A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht

domingo, dezembro 09, 2012

Vitor Dias - Louçã e a palavra de Belmiro


Aquela irresistível tentação

Louçã e a palavra de Belmiro

Em entrevista hoje ao PúblicoFrancisco Louçã, embora referindo que vários partidos têm uma capacidade de actuação  que não é vulnerável à captação pelos sistema financeiro, não resiste a afirmar logo de seguida  (sublinhado meu): «Tenho muito orgulho em lembrar que Belmiro de Azevedo em entrevistas que deu dizia que já tinha financiado todos os partidos, excepto o BE».

Face a isto, cumpre-me  registar a grande devoção de Louçã pela palavra de Belmiro de Azevedo que, neste caso, é obviamente caluniosa para o PCP, ainda por cima numa matéria em que está na cara que o conhecido empresário tinha todo o interesse em não se ficar pelo financiamento do PS, do PSD e do CDS.

Passado tanto tempo, confesso que já não me lembro se na altura o PCP desmentiu a afirmação de Belmiro ou se lhe pagou justamente em desprezo. Mas lembro-me de, na Soeiro Pereira Gomes, em conversa de corredor ou em mesa de reunião, ter desabafado: «lá vamos ficar com a fama e nem sequer vimos a côr do dinheiro».




http://pt.scribd.com/doc/116124078/Francisco-Louca-%E2%80%9CA-estrutura-de-alternancia%E2%80%9D-partidaria-nos-governos-%E2%80%9Ce-uma-forma-de-corrupcao-politica%E2%80%9D

"Pedofilia é pior que o crime de fotocopiar", diz Gianluigi Nuzzi

JN

o às 00.19

NUNO MIGUEL ROPIO

Há um ano, Gianluigi Nuzzi revelou, no seu programa de televisão, uma carta secreta do núncio apostólico Carlo Viganò ao Papa. Nos meses seguintes, bombardeou o mundo com cartas e documentos confidenciais de Bento XVI, expondo um Vaticano de traições, guerras de poder e influência de máfias. Nunca revelou as suas fontes, mas presos na Santa Sé estão já Paolo Gabriele, mordomo do Papa, que alegadamente fotocopiou tudo, e o informático Claudio Sciarpelletti. Na apresentação do seu livro "Sua Santidade", em Portugal, Nuzzi acusou o Vaticano de só ter agido contra os denunciadores.
foto REINALDO RODRIGUES/GLOBAL IMAGENS
"Pedofilia é pior que o crime de fotocopiar", diz Gianluigi Nuzzi
Gianluigi Nuzzi
Refere no prefácio: "Não esperava que o Vaticano chegasse a prender alguém por suspeita de passar informações aos jornalistas". Mas prendeu. Vamos ficar por aqui?
A detenção de Paolo Gabriele é um gesto muito exagerado. Se um facto análogo ocorresse num outros país europeu democrático haveria pessoas na rua a protestarem. É indecente que alguém que passe fotocópias seja preso. A detenção das fontes de um jornalista é um sinal muito mau.
Choca-o Gabriele estar preso?
(Silêncio) Gabriele é católico. Uma pessoa que Wojtyla [João Paulo II] chamava carinhosamente de Paulus. Alguém que serviu Ratzinger [Bento XVI] durante muitos anos, fazendo chegar-lhe notícias de violações e outras situações que, de uma outra forma, não chegariam ao Papa. Creio que o perdão do Papa já foi assinado, mas haverá alguém que não quer que seja libertado, com medo que ele fale, porque não é um sujeito controlável. Fazer o Paolo Gabriele passar o Natal na prisão, privando a sua filha do pai, num momento tão importante para a vida de qualquer católico, faz a Igreja recuar séculos, a um período obscurantista.
Esta investigação irá atingir mais alguém?
Acho que este processo está encerrado. Quer o Gabriele, quer o Claudio (Sciarpelletti), têm recursos em curso. Não creio que haja uma continuação desta perseguição. Considero mais grave o crime de pedofilia do que o crime de fotocopiar.
O porta-voz do Vaticano afirmou que a investigação sobre o caso de fuga de documentos confidenciais do Papa vai continuar.
Vamos ver. Aceito apostas. O que é mais grave aqui: que o Paolo Gabriele tenha dado informação dos crimes ou quem cometeu esses crimes? Quem faz mal à Igreja? O Paolo?
Porque só são acusados os informadores?
Há uma vontade de deslocar o foco da informação para o informador. Quando leio notícias, não quero saber quem foi a fonte, mas se a informação é verdadeira. O que salta à vista é que todos os cardeais envolvidos são italianos. O livro testemunha a crise muito forte da Cúria Romana. O dogmatismo de Bento XVI tem de ser premiado pela purificação da Igreja, mas não soube escolher as pessoas que o rodeiam.
Algumas ligadas a máfias?
Até há poucos anos atrás o Vaticano era um paraíso fiscal. O crime de lavagem de dinheiro só foi introduzido em 2010. O IOR [Instituto das Obras Religiosas - Banco do Vaticano], nas décadas de 80 e 90, "lavou" dinheiro da máfia. É algo que vem escrito nas sentenças que os juízes emitiram após a morte do presidente do IOR [Roberto Calvi], encontrado morto, em Londres, em 1982. Na década de 90, o IOR "lavou" dinheiro da corrupção política. Era um banco offshore da Europa. Só depois do 11 de setembro [de 2001], com as políticas de transparência exigidas pelos americanos e o Banco Mundial, que motivaram os governos europeus e o Banco Central Europeu, o IOR começou a atuar de acordo com as regras financeiras, para evitar que o pusessem numa lista negra, que o excluiria de qualquer atividade financeira com os países mais importantes.
A máfia que refere é a italiana ou de outros países?
Quando os juízes no caso Calvi aludem à máfia, referem-se à "Cosa Nostra". Mas nos anos 80 e 90 [do século XX] havia notas do FBI que apontavam o Banco Ambrosiano [cujo o Banco do Vaticano era o principal acionista], de Roberto Calvi, como a ligação entre a finança e o Cartel de Medellín [rede de traficantes de droga colombianos]. Quando estive em Buenos Aires [Argentina], entrevistei a Ayda Levy, mulher do Roberto Suárez [boliviano considerado o rei da cocaína na América], que referiu que o marido tinha um amigo na Europa chamado Calvi. E que, seis meses antes de morrer, Calvi tinha pedido ajuda ao marido, porque Pablo Escobar [o traficante mais rico do mundo] queria recuperar o dinheiro que tinha depositado no Banco Ambrosiano. Estes são factos que voltam a surgir após alguns anos. Mas o julgamento em Roma, contra Calvi, acabou com imensas absolvições. Decorre agora um julgamento contra quatro indivíduos, cuja a identidade é desconhecida.
Ninguém na Justiça italiana pegou nesta obra? Porque só o Vaticano a usou para prender as fontes.
Este livro tem como ponto fulcral o Vaticano, um Estado que não colabora habitualmente com as autoridades italianas. Todos os pedidos de assistência judicial não recebem respostas ou recebem respostas genéricas. Não existe em Itália um único juiz satisfeito com as respostas obtidas do Vaticano. Por isso, imagino este livro como um aprofundamento para a grande família da Igreja, mais do que um instrumento para a Justiça italiana.
Ainda que o Vaticano não atue, a Itália tem neste livro alguns cidadãos como atores principais. A Justiça não agiu nestes seis meses porquê?
Com que hipótese e a quais crimes se esta a referir?
Não conheço o sistema judicial italiano. Mas, vejamos: tráfico de influências, fuga de capitais, formação de cartéis...
Talvez no Vaticano não. Com o meu outro livro, "Vaticano SA", os magistrados italianos apreenderam todo o meu arquivo para as suas investigações sobre casos de corrupção decorridos em Itália. Mas isto aconteceu muitos meses depois do livro sair.
Não acha invulgar que perante tais denúncias de corrupção, apenas o mordomo esteja na cadeia?
Este livro denuncia indivíduos com responsabilidades morais. Também mostra como as lógicas, dentro do Vaticano e do Vaticano com outros estados, são mais fortes que pensamos. Mostra a lógica, sistemas e mecanismos da corrupção. Veja, nenhuma das pessoas que, ao longo de anos, reparou que Gabriele fotocopiava papeis foi atingida, perseguida, despedida ou transferida. Porém, aqui temos um mordomo do Papa que, desde 2006, andou a fotocopiar papeis e ninguém reparou nisso? O responsável da segurança, Domenico Giani, ex-agente secreto, foi confirmado nessa função. O secretário pessoal do Papa, monsenhor Georg Gänswein, que atribuía funções de secretaria ao Paolo Gabriele, foi promovido a arcebispo. O único que continua na prisão é Gabriele.
Qual foi a sensação quando chegou às suas mãos tal documentação?
Para o primeiro livro, "Vaticano SA", juntei 4000 documentos. Quando os vi pela primeira vez fiquei atónito, porque nunca tinha visto documentos do IOR. Quando li os extratos do Giulio Andreotti [sete vezes primeiro-ministro de Itália, entre 1972 e 1992], com valores de 30 milhões de euros, fiquei estupefacto. Então liguei-lhe e perguntei-lhe porque tinha tal conta num banco offshore. Não sei qual é o respeito que os políticos portugueses têm para com os jornalistas, mas Andreotti respondeu-me, através da secretária, que não se lembrava de ter essa conta. 30 milhões de euros! Isto, em Itália, diz-se que é "gozar na cara de alguém".
Mas, em relação a esta obra?
Quando vi a primeira assinatura de Bento XVI, com uma letra muito pequena, tive uma emoção muito forte. Porque essa caligrafia, tão pequenina, demonstra o poder desse homem, mas também a sua solidão. Paolo Gabriele disse em julgamento que Ratzinger não era informado do que se passava como deveria. Nos últimos meses tentaram silenciar Gabriele.
Qual foi a imagem do Vaticano que começou a construir na sua mente, com o desenvolvimento desta investigação?
Imagine que o Vaticano é como o mar, profundo, profundo. Onde não se consegue conhecer a maioria das espécies marinhas, porque estão a uma profundidade tal, que não somos capazes de chegar lá.
O Vaticano mudou com este livro?
Ainda é cedo. Este livro abre um precedente, permitindo às pessoas que estão fora do sistema saber o que está debaixo do tapete, os fatos desconhecidos e os fatos graves. Pela primeira vez na história tivemos informação do Vaticano, o único país da Europa com um só jornal diário.
O Vaticano não gosta de jornalistas?
(Risos) Veja o que eles fizeram recentemente: um julgamento com jornalistas selecionados. Não sei se sabe que grande parte dos orçamentos de entidades e organismos que compõem o Vaticano são completamente privados. O temor dos seus colegas correspondentes estrangeiros é que lhes retirem a acreditação e não possam entrar nas salas do Vaticano.
A contratação do jornalista americano Greg Burke para assessor do Vaticano alterou alguma coisa?
Um jornalista da Opus Dei?
O correspondente da Fox News em Roma.
(Agita a cabeça)
Que sinal é esse?
Que quer que comente? Essa nomeação...
Nada mudou, é isso?
Eles mostraram as celas onde Paolo esteve detido?
Como são essas celas?
O Paolo disse que a primeira cela em que esteve era tão pequena, que não conseguia abrir os braços. Será que foi torturado ? Porque não chamam jornalistas de Londres para ver estas salas. Qual é o medo da transparência?
Pensou colocar os documentos num site, como o WikiLeaks?
Não. Aliás, quem falou em "VatiLeaks" foi Lombardi [Federico, porta-voz do Vaticano]. Entre o "WikiLeaks" e esta história há um abismo. Assange [Julian, jornalista australiano] recebeu documentos sobre a segurança militar dos Estados Unidos e encontrou apoio no movimento contra o imperialismo americano. Sou jornalista, tive acesso a documentos, fiz entrevistas, fiz viagens, investigações e criei um livro. Se fosse algo sobre a segurança do Vaticano não publicaria.
Uma das principais personagens do livro é o cardeal Tarcisio Bertone [secretário de Estado do Vaticano]. Que me pode dizer sobre ele?
Qual é a outra pergunta?
E sobre Joseph Ratzinger?
Esse já é melhor. (Pausa) É um pastor revolucionário. Um pastor que defendeu que as questões de pedofilia deveriam ser resolvidas pelos tribunais civis. Deixa uma obra de purificação impensável no mundo latino, que encontrou muitas resistências. Penso que é um ancião e está cansado. Não pode mudar o seu secretário de Estado [Bertone], mesmo que queira, porque teria um eco muito forte. Significaria colocar uma hipoteca sobre o pontificado. O próximo Papa não pode ser italiano.
Porquê?
Porque há cardeais melhores em todo o mundo.
Falamos de vícios?
A riqueza da Igreja reside no fato de ser de todos. Há uma região na Itália, que se chama Ligúria, muito pequena, que tem cinco cardeais. Entende? O Vaticano não pode ser "italiano cêntrico". O eixo deve deslocar-se. Imagine um papa chinês, filipino ou brasileiro.
Tem um discurso generoso para com Bento XVI, o homem dogmático atrás de João Paulo II.
Mas era outra época. Uma outra Europa. Havia outros limites. No Vaticano ainda hoje sobrevive uma parte dessa mentalidade, onde uma critica é vivida como um ataque.
É a mesma personagem que se manteve nos bastidores e agora está na liderança, a quem não é desconhecida a realidade retratada pelo seu livro.
Não perdoo ninguém porque não é esse o meu papel.
É jornalista. Esta é a sua obra. E, no final da leitura estamos perante alguém que não tem um comportamento tão criticável? Apenas alguém que não consegue controlar uma máquina.
É o juízo que faz depois de ler o livro. Que eu ate posso partilhar. Seguramente acho mais criticável as atitudes de outras pessoas que rodeiam o Papa.
Esta obra está a cumprir o seu desígnio?
Sim, porque ela dá-nos a oportunidade de, através documentos privados, dar a volta ao mundo católico, observando as contradições, os jogos de poder e, sobretudo, a hipocrisia de quem apresenta uma cruz sem ver quem está crucificado nela.
Crê que haverá consequências?
Acredito que a informação acelera os processos de mudança. A informação não é a mudança. Posso garantir que o meu primeiro livro, "Vaticano SA", conseguiu acelerar os processos de transformação do sistema financeiro do Vaticano. Isso é uma satisfação. Compreendo que este livro testemunhe a violação da confiança do papa. Mas a informação é nosso dever. Não podemos guardar a notícia na gaveta, senão faríamos outro trabalho.
Sente-se perseguido?
Nunca me armei em vítima e não o farei agora.
É católico?
Sou cristão e batizado.
Depois desta obra, com as consequências que teve, é menos religioso?
A fé é um património pessoal. Entre a Igreja de todos e a Igreja do Vaticano vai uma grande distancia.
Até porque este livro não é sobre fé!
É um livro sobre pessoas que têm uma fé mal depositada.
E os efeitos deste livro são os que esperava?
Em que aspeto?
De certeza que não o queria para enfeitar uma prateleira, certo? Sucesso não lhe falta...
Até trabalho mais.
Os negativos também posso referir: uma alegada fonte sua está hoje presa...
Sofro pelo Gabriele estar preso. Estava consciente dos riscos. Mas acho uma profunda injustiça. (Silêncio) Estou convicto que quando Gabriele sair da prisão virá mais forte, porque é uma pessoa sã e honesta. Vou-lhe dizer algo que nunca contei a ninguém. Quando visitei o Gabriele, transmiti algo à minha mulher - algo que nunca fazia: "Valentina, hoje conheci uma pessoa que tem luz nos olhos". Depois, é claro, sei que nunca irei trabalhar para a televisão pública italiana [RAI], que não dedicou um minuto a este livro. Nunca me entrevistaram. Dão-me pena aqueles jornalistas que baixam a cabeça. Eu posso olhar no espelho todas as manhas, já eles não sei.

sexta-feira, dezembro 07, 2012

‘À moda stalinista’, um artigo de Roberto Pompeu de Toledo


veja

01/11/2011
 às 13:01 \ Feira Livre

‘À moda stalinista’, um artigo de Roberto Pompeu de Toledo

PUBLICADO NA VEJA DESTA SEMANA
A imagem do poeta Carlos Drummond de Andrade foi utilizada no programa de propaganda obrigatória do PCdoB
Roberto Pompeu de Toledo
Pouco antes de jogar a toalha, na semana passada, e entregar a cabeça do ministro do Esporte, Orlando Silva, o PCdoB tentou reinventar seu passado. No programa de propaganda obrigatória que foi ao ar no dia 20, apresentou como emblemas do partido Luís Carlos Prestes, Olga Benario, Jorge Amado, Portinari, Patrícia Galvão (a Pagu), Oscar Niemeyer e Carlos Drummond de Andrade. Era uma fraude similar às operações do programa Segundo Tempo. Dos sete, os seis primeiros pertenceram ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o arquirrival do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). O sétimo, o poeta Carlos Drummond de Andrade, não foi nem de um nem de outro. O partido tentava, num programa de TV em que jogava as últimas fichas para safar-se do escândalo no Ministério do Esporte, pegar carona num casal de ícones da história brasileira (Prestes e Olga) e em algumas das mais queridas figuras da cultura do país.
O caso menos grave é o de Oscar Niemeyer, o único vivo do grupo. Apesar de ter sido militante do PCB, já apareceu em programas anteriores do PCdoB, do qual aceita as homenagens. O mais grave é o de Prestes. O PCdoB surge, em 1962, do grupo que, no interior do PCB, discordou da denúncia do stalinismo promovida na União Soviética após a morte do ditador. O PCdoB, com um curioso “do” no meio da sigla, será daí em diante o guardião da pureza stalinista. Os outros são a “camarilha de renegados”. E o renegado-mor, claro, é Prestes, o líder do PCB. No verbete “PCdoB” da Wikipédia, escrito num tão característico comunistês que não deixa dúvida quanto à sua procedência oficial, Prestes é tratado de “revisionista” (insulto grave, em comunistês) e acusado de ter “usurpado a direção partidária”. Também se diz ali que “abandonado à própria sorte, em idade avançada”, Prestes “dependerá de amigos como Oscar Niemeyer para sobreviver”. Eis colocadas na mesma cloaca da história (o comunistês é contagiante) duas figuras que agora o PCdoB alça ao altar de seus santos.
Entre os outros casos de usurpação biográfica, a alemã Olga, primeira mulher de Prestes, foi fiel soldado das ordens de Moscou. Morreu muito antes de surgir o desafio do PCdoB, mas é de apostar que essa não seria a sua opção. Portinari e Pagu morreram, no mesmo 1962 do cisma comunista, ele fiel à linha de Moscou, ela convertida ao trotskismo, portanto inimiga do stalinismo. Jorge Amado na década de 60 já tinha o entusiasmo mais despertado pelo cheiro de cravo e pela cor de canela do que pela causa do proletariado. Em todo caso, sua turma era a de Prestes, o “Cavaleiro da Esperança” que cantara num livro com esse título.
O caso mais estapafúrdio é o de Drummond. Nos anos 1930/1940 ele praticou uma poesia de cunho social e filocomunista. Chegou a colaborar com o jornal Tribuna Popular, do PCB. Mas nunca se filiou ao partido. Cultivou a virtude de nunca ser firme ideologicamente. O namoro com o comunismo, dividia-o com a fidelidade ao Estado Novo, ao qual serviu no Ministério da Educação. No pós-guerra, mitigava o comunismo com a sedução pela UDN do amigo e mentor Milton Campos. Em 1945 votou para senador em Luís Carlos Prestes, do PCB, e para presidente em Eduardo Gomes, da UDN. E, em 1964, apoiou o golpe militar. “A minha primeira impressão foi de alívio, de desafogo, porque reinava realmente, no Rio, um ambiente de desordem, de bagunça, greves gerais, insultos escritos nas paredes contra tudo. Havia uma indisciplina que afetava a segurança, a vida das pessoas”, explicou numa entrevista, transcrita em livro recente (Carlos Drummond de Andrade Coleção Encontros). Agora vem o PCdoB dizer que Drummond foi um dos seus!?
Desconcertante história, a desse partido. A defesa do stalinismo levou-o a festejar o grande timoneiro Mao Tsé-tung e, quando o timão do chinês emperrou, buscar inspiração na Albânia do “Supremo Camarada” Enver Hoxha. Arriscou uma aventura guerrilheira nos barrancos do Araguaia. E, em anos recentes, encantou-se pela UNE e pelo monopólio da carteirinha de estudante, declarou ao esporte um amor insuspeitado em quem associava o partido à figura franzina do patrono João Amazonas (1912-2002) e recrutou, para reforço de suas chapas, jogadores de futebol (Ademir da Guia, Muller) e cantores (Netinho de Paula, Martinho da Vila) em quem nunca se suporia inclinação pela causa da foice e do martelo. Se há uma coisa em que manteve a coerência, é no vezo stalinista. Stalin mandava cortar das fotos dirigentes do partido caídos em desgraça. O PCdoB inclui em suas fileiras gente que lhe foi alheia. Pelo avesso, chega ao mesmo fim de falsificar a história.


 .http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/feira-livre/a-moda-stalinista-um-artigo-de-roberto-pompeu-de-toledo/

quinta-feira, dezembro 06, 2012

Deutsche Bank acusado de ocultar 9 mil milhões de euros em dívida [perdas] para fugir a resgate



O Deutsche Bank é acusado de ter escondido dívidas para evitar o resgate do Governo alemão.
Banco alemão é ainda acusado de ter despedido dois funcionários por retaliação às denúncias MARTIN OESER/AFP


O Deutsche Bank é acusado de ter escondido 9230 milhões de euros em dívidas durante o pico da crise financeira para mascarar as contas e evitar um resgate pelo Governo alemão.
 A notícia é avançada nesta quinta-feira pelo Financial Times, que afirma que três antigos funcionários do banco alemão apresentaram queixas nos EUA, alegando que o banco alemão, com o conhecimento dos dirigentes executivos, não registou muitas das perdas nas operações de mercado entre 2007 e 2009.
Num comunicado emitido também nesta quinta-feira, o banco germânico afirma que as acusações já datam de 2011, altura em que o banco terá desenvolvido “uma cuidadosa e rigorosa investigação”, que chegou à conclusão de que as acusações são “totalmente infundadas”. No mesmo comunicado, o Deutsche Bank afirma que as acusações partem de funcionários que não têm conhecimento, nem são responsáveis pelas principais operações do banco alemão.
Segundo o Financial Times, as queixas dos três funcionários terão sido apresentadas separadamente entre 2010 e 2011 à entidade norte-americana que regula dos mercados financeiros, a Securities and Exchange Commission, e que terão ainda apresentado documentos do Deutsche Bank.
Dois dos três antigos funcionários do banco alemão que apresentaram as queixas afirmam ter sido afastados depois terem mencionado, internamente, o processo de ocultação de dívidas. Um deles, Matthew Simpson, um dos principais responsáveis pelo comércio de derivados, queixa-se de ter sido afastado pelo Deutsche Bank dias depois de ter apresentado a queixa à entidade reguladora norte-americana.
Matthew Simpson já havia alegado a existência de irregularidades no registo da avaliação do caderno de derivados. No seguimento da sua saída, Simpson recebeu 680 mil euros de indeminização do Deutsche Bank, depois de o antigo funcionário ter acusado o banco alemão de ter agido por “retaliação”. Eric Ben-Artzi, o outro funcionário que se queixa de ter sido afastado por retaliação a comentários sobre irregularidades do Deutsche Bank, apresentou também uma queixa à Securities and Exchange Commission. 
Notícia corrigida às 16h13
Altera designação de mercado de "derivativos" para "derivados".
Banca
Anónimo
A tradução de "derivatives" em "financial derivatives" é derivados. Derivados financeiros. Não "derivativos". Pelo menos em português de portugal. E o banco não está a ser acusado de esconder 9230M€ em dívidas, mas em perdas.

Anónimo
O Deutsch Bank é, como toda a gente sabe, desde o terceiro Reich a casa mãe do BES. Aliás, uma vez estive a fazer manutenção a um escritório do Ricardo Salgado e estava lá uma foto do mesmo com o presidente do Deutsch Bank e o Hitler em pessoa.

Mães sem dinheiro dão leite de vaca a bebés, com riscos para saúde


Serviços sociais da Maternidade Alfredo da Costa já receberam mais de mil pedidos de ajuda este ano, que não se limitam à alimentação dos recém-nascidos. “Estamos a recuar 50 anos.”
Este ano, a Associação de Ajuda ao Recém-Nascido recebeu 3.430 pedidos de ajuda PÚBLICO***
Mães sem dinheiro para comprar leite em pó estão a alimentar bebés de poucos meses com leite de vaca, ou juntam mais água às fórmulas artificiais, o que pode prejudicar a saúde das crianças.
Estes casos são do conhecimento dos serviços sociais da Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa, que cada vez mais atendem mães com “grandes carências”, a maior parte devido ao desemprego, como disse à agência Lusa a assistente social Fátima Xarepe.


“Todos os dias recebemos pedidos de ajuda”, disse, explicando que os mais frequentes são para a compra de leite em pó, de medicamentos, como vitaminas ou vacinas que não constam do Plano Nacional de Vacinação, e produtos de higiene.



Estas mães “fazem o melhor que podem”, disse Fátima Xarepe, que lamenta nem sempre a maternidade poder ajudar, nomeadamente no fornecimento de leite em pó, apesar de contar com o apoio da Associação de Ajuda ao Recém-Nascido (Banco do Bebé) e outras instituições particulares de solidariedade social.



A pediatra Cristina Matos conhece esta realidade e as consequências da ingestão de leite de vaca antes de um ano de idade, como gastroenterites. “Estamos a recuar 50 anos”, disse à Lusa, acrescentando que são cada vez mais as mães que, para o leite em pó render, juntam mais água do que o devido.



Isso mesmo confirmou a enfermeira Esmeralda, que consegue identificar o acréscimo excessivo de água ao leite em pó, principalmente através do atraso no crescimento do bebé.



Segundo Fátima Xarepe, são mais de mil os pedidos de ajuda que os serviços sociais já receberam este ano, e que não se limitam à alimentação dos recém-nascidos. “Há grávidas que não vêm às consultas de vigilância por não terem dinheiro para os transportes, o que as coloca em risco, assim como aos bebés”, disse esta assistente social, que não tem dúvidas de que estes casos, cada vez mais graves e frequentes, vão aumentar por causa da crise.



Estas profissionais sentem-se impotentes, apesar de tentarem fazer “o melhor” que sabem, pois, apesar de o serviço público de saúde ser gratuito para as grávidas, estas muitas vezes não conseguem assumir outras despesas, como é o caso dos transportes.



“Há grávidas que vêm a pé de Chelas [o que pode demorar cerca de uma hora], porque não têm dinheiro para pagar o transporte”, disse.



Este ano, o Banco do Bebé recebeu 3.430 pedidos de ajuda e foram apoiadas 971 crianças e 62 no domicílio. Dos cerca de 4000 partos anuais na MAC, perto de 10% resultam em crianças sinalizadas por estarem em risco de serem negligenciadas.



A MAC comemora o seu 80.º aniversário nesta quarta-feira, tendo assinalado a efeméride com uma conferência com o psicanalista Coimbra de Matos, durante a qual este falou sobre a importância de cuidar e amar.

Oscar Niemeyer

Foto



  • ‎"Os mesmos jornais e televisões que atacam os comunistas sem piedade rendem homenagem a Oscar Niemeyer. Porque era um génio, porque era um sonhador, porque era um humanista. Mas nunca por ter sido comunista. Essa é a parte que escondem para que não se saiba que é a rebeldia que estimula a arte e a cultura. Niemeyer era comunista como Pablo Picasso, Bertolt Brecht, Pablo Neruda, Carlos Paredes, Lopes Graça, Maiakovsky, Lorca e Tina Modotti." (pelo Bruno Carvalho)
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terça-feira, dezembro 04, 2012

2,5 milhões de portugueses em risco de pobreza ou exclusão social



Exame Expresso

Em 2011, 119,6 milhões de pessoas na UE, ou seja, 24,2% dos europeus, estavam ameaçadas de pobreza ou exclusão social, revelou hoje a Eurostat. Dessas, 2,5 milhões são portugueses.

Maria Luiza Rolim (www.expresso.pt)
19:15 Terça feira, 4 de dezembro de 2012


Ler mais: http://expresso.sapo.pt/25-milhoes-de-portugueses-em-risco-de-pobreza-ou-exclusao-social=f771202#ixzz2E7lS85sR


Numa lista encabeçada pela Bulgária, com 49%, Portugal (24,4%) é o décimo país com piores taxas de risco de pobreza e de exclusão social da UE. Embora a qualidade de vida da população portuguesa continue a deteriorar-se, ainda assim, está melhor comparativamente ao ano passado (25.3%) e a 2009 (26%), segundo dados divulgados pelo Eurostat, o gabinete de estatísticas da União Europeia.
A julgar pelas estatísticas, Portugal está numa situação mais ou menos equivalente à da média dos 27 países da UE (24,2%), e um pouco menos dramática do que Espanha, que ocupa a 9ª posição, com 27% dos espanhóis em risco de pobreza ou exclusão social. E também da Grécia, que se situa como o quinto país com as piores taxas da UE, posição que divide com a Hungria.
No conjunto dos 27, a proporção de pessoas em risco de pobreza  ou exclusão passou de 23,4% em 2010 para 24% em 2011, o que representa uma subida de 0,6, muito mais do que a registada, por exemplo, em Espanha.
De acordo com os dados divulgados segunda-feira pela Eurostat, estão em risco de pobreza as pessoas cujo rendimento são inferiores a 60% da média nacional; que padecem de "grave privação material", de modo que os seus recursos não permitem pagar o aluguer de uma casa ou adquirir certos bens básicos; ou que utilizaram menos de 20% do seu "potencial de trabalho" no último ano.
No total, 119,6 milhões de cidadãos europeus estavam numa dessas situações no ano passado. Desses, cerca de 2,5 milhões eram portugueses.
No ítem relativo a pessoas em risco de pobreza, após as transferências sociais, Portugal chega aos 18%, estando perto dos países do leste. A média nos 27 estados-membros é de 16,9%.

Clique na imagem para ver o PDF


Ler mais: http://expresso.sapo.pt/25-milhoes-de-portugueses-em-risco-de-pobreza-ou-exclusao-social=f771202#ixzz2E7l3HNVh

domingo, dezembro 02, 2012

Albano Nunes - O nosso projecto de Socialismo para Portugal


Intervenção de Albano Nunes, Membro do Secretariado do Comité Central do PCP, Almada, XIX Congresso do PCP



http://www.pcp.pt/o-nosso-projecto-de-socialismo-para-portugal

José Pacheco Pereira - Ai aguentam, aguentam


Público - Lisboa, Portugal

* Por José Pacheco Pereira, in Público



"O Governo põe-se a jeito, é dadivoso, a troika elogia-o pela subserviência e pede mais. Ele diz sim e agradece.

Vem a caminho um novo pacote de austeridade com o nome pomposo de "refundação do Estado". Não é sobre a definição das funções do Estado, como se tem feito o favor ao Governo de o tomar. Não é nenhuma política nem de superfície, quanto mais de fundo: é o resultado de uma negociação feita com a troika, sem nosso conhecimento, sobre a qual abundam declarações contraditórias e algumas mentiras. É uma meta numérica para os cortes, nada mais. Se tiver que se chegar lá "custe o que custar", chega-se. Como tudo que tem sido feito nos últimos tempos "vem no memorando", mesmo quando o que vem no memorando é outra coisa, o mesmo memorando que o Governo nalguns casos diz que aplica, noutros recusa aplicar (a diminuição do número de concelhos), noutros era para aplicar e não aplicou (os 4,5%). O Governo põe-se a jeito, é dadivoso, a troika elogia-o pela subserviência e pede-lhe mais. Ele diz sim, sim e agradece. 

Já houve o PEC1, PEC2, PEC3, o Orçamento do Estado de 2010 com muitas medidas restritivas, várias medidas avulsas do Governo Sócrates, pelo menos cinco "pacotes", tendo ficado pelo caminho o PEC4. Com Passos Coelho tivemos o corte de metade do subsídio de Natal em 2011, mais uma série de medidas avulsas, cortes de subsídios, alterações na lei laboral, seguido do corte dos dois subsídios para a função pública, mais uma subida do IVA. Depois veio o aumento da TSU, que ficou no papel, e os vários anúncios de novas medidas sobre salários, subsídios de desemprego, RMI, aumento generalizado de IMI, e por fim o "enorme aumento de impostos". Todos os dias, inclusive na proposta de diluição do subsídio de Natal ou de férias, os especialistas em direito fiscal, contabilidade e economia encontram novas formas de extorquir mais dinheiro, muitas ilegais. Mas who cares? É o "ajustamento", a correr muito bem.

É verdade que tecnicamente algumas destas medidas não são "pacotes de austeridade", mas na prática são-no. E vão continuar. Todas as vezes que o Governo falhar uma meta, haverá mais impostos. Por isso vai haver muito mais impostos e mais pacotes de austeridade estão a caminho.

Isto é a descrição da "coisa" em abstracto, agora veja-se como é em concreto. Em Fevereiro de 2013, imaginemos um casal comum que vive em Loures, ele encarregado de armazém, ela funcionária pública. Ganham nos escalões das suas profissões um pouco acima do patamar mais baixo. Têm trinta e sete, trinta e nove anos, dois filhos, vivem num andar barato que compraram a crédito numa urbanização. Até ao fim deste ano, conseguiram aguentar-se: ambos têm salário, embora ambos também já tenham perdido parte do seu salário, com impostos e com o corte dos subsídios na função pública. Ele teve algum atraso no salário, mas o patrão conseguiu arranjar dinheiro para pagar aos seus cinco empregados. Costumavam poupar alguma coisa e uma vez fizeram férias em Espanha, num pacote turístico muito barato que pagaram sem aceder ao crédito. Aliás, não estão especialmente endividados, a não ser a casa. Levantaram uma pequena poupança quando terminou o prazo e, quase sem dar por ela, gastaram-na. Porém, nada de grave, têm medo das coisas piorarem, mas até agora apenas apertaram o cinto, "ajustaram-se" cortando nalgumas despesas. 

Em Fevereiro de 2013, perceberam ao olhar o salário que recebem, que cerca de trinta por cento desapareceu. É muito. Estavam no limiar, agora estão abaixo do limiar, o dinheiro deixou de chegar. Não sabem como vai ser. A primeira consequência é que não há dinheiro para as propinas do filho mais velho, que estuda Psicologia, mas ainda não sabem como lhe vão dizer. Lembram-se do "piegas" do primeiro-ministro e começam a ficar zangados. Compram o Correio da Manhã, antes compravam o Diário de Notícias, mas agora não só compram o Correio da Manhã, como o lêem com mais atenção. Antes compravam o Expresso, agora decidiram poupar e uma das primeiras despesas a evitar foi o Expresso. A seguir virá o Correio da Manhã.

No primeiro semestre de 2013, apercebem-se de que cada conta que chega para se pagar implica que outra conta não é paga. Em Maio, cancelaram um empréstimo a prazo, toda a sua poupança, perdendo os juros. O banco fez tudo para atrasar a liquidação do empréstimo, inclusive oferecendo um novo crédito para consumo, para remediar a situação, mas ele sabia alguma coisa de contas e assustou-se com o que iria pagar e recusou. A partir desse mês, as contas começaram a ser pagas com a pequena poupança, mas cada vez havia mais contas e menos dinheiro para as pagar. A luz, gás, a água tinham subido, as despesas do telemóvel também. A prestação da casa era a única coisa que não tinha subido, e por isso foi a última coisa a deixar de ser paga, o que começou a acontecer por volta de Junho. Tinham a Sport TV, mas cancelaram a assinatura ainda em 2012, e em 2013, as contas da televisão, Internet, telemóvel foram as primeiras a deixarem de serem pagas. Pagaram o seguro do carro, mas já não pagaram o seguro da casa. Deixou de haver dinheiro para o passe dos filhos, para o condomínio, para roupa, para substituir um microondas avariado.

Quando ele recebeu o seu IRS, para além do que ele e ela tinham já descontado, e logo a seguir o IMI pela casa, já não havia dinheiro para pagar. A subida fora brutal, tanta que pensavam ter sido um erro, mas sabiam que não valia a pena protestar contra o fisco, e não fizeram nada. Agora tinham medo de ir à caixa do correio ou de receber mensagens no telemóvel da Via CTT, nem as abriam porque já estavam em "incumprimento", a caminho de execuções fiscais. Prazos cada vez mais curtos precediam uma nova conta das Finanças e uma nova ameaça de execução. Numa espécie de vingança contra o fisco faziam gala de não pedir factura de nada, a mesma atitude que alguns colegas no emprego já tinham tomado. Não servia para nada, ajudavam uns aflitos como eles, e atingiam o Passos e o Gaspar.

A seguir às férias ele perdeu o emprego, porque o armazém fechou. Ela dissera-lhe que muitas pessoas na função pública estavam a ser mandadas para a "mobilidade especial" com grandes cortes salariais. Quando ele lhe disse que ia pedir o subsídio de desemprego, enquanto procurava um novo emprego que sabia não ir encontrar porque era "velho" de mais, ela confessou-lhe a chorar que tinha a certeza que estava para ir para a "mobilidade especial", visto que era o "chefe" que escolhia e nunca se tinha dado bem com ele. No final do ano, o desespero era total, os conflitos no interior do casal eram quotidianos. Não se divorciavam porque não havia dinheiro para separar casas. Ele jurava que nunca mais votaria na vida, para "não dar de mamar a estes corruptos", ela participara pela primeira vez numa manifestação "indignada". Perceberam pela primeira vez o preço de trocar direitos por assistência.

Em 2014, não havia família, a casa estava em risco, o carro fora-se, e nenhum conseguia arranjar um único papel porque faltava uma declaração fiscal impossível de tirar sem "regularizar" as dívidas. De há muito que o seu prédio deixara de ter elevador, porque ninguém pagava o condomínio. Subiam cinco andares a pé, mas sabiam o drama que isso era para a senhora idosa do sétimo, que só subia e descia com muita dificuldade para ir levantar a reforma. Uma vez encontraram-na ofegante sentada na escada.

Estavam falidos e tinham ido à advogada da DECO, para fazer essa declaração. Sentiam uma enorme violência interior, e oscilavam entre uma apatia exterior, e uma vontade de partir tudo. Ambos pensaram no suicídio, mas foi só pensar. Ela pensou ir ao "Congresso Financeiro" da IURD, ele em assaltar um banco, mas foi só pensar. Será que os acomodados do poder acreditam que estes pensamentos não atravessam a cabeça de muita gente que nunca pensou tê-los? Desiludam-se, as coisas estão muito pior do que vem nos jornais.

Em dois anos tinham a vida estuporada, não acreditavam em nada. Tinham vergonha dos filhos, tinham vergonha dos pais, tinham vergonha dos vizinhos, tinham vergonha de si próprios. Não sabiam como iriam continuar a viver. Tinham perdido qualquer sonho, qualquer expectativa, qualquer esperança. Para a frente era só descer. E são muitos, mesmo muitos, quase todos. Experimentem passear a vossa riqueza, a vossa indiferença diante deles, sem polícias, sem barreiras de metal, e dizer "aguentam, aguentam!" aos "piegas"."

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