União Europeia | 15.02.2011
AS/dpa/afp
Revisão: Nádia Pontes
.
"e como que a experiência é a madre das cousas, por ela soubemos radicalmente a verdade" (Duarte Pacheco Pereira)
.
.
Por Umberto Eco*
Não sei se será o pessimismo devido à idade avançada, se a lucidez que a idade traz consigo, mas tenho as minhas dúvidas, não isentas de ceticismo, quanto a intervir a instâncias das redações em defesa da liberdade de imprensa. O que pretendo dizer é que, quando alguém tem de intervir em defesa da liberdade de imprensa é porque a sociedade, e com ela uma grande parte da imprensa, já está doente. Nas democracias a que podemos chamar “fortes” não é preciso defender a liberdade de imprensa, porque não lembra a ninguém limitá-la.
.
Essa é a primeira razão para o meu ceticismo, de onde deriva todo um corolário. O problema italiano não é Sílvio Berlusconi. A história, diria eu desde Catilina para a frente, está contaminada por aventureiros não isentos de carisma, com muito pouco sentido de Estado, mas com um sentido agudo dos seus próprios interesses, que desejaram instaurar um poder pessoal passando por cima dos parlamentos, magistraturas e constituições, distribuindo favores pelos seus cortesãos e (às vezes) cortesãs e identificando o seu próprio prazer com o interesse da comunidade. O que acontece é que tais homens nem sempre conquistaram o poder a que aspiravam, porque a sociedade não o permitiu. Quando a sociedade o permitiu, porquê levar a mal esses homens e não a sociedade que lhes deixou fazer o que queriam?
Lembro-me sempre de uma história contada pela minha mãe, que com vinte anos tinha conseguido um bom emprego como secretária e datilógrafa de um deputado liberal. Deputado liberal, foi o que eu disse. No dia seguinte à subida ao poder de Mussolini, o deputado em questão disse assim: “Mas, no fundo, com a situação em que se encontra a Itália, pelo menos esse homem sabe como pôr as coisas em ordem”. Pois bem, se se instaurou o fascismo não foi devido à personalidade enérgica de Mussolini (oportunidade e pretexto), mas sim à indulgência e consentimento daquele deputado liberal (representante exemplar de um país em crise).
.
Por conseguinte, é inútil virarmo-nos contra Berlusconi que, digamos assim, faz o seu papel. Quem aceitou o conflito de interesses, quem aceita as rondas, quem aceita a lei Alfano [lei que garantiria a imunidade aos quatro mais altos cargos do Estado – N.T.] e quem agora aceitaria sem grandes pruridos a mordaça que puseram à imprensa (por enquanto de forma experimental), se não fosse o presidente da República levantar reservas, é a maioria dos italianos. Se uma cuidadosa censura da Igreja não estivesse neste momento a turvar a consciência pública, esta mesma nação aceitaria sem vacilar e incluso com uma certa cumplicidade maliciosa que Berlusconi recebesse acompanhantes, mas isso depressa estará ultrapassado, porque os italianos e os bons cristâos em geral desde sempre foram às putas, por muito que o padre diga que não está bem.
.
Porque dedicar então a estes alarmes um número do L’Espresso, se sabemos que o jornal vai chegar às mãos de quem já está convencido destes riscos da democracia e, em contrapartida, não será lido por quem está disposto a aceitá-los desde que não lhe faltem com a ração de Big Brother e que de muitos casos político-sexuais no fundo bem pouco sabe porque uma informação em grande parte submetida a controle nem sequer se lhes refere?
.
Porque fazê-lo? O porquê é muito simples. Em 1931, o fascismo impôs aos professores universitários, que então eram 1.200, um juramento de fidelidade ao regime. Apenas se recusaram 12 (1%), que perderam o lugar. Há quem diga 14, mas isso mais não faz que confirmar até que ponto o fato passou então despercebido, deixando uma memória um tanto vaga. Muitos outros que logo seriam personagens eminentes do antifascismo do pós-guerra, inclusive aconselhados por Palmiro Togliatti ou Benedetto Croce, fizeram o juramento para poderem continuar a difundir o seu ensino. Pode ser que os 1.188 que ficaram tivessem razão, por diferentes motivos, todos eles respeitáveis. Mas os 12 que disseram não salvaram a honra da Universidade e, em definitivo, a honra do país.
.
É essa a razão para às vezes se ter que dizer não, ainda que se seja pessimista e se saiba que não vai servir para nada.
.
Pelo menos que a gente possa um dia dizer que o disse.
.
* Umberto Eco, escritor, é diretor da Escola Superior de Ciências Humanas na Universidade de Bolonha. Texto publicado no jornal italiano L'Espresso. Tradução: Jorge Vasconcelos para ODiario.info.
Sua fama internacional já não ia muito bem quando cometeu a "indelicadeza" de se referir ao recém-eleito presidente estadunidense Barack Obama como "jovem, bonito e bronzeado", num comentário abertamente racista.
.
Por Marina Fuser, para o Brasil de Fato
Uma sequência de escândalos, nas últimas semanas, colocou o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi de volta ao centro da cena midiática. Proprietário de uma das mais influentes emissoras televisivas do país, o milionário Berlusconi é pressionado a responder publicamente por sua conduta. Sua fama internacional já não ia muito bem quando cometeu a "indelicadeza" de se referir ao recém-eleito presidente estadunidense Barack Obama como "jovem, bonito e bronzeado", num comentário abertamente racista. Em seguida veio a ratificação do projeto de lei de segurança que considera a imigração irregular como um crime. A lei, que permite inclusive a prisão dos imigrantes por até quatro anos, foi aprovada por 57 votos a favor, 124 contrários e 3 abstenções.
.
Pouco depois, um escândalo envolvendo prostitutas e muito dinheiro em festas privadas com a presença de Berlusconi chocou o país, com a publicação de fotos e vídeos. A revelação foi confirmada por quatro prostitutas que alegam ter frequentado festas em seus palácios Grazioli e Villa Certosa. A opinião pública ficou chocada, numa reação em que não faltou uma alta dose de moralismo, mas essa não foi a primeira expressão da conduta machista de Berlusconi. Logo em sua primeira campanha ao governo, ele sugeriu a uma jovem trabalhadora precarizada que a melhor solução para melhorar sua qualidade de vida seria "encontrar um homem rico para se casar".
.
Agora, ao visitar a cidade de Aquila, atingida por um trágico terremoto, Berlusconi fez outro comentário infeliz. A intenção foi agradar o eleitorado feminino, mas o efeito foi exatamente o oposto. Num congresso de representantes da indústria farmacêutica, se declarou inconformado com a ausência de mulheres cientistas no evento, e vociferou: "O que os senhores fariam sem as mulheres? São homossexuais? Da próxima vez, trarei algumas showgirls. Maiores de idade, claro". Mulheres cientistas das universidades de Milão, Perúgia, Pádua e Ferrara protestaram contra o discurso "inaceitavelmente sexista" do primeiro-ministro. Cerca de 6.500 mulheres assinaram o chamado ao boicote que incita a ausência de primeiras-damas à reunião de cúpula do G-8 em Áquila.
.
Em abril de 2008, talvez o caso mais emblemático, uma declaração de Berlusconi acerca da onda de estupros no país soou como um trovão na opinião pública. Registravam-se, nos primeiros quatro meses do ano, mais de 60 casos de violência sexual em Roma. A maneira "berluscônica" de responder a esse cenário suscitou controvérsias: tropas nas ruas. Sobre isso, ele declarou: "Não poderíamos recrutar uma força grande o suficiente para evitar este risco (de estupros). Teríamos de ter tantos soldados nas ruas quanto mulheres bonitas. Não acho que conseguiríamos".
.
No início de 2009, uma carta da primeira-dama colocou Berlusconi numa "saia-justa". O motivo foi seu comentário público dirigido à deputada Maria Carfagna de que "se não estivesse casado, casaria com ela imediatamente". Essa foi apenas uma pérola entre outras tantas, mas na quarta-feira seguinte, eis que uma carta da primeira-dama Veronica Berlusconi perfilava na primeira página do jornal La Repubblica, acusando-o de ferir sua dignidade e exigindo uma retratação pública por conduta inadequada. A primeira-dama foi cercada de solidariedade pela opinião pública em geral, por grupos feministas e inclusive por alguns membros da Igreja, como o cardeal Ersilio Tonini.
.
A opressão e a exploração de trabalhadores na Itália dá o tom de um governo abertamente anti-operário, munido de uma ideologia reacionária, machista e racista. A política anti-imigração de Berlusconi coloca em relevo o tratamento que dedica aos extratos mais pauperizados e oprimidos da sociedade, atingindo grande parte da classe trabalhadora. Suas gafes infelizes e a sua conduta abertamente machista são apenas demonstrações da ideologia que está por trás da sua política, ao subordinar a mulher ao poderio quase medieval do seu senhor. Todo esse conservadorismo se faz sentir quando Berlusconi fez questão de defender uma emenda à Declaração dos Direitos Humanos para afirmar que "todo indivíduo tem direito à vida, da concepção à morte natural". A intenção evidente era fazer retroceder a legislação civil na Itália, onde o aborto é legal – uma conquista do movimento feminista italiano entre as décadas de 1960 e 1970 que provocou uma diminuição significativa no número de abortos e pôs fim às clinicas clandestinas, segundo a consitucionalista italiana Lorenza Carlassare.
.
Os sucessivos escândalos envolvendo o primeiro-ministro, assim como a sua sua conduta abertamente anti-operária, têm como pano de fundo a crise internacional do capitalismo, e por isso exigem respostas contundentes. A opinião pública negativa frente à política reacionária do governo Berlusconi tem servido de estopim às mobilizações que vem se fermentando desde o último trimestre do ano passado. O despertar do movimento estudantil italiano em outubro não foi um ato isolado de rebeldia juvenil, como gosta de pintar a mídia. Os 15 milhões de trabalhadores que atualmente situam-se abaixo do nível de pobreza têm retomado a tradição de lutas do movimento operário italiano, seguindo o exemplo dos empregados da Alitalia, dos imigrantes e "italianos de segunda geração", secundaristas, universitários e professores que estão na vanguarda da nova onda de manifestações que incendeia o cenário italiano.
.
Também as feministas, até então adormecidas em suas ONG’s e em partidos amorfos em geral acomodados ao capitalismo, começam a dar indícios de que estão se despertando. O boicote do G8 foi uma primeira tentativa. Por isso, se mostra cada vez mais necessária uma articulação independente entre mulheres e homens trabalhadores, imigrantes, professores e estudantes em torno de uma plataforma comum de reivindicações que coloque em xeque a política de Berlusconi, em defesa daqueles que fazem e refazem a Itália todos os dias.
.
(*) Marina Fuser, socióloga e integrante do grupo de mulheres Pão e Rosas, mora em Bolonha, Itália
Ontem, no primeiro dia da cimeira de Áquila, no centro de Itália, os líderes dos 8 países mais ricos do mundo chegaram a acordo para reduzir em 80% as suas emissões de gases nocivos até 2050, como forma de combater o aquecimento global. Os líderes vão ainda propor aos países em vias de desenvolvimento, como a Índia e a China, a adopção de uma meta mundial de redução de 50% das emissões até 2050, embora esta seja vista pela generalidade dos observadores como uma proposta muito difícil de gerar consensos.
.
Ontem, Ban Ki-moon saudou o acordo alcançado pelos líderes do G8 mas afirmou que eles podiam ter ido muito mais além e adoptado um compromisso mais firme e ambicioso, nomedamente, no que diz respeito às metas a alcançar num período intermédio, até 2020. 'Trata-se de um imperativo moral e de uma responsabilidade histórica, para bem da humanidade e do planeta Terra', afirmou o secretário-geral da ONU.
.
Entretanto, no segundo dia de trabalhos da Cimeira, os líderes mundiais discutiram um plano de ajuda ao desenvolvimento agrícola nos países pobres, nomeadamente em África, que deverá chegar aos 15 mil milhões de dólares em três anos, e que será formalmente anunciado hoje, no último dia da Cimeira de Áquila.
.
ITÁLIA 'FURA' PROTOCOLO
.
Diz o protocolo que as reuniões bilaterais entre os líderes do G8 são privadas e aquilo que ali é discutido deve ficar no ‘segredo dos deuses’. No entanto, o jornal ‘Financial Times’ noticiou ontem que vários assessores do primeiro-ministro Silvio Berlusconi têm seguido as conversas através de microfones escondidos na sala de reuniões.
.
De acordo com o rígido protocolo das cimeiras do G8, cada líder apenas se pode fazer acompanhar de um assessor, o chamado ‘sherpa’. É rigorosamente proibido filmar, gravar ou tirar anotações, e a única forma de comunicação com o exterior é através de uma caneta digital na posse do ‘sherpa’. Desta vez, no entanto, parece que não foi assim.
.
Segundo o ‘Financial Times’, Berlusconi terá mandado instalar microfones na sala, de modo a que os assessores possam ouvir a conversa no exterior e enviar instruções através do ‘sherpa’. O jornal diz ter tido acesso a um memorando interno da delegação italiana, no qual é recomendado a todos os membros para 'não comentarem o assunto com outras delegações'. Um porta-voz de Berlusconi já desmentiu, afirmando que 'tudo o que é dito na sala fica na sala'.
Tornou-se prostituta de luxo e conseguiu começar as obras de um complexo turístico sonhado pelo pai, mas o projecto foi suspenso em 2007 por questões de impacte ambiental. Para defender o projecto, ao qual tem dedicado os últimos anos, a prostituta garante ter passado uma noite com Berlusconi sem ter cobrado nada. "Confiei nele", refere. Renunciou ao pagamento e logo se sentiu traída pelo político, de quem esperava uma ajuda efectiva no projecto. Foi então que decidiu contar a sua história em tribunal, tornando-se testemunha crucial do ‘Barigate’.
.
D’Addario descreveu uma das festas, no palácio Grazioli, residência particular de Berlusconi em Roma. "Era um harém onde ele era o único protagonista. Estavam 20 mulheres quando eu e Gianpaolo Tarantini [arranjava prostitutas para o primeiro-ministro] chegámos. Ele [Berlusconi] apareceu e aproximou-se. Eu disse ‘olá’ e ele disse-me: ‘És muito bonita’", recorda.
.
"Depois pediu-me que me sentasse com ele. Um cachorrinho meteu-se entre os meus pés. Foi-lhe oferecido pela mulher de Bush. Ele disse que não me preocupasse, que não me faria mal. Chama-se ‘Frufru’ e é engraçadíssimo", acrescenta.
.
APONTAMENTOS
.
ELEITA DE BERLUSCONI
Numa das festas privadas Patrizia foi escolhida por Berlusconi, que a acariciou diante de outras 20 mulheres e guarda--costas. Outra convidada de Berlusconi, Barbara Monterreale, teceu o comentário: "Que asco!"
.
TROCAS PROMÍSCUAS
Segundo o relato de Patrizia, Gianpaolo Tarantini era o assessor, facilitador e intermediário de Berlusconi. Um homem disposto a tudo para satisfazer o ‘cliente final’ e obter em troca protecção política e empresarial.
.
Quando confrontada com o facto de ter participado em festas privadas do primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, enquanto escort (prostituta de luxo), Patrizia afirmou que poderia ter continuado a "fazer essa vida" sem se delatar e "receber os envelopes com dez mil euros". "Sou a única que confessou a profissão que exerço. As outras calam, vão ter com o papi [Berlusconi], pegam nos envelopes e fazem carreira", acrescenta. "Éramos umas vinte. Um harém. Vi duas jovens sempre juntas. Pelo que percebi, eram lésbicas", referiu Patrizia.
Sem nunca referir o nome de Berlusconi, D’Addario frisa as características pouco vulgares do assalto. Um televisor muito caro, por exemplo, foi deixado no lugar, mas todos os discos compactos foram levados. "É pouco habitual", sublinha, afirmando que os ladrões tinham um objectivo bem definido: "Disse a alguns amigos que tinha essas gravações [de encontros e conversas com Berlusconi] e alguém foi encarregado de esvaziar e vandalizar a minha casa. Não ficou nada."
.
Depois de o carro da sua amiga Barbara Montereale – outra ‘convidada’ das festas de Berlusconi – ter sido incendiado, este novo episódio fez aumentar o receio de D’Addario. Apesar disso, a jovem assegura não estar arrependida de ter revelado os pormenores sórdidos das festas do primeiro-ministro.
.
Entretanto, dias depois de Berlusconi vir a público afirmar que 61% dos italianos continuam a apoiá-lo, uma sondagem publicada pelo ‘Corriere della Sera’ revela uma queda de popularidade do magnata, de 72 anos. A sondagem dá 49,1% de taxa de aprovação ao primeiro-ministro, uma queda ligeira face à média dos 51% dos primeiros cinco meses de 2009..
No seio do PCI ganharam força correntes que minaram a sua natureza de classe |
|
Perante esta derrota histórica, Fausto Bertinotti pediu demissão da direção de seu partido, a Refundação Comunista. Na Itália existe cláusula de barreira de 4% para eleger deputados (e 8% em cada região para eleger senadores). Essa barreira e uma grande queda impediram a Esquerda Arco-Íris de eleger qualquer deputado ou senador.
Em 2006, a Refundação Comunista tinha obtido para a Câmara 5,84%, elegendo 41 deputados, e 7,37% para o Senado, elegendo 27 senadores. Em 2006, os Comunistas Italianos tinham eleito 16 deputados (2,32%) e os Verdes 15 (2,06%).
Fausto Bertinotti, que era o presidente da Câmara dos Deputados, considerou que o fato da Esquerda Arco-Iris não eleger ninguém constitui uma derrota de "proporções imprevistas".
Em uma coletiva de imprensa, Betinotti disse que "meu papel na direção termina esta noite", considerou que a esquerda deve refletir, afirmando: "A construção de uma força de esquerda unida é a única perspectiva de esperança para o futuro".
Na coligação de direita, o Partido da Liberdade (PL), de Berlusconi e Gianfranco Fini, obtém 37,4% elegendo 272 deputados para a Câmara e a Liga do Norte (LN), de Umberto Bossi, 8,3% elegendo 60 deputados. Para o Senado o PL obteve 38,2%, elegendo 141 senadores e a LN 8,1%, elegendo 25 senadores.
A coligação liderada por Walter Veltroni e pelo Partido Democrático (PD) obteve 37,54% para a Câmara de Deputados, elegendo 239 deputados (211 do PD e 28 do partido Itália dos Valores do juiz Di Pietro) e 38% para o Senado elegendo 130 senadores (116 do PD e 14 do partido de Di Pietro).
A Esquerda anti-capitalista italiana agora é extra-parlamentar. A coalizão Esquerda-Arco-Íris, que reúne o Partido da Refundação Comunista (PRC), o Partido Comunista Italiano (PCI), a corrente socialista Esquerda Democrática (SD) e a Federação dos Verdes (FdV), não conseguiu, nas eleições italianas deste fim de semana, o número mínimo de votos para ter representação na Câmara dos Deputados e no Senado.
Só para se ter uma idéia do tamanho da surra: em 2006, somente o PRC, na coalizão de Romano Prodi, elegeu 41 deputados e 27 senadores.
O magnata das telecomunicações e terceiro homem mais rico do país, Silvio Berlusconi (foto) foi eleito primeiro-ministro italiano pela terceira vez. Sua coalizão de direita teria obtido 45% na Câmara enquanto a coalizão centrista de Walter Veltroni ficou com 39%. No Senado a coalizão de Berlusconi teria conquistado 164 vagas contra 139 da coalizão de Veltroni, segundo levantamento da RAI.
.
As eleições municipais decorrem em simultâneo com as legislativas antecipadas de 13 e 14 de Abril e nelas os socialistas têm, ao contrário das legislativas, algumas pretensões. Por isso mesmo o aparecimento do cartaz de d’Abbraccio causou desconforto nas hostes. A actriz, que diz pretender fazer de Roma uma 'cidade do amor' se for eleita, defendeu-se afirmando que o cartaz foi pago com o seu dinheiro. 'Paguei-o e agora utilizo-o', afirmou.
Tendo em conta as originalidades italianas, que em 1987 permitiram a Illona Staller, mais conhecida por Cicciolina, tornar-se deputada, as pretensões de d’Abbraccio não são tão disparatadas quanto parecem. Cicciolina obteve vinte mil votos em representação, justamente, de um círculo eleitoral de Roma e tornou-se na primeira actriz pornográfica do Mundo a ser eleita democraticamente para um Parlamento.
DESENCANTO
Um dos trunfos a favor da nova política ‘hardcore’ é o desencanto dos italianos com os seus políticos. 'Em minha opinião devíamos livrar-nos deles todos e trazer para a política pessoas novas', afirmou recentemente à Reuters uma reformada romana, de 58 anos, exprimindo um sentimento muito comum. Não estaria a pensar em d’Abbraccio, mas o desabafo assenta que nem uma luva à campanha da candidata.
Refira-se que os mais de quarenta milhões de eleitores italianos vão escolher no domingo e segunda-feira as duas câmaras do novo Parlamento nacional, oito presidentes e conselhos provinciais, 426 presidentes de Câmara e ainda assembleias e governos locais das regiões autónomas da Sicília e Friuli-Venezia Giulia.
Os estudos de opinião revelam, além de uma vantagem da Direita nas legislativas (ver caixa) uma enorme taxa de indecisos. Alguns afirmam que um terço dos eleitores só decidirá o sentido de voto no momento de traçar a cruz no boletim.
BERLUSCONI QUER MAIORIA
O antigo primeiro-ministro e líder da direita italiana Silvio Berlusconi afirmou ao jornal ‘La Stampa’ que deseja obter uma vitória esmagadora nas legislativas dos dias 13 e 14 de maneira a poder tomar 'decisões impopulares em caso de necessidade'. 'Para governar é preciso uma larga maioria que me permita, se necessário, tomar decisões difíceis', afirmou, frisando que espera obter 'uma margem de pelo menos uma vintena de senadores'.
As sondagens colocam o líder do novo partido Povo da Liberdade em vantagem sobre o principal rival, Walter Veltroni, do Partido Democrata. No actual período de instabilidade política, Berlusconi tem a seu favor o facto de ter sido o único primeiro-ministro italiano, no último meio século, a cumprir integralmente o mandato de cinco anos (2001/2006).
.
in Correio da Manhã - 11 Abril 2008 - 00.30h
.
A matéria-prima, as "ferramentas de trabalho" são as mesmas, mas umas são sérias (não riem) e outras de esquinas. Genial