A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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segunda-feira, março 25, 2013

Eduardo Bonfim - Tempos selvagens

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23 de Março de 2013 - 0h00

Tempos selvagens

Eduardo Bomfim *

Nos tempos atuais a informação atingiu uma escala de poder, hegemonia sem precedentes desde o século vinte, uma opinião de classe imposta por centros difusores internacionais baseados nos Estados Unidos da América e na Grã-Bretanha que se encarregam de espalhar ao mundo, ao Brasil, a “notícia do momento”, a opinião política, a ideologia cultural do mercado globalizado.


Fenômeno que só pôde acontecer em virtude do intenso processo de expansão, concentração do capital financeiro a partir da Nova Ordem Mundial, da relativização da soberania dos Estados nacionais, das organizações internacionais outrora sustentadas por pactos fundados em equilíbrio de forças que já não mais existem.

Essas instituições que adquiriram credibilidade após a Segunda Guerra Mundial foram capturadas pelas novas condições geopolíticas surgidas no fim dos anos noventa e se transformaram em uma espécie de correias de transmissão dos interesses de uma única potência mundial do grande capital financeiro, referendando lucros estratosféricos e aventuras bélicas.

O que possibilitou a esse capital um espetacular domínio do planeta uniformizando hábitos e modos antes diferenciados pela diversidade das formações históricas, antropológicas, nacionais, regionais, um poder sem precedentes na História, determinando códigos, regras, leis, constituindo na prática uma espécie de governança global oficiosa.

Garantindo os interesses do mercado que instituiu padrão único de consumo, as variações são ditadas por alguns cartéis internacionais que impõem e combinam os preços das mercadorias, a cidadania das pessoas relativizada ou mesmo subtraída.

Com o fortalecimento dos Brics, Brasil, Rússia, Índia, África do Sul e China que em poucas décadas transformou-se na segunda economia mundial, nascem as condições de um cenário internacional diferenciado ao tempo que eclode uma nova crise estrutural do capitalismo, dos seus mecanismos desvairados, delirantes de especulação.

A Nova Ordem envelheceu, entrou em decadência, com inquestionáveis traços de selvageria, totalitarismo, agressão às nações, aos povos etc. O grande desafio das forças patrióticas, progressistas, inclusive no Brasil, é de encontrar caminhos para a transição a um outro modelo de sociedade que reafirme a soberania das nações, um regime social avançado empenhado no efetivo desenvolvimento das potencialidades humanas coletivas e individuais.
* Advogado, membro do Comitê Central do PCdoB
* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.

domingo, março 17, 2013

Domenico Losurdo e o “retorno” da luta de classes

Página Inicial

17 de Março de 2013 - 7h56         

Acaba de ser publicado na Itália, pela Editora Laterza o novo livro do filósofo político marxista Domenico Losurdo: A luta de classes - Uma história política e filosófica. Em mais um trabalho de fôlego, de 388 páginas, o filósofo marxista italiano enfrenta polêmicas sobre temas instigantes contra as correntes oportunistas que negam a luta de classes ou distorcem seu sentido. A entrevista foi realizada por Paolo Ercolari, para a revista italiana Critica Liberale.



Domenico Losurdo é um dos estudiosos italianos de filosofia mais traduzidos no mundo. Todos os seus livros tiveram de fato edições em inglês, britânico e estadunidense, alemão, francês, espanhol e também em português, chinês, japonês e grego. Seguramente, esquecemos de mencionar algum idioma. Os jornais Financial Times e Frankfurter Allgmeine Zeitung, entre outros, lhe dedicaram páginas inteiras. Um tratamento que contrasta com o que lhe é reservado no próprio país, onde frequentemente, de maneira deliberada, os seus trabalhos são objeto de um silêncio bem estudado. O que, entretanto, não incide sobre suas vendas, tendo em conta as reiteradas edições dos seus livros.

Nos últimos dias veio à luz o seu novo trabalho intitulado A luta de classes - Uma história política e filosófica (388 páginas, Ed. Laterza). Por esta razão, Critica Liberale o entrevistou na sua casa/biblioteca, situada numa colina no entorno da cidade italiana de Urbino. (Paolo Ercolari)
 
Critica Liberale: Professor Losurdo, como explica esta ideia de escrever um livro sobre a luta de classes, conceito tido por muitos como morto?Domenico Losurdo: Enquanto grassa a crise econômica, engrossam os ensaios que evocam o “retorno da luta de classe”. Tinha desaparecido? Na realidade, os intelectuais e os políticos que proclamavam o crepúsculo da teoria marxista da luta de classe cometiam um duplo erro. Por um lado, embelezavam a realidade do capitalismo. Nos anos 1950, Ralf Dahrendorf afirmava que se estava verificando um “nivelamento das diferenças sociais” e que aquelas mesmas modestas “diferenças” eram somente o resultado do mérito escolástico; contudo, bastava ler a imprensa estadunidense, até a mais alinhada, para dar-se conta de que mesmo nos países-guia do Ocidente subsistiam pavorosos bolsões de uma miséria que se transmitia hereditariamente de uma geração a outra. Ainda mais grave era o segundo erro, de caráter mais propriamente teórico. Eram os anos em que se desenvolvia a revolução anticolonial no Vietnã, em Cuba, no Terceiro Mundo; nos Estados Unidos os negros lutavam para pôr fim à supremacia branca, ao sistema de segregação, discriminação e opressão racial que ainda pesava sobre eles. Os teóricos da superação da luta de classes estavam cegos ante as ásperas lutas de classes que se desenvolviam sob seus olhos.

Critica Liberale: Se não entendemos mal, você amplia bastante o campo semântico da expressão “luta de classes”, compreendendo em seu interior uma gama de problemas e questões muito mais amplas?
DL: Sim, Marx e Engels chamavam a atenção não somente para a exploração que tem lugar no âmbito de um país singular, mas também para a “exploração de uma nação por parte de outra”. Outrossim, nesse segundo caso temos a ver com uma luta de classe. Na Irlanda, onde os camponeses eram sistematicamente expropriados pelos colonos ingleses, a “questão social” assumia a forma de “questão nacional”, e a luta de libertação nacional do povo irlandês não só era uma luta de classes, mas uma luta de classes de particular relevância: é nas colônias de fato – observa Marx – que “a intrínseca barbárie da civilização burguesa” se revela na sua nudez e em toda a sua repugnância.

Critica Liberale: Pode-se explicar melhor a gênese histórico-filosófica desta sua leitura tão incomum a respeito de categorias tradicionais?DL: A cultura do século 19 era chamada a responder a três desafios teóricos. Em primeiro lugar, de que modo explicar a marcha irresistível do Ocidente, que com o seu expansionismo colonial subordinava todo o planeta, esmagando até mesmo países de antiquíssima civilização como a China? Em segundo lugar, enquanto triunfava no plano internacional, o Ocidente se via ameaçado internamente pela revolta das massas populares que pela primeira vez irrompiam, e de maneira avassaladora, na cena da história. Pois bem, quais eram as causas desse fenômeno inaudito e aflitivo? Em terceiro lugar, o Ocidente apresentava um quadro bastante diferenciado de país a país. Se na Inglaterra e nos Estados Unidos assistia-se a um desenvolvimento gradual e pacífico em nome de uma liberdade bem ordenada, totalmente diferente era o caso da França: aqui à revolução se sucedia a contrarrevolução, por sua vez varrida por uma nova revolução; a partir de 1789, os mais diferentes regimes políticos (monarquia absoluta, monarquia constitucional, terror jacobino, ditadura militar napoleônica, império, república democrática, bonapartismo) se sucederam um ao outro, sem que jamais se realizasse a liberdade com ordem. Bem, qual era a maldição que pesava sobre a França? A todos estes três desafios teóricos a cultura dominante do século 19 respondia remetendo de um ou outro modo à “natureza”. Para dizer com Disraeli, a raça é “a chave da história”, “tudo é raça e não existe outra verdade”, e a definir uma raça “é só uma coisa, o sangue”; esta era também a opinião de Gobineau. Explicavam-se assim o triunfo do Ocidente ou da superior raça branca e ariana, a revolta daqueles “bárbaros” e “selvagens” que eram os operários e as convulsões incessantes de um país como a França, devastado pela miscigenação. Em outros momentos, a natureza a que se remetia tinha um significado mais brando. Para Tocqueville não havia dúvidas: o triunfo da “raça europeia” sobre “todas as demais raças” era vontade da Providência; a conduta mais ordenada da Inglaterra e dos Estados Unidos era a prova do mais robusto senso moral e senso prático dos anglo-saxões em comparação com os franceses, os quais eram devastados pela loucura revolucionária ou pelo “vírus de uma espécie nova e desconhecida”. Como se vê, o paradigma racial em sentido estrito (caro a Gobineau e Disraeli) tendia a ser substituído pelo paradigma etnológico-racial e pelo psicopatológico. Permanecia a referência a uma “natureza” mais ou menos imaginária e o abandono do terreno da história.

Foi sobre a onda da luta contra esta visão que Marx e Engels elaboraram a teoria da luta de classe. A marcha triunfal do Ocidente não se explicava nem com a hierarquia racial nem com os desígnios da Providência; ela exprimia o expansionismo da burguesia industrial e a sua tendência a construir o “mercado mundial” esmagando e explorando os povos e países mais débeis e mais atrasados. Os protagonistas das revoltas populares no Ocidente não eram bárbaros nem loucos; eram proletários, em seguida ao desenvolvimento industrial, tornavam-se cada vez mais numerosos e adquiriam uma consciência de classe mais madura. Em um país como os Estados Unidos o conflito social burguesia/proletariado era menos agudo, mas somente porque a expropriação e a deportação dos nativos permitia transformar em proprietários de terras uma parte consistente de proletários, enquanto a escravização dos negros tornava possível o controle férreo das “classes perigosas”. Mas tudo isto não tinha nada a ver com um superior senso moral e prático dos americanos, como foi confirmado pela sangrentíssima guerra civil, que entre os anos de 1861 e 1865 viu o confronto entre a burguesia industrial do Norte e a aristocracia proprietária de terras e escravista do Sul e, na última fase do conflito, os escravos (arregimentados no exército da União) contra os seus patrões ou ex-patrões.

Para compreender a ação histórica, é necessário remeter à história e à luta de classes, aliás às “lutas de classes” que assumem formas múltiplas e variegadas, entrelaçam-se umas às outras de modo peculiar e conferem uma configuração sempre diferente às diversas situações históricas.

Critica Liberale: O seu discurso parece, portanto, partir de uma leitura nova do legado de Marx e Engels?DL: A minha leitura de Marx e Engels pode surpreender, mas releiamos o Manifesto do Partido Comunista: “A história de toda sociedade que existiu até agora é a história das lutas de classes” e estas assumem “formas diversas”. O recurso ao plural faz entender que aquela entre o proletariado e a burguesia ou entre o trabalho assalariado e as classes proprietárias é apenas uma das lutas de classes. É também a luta de classes de uma nação que sofre a exploração colonial. Não é necessário, enfim, esquecer um ponto sobre o qual Engels insiste de modo particular: “a primeira opressão de classe coincide com aquela do sexo feminino por parte do masculino”; no âmbito da família tradicional “a mulher representa o proletariado”. Estamos, portanto, em presença de três grandes lutas de classes: os explorados e oprimidos são chamados a modificar radicalmente a divisão do trabalho e as relações de exploração e de opressão que subsistem em nível internacional, em um país singular e no âmbito da família.

Critica Liberale: Um discurso que vai longe, mas que pode ajudar a ler o passado com uma ótica nova.
DL: Somente assim podemos compreender o século passado. Nos nossos dias, um historiador de grande sucesso, Niall Ferguson, escreve que na grande crise histórica da primeira metade do século 20, a “luta de classe”, aliás, “a presumida hostilidade entre o proletariado e a burguesia”, tem desempenhado um papel bem modesto; bem mais relevantes teriam sido as “divisões étnicas”. Contudo, argumentando de tal maneira, mantém-se firme no ponto de vista do nazismo que lia a guerra no Leste como uma “grande guerra racial”. Mas quais eram os objetivos reais daqueles? São explícitos os discursos secretos de Heinrich Himmler: “Se não enchermos os nossos campos de trabalho de escravos – neste aspecto posso definir a coisa de modo líquido e claro – de operários-escravos que construam as nossas cidades, os nossos povoados, as nossas fábricas, sem ter em conta as perdas”, o programa de colonização e germanização dos territórios conquistados na Europa oriental não poderá ser realizado. A luta de todo um povo para evitar o destino de escravos sob domínio de uma suposta raça de senhores e patrões é claramente uma luta de classes!

Um acontecimento análogo ocorre na Ásia, onde o Império do Sol Nascente imita o Terceiro Reich e retoma e radicaliza a tradição colonial. A luta de classes de todo um povo que luta para escapar da escravização encontra seu intérprete em Mao Tsetung, que em novembro de 1938 sublinha a “identidade entre a luta nacional e a luta de classes” que veio a se produzir nos países contra os quais o imperialismo japonês investiu. Como na Irlanda da qual fala Marx, a “questão social” se apresenta concretamente como “questão nacional”, também na China daquele tempo a forma concreta assumida pela “luta de classes” é a “luta nacional”.

Critica Liberale
: A sua interpretação é tão heterodoxa, que poderiam abater-se sobre você, como ocorreu frequentemente no passado, críticas acesas também da parte da esquerda, além daquelas do mundo liberal.DL: Desafortunadamente, também na esquerda “radical” difundiu-se a visão de que a luta de classes se referiria exclusivamente ao conflito entre o proletariado e a burguesia, entre o trabalho assalariado e as classes proprietárias. Chama a atenção de modo negativo a influência de uma eminente filósofa, Simone Weil, segundo a qual a luta de classes seria “a luta daqueles que obedecem contra aqueles que comandam”. Não é este o ponto de vista de Marx e Engels. Em primeiro lugar, aos seus olhos, é luta de classes também a que é conduzida por aqueles que exploram e oprimem. Ainda querendo concentrar-se na luta de classes de caráter emancipador, esta pode muito bem ser conduzida do alto, por “aqueles que comandam”. Tome-se a Guerra de Secessão nos Estados Unidos. No campo de batalha se enfrentavam não os poderosos e os humildes, os ricos e os pobres, mas dois exércitos regulares. E, todavia, desde o início, Marx assinalou que o Sul era o campeão declarado da causa do trabalho escravagista e o Norte o campeão mais ou menos consciente da causa do trabalho “livre”. De modo totalmente inesperado, a luta de classes pela emancipação do trabalho tomava corpo em um exército regular, disciplinado e poderosamente armado. Em 1867, publicando o primeiro livro de O Capital, Marx indicava na Guerra de Secessão o “único acontecimento grandioso da história dos nossos dias”, com uma formulação que reclama à memória a definição da revolta operária de junho de 1848 como “o acontecimento mais colossal na história das guerras civis europeias”. A luta de classes, a própria luta de classes emancipadora, pode assumir as formas mais diversas.

Depois da revolução de outubro, Lênin sublinha repetidamente : “A luta de classes continua; apenas mudou a sua forma”. O empenho para desenvolver as forças produtivas, melhorando as condições de vida das massas populares, ampliando a base social de consenso do poder soviético e reforçando a sua capacidade de atração sobre o proletariado ocidental e sobre os povos coloniais, tudo isto constituía a forma nova assumida na Rússia soviética pela luta de classes.

Critica Liberale
: Como explicar este impressionante mal-entendido da teoria da luta de classes exatamente da parte da esquerda, que sobre a teoria do conflito social construiu boa parte da própria ação histórica?DL: A esquerda, mesmo a radical, resiste a compreender a teoria da luta de classes em Marx e Engels porque é influenciada pelo populismo. O populismo se apresenta aqui em duas formas conectadas entre si. A primeira já começamos a vê-la: é a transfiguração dos pobres, dos humildes, vistos como os únicos depositários dos autênticos valores morais e espirituais e os únicos possíveis protagonistas de uma luta de classes realmente emancipadora. É uma visão de que o próprio Manifesto do Partido Comunista já zombava, ao criticar o “ascetismo universal” e o “rude igualitarismo” e acrescenta: “nada mais fácil do que dar ao ascetismo cristão uma mão de verniz socialista”. Segundo Marx e Engels, esta visão caracteriza “os primeiros movimentos do proletariado”. Na realidade, esta primeira forma do populismo se manifestou com força na Rússia soviética, quando muitos operários, inclusive filiados ao partido bolchevique, condenaram a NEP como uma traição aos ideais socialistas. Uma réplica de tais processos e conflitos se manifestou na China quando, em polêmica contra a transfiguração do pauperismo e a visão do socialismo como distribuição “igualitária” da miséria, Deng Xiaoping chamou a realizar a “prosperidade comum”, a ser conseguida etapa após etapa (e mesmo através de múltiplas contradições). É nesse quadro que aparece o slogan “Ficar rico é glorioso!”, que suscitou tanto escândalo também na esquerda ocidental.

A segunda forma de populismo encontra sua expressão mais eloquente, e mais ingênua, de novo em Simone Weil quando nos anos 1930 imagina um enfrentamento homogêneo no plano planetário e decisivo de uma vez para sempre: enfrentar-se-iam o “conjunto dos patrões contra o conjunto dos operários”; seria uma “guerra conduzida pelo conjunto dos aparatos do Estado e os estados maiores contra o conjunto dos homens válidos e em idade de empunhar armas”, uma guerra que vê o enfrentamento entre o conjunto dos generais e o conjunto dos soldados! Nesta perspectiva não está mais o problema da análise das formas de luta de classes de tempos em tempos diferentes nas diversas situações nacionais e nos diversos sistemas sociais. Em toda a parte estaria em ação uma única contradição em estado puro: aquela que contrapõe os ricos e os pobres, os poderosos e os humildes.

É evidente a influência que esta segunda forma de populismo continua a realizar ainda nos nossos dias, em particular na esquerda ocidental: quando no afortunadíssimo livro de Hardt e Negri, O Império, lemos a tese segundo a qual no mundo de hoje a uma burguesia substancialmente unificada em nível planetário se contraporia uma “multidão”, esta própria unificada pelo desaparecimento das barreiras estatais e nacionais, quando lemos isto, não podemos deixar de pensar na visão que foi cara a Simone Weil.

Critica Liberale: Esta sua empenhada reconstrução do problema fornece uma chave de leitura para hoje?DL: Certamente! Permanecem em ação as três formas fundamentais da luta de classes analisadas por Marx e Engels. Nos países capitalistas avançados a crise econômica, a polarização social, a crescente desocupação e precarização, o desmantelamento do Estado social, tudo isto torna agudo o conflito entre o trabalho assalariado e uma elite privilegiada cada vez mais restrita. É uma situação que compromete algumas das conquistas sociais das mulheres, cuja luta de emancipação torna-se particularmente difícil em países que não alcançaram o estádio da modernidade. Quanto ao Terceiro Mundo, a luta de classes continua ainda a manifestar-se em medida considerável como luta nacional. Isto é imediatamente evidente para o povo palestino, cujos direitos nacionais são pisoteados pela ocupação militar e pelos assentamentos coloniais. Mas a dimensão nacional da luta de classes não desapareceu nem sequer nos países que se libertaram da sujeição colonial. Estes são chamados a lutar não contra uma, mas também contra dois tipos de desigualdade: por um lado devem reduzir a disparidade social em seu interior; por outro lado, devem preencher ou atenuar a distância que os separa dos países mais avançados. Os países que, sobretudo na África, descuidaram dessa segunda tarefa e que não compreenderam a necessidade de passar em dado momento da fase militar à fase econômica da revolução anticolonial, tais países não têm nenhuma real independência econômica e estão expostos à agressão ou à desestabilização promovida ou favorecida a partir do exterior.

Temos, portanto, três formas de lutas de classes emancipadoras, entre as quais não há uma harmonia pré-estabelecida: como combiná-las nas diversas situações nacionais e em nível internacional de modo que possamos confluir em um único processo de emancipação, é este o desafio com que tem que se defrontar uma esquerda autêntica.

Fonte: Blog da Resistência www.zereinaldo.blog.br

Tradução: José Reinaldo Carvalho

segunda-feira, março 11, 2013

Rita Coitinho: Os quadros no pensamento de Álvaro Cunhal

Notícias
    11 de Março de 2013 - 10h00
     
    Em artigo anterior, publicado no dia 14 de fevereiro, "Atualidade e Universalidade do Pensamento de Álvaro Cunhal" remetemos o leitor a uma breve apresentação do conjunto da obra O Partido com Paredes de Vidro. O texto a seguir pretende mostrar como o dirigente português abordava a questão dos quadros, essencial para a consolidação do Partido Comunista.

    Por Rita Matos Coitinho*, para o Vermelho
De acordo com Cunhal a tarefa de revelar e formar os quadros é parte indissociável da construção do Partido Comunista. A coesão da organização, a clareza estratégica e a preocupação em dar condições aos militantes para que estudem, atuem e cresçam enquanto quadros partidários é tão importante quanto a luta política propriamente dita. O Partido precisa estar apto a atuar nas mais variadas frentes e condições políticas (legalidade ou ilegalidade, maior ou menor democracia, maior ou menor nível de consciência e mobilização das massas) e são a firmeza ideológica e o preparo dos quadros que garantem ao partido a necessária flexibilidade tática. Conforme Cunhal, os "sucessos alcançados na atividade do partido devem-se em parte decisiva à capacidade que mostrou para formar rapidamente os quadros necessários à luta nas novas condições... Quadros dedicados, preparados, aptos a desempenhar com sucesso as suas tarefas constituem um valor precioso para o Partido. Constituem fator decisivo para o êxito da sua atividade".

Em sua fundamental obra Que Fazer¹ Lênin demonstrou a necessidade de um partido formado por quadros capazes de, em nome de uma estratégia geral, definir táticas de ação adequadas. Esse partido deve realizar propaganda e agitação permanentes - em cima de qualquer questão, qualquer injustiça, a todo momento, desvelando permanentemente a origem dos problemas sociais. Essa tarefa não é e nem poderia ser desempenhada pelos sindicatos ou movimentos relacionados a um grupo específico, mas somente por uma organização revolucionária, um partido orientado estrategicamente para a superação do Estado burguês.

Essa formulação foi adotada amplamente pelos Partidos Comunistas ao longo do Século 20. Formaram-se partidos orientados para uma ação de vanguarda nas lutas sociais com vistas à ascensão revolucionária da classe trabalhadora e à construção do socialismo em todo o mundo. É comum, na referência aos partidos comunistas, a denominação de "partidos de quadros", no sentido de que são formados por militantes capazes de articular as lutas pontuais com a estratégia geral da revolução, promotores da agitação e da propaganda necessárias à tarefa de derrubar a ordem burguesa e construir uma nova ordem, socialista. O que não contraria a denominação corrente de "partido de massas".

Quadros em processo
Mas quem são os "quadros" do Partido Comunista? Em um capítulo dedicado aos quadros no livro O Partido com Paredes de Vidro², o revolucionário português Álvaro Cunhal revelou o profundo sentido humanista que atribuía à luta política e à construção do Partido. Para Cunhal, "os quadros são seres humanos" com potencialidades e talentos diversificados cujo empenho e dedicação são a força e a medida do caráter e da firmeza do Partido.

"O Partido é composto por todos os seus membros. Todos têm iguais direitos e iguais deveres (...) deveres de trabalhar pela aplicação da linha do partido e para o reforço de sua organização e influência, reforçar sua ligação com as massas, defender abnegadamente as reivindicações e aspirações dos trabalhadores, tomar ativamente parte nas reuniões do seu organismo (...) Todos os membros do partido podem ser quadros, mas muitos não o são de fato. São quadros os que desempenham tarefas responsáveis em quaisquer escalões (...) e também os que se empenham dedicadamente no cumprimento de suas tarefas, quaisquer que elas sejam".

Em Cunhal a qualidade de "quadro" do Partido define-se pelo seu compromisso com a construção da organização e da luta nas frentes de trabalho. A intensidade desse compromisso é variável no tempo e de quadro para quadro. O dirigente português recusou-se a indicar uma hierarquia apriorística entre os militantes partidários, na medida em que compreendia que a ocupação dos espaços na hierarquia partidária deve corresponder ao momento histórico e que o sucesso da organização vem do trabalho coletivo: ..."ser quadro do Partido, mais ou menos destacado, não se define pelo organismo a que o membro do partido pertence, nem pelo grau de responsabilidade, nem pela tarefa que desempenha, nem sequer pelo nível da sua preparação política e de seus conhecimentos gerais (...) Existem quadros do Partido com os mais diversos graus de preparação ideológica e de conhecimentos... A atividade do Partido é a atividade de todos os seus membros. A obra do Partido é a obra de todo o grande coletivo partidário".

É claro que isso não significa que todos os quadros são idênticos. Há diferentes graus de preparação e capacidade de ação que definem que tipo de atuação cada militante poderá desempenhar em cada momento específico da vida partidária. Mas Cunhal fez questão de destacar que essas características não são estanques: "...os quadros revelam-se, afirmam-se e desenvolvem-se através de sua atividade. E uma vez que a formação de um quadro é um processo, não há limite definido, rígido, divisório entre os membros do Partido em geral e os quadros em particular".

A política de quadros envolve muitos aspectos importantes, mas Cunhal destacou três questões que são, para ele, as pedras angulares: o conhecimento dos quadros, a sua preparação e formação e a sua seleção e promoção. O conhecimento dos quadros consiste na verificação da atividade que desempenha o militante em determinado período e o conhecimento de sua personalidade, qualidades e defeitos, potencialidades. É um conhecimento difícil de ser atingido, falível quando fundamentado em uma única opinião individual, e também quando fundamentado apenas em um aspecto da atividade partidária. A complexidade da questão do conhecimento adequado dos quadros aconselha que sua apreciação seja global e que se tenha por prática realizar consultas aos outros quadros que acompanham ou conhecem o trabalho do militante em questão. A preparação e a formação dos quadros relaciona-se, entre muitos e diversificados aspectos, com a assimilação dos princípios ligados à atividade partidária. Não se limita à preparação e formação ideológica, pois soma-se à capacidade de executar as tarefas confiadas, ao sentido de responsabilidade, à formação de caráter. A seleção e a promoção dos quadros consiste na atribuição de tarefas adequadas às suas qualidades e características e na chamada de militantes a novas tarefas consideradas mais difíceis e importantes.

Só é possível aplicar acertadamente a política de quadros se esta for fundamentada num sério trabalho coletivo. "É completamente indesejável que a chamada de novos quadros a tarefas ou cargos de maior responsabilidade seja determinada por laços de amizade com tal ou tal dirigente, a preferência por quaisquer razões que não sejam as qualidades reais e o valor dos quadros."

Um outro aspecto da política de quadros com que se preocupou Cunhal foi o que chamou de "Questões de Quadros". Seriam aqueles "problemas surgidos na atividade do militante que infrinjam os princípios partidários e os deveres dos membros do Partido. As organizações devem estar atentas e intervir sempre que necessário para defender o Partido e ajudar os quadros. Defender o Partido das consequências dos erros dos quadros e ajudar o quadro a libertar-se do próprio erro e superá-lo. O Partido não amarra os quadros aos erros que cometem". Ao não prender o militante ao erro que cometeu, o Partido põe em prática a noção de que os quadros são processos. Cunhal defendia "uma ideia básica: todos os membros do Partido podem melhorar como militantes. Todos têm em si potencialidades bastantes para melhorarem a sua preparação, para enriquecerem a sua experiência, para serem mais eficazes no seu trabalho partidário...".

Por essa formulação, todo o esforço do Partido, no tratamento de uma crise, deve estar voltado para a solução do problema e não para a exclusão do militante que por algum erro provocou a questão. Cunhal propunha que as questões de quadros pudessem ser tratadas com base em seis critérios fundamentais, de modo a evitar que se cometam injustiças: o da verdade, o da objetividade, o da serenidade, o do respeito, o da celeridade e o da isenção. Por meio de um processo equilibrado e isento, "dar-se razão a quem tem razão", independentemente da posição que ocupa o quadro dentro do partido.

A crítica e a autocrítica: ferramentas para um Partido à altura dos desafios
Em A doença infantil do esquerdismo no comunismo Lênin afirmou que é preciso um enorme trabalho para ganhar a confiança das massas. E é extremamente fácil perdê-la. Por isso o Partido e seus quadros devem ser capazes de avaliar permanente e criticamente suas ações e posicionamentos, adequando-se rapidamente às mudanças conjunturais e admitindo os erros que se tenha, por ventura, cometido. Conforme Cunhal, "o erro é um mal, a sua repetição sempre pior. Na luta revolucionária, tão importante como colher a experiência dos êxitos é colher a experiência das deficiências, erros e derrotas...Tanto a crítica quanto a autocrítica são formas de exame objetivo dos fatos e do melhoramento e correção da orientação e da prática do Partido, dos seus organismos e dos seus quadros".

Da mesma forma que na relação com o movimento de massas, a organização deve exercitar e estimular entre seus militantes "...o exame crítico e autocrítico do trabalho realizado [que] tem duas finalidades principais: o melhoramento do trabalho do Partido no imediato e no futuro e a ajuda, a formação e o aperfeiçoamento dos quadros". Reconhecendo na prática partidária um profundo sentido educativo, Cunhal defendeu que o exercício da crítica é essencial à formação dos quadros. Nesse sentido, não ajudam nem as críticas violentas, inquisitoriais (que revelam o caráter autoritário de quem a faz) nem as autocríticas em que o autor flagela a si próprio. "A deficiência e o erro não são crimes nem pecados. Nem a crítica é uma punição, um castigo, ou um julgamento, nem a autocrítica é uma humilhação ou um ato de contrição".

Toda a formulação do capítulo destinado ao estudo dos quadros do livro O Partido com Paredes de Vidro está orientada por um sentido profundamente humanista. Cunhal reafirmou a cada página a estreita ligação entre a ação partidária e a construção de seres humanos novos, à frente de seu tempo. O argumento central é que os quadros evoluem e progridem e que isso engloba um certo sentido de progresso inerente à luta pelo socialismo. "O ser humano não nasce predestinado a tal ou tal evolução. O meio, a educação, a experiência, as influências externas e a vontade própria influem poderosamente na evolução do indivíduo. É tarefa geral do Partido ajudar todos a progredir, com os métodos adequados à diversidade de personalidades e preparação, e naturalmente também distribuindo corretamente os meios disponíveis. (...) A evolução positiva de todos os membros do Partido como militantes e como seres humanos é uma tarefa inerente a toda a atividade partidária".

Que os quadros encontrem no Partido um ambiente favorável ao seu crescimento e que respondam à altura às tarefas e necessidades impostas pela luta política. Que o Partido seja compreendido e valorizado como condutor insubstituível da luta de classes, rumo ao socialismo. E que não se deixe de cuidar do Partido e da formação consistente de seus quadros mesmo nos momentos em que a possibilidade de se travar a disputa política dentro da institucionalidade aparentemente se sobreponha às demais formas de luta. A história está repleta de exemplos que demonstram que a democracia burguesa tem limites, idas e vindas. Estar preparado para momentos mais duros ao mesmo tempo em que se atua pelo aprofundamento da democracia é tarefa irrenunciável do Partido Comunista.

Notas:
1 - LENINE, V.I. Que Fazer? In. Obras Escolhidas. São Paulo, Alfa-ômega: 1986. Tomo 1.
2 - CUNHAL, Álvaro. O Partido com Paredes de Vidro. Lisboa, Avante!: 1985. Deste ponto em diante todas as citações referem-se a esta edição, capítulo 6 (Os Quadros), páginas 139 a 170.


* Rita Matos Coitinho é mestra em sociologia, cientista social e militante do PCdoB em Santa Catarina

domingo, março 10, 2013

Rita Coitinho - Atualidade e Universalidade do Pensamento de Álvaro Cunhal

Atualidade e Universalidade do Pensamento de Álvaro Cunhal

Rita Matos Coitinho*

O Partido com Paredes de Vidro

Este ano, em novembro, completaria 100 anos de vida o dirigente comunista, artista e destacado intelectual português Álvaro Cunhal. Autor de textos sobre temáticas variadas, que vão da conjuntura e ação partidárias à teoria da arte, o legado de Cunhal será reeditado este ano pelo PCP, como parte das comemorações do seu centenário.

Nas palavras de Jerónimo de Souza, secretário-geral do PCP no 19º Congresso partidário, realizado em dezembro último, "as comemorações do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal serão a justa homenagem ao homem, ao comunista, ao intelectual, ao artista, figura central do século 20 e princípio deste século e que se afirmou como referência na luta pelos valores da emancipação social e humana no país e no mundo, e para todos aqueles que abraçam a luta libertadora de todas as formas de exploração e opressão do homem e dos povos. Que deu uma contribuição inigualável para o Partido que temos e o Partido que somos, o seu Partido de sempre – o Partido Comunista Português. (...) o seu pensamento e ação política, a sua história pessoal de combate pela liberdade, a democracia e o socialismo, não podem passar ao lado de todos os que se preocupam com os problemas que a sociedade enfrenta, de regressão social e civilizacional, no quadro de uma aguda crise sistêmica do capitalismo".


Dentre as inúmeras e valiosas contribuições de Cunhal destaca-se, pela atualidade e pela riqueza de detalhes, a obra dedicada a registrar e revelar ao público o funcionamento do Partido Comunista Português, O Partido com Paredes de Vidro (1), editado pela primeira vez no início dos anos 1980. 

Com análise histórica e exemplos da vida prática, o livro abarca quase em sua totalidade os variados aspectos da vida partidária, do funcionamento dos núcleos de base à direção, da atitude dos militantes frente à vida pessoal e à conduta partidária, da unidade de ação às questões da crítica e da autocrítica, da política nacional ao internacionalismo proletário. 

Escrito em linguagem simples e acessível, rico em exemplos e inovador na aplicação dos princípios do marxismo-leninismo, O Partido com Paredes de Vidro é texto que extravasa os limites das fronteiras nacionais portuguesas, sendo leitura indispensável a todos os comunistas em qualquer país do mundo. Um clássico do pensamento socialista do século 20.

Um instrumento de investigação e um estímulo à criatividade

Em seu livro, Cunhal reforça a centralidade do marxismo-leninismo como sistema de teorias que explicam o mundo e indicam como transformá-lo. Como instrumentos indispensáveis à análise científica da realidade e à definição de soluções concretas para os problemas concretos que a situação objetiva e a luta colocam às forças revolucionárias, os princípios e o método do marxismo-leninismo constituem-se em patrimônio teórico e enriquecem-se com a assimilação crítica das experiências históricas. Duas posturas diante do marxismo-leninismo devem, no entanto, ser rejeitadas: a cristalização dos princípios e a tentativa de responder às novas situações com elaborações teóricas especulativas e apriorísticas. 

A questão da cristalização dos princípios é a aplicação da teoria como dogma e não como instrumento de análise, a sacralização dos textos dos mestres do comunismo, a substituição da análise das situações e dos fenômenos pela transcrição sistemática e avassaladora dos textos clássicos como respostas que só a análise atual pode permitir. De maneira jocosa, Cunhal resume a situação da seguinte forma: com tais critérios dir-se-ia que alguns colocam como tarefa não aprender com os clássicos para explicar e transformar o mundo, mas citar o mundo para provar a onisciência dos clássicos.

O entendimento da teoria marxista-leninista como instrumento de análise é a negação do dogmatismo. É a permanente confrontação da realidade com a teoria e o desenvolvimento criativo do pensamento em interação com a prática. Por outro lado, a segunda ressalva – do uso de elaborações especulativas e apriorísticas – refere-se a um problema oposto: o abandono dos princípios do marxismo-leninismo e das experiências de validade universal do movimento revolucionário com uma vulgar preocupação em dar valor às "novidades" sem no entanto verificar sua validade de maneira criteriosa. 

Cunhal aponta para o modismo de se separar o marxismo do leninismo, como se negar o desenvolvimento da teoria em sua unidade fosse uma inovação. "O que dizem rejeitar de Lênin? Simplesmente o papel revolucionário e de vanguarda da classe operária, substituindo-o efetivamente pelo papel de vanguarda dos intelectuais e da pequena burguesia urbana. Dizem rejeitar a concepção de aliança da classe operária com o campesinato substituindo-a por uma aliança indefinida de forças sociais heterogêneas. Dizem rejeitar a teoria do Estado e a teoria do Partido. Dizem rejeitar a crítica leninista à democracia burguesa e ao parlamentarismo burguês como formas políticas de opressão econômica e social e descobrem-lhes valores que sobrepõem aos objetivos de emancipação social. Dizem rejeitar métodos de acesso da classe operária ao Poder." 

Em síntese, ao separar Marx de Lênin, negam o próprio marxismo, pois as formulações de Lênin são basicamente desenvolvimentos e aplicações práticas dos princípios básicos formulados por Marx e Engels. Negam, por fim, a própria validade do partido revolucionário e da luta de classes. Acreditando "inovar", os pseudomarxistas repõem na ordem do dia ideias ultrapassadas, desacreditadas já na época em que Lênin combatia a velha socialdemocracia reformista.

Para Cunhal a atitude necessária aos partidos comunistas é o permanente enriquecimento e desenvolvimento do marxismo-leninismo, entendido não como conjunto de dogmas, nem tampouco como caricatura da história. Uma teoria em movimento, constantemente enriquecida pelo avanço da ciência, pelos resultados da análise dos novos fenômenos, pela rica e variada experiência do processo revolucionário. Uma obra coletiva, resultante da luta e do trabalho teórico e criativo do movimento comunista internacional.

O Partido Comunista: obra coletiva, natureza de classe

O Partido com Paredes de Vidro é ao mesmo tempo um balanço e uma defesa dos princípios e métodos do partido comunista. Resgata a história do PCP e avalia os problemas e avanços conquistados em sete décadas (à época em que o livro foi escrito) de existência, várias da quais na clandestinidade até o sucesso da Revolução dos Cravos, quando a derrota do fascismo possibilitou a existência legal dos partidos em Portugal.

O texto exalta a experiência acumulada, as soluções encontradas para cada situação histórica, os erros e acertos que conduziram o PCP até o formato que tem na atualidade, com destacada inserção na sociedade portuguesa. Algumas questões a experiência demonstrou serem centrais na existência do partido comunista. Sem determinados princípios perde-se a essência, capitula-se diante das pressões da burguesia.

Necessário, portanto, refletir sobre o passado, sobre as ações do coletivo e também sobre experiências individuais dos militantes. Cultivar o espírito da abertura à crítica e à autocrítica, aprender com os exemplos dos partidos em outras nações, cultivar a valorizar o internacionalismo. Nas palavras do escritor, o passado é a prova, o presente o testemunho, o futuro a confiança. "A perspectiva histórica de um partido afere-se pelo que fez, pelo que faz e pelo que mostra estar em condições de fazer. Afere-se pela ligação do seu ideal, dos seus objetivos, da sua ação à classe ou classes às quais historicamente o futuro pertence. Nesse duplo aspecto (...) fundamenta-se a sua profunda e inabalável confiança no futuro."

Algumas lições merecem destaque. A primeira delas é a ligação do partido com a classe trabalhadora. O vínculo com a classe é a essência e substância da ação do partido. A natureza de classe afirma-se e revela-se em cinco princípios: na ideologia, nos objetivos, na composição social, na estrutura orgânica, no trabalho de massas e, de uma forma geral, em todos os aspectos da sua atividade.

A experiência internacional demonstra que quando se enfraquece a natureza de classe de um partido comunista, rapidamente se tende: à negação dos princípios teóricos, com "inovações" que refutam a validade dos princípios leninistas; à revisão da estratégia, adotando-se objetivos reformistas e um criticismo recorrente às experiências históricas na construção do socialismo; à redução sistemática do percentual de operários que compõem o partido, pois que se passa a priorizar outros segmentos da pequena burguesia urbana; ao relaxamento da estrutura orgânica, subestimando-se a importância dos núcleos de base na vida partidária, substituindo-os por grupos e plenários heterogêneos; finalmente, tende-se a subestimar o trabalho de massas quando a natureza de classe se enfraquece, dando-se importância central às agendas da institucionalidade burguesa.

A classe operária tem papel decisivo no processo de construção do socialismo. É classe que traz em si as contradições fundamentais com o capital. Subestimar o seu papel na construção do partido é, em última análise, subestimar a luta de classes. Respeitadas as características próprias de cada país ou região, onde a classe trabalhadora pode ser mais ou menos numerosa, é necessário que o partido busque integrá-la aos seus quadros, promover operários às direções, em todos os níveis. Essa é a "regra de ouro" que Cunhal buscou sistematizar e aplicar ao PCP.

Outra lição que merece ser destacada é a questão do funcionamento do partido. Cunhal debruçou-se com afinco aos vários aspectos da organização partidária, das células ao Comitê Central. Em resumo – pois que o presente artigo não pretende substituir a leitura do livro – pode-se destacar a importância atribuída à noção de que o partido é obra coletiva.

A democracia partidária é garantida pelo seu funcionamento regular. Estando devidamente estruturado em células, direções intermediárias e Comitê Central, todas as questões do trabalho de massas e da política partidária resultam da construção e do debate de cada militante. Não há autoritarismo possível se cada um ou cada uma tem o dever e a oportunidade de discutir as orientações do partido. Se cada ação – da organização de um ato de massas à Festa do Avante!, de uma greve ao congresso do partido – é resultado da interação entre dezenas de camaradas, que realizam suas tarefas e delas prestam contas, em todos os níveis, está garantida a democracia partidária. O centralismo democrático é o resultado da obra coletiva, e nenhum membro do partido, militante ou dirigente, pode eximir-se de prestar contas ao coletivo ou agir como se estivesse acima do partido.

Necessário, portanto, cultivar valores morais e práticas políticas compatíveis com o espírito coletivo. O combate sistemático à ideologia burguesa, ao individualismo, ao carreirismo e ao autoritarismo passa tanto pela valorização das expressões culturais e modos de vida do povo trabalhador quanto pelo exercício do controle da realização das tarefas (de uma instância por outra), pelo respeito às decisões partidárias, pelo estímulo à manifestação de cada militante nos debates e à prática da crítica fraterna e da autocrítica. 

Da mesma maneira, o estímulo à prática da autocrítica deve estar combinado ao exercício da tolerância e do incentivo ao crescimento político de cada quadro. Reconhecer que errou – o indivíduo, ou o coletivo – deve ser o ponto de partida para a tentativa de não errar novamente. As práticas de perseguição aos militantes, de rotulação de posições, não são compatíveis com o funcionamento democrático do coletivo partidário nem com uma política coerente de formação de quadros – pois que os quadros se formam e avançam na prática política e quem está imerso na luta está sujeito a cometer erros. Da mesma maneira, o partido comunista não pode tolerar ou ignorar suas falhas e de seus membros. Deve estar atento e preocupado em apurar os equívocos e apontar devidamente as responsabilidades. 

É também incompatível com a construção coletiva do partido a formação de "correntes de opinião" internas, com o isolamento sistemático de tal ou tal dirigente ou militante, sob risco de se criar uma atmosfera de desconfiança e ruptura da unidade de ação. A unidade do partido comunista é o seu maior patrimônio. E ela se baseia na confiança no trabalho do coletivo. "O partido é um imenso coletivo de homens e mulheres cujo andamento é determinado por todos e cada um. (...) A unidade do Partido é o cimento da sua força."

Renovar-se para seguir na luta, não ceder às pressões ideológicas da burguesia

O partido marxista-leninista surgiu em contraposição ao velho e desgastado modelo de partido socialdemocrata. O "partido de novo tipo", expressão cunhada por Lênin, é o partido que se propõe a ser vanguarda da luta da classe trabalhadora em direção à revolução socialista. A experiência do partido bolchevique russo inspirou em numerosos países a ruptura com a socialdemocracia pelos setores mais consequentes da classe operária e a criação de partidos "de novo tipo", o tipo que hoje chamamos leninista.

A independência dos partidos leninistas frente à política da burguesia esteve sempre ligada à sua independência de classe. Já Marx e Engels apontaram a necessidade de organizações independentes de forma a que os partidos operários não fossem explorados e postos a reboque pela burguesia (2). Sublinhava Engels: "a política que é preciso fazer é a política operária: é preciso que o partido operário seja constituído não como a cauda de qualquer partido burguês, mas como partido independente, que tem o seu objetivo, a sua própria política (3)".

Essa independência de classe revela-se nos mais variados aspectos da atuação partidária. Um desses aspectos é a já referida atenção à composição do partido, que deve preocupar-se em trazer para suas fileiras as lideranças destacadas da classe trabalhadora. Outro é o cuidado com a inserção e a influência política nos movimentos de massas. Também o reconhecimento e o uso inovador dos princípios do marxismo-leninismo, a preocupação com a unidade de ação, com a democracia interna e com o centralismo democrático, características fundamentais do partido de novo tipo. 

A pressão ideológica da burguesia se dá no cotidiano. Os militantes do partido trabalham, estudam e convivem e são cobrados e pressionados diariamente pela visão de mundo da burguesia. A atuação nos governos e nos parlamentos – que deve ser encarada pelos comunistas como tarefas a serem realizadas da melhor maneira possível de modo a dar destaque ao partido e aproveitar os espaços para fazer a defesa dos interesses da classe trabalhadora – muitas vezes é apresentada, pelos ideólogos da classe dominante, como o único espaço legítimo da política, incentivando o personalismo e o carreirismo próprios da política burguesa. 

Cunhal alerta para o perigo de se substituir os princípios orgânicos do partido pelos métodos de funcionamento eleitoralista, autoritário e corrupto dos partidos burgueses seria também uma grave capitulação da própria independência de classe. 

Em realidade, Cunhal demonstra que os desvios pequeno-burgueses que buscam "renovar" o partido comunista nada mais fazem que propagandear um retrocesso histórico. Os comunistas romperam com a forma burguesa de organização quando se afastaram da socialdemocracia. Renovaram-se frente à política da classe dominante quando refutaram seus métodos e colocaram na ordem do dia a primazia dos interesses das classes trabalhadoras frente à agenda da burguesia. 

Nas palavras do dirigente português, "(...) quando alguns dizem que, para vencer certas reservas e suspeições o Partido deveria 'mudar a imagem', o que querem dizer afinal não é que o Partido deveria mudar de imagem, mas que deveria tornar-se um partido tal como o anticomunismo gostaria que fosse. Que, em vez do partido revolucionário que é, partido e vanguarda da classe operária e de todos os trabalhadores, partido lutador coerente e infatigável pelos interesses do povo, pela liberdade, pela independência nacional e pelo socialismo, partido patriótico e internacionalista, se tornasse um partido inofensivo para a burguesia e a reação. 

Um partido que perdesse sua natureza de classe e abandonasse a sua política de classe. Que amoldasse a sua política aos critérios da burguesia e não aos critérios do proletariado. Que aceitasse a imobilidade das estruturas socioeconômicas capitalistas. Que quebrasse os seus laços de amizade com o movimento comunista internacional (...) 

Que limitasse a sua ação à concorrência a eleições realizadas segundo os ditames da burguesia e à ação parlamentar de alguns deputados conformados com a rotina da sua própria ação. Que se tornasse um partido com um programa e uma atividade socialdemocratizantes. Que desistisse dos seus objetivos do socialismo e do comunismo. Em resumo: um partido assimilado pela sociedade burguesa, a sua ideologia e a sua amoralidade." 

A defesa das feições do Partido Comunista é a afirmação de sua luta e de sua estratégia, dos ideais de libertação da classe trabalhadora da opressão capitalista. O Partido com Paredes de Vidro, escrito por Álvaro Cunhal e aprovado pela Comissão Política do Comitê Central do PCP na década de 1980, é mais do que um documento histórico e um diagnóstico das estruturas do partido. É um manifesto em defesa dos princípios do marxismo-leninismo, um guia para a reflexão e a organização autônoma da classe trabalhadora. 

É a afirmação da agenda necessária ao fortalecimento da luta pelo socialismo que hoje, com a crise generalizada no centro do capitalismo e a escalada das guerras imperialistas, demonstra ser o horizonte possível e necessário aos povos de todo o mundo. A força do partido comunista é sua natureza de classe, o vínculo profundo com os movimentos de massas, o internacionalismo, a defesa da soberania. Seu objetivo, a construção do socialismo. Por sua justeza e universalidade, essas ideias precisam ser conhecidas por toda a militância comunista. Fica aqui o convite à leitura.

Notas:

1 - Todas as citações do livro referem-se à seguinte edição: CUNHAL, Álvaro. O Partido com Paredes de Vidro. Lisboa, Edições "Avante!", 5ª edição: 1985. Texto disponível em formato PDF em: Clique aqui.

2 - Esta formulação está presente do texto de Marx e Engels: Mensagem da Direção Central à Liga dos Comunistas. Citado em CUNHAL, 1985.

3 - Discurso sobre a Ação Política da Classe Operária; cf. MARX & ENGELS, Obras Escolhidas em três tomos, Edições "Avante!" e Edições Progresso, tomo 2, páginas 267 e 268. Citado em CUNHAL, 1985.

*Rita Matos Coitinho é mestra em sociologia, cientista social e militante do PCdoB em Santa Catarina.

Fonte: Vermelho

segunda-feira, março 04, 2013

Roberto Cunha - "Espelho de enganos, teatro de verdades" da pós-modernidade

Página Inicial

4 de Março de 2013 - 13h45


A pós-modernidade e o neoliberalismo elaboraram um receita velhacamente eficaz e
algumas idiotices brilhantemente sublimes.

Por Roberto Cunha*


Os “contra poderes”: agricultura familiar - canonização do camponês; movimentos “sociais”; políticas públicas focadas; lutas das minorias; multiculturalismo; gêneros; trabalhadores e trabalhadoras no lugar da classe operária; credo na benevolência humana; paz e esperança que “um novo mundo é possível”; “o agronegócio é deletério a saúde humana”; “o capital financeiro é coisa de imperialismo”, “ o capitalismo não é um salto civilizacional” e que os únicos e eficazes remédios são “consciência ambiental”, a “sustentabilidade” e destruição de tudo que foi feito até aqui. E a maioria das esquerdas do século 21 se apoderou com unhas e dentes de tal receituário infalível.

Não falo aqui no sentido filistino.

Sentimentalismos e tapeações nús. Sublevações impotentes e ineficazes. Isso nada
mais é que uma contribuição para o melhoramento refinado das contradições de classe,
a teatralização dos conflitos e movimentos sociais, maior largueza dos lucros dos
capitalistas e a exploração requintada da mais-valia dos trabalhadores. E garantem às
gerações futuras, novas e inéditas formas de misérias e higienização social via terabyte.
A adesão a esse formulário representa zona sideral da total abnegação pelo fim da
luta de classe. Está claro que se trata de um sintoma esquizóide maligno. Adotar esses
modelos equivocados, irrealistas, significa elevar a loucura da miséria, da pauperização
das dignidades do povo à "encarnação do realismo". É um nirvana mortalmente
paradoxal.

Só me resta concordar com o colosso Padre Antônio Vieira: “... destas faço aqui praça
e lhas descubro todas, mostrando seus enganos como em espelhos e minhas verdades
como em teatro, para fazer de tudo um mostrador certíssimo das horas, momentos e
pontos em que a gazua destes piratas faz seu ofício. Não ensina ladrões o meu discurso,
ainda que se intitula Arte de Furtar, ensina só a conhecê-los, para os evitar..."

*****

A delinquência chamada pós-modernidade tem tratado e estimulado inúmeras formas
de ativismo insípido e fragmentado com o único e obstinado objetivo de exterminar o
sujeito histórico classe operária. Existe uma onda pecuniária para estandartizar a classe
operária como um peça do Louvre. (Quem quiser saber mais uma dica: Quem pagou
a conta? A CIA na guerra fria da cultura – de Frances Stonor Saunders, editora
Record).

A maioria das esquerdas do século XXI, com a pós-modernidade até a medula, tem
suas leituras do real baseadas na metafísica dos “contra-poderes”. Perdem a noção de
conjunto, partindo do específico para o todo. Vilipendiam o processo histórico e são
antagonicamente diametral às categorias chaves do marxismo: formação social x modo
de produção; forças produtivas x relações de trabalho; base econômica x superestrutura.
As ideias de classes não são mais as ideias das classes dominantes? Defendem um
anacronismo brilhantemente estúpido da aristocracia trabalhadora. Andam sem
dimensionar profundidades e abrem mão do trabalhador puro, ou seja, aquele explorado
pela mais-valia absoluta e relativa e dão margem a “biologização cultural” despertando
os new adeptos do 3° Reich. Como lidar com essa “biologização” do trabalhador? Os
capitalistas não entendem mais que o trabalhador é só um apêndice de uma máquina?

Ou não é preciso mais se preocupar com isso? Estão satisfeitos com os programas
de "responsabilidade social", "reinserção ao mercado de trabalho", “programa de
divisão de lucros” "ética no trabalho” “recuperação de drogados”, “confraternizações
de piso”, “prêmios de produtividade” , elaborados pelos departamentos de Capital
Humano das multinacionais?

E os piquetes?

Nada contra as diversas formas de manifestações universais que serve de mobilização
e somente só. Qual a verdadeira função de uma conferência temática, um FSM, ou
um ocuppy the Wall Street? Quem participa desses movimentos acredita cabalmente
que poderá, só com boa vontade e fé, acabar com a centralização de capital? Superar
a ordem estabelecida ou destruir o que até aqui foi construído? Isso curará doença
sem minar os alicerces do sistema? Ou basta acreditar nas diretrizes para os relatórios
de sustentabilidade da ONU e nos vários projetos sociais executados por milhares de
ONG's que seduzem jovens “voluntários” para salvar o mundo?

Acredito articamente no que 160 anos atrás, dizia Marx: os mortos se apoderam
dos vivos. Vale lembrar o que Ulisses fez para não cair no suave e atraente recital
das sereias: amarrando-se no mastro principal de seu barco e colocando cera nos
ouvidos de seus marujos. Temos que combater fielmente a “negação a estratégicas” e o
endeusamento das flexões táticas, pois essas ultimas se tomaram um deus ex machina.

*****

O dinamismo do desenvolvimento das forças produtivas dentro do capitalismo, superam
as suas próprias contradições. Exemplo: as suntuosas indústrias da reciclagem em varias
matizes.

Por outro lado, a “Las Vegas” de ideias revolucionárias dos “revolucionários”,
embebidos no cálice da pós-modernidade, exorcizam o “demônio” do agronegócio em
detrimento da agricultura familiar. Os partidários do conhecimento pós-moderno sofrem
de uma grande amnésia. Apresentam coisas que em si mesmo, não representam nada.
Colocam uma pá de cal no desenvolvimento histórico e são veementes hostis a realidade
concreta. Quando usam o empirismo abstrato da agricultura familiar, lembro-me de
Spinoza: "a morte era dada por aparências, pelas descrições meramente formais, as
estatísticas alinhadas pelo simples prazer de manipular números, as classificações com
as quais se pretendem aprisionar toda realidade”.

Projetos de ornamentos de garrafa PET e biscuit, tudo em nome da “consciência
ambiental”, fazem parte do novo breviário do desenvolvimento econômico. Será que
no futuro veremos carros feitos de garrafas PET nos morros do Rio de Janeiro, motores
e eletrodomésticos feitos com a reciclagem do CO2, roupas feitas dos bagaços das
laranjas orgânicas, tudo isso sob um ar puro e sereno das árvores que a Gisele Bündchen
planta? Será que temos um futuro brilhante pela frente com as indústrias do politica e
ambientalmente correto?

Lembro-me de Charles Dickens em Oliver Twist

“... senhores do júri, não há dúvida de que a garganta desse homem foi cortada, mas a
culpa não é minha, a culpa é da faca. Devemos nós, por esse inconveniente temporário,
abolir o uso da faca? Se os senhores abolirem a faca, estarão lançando-nos de volta nas
profundezas do barbarismo”.

E se abolimos os agronegócios e voltaremos ao tempo do arado de madeira? Isso
será o futuro? (Recomendo a leitura do texto de José Sidinei Gonçalves in http://
www.iea.sp.gov.br/out/publicacoes/pdf/tec1-0405.pdf  ).

No Brasil, esse mimetismo pós-moderno, confundem os menos atentos marxistas que
vociferam que a panacéia da humanidade é o “desenvolvimento sustentável”. Isso
é o fim em si mesmo. Apenas um automatismo de linguagem revolucionária. Uma
verdadeira orquestração da harmonia do atraso.

Enquanto não pensarmos grande, ficando apenas na pequena produção santificada, ou
seja, na reprodução simples do capital, M-D-M, da idade da pedra, seremos eternos
vassalos. Divagações e adjetivações fundadas no abstrato têm além da conta. "A
produção não se mede, de maneira alguma, pelo comprimento, volume ou peso do
produto, mas pela utilidade que lhe foi dada". (Jean Baptiste Say)

Depois da década de 1950, no Brasil urge a reprodução ampliada de capital. Tudo isso
tem uma única forma: capital financeiro. Isso está disponível desde 1885 no segundo
livro do O Capital. A Lógica é D-M-D. O capital financeiro nacional é a grande força
motriz para quebrar o cinto de castidade do desenvolvimento e a garantia intransigente
da soberania nacional. Mas a ideia de capital financeiro brasileiro está pejorativamente
vinculada ao imperialismo. “Tudo está organizado para que nada aconteça”.

*****

O diletantismo de inclinações revolucionárias e a teoria sem práxis são forma de
“masturbação escolástica”, inférteis e sem consequências. A pós-modernidade
mantém um sublime show de propaganda hiperbólica onde mimeticamente
tudo é universalmente aceito e não precisa comprovação. Vincent Van Gogh
salientava "quando um cego grita pra outro cego, os dois tropeçam na mesma pedra”.

A pós-modernidade com seus maneirismos, suas revoltantes atrocidades, seus yahoos
impotentes, suas falseabilidades institucionalizadas formam uma colcha de retalhos de
ideias reeditadas e judiadas. Por onde passa, deixa esqueletos dentro dos armários.

O novo é aquilo que ainda não foi feito. O desconhecido, o destemido, o medo dos
fracos, a coragem dos bravos. Novas ideias são aquelas que chocam, que interpretam
os esforços do passado sendo o único acesso para os “futuros esforços”. Milton Santos
dizia que “não há esforço crítico sem risco”. Sem medo do pelourinho da historia e do
isolamento político, é preciso buscar a verdade científica, a essência e não o sucesso
efêmero da aparência. Como disse Hegel na Filosofia do Direito “a coruja de Minerva
só abre as asas ao cair da noite”.

*****

Será que as lições históricas nunca serviram para clarificação da verdade ou iremos
viver eternamente em "teatro de verdades"?

Roberto César Cunha é geógrafo
 
 

Frei Betto: Rumo ao conclave

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4 de Março de 2013 - 12h28         

Para o Vaticano, o conclave não deve ser encarado como um colégio eleitoral, o que de fato é, mas um retiro espiritual no qual os cardeais invocam aquele que, na ótica da fé católica, é o único verdadeiro eleitor: o Espírito Santo.

Por Frei Betto*

 A partir de 28 de fevereiro iniciou-se, com a renúncia de Bento XVI, o período de Sé Vacante. Até a eleição do novo papa, o governo da Igreja Católica fica em mãos do Colégio de Cardeais. De fato, sob o comando de Tarcísio Bertone, o cardeal camerlengo (do latim medieval camarlingus, adido à câmara, que administra a Santa Sé).

Durante a Sé Vacante, os cardeais se reúnem diariamente em Congregação Geral, da qual todos participam, inclusive os que, por idade (+ de 80 anos), perderam o direito de participar do conclave. Ali, as decisões mais importantes para o governo da Igreja são votadas por maioria simples. Prevalece, entretanto, o princípio tradicional que rege a Sé Vacante – “nihil innovetur” (nada a inovar).

Da Congregação Particular, à qual concernem assuntos de menor importância e a preparação do conclave, participam o camerlengo e mais três cardeais escolhidos por sorteio.

Para o Vaticano, o conclave não deve ser encarado como um colégio eleitoral, o que de fato é, mas um retiro espiritual no qual os cardeais invocam aquele que, na ótica da fé católica, é o único verdadeiro eleitor: o Espírito Santo.

A atual legislação da Igreja prevê que o conclave se reúna dentro da Cidade do Vaticano. Mas já não será tão fechado ou “sob chaves” (daí conclave) como se exige, já que diariamente os cardeais-eleitores se deslocarão em ônibus da Casa Santa Marta, a confortável hospedaria construída por ordem de João Paulo II, até a Capela Sistina. Se nenhum dos cardeais tomará em mãos o volante do veículo, supõe-se que ao menos terão contato com o motorista.

No século XIX, os conclaves ocorreram no Palácio do Quirinal, em Roma, hoje residência oficial do presidente da Itália. O último conclave fora de Roma foi em Veneza, em 1800, após a morte, na prisão, do papa Pio VI, encarcerado na França por Napoleão Bonaparte, cujas tropas ocuparam Roma. Do cárcere, Pio VI instruiu os cardeais a promoverem o conclave “em qualquer lugar de qualquer príncipe católico”. Na época, Veneza estava sob soberania da Áustria. Ali foi eleito Pio VII.

Na mesma tarde do primeiro dia do conclave se realiza um primeiro escrutínio. Trata-se de um gesto de boas-vindas, em que votos são dados para homenagear determinados cardeais, em geral mais velhos, sem chances de serem eleitos papa.

No conclave após a morte de João Paulo I, em 1978, um idoso cardeal norte-americano, que havia participado das eleições de João XXIII e Paulo VI, foi a cada um de seus colegas para pedir-lhes um voto de homenagem, pois aquela seria sua última oportunidade de eleger um papa, e seu nome nunca havia sido pronunciado na Capela Sistina, pois jamais recebera um único voto. Ao fim do primeiro escrutínio, por pouco não foi eleito...

A partir do segundo dia de conclave, duas votações acontecem, uma pela manhã e outra pela tarde. Após 21 escrutínios, ficam no páreo apenas os dois mais votados.

Durante o conclave, os olhares do mundo permanecem fixos na chaminé da Capela Sistina. Se a fumaça é preta, sinal de que mais um escrutínio terminou e nenhum cardeal obteve dois terços dos votos. Se branca, há um novo papa.

Em outubro de 1978, em um dos oito escrutínios na eleição de João Paulo II, a fumaça saiu híbrida, com uma cor que dividiu a multidão atenta entre o preto e o branco. O porta-voz do Vaticano esclareceu, na sala de imprensa, que era preta. A gratidão dos jornalistas foi quebrada pela impertinência de um repórter dos EUA: “Se nem o senhor pode ter contato com os cardeais trancados na Capela Sistina, como afirma com certeza que a fumaça era preta?”

* é escritor, autor do romance “Minas do Ouro” (Rocco), entre outros livros.artigo publicado em Brasil de Fato

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

Cem milhões de trabalhadores em greve na Índia

 
 
20 de Fevereiro de 2013 - 14h56         

Em torno de 100 milhões de trabalhadores iniciaram nesta quarta-feira (20), na Índia, uma greve de dois dias para protestar contra o aumento no custo de vida, a falta de oportunidades de emprego e a corrupção.


Apoiada por todos os sindicatos, exceto os aliados com o governante Partido do Congresso, a greve evidencia o descontentamento da classe operária indiana, que se sente excluída da prosperidade econômica do país na última década.

A inflação, a falta de investimento no setor público, a violação das leis trabalhistas, os baixos salários e a ausência de previdência social, levaram os trabalhadores à greve, informou um comunicado do Congresso de Sindicatos de Toda a Índia (AITUC) que tem mais de três milhões e meio de membros.

Os empregados das agências bancárias do país, que somam mais de um milhão, tiveram um alto nível de participação na greve devido a discordarem dos planos do Governo de abrir o setor, que pertence ao Estado, aos investidores estrangeiros.

Espera-se um grande apoio também dos trabalhadores do transporte e dos serviços públicos, portos, seguros, mineração e metalurgia, telecomunicações e inclusive de empregados de departamentos dos governo central e estaduais.

Os grevistas exigem a instauração de um salário mínimo nacional, contratos de duração indefinida para 50 milhões de trabalhadores temporários, a observação estrita das leis trabalhistas e uma cobertura universal de seguridade social para os trabalhadores do setor informal.

E ainda, a aplicação de medidas concretas para conter o constante aumento dos preços, sobretudo de alimentos e combustíveis, o fim da privatização das empresas estatais e a contenção da corrupção.

"Se o governo não atender estas demandas, depois da greve, vamos intensificar nossos protestos mediante medidas como as greves de fome em massa e outros atos de agitação", advertiu o secretário geral de AITUC, Gurudas Dasgupta.

Fonte: Prensa Latina

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Paulo Vinícius - Ratzinger e o legado conservador que barrou Concílio Vaticano II


  
12 de Fevereiro de 2013 - 0h00

Paulo Vinícius *

Inicia-se a santificação em vida de Joseph Ratzinger e seu gesto de abandonar o papado nos seus provectos 85 anos. Incensado será ao cúmulo por parte da imprensa bandida e de direita.


Para além do que ensaia a imprensa, de equiparar o conclave a uma eleição. Empresta a Estados teologicamente fundamentados- como Israel e o Vaticano - uma legitimidade que não concede jamais a quem não componha o bloco conservador que representa. A notícia ocorrer em pleno carnaval empresta-lhe certo quê de momice, quando vemos desfilar na sapucaí das telas a folia docemente pagã e o olhar contrito, religioso, de uma imprensa venal que troca de fantasia de um quadro a outro, com a mesma versatilidade com que usa conceitos como eleição e papado. Ademais depois do percurso de Ratzinger, feito para concentrar imensamente o poder na Igreja em torno do papa. Então, é preciso entender, para além da ficção do gesto "corajoso" e "desprendido", o que ocorre na Igreja e que legado deixará Bento XVI.

Por isso mesmo, longe de mim cair na análise tosca pura e simplesmente movida por qualquer antipatia ao papa, ou faltar com o respeito devido aos católicos e católicas em sua fé. Há que avaliá-lo como o brilhante político conservador, um dos, senão o maior inimigo da contribuição que João XXIII trouxe à humanidade, a proposta generosa de reforma do catolicismo que visava a abri-lo aos pobres, ao terceiro mundo, ao laicato, o Concílio Vaticano II, que malogrou exatamente graças à reversão laboriosa e persistentemente promovida por figuras como o atual papa, que a isso dedicou nada menos que os últimos 45 anos.

Duvi-de-o-dó que sua saída tenha qualquer razão pastoral desvinculada desse objetivo entranhado que só pôde realizar graças às alianças e à grande perseguição contra todos aqueles ideais de abertura e renovação que embalaram o surgimento da Teologia da Libertação.

A despeito do escândalo de ter sido da juventude hitlerista é, para mim, muito menos grave que tudo que se seguiu. Há que se reconhecer-lhe o legado de ser o extremo oposto de todos a que considero admiráveis no catolicismo, como Dom Hélder Câmara e Dom Pedro Casaldáliga; de lhes ter combatido de todas as formas, numa cruzada quase totalmente exitosa para destruir a Teologia da Libertação. Há que valorar o despudor com que trouxe de volta à Igreja o culto Tridentino - a missa em latim - e, com ela aqueles que acusaram João XXIII de ser nada menos que o anticristo, os seguidores de Dom Marcel Lefebvre e suas sólidas ligações com a direita mais obscura.

Mais que isso, o freio à renovação litúrgica no que ela poderia incorporar das tradições nacionais. Mas não todas, posto que até uma contribuição pentecostal foi aceita, vinda dos EUA, mas com a sólida ressalva de seu caráter conservador para além de qualquer forma.

Nesse zelo seletivo o pontífice não economizou. Uma longa trajetória de expurgo da estrutura eclesiástica de todos aqueles que não defendiam a sua contrarreforma e de promoção das forças obscurantistas que conformaram uma sólida maioria, revertendo as possibilidades de maior participação e colegialidade no interior da Igreja. Ou seja, a reversão de um Concílio - e nunca mais houve outro. E, em seu lugar, o reforço da autoridade máxima do papado, fazendo retroceder qualquer esperança de colegialidade renovadora. Sua idade avançada foi de inteira dedicação à recomposição a dedo e por décadas do cardinalato e do colégio de bispos - no que a longa duração e o conservadorismo de João Paulo II em muito contribuiu.

Em vez do ecumenismo que, no Concílio Vaticano II, predicava serem variados os caminhos à salvação, sob o exemplo do Cristo, mesmo que se o não conhecesse, a reafirmação da Igreja como "o" caminho. O aferrar-se ao celibato e à negação da sexualidade, da diversidade e até da anticoncepção protetora, mesmo ao custo do ignorar a situação epidêmica da AIDS em grandes regiões, em especial as da África.

E o ocultamento - para o que concorreu por décadas - das sevícias que envergonharam fiéis enganados, padres e religiosos vocacionados, e que destruíram inúmeras vidas e famílias sob a complacência criminosa dos Pilatos contemporâneos, que lavaram as mãos como o romano. E já disse Jesus que quem mal fizesse aos pequeninos, a ele fazia.

Mas não há o que conceder ao sumo pontífice? Sim, claro. Seu conservadorismo ilustrado e a determinação férrea de reunir as forças que varreram para as catacumbas os intensos e renovadores ventos que sopravam do Concílio Vaticano II, e a habilidade com que se afasta, em plena potência de sua autoridade, para definir com plena influência o seu sucessor, marcando indelevelmente a face da Igreja por mais de 50 anos, dentro e fora do papado. Ratzinger não é ingênuo. Habilíssimo, assegurará no Conclave o seu legado antirreformista, conservador e de direita, infelizmente.

Mas nem só de Ratzinger vive a Igreja Católica, pois todo credo contém as forças do povo e as da reação. E há muitos que lutam sinceramente sob a cruz. Por isso, sem conceder a quem não merece, é preciso ser-lhes solidário. E lançar a vista sobre o corajoso relato que nos traz o teólogo Hans Küng - perseguido por aquele que fora seu colega no Concílio Vaticano II - e que bem aquilata o real significado de Ratzinger, sob uma mirada católica profunda e crítica:

http://coletivizando.blogspot.com.br/2010/10/quem-e-bento-xvi-epistola-da_1923.html
     
são paulo - SP     * Sociólogo e Bancário, Secretário Nacional de Juventude Trabalhadora da CTB.
  • Infiltração no Vaticano

    12/02/2013 11h18Urge rever a afirmação papal contida em "Nostra Aetae" nº4 em consonância com João 19, 6 a 19. Vale lembrar também, que tanto Bento XVI quanto João Paulo II fizeram vistas grossas ao testemunho oficial da Igreja sobre a existência de crimes rituais, dos quais resultaram na canonização de Santo André de Lucens em 1198; São Domingos de Saragosa em 1250;São Hugo de Lincoln em 1255;São Werner de Wessel em 1286;Santo André de Rinn em 1430; São Simão de Trento em 1475; Santo Nino de la Guarida em 1490; São Joannet de Colônia em 1745.Todos estes santos foram imolados ainda meninos em rituais reconhecidos pelos Papas Sixto XV, Sixto V, Gregório XIII e Bento XIV, os quais relataram em suas Bulas o martírio dessa crianças sacrificadas As obras " O Cristianismo em Xeque", de Sérgio Oliveira" e " Complô contra a Igreja" escrita por um grupo de cardeais e arcebispos, publicada sob o pseudônimo de Maurice Pinay pretendem prevenir a comunidade católica dos riscos que o cristianismo sofre.
http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=5113&id_coluna=30

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Crise: ONU alerta para grave recessão e aumento do desemprego



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17 DE JANEIRO DE 2013 - 8H04 

Crise: ONU alerta para grave recessão e aumento do desemprego


Em alerta divulgado nesta quarta-feira (16), a Organização das Nações Unidas (ONU) externou sua preocupação com o “grave risco de nova recessão”. De acordo com a ONU devem ser adotadas medidas de combate ao aumento do desemprego no mundo.



Baseada eminformações da pesquisa denominado 'Situação e Perspetivas da Economia Mundial 2013', o Órgão externou que as perspectivas são influenciadas pelos impactos da crise econômica internacional em vários países.

Em pronunciiamento à imprensa internacional, o diretor do estudo, Rob Vos, disse que o aprofundamento da crise na zona do euro -  que é composta por 17 países -, a ampliação do abismo do Orçamento nos Estados Unidos e um recuo da economia chinesa poderão causar nova recessão global. Segundo ele,  "cada um desses riscos poderá resultar em perdas produtivas globais entre 1% e 3 %".

A ONU estima um crescimento na zona do euro de 0,3 % em 2013 e de 1,4 % em 2014; nos Estados Unidos, de 1,7 % em 2013 e de 2,7 % em 2014; no Japão, de 0,6 % este ano e de 0,8 % no próximo; e na China, de 7,9 % em 2013 e de 8 % em 2014.

Medidas de austeridade

A ONU ainda criticou as políticas econômicas baseadas em medidas de austeridade fiscal. Para o Órgão tais medidas não são suficientes para recuperar a economia e conter a crise do emprego. “Apesar de os esforços terem sido significativos, especialmente na zona do euro, a combinação de austeridade no Orçamento e de políticas monetárias expansivas teve um êxito desigual”, destacou Vos.

De acordo com o estudo, a estratégia deve ser alterada na tentativa de adotar ações coordenadas com políticas de criação de emprego e de crescimento sustentável. “A economia mundial enfraqueceu consideravelmente em 2012. [A perspectiva é que se mantenha] deprimida nos próximos dois anos”, com a previsão de crescimento de 2,4 % para 2013 e de 3,2 % para 2014”, diz o relatório.

Com informações da Agência Brasil


Alemanha: queda na economia é novo golpe para eurozona


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17 DE JANEIRO DE 2013 - 15H22 
Zona do euro
  

Alemanha: queda na economia é novo golpe para eurozona


A contração econômica da Alemanha no último trimestre de 2012 e a redução oficial das projeções de crescimento para este ano são um novo golpe para a zona do euro. Segundo o Escritório Federal de Estatísticas da Alemanha a contração foi de 0,5%. Segundo o Banco Central alemão, a economia crescerá 0,4% este ano, muito menos do que o 1,6% previstos. A crise dos países do sul da zona do euro está alcançando a Alemanha. 

Por Marcelo Justo, de Londres


Na primeira metade do ano passado o crescimento alemão evitou uma recessão do conjunto da eurozona. É óbvio que as coisas estão mudando. A crise dos países do sul da zona do euro está alcançando a Alemanha e apagando a ilusão de um desacoplamento graças à mítica eficiência produtiva germânica. Em 2009, a Alemanha sofreu uma contração de 5% como consequência da crise mundial, mas em 2010 e 2011 teve uma rápida recuperação com um crescimento de 4,2% e 3% respectivamente. A queda foi abrupta na segunda metade do ano passado e deixou o Produto Interno Bruto (PIB) alemão com um anêmico aumento de 0,7%. Em declarações ao Financial Timesnesta quarta-feira (16) o presidente do governo da Espanha, mariano Rajoy, que aceitou o plano de ajuste em seu país, pediu às nações credoras da eurozona que ponham em marcha políticas de estímulo ao crescimento. “Este é o momento de colocar em marcha essas políticas. Está claro que não se pode pedir a Espanha que adote políticas de expansão, mas sim aos países da zona do euro que estão em condições de fazê-lo”, afirmou.

Um dado deveria favorecer esta mudança. Segundo o mesmo Escritório de Estatísticas, a Alemanha obteve um superávit fiscal de 0,1%, o primeiro desde 2007. Mas o ministro de Finanças alemão, Wolfgang Schauble reafirmou, na terça-feira (15), a posição de austeridade de seu governo.

As duas eurozonas

Desde o estouro da crise da dívida na Grécia em 2010, a zona do euro vem apresentando uma história de realidades paralelas. Enquanto os PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha) afundavam na recessão, a Alemanha, segundo exportador mundial depois da China, crescia graças a suas vendas ao exterior. Segundo Marie Dirone, economista sênior da consultora internacional Ernest and Young, os novos dados provam que a Alemanha não pode se desvencilhar do destino de seus vizinhos. “Durante um certo tempo causou assombro a capacidade alemã para resistir à debilidade do sul da Europa com a diversificação de suas exportações para a China e outros mercados emergentes. Está claro que isso tem limites. A Alemanha está sentindo a queda da demanda nos outros países da zona do euro”, disse.

Não chega a surpreender. A metade das exportações alemãs tem como destino os países da zona do euro. O dado se reflete nas estatísticas oficiais. O setor exportador, que representa mais da terça parte do PIB alemão, sofreu uma queda abrupta no último trimestre do ano passado. Esta queda arrastou a zona do euro que terminou 2012 em recessão (dois trimestres consecutivos de contração).

Os novos dados oficiais mostram também que o euro segue sofrendo do desequilíbrio estrutural entre economias muito distintas, o que vem colocando em perigo o projeto da moeda única europeia. Entre Alemanha ou França e Grécia ou Portugal sempre houve um abismo de produtividade e competitividade. Estas diferenças não eram incorrigíveis. No coração do projeto pan-europeu estava a ideia de homogeneizar economias diversas por meio do investimento público nas zonas mais atrasadas.

Mas o euro nasceu em meio à grande festa financeira. Graças à moeda única, os países da periferia, os PIGS (Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha), tiveram uma taxa de juro muito baixa que financiou bônus de investimento e consumo pagos com um crescente endividamento. O resultado foi que os países do norte europeu exportaram e os do sul consumiram com base em um déficit de conta corrente. O ajuste decidido pelo governo alemão socialdemocrata de Gerhard Schroeder em 2003 aprofundou o desequilíbrio: os salários alemães tiveram uma estagnação relativa aos do Sul que encareceu os produtos que vinham dos PIGS.

O ajuste unidimensional

Segundo uma escola de pensamento, sendo a zona do euro uma unidade, o desequilíbrio não deveria importar tanto: a queda de uma região seria compensada pelo crescimento de outra. Mas o especialista alemão da London School of Economic, Henning Meyer, opina que a unidade da zona do euro é uma ficção sem mecanismos concretos que compensem os desequilíbrios. “A zona do euro não tem transferências fiscais que compensem a queda de uma região. E a política que está sendo impulsionada no conjunto da região é exatamente a contrária a um mecanismo desta natureza. Há um ajuste assimétrico pelo qual os países que têm déficit estão adotando políticas recessivas enquanto que os países que apresentam superávit não estão adotando políticas expansivas”, disse Meyer.

A chanceler alemã Angela Merkel é a grande papisa da austeridade na zona do euro em meio a uma contração que começa a afetar os interesses do poderoso setor exportador alemão. Estes programas de ajuste, que o jornal espanhol El País batizou como “austericídio”, são uma corda no pescoço que o governo alemão segue apertando. É preciso reconhecer que o fundamentalismo alemão é coerente. Há duas semanas, o ministro de Finanças, Wolfgang Schauble assinalou que a própria Alemanha necessita de um ajuste fiscal.

Isso dependerá muito do que ocorrer com sua economia. O fantasma que começa a rondar entre os analistas é a possibilidade de uma recessão alemã. A este fantasma econômica se somam as eleições de setembro, nas quais a chanceler Merkel tem que renovar seu mandato. “A Alemanha tem vivido em um mundo paralelo no qual a crise da zona do euro era uma coisa que se via pela televisão. Se a economia alemã se deteriorar, isso pode ter um forte impacto no resultado das eleições, na política adotada e no conjunto da eurozona”, disse Meyer.

Fonte: Carta Maior