A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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terça-feira, abril 24, 2007


MARGEM SUL ( Canção Patuleia )

Letra: Urbano Tavares Rodrigues
Música: Adriano Correia de Oliveira

Ó Alentejo dos pobres
Reino da desolação
Não sirvas quem te despreza
É tua a tua nação

Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas de angústia em botão
Dor cerrada em Baleizão

Ó margem esquerda de verão
Mais quente de Portugal
Margem esquerda deste amor
Tanto de fome e de sal

A foice dos teus ceifeiros
trago no peito gravada
Ó minha terra morena
Como bandeira sonhada

sexta-feira, abril 06, 2007



Memória de Adriano

Nas tuas mãos tomaste uma guitarra
copo de vinho de alegria sã
sangria do suor e de cigarra
que à noite canta a festa da manhã.

Foste sempre o cantor que não se agarra
o que à terra chamou amante e irmã
mas também português que investe e marra
voz de alaúde e rosto de maçã.

O teu coração de ouro veio do Douro
num barco de vindimas de cantigas
tão generosas como a liberdade.

Resta de ti a ilha dum tesouro
a jóia com as pedras mais antigas
não é saudade, não! É amizade.

Ary dos Santos

(…)
O corpo grande a alma de menino
Trazia no olhar aquele assombro
De quem queria caber e não cabia.
Os pés fora do berço e do destino
Pediu uma cerveja e poesia.
E foi-se embora de viola ao ombro.
In “Adriano”,

soneto de Manuel Alegre

Ary dos Santos inicia-se activamente na vida política em 1969, ano que considerou decisivo. É então que o poeta se integra na campanha da CDE e se filia, mais tarde, no PCP.

Foi principalmente através da sua poesia que contribuiu para a política nacional, numa altura em que a livre expressão havia sido anulada pela ditadura salazarista e em que urgia gritar pela liberdade, embora esse grito fosse, na maior parte das vezes, calado pelo regime.

Esta participação activa na política traduziu-se numa intervenção entusiasta e apaixonada (sendo estes dois predicados que melhor classificavam o poeta) nas sessões de poesia do então rotulado "canto livre perseguido".

Já em 1973, concretamente a 29 de Março, Ary dos Santos, assim como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire e José Jorge Letria, participam no I Encontro da Canção Portuguesa, no Coliseu dos Recreios de Lisboa. Este evento foi rodeado de forte aparato policial, até porque a poesia de todos estes autores, sendo de cariz interventivo, constituía uma forte arma contra o regime vigente, na medida em que o denunciava em alguns aspectos.


I Encontro da Canção Portuguesa no Coliseu dos Recreios. In CAPELO, Rui G. e OUTROS. -História de Portugal em Datas. Lisboa, Porto Editora, 1994.


quinta-feira, abril 05, 2007


Adriano Correia de Oliveira nasceu há 65 anos
Com a esperança na voz


Adriano Correia de Oliveira faria, segunda-feira, 65 anos. Nascido no Porto a 9 de Abril de 1942, morreu cedo de mais: apenas 40 anos depois, em Avintes, a mesma localidade que o viu crescer. Mas, se foi breve demais esta vida, não foi vivida em vão.

Em Coimbra, para onde foi estudar Direito, em 1959, deparou-se com uma intensa actividade estudantil e cultural. Ainda «caloiro», iniciou-se no teatro e na música. Com grande sensibilidade para a poesia e para a música popular e dotado de um timbre de voz único e de uma emoção intensa, que colocava em todos os temas que interpretava, iniciou uma carreira musical própria, juntamente com alguns dos compositores e músicos que o acompanhariam durante toda a sua vida. Em 1960, grava o seu primeiro disco, com o título Noite de Coimbra.

É também em Coimbra que toma contacto com o forte movimento antifascista estudantil, ao qual adere desde a primeira hora. Também em Coimbra, junta-se ao PCP, o seu partido de sempre e para sempre. Na sua música, da sua extrema emotividade, está sempre presente a sua dedicação aos trabalhadores, ao povo, aos ideais da liberdade, da democracia, do socialismo.

Entre 1960 e 1980, grava mais de noventa temas, que constituíram aquela que é uma das mais ricas obras musicais do século XX português. Depois do primeiro disco, grava Balada do Estudante (1961); Fados de Coimbra (1961); Fados de Coimbra (1962); Trova do Vento que Passa (1962); Lira (1964); Menina dos Olhos Tristes (1964); Adriano Correia de Oliveira (1967); O Canto e as Armas (1969); Cantaremos (1970); Gente de Aqui e de Agora (1971); A Vila de Alvito (1974); Que Nunca Mais (1975); Para Rosalia (1976); Notícias de Abril (1978); Cantigas Portuguesas (1980) e, editado a título póstumo, Memória de Adriano (1983).

Antes e depois do 25 de Abril percorre o País e o mundo com a sua voz, carregada de esperança, em espectáculos musicais ou em sessões e comícios do seu Partido. Muitas das vezes sem ganhar nenhum dinheiro com isso. Morreu em Avintes, em Outubro de 1982. Tinha 40 anos.
Em seguida, publicamos três textos, da autoria de José Sucena, sobre três vertentes da vida de Adriano Correia de Oliveira para lá da música: o Adriano amigo, filho, militante. Um olhar, por quem o conheceu a fundo.

O Partido

A quinta do Engenheiro Flávio Martins, na Arrancada, ali perto de Águeda, foi durante muitos anos lugar de encontro de muitos comunistas e de outros opositores ao regime fascista.
Homem do Partido, desde novo dividia a sua vida entre o Porto e Águeda conspirando, promovendo reuniões para discutir acções e iniciativas da «oposição» ou meros encontros onde se discutia política e se convivia.

Exímio guitarrista e compositor inspirado, o António Portugal, casado em Águeda, conhecedor desta disponibilidade e apreciador, sem fraquejar, dos excelentes vinhos, tintos e brancos, do Engenheiro Flávio, trouxe à Arrancada o Adriano. Corria o ano de 1962 e desenvolvia-se uma intensa luta na Academia de Coimbra contra a ditadura.

Chegado a Coimbra para frequentar o primeiro ano (1959/60) da Faculdade de Direito, rapidamente a voz límpida e forte e ao mesmo tempo meiga do Adriano se impôs, tendo cantado e gravado fados tradicionais de Coimbra de autores como António Menano ou Luís Goes.
Este convívio musical e a luta em que a Academia estava envolvida, permitiu ao Adriano tomar contacto com uma realidade que, até ali, lhe tinha passado um pouco de lado.

Leu, ouviu, discutiu, conheceu e logo se tornou militante antifascista e, de seguida, aderiu ao Partido.

Com forte implantação na Academia, o Partido tinha entre os seus militantes e apoiantes na luta que travava pela liberdade e pela autonomia das universidades vários poetas que, inspirados pela ideologia libertadora e revolucionária que então os moldava como pessoas, faziam dos seus versos armas de luta e de resistência.

Por razões políticas, mas também de sensibilidade emergente e estéticas, o Adriano abandona os fados tradicionais de Coimbra e abre-se para as canções de intervenção.

Canta pela liberdade contra a guerra colonial. Canta pela terra e pela paz. Assume-se como um lutador, um militante contra o fascismo.

Rapidamente se torna conhecido entre os comunistas e outros antifascistas que o chamam para cantar em tudo o que são iniciativas contra a ditadura. Percorre o País com coragem, determinação e total disponibilidade.

Canta em associações culturais e recreativas, em pequenas ou grandes sessões de propaganda política da CDE – Comissão Democrática Eleitoral, aquando das eleições de 1969, está presente nos Congressos Republicanos de 1969 e 1973, vai a sessões de campanha das listas apoiadas pelo Partido nas eleições para as associações académicas, ficando célebre a sua actuação, com o José Afonso, em 1969 na Faculdade de Medicina que acabou com uma violenta entrada da polícia; é visita regular da então chamada Representação Comercial de Cuba de cuja Revolução é apoiante incondicional e que acompanha passo e passo com a leitura do Granma e com a audição dos discursos de Fidel Castro que lhe chegavam em discos de vinil.

Pôs a sua casa à disposição do Partido onde se fariam várias reuniões de camaradas clandestinos, alguns dos quais lá estiveram por curtos períodos escondidos da PIDE. De entre eles, um pelo menos, disso se esqueceu quando, já céptico, não prestou a ajuda de que o Adriano precisava.
Chegada a liberdade, cantou com o seu Partido, o Partido Comunista Português, em tudo o que era sítio, com condições e sem condições, em pavilhões e ao ar livre, em cidades, vilas e aldeias, para multidões ou para poucas pessoas em que sobressai, entre algumas outras, uma sessão da campanha eleitoral de 1976 numa aldeia do concelho de Viseu, em que cantou em cima de um carro de bois, ao ar livre e sem instalação sonora, para um reduzido número de pessoas que o receberam de forma hostil, mas que soube acalmar e criar as condições para que o cabeça de lista pudesse intervir.

Homem de partido, militante incansável e de uma disponibilidade total, forte de convicções, afável e recto, o Adriano voltou a passar por Águeda, num sábado de manhã, a caminho do Barreiro onde foi cantar numa iniciativa do Partido. No sábado seguinte, 16 de Outubro de 1982, partiu. Mas ficou connosco.

in Avante - 2007-04-05

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Fados do Tempo da Outra Senhora (10) - Pedro Soldado (Guerra Colonial)


Fados do tempo da outra senhora (10)


Pedro soldado lyrics - Manuel Alegre
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Já lá vai Pedro soldado
Num barco da nossa armada
E leva o nome bordado
Num saco cheio de nada
Triste vai Pedro soldado
Branca rola não faz ninho
Nas agulhas do pinheiro
Não é Pedro marinheiro
Nem o mar é seu caminho
Nem anda a branca gaivota
Pescando peixes em terra
Nem é de Pedro essa roda
Dos barcos que vão à guerra
Onde não anda ceifeiro
Já o campo se faz verde
E em cada hora se perde
Cada hora que demora
Pedro no mar navegando
Não é Pedro pescador
Nem no mar vindimador
Nem soldado vindimando
Verde vinha vindimada
Triste vai Pedro soldado


Intérprete: Adriano Correia de Oliveira
Música: Adriano Correia de Oliveira
Letra: Manuel Alegre


Adriano Maria Correia Gomes de Oliveira nasceu em Avintes, em 9 de Abril de 1942, no seio de uma família tradicionalista católica. Tirou o curso do liceu no Porto. Em Avintes iniciou-se no teatro amador e foi co-fundador da União Académica de Avintes. Em 1959 rumou a Coimbra, onde estudou Direito. Foi solista no Orfeon Académico de Coimbra [1] e fez parte do Grupo Universitário de Danças e Cantares e do Círculo de Iniciação Teatral da Académica de Coimbra. Tocou guitarra no Conjunto Ligeiro da Tuna Académica. No ano seguinte editou o primeiro EP acompanhado por António Portugal e Rui Pato. Em 1963 saiu o primeiro disco de vinil "Fados de Coimbra" que continha Trova do vento que passa, essa balada fundamental da sua carreira, “, com poema de Manuel Alegre consequência da sua resistência ao regime Salazarista, e que as suas movimentações levaram a gravar, foi o hino do movimento estudantil.
Além disso Adriano Correia de Oliveira tornou-se militante do PCP no início da década de 60.Em 1962, participou nas greves académicas e concorreu às eleições da Associação Académica, através da lista do Movimento de Unidade Democrática (MUD).
Em 1967 gravou o vinil "Adriano Correia de Oliveira" que entre outras canções tem Canção com lágrimas.
Quando lhe faltava uma cadeira para terminar o Curso de Direito, Adriano trocou Coimbra por Lisboa e trabalhou no Gabinete de Imprensa da Feira Industrial de Lisboa (FIL) e foi produtor da Editora Orfeu. Em 1969 editou "O Canto e as Armas" tendo todas as canções poesia de Manuel Alegre. Nesse mesmo ano ganhou o Prémio Pozal Domingues. No ano seguinte sai o disco de vinil "Cantaremos" e em 1971 "Gente d'Aqui e de Agora", que marca o primeiro arranjo, como maestro, de José Calvário, que tinha vinte anos. José Niza foi o principal compositor neste disco que precedeu um silêncio de quatro anos. É que Adriano recusou-se a enviar os textos à Censura.
Em 1975 lançou "Que Nunca Mais", com direcção musical de Fausto e textos de Manuel da Fonseca. Este vinil levou a revista inglesa Music Week a elegê-lo como "Artista do Ano".
Fundou a Cooperativa Cantabril e publicou o seu último álbum, "Cantigas Portuguesas", em 1980. No ano seguinte, numa altura em que a sua saúde já se encontrava degradada rompeu com a direcção da Cantabril e ingressou na Cooperativa Era Nova. Em 1982, com quarenta anos, num sábado, dia 16 de Outubro, morreu em Avintes, vitimado por uma hemorragia esofágica.
Foi um músico português e um dos mais importantes intérpretes do fado de Coimbra. Fez parte da geração de compositores e cantores de cariz político, que foram usadas para lutar contra o Estado Novo e que ficou conhecida como música de intervenção.

In Wikipédia