A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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segunda-feira, março 04, 2013

Espanha ultrapassa os cinco milhões de desempregados

Centro de Emprego em Burgos. Em fevereiro se juntaram às listas de desempregados 59.444, elevando para 5.040.222 o número total dos sem emprego em Espanha Getty Centro de Emprego em Burgos. Em fevereiro se juntaram às listas de desempregados 59.444, elevando para 5.040.222 o número total dos sem emprego em Espanha
 


Pela primeira vez, os desempregados em Espanha superam os cinco milhões.

No país vivem cerca de 46 milhões de pessoas.
Lusa
 
 
O número de desempregados em Espanha aumentou quase 60 mil pessoas em fevereiro, elevando, pela primeira vez, o número total de pessoas sem emprego para mais de cinco milhões de pessoas.
 
Segundo dados do Ministério do Emprego e Segurança Social hoje divugados, em fevereiro ficaram sem trabalho 59.444 pessoas, elevando para 5.040.222 o número total de espanhóis sem emprego, o valor mais alto desde que há registos equivalentes.
 
No último ano, Espanha registou mais 328 mil desempregados (mais 6,96%), sendo que os dados referentes a fevereiro demonstram que apesar da perda de emprego este foi o melhor número desde 2008.
 
Os dados demonstram também uma nova queda no número de trabalhadores ativos, com menos cerca de 22 mil para cerca de 16,15 milhões.
 
A perda de emprego ocorreu em todos os setores e afetou maioritariamente homens. Espanha tem 46 milhões de habitantes, segundo dados de 2011.


quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Juntos pela mudança ~Vozes pelo 12 de Março

27 Fevereiro 2013


Jumtos pela mudança

Vozes pelo 2 de Março


Onde pára a democracia?Para onde quer que se olhe, os sinais que avançam e nos cercam são os de um país que empobrece e se afunda, enquanto uma caixa negra nos nega as mais nítidas evidências do imenso desastre que para nós preparam.

1. A Dívida, quê?
A dívida, quê? A dívida Soberana é como se chama a uma dívida assumida e garantida por um ser ou uma entidade soberana (um estado ou o seu banco central). Este par (nome + adjectivo) joga, com a gramática, um jogo que te leva à certa. Só compreenderás o que ele significa, se compreenderes que, no fim de qualquer passo de dança, a dívida deixou de ser uma propriedade ou uma qualidade do estado. O que ela exprime é que é ela que é soberana. Quem manda na política sou eu, a dívida. Tal como quem manda nisto tudo são os bancos (privados).

2. Soberania
Que Europa é esta que nos atou ao pescoço o BPN, em cujo buraco o estado enterrou vai para sete mil milhões de euros, e não nos autoriza o investimento de 1300 milhões de euros para o saneamento financeiro da TAP, o maior exportador do país e uma empresa estratégica para o nosso desenvolvimento soberano? É certamente a mesma Europa que fica sentada à espera que o governo português manobre de forma a tornar aceitável o inaceitável, a destruição dos estaleiros de Viana do Castelo.

3. Incomensurável, inaceitável hipocrisia.
As manifestações como aquela a que se assistiu nas instalações do ISCTE, em que um grupo de estudantes calou essa figura inenarrável de licenciado-com-emprego (Miguel Relvas), equiparado a governante, «suscitam necessariamente», disseram eles, os da sua pandilha, «o repúdio da parte de todos quantos prezam e defendem as liberdades individuais, designadamente o direito à livre expressão no respeito pelas regras democráticas». E, coisa espantosa, eis que se lhe juntam alguns outros, de outra pandilha, mas da mesma troika, usando os mesmos argumentos e tiques de quem se prepara para criminalizar o protesto.

4. O desemprego
Em Portugal, 51 % dos jovens licenciados estão no desemprego. É uma violência que lhes é feita, assim como ao país que se vê por essa via impedido de utilizar o seu trabalho qualificado. A dor humana do desemprego jovem é a dor causada por uma amputação social de perspectivas de vida. Entretanto cresce também o desemprego de longa duração. Às suas vítimas cabe agora o sofrimento de verem desqualificada e ofendida a sua experiência de vida. Jogar uns contra os outros é uma jogada miserável contra o trabalho. Torna-se cada vez mais claro que esta ofensiva contra direitos individuais e colectivos é uma révanche do grande capital, que quer arrancar aos trabalhadores assalariados tudo o que foi obrigado a ceder-lhes ao longo do último século e que constitui uma plataforma civilizacional avançada.

5. Saúde pública
Ela entrou na nossa sala, como se fosse uma pequena ventania que se libertasse e disse: «eu e o Óscar, foi já demasiado tarde que nos apercebemos que ela não aviava na farmácia as receitas por inteiro. Agora sei que deitá-los de lá abaixo já não é só um objectivo político, tornou-se uma necessidade urgente de saúde pública».

6. A organização da nossa legítima defesa
Tendo perdido o medo ou a repugnância que lhe provocavam certas palavras e frases que usamos, sobretudo em circunstâncias em que se trata de atribuir intenções a certos gestos ou modos de agir, chegou um dia em que a ouvimos dizer, muito calma e cheia de fúria: «mas eles estão a matar-nos; eles querem matar-nos». A nota de espanto que soava na sua voz indicava que ela já estava preparada para compreender que se tratava de pôr na ordem do dia a organização da nossa legítima defesa.

7. Quem somos nós?

Nós somos «a esperança que não fica à espera».

Quem pode ser no mundo tão quieto
Que o não movem nem o clamor do dia
Nem a cólera dos homens desabitados
Nem o diamante da noite que se estilhaça e voa
Nem a ira, o grito ininterrupto e suspenso
Que golpeia aqueles a quem a voz cegaram
Quem pode ser no mundo tão quieto
Que o não mova o próprio mundo nele.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Crise: ONU alerta para grave recessão e aumento do desemprego



Página Inicial

17 DE JANEIRO DE 2013 - 8H04 

Crise: ONU alerta para grave recessão e aumento do desemprego


Em alerta divulgado nesta quarta-feira (16), a Organização das Nações Unidas (ONU) externou sua preocupação com o “grave risco de nova recessão”. De acordo com a ONU devem ser adotadas medidas de combate ao aumento do desemprego no mundo.



Baseada eminformações da pesquisa denominado 'Situação e Perspetivas da Economia Mundial 2013', o Órgão externou que as perspectivas são influenciadas pelos impactos da crise econômica internacional em vários países.

Em pronunciiamento à imprensa internacional, o diretor do estudo, Rob Vos, disse que o aprofundamento da crise na zona do euro -  que é composta por 17 países -, a ampliação do abismo do Orçamento nos Estados Unidos e um recuo da economia chinesa poderão causar nova recessão global. Segundo ele,  "cada um desses riscos poderá resultar em perdas produtivas globais entre 1% e 3 %".

A ONU estima um crescimento na zona do euro de 0,3 % em 2013 e de 1,4 % em 2014; nos Estados Unidos, de 1,7 % em 2013 e de 2,7 % em 2014; no Japão, de 0,6 % este ano e de 0,8 % no próximo; e na China, de 7,9 % em 2013 e de 8 % em 2014.

Medidas de austeridade

A ONU ainda criticou as políticas econômicas baseadas em medidas de austeridade fiscal. Para o Órgão tais medidas não são suficientes para recuperar a economia e conter a crise do emprego. “Apesar de os esforços terem sido significativos, especialmente na zona do euro, a combinação de austeridade no Orçamento e de políticas monetárias expansivas teve um êxito desigual”, destacou Vos.

De acordo com o estudo, a estratégia deve ser alterada na tentativa de adotar ações coordenadas com políticas de criação de emprego e de crescimento sustentável. “A economia mundial enfraqueceu consideravelmente em 2012. [A perspectiva é que se mantenha] deprimida nos próximos dois anos”, com a previsão de crescimento de 2,4 % para 2013 e de 3,2 % para 2014”, diz o relatório.

Com informações da Agência Brasil


quarta-feira, agosto 22, 2012

Eugénio Rosa - Desemprego é mera nota negativa para Passos Coelho


Avante!

  • Eugénio Rosa 


Desemprego é mera nota negativa para Passos Coelho
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Os portugueses ficaram a saber pela boca do 1.º ministro, no discurso que fez na festa do PSD no Pontal, que o desemprego em Portugal não é um problema importante para Passos Coelho, porque «o que era importante não falhámos»; o desemprego é uma mera «nota negativa» para  utilizar também as próprias palavras do 1.º ministro. E isto no dia em que o INE divulgou os dados sobre o desemprego do 2.º trimestre de 2012, que revelavam que 1,3 milhões de portugueses estavam desempregados ou subempregados por falta de trabalho, e estatísticas recentes da Segurança Social informavam que o número de desempregados a receber subsídio de desemprego tinha diminuído no 2.º trimestre deste ano, apesar do desemprego continuar a aumentar. Mas analisemos os dados divulgados pelo INE e pela Segurança Social para se poder avaliar a dimensão da insensibilidade social e da falta de respeito do 1.º ministro pelos desempregados.

O INE, na informação referente ao 2.º trimestre de 2012, utilizou dois conceitos novos que é importante ter presente para compreender os dados do Quadro anexo. O primeiro, é o «Subemprego de trabalhadores a tempo parcial» que, segundo o INE, corresponde ao «conjunto de indivíduos empregados dos 15 aos 74 anos que, no período de referência em que foi realizado o inquérito, tinham um trabalho a tempo parcial (inclui os «biscates» para sobreviver) e declararam pretender trabalhar mais horas do que as que habitualmente trabalham e estavam disponíveis para isso»; portanto, são pessoas que desejam trabalhar mais para obter uma melhor remuneração e que só o não fazem porque não encontram trabalho. Este conceito substitui o «subemprego visível» que o INE utilizava anteriormente. O segundo conceito novo é o de «inativo disponível mas que não procura emprego» que é, segundo o INE, o «inativo com idade dos 15 aos 74 anos que, no período de referência, estava disponível para trabalhar, mas não tinha procurado um emprego ao longo do período de referência ou nas três semanas anteriores ao inquérito do INE». Este conceito substitui o anterior de «inactivo disponível», que incluía também os «inactivos disponíveis desencorajados» – os que tinham deixado de procurar emprego porque já não acreditavam que o conseguissem arranjar. Portanto, estes dois grupos abrangidos pelos novos conceitos utilizados pelo INE, que os adoptou por serem usados pelo Eurostat, são constituídos (ambos) por portugueses que estão aptos e disponíveis para trabalhar mas que ou não o fazem ou o fazem apenas um número reduzido de horas porque não encontram trabalho. Na prática, ou estão totalmente sem trabalho ou apenas conseguem trabalhar poucas horas.

Assim, o desemprego oficial, que no 2.º trimestre de 2012 atingiu a taxa 15% (15,4% segundo o Eurostat), o que corresponde a 829,6 mil desempregados (849 mil de acordo com o Eusrostat), ascende de facto – se somarmos aqueles dois grupos, um de desempregados e o outro de subempregados – a 1 305 300, o que corresponde a uma taxa de desemprego real de 22,8%. Apesar disso, no fim do 2.º trim./2012, apenas 356,5 mil desempregados (43,1% do desemprego oficial; 27,3% do desemprego real) recebiam subsídio de desemprego, segundo a Segurança Social. E não obstante o desemprego continuar a crescer, o número de desempregados a receber subsídio, que tinha aumentado até ao 1.º trim./2012 para 360,7 mil, no 2.º trim./2012 diminuiu para 356,5 mil. Mas isto não é um problema importante para o 1.º ministro; nas suas palavras é apenas uma «nota negativa».

Acresce que o desemprego de longa duração está a aumentar muito, como revelam os dados do INE.

Entre o 2.º trim./2011 e o 2.º trim./2012, o desemprego de longa duração, ou seja, com mais de um ano, passou de 372,3 mil para 443,3 mil, representando já 53,6% do desemprego oficial total. Para a maioria destes desempregados de longa duração isso significa a crescente exclusão do mercado de trabalho, pois devido à sua baixa escolaridade (63,1% tinham o Ensino Básico) será cada vez mais difícil encontrar emprego. Mas para o 1.º ministro, isso também não é um problema importante, o que é importante é obter uma avaliação positiva da troika.


A «regra de ouro» salazarista


No discurso que fez no Pontal, Passos Coelho não falou uma única vez de qualquer medida para impulsionar o crescimento económico, nem para criar emprego. Certamente porque isso também não é um problema importante para ele, ou então porque acredita, cego pela ideologia neoliberal, que as «avaliações positivas da troika trarão, como por milagre, o crescimento económico. No entanto, o 1.º ministro foi ao baú das velharias salazaristas e retirou dele aquilo que chamou a «regra de ouro» de qualquer governo a qual, segundo ele, devia ser inscrita na Constituição para obrigar todos os governos a respeitá-la. E essa «regra de ouro» é que o governo nunca devia fazer qualquer despesa que aumentasse a dívida. E isto com a justificação de não sobrecarregar as gerações futuras que teriam de pagar essa dívida. A ignorância sobre a economia e tacanhez desta «regra de ouro» salazarenta tornam-se claras quando a confrontamos com a realidade.

Suponha-se um investimento na construção de um hospital, ou de uma escola, ou de uma universidade, ou ainda de uma estrada, ou então medidas para impulsionar o crescimento económico e o desenvolvimento do País. É evidente, pela duração da sua vida útil, que esse hospital, essa escola, essa estrada vão ser utilizadas também pelas gerações futuras, assim como o crescimento económico e o desenvolvimento do País vão também beneficiar as futuras gerações. Se o Estado nunca se pudesse endividar para fazer esse tipo de investimentos, tal significaria que as gerações actuais teriam de pagar integralmente esses investimentos, embora eles fossem também utilizados pelas gerações futuras, ou então que esses investimentos não se realizariam e o País não se desenvolvia. A «regra de ouro» salazarista, agora também adoptada por Passos Coelho, a vingar só poderia conduzir o País ao atraso e à anemia económica, tal como sucedeu no salazarismo.

A defesa do investimento público com base no endividamento não significa que todos os investimentos públicos sejam bons investimentos e por isso devam ser realizados. A situação que o País actualmente enfrenta também resultou de maus investimentos públicos. São exemplos a compra dos submarinos; a construção de estádios de futebol que não são utilizados; as rendas excessivas pagas pelo Estado a grandes empresas como a EDP e Mota-Engil, que ninguém tem coragem para reduzir, embora não se canse de o prometer; benefícios fiscais enormes concedidos às grandes empresas como à GALP e à banca, a construção de centenas de quilómetros de auto-estradas quando era suficiente uma boa estrada; e múltiplas despesas onde se continua a desbaratar impunemente fundos públicos (leia-se o livro recente de Bárbara Rosa e Rui Oliveira, a Má despesa pública, que é esclarecedor). Há boa despesa pública e má despesa pública, e é necessário e urgente boa despesa pública para tirar Portugal da recessão económica e para criar emprego. Mas a cegueira neoliberal e o espírito de classe impedem Passos Coelho e Vítor Gaspar de compreenderem este ensinamento elementar da ciência económica. Nenhuma empresa funcionaria nem se desenvolveria com gente com esta miopia e tacanhez à frente.

quinta-feira, agosto 02, 2012

Capitalismo e desemprego: a história se repete como tragédia



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Os dados do desemprego nos países ricos, revelados na semana passada, são de assustar. Estados Unidos e Europa, que concentram uma imensa fatia do PIB mundial, apresentam taxas de desemprego em torno dos dois dígitos — fato que aponta o potencial longevo e destrutivo da atual crise global.

Em recente artigo no The New York Times, Paul Krugman comentou o relatório do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos, alertando que a criação de alguns postos de trabalho pela primeira vez em dois anos poderia suscitar apelos por um fim ao estímulo econômico e pela reversão dos passos que o governo e o Fed (Banco Central norte-americano) estão tomando para impulsionar a economia. Qual o problema?

Se esses apelos forem considerados, repete-se o grande equívoco de 1937, quando o Fed e a administração do presidente Franklin Roosevelt decidiram que a Grande Depressão havia acabado e que já era hora de a economia jogar fora suas muletas, explicou Krugman. Os gastos foram cortados, a política monetária foi apertada, e a economia imediatamente mergulhou de novo nas profundezas.

O economista lembrou que tanto Ben Bernanke, o presidente do Fed, quanto Christina Romer, que lidera o Conselho de Assessores Econômicos do presidente Barack Obama, são estudiosos da Grande Depressão. Cristina foi explicitamente alertada contra a possibilidade de reeditar os acontecimentos de 1937, lembrou. “Porém, aqueles que lembram o passado ainda assim o repetem algumas vezes”, advertiu Krugman.

Reflexo da crise no emprego

A advertência é séria. Em 1937, os Estados Unidos estavam no auge do debate sobre os efeitos do desemprego no prolongamento da crise econômica. Semelhanças com o estado atual da crise, com potencial para se prolongar por tempo indefinido com conseqüências catastróficas para as demais economias, chamam a atenção e fazem pensar.

Informa o site Cubadebate que o número de estadunidenses e de empresas que solicitaram declaração de falência aumentou em 32% no ano passado. Foram apresentados 1,4 milhão de pedidos de falência, mais do que em qualquer outro ano, após o Congresso rever as leis da falência, em 2005. No Arizona, o número de falências aumentou subitamente em 77% e na Califórnia, Wyoming e Nevada, em mais de 50%.

A crise tem reflexos imediatos no índice de emprego. Foram cortadas 85 mil vagas apenas em dezembro, segundo o relatório do PIB norte-americano. O número de novembro foi revisto para melhor, apontando 4 mil contratações ante informação preliminar de 11 mil demissões. Mas houve revisões também em outubro, o que fez com que nesses dois meses a economia tenha perdido mil empregos a mais que o inicialmente divulgado.

Bancos encalacrados

Em dezembro, a taxa de desemprego ficou estável em 10%. O desemprego nos Estados Unidos chegou a dois dígitos (10,2%, em outubro, o maior nível desde abril de 1983). O presidente Barack Obama classificou a taxa como “um duro apelo à realidade”, lembrando que um bom nível de emprego acarreta, tradicionalmente, a retomada econômica.

Desde o início da recessão nos Estados Unidos, em dezembro de 2007, o desemprego no país já avançou 5,3 pontos percentuais, com 8,2 milhões de demissões. Para o economista Adriano Benayon, da Universidade de Brasília (UnB), os bancos usaram os recursos dos bancos centrais, nos Estados Unidos e na Europa, para inflar novas bolhas especulativas, em detrimento do financiamento à produção e à conseqüente geração de empregos.

“Os BCs emitiram muito dinheiro e o repassaram aos bancos encalacrados com títulos tóxicos. Empresas produtivas hoje são risco alto para eles. É uma política contrária à sociedade. Em vez de crédito público para financiar diretamente a produção e fomentar emprego, contemplou-se apenas a oligarquia”, critica Benayon, acrescentando que, nos seis primeiros meses após à quebra do Lehmann Brothers, em 15 de setembro de 2008, somente o Fed emitiu US$ 8 trilhões.

Alta constante do desemprego

Frisando que “os bancos procuram sempre o que lhes parece mais seguro ou rentável”, o economista apontou um paradoxo na crise atual: “Quando há recessão, normalmente preços de ações e commodities caem, mas nesta ocorreu o contrário.” Benayon disse, ainda, que os especuladores estão contraindo empréstimos em dólar, com juro negativo, e investindo em ações e em títulos de países, como o Brasil, nos quais há tendência de valorização cambial. “É um ganho duplo de capital: com juros e valorização da moeda local. É uma guerra cambial na qual o Brasil entra de gaiato, graças ao BC”, resumiu.

Na Zona do Euro, o índice de desemprego também voltou a bater recorde e chegou em novembro pela primeira vez a 10%, anunciou a agência europeia de estatísticas, Eurostat. O nível de desemprego em novembro é o mais elevado desde agosto de 1998, que estabeleceu registros para os meses anteriores à criação da Zona Euro em 1999.

Em outubro, o desemprego na Eurozona, integrada por 16 países, afetava 9,9% da população ativa, segundo dados revisados para cima. O desemprego registra uma alta constante desde o agravamento da crise financeira mundial de 2008. Em novembro de 2008, o índice era de 8%.

Uma Áustria e Irlanda sem emprego

Na União Europeia (UE), integrada por 27 países (incluindo os 16 da Zona Euro), o desemprego em novembro foi de 9,5%, contra 9,4% em outubro. O número também é um recorde desde o início da atual série estatística, iniciada em janeiro de 2000. Os desempregados da Zona Euro somam 15,712 milhões, uma alta de 102 mil em novembro na copmparação com outubro. Na UE, são 22,899 milhões — com variação positiva de 185 mil desempregados.

A Europa tem uma Áustria e Irlanda sem emprego Apesar dos discursos róseos sobre o fim da crise, os Estados Unidos e a Zona do Euro fecharam 2009 com desemprego próximo dos dois dígitos. Além de o desemprego ter permanecido em 10% em dezembro, ele ainda não atingiu o pico, alertou o economista Ken Goldstein, da organização de pesquisa e projeções econômicas Conference Board. A taxa ficou pouco abaixo dos 10,1% de outubro de 2009, mas Goldstein avisa que o número ainda irá avançar para entre 10,3% e 10,4% entre abril e maio.

Falando na conferência “Novo mundo, Novo capitalismo”, na Escola Militar de Paris, o primeiro-ministro português José Sócrates disse que a crise mostrou a importância “do bom e velho Estado” nas políticas de apoio à economia. Muitos “olharam para o Estado à espera de uma resposta” e o “novo capitalismo tem que contar com a presença do Estado”, considerou.

O patrão ficou louco

Qual papel o Estado pode ter nos desdobramentos da crise é uma incógnita. O certo é que no período recente o achincalhe ao Estado pelo neoliberalismo resultou em efeitos desastrosos. Em artigo reproduzido no Monitor Mercatil, Petros Panayotídis diz que a década foi iniciada com a conclusão da gigantesca redistribuição da riqueza social a favor dos ricos por intermédio da "loucura monetária".

Aquilo que o mundo viveu quando jogou e perdeu nas bolsas de valores suas poupanças, pensando ingenuamente que o “patrão ficou louco e está distribuindo dinheiro” foi apenas parcela de um fenômeno mundial, diz ele. “Em todos os países a classe média e até os pobres entregaram suas economias aos empresários. Tratava-se da maior redistribuição da riqueza com métodos pacíficos registrada pela história”, escreve.

Segundo Petros Panayotídis, realiza-se, novamente, uma gigantesca redistribuição da riqueza social, com os pobres tornando-se mais pobres ainda — desta vez por intermédio da crise econômica — e com os ricos tornando-se mais riscos ainda, graças às medidas de salvação do arcabouço financeiro e econômico mundial.

Experiência da Grande Depressão

As contradições internas do capitalismo e o antagonismo capitalista internacional alcançaram um nível no qual as conseqüências recaem pesadamente sobre os trabalhadores. O que acontece hoje é a desvalorização do capital sob todas as formas e a desvalorização da força de trabalho como mercadoria. Aconteceu no passado e voltará a acontecer no futuro, enquanto existir capitalismo.

A contradição entre capital e trabalho manifesta-se, entre outras formas, no fato de que em geral o capitalista e a ideologia de sua classe só enxergam a possibilidade de prosperidade econômica por meio do aumento incessante do grau de exploração dos trabalhadores. A experiência da Grande Depressão de 1929 demonstra essa constatação.

Em outubro daquele ano fatídico, pouco menos de um milhão de pessoas estavam desempregadas nos Estados Unidos. Em dezembro de 1931, mais de dez milhões estavam sem trabalho. Seis meses depois, o número de desempregados havia pulado para 13 milhões. No auge da Depressão, em março de 1933, 15 milhões de trabalhadores estavam desocupados.

Esse crescimento vertiginoso do desemprego levou a central sindical AFL-CIO a acelerar a campanha pela redução da jornada de trabalho, iniciada nos anos 20. Os dirigentes sindicais norte-americanos argumentavam, basicamente, que essa era uma forma para que todos pudessem ter emprego e poder aquisitivo suficiente para dinamizar a economia.

Dia de trabalho mais curto

O matemático e filósofo inglês Bertrand Russell defendeu a redução da jornada de trabalho com essa frase: "Não deveria haver oito horas diárias para alguns e zero para outros, mas quatro horas diárias para todos." Em julho de 1932, o Conselho Executivo da AFL, reunido em Atlantic City, redigiu um documento pedindo ao presidente da República, Herbert Hoover, uma conferência com líderes empresariais e sindicais para debater a necessidade de uma semana de trabalho de 30 horas. A idéia ganhou simpatia entre poucos empresários que, voluntariamente, cortaram a semana de trabalho para não demitir mais trabalhadores.

Uma das empresas que promoveram a redução da jornada foi a Kellog's. Em 1935, a empresa divulgou um estudo detalhado, mostrando que após cinco anos de semana de seis horas por dia o custo unitário das despesas operacionais fora reduzido em 25% (...), os acidentes reduzidos em 41% (...) e 39% mais pessoas do que em 1929 trabalhavam na Kellog's.

"Para nós, isso não é apenas teoria. Provamos isso com cinco anos de experiência concreta. Descobrimos que, com um dia de trabalho mais curto, a eficiência e o moral de nossos funcionários ficam tão elevados que os acidentes e as taxas de seguro declinaram. E com o custo unitário da produção tão reduzido podemos pagar por seis horas de trabalho o mesmo que costumávamos pagar por oito", diz o estudo.

Jornada semanal de 30 horas

Em dezembro de 1932, o senador Hugo Lafayette Black, do Estado do Alabama, apresentou um projeto de lei requerendo a semana de trabalho de 30 horas. O senador dirigiu-se à nação pelo rádio, conclamando os norte-americanos a apoiarem seu projeto — que, segundo suas previsões, se aprovado levaria à imediata readmissão de mais de 6,5 milhões de desempregados. Black disse ainda que esses empregos e suas rendas estimulariam a geração de milhões de novos assalariados.

O Senado aprovou o projeto no dia 6 de abril de 1933. Sua aprovação entusiasmou o país e estremeceu Wall Street. Enviado imediatamente para a Câmara dos Deputados, ele logo foi aprovado na Comissão do Trabalho e os trabalhadores norte-americanos imaginavam que estavam prestes a serem os primeiros do mundo a ter uma jornada semanal de 30 horas. Mas as horas do projeto estavam contadas.

O presidente Franklin Roosevelt, em conluio com líderes empresariais, imediatamente tomou providências para afundar a idéia. Roosevelt pediu à Comissão de Estudos da Câmara que acabasse com o projeto em troca da sua famosa "Lei de Recuperação da Indústria Nacional". O presidente alegou que a redução da jornada afetaria a capacidade dos Estados Unidos de "competir" internacionalmente.´

O grande desafio

Já os empresários não viam com bons olhos uma legislação que institucionalizaria a semana de 30 horas. Mais tarde, em 1937, numa sessão especial no Congresso convocada para tratar do agravamento do desemprego, Roosevelt disse que estava arrependido por não ter apoiado o projeto. "O que o país realmente ganha se encorajarmos o empresariado a ampliar a capacidade de produção da indústria e se não fizermos nada para que os rendimentos da nossa população trabalhadora efetivamente aumentem para criar mercados e absorver a produção gerada?", indagou.

No pós-guerra, a intervenção do Estado na economia garantiu, em muitos países, um bom nível de empregabilidade — empregando diretamente ou irrigando a economia com recursos indiretos (obras públicas e indústria bélica, por exemplo). O Estado foi o agente de equilíbrio que absorveu o impacto das crises econômicas e da automação na iniciativa privada.

Com o Estado transformado em comitê de administração da ciranda financeira pelo neoliberalismo, os efeitos da longa crise iniciada em meados da década de 70 aparecem por toda parte — e o desemprego recorde é uma das suas manifestações mais cruéis. O cassino global, uma máquina predadora da economia real sempre esfomeada, dotou os Estados de uma parafernália que funciona dia e noite a serviço da especulação financeira. Enfrentá-lo é o grande desafio, principalmente para os trabalhadores, nos dias que correm.

[Artigo tirado do sitio web brasileiro ‘Vermelho’, do 11 de xaneiro de 2009]

segunda-feira, março 12, 2012

Do nascimento à morte o que mais conta é a classe social



Em Washington D.C. entre o mais rico dos habitantes e o mais pobre há 18 anos de diferença na esperança média de vida
Em Washington D.C. entre o mais rico dos habitantes e o mais pobre há 18 anos de diferença na esperança média de vida (Scott Olson/AFP)


Saúde
04.03.2012 - 18:02 Por Catarina Gomes


 Michael Marmot veio ao Portugal em crise relembrar que por cada 1% na subida da taxa de desemprego, os suicídios crescem 0,8%. A boa notícia é que descem as mortes por acidentes de viação, ironiza. Viagem ao mundo das desigualdades na saúde com muito humor negro

Já não soa a surpreendente dizer que a esperança média de vida de uma mulher no Zimbabwe é de 42 anos e a de uma japonesa é de 80 anos, uma diferença de 38 anos, portanto. Ou que um queniano morre em média aos 47 anos e um sueco pode chegar contar aos 82, enuncia Michael Marmot, professor catedrático em Epidemiologia e Saúde Pública e director do Instituto Internacional para a Sociedade e Saúde na University College de Londres.


Mas e se o universo de que falamos for antes uma das zonas mais ricas de Londres, Westminster? Isso mesmo, o sítio onde fica o Parlamento britânico "e onde vivem muitos políticos e pessoas ricas". Pois nesta área geográfica, a diferença entre o mais rico e o mais pobre dos habitantes é de 17 anos. Não é preciso, por isso, apanhar um avião para África. "Eu faço este percurso de bicicleta em cerca de 25 minutos", disse o inglês Michael Marmot, na semana passada, perante uma plateia de profissionais de saúde no Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, em Lisboa. 

"É um mito pensar que a Europa é uma região rica e não tem estes problemas. Há grandes desigualdades entre as pessoas, dentro dos países". E esta não é uma particularidade de Inglaterra, é possível encontrar o mesmo fenómeno, por exemplo, numa simples viagem de metro na capital norte americana, continua. Em Washington D.C. entre o mais rico dos seus habitantes e o mais pobre distam 18 anos de diferença em esperança média de vida, explicita o académico. Este tipo de desigualdades sociais que se reflectem na mortalidade e no estado de saúde das pessoas são tão transversais e tão permanentes que "até na igualitária Suécia há um estudo que mostra que há diferenças entre um detentor de um doutoramento e o de um mestrado, o doutorado tem maior esperança de vida". 

A ideia de que o grupo social a que se pertence é determinante em termos de saúde é uma verdade que Michael Marmot foi encontrar no mais insuspeito dos grupos: os funcionários públicos britânicos, numa investigação que ficou famosa em Inglaterra, publicada na revista científica Lancet em 1991. Falando ao PÚBLICO após a conferência, disse que "não estamos aqui a falar de pobreza, todos eles têm emprego, casa, uma vida com alguma dignidade". Mas ainda assim encontrou maiores taxas de mortalidade entre os funcionários públicos do final da escala comparados com os do topo. 

O que este estudo veio desmentir foi a ideia de senso comum de que as funções de maior responsabilidade trazem consigo mais stress e por isso mais doença cardiovascular, por exemplo, explicou. Pelo contrário, o que se constata é que é determinante o grau de autonomia que se tem no trabalho. 

Nas investigações deste tipo chega-se à conclusão de que "o exemplo típico do trabalho com os níveis mais altos de stress é aquele em que a pessoa tem que fazer sempre as mesmas coisas da mesma forma e não tem qualquer controlo sobre o que faz, só tem que o fazer", ou seja, há mais stress, por exemplo num operário de uma fábrica, "que tem que pedir para ir à casa de banho, só tem que se fazer o que lhe é dito, não tem qualquer controlo sobre o seu trabalho", do que num administrador público de topo. Este "sabe que o que está a fazer é importante, há realização profissional. É um trabalho exigente mas tem mais controlo sobre o seu trabalho".

Marmot, que também esteve na Universidade do Algarve, tem dedicado o seu trabalho de pesquisa dos últimos 35 anos ao tema das desigualdades em saúde. E o que fez perante este auditório cheio de pessoas ligadas à saúde foi transportá-los ao longo de uma espécie de viagem ao mundo das desigualdades na saúde, que começa desde o nascimento e só termina até na morte. Com muito humor negro à mistura.

O pobre burro fica burro

Comece-se então nos primeiros anos de vida. Um estudo britânico de 2003 avaliou o desenvolvimento cognitivo de crianças dos 22 meses aos 10 anos, acompanhando o percurso de quatro tipos de crianças. Imaginemos que estamos a falar apenas de quatro crianças, para que se perceba: há duas que aos 22 meses pontuaram baixo na escala de desenvolvimento cognitivo, uma destas era originária de uma família de baixo estatuto socioeconómico e outra de um alto; e outras duas crianças que, no início de vida, estão nos valores mais altos do desenvolvimento cognitivo, mas uma é de um baixo estrato social e outra de alto. O que acontece a estas quatro crianças quando crescem? A criança com baixo desenvolvimento cognitivo de uma família rica recupera esse atraso, já aquela que tinha tido o mesmo baixo ponto de partida mantém-se ao mesmo nível. Nos dois meninos a quem foi identificado alto nível cognitivo, o da família pobre desce de desempenho intelectual à medida que avança na idade, o que cresceu num lar rico mantém o seu desempenho alto. O professor resume da seguinte forma este estudo: "Se se for pobre e burro fica-se burro, se se for burro e rico recupera-se. É a prova de que os genes não definem o destino e que a envolvência social é determinante e que o social potencia o biológico".Tomando depois como referência apenas dois elementos que afectam o desenvolvimento infantil sai reforçada a ideia da desigualdade social, continuou o académico. Logo à nascença, as crianças que nascem em famílias mais desfavorecidas têm maior probabilidade de terem mães com depressão pós-parto (cerca de 20%), número que não chega aos 10% no caso de famílias de estrato social mais elevado, revelam dados britânicos oficiais do Departamento da Criança, Escolas e Famílias de 2003-04 que citou. Um pouco mais velhinhos, aos três anos, cerca de 75% dos pais de famílias com estatuto socioeconómico mais alto lêem aos seus filhos todos os dias, uma prática que as estimula em termos cognitivos, número que desce para os cerca de 40% nos lares mais desfavorecidos. 

E se estivermos a falar já da vida activa? E aqui Marmot mostrou um gráfico com uma escala que relaciona o grau de saúde mental com o tipo de vínculo laboral que se tem - dos que trabalhavam sem contrato, aos que têm trabalho temporário, aos que têm contrato e termo e os que estão integrados nos quadros. O estado de saúde mental é muito pior entre os que têm formas de trabalho mais precárias e alcança os melhores níveis entre os trabalhadores com estabilidade laboral. A leitura óbvia será a de que a precariedade laboral é causa de piores níveis de saúde mental, verdade?. "Sabem como é que um grupo de economistas a quem mostrei este gráfico o leram? Disseram que era prova que as pessoas com pior saúde mental estavam a entrar para trabalhos mais precários". E neste momento, como em tantos outros, arrancou gargalhadas à plateia.

Ao Portugal em crise, Marmot veio relembrar que "está provado que o aumento em 1% da taxa de desemprego faz subir em 0,8% a taxa de suicídios e 0,8% a de homicídios. O desemprego leva ao suicídio e a matar outras pessoas". Mas, também é verdade, continuou, que as mortes por acidentes de viação descem 1,4%," circula-se menos porque há menos dinheiro para a gasolina", ironizou. "Se fizermos as contas e quisermos ser cínicos podemos chegar à conclusão que a coisa fica quase ela por ela", concluiu Marmot.

Fumar mata

O professor não se limita a trazer números. O seu tom vai além do académico, assume na sua conferência o papel de porta-voz da uma mensagem que quer fazer passar: "Ouve-se os ministros das finanças dizerem que este é o preço para manter a inflação baixa". "E se a frase fosse antes "o preço de manter a inflação baixa é matar pessoas"- "isto devia ser o mais importante do debate, não é só olhar para alguns números". Para Michael Marmot "devíamos avaliar todas as políticas pelo impacto que estas terão na saúde" porque, ao fim ao cabo,"o que é que pode ser mais importante do que a vida que se pode ter?".E na saúde tudo tem a ver com expectativas, disse ao PÚBLICO. Tomemos como exemplo os fumadores. As maiores taxas de fumadores encontram-se entre os mais pobres e esta é uma causa objectiva que está na origem de maior doença, o cancro do pulmão, por exemplo. "Temos que lidar não apenas com as causas da doença, mas com as causas das causas". Por que é que quanto menos educação mais se tende a fumar"? As razões dá-as em forma de um estudo que pensa ser exemplar. "Houve um estudo britânico que foi estudar mães solteiras, viviam em situações de pobreza e quase todas fumavam". A conclusão subjacente ao estudo era a de que "fumar era a única coisa que faziam para si mesmas. Os miúdos gritavam, faziam barulho, o que é que elas faziam? Acendiam um cigarro, era uma estratégia de lidar com a situação".

Pobres e ricos em Glasgow

Marmot fala de outro estudo que diz que na saúde tudo tem a ver com a forma como se olha para o futuro. "Quem valoriza está disposto a fazer sacrifícios para ganhos futuros. Se não se acha que se tem futuro há menos incentivo a fazer sacrifícios hoje para um futuro que não se sabe se tem". Querem outro exemplo? Michael Marmot providencia. Na parte mais pobre da cidade escocesa de Glasgow há uma diferença de esperança de vida de 28 anos entre os homens, comparando os habitantes das partes mais ricas em relação às mais pobres, "a esperança média de vida entre os homens mais pobres é de 54 anos, é menos oito anos do que a média indiana para homens, que é 62".

"Num encontro onde apresentei estes dados veio uma pessoa ter comigo e disse que vivia na parte mais rica de Glasgow mas que tinha um amigo que vivia na parte pobre que lhe tinha dito que não fez absolutamente nada para vir a ter reforma". Porquê? "Porque achava que não ia chegar lá. Porque as pessoas perceberam que vão ter vidas duras por que é que hão-de se chatear com a ideia de deixar de fumar? As expectativas que temos na vida têm impacto na saúde".

Agora que já sabemos tudo isto, que pesam na balança da saúde e da morte as circunstâncias em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem, que temos provas científicas que dão conta destas diferenças por que falta "vontade política"? Em 2008, no relatório encomendado pelo Governo Trabalhista que ficou conhecido como Marmot Review, deixou as áreas principais que podem e devem ser objecto de acção política tendentes a esbater estas diferenças: o desenvolvimento infantil; a educação e formação ao longo da vida; as condições de emprego; o rendimento; a existência de locais saudáveis e sustentáveis na comunidade; e factores como o tabagismo, o consumo de álcool, a obesidade ou o exercício físico. Em Lisboa, Marmot foi ouvido por um auditório cheio de pessoas ligadas à saúde que o aplaudiram de pé. E a sua mensagem foi: "O que é que pode ser mais importante do que a saúde das pessoas?"

Notícia corrigida às 11h02, de 5.03.2012. No primeiro parágrafo "42" foi substituído por "38"

Geração à rasca: um ano depois para onde foi a indignação?


"Manif" foi um protesto contra a classe política mobilizado com a ajuda da Internet
"Manif" foi um protesto contra a classe política mobilizado com a ajuda da Internet (Foto: Paulo Pimenta)

Um ano depois da grande manifestação

11.03.2012 - 22:40 Por Natália Faria



Nesta segunda-feira faz um ano que milhares de portugueses saíram à rua. E depois? Para onde foi a indignação? Uma historiadora, um sociólogo, um psicanalista e um activista arriscam respostas


Há um ano, o país levou uma bofetada. Milhares de pessoas (cerca de 300 mil, segundo a polícia; mais de 500 mil, diz a organização) saíram à rua para protestar contra a precariedade que lhes foi imposta. O apelo à mobilização correu célere no Facebook, com alguns jovens até então anónimos a conseguirem aquilo que nenhum sindicato e nenhum partido haviam conseguido. Um ano depois, para onde foi tanta indignação? "Está paralisada pelo medo e pela estupefacção", responde Joaquin Estefanía, ex-director do diário espanhol El País, para quem o medo foi transformado numa arma de controlo social (ver entrevista na página ao lado). 


Dizendo-se "atónita com tanta passividade" portuguesa, a historiadora Irene Flunsel Pimentel concorda que as pessoas estão "amedrontadas, aterrorizadas e desorientadas, sobretudo porque não vêem nenhuma luz ao fundo do túnel". "As que ainda têm emprego têm medo de o perder mas também não sabem muito bem o que fazer", explica, para, no jogo das diferenças com as reacções à crise nos outros países, atirar culpas à herança deixada por Salazar. "A Espanha e a Grécia tiveram tremendas guerras civis, com milhares de mortos, e isso acaba por se inscrever no código genético das populações. Nós tivemos um ditador que viveu sempre com o apoio de uma parte da população, não se pode dizer que subsistiu apenas através da repressão. Não havia liberdade, mas havia aquela pessoa que zelava pela nossa segurança, que não nos deixava cair na miséria total e que nos habituou a pensar que os outros é que mandam em nós". 



O psicanalista Coimbra de Matos também alude à sensação de que nada se pode contra o que está a acontecer para explicar o que tem mantido a indignação portuguesa no reduto doméstico. "Somos um povo passivo, sem aquilo a que os ingleses chamam empowerment, de pessoas habituadas a não ter poder nas suas mãos, e suponho que isso deva algo à ditadura. Esta, sendo relativamente suave - não era como em Espanha, que matava muito mais -, apelava à capacidade de conformação dos portugueses e usava métodos que não suscitavam uma reacção tão maciça e tão discordante". Temos assim todo um país mergulhado numa "depressão patológica, que ?? uma reacção à perda e a um sentimento de injustiça, mas que, no caso português, não comporta a revolta e até acredita que a culpa é um bocado nossa, porque vivemos acima das nossas posses". 



Numa leitura diferente, o sociólogo e político Augusto Santos Silva sustenta que a indignação se domesticou porque perdeu o alvo directo. "A actuação política em Portugal tornou-se exógena. Com a celebração do pacote de ajuda financeira, a capacidade de actuação autónoma do Governo diminuiu radicalmente aos olhos da opinião pública; logo, as acções reivindicativas deixaram de ter tantas condições de atingir os seus objectivos". 



Inquestionável é que se a revolta que há um ano saiu à rua não assumiu entretanto contornos de violência, não é porque as perspectivas tenham melhorado. Ao contrário. O desemprego galgou entretanto até aos 14%: 770 mil pessoas sem trabalho. Se olharmos só para os sub-25, são 30,7% os desempregados. É a terceira maior taxa da UE. O resto é o que se sabe. A perpetuação dos contratos a prazo a assumir letra de lei, os estágios sem remuneração, a instabilidade dos recibos verdes a adiar o futuro. Mas os jovens não estão mais à rasca que os outros. A manifestação de há um ano, porque mobilizadora de todas as idades, mostrou-o. Havia pensionistas de pensões congeladas, logo sem dinheiro para a conta dos medicamentos. Havia famílias sobretaxadas, nomeadamente pelo medo de deixarem de conseguir pagar a casa. Sublinhem-se, a propósito, as 670.637 famílias que chegaram ao fim de 2011 a não conseguir pagar os empréstimos aos bancos. 



Para Irene Pimentel, a heterogeneidade dos manifestantes foi a força mas também a fraqueza daquela manifestação e uma das razões para que, a seguir, nada de extraordinário tenha acontecido. "Aquilo englobou desde a extrema-esquerda, à extrema-direita. Até neonazis. E criou-se em torno dessa manifestação um unanimismo que englobava todas as opções políticas contra um fenómeno muito complicado que era a precariedade. Mas aquilo vivia de uma falsa solidariedade e de um falso corporativismo, porque muitas pessoas estavam lá para derrubar o Governo". O sociólogo e ex-ministro do anterior executivo Augusto Santos Silva também sustenta que foi o contexto político que ditou que o protesto tivesse há um ano uma expressão que não viria a repetir-se. "Naquela manifestação confluíram os interesses do BE, do PCP e do PSD, que criaram uma lógica de tenaz para derrubar o Governo socialista, liderado por um ministro muito enérgico, José Sócrates, que concentrava em si todo o amor e todo ódio político possível. Hoje, Portugal vive uma situação de tutela e isso levou a uma mudança do horizonte de expectativas, isto é, as pessoas assimilaram a ideia de que as perdas que sentem decorrem de uma imposição externa mais do que de uma posição autónoma do Governo de Passos Coelho, e, portanto, sentem que as condições de obtenção dos objectivos diminuíram radicalmente a partir do momento em que a troika passou a regular o funcionamento do país". 



A tensão existe. Rebenta? "A explosão da revolta social pode acontecer, mas tem vindo a ser contrariada pela actuação muito prudente do PCP e da CGTP, que entretanto recuperaram a liderança do protesto", contextualiza Santos Silva, para recordar que, "ao longo da História, os movimentos mais propícios às revoluções nunca foram os momentos de máxima privação mas aqueles em que a exequibilidade de mudança se tornou mais real". Ora, João Labrincha, um dos desempregados que apareciam a assinar o manifesto que apelou à manif de 12 de Março, acredita que a mudança já começou. "As dinâmicas sociais criadas neste momento em Portugal mostram que as pessoas estão a fazer acontecer como nunca antes na nossa democracia. Há movimentos a aparecer um pouco por todo o lado, estão é a fazer um trabalho de formiguinha que não é visível porque tem muita dificuldade em disputar o espaço mediático com os partidos políticos", defende, para reforçar: "Quando aconteceram o Maio de 1968 e a contestação à guerra do Vietname, era muito difícil na altura perceber o que é que aquilo ia mudar. Só muito mais tarde se teve noção das enormes mudanças que aqueles movimentos geraram". Para Labrincha, "o sistema baseado no petróleo e na ganância vai ruir, como já está a ruir, e, ao mesmo tempo, vai aparecer um novo paradigma, como já está a aparecer, sem que seja preciso um crash". De resto, "é visível que as pessoas se estão a desidentificar com as estruturas tradicionais do Estado e a procurar caminhos alternativos". E essa foi, diz, "a grande conquista da manifestação de há um ano".


"Manif" foi um protesto contra a classe política mobilizado com a ajuda da Internet
Milhares saíram à rua em diversas cidades, como no PortoFoto: Paulo Pimenta
"Manif" foi um protesto contra a classe política mobilizado com a ajuda da Internet
Cartazes do protesto foram espalhados por todo o ladoFoto: Nélson Garrido
"Manif" foi um protesto contra a classe política mobilizado com a ajuda da Internet
A rua encheu-se de gente indignada. A pergunta é: o que lhes aconteceu?Foto: Daniel Rocha