A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
Mostrar mensagens com a etiqueta Ignácio Ramonet. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ignácio Ramonet. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, abril 18, 2008

A conspiração contra Chávez

.

Chavez caricartura


Por Ignácio Ramonet - Le Monde Diplomatique (*)
,

15.04.2008

.

Chávez não havia mandado disparar contra os manifestantes como alguns canais de televisão disseram de forma mentirosa (refiro-me às trucagens que a emissora Venevisión difundiu mundialmente). As provas de que ocorreu o contrário existem e mostram que os primeiros tiros foram dados contra os partidários de Chávez, vindos de franco-atiradores misturados aos manifestantes golpistas e fazendo quatro mortos.
.
Este gravíssimo golpe contra a democracia, com seu aspecto caricatural (uma junta militar presidida pelo chefe de uma associação patronal), fez a América Latina retroceder, durante 48 horas, a uma era política que pensávamos superada, os anos de pinochetismo e da repressão. Foi uma terrível advertência para todos os dirigentes latino-americanos que quiserem se opor ao modelo neoliberal. Essa advertência se dirige, em primeiro lugar, a Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do Partido dos Trabalhadores à presidência do Brasil, que as pesquisas de intenção de voto colocam como favorito para as eleições de outubro.

,
Toda essa conspiração se desenvolveu enquanto eu estava em Caracas, uma semana antes dela ser efetivada. A atmosfera era de extrema tensão, sentia-se que o golpe viria.

.
A Venezuela possui uma estrutura econômica escandalosamente desigual. 70% da população vive na pobreza. Durante quarenta anos, dois partidos, a Ação Democrática e o Copei, repartiram o poder e a riqueza nacional. Os níveis de corrupção alcançaram dimensões gigantescas.

.
Percorríamos à noite as ruas de Caracas e Hugo Chávez me dizia que a Venezuela havia recebido, de 1960 até 1998, o equivalente a quinze Planos Marshall em venda de petróleo. "Com um único Plano Marshall - me dizia Chávez - pode se reconstruir toda a Europa destruída pela Segunda Guerra Mundial. Com quinze Planos Marshall, só conseguimos que certos corruptos conquistassem algumas das maiores fortunas do mundo, enquanto a maioria da população vive na miséria".
.

Esse sistema de corrupção, combatido por Chávez, acabou de ser derrubado em 1998. Os partidos AD e Copei foram rejeitados e desapareceram. Chávez foi eleito presidente com um programa de transformação social e com o propósito de fazer da Venezuela um país mais justo e menos desigual. Alguns pensaram que, como tantos outros, uma vez no poder, Chávez se esqueceria de suas promessas e tudo seguiria igual. Mas esse comandante, de origem humilde, admirador dos grandes lutadores da liberdade na América Latina, estava decidido a não decepcionar seus eleitores, aqueles que viam nele a última esperança para sair da pobreza, da falta de educação e da humilhação. "A luta pela justiça, a luta pela igualdade e a luta pela liberdade - me dizia Chávez - alguns chamam socialismo, outros chamam cristianismo, nós chamamos de bolivarismo."
.

Seu governo lançou toda uma série de reformas sociais: escolas nos bairros esquecidos, realizações em favor dos indígenas, microcréditos para as pequenas empresas, lei de terras em favor dos camponeses sem terra, melhoras da infra-estrutura no interior do país etc. "Estamos diminuindo o desemprego", contava-me Chávez. "Criamos mais de 450 mil novos postos de trabalho. Nos últimos anos, a Venezuela subiu quatro posições no Índice de Desenvolvimento Humano. O número de crianças escolarizadas aumentou em 25%. Mais de 1,5 milhão de crianças que não iam à escola já estão integradas e recebem roupa, comida, material e merenda. A mortalidade infantil diminuiu. Estamos construindo mais de 135 mil moradias para famílias pobres. Estamos repartindo as terras aos camponeses sem terra. Criamos um Banco da Mulher que concede microcréditos. No ano de 2001, a Venezuela foi um dos países com maior crescimento no continente, cerca de 3%... Estamos tirando o país da estagnação e do atraso".

.
À medida que essas reformas entraram em prática, muitos dos que apoiaram Chávez deixaram de apoiá-lo. Tratavam-no como o "caudilho", chamavam-no de autocrata e essa liberdade de crítica jamais havia existido antes. Ninguém foi preso por crimes de opinião. Mas a minúscula classe rica e a classe média alta, essencialmente brancas, viam com pavor a perspectiva de ver subirem na escala social os negros e os mestiços que aqui, como em toda a América Latina, ocupam os lugares mais inferiores da sociedade. "Existe um racismo incrível em nossa sociedade", me dizia Chávez. "Chamam a mim de El Mono, ou O Negro, não suportam que alguém como eu tenha sido eleito presidente".

.
Assim se chegou à situação de 11 de abril. Uma situação de confrontação de classe contra classe. Por um lado, o presidente Chávez, apoiado por uma parte majoritária do povo comum, por outro, uma aliança neo-conservadora, a burguesia que ocupava as ruas do bairro rico com panelas, apoiada pela associação patronal, os meios de comunicação ferozmente hostis, mentindo de forma descomunal, inventando rumores e calúnias, falseando as evidências, e a camada aristocrática dos trabalhadores (do setor do petróleo), mobilizados pela CTV, a central sindical considerada a mais corrupta da América Latina.

.
Essa aliança reacionária declarou uma guerra sem quartel ao presidente Chávez, com o apoio de alguns meios internacionais (como, por exemplo, o canal CNN em Espanhol) e com o apoio dissimulado dos Estados Unidos. Washington, com sua vontade de dominar o mundo depois do 11 de setembro, não podia suportar, como declarou Colin Powell semanas atrás, a independência diplomática da Venezuela, seu papel na Opep, sua falta de apoio ao Plano Colômbia, sua atitude militante contra a globalização neoliberal.
.

Faz alguns meses, a administração Bush nomeou como subsecretário de Estado para Assuntos Americanos Otto Reich, antigo colaborador de Reagan, colaborador no caso Irã-contras, especialista na organização de sabotagens e de atentados, mestre na arte da contra-revolução. Otto Reich foi o arquiteto oculto da conspiração contra Chávez.
.
Essas más intenções dos Estados Unidos, na véspera do golpe, Hugo Chávez já percebia com enorme lucidez. "A greve geral de 9 de abril é só uma etapa da grande ofensiva norte-americana contra mim e contra a revolução bolivariana. E seguiram inventando uma série de coisas. Não me admiraria que amanhã inventem que escondo Bin Laden na Venezuela. Não estranharia que mostrassem algum documento com datas e provas de que Bin Laden e um grupo de terroristas da Al-Qaeda estão nas montanhas da Venezuela. Preparam um golpe e, se fracassam, preparam um atentado.

.

(*) Ignácio Ramonet é jornalista, sociólogo e editor do Le Monde Diplomatique. Texto publicado em 20/02/2008 na Revista Fórum. O texto foi republicado no Fazendo Media por conta dos 6 anos do golpe midiático contra o governo Chávez, que se deu em 11 de abril de 2002.

.

.

sábado, fevereiro 09, 2008

Bancarrota em 2008?

EDITORIAL - FEVEREIRO 2008

Bancarrota em 2008?

por IGNACIO RAMONET


Conseguirá o anúncio feito pela Reserva Federal americana de uma importante redução das suas taxas de juro evitar uma recessão nos Estados Unidos e afastar o espectro duma bancarrota mundial? Muitos peritos crêem que sim, receando quando muito uma redução do ritmo do crescimento.

Mas outros analistas, embora adeptos do capitalismo, mostram-se muito inquietos. Em França, por exemplo, Jacques Attali profetiza que «em breve […] a Bolsa de Nova Iorque, caução da pirâmide dos empréstimos, irá desmoronar-se» [1]. Michel Rocard acrescenta mesmo: «A minha convicção é que isto irá em breve explodir» [2].

Convém dizer que os sinais de desconfiança se estão a multiplicar. Mostra-o a actual «corrida para o ouro», voltando o metal amarelo – cujas cotações, em 2007, aumentaram 32 por cento! – a desempenhar o seu papel de valor refúgio. Todos os grandes organismos económicos, entre os quais o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), prevêem uma diminuição do crescimento mundial.

Quase tudo começou em 2001 com o rebentamento da bolha Internet. Para proteger os investidores, Alan Greenspan, nessa altura presidente da Reserva Federal americana, decidiu orientar os investimentos para o sector imobiliário [3]. Através de uma política de taxas muito baixas e de redução das despesas financeiras, levou os intermediários financeiros e imobiliários a incitar uma clientela cada vez maior a investir em imóveis. Foi assim estabelecido o sistema dos subprimes, empréstimos hipotecários de risco e de taxa variável concedidos às famílias mais frágeis [4]. Mas quando a Reserva Federal, em 2005, aumentou a taxa de juro de referência (aquelas, precisamente, que acabara de reduzir), com isso desregulou a máquina e desencadeou um efeito dominó, fazendo vacilar o sistema bancário internacional a partir de Agosto de 2007.

A ameaça de insolvência de quase três milhões de famílias, endividadas em cerca de 200 mil milhões de euros, levou à falência importantes instituições de crédito. Para se precaverem contra esse risco, estas tinham vendido uma parte dos seus créditos duvidosos a outros bancos, os quais os cederam a fundos de investimento especulativos, que, por sua vez, os disseminaram em bancos do mundo inteiro. Resultado: qual epidemia fulminante, a crise atingiu o sistema bancário como um todo.

Importantes instituições financeiras – Citigroup e Merrill Lynch, nos Estados Unidos, Northern Rock, no Reino Unido, Swiss Re e UBS, na Suíça, Société Générale, em França, etc. – acabaram por admitir que tiveram perdas colossais. Algumas dessas instituições, para limitar o desastre, tiveram de aceitar capitais provenientes de fundos soberanos controlados por potências do Sul e das petromonarquias.

Ainda ninguém sabe qual é a dimensão exacta dos danos. Desde Agosto de 2007, os bancos centrais norte-americano, europeu, britânico, suíço e japonês injectaram na economia centenas de milhares e milhões de euros sem conseguirem restaurar a confiança.

Da economia financeira, a crise propagou-se para a economia real. E uma conjunção de factores – redução acelerada dos preços do imobiliário nos Estados Unidos (mas também no Reino Unido, na Irlanda e em Espanha), esvaziamento da bolha de liquidez, queda do dólar, restrição do crédito – fazem de facto temer um nítido recuo do crescimento mundial. A isso vêm ainda juntar-se outros fenómenos, tais como o aumento dos preços do petróleo, das matérias-primas e dos produtos alimentares. Ou seja, os ingredientes de uma crise que está para durar [5]. A mais importante desde que a globalização passou a constituir o quadro estrutural da economia mundial.

A saída desta crise reside agora na capacidade que as economias asiáticas tenham para revezar o motor norte-americano. Nesse caso, isso será uma nova manifestação do declínio do Ocidente, pressagiando a próxima deslocação do centro da economia-mundo dos Estados Unidos para a China. E se assim for, a presente crise irá assinalar o fim de um modelo.

quinta-feira 7 de Fevereiro de 2008

Notas

[1] L’Express, Paris, 13 de Dezembro de 2007.

[2] Le Nouvel Observateur, Paris, 13 de Dezembro de 2007.

[3] Ler «Crises financières à répétition: quelles explications? quelles réponses?», Fondation Res Publica, Paris, 2008.

[4] Cf. André-Jean Locussol-Mascardi, Krach 2007. La vague scélérate des «subprimes», Le Manuscrit, Paris, 2007.

[5] Ler Frédéric Lordon, «O mundo refém do poder financeiro», Le Monde diplomatique – edição portuguesa, Setembro de 2007.

.

in Le Monde Diplomatique PT - 2008. Fevereiro