A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Paul Krugman: Secas, inundações e alimentos

Economia

Vermelho - 16 de Fevereiro de 2011 - 9h46
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Estamos em meio a uma crise mundial de alimentos -- a segunda em três anos. Os preços mundiais dos alimentos bateram recordes em janeiro, propelidos pelas fortes altas nos preços do trigo, milho, açúcar e óleos.


Por Paul Krugman*, na Folha de S.Paulo

Essa disparada de preços exerceu efeito apenas modesto sobre a inflação dos Estados Unidos, que continua baixa sob os padrões históricos, mas tem impacto brutal sobre os pobres do planeta, que gastam a maior parte de, se não toda, sua renda na compra de alimentos básicos.

As consequências desse crise alimentar vão bem além da economia. Afinal, a grande questão sobre os levantes contra regimes corruptos e opressivos do Oriente Médio não é tanto que eles estejam acontecendo, mas por que estão acontecendo agora. E não resta muita dúvida de que os preços extremamente altos da comida foram um dos gatilhos importantes para que a raiva do povo fosse deflagrada.

Assim, o que está por trás do salto nos preços? Os direitistas dos Estados Unidos (e os chineses) imputam a culpa à política monetária frouxa do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), e pelo menos um comentarista declarou que "Ben Bernanke tem sangue nas mãos". Enquanto isso, o presidente francês Nicolas Sarkozy atribui a culpa aos especuladores, acusando-os de "extorsão e pilhagem".

Mas as provas apontam para uma história diferente e muito mais ameaçadora. Embora diversos fatores tenham contribuído para a disparada nos preços dos alimentos, o que realmente se destaca é até que ponto eventos climáticos severos prejudicam a produção agrícola. E esses eventos climáticos severos são exatamente a espécie de coisa que devemos esperar com as mudanças que a concentração cada vez maior de gases causadores do efeito-estufa causa em nosso clima -- o que significa que a atual disparada no preço dos alimentos pode ser apenas o começo.

É preciso considerar que, em certa medida, a disparada nos preços dos alimentos é parte de um "boom" geral no preços das commodities: os preços de muitas matérias-primas, do alumínio ao zinco, vêm crescendo rapidamente desde o começo de 2009, em larga medida devido ao crescimento industrial rápido dos mercados emergentes.

Mas a conexão entre crescimento industrial e demanda é muito mais clara para, digamos, o cobre do que para os alimentos. Exceto nos países muito pobres, a alta na renda não exerce grande efeito na maneira de comer das pessoas.

É fato que o crescimento em países emergentes como a China leva a um consumo maior de carne bovina e portanto a uma demanda mais elevada por ração animal. Também é fato que as matérias-primas agrícolas, especialmente o algodão, disputam terras e outros recursos com as safras alimentícias -- e o mesmo pode ser afirmado sobre a produção subsidiada de álcool combustível, que consome muito milho. Com isso, tanto o crescimento econômico quanto políticas de energia incorretas exerceram certa influência sobre a alta nos preços dos alimentos.

Ainda assim, eles se mantiveram mais baixos que os preços de outras commodities até a metade do ano passado. E então o tempo começou a piorar.

Considere o caso do trigo, cujos preços quase dobraram desde a metade do ano passado. A causa imediata do salto nos preços do trigo é evidente: a produção mundial do cereal caiu acentuadamente. E a maior parte dessa perda de produção, de acordo com dados do Departamento da Agricultura norte-americano, ocorreu nos países da antiga União Soviética. E sabemos o motivo: uma onda recorde de calor e seca, que levou as temperaturas de Moscou acima dos 38 graus pela primeira vez na história.

O calor na Rússia foi apenas um dos muitos eventos climáticos extremos registrados recentemente, da seca no Brasil a inundações de proporções bíblicas na Austrália, e todos eles prejudicaram a produção mundial de alimentos.

A questão passa a ser, portanto, o que explica esse clima extremo.

Em certa medida, estamos diante dos resultados de um fenômeno natural, "La Niña" -- um evento periódico que surge quando as águas do Oceano Pacífico ficam abaixo de sua temperatura normal. E eventos "La Niña" estão historicamente associados a crises mundiais de alimentos, entre as quais a de 2007--2008.

Mas isso não explica tudo. Não se deixe enganar pela neve: 2010 empatou com 2005 como o ano mais quente de todos os tempos, ainda que tenhamos passado por um mínimo solar e "La Niña" tenha sido um fator de refrigeração na segunda metade do ano. Recordes de temperatura foram batidos não apenas na Rússia como em 19 outros países, que respondem por um quinto da área terrestre do planeta. E tanto secas quanto inundações são consequências naturais de um mundo em aquecimento: as secas surgem porque a temperatura está mais alta, e as inundações porque os oceanos aquecidos liberam mais vapor de água.

Como sempre, não se pode atribuir diretamente um evento climático aos gases do efeito-estufa. Mas o padrão que temos visto, com altas extremas e clima extremo se tornando mais comuns de modo generalizado, é exatamente o que se poderia esperar em uma situação de mudança climática.

Os suspeitos usuais, é claro, enlouquecem diante de quaisquer sugestões de que o aquecimento global tenha relação com a crise dos alimentos; aqueles que insistem em que Ben Bernanke tem sangue nas mãos tendem a ser mais ou menos as mesmas pessoas que insistem em que o consenso científico sobre o clima representa uma vasta conspiração de esquerda.

Mas os indícios de fato sugerem que o que estamos vendo agora é o primeiro sinal das perturbações econômicas e políticas que teremos de enfrentar em um planeta em aquecimento. E porque não conseguimos agir para limitar os gases causadores do efeito-estufa, esse tipo de coisa acontecerá com muito mais frequência, e com muito mais gravidade, no futuro.

* Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia (2008), colunista do "The New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros.

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sábado, fevereiro 06, 2010

Paulo Nogueira Batista Jr.: Ajuda ao Haiti ou colonização?

Economia

Vermelho - 4 de Fevereiro de 2010 - 13h04

Haiti: ajuda ou recolonização?

O Haiti tem um governo democraticamente eleito. Precisa de ajuda -e não de ser ocupado militarmente


Por Paulo Nogueira Batista Jr., no jornal
Folha de S. Paulo

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No final do artigo da quinta passada, relatei a visita que fiz a uma escola para crianças "restavec" em Porto Príncipe dois meses antes do terremoto. As famílias muito pobres, expliquei, mandam crianças pequenas ficar com ("reste avec!") outras famílias. Essas crianças sofrem maus-tratos, viram empregados, quase escravos. E perguntava: onde estarão essas crianças agora? Pois a maioria das escolas da capital fora destruída.
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Bem. A embaixatriz do Brasil no Haiti, Roseana Kipman, que está muito envolvida em projetos sociais, me escreveu contando que a escola que visitei, mantida por freiras latino-americanas, sofreu relativamente pouco. Houve feridos, alguns graves, mas "nenhum dos nossos "restavecs" morreu", contou a embaixatriz. Fiquei comovido com o e-mail dela. Vou fazer o possível para voltar em breve ao Haiti para ver a situação com os meus próprios olhos.
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Mas não era sobre as crianças haitianas que pretendia escrever hoje, e sim sobre algumas consequências políticas do terremoto, cujo epicentro foi muito próximo da capital. Primeira consequência: depois do terremoto, os EUA, com o propósito de socorrer a população, enviaram milhares de soldados para o país. Segunda: a catástrofe abalou gravemente o governo haitiano e as demais instituições do país. Criou-se, afirma-se, um "vácuo de poder".
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Alguns se apressam a ocupar esse suposto vácuo. Em órgãos influentes da imprensa anglo-americana, aparecem reportagens e editoriais sugerindo que o Haiti não tem mais como se autogovernar. O "New York Times" publicou extensa reportagem sustentando que o presidente do Haiti "não está à altura da situação", com base em comentários "off the record" de funcionários dos Estados Unidos e das Nações Unidas. O presidente Préval é apresentado com um homem "quebrado" e "desorientado".
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A revista inglesa The Economist foi mais longe. Em arrogante editorial, decretou que o governo haitiano não tem condições de reconstruir o país e recomendou a criação de "uma autoridade temporária com amplos poderes para agir". Segundo a revista, essa autoridade deveria ser estabelecida sob auspícios da ONU ou de um grupo "ad hoc", que poderia incluir EUA, Canadá, União Europeia e Brasil. Supremo ridículo: a revista sugere que Bill Clinton seria a pessoa ideal para dirigir esse governo estrangeiro, talvez seguido por Lula depois que o presidente brasileiro concluir seu mandato!
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As pessoas parecem esquecer que o Haiti tem um governo democraticamente eleito, que deve ser respeitado. O Haiti precisa de ajuda -e não de ser ocupado militarmente e administrado de fora para dentro. Uma das grandes preocupações do governo dos EUA, como mencionou Monica Hirst em artigo publicado nesta Folha, é com o risco de um êxodo migratório haitiano.
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Poucos dias depois do terremoto, embora não houvesse sinais de haitianos tentando fugir da ilha por barco, um avião da força aérea dos EUA, equipado com rádio transmissores, passou a sobrevoar diariamente o país com uma mensagem gravada pelo embaixador do Haiti aqui em Washington: "Não se apressem a deixar o país. Se vocês pensam que chegarão aos EUA e todas as portas estarão abertas, vocês estão enganados. Vocês serão interceptados no mar e enviados de volta para casa". 
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  • Por que ocupar militarmente uma terra devastada?

    05/02/2010 0h28
    O artigo aponta para algo que vem sendo dito por Fidel já há algum tempo. O que mariners assassinos fazem em uma campanha humanitária??? Mais intrigante é ver o mapa geopolítico que se traça. Afinal de contas, o que há de interesse americano em ocupar aquele país devastado? Ora, olhar o mapa é bom: veja que se tem uma linha muito nítida entre Honduras e Haiti. Será que os EUA se cansaram de instalar suas fronteiras apenas no México? Será que estão avançando para o Sul, onde se tem descoberto riquezas naturais fundamentais???
    Silvio
    São Paulo - SP
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sábado, janeiro 23, 2010

O lado de Judas - Sidnei Liberal *



 

Colunas

Vermelho - 27 de Outubro de 2009 - 0h01

O lado de Judas

Sidnei Liberal *

Longos anos se passaram para que a Folha de S Paulo admitisse, como admitiu em editorial, nesta sexta-feira, que “gerência técnica, tática de alianças, governabilidade. A política como ‘arte do possível’. Conceitos e lemas desse tipo fixaram-se, ao longo do tempo, como ingredientes típicos da retórica e da prática tucanas”. A afirmação, como se vê, é parte de uma análise bastante retardada em honra da verdade.

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A afirmação, como se vê, é parte de uma análise bastante retardada em honra da verdade. Essa e muitas outras deixaram de ser ditas em tempo real, para não contrariar interesses do próprio jornal.
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No preâmbulo de mais essa manifestação política, o jornal admite que “no governo FHC, o tema da ‘modernização’ do Estado brasileiro nunca representou empecilho para que se fizessem alianças com o que sempre existiu de mais arcaico e oligárquico na política brasileira. Muda o presidente, muda o partido, mas não se altera a tolerância com o patrimonialismo e com o atraso”. E admite que Lula tem razão ao dizer que não se governa no Brasil “fora da realidade política”: “Ninguém diria o contrário”, diz a Folha.
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Entretanto, o editorialista cobra do presidente sua promessa de mudar essa realidade política: “A política não é apenas ‘a arte do possível’, como dizia Fernando Henrique Cardoso – mas a arte de ampliar esses limites”, diz o jornal. E coloca nas mãos do núcleo no poder a responsabilidade por uma reforma política, fiscal ou previdenciária, pendentes há décadas. Como se a Folha não soubesse muito bem que cada feudo de poder – econômico, grupal, familiar, político – quer um modelo de reforma que lhe beneficie.
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Grupos poderosos, como os do agronegócio, das comunicações, das altas finanças, conseguem até ocupar altos postos de comando nos ministérios da Agricultura e da Comunicação, Banco Central, a garantir a manutenção histórica do patrimonialismo oligárquico e do arcaísmo, ora condenados pela Folha. Ela mesma uma legítima representante desses grupos, pouco ou nada interessados em mudança. A não ser para manutenção dos seus próprios privilégios. Nunca para promover mais democracia.
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A reforma que interessa à Folha e à mídia, legítimas representantes das oligarquias, não é a mesma que interessa à sociedade como um todo. Mais do que a reforma agrária, que democratize o acesso à terra, prefere-se a demonização dos movimentos sociais. Mais do que os investimentos em políticas sociais, que elevem o perfil distributivo, melhor condenar os “gastos do governo”. A mídia jamais concordará em discutir um modelo voltado ao direito à comunicação ou à democratização dos meios de comunicação.
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(Em face de repetidas demonizações dos movimentos sociais pelos inimigo da reforma agrária, circula pela internet um Manifesto em Defesa do MST (1), subscrito por intelectuais, movimentos sociais, personalidades. O manifesto mostra os interesses por trás da desestruturação dos movimentos pela reforma agrária no Brasil. Como o agronegócio, que quer impedir a revisão dos índices de produtividade agrícola, que estabelece as bases da produtividade da terra no Brasil e favorece a reforma agrária).
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Em vez de preservar o meio-ambiente, o conservadorismo opta por ampliar a fronteira agrícola, o desmatamento. Mais do que discutir a violência ligada ao trafico de drogas e ao alcoolismo, melhor aliar-se aos anunciantes de bebidas. Mais que uma reforma previdenciária que garanta justos direitos de cobertura, prefere-se mitificar o “déficit da previdência”. Reforçando à avidez dos grandes bancos que bancam a previdência privada. A depender da Folha, pois, longe está a ampliação da “arte do possível”.
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É hilário, como se vê, o movimento da mídia brasileira e dos partidos de oposição a condenar o pragmatismo do governo diante da realidade brasileira que transforma a política como a “arte do possível”, que todos praticaram, sem o menor interesse na “arte de ampliar esses limites”. Todos os políticos hoje levados à execração pública foram sempre aliados e úteis aos que hoje os querem condenar. A Folha de S Paulo, a mídia brasileira, deve à sociedade uma análise, isenta de hipocrisia, sobre a fisiologia e o atraso em nossa política.
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Nota
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(1) adesões podem ser feitas no endereço: http://www.petitiononline.com/boit1995/petition.html

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* Médico, membro da Direção do PCdoB – DF
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* Opiniões aqui expressas não refletem necessáriamente as opiniões do site.
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domingo, dezembro 27, 2009

Indústria farmacêutica incentiva "memória fraca" no jornalismo brasileiro, por Gustavo Barreto



Por Revista Consciência.Net em 30/05/2009
Por Gustavo Barreto (*), da redação
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O jornal Folha de S. Paulo está selecionando projetos de pesquisa sobre a história do jornalismo brasileiro. O programa “Folha Memória” selecionará três projetos de pesquisa e premiará seus autores com uma bolsa de R$ 2.300 mensais.
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“Nos seis meses em que receberão essa ajuda de custo, os candidatos selecionados deverão conduzir sua pesquisa com rigor acadêmico e transformá-la em um texto de interesse geral e caráter jornalístico. Eles serão orientados por um jornalista da Folha. O melhor dos três trabalhos será publicado em livro editado pela Publifolha, e seu autor ganhará um laptop.” (Anúncio em uma escola de comunicação no Rio)
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O curioso é que o patrocínio é da maior transnacional farmacêutica do planeta, a Pfizer. A participação também se dá na avaliação de conteúdo: sempre que há alguma, também está presente um representente da “Comunicação Corporativa da Pfizer”. Para avaliar, lembremos, projetos sobre… a história do jornalismo. Imagino que a Folha entenda haver um campo integrado de estudo entre comunicação corporativa e história do jornalismo. Ou se venderam mesmo.
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E se o projeto em análise for sobre jornalismo científico e os malefícios dos laboratórios privados para o sistema de saúde global? A Organização Mundial de Saúde (OMS) está em pé de guerra com os laboratórios privados há um tempo, pois estes não compartilham informações básicas sobre o desenvolvimento de vacinas ou medicamentos. Isso prejudica centenas de países que precisam destes dados para resolver problemas fundamentais, já superados pelos países desenvolvidos. É a velha questão da troca que benefício todos versus o conhecimento proprietário.
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Na outra ponta, dos doentes “ricos”, produzem remédios que “viciam” o organismo, de modo que a cada dois anos os remédios de ponta precisam ser refeitos. Fui a um evento sobre antimicrobianos, em 2008, em que uma pesquisadora da UERJ comentava que uma bactéria estava tão dependente de um determinado antibiótico que, sem o uso deste, acabava morrendo (!).
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Em 2007, já havia comentado que os programas de treinamento em jornalismo dos dois maiores jornais de São Paulo – Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo – eram patrocinados pela indústria do tabaco (e ainda são), e como isso influenciava na hora de decidir o que é notícia ou não, ou o que ganhará destaque ou não. Lembre-se que esta é a mesma indústria que, segundo a OMS, “continua a colocar os lucros à frente da vida; sua própria expansão antes da saúde das futuras gerações; seus ganhos econômicos à frente do desenvolvimento sustentável dos países”. (Leia aqui o artigo, republicado pela Associação Mundial Antitabagismo)
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O jornal Estadão, além de ter apoio da gigante do tabaco Philip Morris, também é apoiado financeiramente neste programa pela Vivo, uma das teles que sofre centenas de ações civis públicas no Ministério Público por não atender minimamente seus clientes, a ponto de todo mundo (mesmo) já ter passado, com uma ou mais operadoras, por problemas absolutamente ridículos de falta de respeito e completo desprezo pelo consumidor. No meu caso, já tive cancelamento indevido, tributação inexistente e até mesmo o Ministério Público Federal de Minas Gerais já entrou com uma Ação Civil Pública a partir de uma carta aberta que escrevi em 2004 (aqui e aqui), conforme me informou a assessoria do MPF em Minas.
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Será que se eu usar o “rigor acadêmico” para elaborar um projeto de memória do jornalismo independente, nesse caso, eles me aprovam?
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Isso é grande imprensa, vendida pra quem puder pagar mais. No caso “Folha Memória”, sugiro aos candidatos investigar denúncias de cobaias humanas na África, que de vez em quando vazam na mídia global (como no caso das mais de 100 crianças mortas na Nigéria, leia aqui), fato que originou o filme “O Jardineiro Fiel” (The Constant Gardener, 2005), baseado em fatos documentados amplamente pela organização Médicos Sem Fronteiras à época. Empresa responsável pelos “testes em humanos”: Pfizer.
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Será que a Folha acompanha o caso? E sobre a atuação dos laboratórios na África?
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Infelizmente, mais uma vez, comprovamos que, em termos de grande mídia, o patrocínio se torna promiscuidade de interesses. Em abril deste ano (de 2009 mesmo, acredite), saiu uma indenização (ou seja, 13 anos depois) do caso e a briga não acabou nos EUA. O The Independent da Inglaterra deu (leia aqui, em inglês, ou num jornal de Portugal, aqui), mas como nós não temos um jornal ou telejornal chamado “O Independente” e nem algo parecido – apenas a dependente Folha, a dependente Globo, o dependente Estadão etc -, ninguém fica sabendo disso. Não é manchete.
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A matéria do diário britânico é de 6 de abril, sendo que no dia 10 de abril (4 dias depois), a única citação que há na Folha para a palavra “Pfizer” é sobre o mercado de medicamentos genéricos:

3. Folha de S.Paulo – Sanofi compra Medley e vira líder no país – 10/04/2009
… doenças que afetam a maior parte da população. Um deles é o Liptor, da Pfizer, que combate o colesterol. “O mercado de genéricos deve sofrer um aquecimento com o vencimento …
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1004200922.htm

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Nem a Folha Online nem o jornal Folha de S. Paulo deram a notícia. Matar crianças na África não deve ser, mesmo, de interesse público, na cabeça dos ilustres editores. E os demais membros do corpo editorial da Folha devem estar se perguntando por que esse assunto não foi pauta por lá. Um mistério editorial.
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O “rigor acadêmico” do edital de apoio à “memória do jornalismo” da FSP/Pfizer depende, ao que se vê, de uma seleção rigorosa pra escolher estudantes que não questionem essas bobagens, como fazer de crianças africanas no norte da Nigéria cobaias humanas. Ou selecionar quem tem memória fraca.

(*) Gustavo Barreto é pós-graduando na UFRJ, foi repórter na Fiocruz e é assessor de imprensa na área de Saúde Pública. Editor de meios alternativos na mídia livre.