Alunos pedem mais comida
- 23 Dezembro 2010 - Correio da Manhã
"e como que a experiência é a madre das cousas, por ela soubemos radicalmente a verdade" (Duarte Pacheco Pereira)
O segundo dia de roteiro presidencial revelou os dois extremos do sistema de segurança social. Uma residência para idosos onde a estes nada falta, e uma escola que se vê forçada a permanecer aberta todos os dias para que as crianças tenham o que comer.
O segundo dia de roteiro presidencial revelou os dois extremos do sistema de segurança social. Uma residência para idosos onde a estes nada falta, e uma escola que se vê forçada a permanecer aberta todos os dias para que as crianças tenham o que comer.
EDUARDA FERREIRA . |
No Mundo há 215 milhões de crianças sujeitas a tarefas laborais. Quase metade corre mesmo perigo físico. . |
A anterior avaliação foi "optimita". Agora, o relatório quadrienal da Organização Mundial do Trabalho (OIT) vem reconhecer que em muito pouco (3%) foi reduzido o número de crianças que trabalham. Pior: 115 milhões estão mesmo expostas a tarefas perigosas. . |
Há, por todo o Mundo, 215 milhões de crianças que trabalham, muitas delas sujeitas a condições em que a sua vida e saúde está em risco (estas são 115 milhões). A OIT divulga agora o seu relatório e lança um alerta que também soa a autocrítica. É que "houve um abrandamento no decréscimo" do fenómeno face às realidades detectadas quatro anos antes. "Isto pede uma campanha mais enérgica", admitem os tutores da campanha mundial lançada em 1992 e que estipulava o ano de 2016 como a meta em que "as formas mais graves de trabalho infantil sejam eliminadas". Em 2010, o documento da OIT admite que tal objectivo possa estar comprometido. Os números dizem respeito ao quadriénio 2004-08, em cujo começo havia 222 milhões de crianças "activas economicamente". No ano 2000, elas eram 245,5 milhões. . Na região da Ásia-Pacífico é onde mais crianças trabalham (113,6 milhões). No entanto, aí, na América Latina e nas Caraíbas, a tendência tem sido a de recuo na exploração da mão-de-obra infantil. O mesmo não está a acontecer na África a Sul do Sara, que registou um aumento em números relativos e absolutos. Na região equatorial desse continente uma em cada quatro crianças trabalha e há mesmo um dos países, o Mali, em que metade das crianças estão sujeitas a tarefas "profissionais". . Agricultura é terreno fértilÉ nas actividades agrícolas que predomina o recurso a trabalho infantil, confirma o relatório da OIT. Essa realidade corresponde a 60% dos casos detectados em todo o Mundo. A maior parte dessas crianças trabalha para a família, devido à situação de pobreza em que esta vive. "Temos de ir ao encontro das formas escondidas do trabalho infantil", alerta a OIT, confirmando que muitas destas situações "estão enraizadas na pobreza". . Apenas uma em cada cinco é paga pelo que faz, no caso da agricultura. Os serviços também exploram essa mão-de-obra em 25,6% dos casos. Segue-se a indústria (7%). Segundo o relatório, a crise económica mundial estará a contribuir para que o trabalho infantil não decresça a ritmo mais acelerado, sobretudo nas formas mais pesadas. Mas, de acordo com o director-geral da OIT, "a desacelaração económica não pode ser desculpa". Muitas das crianças visadas no relatório trabalham à noite, em condições insalubres, com exposição a químicos, em alturas perigosas, debaixo de terra ou de água e sujeitas a maus-tratos. .. |
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14/10/09 - 12h58 - Atualizado em 14/10/09 - 13h29
Infeccções propagadas por água suja causaram 18% das mortes.
Doença é a segunda causa de óbitos, atrás da pneumonia.
Da France Presse
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Segundo Olivier Fontaine, da OMS, os dados, referentes a 2007, mostram tendência de queda. Em 2004, data dos últimos dados recolhidos sobre a questão, o número de mortes causadas pela diarreia entre as crianças chegou a quase 2 milhões de vítimas.
"O que é preocupante é ver que nossas atividades de informação não têm efeito, porque a contribuição relativa da diarreia para a mortalidade total não mudou nos últimos anos", continuou Fontaine. A mortalidade total de crianças menores de cinco anos passou de 10,4 milhões em 2004 para 8,9 milhões em 2007, segundo ele.
No total, as infeccções diarreicas propagadas pelas águas sujas estão na origem de quase 18% das mortes de crianças no mundo, destacou. Além disso, apesar dos esforços realizados pelas organizações humanitárias, a diarreia é a segunda causa de mortes entre os mais jovens.
"Portando, existem tratamentos eficazes e pouco custosos, mas nos países em desenvolvimento, somente 39% das crianças com diarreia recebem os cuidados necessários", lamentou a diretora da Unicef, Ann Veneman, citada em um comunicado.
A OMS calculou em quase 50 milhões o número de crianças salvas graças ao tratamento à base de soro fisiológico e zinco desde sua adoção há 25 anos.
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Ensinar novas mães a amamentarem poderia salvar 1,3 milhão de crianças por ano, mas muitas mulheres não recebem ajuda e desistem, disse a Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta sexta-feira (31).
Menos de 40 por cento das mães do mundo permitem que seus filhos só se alimentem com leite materno nos seis primeiros meses de vida, conforme recomenda a OMS. Muitas abandonam o aleitamento porque não sabem como fazer o bebê agarrar o seio, ou sentem dor e desconforto.
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"Quando se trata de fazer na prática, elas não têm apoio", disse a especialista da OMS Constanza Vallenas a jornalistas em Genebra, onde fica a sede da agência da ONU.
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O problema, segundo ela, ocorre em países ricos e pobres, e precisa ser combatido a partir de hospitais, clínicas e centros comunitários.
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A OMS recomenda que os bebês comecem a mamar no peito uma hora depois de nascerem, e que consumam apenas o leite materno durante seis meses — o que exclui água, sucos ou alimentos sólidos.
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A amamentação dá à criança nutrientes vitais, além de reforçar seu sistema imunológico, prevenindo contra doenças como diarreia e pneumonia. O leite em pó não fornece a mesma imunidade, e a água das torneiras em muitos lugares do mundo vem contaminada.
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Vallenas disse que, se o índice de aleitamento materno nos seis primeiros meses de vida chegasse a 90 por cento, seria possível evitar cerca de 13 por cento das 10 milhões de mortes anuais de crianças menores de cinco anos.
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Em nota divulgada a propósito da Semana Mundial da Amamentação, de 1o a 7 de agosto, a diretora-geral da OMS, Margaret Chan, disse ser importante dar apoio para que mães em zonas de desastres continuem ou recomecem o aleitamento.
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"Durante emergências, doações não-solicitadas ou descontroladas de substitutos do leite materno podem prejudicar a amamentação e devem ser evitadas", disse Chan, argumentando que a interrupção do aleitamento pode agravar os riscos para crianças já vulneráveis. "O foco deve ser na proteção ativa e no apoio à amamentação."

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Ainda hoje rende audiência a morte da menina Isabela Nardoni; Entretanto, quem lembra da pequena índia Guajajara Maria dos Anjos, de 6 anos, assassinada por dois grileiros, no Maranhão, na mesma época? De mesma idade, igual violência, ambas as meninas tiveram suas vidas interrompidas de maneira igualmente brusca e violenta. A diferença? A classe social de ambas, ora.
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Poucos dias atrás a mídia fartou-se com informações a respeito de possíveis problemas da garota contratada pelo SBT, a pequena Maísa. De acordo com as notícias veiculadas, ela estaria com sérios problemas causados pela sobrecarga de trabalho. A ponto de a emissora ter sido condenada a pagar uma multa de um milhão de reais por descumprimento de determinações judiciais, como por exemplo, acompanhamento psicológico e redução da jornada da menina de sete anos.
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A comoção causada pelo estresse da pequena apresentadora de TV e seu excesso de trabalho emocionou uma importante parcela da população. Certo que qualquer referência ao sofrimento infantil deve realmente comover e provocar reações em setores comprometidos com os direitos humanos. Mas e as outras Maísas, os Dionatans, as Suelens, os Pedros, os Gabriéis que anonimamente e sem nenhum glamour ajudam a movimentar a economia brasileira?
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Segundo o IBGE, mais de 5 milhões de jovens entre 5 e 17 anos trabalham no Brasil. Este número segue crescendo (dados do Pnad 2005), pulando de 11,8% em 2004 para 12,2% em 2005. E certamente este número de crianças e adolescentes não tem seu trabalho fiscalizado, até porque o trabalho, no Brasil, só é permitido a partir dos 16 anos. Antes disto, dos 14 aos 16, existe a figura do aprendiz.
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Tanto quanto a pobreza, o trabalho infantil tem cor no Brasil. Ainda segundo o IBGE 57,8% eram pardos e 37% brancos, e 5,2% negros. Cerca de 60% das crianças que trabalham estão na agropecuária, seguidos pelo comércio, com 12%, e 11% no setor se serviços. Estes são os dados oficiais. Aqui certamente não estão computados os trabalhos ilegais, de pequenos e invisíveis carvoeiros, ambulantes,prostitutas, ?aviões? do tráfico, crianças e jovens empregadas domésticas, todos eles privados de escola, de assistência e infância.
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Estes milhões de pequenos brasileiros que trabalham desde os cinco, seis anos, abortam uma fase importantíssima na construção de sua personalidade. Segundo a mestranda em educação pela UFRGS Alessandra Bohm, o trabalho infantil é uma das maiores causas da evasão escolar. ?A criança que trabalha chega cansada á aula, independente de seu turno. Não tem tempo para as tarefas escolares. A relativa autonomia conquistada pelo pouco dinheiro recebido com seu trabalho traz junto o desinteresse pelo estudo. Crianças que trabalham, como possuem algum dinheiro, são também mais visadas por traficantes.?
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Mesmo quando em condições relativamente salubres, o trabalho infantil interrompe o que deveria ser um ciclo de formação e construção da personalidade da criança/adolescente. O discurso arcaico, que dignifica o trabalho até a exaustão, e justifica o trabalho infantil como uma solução, na verdade é que deve ser visto e entendido como um problema. O velho moralismo ocidental cristão, que condena o lazer e o necessário ócio, que exige dos trabalhadores o máximo empenho. O capitalismo, que não respeita quem constrói sua riqueza, por que respeitaria suas crianças?
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Certamente nos solidarizamos com as crianças que, como a pequena apresentadora do SBT foi submetida ao trabalho infantil desde os três anos de idade. Ela e centenas de outros pequenos trabalhadores do show business, condicionados a uma "vocação" artística desde bebês por quem lhes deveria educar e proteger. São pequenos atores, modelos, ginastas, cantores, realizando os sonhos e projetos de pais e mães, sujeitos a regras disciplinares, dietas e horários rígidos, submetidos a desafios e frustrações, com sua auto-estima em constante questionamento. lemárica é nossa mídia.
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Problemática e insensível nossa mídia. Assim como a pequena índia assassinada não rende manchetes, o trabalho infantil dos anônimos só é notícia quando vinculado ao crime ou de forma sensasionalista. Da mesma forma, as agruras dos pequenos "famosos" raramente chegam às manchetes.
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Sejam eles trabalhadores das emissoras de TV, fogueteiros do tráfico ou catadores de lixões, trabalho de criança é estudar, brincar e guardar seus brinquedos. Não será o trabalho das pequenas mãos que resolverá a fome do mundo, as mazelas do capitalismo nem as crises criadas pela ganância do imperialismo.
*Regina Abrahão, é do Rio Grande do Sul, funcionária pública estadual, dirigente de políticas sociais do Semapi, da CTB e do PCdoB de Porto Alegre, coordenadora do núcleo Cebrapaz, estuda Ciências Sociais na UFRG.