A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht

sábado, novembro 17, 2012

Daniel Filipe - A invenção do amor



* Daniel Filipe

A invenção do amor

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana


Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio  A descoberta  A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterrâneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou   A TV denúncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura as dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções paras os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas  os bombeiros  os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se  amaram-se  perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escola 
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absoIutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações poIíticas

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde: quer que se escondam
ao temor do castigo

Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à policia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro  em cada rua  em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país  a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos  Água simples correndo  A brisa nas montanhas

Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

Impõe-se sistematizar as buscas   Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boites com orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa,
Será então aí
Engatilhem as armas   invadam a casa  disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar  Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída  A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer   Matai-o  Amigo  irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha comido à vossa mesa e crescido a vosso lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza liquida
até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se
que a situação vai atingir o climax
e a polícia poderá cumprir o seu dever

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS ANTES QUE SEJA TARDE

Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócios
esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra afogar a distância
no corpo sem mistério, da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência um universo do amor
E é preciso encontrá-los  E é preciso encontrá-los

Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros   continentes à espera
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio pressago da cidade inimiga

Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em circulos fechados
impor a violência a tirania o ódio

Entanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência

COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA

Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas
encerramos o aeroporto patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de ferro

É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não sem preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública

Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora  Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio

Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas
do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto diplomático
e depois o homem e a mulher que a policia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado

SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA

Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
Escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se  é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta   É preciso resoIvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual
Investigamos nos arquivos  Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção cientifica
Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não tinha televisão,
deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço

Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as «Crónicas marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trata de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo
Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga  e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica.

Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa  Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu

Esperam por ela em casa: duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos
Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade

Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como  um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando nas esquinas

Já não podem escapar  Foi tudo calculado
com rigores matemáticos  Estabeleceu-se o cerco
A policia e o exército estão a postos  Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo
(Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre eclairée)





A propósito de lugares-comuns e ideias feitas


Coletivo Passa Palavra

A propósito de lugares-comuns e ideias feitas

28 de outubro de 2012  
Categoria: Portugal
O voluntarismo niilista implícito no Que se lixe! é a força motriz de qualquer fascismoPor Passa Palavra
Comentários insultuosos e irrelevantes não podem servir de base a nenhum debate fundamentado, por isso o Passa Palavra não costuma ocupar-se com eles. Fazêmo-lo agora porque, embora não sendo produtivos, são significativos. E assim neste artigo deixaremos de lado todas as contribuições sérias para o debate. Reconhecemos que é uma injustiça, mas se as ideias se convertem numa força social quando mobilizam massas, então as trivialidades, que se difundem mais facilmente do que as análises críticas, constituem uma força social mais imediata.
A democracia do insulto
É elucidativo que os comentadores histéricos tenham preferido insultar-nos nos blogs que frequentam habitualmente e onde encontram linkspara os nossos artigos em vez de colocarem observações no Passa Palavra, onde esses artigos foram originariamente publicados. Sucedeu mesmo que um sujeito não inseriu o linkpara o artigo que criticava, alegando que não queria aumentar-lhe as visualizações. E assim se aplicam os princípios do marketing ao que deveria ser um confronto ideológico.
Esta propensão a criticar de longe e como que em casa caracteriza igualmente os insultos no trânsito, em que cada um, fechado dentro do seu automóvel, grita impropérios que nunca teria coragem de dizer sem a protecção dos vidros e das portas trancadas. O trânsito e a internet constituem a infra-estrutura de uma forma política nova — a democracia do insulto.
Ora, como sempre sucede na arte, a forma é o principal conteúdo e neste caso é mesmo o único conteúdo. O insulto é a modalidade escrita do que na oralidade são os gritos, o barulho.
Os lugares-comuns
Quanto mais procuramos num artigo questionar lugares-comuns e fazer apelo ao raciocínio, tanto mais os comentadores histéricos gritam. Para quê, para se fazerem ouvir? Não, para eles próprios não ouvirem. E assim constroem uma câmara de eco numa sala de espelhos.
Pode obrigar-se as pessoas a muita coisa, mas não a pensar. Frequentemente os artigos que se criticam não são lidos ou, no máximo, passa-se a vista em diagonal, porque quem está habituado a ouvir-se a si mesmo não suporta outros sons. Lêem-se então só os comentários, ou alguns se forem muitos, e desanca-se o que se presume que o texto diz. Falha-se o alvo, mas quem se importa com isso, se os amigos também não lêem o texto?
Quanto mais estes comentadores se ouvem a eles próprios e quanto mais ouvem opiniões iguais às suas, mais acreditam que são muitos. Já repararam que se a embalagem de um produto reproduzir a sua imagem no rótulo se alcança o infinito? A repetição de uma imagem no interior dela própria é igual ao infinito. Sucede exactamente o mesmo com os comentadores histéricos. A democracia do insulto é simultaneamente um mecanismo de reprodução do infinito.
Mas como os insultos são desprovidos de conteúdo substantivo e os ecos e os espelhos são auto-referentes, deparamos com a multiplicação infindável do vazio.
O espantalho e a máscara
O argumento principal que temos defendido a propósito da permanência ou da saída de Portugal do euro é o de que o abandono do euro não só levará a uma deterioração maior ainda das condições de vida da classe trabalhadora portuguesa como deteriorará a situação dos pequenos e médios capitalistas, correndo-se o sério risco de que todos eles se precipitem juntos numa «nação em cólera», que — segundo a análise de um fascista sabedor e experiente — é o próprio caldo de cultura do fascismo.
Trata-se de um argumento com duas faces. A primeira diz respeito ao agravamento das condições de vida dos trabalhadores; a segunda, a uma possível convergência dos trabalhadores com a maioria dos capitalistas. Ora, este argumento tem sido ignorado.
Que se lixe!
Os comentadores que nos servem aqui de matéria-prima recusam-se a analisar os custos da saída do euro, sob o pretexto de que os custos da permanência são muito elevados. Sem dúvida, mas trata-se de saber quais são os mais elevados.
Querem debater seriamente os custos comparados de uma manutenção no euro ou de um abandono da zona euro? Querem debater seriamente as limitações do empresariado português e uma marginalização económica que se deve à estrutura social deste país e não à malevolência dos outros? Querem debater seriamente as alternativas económicas que se colocam dentro e fora da zona euro? Mas como discutir estas questões económicas sem falar de economia em termos económicos?
Acusam-nos então de falarmos «economês». Mas com que direito querem extrair conclusões económicas se se abstêm de proceder ao mínimo raciocínio económico? Abrem-se as portas, perdão, ficam escancaradas para o mais despudorado exercício de demagogia.
Reclamam contra os banqueiros, a quem atribuem todas as culpas do crédito oferecido, esquecendo-se aliás de observar como ele foi utilizado. Logicamente, protestam também contra os subsídios adiantados pelo Estado à banca. E deste modo colocam-se na actual crise exactamente na mesma posição em que, durante a crise da década de 1930, se colocavam as tendências mais conservadoras, também elas opostas ao salvamento dos bancos através de subsídios estatais. Esquerda e direita não são posições geográficas, mas políticas e ideológicas. Como devemos considerar a esquerda que adopta hoje posições que a direita conservadora defendia há oitenta anos atrás?
Vejamos a questão dos bancos e dos subsídios. O abandono do euro e a adopção do escudo, com todas as dificuldades e turbulências provocadas por esta mudança, implicaria a estatização do sistema bancário, o que obrigaria não ao fim do crédito aos bancos mas, pelo contrário, a novas injecções de crédito, só que feitas mais ocultamente do que agora.
E como a saída da zona euro e a adopção de uma moeda de pechisbeque traria condições de vida ainda piores do que as que já sofremos, provocaria uma considerável desilusão dos trabalhadores, que tinham esperado salvar-se ou pelo menos emergir e ver-se-iam mais afundados. Daqui resultaria muito provavelmente uma agudização das reivindicações e das lutas, numa situação em que os patrões e os governantes teriam ainda menos margem de manobra do que hoje. A resposta só poderia ser o agravamento da repressão e a tentativa de pôr fim às greves sob o pretexto de que precisamos de defender a economia nacional. Os mais velhos de entre nós já ouviram esta música.
Ora, como escreveu Nuno Cardoso da Silva, um comentador que neste contexto citamos por excepção, já que destoa das futilidades e dos delírios, «não precisamos efectivamente de nenhum capitalismo de Estado para resolver os problemas do capitalismo privado».
Nada disto convence os comentadores histéricos, que repetem em todos os tons Não importa o que virá depois. Mas isto significa que se derruba a actual situação sem saber em benefício de quem. O Que se lixe! tem uma função exclusiva de ocultamento político.
Os cegos e o precipício
O voluntarismo niilista implícito no Que se lixe! é a força motriz de qualquer fascismo.
Ora, os nossos comentadores histéricos buscam precisamente, nestes dias de agora, contribuir para que se junte nas ruas uma «nação em cólera». Veremos se o conseguem, se as ruas servirão para marcar as clivagens entre classes ou para as confundir na amálgama nacional, porque o fascismo surge quando aquela cólera mobiliza em conjunto toda a nação. Um comentador chegou ao ponto de afirmar que queremos que as pessoas não entrem «em cólera», sem se dar conta de que para nós o problema não está na cólera, mas na nação.
Para quê demonstrar o que os próprios comentadores afirmam? Não é só depois de um eventual abandono do euro que serão criadas condições para o aparecimento de um fascismo, mas é desde já que alguns, ou muitos, se esforçam por fazê-lo. Veja-se este comentário, que reproduzimos extensamente: «E um bom Nacionalismo deve ser agnóstico em relação à estupidez imbecilizante e divisionária do paradigma “Esquerda/Direita”. Isso só serve para dividir e não para unir. Não queremos cá marxismos, nem capitalismos, nem liberalismos. Defender os trabalhadores e empresários de igual modo, fomentando a criação de PME e diminuindo os impostos e pornográficos IRS e IRC». Mas é precisamente isto que temos dito e repetido desde o nosso artigo sobre Os perigos da «nação em cólera». Será que não dão conta do fascismo quando o têm diante dos olhos, como sucede neste comentário? E quantas e quantas pessoas dizem o mesmo todos os dias nas ruas, nos empregos, nos cafés, nos transportes públicos?
Ou será que não sabem o que é fascismo, quando sistematicamente o confundem com a repressão? Um regime não é fascista só por empregar a repressão. Senão, veja-se o exemplo da União Soviética, que nunca foi fascista mas em matéria de repressão não precisava de lições de ninguém. O fascismo caracteriza-se por mobilizar vastas massas operárias em favor de um programa nacionalista. É isso o fascismo, uma renovação nacionalista do capitalismo e das instituições conservadoras graças a um impulso vindo da rua.
Ora, estes comentadores falam muito em atacar o euro e a União Europeia e pouco ou nada em atacar o capitalismo. Mas reduzir o capitalismo, que é um sistema global de exploração, a uma das suas modalidades é a receita directa para perpetuá-lo. Nestes termos, em vez de abalarem o sistema, as lutas sociais renovam-no e reforçam-no. Tem sido esta a função do fascismo.
A economia real e os delírios nacionais
Talvez por não dominarem o «economês», nenhum dos comentadores respondeu aos nossos argumentos a respeito da transnacionalização do capital. No entanto, sem isto não tem qualquer sentido falar de nacionalismo e de internacionalismo.
Nós nunca defendemos «a unificação de Estados burgueses em super-Estados», como nos acusou um comentador que treslê. Pelo contrário, escrevemos que foi ultrapassada a época da internacionalização do capital e se desenvolveu uma época nova, em que hoje vivemos, a da transnacionalização do capital, que ultrapassa as fronteiras nacionais e lhes tira a relevância económica e que esvazia progressivamente os Estados e governos nacionais. É neste contexto que deve falar-se hoje de internacionalismo.
Há quem nos acuse de «prostração perante a grande burguesia europeia e a oligarquia financeira europeia». Mas interessam-nos sobretudo as conjunturas sociais e as potencialidades de luta. E não deixamos de analisar e de criticar o capitalismo português e as características do seu tecido empresarial. Ora, como sucede frequentemente, o anti-imperialismo destes comentadores serve para absolver os capitalismos nacionais. Aliás, alguns comentadores mais histéricos postulam a equivalência entre o internacionalismo do Passa Palalvra e o imperialismo dos Estados Unidos ou da Alemanha.
Mas aqueles que «por anticolonialismo» defendem «a saída imediata de Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha da União Europeia» será que há alguns anos atrás defenderam também que saíssem imediatamente da União Soviética a Ucrânia, a Bielo-Rússia, a Geórgia, a Arménia, o Azerbeijão, a Estónia, a Letónia, a Lituânia, o Uzbequistão, o Turquemenistão e desculpem-nos os esquecimentos? Ou será que a balcanização, que é uma catástrofe visível no Leste da Europa, se transformará numa benção a Ocidente?
Será que imaginam que, saindo da zona euro, Portugal poria em causa os centros imperialistas? Ora, a economia portuguesa representa uma parcela ínfima do Produto Interno Bruto da zona euro e não é com estas migalhas que os centros capitalistas europeus enriquecem, mas com a exploração dos seus próprios trabalhadores. É elucidativo do estado de coisas a que chegámos que seja necessário explicar aos «marxistas patrióticos» que é o aumento da produtividade — mediante a qualificação crescente da força de trabalho, a passagem a sistemas produtivos mais complexos e a intensificação dos ritmos laborais — que constitui o principal motor da acumulação ampliada do capital. Esqueceram-se da mais-valia relativa. Mas este b-a-bá tem de ser esquecido pelos defensores do nacionalismo, que vitimizam como um todo a sociedade do jardim à beira-mar e atacam como um todo a sociedade dos países mais produtivos.
Nós falamos de classes, coisa que estes comentadores não vêem quando falam só de nações. Por isso nem lhes passa pela cabeça analisar as contradições sociais nos centros mais produtivos da União Europeia e confundem os «trabalhadores do centro e norte ricos da Europa» entre o saco sem fundo dos defensores da chanceler Merkel. Um dos comentadores evocou mesmo «uma União Europeia, comandada sobretudo pelos capitalistas do Norte e fortemente apoiada pela classe trabalhadora bem instalada nesses países e que não sente a crise». Voltámos assim à oposição entre nações proletárias e nações plutocráticas, típica da panóplia de conceitos dos fascismos.
Depois acham que não temos razão para estar preocupados?

Comentários

14 Comentários on "A propósito de lugares-comuns e ideias feitas"

  1. Fernando em 29 de outubro de 2012 00:14 
    “Nós falamos de classes, coisa que estes comentadores não vêem quando falam só de nações.” Falam de classes, mais ou menos… ao longo de vários posts têm vindo a falar dos custos sociais da saída do euro … para a “classe trabalhadora portuguesa”.

    De resto, a UE não é comandada unicamente pela Alemanha, mas é inegável o papel preponderante que esta tem na sua direcção. Inegável também é que Merkel tem largo apoio popular, pelo que se presume que o povo alemão aceita a política interna e externa pelo seu governo praticado. Inegável também é que a classe trabalhadora alemã – se me permitem dizer que existe tal coisa sem me apelidarem de fascista – não sofre na pele o elevado desemprego nem os baixos salários que existem em Portugal ou Espanha neste momento. Não se trata de nações proletárias nem de nações plutocráticas, mas não se vislumbra qualquer mudança institucional (qual deveria ela ser?) que combaterá o “gap” que se vai alargando entre os países credores e os países devedores – se mais uma vez me permitem dizer que existem tais coisas sem me chamarem nacionalista.

    Termino este breve comentário dizendo que defendo maior integração europeia, emissão de eurobonds e toda essa panóplia de soluções pré-socialistas. Falta votarmos nas eleições que determinem as políticas do BCE, não é verdade? Um voto por país, “bale”? E se esses votos forem tão favoráveis ao progressismo como têm sido as do parlamento europeu? A democracia tem destas coisas…
  2. Mário J. Heleno em 30 de outubro de 2012 11:11 
    É verdade que há imenso barulho dos que começam por metralhar, na própria trincheira, primeiro os não adeptos da metralha, depois os que disparam noutra direcção que não a sua e, uma vez sós na trincheira, os próprios pés.

    Mas, por outro lado, permanece um imenso silêncio do passa-a-palavra na resposta clara a uma pergunta simples: Sabendo o que não fazer, o que propõe que se faça, hoje, agora e concretamente?
  3. Passa Palavra em 30 de outubro de 2012 12:51 
    Mário Heleno,
    Muito em breve o Passa Palavra (note que, por economia linguística, não usamos artigo) quebrará o silêncio relativamente a essa questão. De qualquer modo, já em Maio deste ano abordámos o tema, embora num texto relativo à situação no Brasil, já que somos um site luso-brasileiro. Pode ver aqui:

  4. Mário J. Heleno em 30 de outubro de 2012 19:03 
    Esse texto resume como a vossa crítica contribui para a descoberta/invenção do caminho a seguir aqui, agora e concretamente. Ninguém duvida disso, o problema é que tal mérito só por si não exclui a hipótese de não vislumbrarem caminho nenhum.
  5. nf em 31 de outubro de 2012 20:25 
    Os autores deste texto estão a par da situação grega?
  6. ABCD em 31 de outubro de 2012 20:40 
    O autor do comentário anterior tem alguma noção do que ocorrerá do ponto de vista económico e político no caso de uma implosão da zona euro? Se soubesse certamente que não faria comparações deste género…
  7. nf em 1 de novembro de 2012 00:02 
    Não, eu não sei o que aconteceria se houvesse uma implosão do euro. Mas sei, bastante bem, o que se passa na Grécia. É a todos o níveis um país em depressão, onde se pode ver in loco o que neste texto parece ser o que acontecería se um dos países periféricos saísse do Euro (radicalização à direita, nacionalismo, etc).
  8. Passa Palavra em 1 de novembro de 2012 00:08 
    NF,
    Você poderia desenvolver melhor o seu argumento? Poderia falar mais sobre a radicalização à direita e o nacionalismo na Grécia actual?
  9. nf em 1 de novembro de 2012 17:12 
    Caros,
    O meu argumento é simples. Muito daquilo que se prevê que aconteça com a saída do euro (nacionalismo radical de direita, desejo de soluções autoritárias, fragmentação institucional, etc) é já uma realidade na zona euro. Basta acompanhar a situação na Grécia para se perceber que qualquer coisa semelhante a Weimar pode nascer dentro da UE. A depressão está aí à porta.

    Veja-se aliás quantos dos nacionalismos mais radicais por essa Europa fora vivem à custa do “projecto europeu”.
    ps- por falta de tempo não posso dar as minhas impressões daquilo que é a Grécia de hoje. Só posso dizer uma coisa: foi ao tapete e quando caiu levantou poeira que a Europa julgava varrida para sempre.
  10. ABCD em 1 de novembro de 2012 17:21 
    O fascismo como movimento é uma coisa por si já tenebrosa. O fascismo como regime é outra… E uma constelação de regimes fascistas, então nem se fala
  11. Rodrigo O. Fonseca em 2 de novembro de 2012 19:13 
    “reduzir o capitalismo, que é um sistema global de exploração, a uma das suas modalidades é a receita directa para perpetuá-lo. Nestes termos, em vez de abalarem o sistema, as lutas sociais renovam-no e reforçam-no”.

    Bingo. Eis uma boa chave para ler as contraidentificações com o capitalismo no século XX.
  12. Manuel Monteiro em 7 de novembro de 2012 21:40 
    Não estando eu contra o fundo do artigo, penso que há aqui uma falha de fundo: uma posição analitica um bocado descomprometida com a direção da luta popular.

    Quer dizer: muita preocupação com as contradicões sociais sem colocar a tónica que é necessário um programa revolucionário para que a luta popular revolucionária afaste o perigo do fascismo.

    Ainda aqui há pouco se gritava em Portugal que o movimento popular estava parado e que não havia clareza para apresentar um programa revolucionário. Pois bem; o movimento está em movimento(boa frase), mas não há um esforce, dentro do movimento, para teorizar um programa que dê um sentido à luta.

    É claro que um programa de luta apenas a nível nacional não faz sentido. Ele tem que ser estendido a toda a europa, unificando as lutas e o proletariado europeu na sua luta contra o capitalismo. Os reformistas já viram isto e, através das suas centrais sindicais, estão a caminhar nessa direcção.

    E nós? Continuamos na nossa capelinha e nas nossas análises brilhantes, mas fora do movimento popular?

    Eu lembro-me, quando com os camaradas do projecto Mudar de Vida, andava desesperadamente à procura de uma pequena luta popular e quando ela surgia que alegria. Agora que quase todos os sectores populares estão em luta, embora desorientados, não se vê um esforço de participar nas lutas e, messas lutas, formular teorias e programas de ruptura com o sistema capitalista.

    É idealismo da minha parte? Será. Mas esta é a minha velha experiência de proletário com pouca teoria e muita acção. E, pese embora os anos e a doença, aqui estou disponível para voltar à liça; mesmo que de bengala…

    Um abraço, camaradas

    Manuel Monteiro
  13. João Bernardo em 8 de novembro de 2012 01:23 
    Caro Manuel Monteiro,
    Há muitos séculos atrás, alguém que tu conheceste de nome e eu, para minha infelicidade, conheci pessoalmente, disse-me, acerca de um dado texto, que «era muito teórico». Ao que eu respondi que os textos são sempre teóricos, só que podem ser boa ou má teoria. E acrescentei que a prática se faz noutro plano, fora dos textos. As análises críticas que possam ser feitas, noPassa Palavra ou noutro lugar, não significam que as pessoas que as escrevem não tenham uma actividade prática. Também não significam que a tenham. Embora geralmente seja possível, através do que está escrito, ver se as coisas são ou não conhecidas por dentro. Mas as análises críticas tornam-se tanto mais necessárias quanto mais parece que todos gritam em coro. E o nacionalismo converteu-se hoje, em Portugal, num perigo iminente não só devido à ausência de uma relação organizada com as lutas da classe trabalhadora noutros países mas — e é isso que é muitíssimo mais grave — devido a uma deliberada vontade nacionalista da maioria da esquerda portuguesa. O programa que a maioria dessa esquerda nos apresenta é a união dos trabalhadores com os pequenos e médios patrões contra a Alemanha. O fascismo foi isto mesmo: uma mobilização dos trabalhadores, ao serviço de uma renovação do capitalismo, representando uma pretensa nação proletária contra as pretensas nações plutocráticas. Todas as críticas que sejam feitas a um programa desse tipo me parecem bem vindas.
    Para ti, o meu abraço trans-oceânico.
  14. Manuel Monteiro em 8 de novembro de 2012 12:46 
    João
    Voltamos ao mesmo.

    Que a esquerda reformista leva o movimento popular para um beco sem saída, ou para o fascismo, já nós sabemos.

    O meu problema é a posição dos revolucionários e a sua obrigação de se inserirem no movimento de massas e dar a sua comparticipação para a elaboração de um programa revolucionário.

    E não tenho dúvidas que esse programa trará para o campo popular, sem lhe fazer cedências, o pequeno patronato industrial e agrícola arruinados pelo grande capital. E saberá neutralizar a chamada classe média, não lhe dando, como agora se passa, um lugar de vanguarda da luta(Já sei que esta palavra vanguarda faz eriçar muitos cabelos).O que tem que ficar claro nesse programa é que nós não queremos outro capitalismo; mas que queremos derrubar todos os capitalismos e que visamos desapropriar os detentores da propriedade privada e transformá-la em propriedade colectiva.

    Portanto, companheiro, eu não estou contra os textos teóricos. Estou a favor de os canalizar, de uma forma rigorosa e acessível, para os combatentes populares; que não são burros e que, pela prática, chegam à compreênsão dos grandes problemas da humanidade.

    E estou-me a lembrar de um velho operário do PCP, o Francisco Miguel, que, na prisão, dava aulas de economia politica, do materialismo histórico e dialético, aos intelectuais e operários do partido.

    Como as coisas estão, infelizmente, vejo mais as coisas inclinarem-se para o fascismo do que para a revolução socialista.

    Mas, se assim suceder, nós teremos grandes responsabilidades.

    E estou-me cagando para aqueles que acham que as minhas teorias da vanguarda estão ultrapassadas. Vanguarda ou retaguarda, o que é preciso é nós estarmos no centro das lutas, contribuirmos, sem caciquismos, para o debate teórico e ganharmos clareza, pela luta e pelo debate, das grandes questões que atormentam a humanidade.

    Foi este o meu passado.Não é um passado sem mácula. Alinhei em muito contrabando teórico. Ajudei a mutilar muita dinâmica.Contribui para incensar muitos mitos.

    Mas, como dizia o poeta, o caminho faz-se caminhando.

    Temos que voltar de novo ao caminho e caminhar. Agora libertos de muita canga inútil.

    Frágeis de tanta derrota histórica

    Mas mais fortes pelo braço da experiência.

    Um abraço, João.

    Manuel Monteiro

    http://passapalavra.info/?p=66327