A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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terça-feira, agosto 07, 2012

67 anos pós-Hiroshima, ameaça nuclear ainda paira sobre o mundo


6 DE AGOSTO DE 2012 - 12H05 

Página Inicial


Há 67 anos, na manhã do dia 6 de agosto de 1945, o mundo assombrava-se ao conhecer o poder arrasador de um bomba atômica. A cidade de Hiroshima, no Japão, era alvo da primeira agressão nuclear da história. O ataque partiu dos Estados Unidos e matou cerca de 140 mil pessoas. Tanto tempo depois, o responsável por aquele momento de horror não foi punido e a ameaça nuclear ainda paira sobre a humanidade. 


Hiroshima, 6 de agosto de 1945 / Foto: Museu Memorial da Paz/Efe

"O que houve em Hiroshima não pode jamais ser esquecido. Foi um crime contra a humanidade, que deixou uma cidade inteira destruída. As pessoas foram derretidas, outras sentem efeitos da radiação até hoje. E os Estados Unidos nunca foram punidos por esse crime", critica a presidenta do Conselho Mundial da Paz (CMP), Socorro Gomes. 

Ela destaca que os EUA continuam com o controle sobre um arsenal atômico e se recusam a renunciar à possibilidade de lançar outra bomba. O CMP denuncia que os países detentores de armas atômicas as utilizam para chantagear povos e nações. Por outro lado, buscam impedir que outros países desenvolvam a tecnologia nuclear com fins pacíficos, concentrando, assim, o conhecimento e o lucro vindo desta atividade. 

"Eles tentam impedir, de forma hipócrita, que outros países usem esta tecnologia para fins pacíficos, como na medicina ou na produção de energia elétrica. Querem ter lucro com essa indústria nuclear pacífica. É uma tecnologia de ponta, que desejam dominar sozinhos. Por isso usam o discurso da ameaça de bomba atômica em nações onde isso não existe, como no caso do Irã", diz Socorro.

Para o CMP, a eliminação das armas nucleares é uma prioridade. Tanto que, em assembleia geral realizada no mês passado no Nepal, o Conselho decidiu dar novo impulso à campanha pelo desarmamento, uma bandeira antiga mas ainda atual. "Na década de 1950 ainda, o movimento mundial pela paz lançou o 'Apelo de Estocolmo', que dizia que deveria ser proibido o uso e a fabricação de armas nucleares. Usar a bomba seria então considerado crime contra a humanidade. A iniciativa recolheu 600 milhões de assinaturas, o que demonstra a grande vontade no mundo de eliminar tais armas", conta Socorro.

"O único país que já usou uma bomba nuclear foram os Estados Unidos. De lá para cá, a luta dos povos tem ajudado o combate a esse tipo de armamento. Foram criados protocolos, há hoje a agência internacional de energia atômica. Mas a questão não pode ser apenas barrar a proliferação das armas atômicas, é preciso acabar com aquelas que já existem", defende. 

Segundo ela, esse propósito ainda não foi alcançado por causa de uma "política de terror e guerra" utilizada pelas potências mundiais. "Há um sistema de governança que é imperialista, em que as potências buscam impor o seu poder através do medo. Os Estados Unidos não buscam dialogar, mas uma forma de dominar povos e nações. Para isso, utilizam armas cada vez mais sofisticadas, como drones, escudos antimísseis, armas cibernéticas. Não estão pensando em se desarmar", lamenta.

A ativista ainda destaca a solidariedade do movimento pela paz com a dor dos japoneses. "É um sofrimento que inclusive não acabou. Por isso fazemos um chamado a todos os defensores da paz para que continuem lutando contra todas as armas de destruição em massa", concluiu.

História

Hiroshima, 6 de agosto de 1945 / Foto: Museu Memorial da Paz/Efe

Naquela segunda-feira de agosto de 1945, muitas pessoas morreram instantaneamente. Outras seriam afetadas pela radiação, que provocou alterações sanguíneas, perturbou as funções da medula óssea e afetou órgãos internos, como fígado e pulmões, ao longo dos anos. 

Ruas, residências, escolas e hospitais – quase uma cidade inteira – desapareceram do mapa. Antes da bomba, havia cerca de 90 mil construções em Hiroshima; somente 28 mil permaneceram de pé após o ataque. 

Três dias depois, em 9 de agosto de 1945, outra bomba atômica era lançada sobre o Japão, desta vez na cidade de Nagasaki. Outras 80 mil pessoas foram pulverizadas naquele momento. 

As explosões foram ordenadas pelo então presidente norte-americano Harry S. Truman, supostamente para pôr fim à 2ª Guerra Mundial, que estava em curso desde 1939. Ele havia sido alertado das consequências pelos cientistas, mesmo assim decidiu pelo bombardeio. 

O fato é que a guerra no Pacífico já vivia seus momentos derradeiros e, um mês antes dos ataques, o Japão já planejava a rendição. O país estava cercado e destruído. Apesar do discurso construído de que as bombas apressaram o fim do conflito, o preço pago foi considerado alto demais e desnecessário.

"Naquela altura, o Japão já estava praticamente derrotado, a guerra estava decidida. A bomba serviu, na verdade, como uma demonstração de força dos Estados Unidos, para marcar o que seria o pós-guerra. Era uma exibição da hegemonia norte-americana no mundo", ressalta Ricardo Alemão Abreu, secretário de Relações Internacionais do PCdoB.

Alemão reitera as denúncias do CMP. "O que houve desde então foi o controle da tecnologia nuclear por alguns, que tentam evitar que outros países tenham acesso a esse conhecimento. As armas proliferaram entre aqueles países que eram de interesse das potências, como é o caso de Israel. Foi algo como 'podem ter armas nucleares os amigos, não os inimigos'. E estas armas têm sido usadas como instrumento de opressão e para reafirmar o poderio norte-americano", afirma.

Após o desastre, Hiroshima construiu museus e memoriais para honrar as vítimas. O local do epicentro da explosão abriga hoje o Parque Memorial da Paz, idealizado pelo renomado arquiteto japonês Kenzo Tange. O local tornou-se patrimônio mundial da Unesco, em 1996. Nesta segunda-feira, aquela tragédia sem precedentes na história da humanidade está sendo lembrada no Japão, à sombra do acidente nuclear de Fukushima, no ano passado.

As várias manifestações que acontecem no país para lembrar a bomba atômica têm como pano de fundo a crescente contestação à energia nuclear. Cerca de 50 mil pessoas participaram na cerimônia oficial e milhares de outras espalharam-se por numerosos atos, concertos e palestras organizados em Hiroshima. 

As atividades reuniram sobreviventes de Hiroshima, hoje com mais de 70 anos, e habitantes do entorno da central nuclear de Fukushima, que foi evacuada depois do desastre de 11 de março de 2011.

A maioria dos sobrevientes da bomba, conhecidos pelo nome de hibakusha, também opõe-se firmemente a toda e qualquer utilização da energia atômica. “Queremos trabalhar com as pessoas de Fukushima. Juntar as nossas vozes para que o nuclear nunca mais faça vítimas”, disse Toshiyuki Mimaki, aos 70 anos – um sobrevivente do horror.

Da Redação,
Joana Rozowykwiat, com agências.

sábado, agosto 14, 2010

Ameaça Nuclear

  • Ângelo Alves

O que é novo é a profunda hipocrisia que os rodeia
A «Nobel» hipocrisia
Se é um dever assinalar, a cada ano que passa, o crime dos EUA em Hiroshima e Nagasaki, no ano em que se assinalam os 65 anos do holocausto nuclear esse dever e essa responsabilidade é ainda maior. Infelizmente nem as autoridades, nem a imprensa em geral, deram o destaque necessário a este trágico aniversário e quando o fazem esforçam-se por ocultar ou mitigar um dos mais importantes factos dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki: O lançamento das duas bombas atómicas sobre estas duas cidades foi um acto de puro terrorismo de Estado. Não foi sequer um acto de guerra, já de si fortemente condenável. A Segunda Guerra Mundial estava na prática terminada e o Japão imperial preparava-se para assinar a sua rendição na sequência da decisão da URSS de abrir a frente contra o Japão.
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Mas se o recorrente branqueamento deste inegável facto histórico é, para a memória das vítimas de Hiroshima e Nagasaki e para os amantes da paz, um insulto, o que aconteceu este ano no Japão nas cerimónias oficiais que assinalaram os 65 anos do holocausto nuclear revestiu-se de contornos tenebrosos.

No mesmo exacto período em que os EUA – potência nuclear que nunca efectuou sequer um pedido de desculpas ao povo Japonês pelo hediondo crime que cometeu - estão envolvidos em gigantescas e «explosivas» provocações contra o Irão e a Coreia do Norte em nome de um suposto «combate à proliferação nuclear», as referidas cerimónias contaram pela primeira vez com a presença do mbaixador John Ross que, por via de um hipócrita comunicado da representação diplomática dos EUA em Tóquio, afirma ter estado ali presente «para expressar respeito por todas as vítimas da Segunda Guerra Mundial», declarando simultaneamente que os EUA e o Japão «compartilham o objetivo comum de avançar na visão do presidente Obama de conseguir um mundo sem armas nucleares»(1)
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Mas, se as afirmações de John Ross são carregadas de hipocrisia e reveladoras do estado de coordenação entre Japão e EUA na estratégia do imperialismo, as declarações do primeiro-ministro japonês não se ficam atrás e são de extrema gravidade. Naoto Kan, o homem que substituiu o anterior primeiro ministro Yukio Hatoyama - forçado a demitir-se na sequência da declaração da intenção de encerrar, pelo menos em parte, a base militar dos EUA em Okinawa e da decisão de revelar tratados secretos entre os EUA e o Japão que previram, durante a «guerra fria», o trânsito de armas nucleares no País – afirmou em conferência de imprensa que o Japão necessita «contar com a disuassão nuclear»(2), realçando «a importância que tem para o país o guarda-chuva nuclear» dos EUA.

As declarações de Naoto Kan são bem reveladoras da «reviravolta» política operada em Junho no Japão. Uma reviravolta operada com evidente «dedo» norte-americano, que pode não estar desligada da muito mal contada «estória» do afundamento da corveta sul-coreana Cheonan, e que fez pressionar a fundo o acelerador da militarização do Japão, do ataque à sua Constituição pacifista (apesar de declarações de cirscunstância e de divisões no poder político japonês importantes) e da participação activa no projecto de criação de uma «nova NATO» para o extremo oriente e de aí se desenvolver também a versão moderna da guerra das Estrelas de Reagan.
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Estas não são tendências e projectos imperialistas propriamente novos. O que é novo é a profunda hipocrisia que os rodeia
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(1) Agência EFE – 6 de Agosto
(2) Agência EFE – 9 de Agosto
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N.º 1915 - Avante
12.Agosto.2010
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segunda-feira, agosto 09, 2010

65 anos depois de Hiroshima: a Cimeira da Nato em Lisboa, novos perigos para a paz

Conferência de Imprensa, Ângelo Alves, da Comissão Política do CC e da Secção Internacional do PCP

65 anos depois de Hiroshima: a Cimeira da Nato em Lisboa, novos perigos para a paz

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Há 65 anos o mundo testemunhou um dos mais hediondos crimes contra Humanidade. 6 e 9 de Agosto - os dias em que Hirsohima e Nagasaki foram reduzidas a cinzas após o lançamento, pela primeira vez na História, de duas bombas atómicas - são duas das mais negras páginas da História Mundial que não devem nem podem ser esquecidas. 
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O bombardeamento de Hiroshima e Nagasaki não foi uma obra do acaso, e muito menos uma necessária estratégia militar para garantir a vitória dos Aliados na II Guerra Mundial. O lançamento de duas bombas atómicas sobre populações civis foi uma premeditada e criminosa decisão do imperialismo norte-americano visando a demente afirmação da sua supremacia militar e tecnológica e a sinalização da sua política de crescente confrontação com a então União Soviética e de início da chamada “guerra fria”.
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O acto de relembrar o crime de terrorismo de Estado cometido pelos EUA contra as populações mártir de Hiroshima e Nagasaki não é, para o PCP, um simples tributo às vítimas do horror nuclear. Para o PCP, relembrar Hiroshima e Nagasaki é acima de tudo manter viva a memória do holocausto nuclear - para que dele se retirem todas as lições - e reafirmar a importância crucial da luta contra o militarismo, o imperialismo e a guerra, pela paz, o desarmamento, a resolução pacífica dos conflitos e a cooperação entre os povos.
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Hiroshima e Nagasaki foram uma trágica demonstração de quão longe pode ir o imperialismo na utilização do militarismo e da guerra como parte da sua estratégia de dominação económica e geoestratégica. 
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Hoje, passados 65 anos, num quadro internacional marcado pelo aprofundamento da crise estrutural do capitalismo, pelo brutal aprofundamento da exploração dos trabalhadores e dos povos, por sérias derivas anti-democráticas, pela ingerência externa e ataques à soberania dos povos, por crescentes rivalidades inter-imperialistas e por complexos processos de rearrumação de forças no plano internacional, a realidade demonstra que infelizmente o militarismo, a guerra e a agressão, continuam a ser instrumentos centrais da estratégia imperialista.
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A ofensiva militarista protagonizada pelas principais potências mundiais e pela NATO assume hoje um carácter global e multifacetado. Desmentindo a propaganda e as palavras fáceis da “mudança”, do “diálogo”, da “contenção” e da “diplomacia” que marcaram a eleição de Barack Obama e a atribuição ao Presidente norte-americano do prémio Nobel da Paz, a actualidade internacional é marcada pela intensificação das guerras imperialistas, nomeadamente no Iraque e no Afeganistão; pelo escandaloso aumento das despesas militares - segundo os últimos dados disponíveis a despesa militar aumentou em plena crise económica internacional 6% entre 2008 e 2009 e 49% entre 2000 e 2009, atingindo o valor recorde de 1,5 Biliões de Dólares –, pela consolidação e aprofundamento de blocos-político militares agressivos como a NATO, pela militarização acelerada de blocos como a União Europeia e por uma perigosa teia de acções estratégico-militares visando vários países e povos. 
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O PCP acompanha com extrema preocupação os diversos focos de tensão que caracterizam a actual situação internacional e que são indissociáveis da política de ingerência e militarismo dos EUA e da NATO: No extremo oriente com as recentes manobras militares sul coreanas e dos EUA nos mares Amarelo e do Japão e com as reiteradas afrontas à China, como com a venda de armamento a Taiwan; na América Latina com as recentes provocações à Venezuela, a reactivação da IV Esquadra dos EUA, a instalação de inúmeras bases militares norte-americanas na Colômbia e outros países da região e com as ocupações militares de facto do Haiti e da Costa Rica e o golpe de Estado nas Honduras; e, muito especialmente, no Médio Oriente, com as recentes provocações israelitas na linha azul entre o Líbano e Israel (que provocaram a morte a vários soldados libaneses e a um jornalista membro do Partido Comunista Libanês a quem o PCP presta sentida homenagem), com a actuação impune de Israel prosseguindo a sua política de terrorismo de Estado contra o povo palestiniano e contra aqueles que com eles se solidarizam, ou ainda com a extremamente perigosa escalada contra o Irão a pretexto do alegado perigo nuclear, ignorando-se recentes e importantes passos da diplomacia como o acordo de troca de combustível nuclear entre Irão, Turquia e Brasil. 
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As acções e crimes dos EUA e NATO em toda a zona do Médio Oriente e Ásia Central, alguns das quais recentemente confirmados com a divulgação de documentos militares norte-americanos, configuram um perigosíssimo quadro numa das mais tensas regiões do Mundo, e desmascaram por completo as campanhas de reabilitação da imagem do imperialismo norte-americano e da NATO dos últimos dois anos. Não é com a profusão de matanças de civis e outros crimes de guerra, com o continuado apoio e fornecimento militar a vários países da região, Israel incluído, com a manutenção da ocupação do Iraque e a utilização de armas proibidas nesta guerra de agressão, com a intensificação da guerra no Afeganistão, com as crescentes ameaças ao Irão e agora ao Paquistão, com o descarado apoio à política de terrorismo de Estado e de provocação internacional de Israel, com o silêncio cúmplice face ao mais que provado arsenal nuclear israelita, que se pode contribuir para a paz na região.
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Se os EUA e NATO estivessem de facto interessados numa real política de desarmamento não usariam o artifício da instrumentalização do Tratado de Não Proliferação – cuja conferência de revisão se saldou por muita propaganda dos EUA mas por decisões muito limitadas – para servir a sua estratégia de pressões e ingerências contra países da região como o Irão e a Síria. Se EUA e NATO estivessem de facto interessados no desarmamento nuclear não insistiriam - como está previsto no que se conhece dos elementos centrais do novo conceito estratégico da NATO a ser aprovado na cimeira de Lisboa em Novembro - na manutenção de um poderosíssimo arsenal nuclear (num total combinado de mais de 10.000 ogivas nucleares) passível de ser utilizado em ataques militares, não insistiriam no estacionamento de armas nucleares norte-americanas em diversos países da Europa - numa acção que contraria frontalmente um dos três pilares do TNP – e não avançariam para decisões, como a recentemente tomada pelo Reino Unido, de vender tecnologia nuclear à Índia, País não signatário do Tratado de Não Proliferação. 
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Se por parte dos EUA e da NATO houvesse um real desígnio de desarmamento nuclear teriam então de começar por reduzir significativamente o seu próprio poderio nuclear, teriam que pôr fim às ocupações e às guerras de agressão numa das zonas mais instáveis do Mundo, teriam de garantir ao povo palestiniano o direito à sua pátria livre e independente e teriam que pressionar Israel a declarar e eliminar o seu arsenal nuclear, condição primeira e essencial para uma desejada, e há muito defendida pelas forças progressistas de todo o Mundo, Zona Livre de Armas Nucleares no Médio Oriente. 
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Mas tal não está a acontecer. E não acontece porque a questão nuclear, como o provou Hiroshima e Nagasaki não é separável da situação internacional e das opções de fundo do imperialismo. Não acontece porque, num período de intensa crise e de perda de peso relativo das principais potências capitalistas mundiais, o militarismo continua a afirmar-se como a outra face da globalização económica capitalista e a NATO confirma-se como a polícia de choque das principais potências capitalistas mundiais. Não acontece porque os EUA e a NATO instrumentalizam o direito internacional e usam as instituições internacionais como a ONU e o seu Conselho de Segurança, não para consertar posições, alcançar consensos e contribuir para o desanuviamento internacional, mas para impor os seus interesses e estratégia.
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É num quadro extremamente complexo e perigoso para os povos do Mundo e para a Humanidade que se realizará em Portugal a Cimeira da NATO. Prevista para Novembro deste ano, ela terá três objectivos essenciais: Amarrar os seus membros ao atoleiro militar em que se transformou a guerra do Afeganistão e à decisão de incrementar ainda mais os gastos militares com esta e outras guerras; Aprovar um novo conceito estratégico abertamente agressivo, de intervenção global da NATO sob qualquer pretexto, conferindo-lhe um leque de missões e objectivos que apontam para a sua sobreposição em relação à própria ONU, elevando-se assim este bloco Político-Militar a um novo patamar como instrumento de ingerência e de agressão a nível mundial; e por último envolver os membros da NATO no projecto de instalação de sistemas antimíssil na Europa, decisão que a ser concretizada representaria o fim do equilíbrio estratégico nuclear ainda existente entre as duas principais potências nucleares mundiais.
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E é neste quadro e tendo em conta o perigo que os objectivos da cimeira da NATO representam para os povos do Mundo que o PCP está fortemente empenhado em desenvolver, por ocasião desta cimeira em Portugal, um forte movimento popular de luta pela paz e contra a política militarista e agressiva da NATO. Política que infelizmente, e numa acção contrária ao sinal da Constituição da República Portuguesa, o Governo português apoia, como o demonstra aliás a decisão de receber mais uma cimeira da guerra no nosso País.
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65 anos depois de Hiroshima e Nagasaki, O PCP apela a todos os amantes da paz, aos trabalhadores, aos democratas, à juventude e ao povo português em geral que se mobilizem em torno da Campanha “Paz Sim, Nato Não” que congrega mais de 100 organizações e que face ao conclave do militarismo e da guerra em Portugal elevem bem a voz em defesa da paz, do desarmamento, da cooperação e da amizade entre os povos. Será a luta dos povos que melhor garantirá o sucesso da conhecida frase “para que nunca mais aconteça”.
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sexta-feira, agosto 06, 2010

Socorro Gomes: "65 anos nos separam de uma marcante tragédia"

Mundo

Vermelho - 5 de Agosto de 2010 - 8h03


A presidente do Conselho Mundial da Paz, Socorro Gomes, encontra-se no Japão, onde participa da Conferência Mundial contra as Armas Nucleares, na cidade de Hiroxima, e dos atos oficiais organizados por ocasião do 65º aniversário da explosão da bomba atômica, que transcorre em 6 de agosto. Nesta quinta (5), Socorro discursou em Hiroxima.

Leia abaixo a íntegra do discurso, na ocasião do transcurso dos 65 anos dos bombardeios nucleares pelos Estados Unidos da América (EUA) contra o povo japonês:

"Hoje, quando 65 anos nos separam de uma marcante e inesquecível tragédia para a humanidade, algumas simbólicas reminiscências brilham em nossa memória sob os céus da cidade de Hiroxima. Acompanha-nos, em sonora e solene circunstância, uma composição musical do ex-embaixador e poeta brasileiro Vinícius de Moraes, já falecido, ao lado de outro patrício, Gerson Conrad, sob o título “Rosa de Hiroxima”:


Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

O dramático apelo, que ganha substância nos versos do poeta tornou-se emblemático em inúmeros países. E também ofereceu sua singela contribuição, entre as muitas manifestações do espírito humano ofendido pelo genocídio atômico, para que se criasse uma consciência universal em oposição ao uso destrutivo da energia nuclear e ao seu monopólio pelas potências armadas, hegemonizadas pelos Estados Unidos da América.

E foi essa crescente consciência universal que conduziu a luta dos povos, ao longo de décadas, pela paz mundial, em oposição às guerras imperialistas promovidas em todos os continentes e movidas, sobretudo pelos interesses econômicos hegemonistas dos EUA. Isso foi marcante na segunda metade do século passado e cresceu, numa frequência amiúde, na primeira década do atual século 21, sobretudo com as invasões de países como o Afeganistão e o Iraque.

Em todos esses momentos, a chantagem nuclear teve seus desdobramentos, desde os ataques massivos genocidas sobre Hiroxima e Nagasaki. Em resposta a essa arrogância, também cresceu no mundo o clamor pelo desarmamento nuclear. O Conselho Mundial da Paz e todas as organizações que o integram estão engajados neste clamor e nesta luta.

Temos a convicção de que é possível dar passos concretos no sentido do desarmamento. O CMP tem atuado nesse sentido, tendo organizado importantes atividades e participado de outras, organizadas por diferentes movimentos, e de eventos oficiais no quadro das Nações Unidas.

Nosso propósito, ao promover e participar dessas atividades, consiste em ampliar a discussão sobre o assunto com a sociedade e conquistá-la para as atuais e futuras batalhas.

Vive em nossa memória o Apelo de Estocolmo, lançado pelo Conselho Mundial da Paz há 60 anos, quando ocorreu uma expressiva mobilização do movimento pacifista e alcançou-se 600 milhões de assinaturas. Hoje, consideramos que não é factível a não-proliferação sem desarmamento, visto que já existem os instrumentos para a não-proliferação sem que se tenham afirmado as medidas para o desarmamento.

Os EUA, com a pretensão hegemonista que consiste em estabelecer draconianas regras apenas para os demais países do planeta, se afirmam como o maior entrave ao desarmamento. Ao tempo que vedam a outros países os avanços tecnológicos, elevam seu orçamento militar para manter e modernizar suas armas nucleares.

A humanidade terá sempre as tragédias de Hiroxima e Nagasaki como espadas cravadas em seu espírito e na espinha dorsal do processo civilizatório, nos únicos ataques onde se utilizou armas nucleares. Prevalece a consciência de que, naquele momento, os povos foram abalados pela eclosão sem paralelos da destruição em massa. Historicamente, não se apresentou, até a atualidade, nenhum episódio que, de longe, fosse comparável a tanto terror. As estimativas do total de pessoas executadas em massa ultrapassam em muito as avaliações de 140 mil em Hiroxima e 80 mil em Nagasaki — em sua maioria, civis. São consideravelmente mais elevadas, essas estimativas, quando se contabiliza as mortes e mutilações congênitas posteriores, devidas à exposição à radiação.

Entretanto, ao longo das décadas que nos separam das tragédias assinaladas de Hiroxima e Nagasaki, os EUA demonstraram — do Vietnã ao Iraque e Afeganistão, entre as inúmeras guerras que engendrou de modo mais ou menos ostensivo e devastador — que não houve nação mais agressiva e desumana ao longo do processo do desenvolvimento histórico. Suas vítimas no mundo inteiro se contam aos milhões. Cresce também sua capacidade em criminalizar as nações vitimadas, desde as versões fantasiosas e caluniosas sobre “ameaças” que se inspiram no seu próprio terrorismo de Estado, a exemplo do que ocorre hoje em relação ao Irã.

Considerando a necessidade de desenvolvimento da tecnologia nuclear para fins pacíficos, da não proliferação das armas nucleares e do desarmamento, compartilhamos a opinião que os países não devem assinar o Protocolo Adicional ao TNP.

Os países não podem se submeter às pressões, ameaças ou chantagens que acenam com a possibilidade de uso da arma atômica contra quem não for signatário do tratado de não-proliferação em função de sua cláusula adicional. E devem se pronunciar criticamente quanto ao anúncio das novas orientações dos EUA sobre sua política nuclear. No TNP, o desarmamento é declaratório e, no caso da não-proliferação é mandatório, realçando desequilíbrio quanto aos interesses do conjunto dos 172 Estados-Parte.

O ambiente em que vivemos hoje esclarece nitidamente que as potências nucleares não se voltam para a proteção da humanidade, mas para a defesa dos seus interesses próprios quando anunciam — no caso dos Estados Unidos e Rússia — um acordo de redução dos arsenais nucleares. E são crescentes as evidências de que os tratados acerca das armas nucleares alcançam tão somente um desequilíbrio destinado a preservar a posição dos possuidores de poderosos arsenais, à frente os EUA, capazes de destruir a humanidade, tornando a vida mais vulnerável e o mundo mais perigoso e inseguro.

E isso apenas coonesta a tendência destrutiva predominante na história dos grandes impérios, indisfarçavelmente mais ameaçadores em defesa de sua hegemonia, em especial nos momentos de maiores dificuldades e crises, tornando-se mais ofensivos e beligerantes.

A manutenção dos grandiosos arsenais nucleares representa igualmente imensas despesas voltadas para a miniaturização, a alta precisão e a produção de cargas variáveis dessas armas para que sejam operacionais em guerras localizadas — único tipo de guerra imaginável desde a perversa destruição de Hiroxima e Nagasaki.

Os países — a esmagadora maioria dos Estados-Parte da ONU — prejudicados pela ação excludente do hegemonismo imperialista, devem buscar a ampliação do espaço da energia nuclear para fins pacíficos nas mesas de negociações, devidamente informados de que esta posição contraria os países armados, que se recusam a partilhar decisões quando o assunto é segurança.

Pois, sabemos que, nos bastidores dessas negociações, predominam formidáveis e fortíssimos interesses econômicos que se ocultam sob o tema da não-proliferação de armas nucleares para barrar o evento de novos pretendentes ao protagonismo no cenário econômico internacional.

A 8ª Conferência de Revisão do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares – TNP revelou que há muitas resistências à agenda das potências armadas contra a humanidade, mas os estados nucleares membros da Otan (EUA, Reino Unido, França), com o apoio ocasional da Rússia, reafirmaram, de modo arrogante, que a dissuasão nuclear persiste como especial estratégia de defesa das grandes potências.

Não obstante a reafirmação da política hegemonista na 8ª Conferência de Revisão do TNP, destacamos quatro aspectos sensíveis da resistência mundial entre as suas decisões, que, ainda acanhadas, exigem maior atenção:

  1. O debate do desarmamento nuclear persistirá, nos termos da correlação já desenhada, na Comissão de Desarmamento da ONU.
  2. A elaboração, ainda em perspectiva, de um instrumento juridicamente vinculante de garantias do não-uso ou ameaça de uso de armas nucleares contra os países desprovidos dessas armas.
  3. Uma resolução que convoca a realização de uma conferência, postergada para 2012, destinada a debater a implementação de uma Zona Livre de Armas Nucleares no Oriente Médio.
  4. Uma ainda tímida e insuficiente demanda para que Israel — o maior obstáculo à construção da paz na região, que chegou a vender armas nucleares ao regime do apartheid da África do Sul — se incorpore ao TNP e coloque seus arsenais sob vigilância da AIEA.
Neste concerto da resistência mundial, consideramos, enfim, que deve persistir a luta pelo direito inalienável de cada Estado-Parte de desenvolver tecnologia nuclear para fins pacíficos e em defesa da completa eliminação dos arsenais nucleares.

Companheiras e companheiros, senhoras e senhores, vivemos em um mundo mergulhado em profundas crises econômicas e sociais, que geram grandes conflitos. As contradições interimperialistas e de classes podem redundar em maiores tensões e conflitos armados. O imperialismo norte-americano e seus aliados da Otan preparam desenfreadamente planos de intervenções e guerras nas diversas regiões do mundo que podem ter efeitos trágicos para as soberanias nacionais e aos direitos dos povos e ameaçar a própria sobrevivência da humanidade.

A aprovação de novas sanções ao Irã no Conselho de Segurança da ONU, e a imposição de sanções unilaterais adicionais pelos EUA e pela União Européia, visam à manutenção do atual sistema de poder mundial, caracterizado pela hegemonia dos EUA,

As estratégias militar e de segurança nacional dos EUA mantêm seu caráter agressivo e contrariam a retórica de cooperação e multilateralismo. Essas estratégias consistem em planos para impor principalmente pela força e se necessário pela guerra os interesses hegemônicos dos EUA. Segundo essas novas estratégias, os EUA, alegando a prioridade para a prevenção da proliferação nuclear, autorizam a si mesmos, em nome dos seus “interesses vitais” ou de seus aliados, como Israel, a realizar um ataque com armas nucleares, em condições “extremas”, contra qualquer país. Na verdade, é a continuidade da política de “guerra preventiva” e de “guerra infinita” de George Bush. Em outras palavras, manter o poder dos EUA pela força militar, custe o que custar à humanidade.

Os EUA investirão em 2011, 780 bilhões de dólares em suas forças armadas, orçamento recorde desde o final da Segunda Guerra que supera em 49% o orçamento de 2000, e que é maior que os gastos militares somados de todos os demais países do mundo. Os EUA insistem em manter bases militares por todo o globo terrestre, em todos os mares e oceanos. Ultimamente têm intensificado a instalação de tais bases na América Latina, na África, no Oceano Índico e na Ásia Central.

Os EUA e a Otan se capacitam para o que chamam de “Ataque Global Imediato Convencional”. Com a nova estratégia da Otan, que passará a atuar em todos os continentes e mares, até as Ilhas Malvinas e outros territórios próximos da América do Sul, são reais ou potenciais bases militares da aliança agressiva. As forças especiais dos EUA, especializadas em ações clandestinas de guerra, em missões de inteligência, subversão e “desestabilização”, já operam em 75 países, sendo que há um ano estavam em 60 países. “O mundo é o campo de batalha”, disse um alto oficial das forças especiais estadunidenses.

A preparação da agressão ao Irã se intensifica. Para o imperialismo é preciso conter o Irã, reforçar o poderio de Israel a fim de não comprometer o seu controle na região do Oriente Médio e da Ásia Central. EUA e Israel se preparam para uma possível intervenção militar, deslocando forças navais através do Canal de Suez rumo ao Golfo Pérsico, próximo às costas marítimas iranianas. Negociam com a Arábia Saudita o uso do espaço aéreo em eventuais bombardeios.

O roteiro dos EUA é similar ao da guerra contra o Iraque, com pressões diplomáticas, medidas cerceadoras na ONU, campanha midiática com base em falsidades, a alegação de eventual descumprimento das sanções, e o acionar do plano de intervenção militar, direta ou através de Israel. Muitas lideranças políticas, intelectuais e especialistas no tema militar, inclusive nos EUA, levantam a possibilidade da guerra contra o Irã ser “a guerra de Obama”, assim como a guerra do Afeganistão e do Iraque foram as guerras de Bush, que Obama continua.

Na Ásia Central e no Oriente Médio, região estratégica para o domínio imperialista global, os EUA e seus aliados da Otan aumentam seus efetivos militares no Afeganistão, prolongam a guerra e prorrogam a ocupação militar no Iraque e adotam medidas para instalar bases militares na Ásia Central.

Os EUA e Israel ameaçam a Síria e as forças patrióticas no Líbano, sustentam a ocupação na Palestina e o bloqueio criminoso contra a Faixa de Gaza, que a flotilha humanitária, covardemente atacada pelos militares israelenses, tão bem denunciou.

No leste da Ásia os EUA realizaram recentemente, em conjunto com a Coreia do Sul, manobras militares de grande porte na Península Coreana. Em seguida acusaram o governo norte-coreano de afundar um navio de guerra sul-coreano, quando surgem fortes suspeitas de que as próprias forças militares e de inteligência ianques teriam colocado uma mina na embarcação para criar artificialmente uma tensão com a República Popular Democrática da Coreia e tentar isolá-la internacionalmente. Há duas semanas, acentuaram-se os traços agressivos da ação estadunidense na região, com a realização de novas manobras militares na Península e a adoção de novas sanções contra a Coreia do Norte.

Além desses objetivos, os EUA, depois de fortes pressões, conseguiu a manutenção das bases militares em território japonês, em especial a base de Okinawa.

Um pacto entre os governos da Índia e dos Estados Unidos para, nas palavras deles, "conter o terrorismo" foi assinado em 23 de julho em Nova Delhi.

Segundo o pacto, os serviços de segurança e inteligência dos dois países serão compartilhados, em áreas como a segurança marítima, grandes eventos e na "luta conjunta em bases globais contra um inimigo comum, o terrorismo". Esta é mais uma demonstração do intervencionismo norte-americano e da preparação de medidas antidemocráticas em nome da “luta contra o terrorismo”.

Na América Latina recrudescem as pressões contra a Revolução Cubana, a Revolução Bolivariana da Venezuela e os processos democráticos, populares e antiimperialistas em toda a região. Após a reativação da 4ª Frota, os EUA instalam novas bases militares, como em Honduras, onde ajudaram a promover um golpe de estado. A pretexto de ajuda humanitária ao Haiti, após o terremoto no início deste ano, forças militares estadunidenses com mais de 15 mil soldados desembarcaram no país.

Nos últimos dias mais de sete mil soldados, 46 navios de guerra, porta-aviões, submarinos e helicópteros dos EUA instalaram-se em bases na Costa Rica, supostamente para combater o narcotráfico. O governo colombiano que fez um pacto militar com os Estados Unidos e mantêm em seu território sete bases militares em convênio com Washington, segue a linha traçada pelos EUA de tornar o país uma Israel da América Latina e do Caribe.

A resistência dos povos e países oprimidos está impondo derrotas ao imperialismo, no Oriente Médio, na Ásia Central e em outros cantos da Terra. Na América Latina, continuam a florescer as forças populares, democráticas e antiimperialistas.

As recentes provocações do governo colombiano contra a Venezuela obedecem a um plano ardiloso e sinistro de Washington. Os Estados Unidos têm interesse na guerra e buscam criar as condições para uma conflagração na região.

O mundo, e em especial a América Latina, vivem um momento de transição e mudança. Na América Latina foram eleitos vários governos progressistas que, embora em graus diferenciados, contestam a hegemonia norte-americana e buscam abrir caminho para um desenvolvimento soberano e a integração política e econômica da região.

Com a economia em frangalhos e num processo histórico de decadência, os EUA recorrem ao poder militar, terreno em que sua superioridade é incontestável, como último recurso para manter o domínio sobre o mundo. A guerra é, hoje, o principal instrumento do imperialismo. Isto explica um orçamento militar que corresponde à metade dos gastos bélicos do resto do mundo e foi ampliado apesar da crise (agravando os desequilíbrios financeiros e o déficit do governo imperial), bem como a crescente agressividade contra os povos.

Não devemos subestimar o que está ocorrendo na América Latina e no mundo. São graves as ameaças à paz.

Ao mesmo tempo, há razões para o otimismo histórico. Em todas as partes,os povos se movimentam e lutam, opõem-se às tendências de atirar sobre os ombros dos trabalhadores os efeitos da crise, resistem aos golpes e ameaças de guerra, rechaçam as políticas intervencionistas do imperialismo e em muitos casos, avançam na obtenção de conquistas democráticas e patrióticas. Espraia-se a convicção de que é necessário lutar por um novo ordenamento político e econômico mundial. Cada vez mais, o espírito da época é o da luta antiimperialista, da união de amplas forças da democracia, do progresso, da independência nacional e da paz.

A fraternal presença do CMP no Japão, no transcurso do 65º aniversário dos bombardeios nucleares é uma manifestação de solidariedade com o povo japonês e da unidade do movimento pela paz no mundo. É uma ocasião propícia à reflexão e à organização da luta antiimperialista e pela paz. Renovamos a esperança de que conquistaremos, no presente, o futuro da paz, harmonia e prosperidade social no Japão e em todo o mundo.

A paz mundial, a soberania nacional e o progresso social nunca foram tão necessários à humanidade.

Muito obrigada,
Socorro Gomes,
Presidente do Conselho Mundial da Paz
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Hiroshima e Nagasaki relembram 65 anos de ataque dos EUA

Mundo

Vermelho - 5 de Agosto de 2010 - 8h04

Em 2010 se comemora o 65º aniversário da vitória sobre o nazi-fascismo, um feito de luta e de resistência aos povos que pôs um fim a um período de terror que marcou a história recente da humanidade. Esse aniversário também está associado, mas não por boas razões, ao primeiro bombardeio atômico de duas cidades. As japonesas Hiroshima e Nagasaki foram as primeiras vítimas da nova arma.

Por Humberto Alencar

Na manhã de 6 de agosto de 1945, Hiroshima foi a primeira cidade do mundo arrasada por um ataque nuclear: 140 mil pessoas foram mortas instantaneamente e dezenas de milhares morreram ao longo dos anos em consequência da ação letal da radiação deixada pela explosão.

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Três dia depois seria a vez de Nagasaki presenciar o desfecho de um dos crimes mais hediondos cometidos contra a Humanidade. Mais de 80 mil pessoas foram desintegradas pela explosão atômica de imediato. Os Estados Unidos haviam arrasado completamente duas cidades japonesas sem importância estratégica militar que justificasse um ataque.

A guerra no Pacífico já se encontrava em seus momentos finais. Em julho daquele ano o governo japonês já estudava as condições para a rendição, já que o país se encontrava praticamente cercado, desabastecido e destruído por sucessivos ataques aliados.

O Projeto Manhattan, que planejou e concretizou a nova arma, tinha sido concebido originariamente como um contra-ataque ao programa da bomba atômica da Alemanha nazista. Com a derrota da Alemanha, vários cientistas que trabalhavam no projeto consideraram que os EUA não deveriam ser os primeiros a usar tais armas. Um dos críticos proeminentes dos bombardeios foi Albert Einstein.

Com extrema hipocrisia, o imperialismo justifica o seu crime afirmando que poupou vidas que seriam perdidas com uma eventual invasão do Japão. O processo de revisão da História, em curso atualmente, investe na diminuição do significado e do impacto desse ato terrorista, omitindo o nome dos seus autores e diluindo os motivos reais que levaram à execução do crime.

A verdade de Hiroshima e Nagasaki tem a sua raiz na manifestação demente de poderio militar dos Estados Unidos diante do mundo, em particular diante da União Soviética, potência aliada vencedora da Segunda Guerra Mundial, procurando desta forma submeter o mundo e os povos, através da chantagem nuclear, às suas pretensões hegemônicas.

Antes de deflagrar o ataque, vários cientistas defendiam que o poder destrutivo da bomba poderia ser demonstrado sem causar mortes. Esses cientistas não foram ouvidos. A situação militar e estratégica do Japão era tão frágil que até mesmo setores do exército americano reconheciam, em um estudo, que a explosão das duas bombas foi desnecessária.

O United States Strategic Bombing Survey escreveu, após ter entrevistado centenas de japoneses civis e líderes militares, depois da rendição do Japão: "Baseado numa investigação detalhada de todos os fatos e apoiados pelo testemunho dos sobreviventes líderes japoneses envolvidos, é a opinião da Survey que, certamente antes de 31 de dezembro de 1945, e, em todas as probabilidades, antes de 1.º de novembro de 1945, o Japão ter-se-ia rendido mesmo se as bombas atômicas não tivessem sido lançadas, mesmo se a Rússia não tivesse entrado na guerra e mesmo se a invasão não tivesse sido planejada."

O bombardeio

Na madrugada de 6 de Agosto de 1945 o bombardeiro B-29, pilotado pelo coronel Paul Tibbets, decolou da base aérea de Tinian no Pacífico Ocidental, a aproximadamente 6 horas de voo do Japão. A aeronave chamava-se Enola Gay, nome da mãe do piloto.

A meteorologia determinou a escolha do dia 6. No momento da decolagem, o tempo estava bom. O capitão da Marinha William Parsons armou a bomba durante o voo, desarmada durante a decolagem para minimizar os riscos. O ataque foi executado de acordo com o planejado e a bomba de gravidade, uma arma de fissão de tipo balístico com 60 kg de urânio-235, comportou-se como esperado.

Inicialmente, o alvo seria Quioto, ex-capital e centro religioso do Japão, mas o secretário da Guerra, Henry Stimson, trocou-o por Hiroshima, por ser uma cidade situada entre montanhas, detalhe que amplificaria os efeitos da explosão.

O avião aproximou-se da costa a mais de 8 mil metros de altitude. Cerca das 8h, o operador de radar em Hiroshima concluiu que o número de aviões que se aproximavam era muito pequeno não mais do que três, provavelmente - e o alerta de ataque aéreo foi levantado.

Os três aviões eram o Enola Gay, o The Great Artist (em português, "O Grande Artista") e um terceiro avião que no momento não tinha batismo mas que mais tarde seria chamado de Necessary Evil ("Mal Necessário"). O primeiro transportava a bomba, o segundo tinha como missão gravar e vigiar toda a missão, e o terceiro foi o avião encarregado de fotografar e filmar a explosão.

Às 8h15, o Enola Gay largou a bomba nuclear sobre o centro de Hiroshima. Ela explodiu a cerca de 600 metros do solo, com uma explosão de potência equivalente a 13 mil toneladas de TNT, matando instantêneamente um número estimado de 70.000 a 80.000 pessoas e destruindo mais de 90% das construções da cidade.

Nagasaki foi atingida no dia 9 de agosto, às 11h02 da manhã. Inicialmente o plano era de jogar a bomba sobre Kokura, em Fukuoka. Mas o tempo nublado impediu que o piloto visualizasse a cidade, escolhendo a segunda opção. Os americanos não consideravam Nagasaki "um alvo ideal" porque a cidade é rodeada por montanhas, o que diminuiria a devastação de gente e de edifícios.

A bomba, chamada Fat Boy, era de plutônio 239, com potência equivalente a 22 mil toneladas de TNT, ou seja, 1,5 vez mais potente que a bomba jogada sobre Hiroshima.

As forças de ocupação dos EUA censuraram as fotos das cidades bombardeadas. Elas foram classificadas como secretas por muitos anos. O governo dos Estados Unidos queria impedir que as imagens do horror fossem vistas pelo mundo.

Símbolo da luta pela paz

O viajante que chega à moderna e povoada cidade de Hiroshima fica maravilhado com os grandes e suntuosos edifícios, hotéis e bem delineadas avenidas por onde passam milhares de veículos.

No entanto, no meio deste turbilhão deslumbrante, o visitante não pode esquecer que se encontra na primeira cidade praticamente volatizada pelo afã dos Estados Unidos de dominar o mundo.

Este impacto é recebido quando se visita e percorre o Parque da Paz, o Museu das Vítimas e a chama eterna adiante do cenotáfio negro que inscreve os nomes das vítimas do genocídio da Casa Branca para chantagear o mundo dia 6 de de agosto de 1945.

A presidente do Conselho Mundial da Paz, Socorro Gomes, que está no Japão participando dos eventos em memória da tragédia, descreve por e-mail enviado à redação do Vermelho a sensação que teve ao visitar o Museu das Vítimas e o Parque da Paz: "O que os EUA fizeram não tem perdão. As pessoas derretiam literalmente. Não é aceitável o imperialismo continuar cometendo crimes contra a humanidade, como fez em Hiroshima e Nagasaki há 65 anos e recentemente em Faluja, no Iraque".

"O uso das armas de destruição em massa, além das mortes instantâneas, faz com que até a terceira geração as pessoas nasçam com mutações genéticas, sem olhos, sem órgãos, outros com cancer generalizado", relatou.

"É incrível que os EUA continuam impunes e falando em combate ao terrorismo! Os maiores terroristas da humanidade são eles! Eu fiquei estarrecida, só de ver as fotos. É inesquecível!" protestou Socorro.
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segunda-feira, agosto 10, 2009

Hirochima lembra aniversário de bomba atômica




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Com o tradicional minuto de silêncio, voo de pombas brancas e uma conclamação à paz, Hirochima relembrou nesta quinta-feira o 64º aniversário de sua destruição nuclear pelos Estados Unidos, no primeiro ataque do tipo no mundo.


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A bomba atômica lançada sobre a populosa cidade do oeste japonês, em 6 de agosto de 1945, foi seguida por uma segunda, três dias depois, em Nagasaki, onde morreram 70 mil pessoas.

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Mais de 50 mil pessoas estiveram presentes ao ato, inclusive sobreviventes (hibakusha) do holocausto, participando da cerimônia de homenagem realizada a poucos metros da Cúpula de Genbaku, um salão de exposições do qual restou apenas o domo e sua estrutura calcinada, único edifício que se manteve de pé após a explosão da bomba.

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O primeiro ministro Taro Aso e integrantes de seu gabinete estavam presentes também, assim como os representantes de cerca de 60 países, ante o monumento de granito dedicado aos 140 mil mortos pelo artefato jogado pelos Estados Unidos, quando os militaristas japoneses já estavam praticamente derrotados, no final da Segunda Guerra Mundial.

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Décadas depois desse massacre, milhares de pessoas morrem a cada ano por causa dos efeitos da radiação, que gera enfermidades como a Leucemia ou outros tipos de câncer, cujos nomes são inscritos então no monumento de granito negro.

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Em um breve discurso, o prefeito de Hirochima, Tasatoshi Akiba, defendeu a abolição das armas nucleares até o ano de 2020 e assegurou que os "hibakusha" seguem sofrendo um inferno.

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Akiba pediu ao governo japonês apoio aos hibakusha, inclusive aos que foram vítimas da chuva negra e aos que vivem no exterior.

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Taro Aso reiterou por sua vez a promessa de que o Japão acatará firmemente os três princípios anti-nucleares e liderará a comunidade internacional para conseguir o objetivo de abolir as armas atômicas e conseguir uma paz duradoura.

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Entretanto, Aso admitiu em uma coletiva de imprensa que um mundo sem armas nucleares só pode existir se todas as bombas desse tipo desaparecerem "de uma só vez" do planeta.

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Sustentou que, em circunstâncias normais, é inimaginável e não é justo crer que, se alguém as abandonar unilateralmente, os outros as abandonarão também.

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Agência Prensa Latina
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in Vermelho - 6 DE AGOSTO DE 2009 - 20h16
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segunda-feira, agosto 11, 2008

Hiroshima e Nagasaqui - 63 anos dum Crime sem Castigo



Os imprescindíveis…

Assinala-se nos próximos dias 6 e 9 de Agosto a passagem de 63 anos sobre o criminoso bombardeamento atómico pela força aérea norte-americana das cidades de Hiroshima e Nagasaki. Relembrar o holocausto nuclear em cada ano que passa não é uma rotina ou tradição. É sobretudo um grito de alerta para que não se esqueça um dos mais hediondos crimes cometidos pelo imperialismo norte-americano.
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Nunca é demais lembrar que tal crime não correspondeu a qualquer estratégia militar para a vitória dos aliados na II guerra mundial. A rendição da Alemanha Nazi estava já assinada e a derrota militar do Japão era já um dado adquirido. Por mais que o imperialismo tente na actualidade reescrever a História e branquear alguns dos seus maiores crimes, é impossível ocultar que a decisão do uso da arma nuclear contra civis pela primeira vez na história da Humanidade serviu essencialmente para os EUA afirmarem o seu poderio militar e capacidade destruidora e para sinalizar uma política de crescente confrontação com a União Soviética.

Relembrar Hiroshima e Nagasaki é alertar e relembrar que o imperialismo, acossado pelas suas próprias contradições, pelos seus limites históricos e pela resistência dos trabalhadores e dos povos, pode, se não for travado, não olhar a meios para atingir fins, e reagir violentamente. Recordar o crime nuclear é assim chamar a atenção para os perigos que hoje ameaçam os povos do mundo. Instabilidade, insegurança, militarismo e guerra são aspectos centrais da evolução da situação internacional. Os valores de gastos militares por parte das principais potências imperialistas atingem os maiores valores de sempre desde o fim da II Guerra Mundial e a esmagadora maioria das armas nucleares existentes no mundo, cerca de 26.000 segundo dados da ONU, com capacidade para destruir toda a Humanidade, estão maioritariamente concentradas num pequeno punhado de potências da NATO e seus aliados, responsáveis, directa ou indirectamente, pela quase totalidade dos conflitos militares da actualidade que continuam a levar a destruição e a morte a várias regiões do globo.

Sucedem-se as manobras e decisões que aprofundam o carácter militarista das relações internacionais. No próprio Japão, vítima primeira do crime nuclear, reescreve-se a história, ignora-se o sofrimento daqueles que ainda hoje são obrigados a conviver com os efeitos da radiação, revê-se a constituição, tradicionalmente pacifista, e avança-se na remilitarização e na consideração da hipótese, pela primeira vez na história do pós-guerra deste país, da sua participação em missões militares estrangeiras.
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63 anos depois de Hiroshima e Nagasaki os tambores de guerra continuam a soar. As guerras, as ameaças e as ingerências multiplicam-se em vários pontos do globo. Avança-se com a instalação do chamado sistema anti-míssil na Europa, com o AFRICOM em África e com a reactivação da IV Esquadra norte-americana na América Latina. No Médio Oriente e Ásia Central paralelamente à subida de tom das ameaças ao Irão - numa hipócrita política de «pau e cenoura» em torno do dossier nuclear - a realidade demonstra como vazios e hipócritas foram os discursos sobre o chamado «processo de paz» na Palestina e como se ensaiam soluções militares tipo «keynesianas» no Iraque ao mesmo tempo que se prepara o terreno para intensificar a chacina no Afeganistão.
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«O capitalismo traz a guerra como a nuvem traz a tempestade». As palavras de Lenine continuam a ter uma actualidade gritante. Mas, como no seu tempo, hoje há também aqueles que não se rendem e que prosseguem a luta. Esses continuam a ser os «imprescindíveis» que Brecht tão bem soube evocar.







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ver

Agosto - Mais Brilhante que Mil Sóis

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Reaberto em 3 de Março - Brecht e a Poesia

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quinta-feira, agosto 09, 2007

Crimes Contra a Humanidade (2) - Hiroshima e Nagasaki

PARA QUE A HISTÓRIA NÃO ESQUEÇA
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Passaram-se 62 anos...
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* José Gomes
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Há 62 anos um avião americano chamado "Enola Gay", voando sobre Hiroshima, no Japão, lançou uma bomba atómica que detonou a 580 metros acima do Hospital Shima, próximo do centro da cidade. Eram 8,15 horas da manhã do dia 6 de Agosto de 1945 e os habitantes de Hiroshima estavam a começar o seu dia...
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O piloto viu com espanto, antes de regressar à base, um cogumelo de chamas a erguer-se no céu. .
Em poucos segundos, como resultado do ataque, da cidade de Hiroshima apenas ficaram ruínas fumegantes. Naquele dia cerca de 100 mil pessoas morreram...No dia 9 de Agosto de 1945 (três dias depois), às 11,02 horas da manhã, a cidade de Nagasaky foi varrida do mapa por uma bomba de plutónio, detonada a 503 metros acima da cidade. Morreram de imediato 74.000 pessoas e, mais tarde, este número aumentou pois, dos 40.000 feridos, muitos não resistiram às queimaduras, feridas que não fechavam e à exposição às radiações.
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Nagasaky – 9 de Agosto de 1945 – Palavras para justificar o quê?...
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“Os dedos queimavam com chamas azuis, estavam reduzidos a um terço do seu tamanho natural e retorcidos. Um líquido negro escorria da mão e caía no solo” – Akiko Takahura, testemunha ocular.
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Ontem como hoje, desde que o homem se conhece como tal, a guerra sempre serviu para satisfazer os seus ideais megalómanos… todos os meios justificam estes fins! — sejam eles de cariz religioso, humanitário ou, simplesmente, intimidatório!....

Para que a memória colectiva dos povos não esqueça, deixo-vos com este registo:
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1 – A construção e desenvolvimento da bomba atómica, denominada “Projecto Manhattan” (1942 – 1946), teve lugar em Los Álamos no deserto do Novo México; a bomba que foi lançada sobre Hiroxima era de Urânio-235 e a de Nagasaki de Plutónio;
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2 – Ao fazerem a análise ao teste efectuado no deserto de Los Álamos e ao aperceberem-se das consequências da arma que tinham criado, os cientistas do “Projecto Manhattan” fizeram uma petição para anular a utilização destas bombas no Japão. Esta veio a “desaparecer” na gaveta do general Leslie Groves, supervisor do referido “Projecto”, em conivência com o secretário de estado James Byrnes;
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3 – O presidente Truman assinou a ordem de lançamento;
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4 - Na altura da explosão encontravam-se em Hiroshima 24 americanos. Apenas cinco sobreviveram, mas por pouco tempo: três foram linchados e os outros dois morreram onze dias depois, vítimas da radiação...
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Entre os críticos do uso das armas nucleares em Hiroshima e Nagasaki estão líderes militares americanos. Numa entrevista após a guerra o General Eisenhower, que mais tarde viria a ser presidente dos EUA, disse a um jornalista:
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- (...) os japoneses estavam prontos para se renderem e não havia necessidade de os atacar com aquela coisa terrível.
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- O Almirante William D. Leahy, chefe do grupo de trabalho de Truman, escreveu: - “Na minha opinião o uso desta arma bárbara em Hiroshima e Nagasaki não ajudou em nada na nossa guerra contra o Japão. Os japoneses já estavam vencidos e prontos a se renderem... Sinto que sendo os primeiros a usá-la, nós adoptamos o mesmo código de ética dos bárbaros na Idade Média (...) As guerras não podem ser ganhas destruindo mulheres e crianças...”6 e 9 de Agosto – dias em que o Japão chora e lembra os seus mortos vitimados por uma energia que deveria estar ao serviço da Humanidade.
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6 e 9 de Agosto – dias em que toda a Humanidade deve recordar para que tais actos nunca mais se voltem a repetir.
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O Homem para sobreviver como espécie teve de aprender a caminhar; o Homem se quiser sobreviver como espécie terá de aprender a compreender e, sobretudo, a Amar o Mundo e todos os Seres que nele vivem.
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Sobre este tema há uma versão musical - "Rosa de Hiroshima"- poema de Vinicius de Moraes - interpretação: Ney Matogrosso e Secos & Molhados

quarta-feira, agosto 08, 2007

Crimes contra a Humanidade (1) - Hiroshima e Nagasaki

A morte em dias de céu azul e triste: um testemunho pessoal

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Por JUN IWATA
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Jun Iwata é professor de inglês na Mukogawa Women's University em Nishinomiya, Japão; doutorando em literatura americana, e está escrevendo sua tese sobre Saul Bellow
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[Tradução: Eva P. Bueno]
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Quando uma bomba atômica foi jogada na cidade de Hiroshima e explodiu a uma altura de 570 metros acima do solo, eu tinha seis anos de idade, e morava na prefeitura de Yamaguchi, que fica ao lado de Hiroshima. Como se sabe, todos os homens adultos daquelas cidades tinham sido forçosamente recrutados e despachados para outros lugares para participar naqueles últimos dias de desesperada luta; por esta razão, uma grande parte das vítimas em Hiroshima eram bebês, crianças, adolescentes, donas de casa, e velhos. 140.000 pessoas foram mortas instantaneamente pela bomba, e o número dos mortos se calcula que eventualmente totalizou 250.000 (de acordo com o relatório oficial feito pela cidade de Hiroshima em 1950). Centenas de feridos morreram anualmente de doenças causadas pela radiação nos vários anos seguintes.
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No dia 6 de agosto de 1945, às 8:15 da manhã, uma enorme bola de fogo, muito mais brilhante que o sol, com a extrema temperatura de calor de quase 10 milhões de graus Celsius no seu centro, e com a pressão explosiva várias centenas de milhares de vezes mais forte que a pressão normal do ar, explodiu e arrasou a parte central de Hiroshima. A explosão aplainou a cidade de Hiroshima em um raio de 5 km, matando instantaneamente todas as criaturas vivas dentro de um raio de 8km. Onde os raios de calor bateram diretamente, a superfície de tudo derreteu no momento – madeira, cimento, aço, e até mármore – se tornaram líquidos com o extremo calor. Algumas pessoas simplesmente evaporaram, deixando nas calçadas ou nos degraus de pedra somente suas sombras, a única marca da sua efêmera existência neste mundo. Algumas pessoas foram torradas como carvão. Algumas cambalearam até os rios com as peles dos seus rostos despencando, quase caindo completamente; outros se arrastaram com a pele das suas costas caindo aos pedaços. Quase todos aqueles feridos morreram assim que chegaram a um rio e beberam da água. Milhares de corpos inchados flutuaram rio abaixo, e este ficou literalmente coberto de cadáveres que se tocavam, ombro a ombro.
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Nós soubemos mais tarde, através de vários meios, sobre estes incidentes infernais e sobre todas aquelas mortes. Eu soube sobre alguns destes horrores pessoalmente, porque os vi com meus próprios olhos. Mesmo depois de tantos anos eu não posso olhar para aqueles lugares onde aconteceram aquelas coisas horríveis sem sentir uma dor no coração. O que eu sinto é descrito muito bem num trecho de um famoso romance baseado em fatos, Chuva Negra, de autoria de Masuji Ibuse:
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Eu notei que estava chegando ao lugar que eu nunca mais queria ver. Havia um poço com água usada para combater fogo, bem ao lado da estrada, e três mulheres estavam flutuando na água do poço, mortas, quase nuas, com as faces voltadas para baixo, mas com a cintura acima da superfície. Das nádegas de uma dela, os intestinos haviam saído em uma extensão de mais de um metro, e estavam inchados como um tubo fino que tivesse sido enchido de ar até chegar a uns 10 cm de diâmetro. Assim como se fossem um balão circular em cima da água, os intestinos da mulher se moviam ao vento pra lá e pra cá.
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Quando eu tinha pouco mais de 6 anos de idade, eu também fui forçado a ver uma cena similar, a confrontar um horror como este com meus próprios olhos. Mas aquele incidente aconteceu muito mais tarde que aquelas tragédias em Hiroshima e Nagasaki.
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Quando as atrocidades infernais aconteceram em Hiroshima, eu era um aluno de primeiro ano primário, e estava brincando no pátio, mas perto da nossa casa de refúgio para evitar ser atacado por balas de metralhadora vindas do ar. Naquele tempo, e já por vários meses, muitos aviões B-29 circulavam, com grandiosidade e mesmo solenidade, acima das nossas cabeças dia e noite, porque as forças armadas japonesas tinham perdido o controle do ar há muito tempo. Por mais ou menos quatro meses depois de minha entrada na escola primária, nós éramos avisados por sirenes quase todos os dias, e tínhamos que voltar para nossas casas imediatamente, porque um ataque aéreo era iminente.
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E finalmente, aproximadamente um mês antes do ataque a Hiroshima, no meio de uma noite nós tivemos um grande ataque aéreo com bombas incendiárias. O nosso pai, que era o capitão de uma balsa cargueira, estava sempre de plantão. Os membros da nossa família – minha mãe com um bebê amarrado nas costas, o meu irmão mais velho e eu – nos refugiamos rapidamente em uma montanha localizada a cinco minutos de distância a pé, da nossa casa. As forças armadas japonesas tinham um modesto posto de defesa contra aviões nesta montanha.
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Quando nós chegamos ao largo caminho de terra, depois de subirmos um trecho íngreme cheio de vegetação, nós fomos subitamente jogados al longe por um vento muito forte, e eu me encontrei caído de costas contra a minha mochila. Sem saber o que tinha nos acontecido, eu olhei à minha volta e vi que meu irmão estava tentando lutar contra o fogo na sua roupa e nos seus braços, e minha mãe desesperadamente tentando ajudá-lo. Estranhamente, naquele momento me pareceu que os fogos no meu irmão pareciam que o estavam acariciando. Eu não pude mover-me; calmamente olhei para cima e vi que as grossas folhas de verão estavam devagarinho começando a pegar fogo acima da minha cabeça, contra o céu escuro. Eu não podia ouvir nada. Eu conscientemente pensei que tudo me fazia sentir como se eu estivesse muito tranqüilamente deitado na minha cama.
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O que aconteceu foi que um grande grupo de bombas incendiárias tinha caído a cinco metros de nós. Nós soubemos disto quando re-visitamos o lugar no outro dia, curiosos para saber exatamente o que tinha acontecido. Nós ainda pudemos ver um buraco enorme e fundo no meio da estrada. Esta foi a minha primeira experiência de quase morrer, e eu não tive medo.
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Aquela noite, nós assistimos, cobertos pelas grandes árvores, uma enorme formação de aviões B29 flutuando lindamente nas luzes dos refletores, de vez em quando despejando pontinhos luminosos de bombas que saíam das suas fuselagens. As bombas caíam ao chão fazendo um rastro com linhas horizontais brancas como aquelas de uma página de caderno iluminado contra o negro do céu da noite.
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A nossa casa, localizada ao pé da montanha, pegou fogo imediatamente e queimou num instante. Eu, como era um menino curioso, vi a minha casa queimando e achei que ela era bonita, com suas linhas brancas e claras mostrando a armação da nossa casa como uma pintura desenhada a fogo. Eu não estava com medo, nem triste, porque todos os vizinhos também perderam suas casas no mesmo ataque aéreo.
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Depois deste incidente, nós recebemos ordens de nos juntarmos todos em uma casa de refúgio em grupos de duas ou três famílias, e desde então passamos a viver juntos, compartindo os poucos quartos. Para mim, foi uma alegria morar com meus amigos da vizinhança e seus pais debaixo do mesmo teto, embora nós tivéssemos só um pouco de comida racionada.
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E assim que começamos a viver nestas circunstâncias, o fim do mundo veio no dia 6 de agosto em Hiroshima. Na tarde ou no começo da noite nesse mesmo dia, vários dos pais e um par de velhinhos se juntaram em um canto de uma sala e começaram a falar animadamente, em voz baixa, sobre alguma coisa muito séria. Como eu era muito curioso, eu fui para perto deles, e escutei do que estavam falando.
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Tudo o que eu pude ouvir foi que uma nova e horrível bomba tinha sido jogada em Hiroshima aquela manhã, e que um enorme número de pessoas tinha morrido imediatamente. Mas, de acordo com algumas informações, o alvo inicial teria sido a nossa própria cidade, Shimonoseki, ou Kokura, uma cidade vizinha separada da nossa por um canal marítimo. Ambas cidades têm muitas fábricas e uma população considerável, além de pessoal das forças armadas.
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Então, nós pensamos, muito provavelmente logo o inimigo vai jogar outra bomba em nós ou em Kokura. Nos disseram que a nova bomba parecia um balãozinho oscilando e descendo vagarosamente no céu limpo, e de repente o balãozinho virou um sol brilhante que queimou e explodiu tudo. Então alguém chamou esta bomba de “bomba-balão”. Todos os que estavam ouvindo assentiram com a cabeça, concordando, porque nós, mesmo as crianças, sabíamos que as forças aliadas e nós japoneses estávamos competindo para inventar uma bomba-balão muito destruidora. E com esta informação sobre Hiroshima, nós tínhamos que admitir que tínhamos perdido a competição. Assim, nós também pensamos, agora é só uma questão de tempo para todos nós morrermos juntos, talvez dentro de um ou dois dias.
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Eu memorizei o nome, “bomba balão” e queria muito ver uma caindo do céu azul. Eu entendia muito bem que o momento que eu visse uma bomba balão seria também o momento da minha morte, mas eu não sentia nenhum medo. Naquele tempo, todos os jornais disponíveis insistiam que nós, cem milhões de japoneses, devíamos lutar contra o inimigo mau até que último de nós estivesse morto, se as forças inimigas descessem na nossa sagrada ilha pátria. E todos os japoneses pareciam estar de acordo com esta idéia, incluindo eu mesmo! Eu me lembro que eu não tinha medo de morrer, desde que eu morresse com meu pai e minha mãe, com meu irmão e com todos os nossos conhecidos, todos japoneses. Eu corri para a janela mais próxima através da qual eu podia olhar para o céu, e eu fiquei lá um longo tempo, esperando que o balão aparecesse. Eu ainda me lembro perfeitamente e nunca esquecerei este momento, em que eu pensei pela primeira vez que a minha morte estava para chegar em um instante.
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A partir do dia do bombardeio de Hiroshima, a nossa conversa na comunidade se concentrou em quando e como nós seríamos mortos. Nós não tínhamos nenhuma dúvida que seríamos mortos, mas quando e como? Provavelmente com uma outra bomba balão? Com metralhadoras ou com espetadas de baionetas? A maneira que eu mais detestava era ser morto com uma baioneta, que eu imaginava que me daria uma dor terrível. Mas, mesmo naqueles momentos, eu devo confessar que tinha a esperança que houvesse uma pequena possibilidade que nós pudéssemos sobreviver nem que fosse pela misericórdia do vencedor, ou por qualquer outro golpe de sorte. Entretanto, aquela leve esperança desapareceu completamente logo, apenas 3 dias depois da atrocidade em Hiroshima.
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Outra bomba atômica foi jogada em Nagasaki, matando 73.884 pessoas instantaneamente, e ferindo 74.909 seriamente. A cidade de Nagasaki tinha fábricas pesadas, tais como estaleiros. Entretanto, Nagasaki também era conhecida como um lugar com muitos cristãos e com lindas igrejas cristãs. Assim como Hiroshima, Nagasaki também está localizada relativamente perto de nossa cidade. Embora eu era somente uma criança, quando eu ouvi as notícias da nova bomba atômica jogada em Nagasaki, eu pensei comigo mesmo, “Por que Nagasaki? Já chega disto! As Forças Aliadas devem estar planejando eliminar todos os japoneses, exatamente como o nosso governo e todos os nossos jornais dizem”. Mais tarde, ouvimos dizer que a segunda bomba atômica deveria ter sido jogada em Kokura, a cidade vizinha à nossa, a não ser que o tempo não estivesse bom para o bombardeio. E o tempo em Kokura estava ruim naquele dia. Nós fomos salvos pelo mau tempo.
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De fato, na ocasião do ataque atômico a Nagasaki, com os mesmos horríveis resultados que em Hiroshima, todos os adultos na nossa comunidade ficaram como que paralisados. Mas, na verdade, o incidente em Nagasaki nos impressionou tão profundamente que todos nós japoneses que passamos por aquela experiência ainda nos lembramos e cantamos uma canção chamada “Os sinos das igrejas de Nagasaki”.
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A canção conta a história verdadeira de um doutor de radioterapia, e cristão devoto, que tinha sido batizado com o nome de Paul. Ele foi ferido seriamente no ataque quando ele estava trabalhando no hospital. No mesmo instante, sua jovem esposa, também cristã, foi morta na cozinha da casa, e dela só restou o seu amado rosário, que ela usava no pescoço. O doutor, também muito doente, embora ele tivesse perdido sua esposa em um dia de céu limpo, ainda tentou e continuou trabalhando o mais que pôde cuidando dos outros feridos pela bomba. Ao mesmo tempo, ele tinha que cuidar dos seus filhos – dos filhos dele e da esposa – um menino e uma menina, que haviam sobrevivido ao bombardeio. Ele morreu não muito tempo depois do ataque atômico, devido a demasiada exposição a radiação e devido ao excesso de trabalho, e deixou sozinhos os dois filhos. Sua esperança, a canção diz, é ir para o céu e encontrar sua adorada esposa que morreu tão jovem, respondendo ao chamado do seu Deus. Os sentimentos tristes e profundos deste doutor estão cristalizados na letra de uma canção dedicada a ele num filme de 1950, feito para comemorar sua vida de devoção. A canção diz, “Eu nunca soube antes, que somente ao ver um céu límpido eu poderia me sentir tão triste e solitário. Minha amada esposa se foi, deixando para nós somente o seu rosário; ela está lá, no límpido céu”. Esta letra então certifica que, de fato, as duas bombas foram jogadas em dias de céu azul.
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O fim da guerra chegou abruptamente, com a declaração feita pelo nosso sagrado imperador através das ondas vacilantes e chiadas do rádio, no dia 15 de agosto, novamente em um dia de sol. De repente, nós todos estávamos livres para irmos mais uma vez brincar. E assim, imediatamente voltamos ao porto para nadar todos os dias, como o fazíamos antes que os ataques aéreos se tornaram muito freqüentes e perigosos.
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Havia uma pequena enseada usada pelos pescadores, e protegida das ondas mais fortes por uma amarração. Dentro da estreita enseada, a água era calma. Lá fora era como um rio rápido e caudaloso, porque o nosso estreito canal marítimo é conhecido por sua corrente rápida e por sua importância no tráfego marítimo. Portanto, centenas de minas tinham sido colocadas e espalhadas pelo canal. Mas, desde que nós crianças ficássemos dentro da amarração, era seguro e divertido. O único problema era que este pequeno porto que parecia um poço sugava para dentro tudo o que passava a mar aberto e trazia para dentro do nosso refúgio.
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O que acontecia então quando nadávamos era que muitos cadáveres inchados flutuavam dentro da amarração durante a maré alta. Eles vinham pela entrada, quase todos marinheiros, vinham entrando com as caras pra baixo, como se estivessem envergonhados de si mesmos; quase todos os corpos estavam nus, e eram de homens jovens. Quando eles chegavam perto de nós, nós nadávamos pra longe e ficávamos a observá-los em silêncio. Com o tempo, mais e mais cadáveres começaram a vir ao nosso espaço protegido, e então gradativamente o número de nadadores diminuiu. Eu ainda acho muito esquisito, mas eu nunca vi ninguém cuidando daqueles corpos, embora eu sei que muitas pessoas os viram; havia muitas casas de pescadores viradas para a entrada do porto, com as janelas abertas em direção ao mar. Aquelas pessoas devem ter estado muito ocupadas cuidando da própria vida naqueles dias, logo depois do fim da guerra. Isto deve explicar porque ninguém se importava com os corpos dos mortos.
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Uma manhã, eu fui nadar mais cedo que de costume. Fui sozinho, usando somente minhas cuecas e sandálias de madeira. Eu estranhei, porque não havia nenhum outro menino para nadar comigo, e não havia nenhum pescador por perto. Ninguém. Quando eu estava a ponto de mergulhar na água, eu vi o corpo de um jovem vindo pela entrada. Ele estava de bruços como os outros que eu tinha visto antes, com as costas acima da cintura fora da água devido ao inchaço provocado pelo gás no seu corpo. Eu fiquei observando-o por um tempo, sentindo-me um pouco envergonhado, porque eu achava que tinha a obrigação de notificar alguém para que o corpo do pobre rapaz fosse cuidado. Eu me lembro de ter ficado em pé, e tentado pensar no que fazer, porque eu era o primeiro a encontrar o corpo desta vez. Eu tinha que fazer alguma coisa.
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Então de repente eu ouvi um som de uma batida vindo das costas do cadáver, mas eu não pude ver nada. Em seguida, ouvi o barulho de uma pedra batendo contra a água; eu conhecia aquele som muito bem. E então eu ouvi o horrível som de uma pedra batendo contra as costas do homem morto; eu olhei e vi a pedra afundando no corpo, deixando um buraco feio, uma abertura, bem no meio das costas.
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Eu não podia acreditar! E um segundo mais tarde, outra e mais outra e mais outra pedra, todas atiradas com precisão, atingindo o corpo, despedaçando ainda mais aquela pele já tão frágil. Eu fui subitamente tomado de uma raiva extrema, e fiquei quase louco, começando a correr por todo lado, tentando agarrar este invisível atirador de pedras. Eu não me importava naquele momento – ou melhor, eu esqueci – como eu era pequeno e não sabia brigar. Para minha tristeza, eu vi que não podia nem saber direito de onde vinham as pedras. Elas foram todas atiradas muito rapidamente. Eu procurei e procurei por todos os cantos e esconderijos. Eu queria tanto agarrar quem estava fazendo uma coisa tão horrível. De repente, a saraivada de pedras parou tão abruptamente como tinha começado. Eu vi que não podia fazer nada, e não podia pedir a ajuda de ninguém. Cabisbaixo, comecei a arrastar meus pés em direção a minha casa.
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Eu certamente senti, naquele momento, que uma parte inocente e importante de meu ser se havia perdido para sempre naquele dia quando eu vi o jovem morto sofrendo sua última humilhação. De volta para casa, eu aos poucos entendi que minha extrema raiva ao atirador de pedras era a mesma raiva contra o que tinha acontecido em Hiroshima e Nagasaki. Deve ter havido alguma coisa muito errada e má escondida por trás de todas estas misérias, incluindo minha própria morte. Foi um tipo de revelação muito triste para mim, mas naquele momento, eu não tinha uma consciência clara, ou uma idéia clara do que fazer com a raiva que eu tinha acabado de reconhecer. Eu tinha quase sete anos de idade, naquele dia, sessenta anos atrás.
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Revista Académica nº 51 2005 Agosto
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Uma brisa de Hiroshima
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Akira Kibi é médico na cidade de Kobe, ao sul de Tóquio. Ele é um ardente pacifista, admirador da natureza, e participante da vida da sua comunidade na cidadezinha de Suita. É membro de vários fóruns na região de Osaka em que se discutem maneiras de avançar a causa da paz e da compreensão entre os povos. Já foi premiado várias vezes em concursos de discursos bilingües regionais e nacionais, e viaja a outros países sempre que tem a oportunidade, para conhecer de perto as pessoas, e saber quais são os seus problemas e sonhos.
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[Tradução de Eva P. Bueno]
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Uma brisa suave refrescou meu rosto e meu pescoço e me fez sentir-me bem. Eu estava em pé por um momento, ao sol, no verão de 2002, suando e lendo um juramento esculpido numa pedra no Parque Memorial da Paz de Hiroshima.[1] A inscrição dizia:
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Nunca mais Hiroshima, nunca mais Nagasaki. Nunca mais repetiremos a
Loucura de trazer tal sofrimento a qualquer povo deste planeta.
Então, por favor,
Descansem em paz.
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Nesta inscrição não havia nenhuma menção de repugnância ou de vingança. A mensagem é clara: “Nunca mais Hiroshima, nunca mais Nagasaki veremos em qualquer nação deste planeta enquanto houver humanidade”. Infelizmente, a frase “Lembrem-se de Pearl Harbor” foi repetida em um sentido diferente quando houve a crise de onze de setembro, enquanto que a frase “Nunca mais Hiroshima, nunca mais Nagasaki”, não é repetida suficientemente no mundo nos últimos 60 anos. Há um grande contraste entre “Lembrem-se de X”, e “Nunca mais Y”. quando expressados como uma determinação do povo enlutado quando este povo faz uma oração por aqueles que pereceram em uma tragédia humana.
A bomba lançada sobre Hiroshima recebeu o nome de Little Boy (“Garotinho”, em português). Ela media 4 metros e 25 centímetros de comprimento e pesava 4.500 quilos. Sua carga nuclear era composta de urânio e devia explodir ao chegar a aproximadamente 565 metros do solo. A energia liberada pela bomba era semelhante a uma carga de 20 mil toneladas de TNT. Quando atingiu seu alvo, um furacão de fogo arrasou a cidade, e o que se seguiu foi o caos: a cidade destruída, centenas de milhares de pessoas feridas, cobertas de vidro e madeira ou com seus corpos queimados. Elas não tinham a quem recorrer, já que suas casas foram destruídas, bem como a de seus conhecidos, e mesmo os hospitais haviam sido danificados e não tinham condições para atender à população. Faltavam médicos, enfermeiros e remédios. Mortos também jaziam pelas ruas, e o cheiro da cidade era insuportável.
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Era a visão do apocalipse, visão da completa devastação, a sua magnitude colossal mostrada em posters, objetos ou fragmentos em exposição fazem ao visitante lembrar daqueles que pereceram. Eu me senti tomado de forte emoção. Aí se encontram marmitas transformadas em bronze, uniformes e bolsas escolares em pedaços, e os inumeráveis objetos desfigurados que tinham sido usados ou carregados por aqueles que morreram na explosão. Homens, mulheres, meninos, meninas, avós, tios, tias, amigos, todos morreram, não importando se eram civis ou militares, japoneses ou estrangeiros. Há um enorme poster mostrando as milhas e milhas de destroços que parecem um tapete de cinzas cobrindo as colinas e serpenteando até chegar às montanhas ao fundo.
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Havia uma teoria, que foi publicada pela primeira vez no Washington Post de 8 de agosto de 1945, que o Dr. Harold Jacobson, um dos membros do Projeto Manhattam, teria dito que nos próximos 75 anos nenhuma árvore, ou mesmo uma erva daninha cresceria nesta terra de Hiroshima. Felizmente, seu cálculo foi provado cientificamente errado. Mas é compreensível que ele tenha feito tal previsão: ao olhar as fotos de Hiroshima tiradas alguns dias depois da explosão da bomba eu também tive a impressão que a devastação tinha sido tão imensa que qualquer um que a tivesse testemunhado teria ficado impressionado ao ponto de concluir que o que a imagem mostrava era a destruição daquela terra por um longo tempo.
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Devemos também observar que neste desastre, o ponto zero se expandiu não só em termos de tamanho, mas também em termos de tempo. As mortes foram contadas: havia aproximadamente 350.000 pessoas, civis e militares, na cidade de Hiroshima no momento do bombardeio. Entretanto, o número de vítimas se espalhou além da destruição imediata da cidade, com os seus efeitos posteriores, alcançado por volta de 140.000 mortes até o fim de 1945. Até o ano de 2003, nós ainda tivemos 87.500 pessoas, descendentes das vítimas originais, que ainda sofriam os efeitos da bomba. Isto, repito, no ano de 2003, 58 anos depois do momento da explosão.
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O que passou pela mente das pessoas quando Hiroshima e Nagasaki foram bombardeadas? Eu acho que o bombardeiro foi uma coisa tão enorme que ultrapassou a dimensão humana, como se fosse um tipo de aviso à humanidade, sobre a estupidez deste desastre feito pela própria mão humana. As pessoas ficaram chocadas demais, eu acho, para terem a chance de entreter qualquer idéia de vingança. O seu desejo mais genuíno parece ter sido de voltar, depois que elas se recuperaram desta experiência incrível, e enfatizar que nenhuma nação jamais teria que passar por tal catástrofe, por razão alguma. O que estava em jogo, com a chegada da era nuclear, era a sobrevivência dos seres humanos como espécie, independentemente de ideais ou filosofia de qualquer grupo ou nação.
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Portanto, Hiroshima é simbólica não só da devastação da guerra, mas também da incerteza da sabedoria humana, principalmente da ciência e da tecnologia. Estes dois indispensáveis pilares do conhecimento humano, sozinhos, não podem conduzir a humanidade à tolerante co-existência e à vida integrada ao respeito pela natureza. Nós precisamos de algo mais que simplesmente a desenfreada ciência e tecnologia para chegar à sobrevivência das nações e a tornar significativa a vida das pessoas. E este algo mais pode ser o respeito pela natureza, ou uma vontade benevolente no universo, ou um poder de curar: não importa realmente em quê você acredita, desde que seja aquilo que nos dá os elementos básicos para a vida e sua continuação.
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Revista Académica nº 51 2005 Agosto
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