A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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sábado, novembro 20, 2010

África – a nova aventura do imperialismo

  • Luís Amaro

Há muitas razões para manifestar pela Paz e contra a NATO, esta é
África – a nova aventura do imperialismo
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Os Estados Unidos da América são os mais vorazes consumidores de petróleo do mundo, consumindo 21,7% de todo o petróleo extraído, muito embora só tenham 5% da população mundial, importando 57 % do que consomem, não parando de se retrair a produção1 própria.
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(…) Não esqueças, não tomes como uma fatalidade o que ainda não aconteceu, nem como impossível de concretizar aquilo que mais desejas.Epicuro, Carta a Meneceu

«Mesmo aumentando a eficiência energética os Estados Unidos necessitam de mais fornecedores externos, prevendo-se que em 2020 a procura seja de 127 quadriliões de barris enquanto a produção interna atingirá só 86 quadriliões»1 diz o relatório apresentado por Dick Cheney ao presidente Bush, recomendando «a diversificação e aumento do fornecimento externo»2 alertando que «uma significativa interrupção do fornecimento externo lesará a nossa economia e a capacidade de promover os nossos objectivos económicos e políticos».
Por outras palavras, as grandes multinacionais do petróleo – aqui representadas por Dick Cheney – acham mais vantajoso a rapina do petróleo e a Casa Branca secunda essa prática. De facto, baseando-se no relatório, a administração Bush corta as verbas referentes ao aumento da produção nacional e de procura de soluções alternativas nacionais, querendo portanto dizer com isso que o fornecimento externo do petróleo continuaria, aumentaria e diversificar-se-ia.
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Era este o objectivo das grandes multinacionais da indústria, e era esta a proposta do Council on Foreign Relations ao afirmar que «se deve encorajar o fornecimento de petróleo para além do Golfo Pérsico»3.
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Outros dos aspectos ligados à procura de novas fontes do petróleo são de carácter técnico, melhor dizendo das reservas existentes particularmente na península arábica; os grandes campos de petróleo na Arábia Saudita estão em declínio como o de Ghawar que em lugar de extrair 22 milhões de barris por dia, como estava previsto, se ficará pelos 12,54, sendo este um sobejo motivo para se aumentar a procura noutros locais, sendo de todos o mais apetecível a África Ocidental.
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De facto os países da África Ocidental fornecem actualmente 18% do petróleo que os EUA importam e este valor chegará aos 25% em 2015; esta região, que possui reservas de 40 biliões de barris, é de importância estratégica fundamental para os Estados Unidos e razão para que os seis países que fazem parte da ECOWAS5 fossem cortejados pela administração Bush que, subitamente, se enamorou do continente africano.
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Há, portanto, razões para este súbito interesse.
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Primeiro, porque as previsões das quantidades de petróleo existentes são as maiores que se conhecem até hoje, «esperando-se que a África Ocidental venha a ser o maior fornecedor do mercado americano»6; segundo, porque a concorrência é fraca, visto a China focalizar os seus interesses nos países da África Oriental; terceiro, porque a qualidade do crude é de «alta qualidade e baixo em enxofre, sendo ideal para ser refinado na costa Este»7 dos Estados Unidos; quarto, porque as perspectivas são colossais no que se refere à Nigéria, a Angola, ao Gabão e ao Congo-Brazzaville e os investimentos já realizados, no valor de 3,5 biliões de dólares, na construção de um oleoduto que liga o Chade aos Camarões na costa Ocidental de África, não são negligenciáveis.
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Quinto e último: a docilidade dos governos em relação às multinacionais e ao imperialismo, e a corrupção fomentada pelas grandes companhias, tornam esta região do mundo o terreno ideal para a sua transformação num novo quintal americano.
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Existem também razões de carácter geopolítico que estão na base desta mudança radical da política dos EUA em relação à África que passou de um laissez faire a um engajamento rápido e de grandes dimensões políticas, diplomáticas e militares e de interferência na vida de estados soberanos.
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A crescente presença da China, do Brasil e da Índia em África – que não se pode comparar, nem na forma nem nos objectivos, com os objectivos do imperialismo americano – é razão acrescida para esta mudança de estratégia da política externa estadunidense em relação ao continente, quer o residente da Casa Branca seja republicano ou democrata.

Fala docemente mas tem à mão uma moca…

Este provérbio, de origem africana, sintetizava a política externa do presidente Theodore Roosevelt, que o usava frequentemente querendo dizer: ou os países obedecem ao dictat dos interesses americanos, ou falará a força, quer dizer, a agressão militar.
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Mais de cem anos passados este continua a ser o cuore da política estrangeira dos Estados Unidos, como muito bem expressou recentemente o arqui-reacionário jornalista Thomas Friedman8 ao afirmar: «a mão oculta do mercado nunca funcionará sem o punho oculto».
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Para defender os interesses das multinacionais do petróleo em África é mesmo necessário um punho, e um punho forte.
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«Em 2008 a Chevron teve um lucro de 23 biliões de dólares sendo metade dele proveniente de África; a ExxonMobil teve 45,2 biliões de dólares tendo 43% dele a mesma proveniência, bem como um terço das importações da BP»9, para não citar outras. Com estes colossais lucros não é de admirar que os grandes monopólios estejam interessados em manter o status quo e para isso é necessário que alguém os defenda.

O punho de que o reaccionário Friedman fala tem um nome – Africom.
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O governólio10 de George Bush, dando prossecução prática às recomendações do CSIC11 que dizia: «dados os crescentes interesses energéticos na região, recomenda-se que os Estados Unidos devem fazer da segurança e do governo no Golfo da Guiné uma absoluta prioridade da política externa dos Estados Unidos em relação à África, promulgando uma política robusta para a região», por outras palavras - militarizar as relações dos EUA com África. Assim, George, o incansável servidor dos interesses das multinacionais do petróleo, viaja para uma tournée africana em Fevereiro de 2008.
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Palavras não foram ditas já George, o diligente, tinha criado uma estrutura de comando independente para a África – a Africom, o punho – deixando a continuação desta política ao carismático e cândido Obama que, sem pestanejar, levará à prática a agressão, desta vez à escala de um continente, confirmando que quanto mais as coisas mudam, mais ficam na mesma na política externa do imperialismo.

Os maus da fita e os outros

Já em 2005, como preparatório do que se seguiu, o Pentágono tinha lançado a Iniciativa Contra-terrorista Trans-sahariana (TSCTI) e, antes disso, quer os Estados Unidos quer a França, particularmente esta última, tinham uma presença militar em África.
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Em abono da verdade, diga-se, os americanos não são os únicos maus da fita.
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A França, como ex-potência colonial, continuou, até recentemente, a assumir-se como o braço armado do neocolonialismo. Na Costa do Marfim estão estacionados 3000 soldados franceses e no vizinho Togo estão mais homens e equipamento aerotransportado.
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A França, por limitações orçamentais, viu-se obrigada a começar a pôr um termo à aventura neocolonial, reduzindo o número de efectivos e encerrando bases entre 1997 e 2002. Sarkozy foi o coveiro - muito a contragosto, diga-se – da Françafrique, como era designada a política francesa para a África, pretendendo-se agora a europeização da intervenção militar, segundo o general Dominique Trinquand.
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Esta pretendida europeização deixa-nos a nós, portugueses, apreensivos no mínimo, dado a subserviência faces aos interesses imperialistas manifestada inúmeras vezes pelos «nossos» governos.
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De qualquer forma o pequeno complexado que mora no Eliseu não levará avante a ideia; o império manda e ele não terá outra saída senão baixar a crista.
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De facto, antes de o imperialismo americano se lançar na militarização de África, os mandantes da política externa do Tio Sam já tinham avaliado as implicações/colisões possíveis da presença francesa em África, e foram claros: «enquanto os franceses reduzirem as suas forças em África os Estados Unidos aumentarão as suas…» e «… num sentido lato podemos dizer que uma força dos Estados Unidos em África será um sinal de que a exclusividade da influência militar francesa acabou, efectivamente»12 .
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Sarkozi, compreendeu. Adeus, França imperial!

Preâmbulos de uma ocupação

Foram feitas várias tentativas no sentido de localizar em África o quartel-general do Africom, que se revelaram frustradas pela oposição de vários países face ao repúdio popular que tais bases poderiam suscitar, o que não coibiu as relações públicas da Africom de mentir ao afirmar que «vários países africanos já se oferecem para receber o quartel-general»13, lembrando ao mesmo tempo que «qualquer que seja a localização do futuro quartel-general será necessário ter bases no Golfo da Guiné…». Pudera! É lá que está a galinha dos ovos de ouro.
Esta ausência de um quartel-general não impede que militares americanos e mercenários por ele pagos lancem operações clandestinas a partir de bases de satélites estratégicos localizadas no Kénia e em Djibuti.
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Entretanto, o orçamento da Africom passou de 60 milhões para 310 milhões, excluindo custos operacionais; foi nomeado, como comandante, um dos únicos cinco afro-americanos que chegaram à patente de general de quatro estrelas; lança-se manobras navais de grande envergadura no Golfo da Guiné; desenvolve-se intensas campanhas de persuasão, nomeadamente com fornecimento de equipamento militar, cursos e viagens de estudo, junto de altas patentes africanas designadas oficialmente como friendly african militaires14 de modo a conseguir que fechem os olhos para o que se vai seguir; no plano diplomático também é intenso o movimento, não só entre as capitais africanas mas também europeias, e Lisboa em particular.
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Dinheiro não falta. Só neste ano vai gastar-se, num só programa de 431 actividades e envolvendo 40 países, 6,3 biliões de dólares.
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O Pentágono designa o Africom como um comando de combate unificado, que combinará funções militares e civis, esta pela necessidade de promover a imagem de «bons rapazes» – goodfellas.
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Toda a agressão imperialista sempre se apresentou, publicamente, da forma mais altruísta possível; em África ela é apresentada como uma acção humanitária para combater a doença e o analfabetismo, para a construção de habitações, atribuição de bolsas de estudo e por aí fora… só nobres objectivos.
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O outro argumento é o do combate contra o terrorismo que tem as costas largas e serve mesmo para encobrir as acções terroristas do imperialismo estado-unidense.
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Os verdadeiros objectivos desta nova agressão, que ainda vai nos seus primórdios – e que, por isso, é urgente denunciar e já – foram enunciadas nas linhas anteriores com clareza, espero eu.

A força ocupante e a NATO

A NATO há muito que deixou de ser uma organização «defensiva» do Atlântico Norte, assumindo-se como um bloco militarista global, e portanto também em África na qual, de resto, tem desenvolvido intensa actividade nomeadamente no Corno de África e, particularmente, no Sudão; se nesta parte de África os interesses não são exclusivos pode-se imaginar o que está planeado para a África Ocidental onde se encontra o petróleo vital para a América.
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Nos vários países grandes produtores de petróleo nesta região a Nigéria e Angola são os de maior potencial; mas há também S. Tomé e Príncipe, cujo valor perspectivado das reservas de petróleo é mantido no segredo dos deuses, não obstante as maiores companhias americanas estarem a adjudicar blocos e a perfurar freneticamente, e a secretária de Estado, Hillary Clinton, ter visitado o arquipélago – percebendo-se assim que este pequeno país está na agenda de prioridades americanas – e «oferecido» a construção de um porto, o que o primeiro-ministro são-tomense agradeceu e disse, à comunicação social, ser um porto de grandes dimensões, logo rectificado pelos americanos no que diz respeito às dimensões… – era mais pequeno, disseram… Percebe-se.
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Segundo um comandante americano na Europa, «este pequeno porto» como diz Hillary Clinton, será uma base militar e naval da dimensão da Diego Garcia no Oceano Indico.15

E nós, onde ficamos no retrato?

Em reuniões no Pentágono16 várias altas patentes americanas referiram-se à acção do Africom como sendo de vital importância para os Estados Unidos, o que já sabíamos, mas que só poderá ser realizada com êxito em colaboração com as ex-potências coloniais, o que não sabíamos mas suspeitávamos; mas disseram mais, referiram-se expressamente a Portugal e à Grã-Bretanha.
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Assim se compreende a intensa actividade diplomática da Africom em Portugal; a embaixadora Mary Carlin Yates, vice-comandante da Africom para as questões civis-militares17, esteve em Portugal para reuniões com responsáveis militares (?) e disse ser «muito importante que ouçamos e aprendamos com os nossos parceiros europeus, especialmente uma nação como Portugal com uma história naquele continente que penso terá muitas lições a ensinar-nos» – e continuou referindo-se ao general Ward, comandante do Africom – «O general que esteve cá em Junho regressou muito entusiasmado com o diálogo que teve com os responsáveis militares e civis e pediu-me para vir e aprofundar o diálogo»18.
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De facto o general Ward, que já tinha cá estado em 2008, voltou em 23 de Junho passado, para um Seminário de Dirigentes Seniores da Africom, realizado no nosso país por insistência das autoridades portuguesas19 – esta «insistência» diz bem do tipo de gente que está no Palácio das Necessidades – ministro, assessores, Governo, todos eles são a pandilha anti-patriótica e de traição nacional.
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O general, que se fez acompanhar por William Bellamy, director dos Estudos Estratégicos Africanos dos Estados Unidos, e por Johnnie Carson, sub-secretário de Estado americano para os assuntos africanos, enfatizou «a parceria e comuns objectivos que temos com Portugal e os outros países lusófonos»20.
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Mais claros não podiam ser e os perigos são evidentes: os americanos, com o total apoio do Governo português, vão arrastar o país para a nova aventura africana do imperialismo ianque, a qual já começou mas ninguém sabe como vai acabar; quantas vidas se vão perder, quantos cortes se tem que fazer no orçamento da saúde e da educação para pagar esta aventura?
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A recente compra dos famigerados submarinos é o primeiro capítulo; se alguns dos nossos leitores ainda não sabem para o que servem, ou estão inclinados a aceitar os argumentos estafados do governo21 de «necessidades da defesa nacional», deixo-vos com esta notícia transmitida pela BBC em 22 de Junho passado e confirmada junto de fontes oficiais holandesas: «No mês passado a Holanda concordou com o pedido da NATO para enviar um submarino para as costas da Somália».
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Agora já sabemos para que servem os submarinos. Esta não é a única razão, mas é uma das razões, pela qual desfilaremos em Lisboa no próximo dia 20, sob o lema Paz Sim – NATO Não.
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1 Relatório do National Energy Policy Development Group (págs. 25 e 71) – 16 de Maio de 2001.
O grupo de trabalho que redigiu o relatório, feito em secretismo, era dirigido pelo vice-presidente Dick Cheney e dele faziam parte os presidentes das maiores multinacionais no domínio energético.
2 Idem (pág. 127).
3 in CFR – National Security Consequences of U.S. Oil Dependency – (pág. 31) – Outubro de 2006.
Quem, de facto, dirige a política externa dos Estados Unidos é, desde 1921, o Council on Foreign Relations dele fazendo parte as personagens mais agressivas do imperialismo. O jovem senador Barak Obama era um dos seus membros.
4 Kjell Aleklett – Association for Study of Peak Oil and Gas.
5 ECOWAS – Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (Angola, Chade, Guiné Equatorial, Gabão e Nigéria).
6 Idem 2 – (pág. 133).
7Idem.
8 in A Manifesto for the Fast World – New York Times Magazine, Março, 1989.
9 Center for American Progress – Rebecca Lefton e Daniel J. Weiss – Janeiro de 2010
10 Governólio – Governo do Petróleo
11 CSIC – Center for Strategic and International Studies
12 Andrew Hansen – Council on Foreign Relations, 8 de Fevereiro de 2008.
13 Stephanie Hanson – U.S. Africa Command, 3 de Maio de 2007.
14 Militares africanos amigos
15 in John Bellamy Foster – Main basse sur l’Afrique: la stategie de l’empire pour contrôler le continent.
16 Designação que se dá ao edifício do Ministério da Defesa, em Washington.
17 Nenhum Comando dos Estados Unidos (são seis) tem um civil como segundo comandante. A indigitação de um diplomata para este posto é indicadora da importância que os EUA dão à Africom, e a necessidade que têm de obrigar a compromissos políticos e militares com outros países.
18 Lusa
19 Afirmação de William Bellamy na conferência de imprensa realizada em Lisboa em 23 de Junho de 2010.
20 General William Ward em 1 de Julho de 2010, dirigindo-se ao pessoal da Africom.
21 O PS, o PSD e o CDS estiveram comprometidos na aquisição dos submarinos. Para mais sobre o assunto ver Avante! de 21 de Janeiro de 2010.
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Avante 2010 11 18
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sexta-feira, setembro 04, 2009

PETRÓLEO DE ANGOLA PARA OS GRANDES FALCÕES

Segunda-feira, Março 2

PETRÓLEO DE ANGOLA PARA OS GRANDES FALCÕES


É evidente que a estratégia norte americana para o Golfo da Guiné não se pode limitar à ênfase que o nóvel AFRICOM, o Comando África do Pentágono que continua com sua chefia instalada na Alemanha, (apesar dos esforços de toda a ordem visando a sua instalação em África), passou a ter, com a deslocação do USS Fort McHenry (LSD 43) e do navio experimental HSV-2 SWIFT para a região, a fim de serem utilizados, o primeiro, durante seis meses, como “África Partnership Station”, e o segundo como “atracção tecnológica”, visitando um a um todos os países com litoral oceânico.
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Muito antes da criação pela administração republicana de George W. Bush, do AFRICOM, já os Estados Unidos, interligando a diplomacia com os interesses económicos das grandes corporações norte americanas presentes em África, privilegiavam os nexos com aqueles que operavam em vários sectores da indústria mineira, na indústria de prospecção e exploração de petróleo e com os operadores prestadores de serviços, influentes até na super estrutura do poder em Washington, (seja com o concurso dos republicanos, seja com o concurso dos democratas), a fim de garantir relacionamentos bilaterais e multilaterais com os países africanos, de norte a sul.
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A Halliburton e a sua subsidiária até 2007, Kellog Brown & Root, multinacionais que têm como referência a figura de Dick Chenney, vice-presidente dos Estados Unidos, fazem parte do conglomerado de corporações norte americanas já com historial em África, seja quando estão no poder republicanos, seja quando estão os democratas.
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Elas têm distribuído a sua actividade a nível global, não só em suporte das multinacionais do petróleo, mas também em função de outros desempenhos civis e militares, no âmbito dos interesses interligados que suportam os relacionamentos de Washington, não só por via pacífica, mas também nos seus esforços de guerra, por todo o planeta.
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A 5 de Março do ano corrente, um analista do Global Research no Canadá, Andrew G. Marshall, publicou uma investigação-síntese, sob o título “Martial Law, Inc”, em que realçava as actividades da Kellog Brown & Root desde a década de 40 do século passado e particularmente desde a guerra do Vietname.
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No que diz respeito a África o investigador do Global Research do Canadá fornece a síntese da presença do KBR nos acontecimentos do Ruanda e da República Democrática do Congo.
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No que diz respeito ao Ruanda, o investigador, que se apoiou nas revelações de Wayne Madsen sobre o derrube do avião que transportava os presidentes do Ruanda e do Burundi, conforme as investigações também levadas a cabo pelos Franceses em 2004, indicou que houve um estreito relacionamento nesse acto, com os operadores ruandeses (tutsis) enquadrados no Rwandan Patriotic Front de Paul Kagame, da International Strategic and Tactical Organization, que representava “poderosos interesses políticos e corporativos” incluindo os da Armitage and Associates LC, uma firma fundada pelo antigo Adjunto da Defesa de George W. Bush, Richard Armitage e a Kellog Brown & Root.
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Em 1994, na sequência da instalação do governo do Rwandan Patriotic Front no Ruanda, o KBR beneficiaria dum contrato sob a denominação de “Operation Support Hope”, no valor de 6,3 milhões de dólares.
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Desse enredo, segundo o mesmo analista, houve três beneficiários em 1994 e um beneficiário em 1995:Paul Kagame, que se viria a tornar Presidente do Ruanda, Kofi Annan que se tornaria Secretário Geral da ONU e Madeleine Albright, que seria Secretário de Estado durante a governação democrata de Bill Clinton. O próprio Dick Chenney tornar-se-ia CEO da Halliburton de 1995 a 2000.
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Em relação à República Democrática do Congo, sob os auspícios ainda da International Strategic and Tactical Organization e explorando o êxito da operação do Ruanda, a KBR construiu uma base militar junto à fronteira Congolesa-Ruandesa, onde foram treinados os efectivos ruandeses que deram apoio ao líder rebelde Laurent Kabila, no derrube do regime de Mobutu.
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O KBR, conjuntamente com a Bechtel Corporation, providenciou mapas elaborados a partir de fotografias obtidas por satélites de reconhecimento, relativos aos movimentos de tropas de Mobutu (a Bechtel Corporation integra interesses ligados ao antigo Secretário de Estado George Schultz e a Caspar Weinberger, quando do lado da KBR estava já no activo, à frente da Halliburton , Dick Chenney).
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A actuação desse cadinho de corporações na fase do derrube de Mobutu, permitiu a abertura que Laurent Kabila teve de fazer a outros conglomerados como o American Mineral Fields e a Barrick Gold Corporation.
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A AMF englobava interesses de Mike McMurrough, uma personagem próxima de Bill Clinton, enquanto a Barrick Gold Corporation, englobava interesses do então Primeiro Ministro do Canadá, Brian Mulroney e do assessor de Bill Clinton, Vernon Jordan, que nessa companhia tinha como assessor precisamente George W. Bush.
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A evolução da situação na RDC, incluindo a morte de Laurent Kabila, tem muito a ver com o desenvolvimento desses enredos, que passaram também com armas e bagagens para Angola: rica em minerais, a RDC possui pouco petróleo, mas Angola é suficientemente rica para, com minerais e com petróleo, fazer com que os “lobbies” de suporte aos democratas (enraizados nas indústrias mineiras das corporações norte americanas e canadianas, assim como no cartel dos diamantes) e aos republicanos (fundamentalmente pela via das corporações do petróleo e associados), encontrem todas as razões para consenso político-operativo, económico, financeiro e se necessário militar, nesta escandalosa (sob o ponto de vista geológico) mistura de Texas e de minas de Salomão.
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O Correio Digital de 24 de Março de 2008, dava a conhecer que “a empresa do Vice Presidente dos Estados Unidos fica com a refinaria do Lobito”, “depois dum longo período de negociações”.
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Também para que isso acontecesse o poderoso “lobby” norte-americano teve de vencer concorrentes, entre eles os que, envolvendo interesses do Japão e da República Popular da China, apostavam muito e a prazos dilatados na refinaria do Lobito.
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Para além das negociações visíveis, o “lobby” ousou mesmo “jogar tudo por tudo” e, segundo se faz constar em determinados círculos das novas elites angolanas, até bolsas de estudo têm sido pagas pela Halliburton em benefício duma conhecida entidade que tem trajectória sénior na área dos petróleos angolanos e é indicada por alguns, actualmente, como assessora da Presidência da República (às tantas e no mínimo, servindo de “discreta ponte” entre a Presidência Angolana e a Norte Americana).
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Tudo seria razoável, não fosse o papel da Halliburton, da Kellog Brown & Root, de Dick Chenney e associados, não só em África (e na estratégia de relacionamentos dos Estados Unidos em África), mas sobretudo nas regiões onde se registaram sempre grandes convulsões e grandes lucros para os senhores da guerra global contra um tão oportuno quanto artificial “terrorismo”, nomeadamente no Afeganistão, no Iraque e nos Balcãs.
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A enorme base de Camp Bondsteel, a maior base militar recentemente erigida pelos Estados Unidos na Europa, sobre a qual repousa a iniciativa da “independência vigiada” de Kosovo, foi construída pela Kellog Brown & Root, segundo Michel Chossudovski, analista sénior do Global Research do Canadá, a fim de garantir cobertura ao oleaduto AMBO (Albânia-Macedónia-Bulgária), o “pipeline” que leva o petróleo do mar Cáspio, passando pelo porto de Burgas (porto búlgaro do Mar Negro), até ao Adrático, atravessando os Balcãs.
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A KBR aparece assim associada à estratégia de domínio, que se manifesta pela destruição de interesses que se manifestem contrários aos interesses dominantes, a fim de instalar os seus próprios interesses, seguindo quase sempre uma via armamentista e de guerra.
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A acreditar na notícia publicada pelo Correio Digital, a interpretação de alguns analistas conduz à conclusão de que Angola cedeu: ao invés de continuar a dar oportunidade aos relacionamentos bilaterais com a RPC e coligados também no sector do petróleo, foi obrigada a abrir as portas aos interesses norte americanos em relação à refinação de petróleo no Lobito, coligados ou não aos sul coreanos, tendo como “aríete” o empenhamento de consórcios como a Halliburton e a Kellog Brown & Root, tão identificadas com os grandes falcões norte americanos..
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Àcerca disso, é evidente que há “parceiros” ao mais alto nível por dentro do MPLA e do estado angolano que “alinharam”, mas o mutismo completo da oposição e de alguns que se dizem pacifistas (inclusivé com alguma expressão neste mesmo blog), perante a “prova de força” dos grandes falcões em Angola, é um evidente indicativo de quanto esses sectores são no mínimo ineptos perante os factos políticos de ordem estratégica que vão ocorrendo, sem melhores alternativas para os relacionamentos bilaterais, ou multilaterais...
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Provavelmente estão ainda distraídos com a “novidade” que constituiu a visita ao porto do Lobito do HSV-2 SWIFT, nos dias 21, 22 e 23 de Fevereiro de 2008..
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Por MARTINHO JÚNIOR
Maio 2009 Fevereiro 2009
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segunda-feira, abril 21, 2008

São Tomé e Príncipe: como roubar uma nação africana



Os moradores de uma minúscula ilha-Estado africana sonham com grande riqueza desde que petróleo foi descoberto em suas águas territoriais. Empresas, potências estrangeiras e políticos corruptos estão disputando licenças de exploração na esperança de obter riqueza

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O lobby do Hotel Miramar, em São Tomé, seria o cenário perfeito para um thriller de espionagem tropical. Ele é o melhor hotel da cidade, o que não significa muito, mas seu lobby com ar-condicionado, completo com sofás coloridos e vasos com plantas, se tornou um importante local de encontro para todos aqueles que têm algum negócio nesta ilha curiosa: atravessadores e seus assistentes, representantes de governos estrangeiros e organizações internacionais e um grande número de figuras duvidosas. Pessoas boas e ruins se congregam no lobby do Hotel Miramar, mas diferenciá-las não é fácil.

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Membros da Marinha dos Estados Unidos marcham pelo lobby toda manhã e embarcam em um ônibus para construir uma estação de radar (como todos sabem). No salão de café da manhã, duas mulheres e um homem olham silenciosamente para seus laptops; eles são membros de uma delegação do Banco Mundial que está em São Tomé para se reunir com ministros do governo. E há os homens em camisetas desbotadas que as pessoas dizem ser agentes da CIA, apesar de não ser necessariamente verdade. Boatos são comuns.

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As ilhas de São Tomé e Príncipe formam um único país soberano, com população de 160 mil habitantes. Até poucos anos atrás, a única fama das ilhas eram os selos postais de Marilyn Monroe, linhas de tele-sexo fraudulentas e um produto chave de exportação, o cacau.

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Isto é, até a descoberta de petróleo sob o leito marítimo além da costa do país. Poderá ser uma bênção ou uma maldição para este minúsculo país; e parece ter deixado todos loucos.

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O paradoxo da abundância

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No mapa mundial, São Tomé e Príncipe são dois pontos pouco detectáveis no Golfo da Guiné, quase exatamente na linha do Equador, a 200 quilômetros da costa do Gabão. O país é pacífico, democrático e desesperadamente pobre. Seus habitantes sobrevivem de ajuda estrangeira e empréstimos internacionais. Além da pequena produção de cacau, o país não possui produtos significativos.

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Os são-tomenses mal podiam acreditar em sua sorte quando estudos sísmicos concluídos nos anos 90 revelaram uma enorme reserva de 11 milhões de barris de petróleo pouco além de sua costa. Eles estavam ricos! Os são-tomenses repentinamente podiam sonhar em se tornar uma espécie de Brunei, um minúsculo e rico país africano onde as pessoas podiam viver despreocupadamente. O maná dos céus!

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Então o resto do mundo ficou sabendo. Empresas dos Estados Unidos, China, Noruega e Canadá enviaram equipes para as ilhas, e governos estrangeiros -em particular os Estados Unidos e a grande vizinha de São Tomé, a Nigéria- começaram a demonstrar interesse.

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Uma riqueza de recursos naturais nem sempre faz bem para um país pobre. Isto se chama "paradoxo da abundância" e exemplos infelizes proliferam na vizinhança imediata de São Tomé.

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Um é a Nigéria, uma grande produtora de petróleo governada pelo regime corrupto do presidente Olusegun Obasanjo desde 2007. E há a Guiné Equatorial, cujo ditador brutal, Teodoro Obiang Nguema, mantém seu povo na pobreza; e o Gabão, onde a classe alta praticamente se apossou da riqueza do petróleo do país; e, é claro, Angola, ainda sofrendo dos efeitos de sua longa guerra civil.

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Quando o presidente são-tomense Fradique Melo de Menezes assumiu o governo em 2001, ele prometeu manter seu país livre desses problemas. Fradique é um homem baixinho e musculoso com um grande bigode -um mercador de cacau que trata a todos pelo primeiro nome. Ele impressionou a comunidade internacional quando falou sobre o desejo de usar a riqueza do petróleo para ajudar seu país.

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Fradique recorreu a Jeffrey Sachs, da Universidade de Colúmbia, em Nova York, o famoso especialista americano em ajuda para desenvolvimento, para orientação e apoio. Sachs já prestou consultoria a governos de todo o mundo e escreveu um livro chamado "O Fim da Pobreza". Ele viu uma oportunidade de transformar São Tomé em um modelo e levou suas melhores equipes para investigar o país pessoalmente. Suas metas eram ajudar todos os são-tomenses a dividirem a nova riqueza, evitando o erro de depender totalmente do petróleo. Ele seria um país sem conflitos violentos.

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E graças a Sachs, São Tomé possui uma nova lei do petróleo que pode ser a melhor do gênero no mundo. Ela exige que a receita do petróleo seja depositada diretamente em uma conta no Federal Reserve (o banco central americano) em Nova York. Apenas uma pequena parcela deste dinheiro pode ser reinserida no orçamento; o restante é poupado para o futuro. O controle do próprio petróleo cabe a uma comissão composta de são-tomenses de todo o espectro político do país.

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Assim, ao menos, é como "deveria" funcionar. Mas a comissão ainda não existe. E ninguém viu os contratos das companhias de petróleo, que deveriam ser divulgados publicamente. Isto não é exatamente surpreendente, dado que os políticos em São Tomé nem sempre cumprem a lei.

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Mas será que São Tomé pode se tornar um modelo para o mundo? O petróleo realmente existe?

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'A região de petróleo mais importante do mundo'

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Quando o presidente Fradique de Menezes chegou ao poder há mais de seis anos, ele impressionou tanto os especialistas quanto o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. A revista "New Yorker" escreveu: "Quem precisa da Arábia Saudita quando se tem São Tomé?" .

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Bush se reuniu com Fradique e 10 outros chefes de Estado africanos em setembro de 2002, e apesar de outros terem entediado o presidente com discursos em francês, Fradique teria falado de forma "eloqüente, em um bom inglês com leve sotaque, sobre os interesses comuns de São Tomé e dos Estados Unidos". Bush até mesmo parou de brincar com seu lápis.

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Fradique lembrou aos seus ouvintes dos "trágicos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono" e destacou a importância de fontes alternativas de petróleo fora do politicamente volátil Oriente Médio. Seu país, ele disse, se encontra em uma "localização estratégica na região de petróleo mais importante do mundo -o alto-mar da costa oeste da África".

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Foi uma jogada inteligente da parte de Fradique, porque o petróleo desta região tem enlouquecido os americanos. Eles atualmente importam 13% de seu petróleo da África sub-saariana; esse número deverá crescer para 25% em poucos anos. O petróleo africano é bastante procurado por causa de seu baixo conteúdo de enxofre e suas reservas geralmente marítimas, onde pode ser carregado em petroleiros sem a necessidade de se colocar os pés em um país.

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Para ficar rico, seja um ministro

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O homem que foi o primeiro-ministro de São Tomé até fevereiro de 2007 se chama Tomé Vera Cruz, um homem de aspecto poderoso encarregado de dirigir um país amargamente pobre. Durante seu mandato, São Tomé mergulhou em uma crise econômica severa. O preço do quilo de arroz aumentou cinco vezes. A comida é escassa e em grande parte importada, com iogurte vindo de Libreville, no Gabão, e as massas de Lisboa. Apesar de eletricidade estar disponível apenas 12 horas por dia, a empresa estatal de energia elétrica aumentou seus preços em 68%. Uma unidade policial de elite recentemente se rebelou, ocupando o quartel da polícia e fazendo o chefe de polícia como refém.

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Muitos atribuem estes novos problemas em São Tomé ao petróleo. "Nós desconfiamos uns dos outros", diz Tomé Vera Cruz. "Todos estão convencidos de que outros já estão embolsando o dinheiro. Muitas pessoas pararam de trabalhar e estão esperando pelo petróleo." A nova lei do petróleo, pelo menos, foi adotada, ele diz. "Mas é o mesmo que em outros lugares: você pode ter leis e tudo mais, mas você também tem pessoas." Ele ri em voz alta.

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Há um ditado em São Tomé: "Para ficar rico, tudo o que você precisa fazer é ser ministro por 24 horas".

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Veja, por exemplo, o ministro dos Recursos Naturais. Seu nome é Manuel de Deus Lima, e todos em São Tomé conhecem sua história: quando ele trabalhava para o banco central do país, ele fez um acordo com uma empresa de Liechtenstein para criação de uma moeda são-tomense comemorativa do milênio. O único problema é que uma parte dos lucros iria diretamente para ele. Lima foi sentenciado a dois anos sob condicional -o que não o impediu de ser nomeado ministro.

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Lima estudou na Alemanha Oriental. Ele fala alemão. Quando telefonamos para pedir uma entrevista, ele gritou ao telefone, em alemão: "Petróleo! Petróleo! Petróleo! Todo mundo vem aqui para escrever a respeito, mas ninguém quer nos ajudar a extraí-lo!" Então ele desligou.

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Não apenas ministros

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Mas os problemas não são puramente domésticos. A história de São Tomé e Príncipe é uma longa história de intervenção estrangeira. Quando os portugueses descobriram as ilhas no século 15, elas eram desabitadas. Navios portugueses compravam escravos africanos aqui com a intenção de enviá-los para as Américas. Os escravos plantavam cana-de-açúcar e posteriormente café e cacau. Não houve grande mudança -por séculos- até uma ditadura em Lisboa ser derrubada por um golpe militar em 1974. Os portugueses concederam rapidamente a independência para suas últimas colônias remanescentes, incluindo São Tomé e Príncipe, onde 100 mil negros africanos e outras pessoas multirraciais repentinamente tinham seu próprio país.

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Trinta e três anos depois, a ilha ainda enfrenta dificuldades. Apesar dos US$ 600 milhões em ajuda que o país recebe desde a independência, o padrão de vida continua caindo. Segundo o Banco Mundial, mais de 50% da população é considerada "pobre".

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Quando depósitos de petróleo foram detectados nos anos 90, o primeiro empresário a aparecer foi o sul-africano descendente de alemães chamado Christian Hellinger, que ganhou fortuna com os diamantes angolanos. Ao chegar, ele supostamente deu a cada ministro um gerador. Logo ele adquiriu o apelido de "Rei de São Tomé". Ele transferiu sua empresa de transporte aéreo para cá e foi o primeiro a explorar petróleo.

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Hellinger trouxe uma empresa para São Tomé que desde então só significa problemas. A pequena empresa nascida na Louisiana e atualmente sediada em Houston, se chama ERHC (Environmental Remediation Holding Corporation). Na época ela era especializada em dar destino aos resíduos da indústria do petróleo e não tinha entendimento nenhum de produção de petróleo. Mas a ERHC convenceu o governo a assinar um contrato em 1997. Por US$ 5 milhões a empresa recebeu direitos exclusivos sobre a comercialização e exploração de todas as reservas de petróleo de São Tomé pelos próximos 25 anos. A organização não-governamental Global Witness posteriormente chamou isto de "um dos acordos mais chocantes de todos os tempos".

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O país fez acordos com outras empresas, incluindo a ExxonMobil, mas aparentemente foram igualmente ruins. O presidente Fradique conseguiu renegociar alguns dos acordos, mas a ERHC, agora de propriedade de um nigeriano influente, ainda ganha sua parte das concessões e de novas descobertas de petróleo.

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O segundo problema de São Tomé sempre foi sua poderosa vizinha, a Nigéria, que não estava interessada em permitir que a minúscula nação lucrasse com petróleo em seu próprio quintal. A Nigéria contestou a fronteira marítima entre os dois países e forçou São Tomé a aceitar um acordo para formação de uma "Zona Conjunta de Desenvolvimento", no qual 40% da receita da produção de petróleo iria para São Tomé e 60% para a Nigéria.

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Quando os dois países leiloaram as primeiras licenças de exploração em 2003 e 2004, as coisas não transcorreram da forma como os são-tomenses esperavam. Grande parte das companhias de petróleo se manteve distante, exceto no caso do mais promissor setor na zona de petróleo, conhecido como Bloco 1, pelo qual um consórcio da Chevron e ExxonMobil conquistou a licença de exploração por US$ 123 milhões. Todavia, foi um dia monumental para São Tomé. Sua parcela de 40%, US$ 49 milhões, quase equivalia ao orçamento anual do país.

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Mas a Nigéria reteve o valor, usando seu controle do dinheiro para forçar São Tomé a conceder licenças a certas empresas pequenas na próxima rodada de leilão -empresas de propriedade de empresários nigerianos com laços estreitos com os políticos do país. O procurador-geral de São Tomé posteriormente expôs este esquema.

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'O que acontece se não houver petróleo?

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A história de São Tomé e seu petróleo é uma de acordos ruins em um país sem entendimento do setor de petróleo. Se alguém sabe disto é Patrice Trovoada, o filho rico do primeiro presidente eleito democraticamente, Miguel Trovoada. Ele esteve envolvido em quase todos os acordos.

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Ele se senta na varanda de sua quinta na praia -um homem de 46 anos robusto e com um grande sorriso- e nega qualquer culpa. Ele insiste que tudo o que fez foi tentar salvar o que outros tinham estragado.

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Ele foi inicialmente o ministro das Relações Exteriores de Fradique e posteriormente seu consultor de petróleo. Então Fradique o demitiu, se queixando de que os Trovoada estavam tratando o Estado como sua propriedade privada. Patrice se tornou seu rival.

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Atualmente ele é o primeiro-ministro do país. "Meu pai e eu escolhemos Fradique como presidente", ele diz. "Mas uma pessoa sempre pode cometer erros. O homem assumiu o governo e começou a falar demais. Blá, blá, blá. Sobre petróleo. Ele falava demais sobre petróleo. E lutou contra todos, contra a Nigéria, dizendo que estavam roubando isto e aquilo, que era um contrato ruim, blá blá blá." Ele ri de forma contida.

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Patrice Trovoada é conhecido por dirigir um jipe Hummer com seus guarda-costas. Ele passou grande parte de sua vida fora do país. Ele fala português, a língua oficial de São Tomé, com sotaque; ele se converteu ao Islã. Ninguém sabe a origem de seu dinheiro. Ele é dono de uma empresa de construção em Houston, Texas. Ele disse que foi erroneamente acusado de envolvimento no tráfico de drogas.

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Ele não tem Jeffrey Sachs e a Universidade de Colúmbia em grande estima. Ele disse que apesar de apoiar a transparência, ele não vê por que toda a receita do petróleo deve ser depositada em uma conta bloqueada. Talvez fosse melhor manter parte dela em São Tomé.

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Trovoada diz que deseja arrumar as coisas em São Tomé, onde os políticos pararam de pensar desde que souberam do petróleo. Eles gastam dinheiro aos montes, ele diz. "O que acontecerá se não houver petróleo? E aí?" Ele sorri, claramente satisfeito consigo mesmo.

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Ele também diz que a corrupção faz parte da tradição da ilha e comprar votos faz parte do jogo. Ele faz isso, ele disse, assim como Fradique.

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Ainda um modelo?

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As primeiras sondagens experimentais foram realmente decepcionantes. A Chevron encontrou petróleo a uma profundidade de cerca de 1.700 metros, mas em quantidades tão pequenas e de qualidade tão ruim que não era "comercialmente viável".

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A busca por petróleo nem sempre leva a resultados claros. Dados sísmicos promissores não são garantia da existência de tanto petróleo quanto antecipado. É um pouco como pôquer: você tem uma boa idéia e faz sua aposta, e com sorte pode ganhar. Descobrir novo petróleo se tornou mais difícil. As empresas estão sondando em profundezas cada vez maiores, mas com o aumento do preço do petróleo, a exploração a grandes profundidades passa a valer a pena.

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Os chineses estão atualmente explorando no Bloco 2, enquanto os americano exploram o Bloco 3. A Addax, uma empresa suíça-canadense, está convencida de que petróleo pode ser encontrado a ponto de ter comprado direitos de exploração em todos os quatro blocos. Ela adquiriu a participação da Exxon no Bloco 1 no outono de 2007 por pouco menos de US$ 78 milhões. O representante da empresa, um americano chamado Tim Martinson, disse que é importante manter o otimismo neste ramo, e que "alguma produção" certamente se materializará, mas dificilmente antes de 2015.

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E Fradique? Ele há muito parou de falar sobre suas metas ambiciosas. Há rumores de que seu relacionamento com a equipe de Jeffrey Sachs esfriou.


Quase ninguém mais acredita que São Tomé será um modelo para o mundo. Joaquin Sacramento, um pescador, se encontra em uma praia na cidade de São João dos Angolares, a duas horas ao sul da capital. Ele está lixando seu barco de madeira, que colocou sobre blocos na praia, sob uma chuva quente. Ele é um homem de 39 anos e pele bem escura, vestindo uma camisa vermelha de time de futebol.

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A verdadeira questão em São Tomé gira em torno dele -se pessoas como Sacramento algum dia verão algum benefício do petróleo e se as visões otimistas de Sachs e de sua equipe foram exageradas.

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Sacramento não tem respostas. "Nós somos pescadores", ele diz. "Alguém tem que pescar. O petróleo é para os políticos."

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Ele sabe sobre o mar -ele conhece seus humores e a melhor hora do dia para pegar certos tipos de peixe. Mas ele sabe muito pouco sobre petróleo. Ele escutou que o mar fica vermelho quando as empresas perfuram e duvida que isto fará algum bem aos peixes.

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"O oceano é azul", ele diz. "É com que estão acostumados."

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Fonte: Der Spiegel / Mathieu von Rohr - Em São Tomé e Príncipe
Tradução: George El Khouri Andolfato
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in Vermelho
19 DE ABRIL DE 2008 - 15h14
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segunda-feira, abril 07, 2008

Catástrofe humanitária na Somália



Mais de um milhão de refugiados em 16 anos


Espiral de violência na Somália põe milhares de pessoas em fuga, sem refúgio e sem alimentos, alertam agências da ONU, que temem uma catástrofe humanitária.

Desde o início do ano, mais de 64 mil pessoas abandonaram a capital somali, Mogadiscio, o que dá uma média de mais de 20 mil deslocados por mês, revela o mais recente relatório do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR).

A maioria das pessoas teme ser apanhada no fogo cruzado entre as milícias da União dos Tribunais Islâmicos (UTI) e as forças leais ao Governo Nacional de Transição do presidente Yusuf Ahmed, apoiado pelas tropas etíopes. Inicialmente sediado em Baidoa, a 200 km a noroeste de Mogadíscio, o governo reconhecido pela comunidade internacional (mas não reconhecido internamente) só conseguiu instalar-se na capital no ano passado com o apoio das tropas da Etiópia, que efectivamente o suportam.

Na prática, a Somália vive emersa no caos e em permanente guerra civil desde o derrube do presidente Siad Barre, em 1991, que abriu caminho para a divisão do país em feudos controlados por «senhores da guerra». Em 1992, forças das Nações Unidas encabeçadas pelos EUA intervêm no conflito, mas o massacre de soldados norte-americanos levou à sua retirada. Um ano depois, segundo as estimativas, já tinham morrido mais de 250 mil pessoas, vítimas da fome e da guerra.

No final de 2006, tropas etíopes entraram na Somália para apoiar o governo interino. Alegando que a UTI tem ligações à Al'Qaeda, os EUA e a Grã-Bretanha aprovaram a intervenção, mas a ajuda etíope revelou-se insuficiente para impor a autoridade do governo de Yusuf. O mesmo sucedeu com as diversas tentativas de negociação com a UTI, pois apesar de sucessivos acordos e planos de paz, a violência continuou a aumentar.

Força da ONU reforçada

Desde o ano passado que as organizações locais e internacionais vêm alertando para o perigo de uma catástrofe humanitária. No final de 2007, a ACNUR, tal como o Programa Mundial para a Alimentação (PAM), e a UNICEF, entre outras, estimavam que mais de dois milhões de somalis dependiam da ajuda humanitária para sobreviver. Na semana passada, o director do PAM para a Somália, Peter Grossens, afirmou que a falta de segurança em muitas zonas impede o fornecimento de ajuda humanitária a centenas de milhares de mulheres e crianças.

É neste contexto que surge uma informação da ONU dizendo que o Conselho de Segurança deverá discutir uma proposta do secretário-geral Ban Ki-moon sobre o envio para a Somália de uma força de pacificação, integrada por 27 mil efectivos. A concretizar-se, este contingente irá substituir o da União Africana, formado por cerca de dois mil soldados do Uganda, que actualmente se encontra no território e que não tem sido capaz de conter a violência.

No final do ano passado, estimava-se em mais de um milhão o número de refugiados somalis.

Após mais de 16 anos de guerra, a economia da Somália, que é um dos países mais pobres do mundo, é controlada por uma minoria que explora o narcotráfico, a venda de armas e o comércio de alimentos.
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in Avante 2008.04.03
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Foto por yulunga1 (refugiados)



domingo, dezembro 09, 2007

Seminário - África - Desafios do desenvolvimento, do progresso social e da soberania



Seminário - África - Desafios do desenvolvimento, do progresso social e da soberania. A denúncia do neocolonialismo, outra visão para as relações com África - 01.12.2007




ver também:


terça-feira, novembro 27, 2007

Porqué no te callas?



* Boaventura Sousa Santos

Não se imagina um chefe de Estado europeu a dirigir-se nesses termos publicamente a um seu congénere europeu... Mas "¿porqué no te callas?" é ainda reveladora a outros níveis. Saliento três. Primeiro, a desorientação da esquerda europeia, simbolizada pela indignação oca de Zapatero, incapaz de dar qualquer uso credível à palavra "socialismo" e tentando desacreditar aqueles que o fazem. Artigo de Boaventura de Sousa Santos publicado na Visão em 22 de Novembro de 2007, disponível em Centro de Estudos Sociais

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Esta frase, pronunciada pelo Rei de Espanha, dirigindo-se ao Presidente Hugo Chávez durante a XVII Cimeira Iberoamericana, corre o risco de ficar na história das relações internacionais como um símbolo das contas por saldar entre as potências ex-colonizadoras e as suas ex-colónias. Não se imagina um chefe de Estado europeu a dirigir-se nesses termos publicamente a um seu congénere europeu quaisquer que tenham sido as razões do primeiro para reagir às afirmacões do último. Como qualquer frase que intervém no presente a partir de uma história não resolvida, esta frase é reveladora a diferentes níveis.


Revela a dualidade de critérios na avaliação do que é ou não democrático. Está documentado o envolvimento do primeiro-ministro de Espanha, José Maria Aznar, no golpe de Estado que em 2002 tentou depor um presidente democraticamente eleito, Hugo Chávez, com a agravante que na altura a Espanha presidia à União Europeia. Para Chávez, Aznar, ao actuar desta forma, comportou-se como um fascista. Pode questionar-se a adequação deste epíteto. Mas haverá tanta razão para defender as credenciais democráticas de Aznar, como fez pateticamente Zapatero, sem sequer denunciar o carácter antidemocrático desta ingerência? Haveria lugar à mesma veemente defesa se o presidente eleito de um país europeu colaborasse num golpe de Estado para depor outro presidente europeu eleito? Mas a dualidade de critérios tem ainda uma outra vertente: a da avaliação dos factores externos que interferem no desenvolvimento dos países.


Zapatero criticou aqueles que invocam factores externos para encobrir a sua incapacidade de desenvolver os países. Era uma alusão a Chavez e à sua crítica do imperialismo norte-americano. Podem criticar-se os excessos de linguagem de Chávez, mas não é possível fazer esta afirmação no Chile sem ter presente que ali, há trinta e quatro anos, um presidente democraticamente eleito, Salvador Allende, foi deposto e assassinado por um golpe de Estado orquestrado pela CIA e por Henry Kissinger. Tão pouco é possível fazê-lo sem ter presente que actualmente a CIA tem em curso as mesmas tácticas usando o mesmo tipo de organizações da "sociedade civil" para destabilizar a democracia venezuelana.


Tanto Zapatero como o Rei ficaram particularmente agastados pelas críticas às empresas multinacionais espanholas (busca desenfreada de lucros e interferência na vida política) feitas, em diferentes tons, pelos presidentes da Venezuela, Nicarágua, Equador, Bolívia e Argentina. Ou seja, os presidentes legítimos das ex-colónias foram mandados calar mas, de facto, não se calaram. Esta recusa significa que estamos a entrar num novo período histórico, o período pós-colonial, um período longo que se caracterizará pela afirmação mais vigorosa na vida internacional dos países que se libertaram do colonialismo europeu, assente na recusa das dominações neocoloniais que persistiram para além do fim do colonialismo. Isto explica porque é que a frase do Rei de Espanha, destinada a isolar Chávez, saiu pela culatra. Pela mesma razão têm falhado as tentativas da UE para isolar Roberto Mugabe.


Mas "¿porqué no te callas?" é ainda reveladora a outros níveis. Saliento três. Primeiro, a desorientação da esquerda europeia, simbolizada pela indignação oca de Zapatero, incapaz de dar qualquer uso credível à palavra "socialismo" e tentando desacreditar aqueles que o fazem. Pode questionar-se o "socialismo do século XXI" - eu próprio tenho reservas e preocupações em relação a desenvolvimentos recentes na Venezuela - mas a esquerda europeia deverá ter a humildade para reaprender, com a ajuda das esquerdas latinoamericanas, a pensar em futuros pós-capitalistas.


Segundo, a frase espontânea do Rei de Espanha, seguida do acto insolente de abandonar a sala, mostrou que a monarquia espanhola pertence mais ao passado da Espanha que ao seu futuro. Se, como escreveu o editorialista de El País, o Rei desempenhou o seu papel, é precisamente este papel que mais e mais espanhóis põem em causa, ao advogarem o fim da monarquia, afinal uma herança imposta pelo franquismo. Terceiro, onde estiveram Portugal e o Brasil nesta Cimeira? Ao mandar calar Chávez, o Rei falou em família. O Brasil e Portugal são parte dela?


in Esquerda.net - 24-Nov-2007

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Ver também Pedro Campos - Por quê não abdicas tu?