A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht

sexta-feira, junho 30, 2006


SERMÃO DE SANTO ANTÓNIO AOS PEIXES
(excerto)

(...) Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido.

E para que vejais como estes comidos na terra são os pequenos, e pelos mesmos modos com que vós comeis no mar, ouvi a Deus queixando-se deste pecado: Nonne cognoscent omnes, qui operantur iniquitatem, qui devorunt plebem meam, ut cibum panis? «Cuidais, diz Deus, que não há-de vir tempo em que conheçam e paguem o seu merecido aqueles que cometem a maldade?» E que maldade é esta, à qual Deus singularmente chama maldade, como se não houvera outra no Mundo? E quem são aqueles que a cometem? A maldade é comerem-se os homens uns aos outros, e os que a cometem são os maiores, que comem os pequenos: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.
Nestas palavras, pelo que vos toca, importa, peixes, que advirtais muito outras tantas cousas, quantas são as mesmas palavras. Diz Deus que comem os homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe: Plebem meam, porque a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem e os que menos avultam na república, estes são os comidos. E não só diz que os comem de qualquer modo, senão que os engolem e os devoram: Qui devorant. Porque os grandes que têm o mando das cidades e das províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos senão que devoram e engolem os povos inteiros: Qui devorant plebem meam. E de que modo os devoram e comem? Ut cibum panis: não como os outros comeres, senão como pão.

A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne, há dias de carne, e para o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.

Parece-vos bem isto, peixes? Representa-se-me que com o movimento das cabeças estais todos dizendo que não, e com olhardes uns para os outros, vos estais admirando e pasmando de que entre os homens haja tal injustiça e maldade! Pois isto mesmo é o que vós fazeis. Os maiores comeis os pequenos; e os muito grandes não só os comem um por um, senão os cardumes inteiros, e isto continuamente sem diferença de tempos, não só de dia, senão também de noite, às claras e às escuras, como também fazem os homens.

Se cuidais, porventura, que estas injustiças entre vós se toleram e passam sem castigo, enganais-vos. Assim como Deus as castiga nos homens, assim também por seu modo as castiga em vós. Os mais velhos, que me ouvis e estais presentes, bem vistes neste Estado, e quando menos ouviríeis murmurar aos passageiros nas canoas, e muito mais lamentar aos miseráveis remeiros delas, que os maiores que cá foram mandados, em vez de governar e aumentar o mesmo Estado, o destruíram; porque toda a fome que de lá traziam, a fartavam em comer e devorar os pequenos (...)

(Pe. António Vieira )

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* Victor Nogueira

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Eles são democratas
Amigos de Plutocratas
Com cidadania
De enguia
bem esguia !
Escorre-lhes dos dedos, dos lábios e da caneta ou do «computador»
Arrogância
Jactância!
Vestem bem e cheiram melhor
Para esconder o pior
perfume da sarjeta
Muitos vivem da gorjeta
Esquecidos que em pó se transformarão ,
acumulado num saco de ossos
em fossos, na fossa
Por isso não são dos nossos.
São sim democratas
Plutocratas
Aristocratas
Autocratas
Convencidos que são reis!
Mesmo em terra de cegos o «imperador» vai nú
Numa palavra sem palavra
Na família das piranhas
São PIRATAS

Victor Nogueira

quarta-feira, junho 28, 2006

A Escola Pública posta em causa?


Victor Nogueira

Um dia destes jornais garantiam que a «Emigração rende 5,8 milhões de euros» ao mesmo tempo que atiravam para o ar os custos «fabulosos» dos exames nacionais a decorrer nas escolas públicas.

Licenciados para o desemprego

Mas desconheço nem dou por parangonas sobre os lucros das universidades privadas que por benesse de Cavaco, então 1º Ministro, passaram a formar fornadas de licenciados de todo o corte e feito e quanto custaram essas fornadas aos bolsos particulares. Saíram do bolso, não como impostos para o Estado com funções Sociais, mas directamente para a carteira dos «donos» das privadas.

Os jornais falam em dezenas de milhares de licenciados crescentemente no desemprego, mas nada dizem sobre que universidades os licenciaram para o desemprego nem sobre os cursos «desqualificados» nem sobre a qualificação pedagógica e científica dos respectivos corpos docentes. Nem dizem qual o peso das privadas nisto tudo.

Mas a saga contra a escola pública continua. Os professores faltosos, malandros, vão trabalhar mais em Junho e os outros, assíduos, vão folgar. «Há jáx» quem no PS, como Narciso e Companhia, diga que o PS e Sócrates são uma comissão liquidatária, que até tira espaço de manobra «oposicional» ao PSD, segundo a inefável e cavaquista «dama de ferro» portuguesa, de sua graça Ferreira Leite. Não será possível «emigrar» toda esta gente para que nunca mais voltem?

A Voz de Deus …

Mas não, que este bom povo ou vota PS, ou vota PSD, ou na volta não vota «porque são todos iguais» e a voz do Povo é a Voz de Deus. Mas, parafraseando o «nosso» Bento Papa, onde estava Deus no momento do voto? Sim, que o Povo e a Igreja não têm culpa, a culpa foi, segundo o Santo Padre, do bando de criminosos que abancou à mesa do Poder, com h. E quem se lixa é o espertalhão do mexilhão, a quem não fazem o ninho atrás da orelha, protegida de injecções letais. É dos livros, herança salazarenta!

… e os objectivos da Governação

A actual ofensiva contra as funções sociais do Estado, como a da Escola Pública, insere-se nas orientações saídas da Cimeira de Lisboa em 2000 e que tem, como uma das suas principais conclusões, colocar a educação e o ensino sob a alçada do grande capital europeu. A Escola Pública tem objectivos constitucionalmente definidos, entre os quais se situam a educação para a cidadania, a democracia e o respeito pela multiculturalidade. Isto para não falar na luta contra a perpetuação das marcas de classe, favoráveis a quem domina e dita a lei.

A Escola Pública e os professores enquanto professores não são responsáveis pelo aumento do desemprego, pela precariedade no trabalho, pela desertificação do interior, pela criação de guetos culturais nas grandes cidades e suas periferias. As principais causas para o insucesso escolar e o abandono precoce da escola, radicam, em primeiro lugar, nas condições socio-económicas da maioria das famílias portuguesas e que esta é matéria da inteira responsabilidade dos sucessivos governos do PS/PSD/CDS, a cuja família pertence José Sócrates. Que faz o Governo para aumentar a capacidade de expressão das crianças e dos jovens em português, condição essencial para o sucesso da aprendizagem e do conhecimento?

Escondida por detrás de cortinas de fumo e de poeira, o que o Governo quer com as alterações à carreira docente é a perca dum conjunto de direitos e regalias, que foram conseguidas ao longo dos anos, em processos negociais difíceis, direitos conquistados com muita determinação e luta por parte dos docentes, organizados em torno dos seus sindicatos. Direitos que contribuem para a sua estabilidade de emprego e profissional, factor essencial para a promoção da qualidade da Educação e do Ensino. Que não se consegue criando «quotas» de avaliação, precarizando os vínculos de trabalho, não criando condições para a formação permanente. Como se o ser professor fosse apenas despejar matéria ou tapar borlas e como se não fosse influente a relação recíproca professor/aluno. Ou como se não fossem necessários espaço e tempo adequados para a sua contínua formação pedagógica, científica e de conhecimentos.

Hipocrisia Farisaica

Questiona-se a existência de Sindicatos, porque a união faz a força, mas não se questiona a existência de Associações Patronais ou Empresariais. «Escandalizada», a senhora ministra «indigna-se» com os professores a exercer funções sindicais a tempo inteiro nos sindicatos. Como se não fossem estes e respectivos associados que lhes pagassem o ordenado a partir do 4º dia de falta. Como se não bastassem as limitações à actividade sindical introduzidas pelo Código do Trabalho patronal, criado por Bagão com o extremoso apoio de PS/PSD/CDS!

E já agora, quantas horas semanais de docência têm os professores do ensino superior? E quantos acumulam cátedras em várias escolas? E quanto tempo lhes fica para o estudo e para a investigação?

Alternativa?

A alternativa a esta ofensiva é a criação/construção duma escola que dignifique e estimule os docentes, condição para a melhoria da qualidade educativa. Numa escola e num sistema de ensino onde se procure combater as desigualdades económicas e sociais, dando aos alunos, a todos os alunos, iguais oportunidades e os apoios necessários para que tenham sucesso escolar e educativo.

Porque o dinheiro não é a única medida da vida. Ao contrário das parangonas do «popular» correio matutino que sem vergonha afirma que «Emigração rende 5,8 milhões de euros». Mero exercício de contabilidade de vão de escada, de «rendas» e «custos», de «apertos» e «solturas». Tal como no tempo do antigamente, em que os dinheiros da Emigração ajudavam a equilibrar as contas públicas e a sustentar a guerra colonial enquanto Portugal continuava na cauda da Europa, em benefício de meia dúzia de Grandes Famílias. Mas há outro caminho, aberto em Abril de 1974. Que a Constituição ainda consagra, apesar de desfigurada. O caminho da Democracia a todos os níveis, da Igualdade, da Solidariedade e do Futuro.

VN

sexta-feira, junho 23, 2006

DAS KAPITAL E O MANIFESTO COMUNISTA - Victor Nogueira



O quarto Estado - Volpedo




* Victor Nogueira

DAS KAPITAL E O MANIFESTO COMUNISTA


Era um homem
Era um livro
----bembelo
Era o livro com paredes de vidro
Era o Partido
Quando falavam ou agiam
--------não eram eles
--------era o Partido
--------contido!

Foram Marx e Engels
-------Estaline após Lenine
Era o tempo da revolta
-------do fascismo e da guerra
Era o tempo da Revolução
----o tempo escasso
-------------de Abril em Maio
----o tempo da alegria e do sonho
-------------do mundo novo a construir.
A esperança era um canto na cidade aberta e
o futuro começava ali numa criança a sorrir
---------ao virar da esquina
---------ao alcance da nossa mão
O riso enchia a praça e tão leve o ar! ...

Era o tempo dos slogans
-------------da liberdade da fraternidade da justiça e
-------------da paz
Havia é certo
-------Maio de 68 e o conflito sino-soviético
-------o Chile e o Vietname
-------e o despertar das colónias sob novas cadeias
E também havia
-------a Universidade em 69
-------a Hungria e a Checoslováquia
-------a Polónia e o Afeganistão
E vieram alguns outros
-------Khruchev e Brejnev
-------e também Gorbatchev
Havia é certo, lá longe ...
--------------as cortinas
--------------de ferro ou de bambú
Havia barreiras e fronteiras
------no tempo da escuridão
------da luta pela unidade na Revolução
Havia paredes
-------de vidro transparente ou translúcido
-------frágil como o cristal ou
-------forte se aramado ou martelado
-------espelho na reflexão

Era um homem
Era um livro
E eles não sabiam
que era o tempo da Revolução.
E os homens ficaram
E os homens partiram
E eles não souberam
------estender a sua mão
------esquecidos da Revolução
------na noite da reacção
E fecharam-se as portas
E cerraram-se as janelas
e eles dividiram-se na maré da inflexão
-------e não souberam camaradas
-------------dar a sua mão
-------esquecendo que a revolução
-------começa com o nosso irmão
E levantaram paredões e lançaram ao chão
-------o camarada e amigo que tinha outra razão
-------porque tinham em si o que pretendiam
---------------construir ou destruir
E falavam em coisas belas
--falavam da liberdade da fraternidade
-----------da justiça e da paz
-----------para outra criação
Eram homens e mulheres
------alguns assassinados
que não queriam a morte
nem a espoliação ou humilhação
E passavam
--passavam sempre
--azafamados ou com lentidão
--simples ou cheios de razão
--com as virtudes e defeitos
--do lugar e tempo em que estão
Uns e Umas com delicadeza, como é óbvio
--e outros com distracção ou brutidão
--a franqueza do clarão na escuridão
--esclarecido ou não

Era um homem
----uma mulher
Era um livro
----partido
----porque não souberam vencer a solidão e
-------------------------- construir outra fabricação
Eram só homens
Eram só mulheres
Era só um livro
bimbelo
se não houvesse
-------em gestação
-------outra reflexão!
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Até amanhã....... camarada...... ou não
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Setúbal. 1989.03.21

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quarta-feira, junho 14, 2006

DOIS MOMENTOS, DOIS RETRATOS

DOIS MOMENTOS, DOIS RETRATOS

1 . - Uma "manife" em Évora, num verão quente, nos idos de 1974

Ontem, no comício do PC, ali no Rossio de S.Brás, o Álvaro Cunhal falou na independência dos povos das colónias. (...) Ainda antes do Álvaro Cunhal falar o palco foi abaixo por duas vezes. Uma multidão imensa concentrava se em redor do palco, junto ao Monte Alentejano, agitando se inúmeras bandeiras vermelhas do PC. Em uníssono, a multidão repetia as palavras de ordem, de punho erguido.
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Detecto, junto a mim, um grupo que vai comentando ao sabor das intervenções. Quando se falam nas torturas sofridas pelo Cunhal e outro comunista, uma mulher ao meu lado diz me: "Coitadinho! Bandidos!" E a multidão grita: "Morte à PIDE!". Dois delegados dos Sindicatos Agrícolas (Évora e Beja) enumeram as quebras dos contratos colectivos de trabalho e o nome dos latifundiários. A multidão grita: "Morte aos cães!" "A terra a quem a trabalha!".
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Ao meu lado, algumas mulheres dizem: "É assim mesmo!" e "Essa sou eu!", quando se fala em ranchos despedidos. O Álvaro Cunhal cita as lutas revolucionárias dos trabalhadores alentejanos e a "palha" que os latifundiários teriam mandado dar aos trabalhadores que imploravam comida. E a revolta; que enquanto houvesse ovelhas, galinhas e porcos não comiam palha os trabalhadores!
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O Partido faz a sua campanha e no palco estão pessoas que já conheço de há muito. Por detrás delas, enormes, em fundo vermelho, as efígies de Marx, Engels e Lenine. A brancura de Évora é agora quebrada por cartazes do PC. Marx, Engels e Lenine enchem as ruas, conjuntamente com cartazes com a foice e o martelo. (1974.07.28)
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2. - Passa Camarada
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Na Voz do Operário ao chegar à porta para o pátio olhei por cima do ombro e vi o Álvaro e o seu guarda-costas e disse-lhe naturalmente: «Passa, camarada» ao que ele retorquiu " Passa tu, camarada, que chegaste primeiro» E assim ficámos lado a lado no pátio, numa lenta fila para o almoço, enquanto as pessoas vinham cumprimentá-lo ou apresentá-lo aos filhos de colo ou não.
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Foi uma hora divertida e tenho pena de não ter fixado por escrito as conversas, as impressões já desvanecidas e, sobretudo, os diálogos bem humorados com Dias Lourenço sobre as peripécias em torno das fugas de Peniche.
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