A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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quarta-feira, dezembro 11, 2013

Quem é Soares dos Santos

Dinheiro

Quem é Soares dos Santos, o milionário discreto

25-09-2013

Após anunciar que ia deixar a presidência da Jerónimo Martins, conheça o perfil do empresário que não usa computador


Por nome do jornalista a bold



Tinha acabado de alugar um apartamento em Londres para onde tencionava mudar-se enquanto não terminassem as sessões de radioterapia. O cancro na próstata estava controlado e Alexandre Soares dos Santos não esperava a nova surpresa: desta vez tinham-lhe descoberto um problema nas artérias, que o obrigava a ser internado e operado ao coração num hospital britânico. Teve de ficar mais tempo. Quando regressou a Portugal, tentou uma fusão com Belmiro de Azevedo: o dono do Continente foi visitá-lo a casa, mas não houve acordo. Não seria o último problema de saúde do presidente de conselho de administração da Jerónimo Martins. 



Em 2005 repetiu a experiência de final dos anos 90: foi internado e operado em Inglaterra, novamente devido a problemas cardíacos. Já em Portugal, dividia o tempo de repouso entre a casa de Lisboa e a Quinta da Parreira, em Ourém – um convento recuperado, com azulejos do século XVII e uma capela, em que é tradição casar os filhos. E tentava entreter-se a ver sessões do Canal Parlamento na televisão de casa. “Ficava horrorizado. Então é para aquilo que se reúnem?”, disse em entrevista ao ‘Jornal de Negócios’. Os problemas de saúde foram uma surpresa: apesar de não dispensar a cozinha tradicional portuguesa (como o bacalhau com couves no Natal) e de gostar de bons vinhos, Soares dos Santos evitava gorduras. Tinha motivos para ser cuidadoso: o pai, Elísio Alexandre dos Santos, teve um ataque cardíaco fulminante no Brasil, em 1967 – morreu num quarto de hotel em São Paulo, durante uma visita ao filho, então director de marketing da filial brasileirada Unilever. Soares dos Santos tinha 33 anos quando decidiu regressar a Portugal para tomar conta dos negócios da família. “Foi um dos momentos mais marcantes da minha vida” disse, em 2006, à revista interna da empresa ‘A Nossa Gente’. 



Agora, o anúncio da saída de Soares dos Santos da Jerónimo Martins foi feito aos colaboradores precisamente no dia em que o empresário celebrou 79 anos. “A Jerónimo Martins SGPS, S.A. divulga que, em 23 de Setembro de 2013, Elísio Alexandre Soares dos Santos informou que renuncia a partir do dia 1 de Novembro de 2013, por razões pessoais, ao cargo de presidente do conselho de administração da sociedade”, diz o comunicado enviado à CMVM, um documento onde os trabalhadores manifestam a “mais profunda gratidão pela visão estratégica e ousadia com que construiu, ao longo dos últimos 45 anos, o que a Jerónimo Martins é hoje”.



 O filho Pedro, à frente da JM desde 2010, fala polaco



Em 2011 entrou directamente para a 512.ªposição da lista de milionários da ‘Forbes’. De acordo com a revista norte-americana tinha na altura uma fortuna avaliada em 1,63 mil milhões de euros e era o segundo homem mais rico de Portugal, depois de Américo Amorim. Em 2010, o patrão da Jerónimo Martins, dona da cadeia de supermercados Pingo Doce, aumentou a sua fortuna em 52% – mais de metade dos lucros foram conseguidos na Polónia. Mas enquanto não deixa o cargo, continua a chegar às 8h30 à empresa e não gosta de luxos: o único que se lhe conhece é um Jaguar que comprou nos anos 90 e ainda mantém. 



A pontualidade é uma das suas regras. Por isso, na Jerónimo Martins, as reuniões raramente começam à hora marcada. Soares dos Santos faz questão de dar início às conversas 15 minutos antes do previsto. Não tem motivos para se atrasar: vive na Rua das Amoreiras, a 500metros da sede da empresa, na Torre 3 de um dos mais antigos centros comerciais de Lisboa. E vai muitas vezes a pé para o trabalho. Na secretária do seu gabinete, no 9.º piso do edifício, os papéis estão divididos por áreas e organizados por níveis de urgência. O gestor tem um endereço de email, mas não usa computador – é a secretária que lhe entrega os documentos já impressos. Quando precisa de responder escreve à mão ou dita textos às assistentes.

Jardim Gonçalves ajudou a empresa a escapa à falência


Atrás da secretária do seu gabinete há um mapa do Porto, a cidade onde nasceu e estudou nos primeiros anos de escola, no colégio interno Almeida Garrett, onde se repetiam as refeições com feijão. “Nessa altura, o médico dentista Joaquim Sá Carneiro, amigo do seu pai, era uma das pessoas que o visitava”, recorda o amigo Artur Santos Silva. O médico era tio de Francisco Sá Carneiro, colega do jovem Elísio – primeiro nome do gestor, que assina E. Alexandre Soares dos Santos. 



E pelo menos uma coisa mudou na sua vida: durante anos não comeu feijão. Também nunca fumou charutos, foi fã de carros americanos ou deu festas na casa Banzão, como fazia o pai. Pelo contrário, detesta vida social, o seu hobby é a família e faz questão de se manter discreto. Mas frequentou o curso que o pai sempre quis tirar e só não seguiu porque não tinha dinheiro. Alexandre fez os dois primeiros anos de Direito na Universidade de Lisboa mas, no terceiro ano, chumbou à cadeira dada por Marcello Caetano. Foi nessa altura que trocou a faculdade por um estágio na Unilever. 



Meses antes de se casar com Maria Teresa Mendes da Silveira e Castro, mudou-se para um quarto alugado na Alemanha e começou a trabalhar como vendedor– passou cinco meses a vender margarina e teve que carregar caixotes. O pai, que também tinha começado a carreira a importar barras de margarina que vendia em pacotes de quilo, não gostou. Não deixaram de se falar, mas tinham uma relação tensa. Depois da Alemanha, Soares dos Santos trabalhou na Irlanda, em França e em São Paulo. Mas foi no Brasil que teve o primeiro cargo de responsabilidade, como director de marketing– liderou a campanha do Omo, o primeiro detergente a aparecer numa novela brasileira, ‘O Direito de Nascer’, na TVTupi.
Com Sócrates a relação é fria: Soares dos Santos acusou-o de mentir


Cinco anos depois de regressar a Portugal esteve quase a acrescentar um quinto país à sua experiência internacional: no Natal de 1973 discutiu com a mulher a possibilidade de se mudarem para Luanda – Teresa acompanhou-o em todas as viagens e nunca trabalhou. Ficou cá, mas, com a guerra colonial, teve de transferir 100 trabalhadores para a colónia de férias da Praia das Maçãs. Os filhos habituaram-se às mudanças: Teresa, uma das sete filhas, nasceu em São Paulo. Em Portugal, no 25 de Abril de 1974, Soares dos Santos só teve uma ameaça de ocupação: os sindicatos apresentaram um pedido de aumento salarial de dois contos com um prazo de 24 horas para responder. O empresário cedeu. 



Nos anos 80, o império da família multiplicou-se: comprou 170 lojas e criou a cadeia Pingo Doce – o nome foi sugerido por uma funcionária que já se reformou. Mas também teve operações falhadas: entrou no Brasil em 1995 e saiu em 2002, depois de vários anos de resultados negativos – os administradores deixaram de receber bónus e de poder trocar de carro e os salários dos funcionários foram cortados. Nessa altura, Soares dos Santos reuniu a sós no BCP com Jardim Gonçalves, que lhe concedeu um empréstimo e o salvou da falência. O gestor gosta de pessoas ambiciosas. Durante uma entrevista de emprego (encarregava-se directamente de escolher os funcionários e alguns estagiários), perguntou ao candidato qual era a sua ambição na empresa. “A sua cadeira”, apontou o candidato. Foi imediatamente contratado, conta o amigo José Roquette, da Herdade do Esporão. 



Para diversificar os investimentos viajou pela Roménia, “uma bagunça”, pela Rússia, onde “a lei está ao sabor de uns senhores...”, Ucrânia e Polónia, cujos hotéis e restaurantes detestava. Em 1995 abriu uma loja em Poznan e em 1997 comprou a Biedronka, cadeia de minimercados. Estratégia: “A Polónia estava a sair do domínio soviético, as habitações tinham em média 10 metros quadrados por pessoa, não havia despensas e às vezes nem frigoríficos. Por isso, o ritmo de compras era quase diário e as pequenas lojas, espalhadas pelo país, deram resultado”, explica fonte do sector. Hoje, a Jerónimo Martins é o segundo maior empregador da Polónia, depois do Estado. 



Na inauguração da milésima loja no país, um dos quadros da empresa saiu do hospital só para estar presente na inauguração: tinha tido um ataque cardíaco há uma semana e voltou a ser internado depois do evento. Soares dos Santos sabe apenas algumas palavras da língua, mas o filho fala polaco e todos os quadros portugueses no país tiveram quatro meses de aulas. Os primeiros colaboradores a ir para a Polónia parecem ter gostado demais do país: o número de divórcios disparou. E se há coisas de que Soares dos Santos não abdica é dos fins-de-semana com os sete filhos, perto de 20 netos e já alguns bisnetos. Por isso, a segunda vaga a ir para a Polónia passou a ser acompanhada pela família. Não foi o único problema: quando instalaram o sistema informático perderam-se preços, atrasaram-se pagamentos e houve quebras de stocks. Perderam quase um milhão de euros.
Sempre que pode assiste a uma revista à portuguesa


Soares dos Santos não gosta de computadores, mas fala muito ao telemóvel e responde a SMS. Em 2008, durante a paralisação dos camionistas, usou a agenda: “Para ter a GNR a controlar um comboio de 84 camiões tive de deitar mão a tudo o que tinha de conhecimentos”, contou à agência Lusa. Teve 30 carros danificados, um queimado e quatro fábricas paradas. Vinte anos antes tinha sido surpreendido pelo incêndio do Chiado. Foi para a sede da empresa, na RuaIvens, mais cedo do que o normal. Chegou às 7h e distribuiu os produtos que se iam estragar pelos bombeiros, antes de a loja arder.
“Disse para retirarmos tudo o que estivesse nos frigoríficos. Comecei a ver pessoal a sair com caixotes debaixo do braço e a comer gelados, enquanto o Chiado ardia”, contou Vitorino Bandarra, um dos bombeiros presentes. O empresário estava em Portugal, mas podia não estar: Soares dos Santos divide as férias pela Quinta do Lago – duas semanas – e pelas estâncias de esqui da Suíça. Mas, aqui, só acompanha a família, não pratica. E também não tem paciência para passar o dia na praia: quando levava os filhos para uma casa alugada na Ericeira fechava -se numa barraca de praia a ler. Apesar de discreto, não foge a uma boa polémica. 



No início de 2011 disparou contra José Sócrates. “Não vale a pena continuarmos a mentir”, disse ao primeiro-ministro acusando-o de não reconhecer que o País está em recessão. “Truques é para o Sócrates. Aqui [na Jerónimo Martins] há planos, estratégias muito bem definidas e implementadas com muito rigor”, acusou. “Não basta ser rico para ser bem-educado”, respondeu-lhe Sócrates. Soares dos Santos tem exemplos para contra atacar. Em Miami foi surpreendido por um médico que lhe entregou um questionário de avaliação, para dizer se o especialista tinha chegado a horas, estava bem apresentado e explicou bem o diagnóstico. Em declarações ao ‘Diário Económico’ disse: “Isso é totalmente impossível em Portugal.”
http://www.sabado.pt//Multimedia/FOTOS/Dinheiro/Fotogaleria-(113).aspx?id=639520

sexta-feira, outubro 25, 2013

José Pacheco Pereira - O DESPREZO PELOS MANIFESTANTES DA CGTP

O DESPREZO PELOS MANIFESTANTES DA CGTP 

Uma coisa que mostra como quem está do lado do poder não percebe (ou melhor não quer perceber), o que está a acontecer em Portugal, é o modo como exibem um racismo social com os manifestantes da CGTP, tão patente nos comentários à saga da ponte. Pode não ser deliberado, mas sai-lhes do fundo, naturalmente. Os filhos dos comentadores e opinadores podem ir às manifestações dos “indignados”, que são aceitáveis, engraçadas e chiques, e que tem muita cultura e imaginação, mas nenhum irá às da CGTP. Eles “são sempre o mesmo”, ou “mais do mesmo”, eles são “pouco criativos” que insistem em fazer manifestações “que não adiantam nada”. Eles são “os feios, os porcos e os maus”. 

http://ephemerajpp.files.wordpress.com/2013/10/dsc_4706.jpg Os manifestantes da CGTP não são da classe social certa, não ambicionam ir tomar chá com Ricardo Salgado, ou ir comer aos restaurantes da moda, não são frequentáveis e, ainda pior, não se deixam frequentar. Têm, muitos deles, uma vida inteira de trabalho e de muitas dificuldades. Tem um curso, uma pós-graduação e um doutoramento em dificuldades. São velhos, um anátema nos nossos dias. Tiveram ou tem profissões sobre as quais os jornalistas da capital não sabem nada, foram corticeiros, mineiros, soldadores, torneiros, mecânicos, condutores de máquinas, pedreiros, ensacadores, motoristas, afinadores, estivadores, marinheiros, operários têxteis, ourives, estofadores, cortadores de carnes, empregados de mesa, auxiliares educativos, empregadas de limpeza, etc., etc. Foram e são cozinheiros e cozinheiras em cantinas, e nãochefs. E foram ou são, professores, funcionários públicos, enfermeiros, contabilistas. 

 Este desprezo social é chocante quando é feito por quem tem acesso ao espaço público e que trata os portugueses que se manifestam, - e, seja por que critério, são muitos, pelo menos muitos mais, muitíssimos mais dos que estariam dispostos a vir para rua pelo governo, – como uma “massa de manobra” do PCP, que merece uma espécie de enjoo distanciado, umas ironias de mau gosto e um gueto intelectual. Façam vocês o que fizerem, “não contam”. Vocês são umas centenas de milhares, vocês são “activistas” e por isso se vêem muito (quem não se vê nada são os do “outro lado”), mas “não contam” para nada. Existirem ou desaparecerem é a mesma coisa, nenhum dos “de cima” se pode ou deve preocupar convosco. Votam em partidos anacrónicos, têm hábitos plebeus, vão fazer campismo de férias, fazem excursões organizadas pelas autarquias, jogam a sueca, as mulheres passam-se pelo Tony Carreira e todos acham que tem direitos. Vejam lá, imaginem lá o abuso, acham que tem direitos… Eles são os maus portugueses, os que estão de fora do “arco governativo”, os que não percebem o "estado de emergência financeira", aqueles cujos "interesses" bloqueiam o nosso radioso empreendedorismo.

 Tudo isso é verdade, e tudo isso é mentira. Estes portugueses fora de moda e fora das modas, pelo menos tem o enorme mérito de sentirem um agudo sentimento de injustiça, eles que sabem mais da vida real, concreta, vivida do que todos os seus críticos juntos. Não é a eles que se pode dar lições de trabalho, nem de esbanjamento, nem de perseverança, nem de sacrifício. Pode-se discordar deles, mas merecem respeito. Pelo que foram, pelo que são e porque não se ficam.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

José Pacheco Pereira - o "regresso aos mercados"


ABRUPTO

23.1.13



(Escrito em 14 de Janeiro de 2013, publicado a 17. E estava já no discurso para 2013, escrito ainda em 2012:  "Vamos fazer duas ou três emissões com sucesso em 2013, pequenas, a vários prazos, prudentes, e depois os alemães vão colocar-nos a mão por baixo e defender-nos dos mercados, porque com esse sucesso, já podemos ser apoiados pelo BCE. Foi o que nos prometeram, para podermos apresentar a saída da troika como um grande trunfo político." Há alturas em que não custa nada prever.)

“REGRESSAR AOS MERCADOS EM 2013”

 Vamos admitir que Portugal “regressa aos mercados” em 2013, cumprindo aquilo que já é o único objectivo da política governamental que os seus responsáveis pensam que é realisticamente atingível antes de eleições. O défice, a dívida, a recessão ou um crescimento larvar resultado apenas de que não se pode estar sempre a descer, o desemprego, a crise social em todo o seu esplendor, as falências, o aumento da pobreza, tudo isto parece estar para continuar e durar muito para além do actual ciclo eleitoral. Mas, com o abaixamento dos juros nos mercados, que favorecem Portugal, a Irlanda e mesmo a Grécia, pode ser possível fazer algumas pequenas emissões com sucesso para dar pretexto a que a mão protectora do BCE se estenda sobre Portugal. O que conta é a mão do BCE e não o sucesso das emissões, mas será sempre dito o contrário. É mau? Não é, é bom, mais vale isso do que nada. Mas vale muito menos do que o governo quer dar a entender. É verdadeiramente “voltar aos mercados”? Não é, porque sem o aval do BCE seria impossível. É sustentável? Não é de todo, mas o governo pensa apenas até 2015, porque o “que se lixem as eleições” foi dito em ingsoc e doublespeak, a linguagem orwelliana em que uma coisa significa exactamente o seu contrário 

É MAU? NÃO, É BOM, MAS…


Vamos de novo voltar à admissão principal de que Portugal “regressa aos mercados”. Significa isso que a troika se vai embora de vez? Errado, a troika fica cá mesmo sem cá estar. O Pacto Orçamental garante a continuidade da política da troika. “Bruxelas”, essa entidade mítica, passa a ter um direito de veto sobre os orçamentos, colocando o parlamento português sob tutela permanente naquela que foi a sua mais importante prerrogativa numa nação que era soberana. Os fundos comunitários já virão com a condição da obediência. E, depois, a mão benfazeja do BCE, e dos alemães que o controlam, só se estenderá se a política da troika se mantiver, e, em caso contrário, é que Portugal será mesmo “atirado” aos mercados, ou seja dura uma semana até pedir novo resgate. É verdade que a benevolência com Portugal se deve em grande parte ao facto de que para os decisores que contam nesta matéria, a começar por Angela Merkel, os actuais governantes tem-se esforçado em fazer o que lhes é pedido. Por isso Passos e Gaspar têm razão quando afirmam que Portugal, em particular a sua encarnação em Vítor Gaspar, tem aumentado a sua “credibilidade” junto dos mercados, porque estes sabem que enquanto a Alemanha e o BCE protegem Portugal, as emissões portuguesas, principalmente nos prazos mais curtos, são um bom investimento. 

PRESUMINDO QUE NÃO HÁ MILAGRES 


Mas, como Nossa Senhora, presume-se, não aparecerá em Wall Street, e muito menos em S. Bento, não há milagres que evitam que, mesmo com todas as protecções especiais, a “ida aos mercados”, se se der, seja artificial e acima de tudo muito frágil. Como, a continuar-se a mesma política da troika directamente na Grécia e em Portugal, e indirectamente na Espanha e na Itália, as crises são inevitáveis, quer no plano político, quer social, quer económico, como é que ficamos se de novo se der uma subida de juros em resposta a um agravamento da situação em qualquer país europeu? Ora esse agravamento é inevitável a prazo curto e a volatilidade dos mercados grande. Como é que faremos depois? Vamos de novo pedir o regresso da troika mais uma centena de milhar de milhões de euros de um novo resgate? Eu bem sei que para os responsáveis por esta política se isto acontecer depois de 2015, não é “culpa” deles, que fizeram sair nominalmente a troika de cá, mas de quem estiver no poder na altura. Mas a sua lavagem de mãos é como a de Sócrates em Paris: deixaram o menino no colo dos outros e foram-se à vida. 

 LÁ TEMOS QUE VOLTAR A UMA FRASE FEITA QUE TEM O INCONVENIENTE DE SER VERDADEIRA 


O que mais me espanta quando isto se discute e se saúda gloriosamente este “regresso” protegido e imperfeito aos mercados, é que quem lhe deita os foguetes antecipadamente tem mais que obrigação de saber que, no fundo, se trata apenas de ir pedir mais dinheiro, endividar-nos mais, e que é na aplicação desse dinheiro que está a chave. Ou seja, e cá vem a terrível frase feita, é a fragilidade estrutural da nossa economia, da nossa sociedade e da nossa política, que conta e isso não se resolve pedindo mais dinheiro, seja à troika seja aos mercados, mas sabendo como o aplicar bem, para depois o poder pagar. Superar estas fragilidades é que é a chave de qualquer regresso aos mercados que seja sustentável e sem crescimento não há nada para ninguém que seja sustentável. Sustentável, a palavra que mais entusiasma qualquer tecnocrata, mas com a qual eles têm uma mera relação platónica. 

ENTRA EM CENA A “IDEOLOGIA” 


Aqui as águas dividem-se e entra em cena o conjunto de ideias superficiais que passa por ser ideologia. A crença, porque não é mais do que uma crença, de que colocadas as pedras no sítio certo, défice quase zero, dívida a ser paga, salários em baixo e mão-de-obra barata, estado apenas para os muito pobres e vagamente regulador para tudo o resto, sociedade competitiva porque empobrecida, separação de águas entre os “preguiçosos” e os “empreendedores”, austeridade mais autoridade, se entra num boom económico imparável que resolverá tudo e mostrará a validade das receitas da troika. Há quem acredite nisso, alguns yuppies já fora de época que são muito activos nas redes sociais, e cujo pensamento cabe em 140 caracteres, mas há acima de tudo quem precise disto, quem tenha interesse nisto, mesmo que não acredite muito no seu desfecho. Se posso pagar muito menos em salários e despedir quem quiser, não me importo de ser neo-liberal durante meia semana e na outra, quando quero aceder a alguns dinheiros comunitários, sou keynesiano se for preciso. Mas enquanto os primeiros andam já à procura de inimigos externos, o “povo habituado a ser protegido” é o primeiro candidato e as “corporações”, o segundo; os pragmáticos esforçam-se por aproveitar o que podem, porque sabem aquela verdade que toda esta ilusão pretende esconder: isto não vai durar muito. Ou, dito de outra maneira mais precisa: se continuar a haver democracia isto não vai durar muito. E aproveitam enquanto podem, até porque o “Monte Branco” e as Caimões não estão assim tão longe.

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quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Carnaval: PCP pede tolerância de ponto para a Assembleia da República



Sociedade

Carnaval: PCP pede tolerância de ponto para a Assembleia da República

09-02-2012
  
O PCP escreveu a Assunção Esteves a "propor" que haja tolerância de ponto no Carnaval na Assembleia da República, que tem autonomia para organizar os seus trabalhos, indo "ao encontro da importância" que os portugueses dão à data.

Por Correio da Manhã 




Numa carta dirigida à presidente da Assembleia da República, o deputado e líder parlamentar comunista Bernardino Soares escreve que o Parlamento "dispõe de total autonomia em relação à organização dos seus trabalhos" e que "não é um departamento ou serviço sob tutela governamental, mas um órgão de soberania que deve tomar de forma autónoma as suas decisões sobre a matéria em causa".Por estes motivos, o PCP considera que "não se vislumbram razões que impliquem a necessidade de romper com a prática habitual e reiterada da Assembleia da República em relação à tolerância de ponto na terça-feira de Carnaval. A decisão do Governo não é razão suficiente".O deputado comunista lembra ainda a Assunção Esteves que o Carnaval "é, na realidade, entendido pelas empresas e pela população como um verdadeiro feriado", apontando que diversos organismos públicos, municípios, entre os quais Lisboa e Porto, e "vastos sectores da actividade privada" já anunciaram que não funcionarão naquele dia.Os comunistas sublinham ainda que "esta consideração do Carnaval como um efectivo feriado está bem patente nos despachos" que concederam tolerância de ponto neste dia em anos anteriores.Bernardino Soares cita, como exemplos, despachos dos antigos primeiros-ministros José Sócrates e Durão Barroso. No caso deste último, destaca que o despacho de 2004 referia que era preciso "permitir a participação das pessoas nesses eventos que têm inclusivamente assinalável expressão económica e social em algumas localidades" do país.O PCP considera, assim, que a Assembleia da República deve "ir ao encontro da importância económica, social e cultural que esta data tem na sociedade e junto da população portuguesa"."Nesse sentido, o grupo parlamentar do PCP vem propor a V. Exa. que determine, no quadro das suas competências próprias, a concessão de tolerância de ponto na próxima terça-feira de Carnaval, dia 21 de Fevereiro", lê-se no texto, que foi distribuído pelo PCP aos jornalistas.

terça-feira, agosto 30, 2011

REPORTAGEM, UMA AVENTURA DENTRO DO COMUNISMO REAL - Miguel Esteves Cardoso

interessante



DOMINGO, 16 DE SETEMBRO DE 2007


De Miguel Esteves Cardoso na Revista Sábado

REPORTAGEM, UMA AVENTURA DENTRO DO COMUNISMO REAL.


O MEC FOI À FESTA DO AVANTE!REPORTAGEM, 



Uma aventura dentro do comunismo real.“””””””E teve medo, muito medo. Às constantes tentativas de intimidação por parte dos inimigos comunistas, o repórter assumidamente reaccionário respondeu com a sua polaróide e registou todas as adversidades. Entre uma e outra conversas mais azeda, ainda teve tempo para comer bem e beber melhor.Artigo de Miguel Esteves Cardoso.
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“Dizem-se muitas mentiras acerca da Festa do Avante! Estas são as mais populares: que é irrelevante; que é um anacronismo; que é decadente; que é um grande negócio disfarçado de festa; que já perdeu o conteúdo político; que hoje é só comes e bebes.
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Já é a Segunda vez que lá vou e posso garantir que não é nada dessas coisas e que não só é escusado como perigoso fingir que é. Porque a verdade verdadinha é que a Festa do Avante faz um bocadinho de medo.
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O que se segue não é tanto uma crónica sobre essa festa como a reportagem de um preconceito acerca dela - um preconceito gigantesco que envolve a grande maioria dos portugueses. Ou pelo menos a mim.
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Porque é que a Festa do Avante faz medo?É muita gente; muita alegria; muita convicção; muito propósito comum. Pode não ser de bom-tom dizê-lo, mas o choque inicial é sempre o mesmo: chiça!, Afinal os comunistas são mais que as mães. E bem dispostos. Porquê tão bem dispostos? O que é que eles sabem que eu ainda não sei?
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É sempre desconfortável estar rodeado por pessoas com ideias contrárias às nossas. Mas quando a multidão é gigante e a ideia é contrária é só uma só – então, muito francamente, é aterrador.
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Até por uma questão de respeito, o Partido Comunista Português merece que se tenha medo dele. Tratá-lo como uma relíquia engraçada do século XX é uma desconsideração e um perigo. Mal por mal, mais vale acreditar que comem criancinhas ao pequeno-almoço.
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BEM SEI QUE A condescendência é uma arma e que fica bem elogiar os comunistas como fiéis aos princípios e tocantemente inamovíveis, coitadinhos.É esta a maneira mais fácil de fingir que não existem e de esperar, com toda a estupidez, que, se os ignoramos, acabarão por se ir embora.


As festas do Avante, por muito que custe aos anticomunistas reconhecê-lo, são magníficas.
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É espantoso ver o que se alcança com um bocadinho de colaboração. Não só no sentido verdadeiro, de trabalhar com os outros, como no nobre, que é trabalhar de graça.
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A condescendência leva-nos a alvitrar que “assim também eu” e que as festas dos outros partidos também seriam boas caso estivessem um ano inteiro a prepará-las. Está bem, está: nem assim iam lá. Porque não basta trabalhar: também é preciso querer mudar o mundo. E querer só por si, não chega. É preciso ter a certeza que se vai mudá-lo.
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Em vez de usar, para explicar tudo, o velho chavão da “ capacidade de organização” do velho PCP, temos é que perguntar porque é que se dão ao trabalho de se organizarem.Porque os comunistas não se limitam a acreditar que a história lhes dará razão: acreditam que são a razão da própria história. É por isso que não podem parar; que aguentam todas as derrotas e todos os revezes; que são dotados de uma avassaladora e paradoxalmente energética paciência; porque acreditam que são a última barreira entre a civilização e a selvajaria. E talvez sejam. Basta completar a frase "Se não fossem os comunistas, hoje não haveria..." e compreende-se que, para eles, são muitas as conquistas meramente "burguesas " que lhe devemos, como o direito à greve e à liberdade de expressão.
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É por isso que não se sentem “derrotados”. O desaparecimento da URSS, por exemplo, pode ter sido chato mas, na amplitude do panorama marxista-leninista, foi apenas um contratempo. Mas não é só por isso que a Festa do Avante faz medo. Também porque é convincente. Os comunas não só sabem divertir-se como são mestres, como nunca vi, do à-vontade. Todos fazem o que lhes apetece, sem complexos nem receios de qualquer espécie. Até o show off é mínimo e saudável.
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Toda a gente se trata da mesma maneira, sem falsas distâncias nem proximidades. Ninguém procura controlar, convencer ou impressionar ninguém. As palavras são ditas conforme saem e as discussões são espontâneas e animadas. É muito refrescante esta honestidade. É bom (mas raro) uma pessoa sentir-se à vontade em público. Na Festa do Avante é automático.
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Dava-nos jeito que se vestissem todos da mesma maneira e dissessem e fizessem as mesmas coisas - paciência. Dava-nos jeito que estivessem eufóricos; tragicamente iluminados pela inevitabilidade do comunismo - mas não estão. Estão é fartos do capitalismo - e um bocadinho zangados.
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Não há psicologias de multidões para ninguém: são mais que muitos, mas cada um está na sua. Isto é muito importante. Ninguém ali está a ser levado ou foi trazido ou está só por estar. Nada é forçado. Não há chamarizes nem compulsões. Vale tudo até o aborrecimento. Ou seja: é o contrário do que se pensa quando se pensa num comício ou numa festa obrigatória. Muito menos comunista.
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Sabe bem passear no meio de tanta rebeldia. Sabe bem ficar confuso. Todos os portugueses haviam de ir de cinco em cinco anos a uma Festa do Avante, só para enxotar estereótipos e baralhar ideias. Convinha-nos pensar que as comunas eram um rebanho mas a parecença é mais com um jardim zoológico inteiro. Ali uma zebra; em frente um leão e um flamingo; aqui ao lado uma manada de guardas a dormir na relva.
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QUANDO SE CHEGA à Festa o que mais impressiona é a falta de paranóia. Ninguém está ansioso, a começar pelos seguranças que nos deixam passar só com um sorriso, sem nos vasculhar as malas ou apalpar as ancas. Em matéria de livre de trânsito, é como voltar aos anos 60.
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Só essa ausência de suspeita vale o preço do bilhete. Nos tempos que correm, vale ouro. Há milhares de pessoas a entrar e a sair mas não há bichas. A circulação é perfeitamente sanguínea. É muito bom quando não desconfiamos de nós.
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Mesmo assim tenho de confessar, como reaccionário que sou, que me passou pela cabeça que a razão de tanta preocupação talvez fosse a probabilidade de todos os potenciais bombistas já estarem lá dentro, nos pavilhões internacionais, a beber copos uns com os outros e a divertirem-se.
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A Festa do Avante é sempre maior do que se pensa. Está muito bem arrumada ao ponto de permitir deambulações e descobertas alegres. Ao admirar a grandiosidade das avenidas e dos quarteirões de restaurantes, representando o país inteiro e os PALOP, é difícil não pensar numa versão democrática da Exposição do Mundo Português, expurgada de pompa e de artifício. E de salazarismo, claro.
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Assim se chega a outro preconceito conveniente. Dava-nos jeito que a festa do PCP fosse partidária, sectária e ideologicamente estrangeirada. Na verdade, não podia ser mais portuguesa e saudavelmente nacionalista.
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O desaparecimento da União Soviética foi, deste ponto de vista, particularmente infeliz por ter eliminado a potência cujas ordens eram cegamente obedecidas pelo PCP.
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Sem a orientação e o financiamento de Moscovo, o PCP deveria ter também fenecido e finado. Mas não: ei-lo. Grande chatice.Quer se queira quer não (eu não queria), sente-se na Festa do Avante! Que está ali uma reserva ecológica de Portugal. Se por acaso falharem os modelos vigentes, poderemos ir buscar as sementes e os enxertos para começar tudo o que é Portugal outra vez.
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A teimosia comunista é culturalmente valiosa porque é a nossa própria cultura que é teimosa. A diferença às modas e às tendências dos comunistas não é uma atitude: é um dos resultados daquela persistência dos nossos hábitos. Não é uma defesa ideológica: é uma prática que reforça e eterniza só por ser praticada. (Fiquemos por aqui que já estou a escrever à comunista).
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A Exposição do Mundo português era “para inglês ver”, mas a Festa do Avante! Em muitos aspectos importantes, parece mesmo inglesa. Para mais, inglesa no sentido irreal. As bichas, direitinhas e céleres, não podiam ser menos portuguesas. Nem tão-pouco a maneira como cada pessoa limpa a mesa antes de se levantar, deixando-a impecável.
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As brigadas de limpeza por sua vez, estão sempre a passar, recolhendo e substituindo os sacos do lixo. Para uma festa daquele tamanho, com tanta gente a divertir-se, a sujidade é quase nenhuma. É maravilhoso ver o resultado de tanto civismo individual e de tanta competência administrativa. Raios os partam.
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Se a Festa do Avante dá uma pequena ideia de como seria Portugal se mandassem os comunistas, confessemos que não seria nada mau. A coisa está tão bem organizada que não se vê. Passa-se o mesmo com os seguranças - atentos mas invisíveis e deslizantes, sem interromper nem intimidar uma mosca.O preconceito anticomunista dá-os como disciplinados e regimentados – se calhar, estamos a confundi-los com a Mocidade portuguesa. Não são nada disso. A Festa funciona para que eles não tenham de funcionar. Ao contrário de tantos festivais apolíticos, não há pressa; a ansiedade da diversão; o cumprimento de rotinas obrigatórias; a preocupação com a aparência. Há até, sem se sentir ameaçado por tudo o que se passa à volta, um saudável tédio, de piquenique depois de uma barrigada, à espera da ocupação do sono.
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Quando se fala na capacidade de “mobilização” do PCP pretende-se criar a impressão de que os militantes são autómatos que acorrem a cada toque de sineta. Como falsa noção, é até das mais tranquilizadoras. Para os partidos menos mobilizadores, diante do fiasco das suas festas, consola pensar que os comunistas foram submetidos a uma lavagem ao cérebro.
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Nem vale a pena indagar acerca da marca do champô.
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Enquanto os outros partidos puxam dos bolsos para oferecer concertos de borla, a que assistem apenas familiares e transeuntes, a Festa do avante enche-se de entusiásticos pagadores de bilhetes.
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E porquê? Porque é a festa de todos eles. Eles não só querem lá estar como gostam de lá estar. Não há a distinção entre “nós” dirigentes e “eles” militantes, que impera nos outros partidos. Há um tu-cá-tu-lá quase de festa de finalistas.É UM ALÍVIO A FALTA de entusiasmo fabricado – e, num sentido geral de esforço. Não há consensos propostos ou unanimidades às quais aderir. Uns queixam-se de que já não é o que era e que dantes era melhor; outros que nunca foi tão bom.
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É claro que nada disto será novidade para quem lá vai. Parece óbvio. Mas para quem gosta de dar uma sacudidela aos preconceitos anticomunista é um exercício de higiene mental.Por muito que custe dize-lo, o preconceito - base, dos mais ligeiros snobismos e sectarismos ao mais feroz racismo, anda sempre à volta da noção de que “eles não são como nós”. É muito conveniente esta separação. Mas é tão ténue que basta uma pequena aproximação para perceber, de repente, que “afinal eles são como nós.
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”Uma vez passada a tristeza pelo desaparecimento da justificação da nossa superioridade (e a vergonha por ter sido tão simples), sente-se de novo respeito pela cabeça de cada um.
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Espero que não se ofendam os sportinguistas e comunistas quando eu disser que estar na Festa do Avante! Foi como assistir à festa de rua quando o Sporting ganhou o campeonato. Até aí eu tinha a ideia, como sábio benfiquista, que os sportinguistas eram uma minúscula agremiação de queques em que um dos requisitos fundamentais era não gostar muito de futebol.
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Quando vi as multidões de sportinguistas a festejar – de todas as classes, cores e qualidades de camisolas -, fiquei tão espantado que ainda levei uns minutos a ficar profundamente deprimido.POR OUTRO LADO, quando se vê que os comunistas não fazem o favor de corresponder à conveniência instantaneamente arrumável das nossas expectativas – nem o PCP é o IKEA -, a primeira reacção é de canseira. Como quem diz:
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”Que chatice – não só não são iguais ao que eu pensava como são todos diferentes. Vou ter de avaliá-los um a um. Estou tramado. Nunca mais saiu daqui.”
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Nem tão pouco há a consolação ilusória do pick and choose....É uma sólida tradição dizer que temos de aprender com os comunistas... Infelizmente é impossível. Ser-se comunista é uma coisa inteira e não se pode estar a partir aos bocados. A força dos comunistas não é o sonho nem a saudade: é o dia-a dia; é o trabalho; é o ir fazendo; e resistindo, nas festas como nas lutas.Hás uma frase do Jerónimo de Sousa no comício de encerramento que diz tudo. A propósito de Cuba (que não está a atravessar um período particularmente feliz), diz que “resistir já é vencer”.É verdade – sobretudo se dermos a devida importância ao “já”. Aquele “já” é o contrário da pressa, mas é também “agora”.
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Na Festa do Avante! Não se vêem comunistas desiludidos ou frustrados. Nem tão pouco delirantemente esperançosos. A verdade é que se sente a consciência de que as coisas, por muito más que estejam, poderiam estar piores. Se não fossem os comunistas: eles.Há um contentamento que é próprio dos resistentes. Dos que existem apesar de a maioria os considerar ultrapassados, anacrónicos, extintos. Há um prazer na teimosia; em ser como se é. Para mais, a embirração dos comunistas, comparada com as dos outros partidos, é clássica e imbatível: a pobreza. De Portugal e de metade do mundo, num Portugal e num mundo onde uns poucos têm muito mais do que alguma vez poderiam precisar.
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NA FESTA DO AVANTE! Sente-se a satisfação de chatear. O PCP chateia. Os sindicatos chateiam. A dimensão e o êxito da Festa chateiam. Põem em causa as desculpas correntes da apatia. Do ensimesmamento online, do relativismo ou niilismo ideológico. Chatear é uma forma especialmente eficaz de resistir. Pode ser miudinho – mas, sendo constante, faz a diferença.Resistir é já vencer. A Festa do Avante é uma vitória anualmente renovada e ampliada dessa resistência. 
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... Verdade se diga, já não é sem dificuldade que resisto. Quando se despe um preconceito, o que é que se veste em vez dele? Resta-me apenas a independência de espírito para exprimir a única reacção inteligente a mais uma Festa do Avante: dar os parabéns a quem a fez e mais outros a quem lá esteve. Isto é, no caso pouco provável de não serem as mesmíssimas pessoas.Parabéns! E, para mais, pouquíssimo contrariado.”
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(E só com um bocadinho de nada com medo).

SÁBADO dia 13 de Setembro de 2007

quinta-feira, junho 09, 2011

A ascensão e queda de Sócrates em 2 minutos (vídeo)


Vídeos

Política

A ascensão e queda de Sócrates em 2 minutos (vídeo)

08-06-2011

Por Sara Capelo e imagem de Bruno VazVeja o resumo da carrreira do "animal feroz" em seis anos de governo. As polémicas, as glórias, o "bad english" e o último grande sonho de José Sócrates.
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http://www.sabado.pt//Multimedia/Videos/Politica/Ascencao-e-queda-de-Socrates.aspx?id=349395