A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht

sábado, outubro 13, 2012

Passos acusa PCP de instigar à violência




Parlamento

Passos acusa PCP de instigar à violência

12.10.2012 - 11:32 Por Sofia Rodrigues

O primeiro-ministro lamentou nesta sexta-feira que o PCP utilize expressões “como convite à violência”. Essas palavras tornam o PCP “cúmplice para não dizer instigador à violência”, atirou Passos Coelho, no Parlamento, em resposta ao secretário-geral do partido, Jerónimo de Sousa.
Com vídeo
As afirmações do primeiro-ministro provocaram pateada na bancada comunista e protestos também entre os socialistas. Passos Coelho acusou os comunistas de usarem palavras ofensivas e atentadoras da honra política. Jerónimo de Sousa respondeu de imediato: “Honra é não faltar à palavra dada, violência e agressiva é esta política que está a fazer mal aos portugueses”. 

O secretário-geral do PCP deixou um aviso ao primeiro-ministro: “não conte com a nossa passividade”. E ainda ironizou dirigindo-se à bancada do PSD: “Coitado do Marques Mendes que também está a apelar à violência”. Nesta resposta, o líder comunista recebeu palmas da sua bancada, mas também de deputados do PS.

Jerónimo de Sousa tinha questionado, na sua primeira intervenção, o critério para taxar os rendimentos do trabalho e não o capital. “É sacar, é roubar mais de 2,5 mil milhões de euros. Isto é que nos faz gerar um sentimento de revolta”, disse o líder comunista. 

O líder do Bloco de Esquerda, por seu lado, questionou o primeiro-ministro sobre “como se atreve” a anunciar que o Estado vai devolver um mês de subsídio. Passos Coelho já não tinha tempo e respondeu mais tarde. “Pertenço a uma raça de homens que gostam de honrar os compromissos mesmo que não tenha culpa no endividamento. Por essa razão tenho de solicitar aos portugueses que façam sacrifícios ainda maiores”, disse Passos Coelho. 

Francisco Louçã chegou mesmo a perguntar: “Não há um pingo de vergonha no Governo?”. O líder do BE insistiu que “só faltava o Governo fazer-se de generoso” e devolver um salário que já é dos trabalhadores.

quinta-feira, outubro 11, 2012

Serafim Lobato - UNIDADE NA EUROPA, DESAGREGAÇÃO NOS EUA?


TABANCA DE GANTURÉ



domingo, 26 de agosto de 2012


UNIDADE NA EUROPA, DESAGREGAÇÃO NOS EUA?






1 - A crise financeira de 2008 veio demonstrar, pouco a pouco, ano após ano, que a sua profundidade está a atingir as raízes do próprio capitalismo, tal como o conhecemos até aqui.



Analisando todo o processo de "austeridade" nos principais centros do capitalismo internacional, como a União Europeia e e os Estados Unidos, os processos de evolução rápida da produção industrial e tecnológica super-capitalista na China, sem trazer riqueza para o povo, a recomposição da mesma estrutura, dita de Estado para liberal, na Rússia, as revoltas surgidas em muitos países árabes, a recomposição colectiva do mercado capitalista *independente* no Mercosul (América Latina), os ferozes conflitos regionais, as fomes que atravessam países e regiões ricas em matérias-primas, traz para a superfície da vida social a destruição produtiva, por um lado, e, por outro, um impasse na ultrapassagem da mesma crise, dos fundamentos históricos da própria evolução capitalista.



E o que é grave é que esta crise está a ser gerida e programada, desde há dezenas de anos, pelo capital financeiro especulativo, que lançou agora a sua fase mais obsessiva e violenta, que é a destrutiva, e sem uma veleidade orientadora de criar ou construir algo que lhe seja sucedâneo ou, pelo menos, assente em termos considerados paliativos.



Tudo o que retiramos da crise é que nestes cinco anos, nos principais centros capitalistas, UE e EUA, nunca existiu um ano de crescimento (quer na produção, quer no emprego, quer no Produto Interno Bruto, quer na evolução do bem-estar relativo), e os aparentes sucessos de gestão capitalista acelerada, como a China, a Rússia,a Índia e o Brasil, entraram em processos de estagnação e mesmo de retrocesso económico.



Quer a Rússia, que a China, o reconhecem na recente cimeira da APEC (Cimeira Ásia/Pacífico).



A omnipotência do capital financeiro especulativo - o único a tirar dividendos - reproduziu por todos Estados do Globo os mesmos programas: destruição acelerada dos regimes sociais ditos sociais democratas (os chamados Estados Providências) , sem apresentar, até agora, qualquer estimulo ou pressuposto de criar o que quer se seja, que relance o desenvolvimento. 



Esta perda real do poder aquisitivo das classes laboriosas, e por tabela, das classe médias inferiores, está a fazer crescer o empobrecimento real dos povos, fazendo vir ao de cima o estrangulamento do sistema anterior, com um carácter de desespero quase mundial, criando uma barreira efervescente entre os trabalhadores, que vão caindo cada vez mais no desemprego, e uma mínima classe ociosa capitalista especulativa, sem que se vislumbre qualquer espécie de incremento ou reviravolta capitalista produtiva.



2 - A chamada crise do petróleo cujo ano marcante foi 1973 colocou no centro da economia capitalista o capital financeiro especulativo.



Entre aquela data e os inícios dos anos 2000, o segredo de polichinelo da propaganda da ideologia burguesia liberal, de que a política comandava a economia, foi desmascarado pela realidade: os grandes banqueiros começaram a deixar a discrição, que até aí os mantivera, e fizeram soar trombetas, sem cinismos, através de mensagens directas dos seus pares como, Alan Greenspan (Presidente da Reserva Federal dos EUA, entre 1987 e 2006), Georges Soros e Buffet, entre outros, sublinhando que eles, os banqueiros, são os donos reais de todo o poder, incluindo o político.



Em 1980, a antiga União Soviética parecia estar a empreender uma nova política económica dentro do sistema de capitalismo de Estado, recuperando de uma estagnação que se seguiu a um salto produtivo enorme no pós guerra. Naquele ano, os dirigentes da ex-URSS procuraram descentralizar, politicamente, o poder, principalmente com a grandes Repúblicas associadas, lançando ao mesmo tempo um novo processo de industrialização e na agro-indústria.



Todavia, o recomeço imperialista expansionista da ex-URSS em direcção a Sul, em particular ao Afeganistão, abriu um período intenso e improdutivo de fomento, em grande escala, com os encargos militares, o que inverteu, total e fatalmente, a evolução incipiente que estava em marcha.



Em grande medida, esse afã expansionista militarista contribuiu para o colapso, que já vinha, todavia, de dezenas de anos atrás da antiga URSS, e a sua desagregação final em 1991.



(Não estamos aqui a analisar a  Revolução Soviética de 1917, que forjou, posteriormente, a formação estatal URSS, sob a dominação e consolidação, ao longos dos anos, do chamado capitalismo de Estado, que partiu de uma revolução verdadeira, mas foi progressivamente, em poucos anos, trucidada e instituída de forma contra-revolucionária, mas este assunto merece outra ponderação e análise que procuraremos fazer numa apreciação mais aprofundada e interligadas com os acontecimentos políticos e as condições económicas deficientes da época na Rússia czarista e no seu seguimento revolucionário).



Com esta desagregação do Império soviético, o imperialismo norte-americano tornou-se a principal potência dominante no mundo e julgou poder "reformular" toda a História Mundial desde a Revolução de Outubro de 1917.



Eles pensaram que poderiam fazer obscurecer que toda a evolução humana dois últimos 200 anos esteve centrada nas erupções revolucionárias, que nasceram na Europa, e se foram alastrando à América Latina, mudando radicalmente o sistema económico medieval e imponto o sistema capitalista, certo, sob o domínio da burguesia, mas marchando na realidade sob a batuta das reivindicações proletárias e operárias, que, por vezes, sem grandes orientações programáticas, iam impondo formas de governação, que geravam programas políticos que continham as reivindicações que obrigavam o modelo económico capitalista a aceitar as propostas proletárias, como as oito horas de trabalho, os apoios à saúde pública para todos, entre outros itens.



Tentou o imperialismo norte-americano alastrar a sua supremacia, impulsionando, a níveis nunca vistos, os encargos militares, sustentando-os no argumento que era desse modo que se imporia em todo o mundo o domínio da democracia e das chamadas liberdades individuais, da organização livre dos mercados.



Claro que esta orientação ideológica foi posta em prática, em larga escala, durante cerca de 20 anos, por uma estrutura político-militar estribada na violência.



O descalabro da ex-URSS deu alento aos financeiros e militaristas norte-americanos para intervirem, descaradamente, nos assuntos internos da Europa e da sua unidade, com a cumplicidade dos dirigentes vendidos dos Estados europeus, como a Inglaterra, a Itália, a Suécia, a Noruega, a Alemanha, Holanda, Bélgica, Espanha e Portugal, fosse o governo do país das forças direitistas conservadoras ou sociais democratas pró-capitalistas.



 



De certo modo e em certo sentido, foi um ataque concentrado quer à tentativa de unificação europeia, por um lado, quer ao próprio sentimento nacional dos povos.



Assim desde 1991 foi retalhada, a ferro e fogo, a Jugoslávia, submetida a vexames a Polónia, Roménia, Bulgária, Lituânia, Letónia e Estónia e Hungria, tornadas colónias norte-americanas no seio da UE, através de injecção de dinheiro "encoberto" - numa política de divisão da União em velha Europa e nova Europa, que conduziu, na prática, em linha directa ao presente ataque e desnorte, sem freio, à unidade monetária da UE.



Mas, também se deu nesse período, as acções mais selvagens no Continente africano, como na tentativa de divisão da República Popular do Congo e nas guerra fratricidas que ainda ocorrem no Ruanda, Uganda e Quénia, e em escala mais localizada na Nigéria. Que começaram com a Presidência de Bill Clinton.



Não se pode esquecer a intromissão brutal e espezinhadora dos direitos dos povos que ocorreu nos últimos dois a três anos em todo o Magrebe e Médio-Oriente, onde a cabeça de víbora foi uma pró-nazi, antiga democrata, chamada Hillary Clinton.



Naturalmente, esta situação não pode, todavia, prosseguir em larga escala. Embora hoje, os EUA sejam o imperialista moderno que substituiu o antigo imperialismo teutónico nazi-fascista. Naturalmente, noutras condições e situações diferenciadas no tempo e no modelo político formal.



A meu ver por duas ordens de razões:



A) Com este frenesim imperialista norte-americano fez despoletar um "monstro" a nível global.



Os Estados Unidos, no topo, lançaram-se numa corrida aos armamentos e à criação e constituição de stoques de armas, cada vez mais caras e sofisticadas.



Ora, isto, catadupejou o sistema de indústria castrense para um nivelamento em progresso contínuo. 



Mas, essta corrida trouxe uma evolução armamentista, não só nos Estados Unidos, mas em todos os outros Estados, em particular aqueles que se estão a desenvolver economicamente a ritmos elevados e concorrenciais.



Quer isto dizer que o armamento traz encargos, que são cada vez mais insuportáveis ao bolso dos contribuintes. 



Na prática, em primeiro lugar os EUA, mas também a China, a Rússia, a América Latina e a própria UE, estão a endividar-se em progressão geométrica, levando que a maior fatia do Orçamento de Estado se destinem a fins militares, em detrimento do próprio progresso produtivo interno.



E, na realidade, os Estados Unidos estão a ser trucidados pelo domínio do sector do complexo industrial militar, o que contribui para a sua própria decadência produtiva interna.



Mas a nível político, os EUA são um centro mundial de prática de tortura, de violações internas e externas dos direitos humanos, com uma discriminação racial acentuada sobretudo tudo o que "não é branco", actuam, em todas as partes do globo, sem olhar a meios, incitam a intromissão descarada e eles próprios se organizam clandestinamente ou através de "mercenários" que lhe pagam principescamente, ocupam, fora de toda e qualquer estrutura internacional decisória, em países e zonas limitadas. 



Prendem os seus próprios cidadãos sem julgamento ou a cesso a advogados, muitas das vezes baseados em simples suspeitas. Expandiram, unilateralmente, a todo o Mundo as escutas telefónicas e as manipulações via internet. 



A oposição interna é reprimida violentamente, à mínima suspeita de que possa estar em causa "a segurança nacional". O assassinato, colectivo e selectivo, adquiriu a legalidade de acção em qualquer zona do planeta.



E esta situação é grave, porque pode trazer no bojo uma guerra geral contra povos e diferentes nações, que se sentem ameaçadas e feridas nos seus sentimentos nacionais ou interesses estratégicos.



B) Todavia, esta voragem imperialista imperialista norte-americana, com o apoio directo da Inglaterra, da Holanda, da Suécia, Dinamarca e Noruega, parece estar a entrar num descalabro e a obrigar os EUA a fazer marcha atrás, por um lado, com o espectro de um movimento reivindicativo internacional -e em certos aspectos de carácter insurrecional - que se estão a forjar no horizonte; por outro pela reacção de parcerias de grupos de países e de incremento armamentista de resposta de outros Estados ou grupos de Estados coligados (como O grupo de Xangai, o Mercosul, a aliança temporária Rússia, China Síria e Irão).



Mas acima de tudo, porque a economia capitalista dentro dos Estados Unidos está a colapsar.



A dívida pública norte-americana atinge, actualmente, os 16 biliões de dólares, que ultrapassa deste modo os cerca de 14 biliões do ano passado. 



Apesar da injecção forçada de capital circulante - ou seja a emissão de notas "sem cobertura real" do Banco Central - A Reserva Federal -, a economia está estagnada e o desemprego não baixou.



(As realidades são realidades, na América, como noutras partes do Mundo: as grandes cidades norte-americanas estão endividadas:  mais de dois triliões de dólares e uma centena de entre elas estão mesmo na insolvência. 



O número de norte-americanos a viver da sopa dos pobres cresceu assustadoramente, como se multiplicaram as chamadas "cidades-tendas" nas ruas de grandes cidades como Nova Iorque, São Francisco ou Los Angeles).




 

          



Um facto novo, ainda sem efeitos visíveis evidentes, é o afastamento crescente dos naturais do interior e das periferias do centro de poder, em Washington, o que pode implicar, com um maior agravamento de crise nos Estados federais - Alabama, Califórnia, Colorado, entre outros - estejam a surgir tendências centrífugas para escapar ao poder de Washington, considerado um sorvedouro de dinheiro por muitos norte-americanos, principalmente da classe média. 



O problema nacional federal pode tornar-se um assunto sério nos Estados Unidos da América, com o aprofundamento da crise.


3 - Desde 2008, foi planeado, a partir de Wall Street, e em particular do lobby judaico, que domina o poder económico financeiro norte-americano ( e em grande medida mundial, 40 por cento dos deputados russos são judeus, 35 a 40 por cento dos Congressos e Deputado das Câmara dos Representantes dão o seu apoio directo ao sistema judeu financeiro e a Israel), um ataque feroz e concentrado contra o euro e a unidade política da Europa.



(Os seus representantes em Portugal estão concentrados directamente no governo e no sistema bancário: Carlos Moedas, Pedro Passos Coelho, Vitor Gaspar, António Borges, Fernando Ulrich, Ricardo Espírito Santo, entre outros).



Esta "guerra" económica concentrada dos Estados Unidos contra a Europa, que se deixou corromper e vender aos financeiros norte-americanos, e por associação estreita aos interesses do Vaticano, apesar de tudo, está em vias de terminar em retrocesso para Washington.



Eles não perceberam que, por um lado historicamente, desde a decadência medieval, o avanço histórico - que tem séculos, é certo -é um avanço para a unidade europeia. 



(E esta tendência não foi uma acto de mágica criada pela dupla Schuman/ Monet). 



O avanço para os grandes Estados nacionais na Europa, desde o século XV, estão ligados ao aparecimento da burguesia como força política dominante na Europa, e na necessidade económica, para ela, de esbater barreiras de fronteiras e fazer circular as mercadorias com maior barateza e celeridade.



A burguesia teve a percepção - e agudeza, então, como classe social - que a cooperação supracional só poderia trazer vantagens se as fronteiras fosse minimizadas.



Ora, este avanço no século XX foi sentido, com maior agudeza, porque foram as particularidades nacionais que contribuíram para a desarticulação e catástrofes em toda a Europa, desde Portugal aos Urais, fomentadas pelas guerras de conquistas.



Quando nasceu a Comunidade Europeia, as classes trabalhadoras sentiram a evolução do seu bem-estar com o desenvolvimento da indústria e do comércio sem limites de tributações alfandegárias.



Apesar da crise económica, financeira e social, actualmente existente, essas classes têm a percepção que a União da Europa criará condições para a criação de uma maior consciência de que é possível, com essa unidade, fazer das reivindicações nacionais reivindicações gerais europeias.



Essa é a lição que a crise grega deu à UE. 



E essa foi a reivindicação central dos sectores mais avançados dos partidos gregos nas suas mais recentes lutas e eleições.



A questão que deve ser analisada é a de buscar a razão porque os partidários de uma nova ordem social de progresso ainda não a fizeram propagandear na União Europeia.



Ora, esta questão está em cima da mesa.
   

quarta-feira, outubro 10, 2012

Mário Soares apela a Cavaco Silva que substitua Governo sem eleições

Jornal de Negócios


Mário Soares apela a Cavaco Silva que substitua Governo sem eleições

Mário Soares defende que a democracia seja legitimada por eleições, mas a actual "crise profunda do Governo" obriga a que o Presidente da República actue, "por muito que lhe custe". E admite que as eleições possam vir depois.
Mário Soares considera, no artigo de opinião publicado no “Diário de Notícias”, que, nas actuais circunstâncias, “se houver vergonha” será “inevitável o fim da coligação que constitui o Governo. E, apesar de se falar em remodelação governamental, o ex-Presidente da República questiona se Passos Coelho será “capaz de arranjar substitutos capazes, no sentido de competentes, para substituir Portas, Cristas e Mota Soares”. Referindo também Miguel Relvas, Álvaro Santos Pereira e Paula Teixeira da Cruz.Mário Soares considera que o Governo “está moribundo e ninguém o toma a sério.”

O ex-governante considera "completamente incoveniente" pensar em eleições, considerando que nesta altura “não resolverão nada e podem antes complicar muito a situação”. Mário Soares admite mesmo que os partidos políticos não ambicionam nesta altura uma ida às urnas.

E apesar de se afirmar “democrata” e considerar que as eleições são determinantes para uma democracia, dá o exemplo de Itália, onde o Presidente da República conseguiu afastar Silvio Berlusconi e colocar à frente do país Mario Monti. “E a verdade é que tem realizado um trabalho notável para a Itália e em favor dos países vítimas dos mercados usurários.”

Desta forma, conclui, Cavaco Silva “não pode continuar a fazer discursos vazios” e “será obrigado a tomar decisões. A não ser que se demita também.” 

“Dada a crise profunda do Governo é ao Presidente que compete actuar, por muito que lhe custe. E espero que não deixará de o fazer. Como? Isso será com ele. Para isso foi eleito. As eleições virão depois, no momento oportuno, porque são essenciais em democracia.”

ário Soares - Uma semana difícil


MÁRIO SOARES

Diário de Notícias

Uma semana difícil

por MÁRIO SOARES09 outubro 2012106 comentários

1 - VIVA A REPÚBLICA! O Povo português é esmagadoramente republicano. Viu-se durante as cerimónias do Centenário da República, 2010 e 2011, em que todo o País vibrou, de norte a sul, manifestando o seu amor pela República. Durante os longos anos da ditadura, sempre os republicanos festejaram o aniversário da I República, não obstante o regime não gostar nada das manifestações repu-blicanas, que eram igualmente antifascistas. Eu próprio fui uma vez preso pela PIDE, por ter acompanhado o general Humberto Delgado, depois de o Governo lhe ter roubado a vitória eleitoral, que efetivamente teve, no encontro que tivemos depois de sairmos, confusamente, aos encontrões da polícia, do Alto de S. João e de nos reunirmos em casa do arquiteto Keil do Amaral, que era ao lado do monumento a António José de Almeida. Quando se juntaram bastantes populares, Humberto Delgado, Jaime Cortesão e o prof. Azevedo Gomes, entre outros, descemos para a estátua onde Delgado começou a discursar. Então a polícia política carregou sobre nós e além dos encontrões e bastonadas lançou gases lacrimogéneos. Ficámos todos a chorar, mas quem mais sofreu foi o historiador Jaime Cortesão que, tendo sido gaseado na 1.ª grande guerra, sofreu imenso. Vem isto a propósito da cerimónia do 5 de Outubro, de há dias. Ao que parece, o Presidente Cavaco Silva teve a peregrina ideia de excluir o Povo da cerimónia. As ruas que dão acesso à Praça do Município estavam todas cortadas, por barreiras de polícias e de segu-ranças, não deixando passar ninguém, à exceção dos convidados. E para maior controlo, a cerimónia teve lugar no Pátio da Galé, um recinto fechado, onde só os convi-dados puderam entrar. Mas tudo correu mal. O primeiro-ministro estava ausente em viagem, ao que se diz, de trabalho, em países do Leste europeu e em Malta. A bandeira nacional, com o nervosismo, foi posta ao contrário. E, no fim da cerimónia, surgiram duas senhoras - não se sabe como -, uma que começou a gritar por ter fome e outra a cantar. Foram ambas empurradas e a primeira espancada pelos seguranças, com as televisões a darem conta do desagradabilíssimo espetáculo. Por meu lado, quando tive a notícia de que o Povo de Lisboa era obrigado a estar ausente, neste 5 de Outubro (que o Governo diz ser o último feriado, mas não será seguramente) resolvi não estar presente. Um 5 de Outubro sem Povo, não faz sentido nenhum. É próprio de uma Ditadura, não de um regime que ainda se diz democrático. Felizmente que na noite do dia 5 houve um jantar republicano e socialista, na Ota, no Concelho de Alenquer, como era tradicional no tempo da ditadura, organizado pelo saudoso Teófilo Carvalho dos Santos, onde participaram, desta vez, mais de 2000 republicanos e socialistas. Lá estive, com a minha Mulher e com muito gosto. Quando os governantes (quer sejam ministros, secretários de Estado ou o Presidente da República) manifestam medo do Povo - e fogem dele - algo vai muito mal. Porque não aprenderam com a Revolução dos Cravos que "o Povo é quem mais ordena". Que tristeza! Eis onde chegámos...
2 - A TAXA SOCIAL ÚNICA E OS IMPOSTOS Quando Pedro Passos Coelho, no Conselho de Estado, resolveu dizer que desistia da ideia, tão inoportuna, da chamada taxa social única, julguei, sinceramente, que depois da colossal e espontânea manifestação popular, que trouxe à rua gente de todo o País, em 15 de setembro último, a protestar, tinha finalmente compreendido que era ne-cessário mudar de rumo. Mas não! Pelo contrário. Resolveu pôr o ministro das Finanças a dizer na Assembleia, com a sua voz tão peculiar, que os impostos vão aumentar imenso e em conjunto a vida dos portugueses - com destaque para a classe média - ia piorar muito. Que falta de sensibilidade política e de vergonha! Como é natural, os portugueses - e os próprios deputados, mesmo alguns do PSD e do CDS - ficaram alarmados e mais desesperados do que antes estavam. A própria troika teme, seriamente, pelo que pode acontecer ao nosso País, no plano social, dado o desespero e a violência crescente dos portugueses. O CDS-PP que, desde a campanha eleitoral, repetidamente proclamou, pela voz do seu líder, que não haveria mais impostos, ficou sem saber o que dizer e fazer. Daí o silêncio a que se remeteu... Paulo Portas, que tem andado pelo estrangeiro a fazer negócios - a que chama "diplomacia económica" - sem se ocupar da política interna e externa do Governo, ficou sem fala, literalmente. O espetáculo do seu silêncio envergonhado vale a pena ser visto e voltar a ser passado pelas televisões... Sobretudo quando o deputado comunista, Honório Novo, criticou o silêncio enigmático de Portas, em função da carta que escreveu aos seus militantes, e tanto Passos Coelho como Relvas (que reapareceu!) se puseram a rir às gargalhadas, em relação à situação de Portas. Foi um vexame nunca visto! Portas, por mais que goste de ser ministro, e ao que parece gosta muito, não pode continuar a sê-lo, sem perda total da sua dignidade e prestígio. Deve demitir-se quanto antes. As sondagens mostram o seu partido a descer, abaixo do PCP e do Bloco de Esquerda e ele próprio, antes tão popular, a descer igualmente nas sondagens. Nos Açores, com eleições à vista, o CDS-PP punha a maior esperança num bom resultado, mas tudo indica, igualmente, ser mais uma derrota. Aliás, as últimas sondagens nacionais mostram os dois partidos da Coligação a descer. Em conjunto valem menos que o PS sozinho. Ora, se a Coligação se desfizer, como parece inevitável, se houver vergonha, como poderá aguentar--se o Governo? Como irá subsistir no estado atual das coisas? Alguns comentadores falam em remodelação. Mas será Passos Coelho capaz de arranjar substitutos capazes, no sentido de competentes, para substituir Portas, Cristas e Mota Soares? Para além de outros, como Relvas, Álvaro Pereira e Paula Teixeira da Cruz? Será o fim de um desastre que desde o início está anunciado e não tem remédio. Pelo menos, assim parece. Porque o medo mudou de campo, quando os responsáveis políticos de hoje manifestam medo do Povo e fogem dele, sem vergonha!
3 - QUE FUTURO PARA UM GOVERNO EM TÃO GRANDE DESCRÉDITO? Trata-se, sem dúvida, de uma questão complexa. O Governo está moribundo e ninguém o toma a sério. Nem os empresários nem os trabalhadores. Nem gente do Povo nem intelectuais, professores ou cientistas. Contudo, os impostos continuam a crescer, sempre a crescer. De momento, pensar em eleições é completamente inconveniente. Sou democrata, e sei bem que não há democracia sem eleições. Mas há momentos em que as eleições não se justificam porque não resolverão nada e podem antes complicar muito a situação. É o caso atual. Estou certo de que, na complexa situação que vivemos, nem as instituições do Estado nem os partidos as desejam. Julgo que os partidos têm no seu conjunto, necessariamente, esta perceção. Não podem deixar de ter. Basta pensar que a União Europeia está em mudança e importa ver o que vai suceder nas próximas semanas. Por outro lado, temos o exemplo da Itália, onde o Presidente da República, Giorgio Napolitano, conseguiu, com a habilidade política e a inteligência que toda a gente lhe reconhece, ver-se livre de Berlusconi e conseguir nomear um primeiro-ministro, Mario Monti, com o acordo do Parlamento, mas sem eleições. E a verdade é que tem realizado um trabalho notável para a Itália e em favor dos países vítimas dos mercados usurários. É certo que o nosso Presidente está longe de ser Napolitano. Mas aproxima-se o momento em que não pode continuar a fazer discursos vazios e que será obrigado a tomar decisões. A não ser que se demita também. Dada a crise profunda do Governo é ao Presidente que compete atuar, por muito que lhe custe. E espero que não deixará de o fazer. Como? Isso será com ele. Para isso foi eleito. As eleições virão depois, no momento oportuno, porque são essenciais em democracia. Por outro lado, a campanha sistemática antipolítica e antipartidos, a que temos assistido, tem de ser combatida a sério. Sem partidos não há democracia. E os movimentos cívicos, por mais responsáveis que sejam, não podem substituir-se aos partidos, como se tem visto. Pelo contrário, devem ajudá-los a melhorar a sua ação, para poderem combater a sério, ao lado dos partidos, a crise do euro e evitar a desagregação do projeto europeu. No que se refere ao Partido Socialista, Seguro já por várias vezes declarou que só aceitará ir para o Governo se e quando os eleitores se pronunciarem nesse sentido. Ora há hoje o movimento socialista europeu, que está em marcha e nos vai dar - espero - surpresas agradáveis. A própria chanceler Merkel, como se viu, vai nesse caminho. Quem tal diria? E há ainda a vitória no segundo mandato de Barack Obama - continuo a pensar que será um facto - em 6 de novembro próximo, que seguramente ajudará, com um grande empurrão, a relançar o projeto eu-ropeu. É do interesse americano e ocidental! Repito: é o Povo quem mais ordena. Não é uma simples frase. E agora que se habituou a ir à rua - e o medo mudou de campo, como disse - é preciso que continue nos seus protestos pacíficos e não deixe de lutar por mais democracia, mais dignidade no trabalho, maior intervenção social, apontar os corruptos, de modo a não ficarem impunes, exigir uma justiça eficaz e rápida, e, sobretudo, reclamar contra a austeridade, que não tem sentido, lutar contra o desemprego, esse flagelo do nosso tempo, e combater a pobreza e os salários de miséria. Portugal, ao longo da sua história, teve sempre uma tradição de intervenção popular. Foi o Povo - e Nuno Álvares Pereira - que venceram os castelhanos em Aljubarrota, após a primeira revolução burguesa da história europeia. Foi o Povo que transformou a Monarquia absoluta em Monarquia liberal, que fez a República e que, ao longo dos anos, lutou contra a ditadura. O nosso Povo é um grande Povo - até o ministro das Finanças teve a inteligência de o reconhecer -, tenhamos pois confiança, apostemos no Povo e sejamos solidários nesta complexa luta - tão séria e urgente - em que todos devemos participar

sábado, outubro 06, 2012

José Pacheco Pereira - COISAS DA SÁBADO: DOIS RIOS PARALELOS


5.10.12
COISAS DA SÁBADO: DOIS RIOS PARALELOS 


A contestação ao governo passa hoje por dois rios, caudalosos, prestes a sair das margens, mas que são distintos e paralelos. 

O RIO DE 15 DE SETEMBRO 

Um dos rios, o mais caudaloso, mas sem foz à vista, fazendo o seu leito de cheias e secas, é o das manifestações como a de 15 de Setembro, apenas comparável á que antecedeu a queda do José Sócrates, conhecida como a da “geração á rasca”. O mito diz que foi convocada nas redes sociais, mas a realidade é que foi convocada pelos jornais e pela televisão, pela activa e militante simpatia de muitos jornalistas com um tempo de antena excepcional, e foi “convocada” porque as peripécias da TSU entre o Pedro Primeiro-ministro e o “Pedro” do Facebook, mais a logomaquia de Gaspar, encheu o copo da “paciência” do bom povo português. 

 Os jornais fazem reportagens sobre os “autores” do protesto nas redes sociais, numa típica ilusão de autoria, convencidos que foram eles que trouxeram muitos milhares de pessoas à rua. Puro engano, muitas vezes os mesmos, quando isolados do amplificador comunicacional, nem cem pessoas trazem à rua. Há muito mais manifestações falhadas com a mesma origem do que sucedidas. São os mesmos e actuam nas mesmas redes, mas os resultados são abissalmente diferentes. Aliás, se não houvesse TSU, a manifestação de 15 de Setembro seria muito parecida com outras com a mesma origem, com dificuldade em atingir um milhar. Foi assim com a manifestação anti-Relvas, com as “assembleias populares”, ou a concentração dos “defensores da cultura”, que nem cem pessoas tinha 

Mas não foi. O caso da manifestação de 15 de Setembro, o sucesso deveu-se a uma razão: foi não-partidária e mesmo anti-partidária, e foi contra a “situação”. A “situação” é tudo: TSU,troika, governo, partidos, políticos, “regime”, “sistema”, Presidente, Assembleia, deputados, comentadores, jornalistas, juízes, magistrados, tudo. Teve lá desde a extrema-esquerda até à extrema-direita, mas o grosso da multidão é apenas extrema na sua recusa do presente e na sua desesperança face ao futuro. Estão com raiva. 

É um poderoso movimento de protesto, mas no dia seguinte pode ser apropriado ilusoriamente pela mesma “situação” que tinha sido insultada e vaiada no dia anterior. Os elogios à manifestação, vindos de governantes e do PSD e do PS, soam a falso, mas traduzem, para além do oportunismo de ocasião, uma maior facilidade por parte do sistema político para “integrar” essa realidade que lhes parece inconsequente do ponto de vista político. Houve descontentamento? Certamente que houve, dirá um deputado da maioria, mas foi “pacífico” e “ordeiro” e nós podemos ouvi-lo porque não somos surdos, mas como não o encontramos nas esquinas da Assembleia, nem dentro do partido, nem em qualquer “força de bloqueio”, seja o Tribunal Constitucional, seja o Presidente, podemos fazer de conta e andar para a frente. Prestamos-lhe um elogio formal qualquer de circunstância, mas podemos passar á frente, porque não conta, não está no “sistema”, não nos ameaça. É cegueira quanto ao fundo, mas não deixa de ter alguma razão a curto prazo. 

 O RIO DE 29 DE SETEMBRO 

O outro rio está igualmente caudaloso, mas tem foz e leito e sabe muito bem o que quer e di-lo cada vez mais. A manifestação da CGTP era muito mais difícil de fazer com sucesso do que a de 15 de Setembro. Não contava com a mesma simpatia comunicacional que a de 15 de Setembro, e teve que ser sujeita a uma agenda comunicacional assente na comparação de números com a anterior. Com toda a força que tem o pensamento débil, parecia que as redacções não queriam fazer mais nada do que saber se uma era maior do que a outra, se a multidão cabia no Terreiro do Paço cuja medida “cientifica” foi contraposta á de uma Praça de Espanha, nunca medida, nem cheia. A tendência para o exagero dos números de dia 15, contrastava aqui com a minimização, e como a cabeça não dava para muito mais, não viam o muito que havia para ver de novo no dia 29 de Setembro. Da mesma maneira que elogiavam a manifestação de 15 de Setembro para a engolir, o establishment fazia de conta que a 29 apenas tinha havido um remake das sempre iguais e sensaboronas manifestações da CGTP. 

Sindicatos e CGTP são para eles “velhos”, desinteressantes e de cassete, e prestaram pouca atenção ao facto de Arménio Carlos ter feito o mais violento discurso comunista desde o PREC, a milhas do moderado Jerónimo de Sousa, dirigindo-se quase sempre aos “camaradas” e só no fim se lembrou dos “amigos e amigas”. Não viram a multidão a cantar A Internacional, não viram aquilo que foi o mais evidente sinal de uma radicalização nas fileiras do PCP desde há anos de crise. Ora isso não só é novo, como dá uma dimensão que ao governo e o poder devia suscitar as maiores preocupações. Até porque se deve ao PCP e quase só ao PCP e à CGTP o clima de “paciência” do povo português e não haver violência nas ruas. Arménio Carlos afirmou que a CGTP não permitiria violência na sua manifestação e quem lá estava sabe que isso é para tomar á letra, como sabe a polícia que confia mais no serviço de ordem da CGTP do que em milhares de efectivos. O PCP, por cultura política, despreza a violência folclórica dos esquerdistas actuais, mas é tudo menos um touro manso. 

A CGTP e o PCP estão cada vez mais a dar expressão a uma radicalidade que vem de baixo, dos locais de trabalho, seja na função pública maltratada, seja nas fábricas onde há despedimentos colectivos, seja em sectores de trabalhadores que são tratados com desprezo por administrações que estão a rasgar acordos que assinaram há um ano. Se houver greve geral podem ter a certeza que será muito mais dura. Pode até haver menos grevistas, mas os piquetes vão tomar a sua função a sério. Porque este não é o mundo das raparigas a abraçar polícias e depois andar a tirar fotografias em pose para revistas cor-de-rosa. 

 A FOZ DOS RIOS 

No dia em que a planície entre estes dois rios for inundada e as águas se juntarem numa mesma foz, a rua tornará ingovernável o país. É raro, vem pouco nos manuais, apenas nos melhores, mas está cada vez mais perto de acontecer.

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segunda-feira, outubro 01, 2012

O Fastio - Correia da Fonseca


O Diário.info

30.Set.12 :: Colaboradores
Mesmo quando parecem informar, as televisões escolhem cuidadosamente o que querem mostrar, por exemplo de uma grande manifestação de massas. É o genuíno protesto? É o repúdio pela política do governo por parte de muita gente que há tão poucos meses votara nos partidos que o compõem? Não. É no “apartidarismo” e no “anti-partidarismo” de alguns. Porque os interesses ao serviço de quem existem sabem muito bem que o perigo não é o protesto. O perigo é o protesto organizado.


1.Nunca tal se vira nos ecrãs dos nossos televisores: um mar de gente a perder de vista, a não caber no enquadramento mesmo quando filmado em larguíssimos “plongés” com as câmaras decerto instaladas em helicópteros; abundantes planos intermédios que “desciam” até aos grandes planos da entrevistas sem que contudo se perdesse por muito tempo a visão de conjunto; demorada atenção prestada a cartazes e panos; recolha de muitos depoimentos indignados, alguns deles pungentes. Era sem dúvida uma gigantesca manifestação e, também sem dúvida, era a televisão empenhada em dar testemunho dessa dimensão inédita mediante uma cobertura também sem precedentes e de algum modo surpreendente. Porque, como bem se sabe, a televisão, quer a pública quer a privada, sempre deu sinais de não gostar muito de manifestações. Fornecia-nos delas algumas imagens, é certo, mas eram quase sempre umas coisinhas aparentemente recolhidas sem entusiasmo, no género não propriamente de cumprir serviços mínimos, mas antes de prestar serviços minimizados. Mas desta vez não foi assim, por vezes se diria que a reportagem era um complemento da manifestação, que com ela verdadeiramente fraternizava.

2.Quando se tratava de manifestações directamente ligadas a partidos políticos ou, o que para a televisão é o mesmo, convocadas pela CGTP, as reportagens incluíam momentos especialmente eloquentes quanto ao desafecto sentido relativamente ao acontecimento que se propunham reportar. Porque a televisão, e de resto não apenas ela mas também outros “media”, não gostam dos partidos, têm em relação a eles um invencível fastio, e agem em coerência com essa aversão. No caso das manifestações, porém, a questão simplifica-se porque, como é sabido, os partidos da direita política não descem às ruas para protestarem contra a sua própria prática governativa, e esta compreensível abstinência alargou-se também ao PS, o que não espanta. De onde um raciocínio simples: se havia uma manifestação, eram os comunistas ou equiparados que tinham resolvido descer a Avenida da Liberdade ou subir a de Almirante Reis. Surgiam então nos ecrãs uns velhinhos como prova de que os comunistas são gente que já não se usa, os planos gerais eram raros e fugidios, a transmissão da reportagem arrumava-se em escassos minutos e, de resto, era antecedida por notícias de inundações na Ásia ou incêndios na América. Pois uma regra geral de ouro impedia as televisões de reconhecer a uma manifestação relevo bastante para merecer abrir um noticiário.

3.Porém, esta manifestação do passado dia 15, além de enorme tinha um outro e provavelmente mais impositivo mérito que garantia a simpatia da televisão, isto é, da operadora pública e das estações privadas unidas por um sentimento comum: não havia sido convocada por nenhum partido (entenda-se: pelo PCP) ou pela CGTP, constava ser filha do Facebook, o que desde logo apontava para uma não-contaminação muito recomendável. Aconteceram mesmo breves apontamentos de reportagem em que manifestantes abordados individualmente diziam da sua repugnância pelos partidos, forma mais agressiva do tal fastio perante “os partidos”, indício de pureza política que sempre cai bem nos muitos em quem foi semeada ao longo de anos a inconsciente saudade das décadas em que não havia em partidos políticos em Portugal. E para melhor se entenderem as raízes deste sentimento, não será inútil lembrar que nos dias imediatos ao 25 de Abril de 74, o senhor general Spínola, supondo-se dono da Revolução havida, só queria admitia permitir a legalização de “associações cívicas” mas não de partidos e, num segundo tempo, de partidos mas não do Partido Comunista Português.

4.A moral desta estória, que é parte integrante da História destes nossos dias, é que a muito generalizada hostilidade para com os partidos políticos é, para muitos dos que a praticam, estimulam e multiplicam, uma forma de implantar na cabecinha das gentes a rejeição do Partido Comunista, o único que importa neutralizar. A questão é que as classes dominantes sempre governarão (leia-se: sempre se governarão) quer através de partidos com práticas de direita, ditos “do arco do poder”, em regime de democracia formal, quer em “regime autoritário”, como agora é meigamente designado o fascismo português. Daqui decorrem consequências de diversa dimensão, e uma delas é que uma manifestação dita “sem partidos” e mesmo com afloramentos “contra os partidos” se torna bestialmente simpática a alguma gente esperta e a muita gente tonta. Também à televisão que, afastando-se de habituais práticas anteriores, se aplica nesse caso a fazer reportagens como nunca víramos em tal extensão e qualidade.