A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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quarta-feira, abril 30, 2008

A Igreja dos pobres e a globalização


As vertiginosas mudanças que se registam, dia a dia, hora a hora, no mundo da política e da economia, são por vezes pouco aparentes mas nem por isso menos reais.
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Por exemplo, deixou subitamente de falar-se em globalização como projecto triunfal. Agora, quando o assunto é abordado, é para se deitar contas aos milhões que devem distribuir-se entre as vítimas do capitalismo para calar na multidão a voz sempre perigosa da indignação e da revolta.
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Segundo o FMI, não se trata de uma simples crise cíclica do capital, mas de uma perturbação profunda de todo o sistema capitalista, com consequências difíceis de prever. A economia mundial vai, quase de certeza, entrar em recessão global entre 2008 e 2009, com descontrolo do aumento dos preços dos produtos de primeira necessidade, a subida em flecha do desemprego e o agravamento da dívida dos países pobres aos países ricos. Pelo contrário, as multinacionais aumentarão os já gigantescos lucros e escavarão ainda mais o fosso que separa ricos e pobres. Foi nisto em que deu a famosa «sociedade global da abundância».
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Os números oficiais do desemprego em Portugal apontam actualmente para um número de desempregados da ordem dos 430 mil. Se a esta parcela juntarmos os mais de 500 mil trabalhadores a termo pagos a «recibos verdes» e entregues, sem direitos nem garantias, aos caprichos dos patrões; se tivermos em conta os 898 mil artífices que trabalham isolados e também são pagos a recibos verdes; e se adicionarmos o milhão de trabalhadores/empresários (PMEs) por conta própria, poderemos chegar ao resultado assustador de estar prestes a cair em situações de miséria cerca de metade da população activa portuguesa a qual, em 2007, segundo o INE, era de 5 587 300 de cidadãos. Total potencialmente ainda mais grave se pensarmos, em termos reais, que outros milhões de seres humanos – familiares, velhos, crianças, enfermos, dependentes – serão impiedosamente atingidos pela crise profunda do capitalismo.
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O Estado português deixa andar, embora saiba que o País que é suposto governar não tem estruturas sócio-económicas que permitam atenuar o choque da recessão. O Governo português apenas procura reduzir os gastos e aumentar os lucros, como fazem os gestores de qualquer multinacional. Homens piedosos, como gostam de aparentar ser, os ministros deitam a sorte do povo para trás das costas. «O futuro a Deus pertence...»«.
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A «Igreja dos pobres»«?...
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Neste enredo de comédia, a Igreja desempenha um papel importante. Diz-se «Igreja dos pobres» mas, mesmo num cenário de desagregação social eminente, recusa-se a assumir um discurso claro e político. Quando fala em pobreza aponta para a justiça divina. Quando refere acção, dá a volta ao assunto e faz catequese. Amealha, como sempre fez, os lucros do negócio. Eis um exemplo escolhido à toa, só para ilustrar essa evidência.
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A Conferência Episcopal proclamou aquelas atoardas que neste espaço já se referiram. O Estado português seria «militantemente ateu». Os bispos falaram então no divórcio, na comunicação social, na educação, na falta de regulamentação da concordata, etc. A resposta da Igreja não podia deixar de ser dura e frontal. Verdade seja dita, o bispo Jorge Ortiga, ao anunciar luta frontal com o Governo de Sócrates acrescentara: «frontalidade e... diálogo». Curiosamente, logo pareceu estranho que a CE tivesse deixado passar em claro uma clara razão de agravo recentemente sofrido pela Igreja: a escolha do Montijo para o novo aeroporto, em detrimento da Ota e da diocese de Fátima. Um prejuízo imenso para a fé católica. Os investimentos eclesiásticos no imobiliário e no turismo daquela região tinham sido gravemente prejudicados. Sem acesso por redes de auto-estradas, sem proximidade dos comboios de alta velocidade, sem a construção prevista de hotéis de turismo, sem a ponte, que iria ser do Santuário ?
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Felizmente que o bom-senso prevaleceu. Entre a Igreja e o Governo manteve-se um diálogo discreto. Sócrates correu a Leiria para anunciar que juntava ao mapa das novas regiões turísticas um pólo autónomo para a região de Fátima. Comboios de alta velocidade e modernização das auto-estradas também ficavam garantidas. Foi então que, noutro lugar e a outra hora, a União das Misericórdias anunciou que iria investir milhões de euros no Turismo e nas Energias Renováveis. Os prejuízos serão recompensados.
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As crises do capitalismo têm aspectos positivos para os ricos: compra-se em baixa, vende-se em alta. Os problemas do Santuário que opunham Sócrates à Igreja ficaram sanados. A diocese de Fátima (que é autónoma e responde directamente perante o papa) passou a contar com um pólo turístico também autónomo, financiado pelo Estado e pelas iniciativas privadas. O que também acontece com as Misericórdias, subsidiadas pelo orçamento público em mais de 30% dos seus activos. E surgem agora, nos tribunais, os pedidos de indemnizações por perdas e danos sofridos pelos proprietários que acreditaram, um dia, na tese do Aeroporto da Ota.
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E os conflitos com o «ateísmo militante»? E a chamada «Igreja dos pobres»?
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.Passe-se uma esponja sobre o assunto. «Palavras, leva-as o vento»...
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in Avante 2008.04.24
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quarta-feira, outubro 31, 2007

As trevas de Fátima e do anti-comunismo


* Jorge Messias
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Nas versões fantasistas com que o Vaticano tenta corrigir o seu discurso ideológico, há sempre uma altura em as teorias emperram e a fuga para a frente se transforma em corrida veloz de regresso ao passado e ao mundo dos mitos que a Razão recusa. Os exemplos abundam, desde as intenções conciliares do aggiornamento que o papado cilindrou aos discursos vazios de sentido acerca da não-contradição entre o pensamento científico moderno e a mística da fé e da tradição. Ou no saltitar de um triunfalismo que saudou a vitória irreversível do Capitalismo sobre o Movimento Comunista das trevas e agora, sob a pressão da crise financeira mundial, volta aos velhos tempos do anti-comunismo primário. É caso para perguntar: afinal, o Comunismo morreu ou continua a ser para a Igreja a expressão de um risco letal?
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O grande problema do Vaticano é ser-lhe cada vez mais difícil manter no papel as promessas não cumpridas, continuar a falsear o sentido das palavras e disfarçar as redes de intrigas e de falsas virtudes que inspiram os cardeais, radicalmente sectários e conservadores.Ora, se as falsas promessas não chegam para convencer, então é preciso esmagar. E quando é este o panorama da história a igreja não hesita: dá o dito pelo não dito, faz contravapor e retorna aos tempos do imobilismo, da contemplação e do terror, quando a resignação se representa ao homem como a única alternativa possível.
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Esta gélida versão combate-se com o exercício da razão, pela força popular da unidade de acção e com o reforço da luta de classes.

Sócrates, o Capital e a Igreja

O espaço é pequeno e o texto sobre Fátima e o comunismo seria longo. Pode ir-se por outro caminho. Que efeitos têm tido no panorama nacional os actos da actual administração socialista? Crise na produção, crise monetária, pior distribuição da riqueza, mais desemprego, péssimos salários, desvio de recursos essenciais para o que é acessório, menos educação, menos saúde, corrupção pública, fraude, escândalos, miséria moral, degradação.
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Como é evidente, tal quadro desencadeia os aplausos, quer do grande capital que atingiu as alturas jamais sonhadas das taxas máximas de lucros e da constituição de impérios monopolistas, quer dos seus homens de mão que aspiram ao retorno ao poder autoritário das elites fascistas ou fascizantes a que pertencem. Defendem a ideia de que, se a riqueza dos ricos provoca a pobreza dos pobres e esta, no pior dos casos, pode vir a agravar o choque entre as classes sociais, o poder repressivo dissuasor continuará firmemente entre as mãos das polícias, do patronato e da igreja. Da polícia, por ter as armas e deter as redes de informação. Do patronato, que separa e decreta quem deve sobreviver e quem deve morrer. Da igreja – a sábia e experimentada – que fornece às massas os ópios moderadores e possui o dom do domínio das palavras. Não foi certamente por acaso que nos dias que antecederam a consagração da faraónica basílica de Fátima, a comunicação social entrevistou e deu voz a um dos mais fanáticos representantes da hierarquia, o poderoso reitor do Santuário, monsenhor Luciano Guerra. No jogo das perguntas e respostas, muito do que transparece (aquilo que se diz e aquilo que se cala) contém informação reveladora vinda dos limbos do poder católico. A este respeito, apenas alguns apontamentos.
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A Igreja da Santíssima Trindade custou entre 70 e 80 milhões de euros. Está apta a receber 5 milhões de visitantes por ano. Em cada fim-de-semana da época turística, vende 12 toneladas de velas de cera por dia. O santuário lançou-se, também, no ramo da electrónica. Se, por hipótese, o padre Luciano recebesse mais 80 milhões para outra igreja, prometia «dar metade aos pobres». O painel dourado que decora o altar-mór tem 500 metros de largura. O templo é servido por 12 portas monumentais, em bronze. A encenação é perfeita.
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Veja-se só como monsenhor Luciano controla as regras da psicologia de massas. Numa altura em que, na sociedade civil crescem as dificuldades e as incertezas, o padre acena com uma igreja milionária e ultrapoderosa. Uma igreja que, se tiver ofertas dos crentes, dará esmolas principescas para compensar as falhas fraudulentas do Estado civil. Uma igreja que inspira confiança aos ricos, desmobiliza e tolhe de respeito os pobres. Uma igreja das Arábias. Fátima, é isto.
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Uma última nota. A Concordata de 1940 e a Lei da Liberdade Religiosa tratam confusamente, de forma deliberada, a questão dos benefícios e privilégios da igreja católica e do infindável número das suas organizações, desde as que funcionam na área social, às fundações e ao mecenato, às ONGS e às Misericórdias. A igreja de Fátima terá custado 80 milhões. Mesmo que assim seja, é muito dinheiro. E é alarmante ver como tudo isto se passa num país atravessado de lés-a-lés pela corrupção, pelo tráfico de divisas e de influências, pelo compadrio das parcerias e pelo reforço permanente do autoritarismo elitista.
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Quem fiscaliza as caves subterrâneas do Vaticano?
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in Avante 2007.10.18
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Quadro - José Gusmão