado a conceder, sob a pressão da opinião pública nacional e internacional.

«Amnistia» e «Extinção do Tarrafal - duas das principais reclamações apresentadas na campanha.

26 de Janeiro de 1946

Embarcam com destino a Portugal os presos «amnistiados» do Campo de Concentração do Tarrafal.

Ficam ainda no Tarrafal 52 presos políticos.

12de Novembro de 1948

Termina em Lisboa o «julgamento dos 108» com a condenação de cerca de uma centena, de antifascistas,entre os quais Francisco Miguel.

Francisco Miguel é enviado de novo para o Tarrafal.

Janeiro de 1949

Desenvolvem-se grandiosas manifestações populares de apoio à candidatura do general Norton de Matos, apresentada pela Oposição Democrática nas eleições para a Presidência da República.

A extinção do Tarrafal é uma das reclamações apresentadas na campanha que recebe maior apoio popular.

1952-1953


A luta pela amnistia ganha grande adesão e torna-se uma das importantes frentes de acção e unidade das forças democráticas portuguesas.

31 de Janeiro de 1953

Francisco Miguel, o último preso político português no Tarrafal, é transferido para a cadeia do Forte de Caxias.

26 de Janeiro de 1954

Encerramento do Campo de Concentração do Tarrafal.

1962

O Campo de Concentração do Tarrafal foi reaberto, desta vez destinado aos patriotas dos movimentos de libertação das colónias portuguesas.


Foto:francisco-miguelFRANCISCO MIGUEL

Foi o último preso político português a sair do Tarrafal, em 31 de Janeiro de 1953.

Membro do Partido Comunista Português desde 1932, foi preso quatro vezes e julgado três. Passou nas prisões fascistas 21 anos e 2 meses. No Tarrafal esteve duas vezes, 5 ano e meio quando da deportação, e 3 anos da segunda. Foi o último preso a ser libertado do Campo de Concentração. Depois de transferido do Tarrafal para a cadeia de Caxias ainda foi de novo julgado e condenado.

Evadiu-se quatro vezes das prisões fascistas e viveu muitos anos na clandestinidade.

Membro do Comité Central do PCP desde 1939, foi deputado à Assembleia Constituinte pelo distrito de Beja. Foi promotor e porta-voz da Comissão que promoveu a transladação para Portugal dos prisioneiros mortos no Tarrafal.

«É necessário ver o Tarrafal como ele realmente foi, em todas as suas facetas e como uma parte da grande prisão que era Portugal dominado pelo fascismo. Sem essa apreciação correcta do que foi o Tarrafal não poderíamos compreender toda a enorme responsabilidade dos governantes que o criaram e o mantiveram durante 19 anos»

Francisco Miguel, no livro «Testemunhos»

Foto:sergio-vilarigues

SÉRGIO VILARIGUES“
Para a ditadura, Tarrafal queria dizer morrer longe”

Sérgio Vilarigues, actualmente com 91 anos, é um dos poucos sobreviventes do campo de concentração do Tarrafal. Integrou o grupo dos primeiros presos enviados para o Tarrafal em 1936. Tinha sido preso em Lisboa, no mês de Setembro de 1934. Julgado e condenado por pertencer às Juventudes Comunistas e ao PCP, cumpriu integralmente a sua pena no presídio de Angra do Heroísmo, mas, em vez de ser restituído à liberdade, foi obrigado a embarcar para o novo cativeiro do Tarrafal, de onde só viria a sair em 1940, a título «condicional».

Sérgio Vilarigues, dirigente histórico do nosso Partido, que durante muitos anos integrou os seus organismos executivos, deu recentemente uma entrevista ao “O Militante”, cujo número acaba de sair, e na qual dá uma ideia do que representou, no quadro da repressão fascista, a criação do campo de concentração do Tarrafal, tendo salientado que «o campo se destinava a liquidar, em condições menos expostas, uma parte dos elementos firmes da luta contra o fascismo».

Imagem
Foto do topo: Tarrafal – trasladação dos corpos, dos presos políticos portugueses, mortos no Campo do Tarrafal, em Fevereiro de 1978, com a presença de Francisco Miguel antigo preso do Campo e as autoridades de Cabo Verde, militares e povo.
Foto do meio: Lisboa – Velório quando da trasladação dos mortos em Fev. 1978, com a presença da Direcção do PCP
Foto de baixo: Lisboa – Velório quando da trasladação dos mortos em Fev. 1978, com os antigos presos sobreviventes do Campo do Tarrafal

Foto - Lisboa – Funeral da trasladação dos mortos em Fev. 1978, da SNBA para o Memorial no Cemitério do Alto de S.João
Foto - Lisboa – Funeral da trasladação dos mortos em Fev. 1978, da SNBA para o Memorial no Cemitério do Alto de S.João

Foto: Lisboa – 1º aniversário da trasladação dos corpos  dos mortos no campo,  com João Faria Borda, antigo preso a falar à multidão presente, no Memorial aos mortos no Campo do Tarrafal, erguido no Cemitério do Alto de S.João.
Foto Lisboa – 1º aniversário da trasladação dos corpos dos mortos no campo, com João Faria Borda, antigo preso a falar à multidão presente, no Memorial aos mortos no Campo do Tarrafal, erguido no Cemitério do Alto de S.João.

No cemitério do Tarrafal ficaram os corpos de 32 dos prisioneiros que ali morreram vítimas dos maus tratos sofridos.Só depois do 25 de Abril de 1974, foi possível trazer de regresso os seus corpos para terra portuguesa.

Em 1978, numa grande homenagem nacional, promovida pelos sobreviventes do Tarrafal, e na qual participaram dezenas de milhar de pessoas, os corpos dos prisioneiros que ali morreram foram transladados para um Mausoléu Memorial no cemitério do Alto de S. João, erigido por subscrição pública e no qual estão inscritos os nomes daqueles que o fascismo salazarista matou no Campo de Concentração do Tarrafal.

OS CRIMES DO FASCISMO NÃO PODEM SER ESQUECIDOS

Corre o mundo, e regista-se também em Portugal, uma campanha insidiosa que visa o branqueamento do fascismo, dos crimes cometidos pelos regimes fascistas, e das raízes, interesses e forças sociais a quem os regimes fascistas serviram. É uma campanha que visa abrir terreno à ofensiva das forças mais reacionárias do capitalismo e do imperialisno contra aos direitos, liberdades e garantias alcançadas pelos povos com as grandes lutas e vitórias revolucionárias do Século XX, e que o 25 de Abril fez também
chegar a Portugal.

O fascismo português teve os seus traços próprios determinados pela natureza sócio-económica de Portugal e porque nunca encontrou apoios e simpatia da parte do povo português. Não foi tão abertamente brutal, racista e arrogante como os regimes de Mussolini e de Hitler. Mas a sua actuação teve as mesmas raízes, serviu os mesmos interesses, usou métodos idênticos. Foi uma ditadura que usou a repressão para impor no país um ambiente de terror. Esses métodos não resultavam duma crueldade gratuita. Tinham como objectivo principal permitir a aplicação de uma política que atingia cruelmente a esmagadora maioria do povo português, e só pelo terror podia ser imposta.

Não esquecer o que foi o fascismo, os seus métodos e os seus crimes é dever de todos os que não querem que volte a haver em Portugal e no mundo sombras negras como as que a política do fascismo lançou na História do Século XX.

Esse é o apelo que deixamos neste ano em que passam 70 anos em que a primeira leva de presos foi lançada para o Campo da Morte Lenta do Tarrafal.

retirado do site do PCP - DOSSIERS