A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
Mostrar mensagens com a etiqueta The New York Times. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta The New York Times. Mostrar todas as mensagens

sábado, agosto 13, 2011

Portugal e a sua DÍVIDA no New York Times por Robert M. Fishma



por Maria Clara Roque Esteves a Sexta-feira, 12 de Agosto de 2011 às 23:20

Notícia de última hora em New York
Opinião no NY Times: «Agências de rating armadilharam Portugal»
Por Redacção
.
Opinião publicada no New York Times por Robert M. Fishman, professor de Sociologia da Universidade de Notre Dame. Caso português é aviso para muitos outros países.
.
A culpa do pedido de ajuda financeiro feito por Portugal é das agência de rating e da falta de regulação sobre a forma como as mesmas avaliam a fiabilidade da economia dos países. A opinião é de Robert M. Fishman, professor de Sociologia da Universidade de Notre Dame, de Indiana, Estados Unidos, e escritor galardoado - venceu a Menção Honrosa para Melhor Livro de Políticas Sociólogas em 2005, pelo seu livro Democracy's Voices.
.
 Por Robert M. Fishman, professor de Sociologia da Universidade de Notre Dame
.
O desnecessário resgate de Portugal
.
«O pedido de ajuda de Portugal para as suas dívidas junto do Fundo Monetário Internacional e da União Europeia na última semana deve servir de aviso para todas as democracias.
.
As crises que começaram com os resgates da Grécia e Irlanda no ano passado tiveram uma feia reviravolta. Contudo, este terceiro pedido de resgate não é realmente sobre dívida. Portugal teve uma forte performance económica nos anos 90 e estava a conseguir a sua recuperação da recessão global melhor do que muitos outros países na Europa, mas viu-se sob injusta e arbitrária pressão dos correctores, especuladores e analistas de rating de crédito que, por visão curta ou razões ideológicas, conseguiram forma de afastar uma administração democraticamente eleita e potencialmente amarrar as mãos da próxima.
.
Se deixadas sem regulação, estas forças de mercado ameaçam eclipsar a capacidade dos governos democráticos — talvez até da América — para fazerem as suas próprias escolhas sobre impostos e despesas.
.
As dificuldades de Portugal eram admitidamente semelhantes às da Grécia e Irlanda: para os três países, a adopção do Euro há uma década significou que tiveram de ceder o controlo das suas políticas monetárias, e um repentino incremento dos níveis de risco que regulam os mercados de obrigações atribuíram às suas dívidas soberanas foi o gatilho imediato para os pedidos de resgate.
.
Mas na Grécia e Irlanda o veredicto dos mercados reflectiu profundos e facilmente identificáveis problemas económicos. A crise portuguesa é bastante diferente; não houve uma genuína crise subjacente. As instituições e políticas económicas em Portugal que alguns analistas financeiros vêem como potencialmente desesperadas tinham alcançado notável sucesso antes desta nação ibérica de dez milhões ser sujeita às sucessivas ondas de ataque dos mercados de obrigações.
.
O contágio dos mercados e redução de notação, que começaram quando a magnitude das dificuldades da Grécia emergiu no início de 2010, transformaram-se numa profecia que se cumpriu a si própria: ao aumentar os custos da dívida portuguesa para níveis insustentáveis, as agências de rating forçaram Portugal a procurar o resgate. O resgate deu poder aos ‘salvadores’ de Portugal a pressionarem por impopulares políticas de austeridade que afectaram empréstimos de estudantes, pensões de reforma, subsídios sociais e salários públicos de todos os tipos.
.
A crise não é culpa do que Portugal fez. A sua dívida acumulada está bem abaixo do nível de nações como a Itália que não foi sujeita a tão devastadoras avaliações. O seu défice orçamental é mais baixo do que muitos outros países europeus e estava a diminuir rapidamente graças aos esforços governamentais.
.
E quanto às perspectivas de crescimento do país, que os analistas convencionalmente assumem serem sombrias? No primeiro quarto de 2010, antes dos mercados empurrarem as taxas de juro nas obrigações portuguesas para os limites, o país tinha uma das melhores taxas de recuperação económica na União Europeia. Numa série de reformas — encomendas industriais, inovação empresarial, realização educacional, e crescimento das exportações — Portugal igualou ou mesmo ultrapassou os seus vizinhos do Sul e até da Europa Ocidental.
.
Por que razão, então, foi tão desclassificada a dívida portuguesa e a sua economia empurrada para o limite? Há duas possíveis explicações. Uma é o cepticismo ideológico em torno do seu modelo económico misto, que suportava empréstimos às pequenas empresas, em conjunto com algumas grandes companhias públicas e um robusto estado-providência. Os mercados fundamentalistas detestam intervenções de estilo keynesiano em áreas da política interna portuguesa — que evitavam uma bolha e preservavam a disponibilização de rendas urbanas baixas — quanto a assistência aos pobres.
.
A falta de perspectiva histórica é outra explicação. O nível de vida dos portugueses cresceu muito nos 25 anos que se seguiram à revolução democrática de Abril de 1974. Nos anos 90 a produtividade laboral cresceu rapidamente, as empresas privadas aprofundaram o investimento com a ajuda do governo, e partidos tanto de centro-direita como de centro-esquerda apoiaram o aumento da despesa social. Por altura do fim do século o país tinha uma das taxas de desemprego mais baixas da Europa.
.
Em justiça, o optimismo dos anos 90 deu origem a desequilíbrios financeiros e ao gasto excessivo; os cépticos quanto à saúde da economia portuguesa apontam para a sua relativa estagnação entre 2000 e 2006. Apesar disso, no início da crise financeira global em 2007, a economia estava de novo a crescer e o desemprego a descer. A recessão acabou com essa recuperação, mas o crescimento retomou-se no segundo quarto de 2009, mais cedo do que noutros países.
.
Não se podem culpar as políticas domésticas. O primeiro-ministro José Sócrates e o governo socialista mexeram-se para cortar no défice enquanto promoviam a competitividade e controlavam a despesa pública; a oposição insistia que podia fazer melhor e forçou o senhor Sócrates a demitir-se este mês, preparando o palco para novas eleições em Junho. Isto é normal em política, não um sinal de confusão ou incompetência como alguns críticos de Portugal acenaram.
.
Podia a Europa ter evitado este resgate? O Banco Central Europeu podia ter comprado de forma agressiva as obrigações de Portugal e protegido o país do pânico mais recente. Regulação da União Europeia e dos Estados Unidos sobre o processo utilizado pelas agências de rating para avaliar a fiabilidade de crédito da dívida de um país é essencial. Distorcendo as percepções dos mercados sobre a estabilidade portuguesa, as agências de rating — cujo papel em fomentar a crise hipotecária nos Estados Unidos está amplamente documentado — armadilharam tanto a sua recuperação económica como a sua liberdade política.
.
No destino de Portugal reside um claro aviso para os outros países, os Estados Unidos incluídos. A revolução portuguesa de 1974 inaugurou uma onda de democratização que varreu o globo. É bem possível que 2011 possa marcar o começo de uma onda de invasão da democracia por mercados desregulados, com Espanha, Itália ou Bélgica como próximas vítimas potenciais.
.
Os americanos não iriam gostar muito se instituições internacionais tentassem dizer a Nova Iorque, ou a outra qualquer cidade americana, para abandonar as suas leis de controlo de rendas. Mas é este precisamente o tipo de interferência que agora acontece em Portugal — tal como aconteceu na Grécia ou Irlanda, apesar desses países terem maiores responsabilidades no seu destino.Apenas governos eleitos e os seus líderes podem assegurar que esta crise não acaba por minar os processos democráticos. Até agora parecem ter deixado tudo nas mãos da imprevisibilidade dos mercados de obrigações e das agências de rating.»

quarta-feira, agosto 18, 2010

Ascensão da China é destaque no New York Times


Economia

Vermelho - 16 de Agosto de 2010 - 18h56

O jornal estadunidense New York Times destaca nesta segunda (16) que, depois de três décadas de crescimento espetacular, a China superou o Japão e se transformou na segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, com o PIB avaliado em dólar.

O fato não constitui propriamente uma novidade. O Banco Central chinês já anunciara no dia 30 de julho que o valor da produção chinesa em dólar superou a japonesa. Nesta segunda (16), a subida no ranking do gigante asiático foi confirmada pelo anúncio, em Tóquio, de que a economia japonesa cresceu 0,4% no segundo trimestre, ficando em US$ 1,28 trilhão, pouco abaixo do US$ 1,33 trilhão registrado pela China no mesmo período.

Eclipsando o Japão


O Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos ficou em torno de US$ 14 trilhões em 2009. O crescimento do Japão ficou abaixo do estimado pelo mercado. O fato de desbancar o Japão -- depois de ter passado Alemanha, França e Reino Unido -- reforça o poder do crescimento chinês e a perspectiva de que a China ultrapasse os EUA, tornando-se a maior economia do mundo num prazo histórico relativamente curto se as coisas continuarem evoluindo na mesma direção observada ao longo das últimas décadas.

“Isso tem um significado muito forte. Confirma o que vem acontecendo há uma década: que a China vem eclipsando o Japão na área econômica. Para todos na região da China, o país agora é o maior parceiro comercial, em lugar de EUA e Japão”, comentou Nicholas R. Lardy, economista do Instituto Peterson para Economia Internacional, em Washington.

Ainda em desenvolvimento


Para o Japão, cuja economia está estagnada há mais de uma década, os dados refletem o declínio do poder econômico e político. Segundo o Banco Mundial, o Japão deteve o posto de segunda maior economia do mundo em boa parte dos últimos 40 anos. E, na década de 1980, falou-se inclusive que o país ultrapassaria os EUA.

Os comunistas chineses, porém, enfatizam que, apesar do crescimento extraordinário, a China ainda deve ser considerada um país em desenvolvimento, predominante agrário e com uma renda per capita relativamente baixa (em torno de US$ 3.600).

De todo modo, a expansão da influência econômica da China no mundo, seja do ponto de vista comercial ou do peso crescente no ranking da exportação de capitais, é notória. “A China já é o principal fator a determinar o preço de virtualmente todas as principais commodities", diz Lardy.

Subestimação


Além disto, a dimensão real do PIB chinês é subestimada quando o critério é o dólar. A moeda estadunidense não fornece uma medida muito realista para o valor efetivo da produção realizada pelos trabalhadores e trabalhadoras chinesas, pois a diferença de políticas cambiais (a China não adota o câmbio flutuante e mantém as cotações de sua moeda, o yuan, sob estrito controle) distorce as relações de preços com os demais países e em especial com os norte-americanos.

Quando a produção é avaliada pela Paridade do Poder de Compra (PPC) as coisas mudam. O valor da produção chinesa é bem maior e o PIB per capita (produção total dividida pela população, que chegou a 6,5 mil dólares em 2008, segundo o FMI) é quatro vezes maior em PPC que em dólar. A PPC é uma medida mais realista porque exclui os efeitos de eventual valorização ou depreciação do câmbio e apura de forma mais confiável os preços relativos das mercadorias nos diferentes países.

Ascensão

De todo modo, o que respalda a ascensão da China e a ultrapassagem do Japão (mesmo em dólar) é o extraordinário crescimento da economia, que ocorre em franco contraste com o desempenho medíocre das três maiores potências capitalistas (EUA, Japão e Alemanha). No primeiro semestre deste ano, a produção chinesa cresceu 11,1% em comparação com o mesmo período do ano passado, alcançando o valor de 2,55 trilhões de dólares.

Desde 1978, quando foram introduzidas as reformas econômicas, o país vem registrando crescimento médio anual superior a 9,5%, enquanto os países capitalistas considerados mais industrializados patinam no pântano da estagnação, com taxas de crescimento em torno de 2% ao ano e elevado nível de desemprego.

Exportação de capitais

O crescimento da produção no interior do país também projetou a influência da economia chinesa para o resto do mundo, através do comércio exterior e da exportação de capitais, alavancada após a crise de 2008. Em 2009 a China passou a liderar o ranking das exportações globais, superando a Alemanha. Em 2007 já tinha ultrapassado os EUA, que declinaram para a terceira posição. A próspera nação asiática também está rivalizando com as potências ocidentais em outra frente de notória relevância no plano do poder econômico internacional: a exportação de capitais.

O Brasil, do qual a China se tornou a principal parceira comercial durante o ano passado, é um dos principais destinos dos investimentos chineses. Até o final deste ano, os chineses prometem investir cerca de 12 bilhões na economia nacional, o que levará o gigante asiático à condição de maior investidor estrangeiro no país, a julgar pelas previsões do mercado com base nos valores anunciados pelas empresas, que representam um crescimento de 14000% em relação aos 82 milhões de dólares investidos em 2009, segundo o Banco Central.

Repercussões geopolíticas

Combinado com o fraco desempenho das potências capitalistas, a ascensão da China configura o fenômeno que Lênin no passado denominou de desenvolvimento desigual das nações. A recessão iniciada em 2007 nos EUA e a crise da dívida na Europa agravaram o quadro de desigualdade, que objetivamente leva à decadência do chamado Ocidente e ao progressivo deslocamento do poder econômico global para o Oriente.

A exportação de capitais, lastreada pelas maiores reservas do mundo (de cerca de 2,5 trilhões de dólares), tende a transformar a China, doravante, em provedora de crédito e investimentos para as nações relativamente mais pobres, respaldando os movimentos políticos que contestam os modelos de desenvolvimento ditados pelas potências tradicionais (EUA, Japão e Europa) e as instituições da ordem imperialista remanescente do pós-guerra como o FMI e o Banco Mundial. 
.
A ascensão da China, cujo governo não capitulou ao neoliberalismo e reitera a defesa do socialismo com características chinesas (a economia socialista de mercado), realça a necessidade de uma nova ordem econômica e política internacional e, em particular, um novo sistema monetário em que o dólar já não gozará do status de moeda hegemônica.

Geopolítica


Este movimento da economia, que tem caráter objetivo, tem notáveis repercussões geopolíticas, pois ocorre num momento de crise da hegemonia econômica e política dos Estados Unidos e da ordem econômica mundial, em que também rola o drama da decadência (relativa) da Europa e do Japão. É a expressão do que alguns observadores chamam de deslocamento do poder econômico global do Ocidente para o Oriente (leia-se China).

A ascensão da China vem ao encontro do novo cenário político vivido por muitos países da América Latina e tende a contribuir com a luta por mudanças e o anseio de soberania, que passa, em primeiro plano, pela contestação do domínio imperialista exercido pelos EUA, a derrota do neoliberalismo e a afirmação de novos projetos de desenvolvimento, com soberania, democracia e valorização do trabalho.

Da redação, Umberto Martins, com agências
.
.
  • Eu ri do cara aí embaixo...

    17/08/2010 13h57 ...chamando a China de socialista. Um país que tem o maior número de novos bilionários por ano, e uma desigualdade de renda monstruosa, com os funcionários de fábricas que sustentam a indústria do país ganhando uma miséria. Se isso é socialismo, eu não sei porque vocês querem substituir o capitalismo...
    Filipe
    Fortaleza - CE
  • ascensão

    17/08/2010 9h27 Viva à Grande China Socialista!
    Alexandre Neves Rosendo da Silva
    São Paulo - SP
  • China

    16/08/2010 22h16 Em 1994, estavam prevendo que a CHina neste ano, ia ser a maior potencia mundial. Pois ultrapassaria os EUA. E também, a China está investinfo US$13 bilhões de dólares em energia renovável como a eólica. A maior indústrai de eólicos do mundo é da China. Na década de 60 quando a ex URSS enviou pesquisadores para desenvolver tecnologiacamente a China, pois a China começou a desenvolver bombas de hidrogÊnio, pois acarretou o conflito sino sovietico. E também, todos carros de luxos famosos, vai ser a China.
    Renato
    Itapeva - SP
  • ascensão da China...

    16/08/2010 21h59
    Bem vindo a chegada de novos tempos, sobretudo aquele que tras a mudança, quando não total derrocada do capitalismo, mas a transferência do eixo de decisões do ocidente pelo oriente (China), levando ao debacle do imperialismo do G-7,com a determinação dos povos da AL, África, Ásia na luta pela derrota do neoliberalismo e a afirmação de novos projetos de desenvolvimento, com soberania, democracia e valorização do trabalho. Isso, sem o ingênuo pensamento de que a materialidade do sistema se transfira totalmente às mãos dos trabalhadores, sem o que, a caminho,porém, utópico.
    fernandes
    São Luís de Montes Belos - GO
    .
    .

sábado, julho 10, 2010

A Terceira Depressão - Paul Krugman



02.Jul.10 :: Outros autores
PAUL 
KRUGMANSão cada vez mais, mais fortes e mais apreensivas as vozes dos epígonos do capitalismo que alertam para os perigos económicos e as graves consequências sociais das políticas impostas pelo grande capital na sua tentativa da recuperação capitalista da crise. Sabedores dos perigos sociais e políticos de uma recuperação à custa da classe trabalhadoras procuram a quadratura do círculo: uma inexistente posição intermédia entre a recuperação á custa da classe trabalhadora ou do grande capital monopolista.

.
Receio que estejamos nos estágios iniciais de uma terceira depressão. E o custo para a economia mundial será imenso
.
Recessões são comuns; depressões são raras. Pelo que sei, houve apenas duas eras qualificadas como «depressões» na ocasião: os anos de deflação e instabilidade que acompanharam o Pânico de 1873, e os anos de desemprego em massa, após a crise financeira de 1929-31.
.
Nem a Longa Depressão do século XIX nem a Grande Depressão, no século XX, registaram declínio contínuo. Pelo contrário, ambas tiveram períodos de crescimento. Mas esses períodos de melhoria jamais foram suficientes para desfazer os danos provocados pela depressão inicial e foram seguidos de recaídas.
.
Receio que estejamos nos estágios iniciais de uma terceira depressão. Que provavelmente vai se assemelhar mais à Longa Depressão do que a uma Grande Depressão mais severa. Mas o custo – para a economia mundial e, sobretudo, para as milhões de pessoas arruinadas pela falta de emprego – será imenso.
.
E essa terceira depressão tem a ver, principalmente, com o fracasso político. Em todo o mundo – e, mais recentemente, no desanimador encontro do G-20 – os governos mostram-se obcecados com a inflação quando a ameaça é a deflação, e insistem na necessidade de apertar o cinto, quando o problema de fato são os gastos inadequados.
.
Em 2008 e 2009, parecia que tínhamos aprendido com a história. Ao contrário dos seus predecessores, que elevavam as taxas de juro para enfrentar uma crise financeira, os atuais líderes do Federal Reserve e do Banco Central Europeu (BCE) cortaram os juros e partiram em apoio aos mercados de crédito. 
.
Ao contrário dos governos do passado, que tentaram equilibrar os orçamentos para combater uma economia em declínio, os governos hoje deixam os déficits crescerem. E melhores políticas ajudaram o mundo a evitar o colapso total: podemos dizer que a recessão causada pela crise acabou no Verão (no Hemisfério Norte) passado.
.
Mas os futuros historiadores vão nos dizer que esse não foi o fim da terceira depressão, da mesma maneira que a retoma econômica em 1933 não foi o fim da Grande Depressão. Afinal, o desemprego – especialmente a longo prazo – continua em níveis que seriam considerados catastróficos há alguns anos. E tanto os Estados Unidos como a Europa estão perto de cair na mesma armadilha deflacionária que atingiu o Japão. 
.
Diante desse quadro, você poderia esperar que os legisladores entendessem que não fizeram o suficiente para promover a recuperação. Mas não. Nos últimos meses observamos o ressurgimento da ortodoxia do equilíbrio orçamentário e da moeda forte. 
.
O ressurgimento dessas teses antiquadas é mais evidente na Europa. Mas, em termos práticos, os EUA não estão agindo muito melhor. O FED parece consciente dos riscos de deflação – mas o que propõe fazer é: nada. O governo Obama entende os perigos de uma austeridade fiscal prematura – mas, como republicanos e democratas conservadores não aprovam uma ajuda adicional aos governos estaduais, essa austeridade se impõe de qualquer maneira, com os cortes nos orçamentos estaduais e municipais.
.
Por que essa virada da política? Os radicais com frequência referem-se às dificuldades da Grécia e outros países na periferia da Europa para justificar seus atos. E é verdade que os investidores atacaram os governos com déficits incontroláveis. Mas não há evidência de que uma austeridade a curto prazo, ante uma economia deprimida, vai tranquilizar os investidores. 
.
Pelo contrário: a Grécia concordou com um plano de austeridade, mas viu seus riscos se ampliarem; a Irlanda estabeleceu cortes brutais dos gastos públicos e foi tratada pelos mercados como um país com risco maior que a Espanha, que até agora resiste em adotar medidas drásticas propugnadas pelos radicais.
.
É como se os mercados entendessem o que os legisladores não compreendem: que, embora a responsabilidade fiscal a longo prazo seja importante, cortar gastos no meio de uma depressão vai aprofundar essa depressão e abrir caminho para a deflação, o que é contraproducente. 
.
Portanto, não acho que as coisas tenham a ver de fato com a Grécia, ou com qualquer visão realista sobre o que priorizar: déficits ou empregos. Em vez disso, trata-se da vitória de teses conservadoras que não se baseiam numa análise racional e cujo principal dogma é que, nos tempos difíceis, é preciso impor sofrimento a outras pessoas para mostrar liderança.
.
E quem pagará o preço pelo triunfo dessas teses? A resposta: dezenas de milhões de desempregados, muitos deles sujeitos a ficar sem emprego por anos e outros que nunca mais voltarão a trabalhar. 
.
* Paul Krugman, economista galadoardo com o Prémio Nobel em 2008 é colaborador habitual do New York Times
.
Este texto em português, traduzido do New York Times, foi publicado no diário brasileiro Estado de S. Paulo
.
Tradução de Terezinha Martino
.
.
http://www.odiario.info/?p=1656
.
_____
.

Economia

Vermelho - 10 de Julho de 2010 - 14h02

Paul Krugman: Austeridade contraproducente

O blog de economia do WSJ traz um artigo interessante mostrando como a restrição dos benefícios aos desempregados pode na verdade acabar aumentando o déficit no longo prazo, ao fazer com que trabalhadores perto da idade de aposentadoria se vejam obrigados a recorrer a programas de aposentadoria por invalidez. Mas a questão vai muito além disto.

Paul Krugman

Há uma argumentação bastante razoável segundo a qual medidas de austeridade no contexto de uma economia em depressão equivalem, literalmente, a uma falsa poupança – no longo prazo, os problemas orçamentários são agravados.

Pessoas como eu têm hesitado em expor tal argumentação em voz alta, por medo de sermos tachados de versão esquerdista de Arthur Laffer – mas que se dane a cautela, vou explicar do que se trata.

Funciona mais ou menos assim. Imaginemos um corte nos gastos equivalente a 1% do PIB. Isso tem a aparência de uma redução no orçamento, certo? Mas se o fizermos no caso de uma economia que se depara com o limite inferior zero, de modo que o Fed se veja impossibilitado de compensar os efeitos sobre a demanda com juros mais baixos, o resultado será um encolhimento da economia. Usemos um multiplicador de 1,4; os números podem ser ajustados a gosto.

Sabemos que uma economia mais fraca significa uma arrecadação menor. Suponhamos que cada dólar somado ou subtraído ao PIB represente US$ 0,25 em arrecadação, uma estimativa conservadora. Então a austeridade fiscal reduz a arrecadação em 0,35% do PIB; a proporção realmente poupada é de apenas 0,65%.

O governo precisa captar estes fundos por meio de empréstimos; digamos que os juros reais sejam de 3% (no momento eles são muito mais baixos do que isto.) No longo prazo, o impacto da austeridade sobre a posição fiscal será uma redução de 0,0195% do PIB no pagamento dos juros reais.

Espere: e se houver efeitos negativos de longo prazo decorrentes de um declínio mais profundo na economia? O artigo do WSJ mostrou um exemplo: trabalhadores excluídos permanentemente da força de trabalho. Há também o efeito negativo de uma economia em depressão que incide sobre o investimento privado. Temos os talentos desperdiçados porque os jovens têm suas carreiras prejudicadas pelo resto da vida. E assim por diante. E aí é que está o problema: se a economia se mostrar mais fraca no longo prazo, isso significa uma arrecadação menor, o que anula a quantia poupada pela austeridade inicial.

Qual deve ser a dimensão destes efeitos negativos para que a austeridade seja transformada numa perda líquida para o equilíbrio orçamentário? Não precisa ser grande demais. No meu exemplo, a quantia poupada no pagamento de juros reais proporcionada por medidas de austeridade equivalentes a 1% do PIB é inferior a 0,2% do PIB; se a proporção do PIB convertida em arrecadação for de 25%, isto significa que uma redução adicional no PIB da ordem de 0,8% seria suficiente para anular os supostos benefícios fiscais. Não é nada difícil imaginar a ocorrência de algo do tipo.

Em resumo, é fácil perceber que implementar medidas de austeridade agora é uma má ideia, não apenas por causa do seu impacto sobre a economia e os desempregados; pode ser que isso fracasse até na tentativa de ajudar a equilibrar o orçamento.

É importante perceber que não estou dizendo que os gastos governamentais sempre valem a pena, e nem que poupar dinheiro seja necessariamente contraproducente. Os efeitos que analisamos condizem com uma situação de armadilha de liquidez. Mas é esta a situação em que nos encontramos.
.
.

Fechamento de Guantánamo deixa de ser prioridade do governo Obama


Aumenta no Congresso a resistência ao fechamento da prisão, e senadores veem poucos esforços do governo Obama para superá-la

The New York Times | 28/06/2010 16:17
.
Bloqueado por políticos da oposição e concentrado em outras prioridades, o governo Obama marginalizou seus esforços para fechar o centro de detenção localizado na Baía de Guantánamo, o que torna improvável que o presidente Barack Obama cumpra sua promessa de fechar a prisão antes do término de seu mandato, em 2013.
.
Quando a Casa Branca admitiu no ano passado que perderia o prazo inicial de janeiro de 2010 dado por Obama para o fechamento da prisão, também declarou que os prisioneiros acabariam sendo transferidos para uma penitenciária em Illinois. Mas os obstáculos para esse plano se acumularam no Congresso, e o governo está fazendo pouco para superá-los.
.
A Casa Branca insiste que ainda está determinada em fechar a prisão. O governo afirma que Guantánamo é um símbolo do antigo abuso de prisioneiros do mundo muçulmano, citando a opinião de militares de que seu funcionamento contínuo ajuda a impulsionar os terroristas.
.
Entrada da prisão no Campo Delta, na Baía de Guantánamo, Cuba 
(08/06/2010)
Foto: The New York Times
Entrada da prisão no Campo Delta, na Baía de Guantánamo, Cuba (08/06/2010)
Ainda assim, algumas autoridades de alto escalão dizem reservadamente que o governo tem feito sua parte, incluindo a identificação da prisão em Illinois - um centro de segurança máxima vazio localizado em Thomson, a 150 quilômetros a oeste de Chicago -, onde os presos poderiam ser detidos. Eles culpam o Congresso por não executar sua parte do plano. "O presidente não pode apenas acenar uma varinha mágica e dizer que Guantánamo será fechada", disse sob condição de anonimato um oficial graduado do governo.
.
A política de fechamento da prisão claramente piorou após a tentativa de atentado em um avião no dia 25 de dezembro e na Times Square em maio, bem como diante das críticas republicanas de que transferir os detidos para uma prisão nos Estados Unidos poria em perigo os americanos.
.
Quando Obama tomou posse, uma ligeira maioria apoiava o fechamento. De acordo com uma pesquisa realizada em março de 2010, 60% querem que ela permaneça aberta.
Várias autoridades do governo expressaram a esperança de que os ventos políticos mudem caso, por exemplo, líderes de alto escalão da Al-Qaeda sejam mortos ou se os legisladores se concentrarem no quão cara é a operação de uma prisão isolada.
.
Um estudo recente do Pentágono, obtido pelo The New York Times, mostra que os contribuintes gastaram mais de US$ 2 bilhões entre 2002 e 2009 com a prisão.
.
Autoridades do governo acreditam que os contribuintes poupariam cerca de US$ 180 milhões por ano em custos de operação se os prisioneiros de Guantánamo fossem transferidos para Thomson, que esperam que o Congresso permita que o Departamento de Justiça compre do Estado de Illinois, pelo menos para presos federais.
.
Em qualquer caso, disse um oficial graduado, mesmo se o governo concluir que nunca fechará a prisão, não poderá reconhecê-lo, pois ressuscitaria Guantánamo como a imagem dos EUA no mundo muçulmano. "Guantánamo é um símbolo negativo, mas isso é muito atenuado porque todos acreditam que estamos tentando fechar a prisão", disse. "Fechar Guantánamo é bom, mas lutar para fechar Guantánamo é OK. Admitir que não conseguimos seria pior."
.
.
* Por Charlie Savage
.
.
_____
.

Reforma em Guantánamo custa US$ 500 mi aos EUA

Pentágono moderniza antiga base com restaurantes, praças, quadras e até pista de kart

AFP | 07/06/2010 10:08
.
O Pentágono gastou pelo menos US$ 500 milhões em melhorias da base naval americana e sua prisão para supostos terroristas na Baía de Guantánamo, informou hoje o jornal "The Washington Post".
.
"Essa despesa transformou o que outrora foi uma base esquecida no Caribe em uma das instalações militares e prisões mais seguras do mundo", acrescenta o artigo. "E essa despesa não inclui os bônus por construção que, habitualmente, rondam os milhões de dólares".
.
Foto: Getty
Cerca de 200 pessoas ainda seguem presas em Guantánamo
.
Na entrada da base naval - localizada em um território cubano que os Estados Unidos alugaram - há um "elegante letreiro eletrônico sobre dois pilares de concreto. Em amarelo esmaltado sobre um fundo azul metálico há um mapa de Cuba 'a pérola das Antilhas', e em cima se lê a hora e a temperatura". "Bem-vindos a bordo", diz o luminoso.
.
Segundo o "Post" esse letreiro e outro menor perto do aeroporto custaram US$ 188 mil. Uma quadra de vôlei abandonada custou US$ 249 mil, uma pista para corridas de kart, que não é usada, custou US$ 296 mil, e outros US$ 3,5 milhões foram gastos em 27 pracinhas de jogos que frequentemente estão vazias.
.
"O Pentágono também gastou US$ 683 mil para renovar um café que vende salgados e cafés Starbucks, e US$ 773 mil para remodelar um edifício que abriga um restaurante KFC/Taco Bell", enumera a matéria.
.
O jornal esclareceu que nos US$ 500 milhões também não estão incluídos os custos anuais de operação da base e da prisão, de cerca de US$ 150 milhões.
.
"Soma-se a isto os rombos no orçamento secreto, tais como o Campo 7 que abriga os presos de 'alto valor', apelidado de Campo Platinad, e a fatura da base de 117 quilômetros quadrados facilmente se aproxima aos US$ 2 bilhões", disse o jornal.
.
O governo dos Estados Unidos começou a deter em janeiro de 1982 centenas de homens capturados em diferentes partes do mundo como supostos terroristas na base de Guantánamo.
.
O presidente Barack Obama, que tinha prometido fechar a prisão em seu primeiro ano de mandato, mas encontrou problemas para realocar alguns prisioneiros e julgar outros. Assim, permanecem em Guantánamo ao menos 200 presos.
.
.

domingo, junho 13, 2010

Hungria não quer ser comparada à Grécia

Mundo

Vermelho - 12 de Junho de 2010 - 19h26

O governo húngaro de centro-direita prometeu na segunda-feira que conteria seu déficit orçamentário e reduziria gastos, enquanto continuava a recuar de suas recentes sugestões de que o país estava em risco de uma crise em estilo grego e poderia decretar moratória sobre sua dívida pública.

"O que decidimos é que faremos todo o possível para seguir o caminho planejado quanto ao déficit", disse Mihaly Varga, chefe de gabinete do primeiro-ministro Viktor Orban, em Lovasbereny, um subúrbio na região sudoeste de Budapeste no qual o gabinete húngaro estava realizando uma reunião de emergência sobre a economia.

A Hungria está entre os países da Europa Oriental que mais sofreram com a crise financeira internacional. No final de 2008, foi forçada a solicitar US$ 25 bilhões em assistência urgente junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e à União Europeia.

O ministro da Economia, Gyorgy Matolcsy, disse em entrevista à rede de notícias norte-americana CNBC que o governo manteria uma meta de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) para o déficit orçamentário de 2010. Ele reconheceu que o governo, liderado pelo partido Fidesz, havia cometido uma série de gafes verbais nos últimos dias, e disse que "evidentemente a Hungria não é a Grécia". Varga disse que o governo estava debatendo a possibilidade de uma alíquota única de 15% a 20% para o imposto de renda pessoal. Outros funcionários do governo afirmaram que a possibilidade de um imposto sobre os bancos também está em debate. Orban deve anunciar novas medidas ao Legislativo na terça-feira.

A Hungria abalou os mercados mundiais na semana passada e causou medo de que a crise de crédito estivesse chegando ao Danúbio depois que um importante funcionário do governo húngaro anunciou que a administração anterior havia manipulado os números do orçamento e mentido sobre a situação da economia. A declaração - assustadoramente parecida com comentários feitos por alguns funcionários do governo grego nas semanas precedentes à crise - causou queda na cotação mundial da moeda húngara, o forint, e ajudou a derrubar o euro à sua mais baixa cotação em quatro anos.

Na segunda-feira, a União Europeia e o FMI rejeitaram veementemente as especulações de que a Hungria estava em risco de decretar moratória sobre sua dívida. Olli Rehn, comissário de Economia e Assuntos Monetários da União Europeia, disse que esses rumores eram "absurdos exageros", e o diretor executivo do FMI, Dominique Strauss-Kahn, declarou em Luxemburgo que não havia "elemento de medo" com relação ao país.

Jean-Claude Juncker, primeiro-ministro do Luxemburgo e anfitrião de uma reunião entre os ministros das Finanças da zona do euro, foi igualmente taxativo: "Não vejo qualquer problema com a Hungria", declarou. "Só vejo um problema de tagarelice da parte dos políticos húngaros".

O forint subiu e os preços dos títulos públicos mostraram alta na tarde de segunda-feira, o que sugere que os mercados assustados se acalmaram ao menos um pouco. Mas economistas alertaram que os planos do governo húngaro continuam imprecisos demais para inspirar confiança em longo prazo.

"O governo parece estar correndo para apaziguar os mercados financeiros mas sem apresentar um plano econômico consistente e coerente", disse Peter Rona, economista de Budapeste. "Estão chutando para todo lado".

O governo húngaro nos últimos dias vem batalhando freneticamente para recuar ante as declarações alarmistas da semana passada, que analistas atribuíram a uma tentativa mal calculada de Orban para preparar a opinião pública antes de possíveis medidas de austeridade, e ao mesmo tempo melhorar a posição de negociação da Hungria diante da União Europeia e do FMI.

As raízes dos problemas econômicos húngaros podem ser traçadas a dezembro, quando Orban, então líder da oposição, criticou o governo socialista do primeiro-ministro Gordon Banaj, alegando que sua meta para o déficit público de 2010, 3.,8% do PIB, era irrealista e insistindo em que o déficit provavelmente chegaria aos 7%.

Com a aproximação das eleições legislativas de abril, Orban reforçou sua oratória, prometendo que um governo do Fidesz evitaria as medidas de aperto de cintos dos socialistas, que conseguiram reduzir o déficit orçamentário do país de 9,3% do PIB em 2006 a 4% no ano passado, mas ao fazê-lo perderam o apoio do eleitorado. Orban fez campanha declarando que a Hungria precisava reduzir acentuadamente os impostos a fim de criar empregos e aumentar o crescimento.

Mas depois de conquistar uma vitória arrasadora em abril, Orban logo se viu apanhado entre as exigências dos credores internacionais e as dos eleitores, a quem havia prometido proteger contra novas dores econômicas. Quando o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, rejeitou os apelos de Orban por uma política monetária mais frouxa, na quinta-feira, analistas e assessores disseram que membros importantes do governo rebateram com a invocação da catastrófica possibilidade de uma nova crise em modo grego, a fim de rebaixar as expectativas do eleitorado quanto à economia.

"O governo cometeu um imenso erro político", disse Kornelia Magyar, diretora do Instituto Progressista, uma organização de pesquisa em Budapeste. "Pensou que estivesse falando apenas aos eleitores húngaros, e se esqueceu de que os mercados financeiros também estavam ouvindo".

No entanto, economistas afirmaram que a economia húngara é bem mais resistente que a da Grécia. "A alegação de que o país está à beira de uma moratória sobre sua dívida soberana e corre o risco de seguir o mesmo caminho que a Grécia não encontra sustentação nos fatos", escreveram os analistas do Goldman Sachs em um relatório recente. "A Hungria já enfrentou sua crise, e solicitou assistência do FMI e União Europeia no final de 2008. Nesse contexto, a Hungria na verdade está 18 meses adiante da Grécia".

O economista Rona apontou que a dívida externa húngara era equivalente à metade da grega, e que o país estava fora da zona do euro e portanto não vivia sujeito à sua política monetária inflexível, o que oferece ao banco central húngaro mais flexibilidade para responder aos altos e baixos da economia.

Apesar de todas as vantagens relativas da Hungria com relação à Grécia, porém, economistas alertaram que a economia do país continua vulnerável. Nos últimos anos, os consumidores húngaros recorreram pesadamente aos bancos nacionais e internacionais em busca de empréstimos, denominados em euros e francos suíços, para comprar carros e casas. Agora, estão expostos a pagamentos de dívida cada vez mais altos, diante da queda do forint com relação ao euro e franco suíço.

De acordo com especialistas econômicos, cerca de um milhão de húngaros vivem em domicílios sobrecarregados por empréstimos denominados em moedas estrangeiras. "As execuções hipotecárias estão crescendo explosivamente na Hungria e isso acarreta o risco de grandes problemas econômicos e sociais, capazes de prejudicar a recuperação econômica porque as pessoas não estão conseguindo pagar seus empréstimos", disse Rona.

Renata Bakonyi, 38, assistente social e mãe de três crianças, entre as quais um menino nascido três dias atrás, recordou na segunda-feira uma visita à Áustria em companhia do marido, em 2006, para obter um empréstimo de 24 mil euros (US$ 29 mil) usado para bancar a reforma da casa da família. Na época, as prestações do empréstimo com 15 anos de prazo eram de 230 euros - termos muito melhores que os oferecidos pelo banco que o casal usava na Hungria.

Dois anos mais tarde, porém, o marido de Bakonyi, soldador, perdeu o emprego quando a crise financeira derrubou o setor de construção, e ela havia deixado o trabalho para cuidar das crianças e de uma avó adoentada. Diante da queda do forint com relação ao euro, ela diz que a família não tem como pagar os 32 mil euros que ainda deve ao banco. E contou que a eletricidade foi recentemente cortada no imóvel.

"Não faço ideia do que vai acontecer", disse, pelo telefone, de seu leito em uma maternidade perto de sua casa em Letenye, sudoeste da Hungria. "O risco é de que nos arruinemos e tenhamos de enfrentar o colapso".


Dan Bilefsky, do The New York Times
.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Krugman: Reforma deve impedir ruína do sistema financeiro



Economia

Vermelho - 8 de Janeiro de 2010 - 14h32

.

A reforma no sistema de saúde é quase (bata na madeira) um negócio fechado. Próximo passo: consertar o sistema financeiro. Escreverei muito sobre a reforma financeira nas próximas semanas. Deixem-me começar fazendo uma pergunta básica: o que os reformadores devem tentar concretizar?

Por Paul Krugman, do The New York Times, na Terra Magazine

. 

Houve muito debate público sobre proteger os tomadores de empréstimos. De fato, uma nova Agência de Proteção Financeira ao Consumidor para ajudar a acabar com as enganosas práticas de empréstimos é uma boa idéia. E a melhor proteção para o consumidor pode ter limitado o tamanho total da bolha imobiliária.
.
Mas a proteção ao consumidor, mesmo que tenha bloqueado muitos empréstimos "subprime" (de alto risco), não teria evitado o acentuado aumento das taxas de delinquência nas hipotecas básicas convencionais. E certamente não teria evitado o crescimento repentino monstruoso e o colapso do setor imobiliário.
.
A reforma, em outras palavras, provavelmente não possa evitar maus empréstimos ou bolhas. Mas pode fazer um grande negócio para assegurar que, ao explodir, as bolhas não façam o sistema financeiro ruir.
.
Lembre-se de que a implosão da bolha das ações na década de 1990, apesar de imoral - os investidores americanos levaram um golpe de US$ 5 trilhões -, não provocou uma crise financeira. Então, o que foi diferente em relação à bolha imobiliária que se seguiu?
.
A resposta rápida é que, se a bolha das ações criou um grande risco, esse risco foi razoavelmente pulverizado pela economia. Os riscos criados pela bolha imobiliária, ao contrário, foram fortemente concentrados no setor financeiro. Em consequência, o colapso da bolha imobiliária ameaçou arrasar os bancos do país. E os bancos desempenham um papel especial na economia. Se não funcionam, as engrenagens do comércio como um todo param sistematicamente.
.
Por que os banqueiros assumiram tanto risco? Porque era de seu próprio interesse. Ao aumentar sua alavancagem financeira - ou seja, ao fazer investimentos arriscados com dinheiro emprestado -, os bancos puderam aumentar seus lucros de curto prazo. E esses lucros de curto prazo, por sua vez, refletiam-se em imensos bônus pessoais. Se a concentração do risco no setor bancário aumentou o perigo de uma crise financeira generalizada, bem, esse não foi o problema dos banqueiros.
.
Esse conflito de interesses, é claro, é a razão pela qual temos regulações para os bancos. Mas, nos anos anteriores à crise, as regras foram relaxadas - e, o mais importante, os reguladores fracassaram na ampliação de regras para cobrir o crescente sistema bancário paralelo, representado por instituições como o Lehman Brothers, que desempenhavam funções semelhantes às dos bancos, ainda que não oferecessem serviços convencionais.
.
O resultado foi uma indústria financeira enormemente lucrativa enquanto os preços dos imóveis estavam em alta - estimativas financeiras apontaram mais de um terço dos lucros totais dos Estados Unidos enquanto a bolha esteve inflada -, mas que ficou à beira do colapso assim que a bolha explodiu. Isso exigiu ajuda governamental em enorme escala e a promessa de ainda mais ajuda, se necessário, para retirar o setor financeiro do precipício.
.
E aqui está a questão principal: como a ajuda veio com poucas amarras - em especial, nenhum dos bancos mais importantes foi nacionalizado, embora alguns, obviamente, não tivessem sobrevivido sem o auxílio do governo -, há todo incentivo para que os banqueiros repitam a performance. Finalmente, agora está claro que eles vivem em um mundo de "cara ou coroa" onde eles ganham e os contribuintes perdem.
.
O teste para a reforma, então, é se reduzirá ou não o estímulo aos banqueiros e a habilidade de continuarem concentrando riscos.
.
Transparência é parte da resposta. Antes da crise, dificilmente alguém se daria conta do tamanho do risco que os bancos estavam assumindo. Mais divulgação de informações, especialmente com relação aos complexos derivativos financeiros, evidentemente ajudaria.
.
Além disso, um aspecto importante da reforma seria impor novas regras para limitar a alavancagem dos bancos. Irei me aprofundar na legislação proposta nas colunas futuras, mas aqui vai o que posso dizer sobre o projeto de reforma financeira que a Câmara aprovou - sem nenhum voto dos republicanos - no mês passado: seus limites para a alavancagem parecem razoáveis. Não muito grandes, mas razoáveis. Porém, seria muito fácil que essas regras enfraquecessem a ponto de não darem conta da tarefa. Uns poucos ajustes nas entrelinhas, e os bancos estariam livres para jogar o mesmo jogo novamente.
.
E a reforma realmente deve confrontar as práticas de compensação do setor financeiro. Se o Congresso não pode coibir legalmente as recompensas financeiras para a tomada excessiva de risco, pode ao menos tentar taxá-las.
.
Deixem-me finalizar com um recado político. A principal razão para a reforma é servir ao país. Se não tivermos uma grande reforma do setor financeiro agora, estaremos assentando os alicerces para a próxima crise. Mas há também razões políticas para agir. Pois existe uma fúria populista sendo construída neste país, e o tratamento cauteloso dos banqueiros por parte do presidente Obama colocou os democratas do lado errado dessa fúria. Se os democratas do Congresso não adotarem uma linha dura com os bancos nos próximos meses, pagarão um alto preço em novembro.
.
Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

.
.

Paul Krugman: Aquele sentimento de 1937 pode voltar

Economia

Vermelho - 5 de Janeiro de 2010 - 13h24

.

Eis o que está vindo por aí nas notícias econômicas: O próximo relatório sobre emprego pode mostrar que a economia está criando postos de trabalho pela primeira vez em dois anos. O próximo relatório do Produto Interno Bruto (PIB) deve apontar um crescimento sólido no final de 2009. 

.

Por Paul Krugman, do The New York Times, na Terra Magazine
.

Haverá comentários otimistas - e os apelos que já estamos ouvindo por um fim ao estímulo econômico, pela reversão dos passos que o governo e o Fed (Banco Central norte-americano) estão tomando para impulsionar a economia, vão se tornar ainda maiores.
.
Mas, se esses apelos forem considerados, estaremos repetindo o grande equívoco de 1937, quando o Fed e a administração Roosevelt decidiram que a Grande Depressão havia acabado e que já era hora de a economia jogar fora suas muletas. Os gastos foram cortados, a política monetária foi apertada, e a economia imediatamente mergulhou de novo nas profundezas.
.
Isso não deveria estar acontecendo. Tanto Ben Bernanke, o presidente do Fed, quanto Christina Romer, que lidera o Conselho de Assessores Econômicos do presidente Barack Obama, são estudiosos da Grande Depressão. Cristina foi explicitamente alertada contra a possibilidade de reeditar os acontecimentos de 1937. Porém, aqueles que lembram o passado ainda assim o repetem algumas vezes.
.
Quando você ler as notícias econômicas, será importante lembrar, em primeiro lugar, que blips de crescimento - números positivos ocasionais, que não significam nada - são comuns mesmo quando a economia está, de fato, atolada em uma recessão prolongada. No início de 2002, por exemplo, os relatórios iniciais mostraram que a economia crescia a uma taxa anual de 5,8%. Mas a taxa de desemprego se manteve em alta por mais um ano.
.
E, no início de 1996, relatórios preliminares mostraram que a economia japonesa crescia a uma taxa anual de mais de 12%, o que levou a declarações triunfantes de que "a economia finalmente entrou em uma fase de recuperação autoimpulsionada". Na verdade, o Japão estava apenas no meio do caminho de uma década perdida.
.
Esses blips são frequentes, em parte, são ilusões estatísticas. Porém - o mais importante -, eles são normalmente causados pela venda de produção estocada. Quando a economia está em declínio, as empresas tipicamente se vêem com enormes estoques de produtos não vendidos. Para desovar esses estoques, elas reduzem a produção; assim que se desfazem do excesso, voltam a elevar a produção, o que aparece como um surto de crescimento do PIB. Infelizmente, o crescimento causado por esse ajuste de estoques só ocorre uma vez, menos que dê respaldo às fontes de demanda, como os gastos dos consumidores e o investimento de longo prazo.
.
O que nos leva aos ainda amargos fundamentos da situação econômica.
.
Durante os bons anos da década passada, o crescimento foi impulsionado por um boom imobiliário e por uma explosão de gastos dos consumidores. Nenhum dos dois fatores ocorrerá novamente. Não poderá haver um novo boom imobiliário enquanto a nação ainda estiver cheia por casas vazias e apartamentos deixados pelo boom anterior, e os consumidores - que estão US$ 11 trilhões mais pobres do que antes - não estão em posição de retomar os antigos hábitos de "compre agora, poupe jamais".
.
O que nos resta? Um boom nos investimentos seria realmente útil neste momento. Mas é difícil visualizar de onde viria: a indústria está nadando em excesso de capacidade, e os aluguéis comerciais enfrentam uma enorme oferta de espaços para unidades de negócios.
.
As exportações podem ser a salvação? Por um tempo, o déficit comercial em queda dos Estados Unidos ajudou a amortecer o colapso da economia. Mas o déficit está crescendo novamente, em parte porque a China e outros países superavitários se recusam a acomodar suas moedas.
.
Por isso, provavelmente, qualquer notícia econômica positiva que você ouvir no futuro próximo será um blip, não uma indicação de que estamos no caminho da recuperação sustentada. Mas será que os responsáveis pela política interpretarão mal as notícias e repetirão os erros de 1937? Na verdade, eles já estão repetindo.
.
Espera-se que o estímulo fiscal do presidente Obama tenha um efeito de pico sobre o PIB e o emprego por volta da metade deste ano e, depois, comece a arrefecer. Ainda é muito cedo. Por que retirar o apoio financeiro diante da contínua massa de desempregados? O Congresso deveria ter colocado em prática uma segunda etapa de estímulo há meses atrás, quando se tornou claro que a recessão seria mais profunda e longa do que o previsto inicialmente. Porém, nada foi feito - e os números positivos ilusórios que estamos prestes a ver provavelmente frustrarão qualquer possibilidade de ação.
.
Enquanto isso, todo o discurso no Fed é sobre a necessidade de uma "saída estratégica" a partir de seus esforços de apoio à economia. Um desses esforços, a compra de títulos de dívida de longo-prazo do governo dos Estados Unidos, já chegou a um final. Também se espera que as aquisições de títulos lastreados em hipotecas terminem dentro de poucos meses. Isso significa um aperto monetário, mesmo que o Fed não aumente as taxas de juros diretamente - e há uma enorme pressão sobre Bernanke para que faça isso.
.
O Fed entenderá - antes que seja tarde - que a tarefa de lutar contra a recessão ainda não terminou? O Congresso se dará conta disso? Caso não, 2010 será um ano que terá começado com falsas esperanças econômicas e terminado em aflição.
.
Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

.
,

segunda-feira, agosto 10, 2009

Obama mantém medidas de Bush contra imigrantes

.
.

Depois das promessas iniciais do presidente Barack Obama de moderar a postura dura do governo Bush no que tange à repressão de imigrantes ilegais, a sua administração adoptou uma estratégia agressiva de combate à imigração ilegal, que em larga medida aproveita programas iniciados sob o seu predecessor.

.
Por Julia Preston, para o The New York Times


.

Uma recente campanha de medidas repressivas despertou hostilidade entre as organizações de defesa dos imigrantes e muitos partidários hispânicos de Obama, e começou uma campanha nacional contra elas através de pequenos protestos de rua em Los Angeles e Nova York, na semana passada.

.
O governo recentemente empreendeu auditorias dos registros de emprego em centenas de empresas, expandiu um programa para verificar o estatuto de imigração de trabalhadores que recebera críticas pelas suas falhas no passado, reforçou os esforços de cooperação entre agências policiais federais e locais, e rejeitou propostas para implementar regras definidas para os centros de detenção de imigrantes ilegais.

.
"Estamos expandindo as medidas de repressão, mas creio que da maneira certa", disse Janet Napolitano, secretária da Segurança Interna, em entrevista.

.
Napolitano e outros funcionários do governo afirmam que são necessárias medidas diretas de repressão à imigração ilegal, a fim de persuadir os trabalhadores americanos a aceitar leis que legalizariam a situação de residência de milhões de imigrantes sem documentos, uma medida que, afirmam, Obama ainda espera propor no final deste ano ou começo de 2010.

.
A abordagem adotada conduz Obama a uma posição semelhante à defendida pelo seu adversário republicano, o senador John McCain, do Arizona, na campanha presidencial do ano passado, que Obama rejeitou, na época, como rígida demais para com as comunidades latina e de imigrantes. (McCain não atendeu a pedidos de comentar a questão.)

.
Agora, a estratégia de repressão causou uma cisão política com alguns grupos de defesa dos imigrantes e hispânicos, cujos votos foram essenciais para a vitória de Obama.

.
"Os nossos sentimentos são, na melhor das hipóteses, contraditórios", disse Clarissa Martinez de Castro, diretora de imigração no Consejo Nacional de la Raza, que aderiu às críticas, dirigidas primordialmente a Napolitano. "Compreendemos a necessidade de medidas sensatas de fiscalização, mas isso não deveria incluir a expansão de programas que muitas vezes resultaram em violações de direitos civis".

.
Sob o comando de Napolitano, as autoridades deixaram de lado as frequentes buscas em massa que o governo Bush promovia em fábricas, com o objetivo de deter imigrantes sem documentos. Mas os processos criminais federais contra delitos de imigração na verdade aumentaram este ano, de acordo com um estudo do Transactional Records Access Clearinghouse, um grupo apartidário que estuda dados do governo. Em abril, houve 9.037 processos relacionados à imigração nos tribunais federais, ou 32% a mais do que em abril de 2008, constatou a organização.

.
Napolitano declarou na entrevista que não abandonaria de vez as fiscalizações da imigração, como sugeriram alguns legisladores hispânicos. "Continuaremos a aplicar a lei e a procurar maneiras efetivas de fazê-lo", disse. "É esse o meu trabalho".

.
Napolitano, que quando governadora do Arizona entrou em conflito com congressistas republicanos que propunham medidas mais severas contra a imigração ilegal, afirmou que procurava maneiras de tornar menos rígidos alguns dos programas herdados do presidente Bush. Ela deseja também concentrar as ações contra imigrantes sem documentos nos membros de gangues e criminosos, e nos patrões que rotineiramente contratam imigrantes sem documentos com o objetivo de explorá-los.

.
As autoridades de imigração deram início a auditorias dos documentos de contratação de trabalhadores em mais de 600 empresas em todo o país. Caso um empregador apresente um padrão de contratação frequente de imigrantes cujos documentos não possam ser confirmados, disse Napolitano, uma investigação criminal poderia vir a seguir.

.
O governo Obama recebeu apoio de um importante democrata, o senador Charles Schumer, de Nova York, à sua política de imigração. Schumer preside o subcomitê de imigração no Comitê Judiciário do Senado, e será o relator de um projeto de reforma das leis de imigração que vai ser debatido este ano.

.
Schumer declarou em entrevista que os democratas precisam "convencer o povo americano de que não haverá novas ondas de imigrantes ilegais" depois de a reforma na imigração ser aprovada.

.
Os republicanos que se opõem a qualquer legalização na situação dos imigrantes sem documentos declaram-se nada impressionados com as novas medidas.

.
"Depois de 20 anos de promessas não cumpridas, serão precisos mais que gestos simbólicos", disse o deputado Brian Bilbray, republicano da Califórnia que preside um grupo de representantes do seu partido que combatem a imigração ilegal.

.
Michael Olivas, professor de leis de imigração na Universidade de Houston, afirma que os defensores da causa hispânica estão irritados pelas medidas de fiscalização mais severas adoptadas pelo governo porque viram parcos sinais de que o governo esteja a avançar de maneira calculada na direcção de um projecto de reforma da imigração.

.
"O que temos agora é literalmente o pior dos mundos possíveis", declarou Olivas.

.
Portal Terra
.
.
in Vermelho - 6 DE AGOSTO DE 2009 - 17h00
.
.

quarta-feira, julho 15, 2009

Livro revela a vida (e as polêmicas) do Garganta Profunda


.
Em um original artigo publicado em 2005 pelo Washington Post, o jornalista James Mann apresentava duas esferas que convivem, ainda que incomodamente, no governo americano. De um lado, o Mundo do Talk Show, habitado por indivíduos sempre disponíveis a aparecer na televisão, escrever livros e artigos, participar de palestras. Encaixam-se aí políticos que desejam manter o reconhecimento público mesmo distante do poder.

.

De outro, o Mundo Oculto, que abriga instituições necessárias à manutenção da segurança do governo, como FBI, CIA, forças armadas, e que trabalham na surdina. É nesse segmento que se inseriu William Mark Felt até 2005, quando sua identidade foi revelada por trás do pseudônimo Garganta Profunda. Por algum momento, ainda que a contragosto, ele passeou pelo Mundo do Talk Show, sob o brilho dos holofotes. E, de alguma forma, reforçou sua presença com o lançamento do livro A Vida do Garganta Profunda, escrito em parceria com seu advogado John O’Connor.

.

O segredo de Felt (1913- 2008), do qual nem a própria família sabia, foi revelado em uma reportagem da revista Vanity Fair, em 2005, escrita por O’Connor: então vice-diretor do FBI, ele era o misterioso homem que ajudara os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do Post, em 1972, com informações secretas sobre o escândalo logo conhecido por Watergate e que culminou com a renúncia do presidente americano Richard Nixon, dois anos depois. O teor das informações tornou-se conhecido, mas detalhes sobre a vida de Felt ainda não tinham sido divulgados.

Foi o que ele pretendeu fazer em A Vida do Garganta Profunda (2006), agora lançado no Brasil, que, de imediato, revela um problema delicado: os fatos mais interessantes sobre sua atuação como informante foram contados por Woodward em O Homem Secreto — A História do Garganta Profunda, lançado aqui pela Rocco no mesmo ano em que saiu nos EUA, 2005. Lá está, nos mínimos detalhes, a história inteira, desde o primeiro encontro casual de Woodward com Felt, na Casa Branca de Nixon, até o desmascaramento do escândalo Watergate — sem antes deixar de passar pelo relato de várias reuniões no meio da noite em uma garagem de subsolo — e, finalmente, a iniciativa de Felt de se revelar como o Garganta Profunda, aos 92 anos.

.

Até mesmo algumas particularidades que Woodward deixou escapar (como Felt conseguiu, despercebido, marcar alguns exemplares do jornal The New York Times recebidos pelo jornalista, código que indicava que eles deveriam se encontrar?) também não constam no livro do ex-agente. Quando contou a O’Connor sua versão, Felt estava com a memória comprometida, obrigando o advogado a se apoiar ainda em um manuscrito preparado com o filho nos anos 1980, em seus memorandos do FBI, em reminiscências particulares e em muitos comentários que fez à família.

.

A partir desse material, O’Connor se dispôs a montar a espinha dorsal da trama, baseada no dilema que martelou a consciência do informante: a obrigação como funcionário do FBI estava acima de seu dever como cidadão americano de expor a verdade? Os fatos já consumados mostram que não, embora Felt tenha se inclinado a justificar seus atos também como forma de proteção dos alicerces do FBI.

.

O Federal Bureau of Investigation, aliás, é visto sob o olhar condescendente de Felt, que ignora algumas atividades ilegais cometidas pela entidade — como se os fins justificassem os meios — e mesmo sob a suspeita de irregularidades despertada em outras instâncias do governo.

.

O período do escândalo propriamente dito de Watergate é, claro, o mais interessante do livro. Felt admite ter passado informações erradas ou insuficientes para Woodward, mas sempre se penitenciando pelo fato de que também buscava a verdade. E, curiosamente, ele não gostou do apelido de Garganta Profunda, batendo o telefone na cara de Woodward quando este quis saber sua reação. “A imagem de falante não combinava com Felt, homem muito austero”, garante O’Connor.

.

Leia abaixo um trecho do livro A Vida do Garganta Profunda

.

Os vazamentos continuaram, entretanto, e poucos dias depois do arrombamento, Bob Woodward e Carl Bernstein estavam dando aos leitores do Washington Post detalhes da investigação, às vezes horas depois de o Bureau tomar conhecimento daqueles detalhes.

.

A Casa Branca estava furiosa. (O assistente presidencial John) Ehrlichman chamou (o diretor do FBI L. Patrick) Gray para uma discussão e lhe disse que era preciso parar com os vazamentos. Gray reagiu enviando uma equipe de inspeção ao escritório de campo de Washington para interrogar todos os agentes que trabalhavam no caso. Como isso não pôs fim aos vazamentos, ele ordenou que Charles W. Bates, diretor assistente e chefe da Divisão Investigativa Criminal, interrogasse os homens sob juramento.

.

Essas ações contrariaram ainda mais os agentes, mas nada fizeram para impedir os vazamentos.

.

Diversas vezes, quando Gray estava fora da cidade, John Dean, conselheiro legal da Casa Branca, telefonou-me e exigiu que tomasse outras medidas para silenciar os vazadores. Eu me recusei e lhe indiquei que alguns dos vazamentos possivelmente poderiam não vir do Bureau, uma vez que incluíam informações que não estavam restritas a nós.

.

Isso não acalmou Dean. Foi essa série de telefonemas que levou a Casa Branca a acreditar que eu era o Garganta Profunda, a fonte misteriosa na qual Woodward e Bernstein se apoiavam para suas reportagens sensacionais sobre Watergate. Seis meses depois do arrombamento, Gray me abordou pessoalmente. "Você sabe, Mark", disse ele, "Dick Kleindienst me disse que pode ser que eu tenha que me livrar de você. Ele diz que membros da equipe da Casa Branca estão convencidos de que você é a fonte no FBI dos vazamentos para Woodward e Bernstein."

.

Da Redação, com informações do O Estado de S.Paulo

.

.

in Vermelho - 13 DE JULHO DE 2009 - 21h05

.


domingo, julho 12, 2009

Honduras: uma pequena história da intervenção dos EUA

.

Não seria irônico se a primeira intervenção militar do governo Obama ocorresse logo em Honduras? Eu admito que isto seria improvável, mas não impossível. Jovens presidentes democratas com pouca experiência em política externa geralmente sentem uma necessidade de demonstrar a sua disposição de usar a força. Pensem em John F. Kennedy e na Baía dos Porcos. Ou, para usar um exemplo mais pertinente, lembrem-se de Bill Clinton e o Haiti. Em 1994, Clinton enviou tropas àquele país para recolocar o presidente Jean-Bertrande Aristide no poder depois que este foi derrubado por um golpe militar.

Por Max Boot*, para o The New York Times

.

Isso soa familiar?

.

No Haiti a nossa intervenção não funcionou tão bem. Aristide, embora eleito, não se revelou nem um democrata nem um déspota esclarecido. O país continuou tornando-se mais pobre e caótico. Ele acabou sendo derrubado em um outro golpe em 2004. E dessa vez o presidente Bush foi suficientemente esperto para dar uma carona ao presidente para fora do país - em vez de forçar a sua volta ao poder.

.

Esperemos que Barack Obama veja nisso tudo uma lição sobre os perigos da intervenção dos Estados Unidos nas questões internas de uma outra nação - algo do qual ele está bem consciente em se tratando do Irã. Mas ele parece bem menos reticente quanto a interferir nas questões internas de Israel ou Honduras.

.

Ele e a secretária de Estado, Hillary Clinton têm denunciado estridentemente a ilegalidade do recente golpe que derrubou o presidente Manuel Zelaya. No entanto, a questão da legalidade daquilo que ocorreu é nebulosa. O exército alegou que estava simplesmente executando uma ordem no sentido de prender e exilar Zelaya. Teria sido melhor se o presidente tivesse sofrido um impeachment ou sido julgado, de forma que pudesse organizar uma defesa legal, mas o lado anti-Zelaya apresenta bons argumentos quanto à ilegalidade das ações do presidente.

.

Não houve nada de legal quanto às tentativas de Zelaya de organizar um referendo fraudulento que lhe teria permitido continuar no poder, em desrespeito à decisão do Supremo Tribunal de Honduras. Ele estava nitidamente mobilizando-se - no estilo do seu patrocinador, o presidente venezuelano Hugo Chávez - no sentido de aumentar o seu poder por meios truculentos, mantendo desta forma um invólucro de democracia eleitoral de cerne oco.

.

Trata-se de uma situação complexa, e é difícil justificar que os Estados Unidos deveriam empregar o seu poder e prestígio para impor a volta de Zelaya ao poder. Os Estados Unidos deveriam empenhar-se em agir como um mediador honesto para ajudar todos as partes a chegar a um acordo e, mesmo se isto não acontecesse, para fazer com que o processo eleitoral voltasse a ser plenamente funcional.

.

Obama, Clinton e o resto do governo deveriam, sem dúvida, manifestar apoio à democracia - que significa o império da lei, e não simplesmente votações. Golpes militares não são mais a maior ameaça à democracia latina. O perigo agora são os demagogos esquerdistas que reprimem a oposição e acumulam poder em suas próprias mãos após serem eleitos. É este exatamente o perigo que muitos hondurenhos viram baixar sobre o país.

.

*Max Boot é detentor da bolsa Jeane J. Kirkpatrick do Conselho de Relações Exteriores para estudos sobre segurança nacional. Recentemente ele lançou o livro War Made New: Technology, Warfare, and the Course of History, 1500 to Today / A Guerra Renovada: Tecnologia, Beligerância e o Curso da História, de 1500 aos Dias Atuais. Atualmente ele está escrevendo uma história da guerra de guerrilha.

.

Tradução: UOL

.

.

in Vermelho -11 DE JULHO DE 2009 - 23h10


.

.

quinta-feira, junho 04, 2009

Tempos bicudos para o sindicalismo


Nivaldo Santana:


Em artigo publicado em seu blog, Nivaldo Santana, vice-presidente da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), analisa o papel do movimento sindical em meio à crise do capitalismo. Como ponto de partida, recorre ao exemplo do Sindicato de Trabalhadores Automotivos dos Estados Unidos — o UAW —, que se tornou proprietário de 17,5% da GM, mas concordou em não fazer greves até 2015.


Para Nivaldo, “a crise impõe pesadas derrotas aos assalariados, mas abre uma janela de oportunidades: nessa situação, os campos ficam mais claros, os interesses antagônicos das classes sociais mais nítidos e a luta pelo socialismo ganha um reforço no plano das ideias”. Confira abaixo a íntegra do artigo.

Tempos bicudos

Por Nivaldo Santana, em seu blog

.

Vejam as notícias abaixo:

.


O novo papel do sindicato (The New York Times, 02/06/2009)

.

Durante décadas, o Sindicato de Trabalhadores Automotivos (UAW, na sigla em inglês) dos Estados Unidos tinha uma estratégia simples para conseguir o que queria das montadoras — ir à greve. A tática revelou-se tão bem sucedida que a mera ameaça de uma greve de trabalhadores freqüentemente garantia melhores salários, benefícios e segurança no trabalho.

.

Agora, com a General Motors e a Chrysler em falência, e o sindicato se tornando acionista majoritário tanto dos fundos de assistência à saúde como de aposentadoria, a vida ficou muito mais complicada para o UAW. O sindicato, que nasceu dos conflitos trabalhistas, se comprometeu a não entrar em greve contra as duas empresas antes de 2015, como parte do plano de salvamento martelado pela administração Obama.

.

O acordo de paz mediado pode ajudar a terminar a relação antagônica entre o sindicato e a gerência das montadoras, e determinar o futuro não só da GM e Chrysler, mas também do próprio UAW. (...)

.

Trabalhadores da GM fazem concessões para tentar salvar empregos nos EUA (BBC Brasil, 29/05/2009)

.

Três quartos dos trabalhadores da montadora americana GM concordaram, nesta sexta-feira, com uma série de concessões para tentar manter o maior número possível de empregos na empresa. O sindicato UAW (United Auto Workers) disse que 74% dos 54 mil filiados votaram a favor do acordo.

.

Entre as concessões, está o compromisso de não entrar em greve até 2015. A maioria dos trabalhadores concordou também em congelar seus salários e bônus e cortar benefícios de saúde para aposentados. O sindicato diz que as concessões devem gerar uma economia anual entre US$ 1,2 bilhão e US$ 1,3 bilhão. Em troca, os sindicatos devem receber 17,5% da GM quando a montadora ressurgir da concordata como uma nova e menor empresa.

.

Apesar do acordo desta sexta-feira, a GM deve anunciar o fechamento de 21 mil vagas de trabalho e 14 fábricas. A empresa ainda deve anunciar onde serão os cortes. O plano é que a empresa se reestruture com menos custos de produção, dívidas muito menores e menos fábricas, modelos, marcas e concessionárias. O processo de concordata, supervisionado judicialmente, deve começar na segunda-feira.

.

Comentário: o capitalismo vive provavelmente a maior crise de sua história. O furacão começou nos EUA, se propagou pela Europa Ocidental e Japão e atingiu todo o mundo. A duração, amplitude e profundidade da crise ainda não podem ser mensuradas, mas o certo é que ela deixará pesadas consequências políticas, econômicas e sociais.

.

A crise, pelas suas características e particularidades, atinge de forma desigual cada um dos países. À primeira vista, a situação é mais dramática nos países capitalistas centrais, principalmente nos EUA.

.

Nesse país, ícones do capitalismo estão quebrando: bancos, seguradoras, indústrias automobilísticas. O Tesouro americano torra trilhões de dólares para evitar a bancarrota total do sistema. Se a situação é dura para boa parte da burguesia, para os trabalhadores ela é dramática.

.

Para quem vive da venda da força de trabalho a crise atende pelo nome de desemprego. Privado do salário, o trabalhador fica pendurado na brocha, não tem meios de subsistir e fica refém de acordos leoninos como os que ocorrem nas montadoras dos EUA.

.

Essa situação-limite não tem nada a ver com um alegado novo papel do sindicato. É uma etapa específica, de crise profunda, onde a correlação de forças impõe severas concessões por parte dos assalariados. Essas concessões serão maiores para sindicatos mais propensos à conciliação do que à luta.

.

Tudo isso, no entanto, são as vicissitudes da luta de classes no capitalismo. Enquanto houver esse imbricamento entre trabalho assalariado e capital, as relações serão de exploração crescente, sempre em prejuízo do elo mais fraco dessa corrente, que é o trabalho.

.

Do ponto de vista histórico, só nos marcos de uma nova sociedade, socialista, que dê fim ao trabalho assalariado, é que os trabalhadores se emanciparão dessa sina cruel. No futuro, homens e mulheres trabalharão para viver melhor, diferentemente de hoje, onde vivem apenas para trabalhar, quando conseguem trabalhar.

.

A crise impõe pesadas derrotas aos assalariados, mas abre uma janela de oportunidades: nessa situação, os campos ficam mais claros, os interesses antagônicos das classes sociais mais nítidos e a luta pelo socialismo ganha um reforço no plano das ideias. Não é tudo, mas é muito!


.

in Vermelho - 4 DE JUNHO DE 2009 - 17h08
.
.
.
.