A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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sábado, abril 19, 2008

Letícia desvenda movimento sufragista das índias yawanawa

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Letícia Yawanawa, da aldeia Mutum da Terra Indígena Rio Gregório, no Acre, retrata uma realidade indígena bastante dinâmica ao dar entrevista ao Vermelho na véspera deste 19 de abril. Nada está parado no tempo, como uma certa visão ingênua da questão indígena tenta fazer crer. Por exemplo: direitos das mulheres. No povo de Letícia, os yawanawas, agora as mulheres já podem votar, ser votadas e liderar comunidades. Duas delas, Rusharu e Putanin, chegaram até a condição de pajés, coisa inimaginável nas gerações passadas.


Por Bernardo Joffily



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Letícia: "A gente faz força para ter qualidade"
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Letícia fala com conhecimento de causa: militante do Movimento de Mulheres Indígenas do Acre, já percorreu o Brasil como Organização de Mulheres Indígenas e é uma feminista engajada: "Mesmo respeitando a nossa cultura, nós, mulheres indígenas, temos que lutar. Às vezes a gente vai devagar, para respeitar a cultura. Mas no nosso povo os homens líderes podem ter várias mulheres, mas as mulheres líderes não podem ter vários maridos", reclama.


"Ela já pisou no terreiro mais sagrado"


Para se ir de Rio Branco à aldeia Mutum leva uma hora de avião, até Tarauacá, mais uma de carro, até as margens do Rio Gregório, e quatro dias de barco. Mutum não tem luz elétrica, "é tudo com lamparina", o Programa Luz para Todos não chegou ali, continua a ser "um grande sonho". Mas outras coisas chegaram, inclusive em comunidades yawanawas ainda mais distantes, a 10 e até 14 dias de viagem rio acima.


O voto feminino é uma dessas novidades. "Antigamente a mulher não podia votar, só os homens. Nossos ancestrais diziam que mulher não pode pisar na flexa, na lança, porque ela engravida e menstrua", relata Letícia. Mas de 2004 para 2005 isso mudou. E, para Letícia, "é o maior exemplo na história do nosso povo".


"Na minha aldeia, a líder é uma mulher. Ela já pisou no terreiro mais sagrado [privilégio dos pajés] e já comeu a batata mais sagrada, que antes uma mulher não podia nem ver", relata. Letícia grarante também que "hoje os homens apóiam" essa conquista do sufragismo talvez desconhecida do movimento feminista em geral.


"Um povo pequeno mas está crescendo"


O povo yawanawa, da família pano, só existe em Tarauacá e hoje é formado por pouco mais de 800 pessoas e seis comunidades. Ali "ainda tem precariedade de saúde", conta Letícia. Há alguns agentes indígenas de saúde, mas "é uma luta do povo yamanawa para formar os seus próprios jovens". Ela conta que "tem crianças que morrem, porque a Funasa tem feito muito pouco", mas "os pajés curam com a medicina tradicional" e "também tem nascido bastante criança".


Com isso, "é um povo pequeno mas está crescendo", orgulha-se a líder feminina. Com 40 anos de idade, ela mesma tem três filhos e uma filha. Mas não ache que isto tenha sido uma grande contribuição, pois uma "verdadeira mulher guerreira" yamanawa tem 12 ou até 14 filhos.


Novo tratamento a araras e tracajás


Outra questão é defender a cultura yamanawa. "Nós somos pequenos, somos poucos, mas a gente faz força para ter qualidade", explica ela. "Se nasce um menino yamanawa o pai tem a responsabilidade de ensinar para ele ser um futuro guerreiro e caçador. A mesma coisa com a menina. Tem que aprender a língua, a cultura, os costumes", diz ela. Letícia esclarece ainda que também há nesse currículo uma disciplina sobre "a cultura do não-indígena".


Defender, porém, não é petrificar. Os yamanawas são famosos por suas pinturas corporais com o vermelho vivo do urucu, e também por "aqueles cocares lindos", mas já não caçam araras e outros pássaros para usar suas penas. Agora, criam as araras na aldeia, e tiram as penas poupando a vida do pássaro.


Outra mudança recente foi a proibição de caçar tracajá – a tartaruga amazônica de água doce, de carne apreciadíssima. "Um tempo atrás teve uma reunião das aldeias para explicar: se caçar demais, acaba o tracajá. Estava em extinção. Então, há dois anos não caçamos mais tracajá", conta Letícia.


Esses exemplos contrariam a visão estereotipada de que as culturas indígenas são coisas imóveis, petrificadas, e quando se movem é por influência da "civilização". Isso é falso. Os yamanawas, como os demais povos indígenas, e qualquer outro povo sobre a face da Terra, são culturas vivas e portanto em permanentes transformações. Uma parte delas se deve à troca cultural com outros povos, mas a a essência transformadora vem da própria dinâmica cultural interna.


População indígena cresceu 7 vezes em 50 anos


No capítulo das trocas culturais, os yamanawas plantaram a sua primeira safra de profissionais de nível universitário. Letícia tem seu filho mais velho, de 23 anos, estudando Gestão Ambiental e o segundo, de 20, na Escola de Enfermagem. Outros três yamanawas cursam Direito, Serviço Social e Ciências Sociais, todos em Rio Branco.


"A gente espera que vai dar certo", diz Letícia. Mas afirma que os cinco "estão fazendo um sacrifício" e "nas férias vão todos para a aldeia".


Graças a esta dinâmica – em parte aprendida de fora mas também desenvolvida a partir da sua própria experiência – a população indígena brasileira deixou de se reduzir e está crescendo mais depressa que a média nacional. O fundo do poço aconteceu por volta de 1950, quando os indígenas chegaram a cerca de 100 mil, depois de terem sido em torno de 5 milhões, conforme as estimativas, quando teve início a conquista européia. Mas no Censo de 1991 o IBGE contou 294 mil índios, e no de 2000 o número saltou para 734 mil, inclusive, acredita-se, porque uma parcela dos habitantes do país, que antes não se auto-identificava como indígena, passou a fazê-lo.

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in Vermelho - 18 DE ABRIL DE 2008 - 19h45

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quinta-feira, outubro 18, 2007

Ciganos discriminados em bairro só para eles

CM pela inclusão: Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza - 17 de Outubro
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* Cátia Vicente, Leiria

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Em jeito de aviso, no início da única rua que dá acesso ao bairro social Margens do Arunca – criado para a comunidade cigana de Pombal, que antes vivia em barracas – está uma placa que indica tratar-se de um troço sem saída. Lá dentro, é assim que se sentem os moradores, chegados no início de Setembro.

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“Estamos isolados. Fizeram-nos aqui uma jaula, mas nós não somos animais!” As palavras magoadas são de Nádia Ramos, de 24 anos. Fala de “racismo” com revolta enquanto conta que “quem não tem carro não consegue sair” do bairro. “Quando o meu marido não está, não posso sair daqui e a minha filha, de oito anos, também não pode ir à escola. Eu vivia numa barraca, mas tinha tudo à mão, agora tenho uma casa impecável, mas se me acontecer alguma coisa morro aqui sem socorro”, assegura a jovem mãe.

Além de viverem num bairro de uma única etnia, e isso só por si lhes parecer “discriminatório”, os moradores de Margens do Arunca viram ser fechado um túnel que “em cinco minutos” os ligava à cidade. São agora “obrigados a andar cinco quilómetros em vez de 500 metros”, ou a atravessar a “perigosa” Estrada Nacional 1 (EN1/IC2), sempre que pretendem ir às compras, à escola e ao café.

O terreno onde foi construído o novo bairro – que teve um custo de três milhões de euros, comparticipados em 50 por cento pelo Instituto Nacional da Habitação e da Reabilitação Urbana – foi doado pelos promotores de uma urbanização que fica do outro lado do túnel. Uma das condições impostas foi precisamente o encerramento da passagem .

“Se passássemos por lá, não pegávamos nada a ninguém”, diz Manuel Cigano, trajado de negro e com um sorriso escondido debaixo do chapéu. “Estamos numa época em que temos que conviver uns com os outros, sejam de que raça forem”, sustenta, sem deixar de sublinhar que “as casas são muito boas e o bairro muito bonito”.

Para Nádia, a “melhor solução” era “uma passadeira com semáforos” na EN1, já que “uma passagem aérea fica muito cara”. “Só nos falta a terra por cima para ficarmos numa cova”, garante Elisa Gracias, 50 anos, que diz nunca ter sentido como agora o peso do isolamento. “Devia ao menos haver um transporte que viesse buscar as crianças para a escola”, insiste.

A Câmara Municipal de Pombal defende-se, dizendo que até ao final do ano estará pronta uma ponte – que ligará o bairro não à cidade, mas sim à zona industrial. Mas a ponte que esta comunidade quer atravessar é a da exclusão e essa não é feita de betão.

TRÊS PERGUNTAS A D. MANUEL MARTINS (Bispo emérito de Setúbal)


- Os bairros uni-étnicos favorecem as tradições?

- Qualquer pessoa evoluída condena essa solução. Não é esse o caminho da Humanidade e dos Direitos Humanos. O mesmo vale para os bairros sociais e das classes desfavorecidas.

- É o estigma de quem lá mora que está em causa?

- É o estigma de quem lá mora que está em causa?

- E as tradições?

- Devem ser respeitadas, mas não é preciso arrumar as pessoas em guetos.

REACÇÕES

"A INTEGRAÇÃO DEPENDE DELES" (Cidália Neves, 45 anos)

“Num bairro só para eles, os ciganos ficaram mais isolados e assim têm mais dificuldades em integrar-se. Foram postos um bocado à parte mas a integração também depende deles e das atitudes que tiverem.”

"SÃO FAMÍLIAS PROBLEMÁTICAS" (Jorge Jesus, 70 anos)

“Por um lado, acho que eles devem estar num bairro só de etnia cigana porque são famílias que dão problemas e em conjunto entendem-se melhor. Por outro, não deviam estar tão isolados, mas onde estavam também não tinham condições.”

"GOSTAM DE TER O CANTO DELES" (Leila Prates, 39 anos)

“As barracas onde eles estavam davam um ar muito feio à cidade, e assim eles estão melhor. Embora não conheça muito bem a comunidade cigana, acho que eles gostam de ter o canto deles e que se dão bem a morar assim.”

"ERAM UM MAU CARTÃO DE VISITA" (Samuel Gomes, 48 anos)

“Foi bom os ciganos terem ido para aquele bairro. As barracas e o lixo eram um mau cartão de visita e não interessavam a ninguém. Além disso, ali não tinham condições de vida e agora estão melhor.”

NÚMEROS

60% Era, há apenas cinco anos, a percentagem de crianças de etnia cigana com menos de 14 anos que não frequentavam o ensino. Existiam 20 mil em idade escolar.

2 Era o número de alunos de etnia cigana inscritos no 12.º ano, em todo o País, no ano lectivo de 1998/1999. No conjunto de todo o Ensino Secundário estavam inscritos 16.

55 famílias de etnia cigana foram alojadas, no início de Setembro, no bairro Margens do Arunca, entre a zona industrial de Pombal e a EN1.

50 mil ciganos vivem em Portugal, espalhados um pouco por todo o País. Este número é muito inferior ao de outros países.

3 milhões de euros foi quanto custou o bairro social de Pombal destinado à comunidade cigana. Metade desse valor foi financiado pelo Estado.
Cátia Vicente, Leiria
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in Correio da Manhã 2007.10.12
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ciganos - foto ricardo graça
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» Comentários no CM on line
Terça-feira, 16 Outubro
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- M. Gonçalves Os ciganos são descriminados?! Só se for para melhor! Quem trabalha paga o que lhes é oferecido, injustamente: casa, subsídios para alimentar vícios... o que dão eles em troca?!Quantos portugueses não ciganos vivem mal, apesar de trabalharem?! Isto é uma injustiça, uma exploração inadmissível! A iguais direitos têm que corresponder iguais deveres. Braga
Segunda-feira, 15 Outubro- ml E porque não recebem os nossos velhinhos este tipo de apoio ? Se fazem bairros sociais para quem tem bom corpo para trabalhar, porque não as Câmaras construirem e subsidiarem lares sociais para os nossos idosos viverem também com conforto? Eles sim os verdadeiros discriminados na nossa sociedade!
- CIGANO TRABALHEM COMO EU E A MAIORIA E DEIXEM-SE DE PEDINCHAS E INTEGREM-SE...
- JL Se lhes dão casas, gritam, se não os deixam viver na imundicie das barracas, gritam, o que lhes dão destroem, são incapazes de se integrar porque não querem trabalhar, mas têm Mercedes à porta. E ainda gritam. Já agora porque não dão casas a toda a gente que necessita, que vive na miséria?
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Sabado, 13 Outubro
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- A. Simões Fecharam o tunel de acesso à cidade! coitados queriam ir para o emprego e tem de dar uma grande volta! Sou de opinião que devia ser instalada já uma linha de teleférico, pois a atravessar a estrada podem ser atropelados! e é uma pena!
- miguel santos Tambem quero ser discriminado, ofereçam-me uma casa, quero uma casa.
Sexta-feira, 12 Outubro- rui ferreira Uma pessoa mata-se para pagar a renda, faz descontos tudo certinho, e não tem essa sorte...
- Jorge Manuel Oliveira Simões Querem exemplos de integração? Visitem o bairro da Ameixoeira, e depois digam que são discriminados, que são como as outras pessoas, está tudo partido, degradado, sujo, vandalizado, e pagamos nós para que sejam mais felizes...
- Graça Afonso Apesar de tudo estão melhores do que estavam. Há muito Português que não tem as condições que eles neste momento têm!
- Zagallo - Brasil Um tipo mata-se a trabalhar e leva uma vida a passar mal, para comprar uma casa. Este tipos viviam em tendas e barraca, sem as mínimas condições. Dão-lhes casa decentes e ainda refilam?
- Aristides Dão-lhes rendimentos minimos, dão-lhes subsidios para os filhos, dão-lhes casas e ainda se queixam?
- Maria José Mas que direito teem eles de exigir? Deveres teem alguns perante a sociedade? Perto de mim não os quero.
- José Reis Mais uma vez se vê se aqui o tipo de paìs que é Portugal. Vejam sò o que acontece em frança com este tipo de guetos,quando toda essa gente que portugal marginaliza um dia vão acordar e depois quero ver como essa politicalha vai rezolver o problema. os portugueses não são recistas? valha-nos Deus...Paris
- Maquiavel Se se lhes tiram do acampamanto e os dispersam para bairros distintos é por que querem destruir-lhes a cultura. Se os metem todos juntos é porque é racismo e discriminação. Parece a história DO VELHO, DO RAPAZ E DO BURRO.
- revoltado o meu Pai têm 87 Anos trabalhou até não poder descontou toda a vida,e não lhe deram uma casa.
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quinta-feira, agosto 30, 2007

Aumenta número de americanos sem assistência médica

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Cerca de 47 milhões de americanos não têm assistência médica, um aumento de 2,2 milhões de pessoas em relação ao ano de 2005, revelaram nesta quarta-feira fontes oficiais.
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Segundo dados divulgados pelo Escritório do Censo, em 2006 15,8% dos americanos não possuíam cobertura de saúde, enquanto um ano antes o número era de 15,3%.

De acordo com o escritório, os menores de 18 anos estão entre os mais prejudicados, já que 11,7% deles não têm assistência, um ponto a mais que em 2005.
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A porcentagem de crianças sem cobertura de saúde aumentou por dois anos consecutivos, agrega.
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Embora as duas câmaras do Congresso tenham aprovado projetos para aumentar os fundos ao Programa Federal de Seguro Médico para Crianças, o presidente George W. Bush anunciou que vetará essa iniciativa.
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O pretexto que Bush utilizou para essa medida foi assinalar que aumentaria de forma inapropriada o papel do Estado na saúde, e permitiria outorgar dinheiro a famílias de classe média, com possibilidades de adquirir planos de saúde privado.
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in Vermelho 29 DE AGOSTO DE 2007

terça-feira, julho 10, 2007


Mulheres de Armas
Diferentes entre iguais nas Forças Armadas

* Marta Martins Silva

O espelho foi testemunha da satisfação. Tinha 16 anos, o irmão acabava de regressar a casa no primeiro fim-de-semana depois de ter começado a tropa, mas era a ela que o verde azeitona da farda assentava melhor. Ela assim achava, o reflexo da imagem a querer acompanhar o pensamento. Já ele, contrariado pela obrigação, não se importaria nada que a irmã lhe tomasse o lugar, embora nessa altura mulheres e serviço militar não fossem peças do mesmo dominó.
A tristeza de não poder cumprir o sonho de infância levou Ana Pombeiro de Jesus a emigrar para a Suíça, alguns anos depois de ter experimentado pela primeira vez a roupa do irmão. A hoje 1.º Sargento regressou com 23 anos, quando a notícia há tanto esperada veio pelo telefone: as mulheres iam finalmente poder prestar provas de admissão. Foi aí que a menina que sonhava com os tanques de guerra voltou a acreditar que os sonhos se existem é para serem cumpridos.



Já Mónica Pereira Martins estava longe de imaginar, quando aos 17 anos teve que se decidir por uma carreira, que ia pertencer ao grupo das primeiras mulheres a entrarem para os cursos de licenciatura da Escola Naval. Mais do que isso: que as notas que foram compondo a sua carreira iam sempre tocar-se de pioneirismo. Curiosamente, passou os seus dias de menina a pensar em números e a imaginar-se no futuro como professora de Matemática, influência das tias com a mesma profissão. Depois de acabar o 12.º ano, a 1.º tenente Pereira Martins inscreveu-se na Academia da Força Aérea, na Escola Naval e na Universidade de Coimbra, no curso de Matemática Aplicada. Foi admitida nas três, preferiu a segunda. Mas os pais, com medo que Mónica se arrependesse da escolha e não se adaptasse à dura vida militar, pagaram a primeira propina na faculdade, para garantir o lugar. Ela disse que não, não era preciso. Não foi. Não chegou nunca a desenhar números no quadro preto. Em vez disso, fez da escolha profissão que não se imagina a abandonar. A equação tem resultado.

Foi a necessidade de procurar um rumo profissional que a preenchesse e lhe desse o que o trabalho em Gestão nunca conseguiu, que fez Maria João Oliveira fazer um círculo no anúncio de jornal que falava no recrutamento de mulheres para a Academia da Força Aérea e sublinhar a vontade de aventura e desconhecido. Arriscou, foi aceite. Estava-se em 1991, e a major Maria João tinha 26 anos, e no currículo a palavra mágica: solteira, uma das condições para entrar. O estado civil alterou-se por duas vezes, depois de entrar na academia: de solteira a casada e mais tarde divorciada. Mas ainda hoje agradece ter aberto o jornal no dia em que viu o anúncio: é mais feliz como militar do que como civil. Quem também o diz é a tenente-coronel Anabela Varela, que só lamentou ter deixado os saltos altos em favor das botas da tropa. “Foi o mais difícil de trocar, fiquei sem calcanhares no primeiro exercício e com as mãos calejadas só de puxar os cordões das botas”, assume a jurista de profissão. A criança que sonhava ser hospedeira de bordo percebeu em adulta que o sonho repetido de voar se fazia com as asas da Força Aérea mais do que com os aviões civis.

Mas, como Ana de Jesus, não pode concorrer logo à Academia por não serem admitidas mulheres quando terminou o liceu, o que lhe cortou as ‘asas’. Formou-se por isso em Direito e o mesmo anúncio de jornal que Maria João viu, abriu-lhe a porta para o sonho antigo que nunca tinha sequer verbalizado para si própria. Na Academia da Força Aérea passou a ser a Marcela, alcunha que partilhava com Maria João, que entrou no mesmo ano. Tem explicação: o primeiro licenciado que entrou para a Força Aérea tinha o mesmo nome, e a partir daí os licenciados não mais se escaparam da designação.

HOJE, MÓNICA É PILOTO NAVAL

Ana pertence à administração militar pára-quedista, Maria João é chefe de Secção Administrativa da Repartição de Auditoria Administrativa da Direcção de Finanças da Força Aérea, e Anabela é jurista. São mulheres nas Forças Armadas e dizem-se diferentes entre iguais. É esse o estandarte que defendem. Sem armas, mas com a convicção do treino militar que as formou. Quando a conversa se começa a escrever de discriminação, as reticências anunciam hesitação. Mas garantem que não, nunca se sentiram inferiorizadas pelos “camaradas” homens. Ana de Jesus vai mais longe e aponta o dedo às facilidades excessivas que são dadas ao sexo feminino na recruta. “Sou contra as percentagens, porque não acho que a nossa integração seja difícil, nós é que a tornamos difícil”, diz, enquanto acusa o desemprego de levar para a vida militar mulheres sem condições físicas para tal.

“Há facilidades para as militares femininas e os homens percebem isso, o que ajuda a criar o sentimento de injustiça”, explica a militar que participou em três missões de apoio à paz. A major Maria João também destaca a discriminação positiva, e refere a protecção e o paternalismo que sempre sentiu por parte dos camaradas masculinos. Nega que alguma vez tenham duvidado do seu valor militar.Já Mónica, não esquece que durante os primeiros tempos a grande dificuldade foi ao nível das infra-estruturas: não estavam preparadas para as mulheres.



“Era tudo feito a pensar nos homens, os próprios navios não estavam prontos para receber o sexo feminino”, avança a 1.ª Tenente Pereira Martins, hoje piloto da fragata Álvares Cabral, que sublinha a evolução que a área militar tem sofrido nos últimos anos.



A tenente, solteira e sem filhos, lembra, no entanto, que a Marinha se confronta com a maternidade, porque uma mulher grávida não pode embarcar. De uma ou outra forma, sentiram as quatro que nem sempre as portas se abrem com um empurrão, e que muitas vezes a dificuldade está na fechadura. Ana de Jesus sofreu isso na pele. Depois de concretizar o sonho maior que tinha, o de ser admitida, a 1.º sargento queria mais do que vestir a farda: queria ir para Infantaria, ser operacional, estar na linha da frente nos combates. “Na altura não era permitido às mulheres serem operacionais, por isso tive de me contentar com a parte administrativa”, conta.

“Lembro-me de, nessa altura, um superior meu me dizer: ‘Ainda vais ser a primeira mulher comando em Portugal’”. O tempo “errado” em que nasceu não deixou, mas o mesmo tempo transformou a mágoa em amor à camisola: “Hoje também gosto de administração militar”, explica Jesus – como é tratada na Escola de Pára-quedismo de Tancos, onde trabalha. Também Anabela lamenta a fechadura que aos 18 anos não foi possível abrir. Trancada a sete chaves. “Se pudesse ter ingressado logo, e não só aos 28 anos, hoje não era jurista: era piloto de aviões.”

Desilusões à parte, nenhuma das quatro mulheres das Forças Armadas imagina a vida longe dos camaradas, das fardas, das paradas. E também da aventura e do desafio constantes, que todas confessam ter sido o que as levou até à profissão que hoje exercem. Acumulam muitas histórias para contar, que as missões e o treino lhes escreveram nas páginas. Ana tem dificuldade em escolher uma.

Acaba, entre risos, por lembrar quando foi no primeiro contingente para o Kosovo, na mesma altura em que os refugiados estavam a regressar. Os militaes ficaram alojados em tendas de campanha individuais, no mato, mas muitas vezes acabavam por dormir nas viaturas. Ana procurava um camarada masculino e, quando chegou ao pé dele, o militar estava... nu.

“Oh Jesus, desculpa”, terá dito, mais incomodado com a situação do que ela. A 1.º sargento foi também, muitas vezes, ombro de saudades. “Eles aproveitavam para falar com as militares mulheres sobre as esposas e os filhos, dada a nossa sensibilidade especial”, conta. Diz também que moderavam a linguagem “de caserna” desde que as primeiras mulheres começaram a participar em missões, o que facilitava quando chegavam a casa junto das famílias e não tinham de repensar o vocabulário. Os olhos azuis de Anabela Costa Varela iluminam-se quando recorda o maior elogio que recebeu de um militar homem: “Esqueci-me de que és uma mulher.

” Uma mulher que dança nos tempos livres, tem uma filha de 20 anos, e que durante dois anos integrou o Comité Executivo das Mulheres nas Forças Armadas, como Deputy Chair. Mónica Pereira Martins sorri quando diz que os amigos acham “espectacular” ter uma amiga militar, e que é o orgulho da família que sempre a apoiou. A Inês e o Francisco, de 11 e 9 anos, já estão habituados a que a mãe, Maria João, seja militar e que influenciada pela organização e hierarquia da profissão que tem, lhes imponha mais regras que as mães dos amigos. Os sobrinhos de Ana de Jesus, com quem esta aproveita os tempos livres, também.

E nunca se escapam de ir na rua e ouvir: “Agora é que eu devia ser militar”.

ESTUDO MOSTRA EVOLUÇÃO POSITIVA

A socióloga Helena Carreiras, investigadora do CIES/ISCTE tem vindo a estudar o tema da integração feminina nas instituições militares. Carreiras participou no Colóquio ‘Igualdade de Oportunidades nas Forças Armadas’, que decorreu em Lisboa.

A a sua apresentação, a socióloga referiu que a situação das mulheres nas Forças Armadas das democracias ocidentais tem vindo a alterar-se significativamente nas últimas quatro décadas: muitas restrições foram eliminadas, com um mais fácil acesso das mulheres a um conjunto alargado de posições e funções. Portugal está, aliás, acima da média no que respeita à representação feminina nas Forças Armadas. No entanto, a socióloga diz que a integração militar feminina está longe de ser concretizada, pois as mulheres são ainda excluídas de áreas e funções ligadas ao combate e têm uma representação limitada em posições de poder.

APOIO DA FAMÍLIA

Mónica Pereira Martins, Ana de Jesus, Maria João Oliveira e Anabela Varela têm em comum o facto de terem sido incondicionalmente apoiadas pela família quando decidiram abraçar o sonho militar. Mesmo em relação aos amigos “civis” – como gostam de frisar – dizem não sentir qualquer tipo de diferença de relacionamento. Consideram que a conciliação entre a vida familiar e a carreira militar não é diferente de em qualquer outra profissão, e o mais difícil são mesmo as ausências em trabalho. Anabela e Maria João só sentiram isso no primeiro ano da Academia, em que a semana de treino intensivo as levava a casa só ao fim-de-semana, mas Mónica e Ana, ambas solteiras, têm de passar algumas temporadas fora.

A 1.º tenente quando está embarcada na fragata Álvares Cabral (já chegou a passar seis meses longe da família), a 1.º sargento quando participa em missões – como já aconteceu na Bósnia e no Kosovo, ambas de apoio à paz. As quatro defendem que quando “o treino é duro, o combate é fácil”, que aplicam à sua vivência enquanto “diferentes entre iguais”.

DADOS

- 16 por cento das mulheres colocadas nas Forças Armadas pertencem à Força Aérea,

- 13,5% ao Exército, e 6,6% à Marinha.14 por cento dos militares portugueses das Forças Armadas são mulheres (em 2007).

- Em 2006 a percentagem era de 12%, em 2005 de 10,3% e em 2000 a representação era de 6,6%.19 por cento das mulheres militares no Exército estão em funções de apoio, 14,3% em funções técnicas e apenas 7,9% são operacionais.

- Na Marinha apenas 2% são operacionais e na Força Aérea a percentagem é de 7%.1479 entre o ano 2000 e o de 2006, mais 1479 mulheres ingressaram nas Forças Armadas Portuguesas.

Comparando o ano de 1994 e o de 2006 a evolução é ainda mais notória:

- mais 3089 mulheres.



Fonte: Carreiras, Helena (2006) Gender and the Military. Women in the Armed Forces of Western Democracies, London and New York, Routledge. Relatórios anuais do CWINF (Committee on Women in the NATO Forces).

in Correio da Manhã, 2007.07.06
Foto - Mariline Alves

quarta-feira, julho 04, 2007


Índios ganham contra transnacional


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A justiça argentina reconheceu à comunidade mapuche de Logko Puran o direito de defender o seu território contra uma empresa petrolífera norte-americana, Pioneer Natural Resources. Vários índios foram acusados pela companhia de terem obstruído, através de manifestações, a chegada do seu material de perfuração, mas na semana passada o tribunal de Neuquen rejeitou a queixa considerando que não foi respeitada a garantia constitucional que assegura «a participação dos povos indígenas na gestão dos seus recursos naturais». O juiz acusou a Pioneer «de não ter feito nenhuma consulta da comunidade antes de avançar com os trabalhos» e de não ter respondido aos «múltiplos pedidos» dos representantes das comunidades indígenas. Martin Velasquez Maliqueo, representante da comunidade mapuche, congratulou-se com a decisão e lembrou que «há dezenas de negócios onde os povos indígenas defendem os seus territórios perante grandes empresas».

in Avante 2007.06.28
Gravura: David e Golias - rembrandt

segunda-feira, junho 04, 2007


Na rota das Judiarias Portuguesas: Belmonte
* Foto Victor Nogueira
Ruínas do Castelo e palácio dos Cabrais , como Pedro Álvares Cabral,vila onde subsistiu uma comunidade de Marranos.
Comunidade judaica

A comunidade de Belmonte abriga um importante fato da história judaica sefardita, relacionado à resistência dos judeus à intolerância religiosa na Península Ibérica.

No século XVI, quando da expulsão dos mouros da Península Ibérica, e da reconquista das terras espanholas e portuguesas pelos Reis católicos e por Dom Manuel, foi instaurada uma lei que obrigava os judeus portugueses a se converterem ou deixarem o país.

Muitos deles acabaram abandonando Portugal, por medo das represálias tanto do governo quanto da Inquisição, em direção ao Brasil e outros lugares do Novo Mundo. Uma outra parte da comunidade judaica se converteu ao cristianismo em termos oficiais, mantendo seu culto e tradições culturais no âmbito familiar.

Um terceiro grupo de judeus, porém, tomou uma medida mais extrema. Vários deles decidiram se isolar do mundo exterior, cortando o contato com o resto do país e seguindo suas tradições à risca. Tais pessoas foram chamadas de "marranos", numa alusão à proibição ritual de comer carne de porco. Por séculos os marranos de Belmonte mantiveram suas tradições judaicas quase intactas, tornando-se um caso excepcional de comunidade criptojudaica. Somente nos anos 70 a comunidade estabeleceu contato com os judeus de Israel e oficializou o judaísmo como sua religião.

Em 2005 foi inaugurado no cidade o Museu Judaico de Belmonte, o primeiro do género em Portugal, que mostra as tradições e o dia-a-dia dessa comunidade.
in Wikipedia

Judeus: Centro Histórico inclui cemitério com 107 campas

Passado judaico recriado
* Ana Isabel Coelho
As peças originais de uma antiga sinagoga existente em Faro e demolida na década de 60, onde se destacam o arco, o púlpito e a luz eterna, retratando um casamento hebraico, são motivo para uma visita ao museu-sinagoga inaugurado ontem no espaço do cemitério judaico, agora designado Centro Histórico Judaico de Faro.
Actualmente são cerca de 20, os judeus a residir no Algarve, muito menos do que os que aqui viviam e tiveram de fugir para Marrocos durante a Inquisição.
O cemitério judaico de Faro, com 107 campas, a mais antiga de 1838 e a última de 1932, é o único vestígio que permanece da presença judaica em Portugal depois da Inquisição. Actualmente, o presidente da Comunidade Judaica do Algarve, Ralf Pinto, tem dois pedidos de judeus residentes na região que desejam ser ali enterrados.
A cerimónia de inauguração do novo espaço que retrata aspectos da vida dos judeus, contou com a presença do embaixador de Israel em Portugal, Aaron Ram, o presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, José Oulman Carp, o presidente da Câmara de Faro, José Apolinário, ou Michael Bitton, filho de Isaac Bitton que morreu em Julho do ano passado e foi o responsável pela restauração do cemitério nos anos 80. Michael Bitton referiu “a honra” de ver que a luta do progenitor para recuperar o espaço não foi em vão.
PORMENORES
SINAGOGA
A antiga sinagoga de Faro, localizada na Rua Castilho, na Baixa de Faro, foi demolida na década de 1960. Serviu, nos séculos XVIII e XIX, a comunidade israelita residente na cidade.
ROTEIRO
O objectivo de Ralf Pinto, presidente da Comunidade Judaica do Algarve, é que o Centro Judaico de Faro passe a integrar o roteiro cultural da cidade.
PENTATEUCO
O Centro Judaico inclui a sinagoga, o cemitério e o museu, onde está uma cópia do Pentateuco, primeiro livro impresso em Portugal, precisamente em Faro.
Comentários
Segunda-feira, 4 Junho- David Acho louvável esta iniciativa. Só é pena que não se repita em todas as localidades portuguesas. Afinal, nós somos o povo eleito e temos que estar representados em todo mundo. Deixo também aqui a minha sugestão para que se abram também museus do Holocausto, para que a Humanidade nunca se esqueça das perseguições que o nosso povo sofreu!
in Correio da Manhã 2007.06.04
SINAGOGA de Tomar

Em Tomar, viviam muitos Judeus que habitavam a Judiaria (depois designada Rua Nova - entre as Ruas Direita dos Açougues e dos Moinhos). A Judiaria era fechada ao cair da noite com correntes.

Estes Judeus, como na própia Roma, tinham uma Sinagoga. Localizada na tal Rua Nova (Dr. Joaquim Jacinto) foi mandada erigir pelo Infante D. Henrique em meados do Séc. XV. Foi ele que deu guarida aos Judeus e criou a Judiaria.

Em 1496 foi encerrada pelo Édito de expulsão dos Judeus de Portugal. Na primeira metade de Sec. XVI foi transformada em cadeia Municipal. No Séc. XIX era já um mero armazém.

Os Judeus, contribuíram muito para o engrandecimento económico de Tomar. Eram muitos e abastados. Em 1923, o Dr. Samuel Schwarz compra a Sinagoga a Joaquim Cardoso Tavares, restaura-a, e em 1939 doa o imóvel ao Estado, na condição de nele ser instalado o Museu Luso-hebraico.

Em 1942/43 são feitas obras de adaptação para o Museu e em 1949 a Sinagoga é ampliada. Em 1952 é construída a habitação para o guarda.

Este monumento, único em Portugal, é Monumento Nacional, símbolo da coexistência religiosa em Tomar.

in : tomar.com.sapo.pt/sinagoga.html

FOTO - Sinagoga de Tomar

NOTA:

Nas minhas deambulações por Portugal fiz as rotas das judiarias Portuguesas e do Portugal Islâmico. As notas fazem parte do 2º volume de viagens que desconheço se alguma vez serão ordenadas, como desorganizadas estão as milhares de fotos das minhas deambulações por este jardim à beira mar plantado, algumas já históricas, Embora não tivesse tido ocasião de visitar nem a sinagogas de Castelo de Vide, Guarda ou Belmonte, visitei a de Tomar, que me pareceu muito pobrezinha em termos museológicos.

VN

sábado, maio 26, 2007




"Caçando e pescando, guerreando feliz"
- representações sobre índios feitas por crianças de uma escola pública de primeiro grau, na cidade de São Paulo (SP)

* Rita Amaral 

Dra. em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo
NAU-USP

1996

"Na tribo ele vive
Comendo raíz
Caçando e pescando
Guerreando, feliz.
O Deus é Tupã,
A lua é Jaci
A lingua que eles falam
é tupi-guarani"



Pela letra da música aprendida nas escolas de primeiro grau depreende-se que todos os índios são iguais. Vivem do mesmo modo, têm os mesmos deuses, falam a mesma língua. Vivem felizes e sem problemas.

O Brasil tem quase quinhentos anos, mas ainda desconhece a imensa sociodiversidade indígena que existe em seu território. Desconhece seus índios. A maioria das pessoas desconhece até mesmo quantos povos ou quantas línguas indígenas existem. O reconhecimento, mesmo que pequeno, dessa diversidade, não ultrapassa os restritos espaços da academia especializada.

Hoje, alunos do ensino fundamental, ou mesmo professores, que queiram saber mais sobre os povos indígenas brasileiros contemporâneos, enfrentarão dificuldades.

A imagem do índio conhecida pela população é a do índio romântico, a do índio selvagem, a do caboclo de umbanda. E existem várias razões para isto.

A primeira é que existem poucos espaços para a expressão dos índios no cenário cultural e polítco do país. Vivendo a maioria deles em locais de difícil acesso, com condições quase que exclusivamente orais de comunicação e falando geralmente apenas sua língua, com domínio relativo do português, as diferentes etnias encontram dificuldades para se expressar no mundo dos não-índios. Sua cultura e pontos de vista são tomados geralmente fora dos contextos onde vivem, mediados por intérpretes quase sempre inadequados e, finalmente, registrados como fragmentos incompreensíveis Basta mencionar, por exemplo, que das 206 etnias conhecidas (entre as mais de mil que segundo estimativas existiam antes da invasão do Brasil pelos europeus) e das cerca de 170 línguas, no máximo a metade, talvez, foi objeto de pesquisa por parte de etnólogos e lingüistas e a maior parte dos resultados, em geral teses acadêmicas, não está publicada e nem é acessível. ou o é apenas em línguas estrangeiras (Ricardo, 1995).

O público leigo interessado em conhecer mais a respeito dos índios está diante de um vácuo cultural e tem que se contentar com uma bibliografia didática precária, quando não preconceituosa e desinformada .Também na imprensa, apesar do interesse da mídia pelos índios nos últimos anos, o que se informa, e portanto, o que se sabe e se aprende sobre o assunto, são versões jornalísticas de fatos isolados, fragmentados, histórias superficiais e imagens genéricas, tremendamente reducionistas em relação à realidade.

É bastante comum lermos ou ouvirmos na imprensa noticias com o nome das "etnias" trocado, escrito ou pronunciado de maneira errada, sem nenhuma preocupação em buscar a correção. Ttambém não é difícil vermos um determinado povo indígena ser associado a locais diferentes daquele onde vive ou, ainda, a imagens que na verdade são até mesmo de outro povo indígena (Ricardo, 1995).

Os arquivos das redações dos jornais, mesmo os diários, têm informações descontínuas sobre as tribos em pauta, sem nenhuma densidade cultural ou histórica específica. Basta lembrar, por exemplo, as etnias que por circunstâncias históricas ocuparam concretamente o espaço do "indio de plantão" no noticiário e no imaginário do país em diferentes épocas. Isto aconteceu na década de 40, com os Karajá da Ilha do Bananal, com os Xavante de Mato de Grosso (que logo após os primeiros contatos com os civilizados apareceram, nos anos 50, vestindo ternos brancos numa loja da Ducal em São Paulo) e depois voltaram nos anos 70 com Mário Juruna. Ou ainda os Krenakarore, os "indios gigantes", pacificados e removidos para que uma rodovia ligando Cuiabá a Santarém fosse aberta na floresta, também na década de 70. Ou ainda os Kayapó guerreiros, de Raoni e Paiakã, do sul do Pará, nos anos 80. Some-se-lhes os Yanomami de Roraima, vítimas da invasão garimpeira há 10 anos e, mais recentemente, o retorno dos Guarani, cujos jovens passaram misteriosamente a cometer suicídio coletivamente. Até os famosos "índios do Xingu", que na década de 80 ocuparam muitos noticiários e são presença obrigatória em qualquer coleção de cartões postais do Brasil, não passam de uma generalização reducionista e grosseira ao se tratar de um conjunto de dezessete povos que vivem atualmente no Parque Indigena do Xingu, alguns deles tão diferentes entre si quanto brasileiros e japoneses.

Assim, a idéia de quem sejam os índios e seu modo de viver e de pensar tem sido transmitida de maneira displicente, não apenas pela mídia escrita (revistas, jornais) como também pela televisao, pelo rádio e pelos professores, apoiados em livros escolares mal preparados, além da informação subjetiva diária transmitida por imagens utilizadas em produtos ou em referências diagonais.

Nem sempre (ou quase nunca), contudo, esta imagem corresponde à realidade dos diferentes grupos indígenas brasileiros. Concerne, antes, a uma estereotipia que concebe os índios de modo simplista, como primitivos e distantes de nossa cultura, especialmente no que diz respeito à tecnologia. Geralmente essa imagem é, ela mesma, influenciada pela idéia romântica dos índios, encontrada nos livros escolares, nos romances e poemas como os de José de Alencar e Gonçalves Dias e, também, pela literatura dos viajantes da época colonial, que os retratava com olhos etnocêntricos e de rapina, que preferiram ver nos índios homens incapazes de gerirem por si só suas terras e riquezas, além de inferiorizá-los em termos de sua fé.

Da impressão etnocêntrica de que os grupos que não fizeram as mesmas escolhas tecnológicas e culturais que os ocidentais são grupos inferiores é que vem, ainda, a noção de que os índios são prequiçosos, ignorantes, perigosos, vingativos, traiçoeiros e que, vivendo ab origene, portanto não partilhando o processo civilizatório europeu, devem ser vistos como selvagens incompetentes ou, no outro extremo, como o bon sauvage de Rousseau.

Da televisão emana, ainda, a imagem do índio norte-americano, freqüentemente confundido com o brasileiro, que deste é completamente diferente, assim como dos desenhos e revistas em quadrinhos. Recentemente, Maurício de Souza, desenhista brasileiro, criou um personagem indígena em suas histórias infantis, o indiozinho Papa-Capim, que transmite a imagem de um indiozinho simpático, mas que vive nu e de arco e flecha em punho. Na televisão, o programa infantil Glub-Glub, transmitido pela TV Cultura, emissora do Estado, tem como introdução ao programa apresentado por dois peixinhos (e não por dois indiozinhos, o que é significativo), a cena, em desenho animado, de um índio que navega numa piroga carregada de eletromésticos, mostrando que os índios já têm interesses por esse tipo de objetos (que ao mesmo tempo só existem alí como pretexto para os peixinhos do rio terem uma televisão), mas desempenha o mero papel de referência. Este índio aparece nu e vestido de penas, como sempre. Pouco além disso existe que fale dos índios para crianças, e é basicamente da mídia e dos desenhos que as crianças obtêm atualmente suas referências sobre a imagem dos índios, além da escola. Fora disso, no cotidiano, as imagens dos índios são encontradas fragmentadas em produtos que carregam nomes indígenas, como Biscoitos Aymoré, Café Cacique, Mudanças Anhanguera. E em nomes de cidades, bairros e ruas, poucas vezes percebidos como nomes indígenas, como Itu, Araraquara, Jundiaí, Cumbica, Pirituba, Piqueri, Ibirapuera, Anhangabaú, Itu, Jaú, Itaim, Morumbi, Sacomã, Itaú etc. Apesar disso, pouco se lida com a imagem e a identidade dos índios no cotidiano urbano.

Existe, também, a imagem muito particular do índio construída no universo religioso da Umbanda, religião de origem africana, que muitos conhecem. É a imagem dos caboclos, ou caboclos de pena, entidades espirituais consideradas indígenas e que também´são cultuadas nos candomblés do rito angola. Essa entidade é dita ser o espírito dos antepassados indios, e faz parte do imaginário do indio romântico. Quando incorporadas em transes, essas entidades costumam usar cocar e colares de sementes e fumar charuto ou cachimbo. Poucas vezes tais entidades se referem a tribos de origem e, na maioria das vezes, têm nomes em português, como "Pena Branca" "Treme Terra", "Sete Flechas," "Pedra Preta" etc. Mas existem algumas poucas que se referem a tribos e nomes indígenas, como os caboclos Tupinambá, Ubirajara, cabocla Moema, Jurema etc. Nas lojas que vendem artigos religiosos é possivel encontrar imagens em gesso dessas entidades. Geralmente representando índios e índias de pele escura, seminus, vestindo saiote de penas e cocar, com pinturas aleatórias pelo corpo, sem relação com pinturas étnicas. Outras vezes essas imagens representam claramente índios norte-americanos, com calças compidas com franjas e alpargatas e machadinhas, talvez porque este índio corresponda melhor a um certo padrão moral, já que contrariamente ao índio brasileiro, aparece sempre vestido. Ou porque se os vê bem mais em filmes na televisão que aos índios brasileiro sob qualquer circunstância. Resumindo: o índio brasileiro tem pouca visibilidade e isto se revela nas imagens deles que se vê, quando se as vê.

Nesta rápida e limitada pesquisa, procurei saber de que modo 40 crianças que estavam iniciando o acesso ao mundo das imagens que a sociedade brasileira e a mídia transmitem (na faixa etária entre 5 e 10 anos de idade, sendo 50% delas já totalmente alfabetizadas e 50% em processo de alfabetização), concebiam a imagem dos índios. Se teriam alguma noção de quem são e como vivem os índios, do processo de aculturação, se os concebiam como próximos ou distantes de nós, brancos, negros ou orientais de cultura marcadamente ocidental. Se tinham noção da diversidade étnica interna à categoria "indios" (se sabem que há indios de diversas nações, completamente diferentes entre si) e como compreendem o caráter dos índios (maus, bravos, preguiçosos, ou bons, corajosos etc.).Para tanto, foi pedido às crianças, por meio da intermediação das professoras, de uma sala de aula da 3a série do primeiro grau e outra de pré-escola, que desenhassem um índio, numa folha de papel, com material de livre escolha.

Da série de imagens por elas produzidas tomei os dados para o estudo desta apreensão. Nestas imagens foram avaliadas não apenas as cenas, mas também os planos, as cores, a presença de elementos pertinentes ou não à cultura indígena, expressões, objetos, animais que aparecessem ou não etc. Foram recolhidos 40 desenhos, alguns dos quais aparecem aqui. Buscando compreender que tipo de informações as crianças têm que vêm do campo cultural, mais amplo, foram ainda fotografadas e analisadas outras imagens de índios como as que aparecem em pinturas, desenhos animados, revistas infantis, livros, lojas etc, que ajudam a compor o conjunto a que eventualmente o imaginário infantil se refere. Aqui, uma primeira revelação: fora do universo religioso da umbanda e do candomblé, quase não se vê referências a índios nos espaços da cidades senão em seus topônimos. As poucas encontradas estão em nomes fantasias de empresas ou produtos, mas são realmente reduzidos. Nestas aparecem geralmente apenas cabeças de índios, de expressao fechada, de cocar, relacionando-se portanto com a liderança dos caciques.

Resultados:

A concepção que as crianças fazem dos índios é a tradicional. Corresponde melhor à concepção dos antigos livros escolares e do imaginário (sempre reiterado pela cultura) do que à realidade indígena. Não se sabe que muitos índios vivem em casas de alvenaria, em cidades, nem que alguns estão nas universidades, usam computadores, dirigem carros, pilotam helicópteros, participam de projetos de educação e da politica nacional ou internacional.

Para as crianças. os índios têm pele escura e cabelos pretos, lisos, longos ou curtos. Os olhos poucas vezes são retratados amendoados. Quase sempre têm pinturas faciais, mas não se referem a nenhuma etnia em particular (em apenas um caso desenho do índio mostrava a tentativa de representar grafismos indígenas no corpo e um corte de cabelo diferenciado), e as crianças em geral nem conheciam este termo. Três traços coloridos espalhados nas duas faces e adornos plumários, enfeites nos nariz e colares apareceram e 23 desenhos. Os índios são sempre muito enfeitados, mostrando que o aspecto diferencial por eles observado é basicamente estético.

A maioria das crianças pensa que os índios vivem nus. Ou vestem-se só com saiotes de penas. Vivem sempre na floresta, comendo frutas e raízes, ou alguma caça.

Apenas seis desenhos representaram índios vestidos. Também do universo da televisão e dos filmes de cowboy parece vir o vestiário dos índios quando eles aparecem vestidos. Geralmente com roupas de franjas e as índias se parecendo com Pocahontas, quando estão vestidas. Talvez por causa da muito recente exibição do desenho animado de Walt Disney Mas aparecem também muitas indias com seios de fora e tanga. Foi interessante constatar que existem nos desenhos tanto índios quanto índias. E ambos realizam as mesmas tarefas, o que não corresponde à realidade indígena mas a um novo conceito das relações entre homens e mulheres ocidentais.

A pesca não apareceu em nenhum desenho, nem as plantações. Uma única cesta foi desenhada e algumas poucas cerâmicas, mostrando que as crianças não estão bem informadas sobre a importância da cestaria e da cerâmica, não só como objetos utilitários mas também na distribuição de papéis sociais e de gênero nas tribos. Em apenas duas cenas os indios aparecem em torno de uma fogueira e em uma apenas estão tocando um tambor estilo trocano.

Poucas vezes os indios aparecem sem suas flechas e arco, mas também poucas vezes estão sendo usados. Arco e flecha parecem fazer parte do que se poderia chamar de "estojo de identidade" indígena, compondo a imagem, sem no entanto relacionar-se diretamente à sua função de arma para caça e defesa. Um dos alunos desenhou um alvo dentro da maloca indígena, indicando que a idéia do uso da flecha passa pelo treinamento da técnica. Ou como entretenimento. Flecha e arco são geralmente carregados às costas. Apenas um desenho retrata uma ave sendo ferida por uma flecha, e em outro o índio a aponta para uma serpente, curiosamente uma naja. Em apenas dois casos os índios usam suas flechas contra seres humanos, ambos os casos contra brancos ameaçadores.

A julgar pela expressão facial dos índios desenhados, eles são alegres, simpáticos, sorridentes, amistosos. Vivem em grupo (os índios em quase todos os desenhos apareceram acompanhados), isolados dos brancos.

As mulheres índias apareceram muitas vezes com os homens.

A maloca (oca) aparece em muitos desenhos, mostrando que uma idéia bastante marcante é a de que eles moram de modo diferente dos brancos. (Segundo alguns etnólogos da área indígena, também para os índios, a idéia de que os brancos moram de modo diferente é marcante). Algumas crianças misturaram a casa de alvenaria com a cobertura de palha.

Nos únicos três desenhos em que o branco apareceu, apareceu em atitude hostil ou para entrevistá-los. Apenas neste desenho a cultura branca não é agressora. As duas situações de conflito são representadas com os brancos e não com outros índios. Isso mostra que elas não têm noção de que os índios vivem em tribos diferentes, às vezes até inimigas, e que do vêem e aprendem na escola deduzem que o inimigo natural do índio é o branco. Num dos desenhos um branco atira num índio já aculturado (usa roupas comuns, e sabe-se que é um índio porque ele usa uma pena na cabeça) em sua própria maloca com revólver. Este branco pode ser um cowboy de filme americano, pois usa um chapéu deste tipo. Mas pode também ser um seringueiro.

Em outro desenho, um índio atira uma flecha num branco que pode ser um português, pois usa um grande bigode, e este é o modo como os brasileiros costumam retratar os portugueses. Nesse caso a referência seria à historia da colonização, quando houve muitos conflitos entre brancos e índios. Um dos desenhos mais marcantes mostra um índio sendo entrevistado pela televisão (o que se deduz pelo tipo de microfone, com logomarca), e declarando, meio envergonhadamente, que as coisas melhoraram na aldeia porque agora eles têm escola, como se reconhecendo que não estudar é ruim. Isso também mostra o desconhecimento que as crianças têm do quanto os índios conhecem e sabem e com quem aprendem as coisas quanto não têm escola. Assim, os índios são visto como ignorantes enquanto não têm acesso a esta.

Significativamente, alguns índios aparecem posssuindo cavalos. Num dos desenhos aparece o índio é representado montando, inclusive. Com um longo cocar, sugere um índio norte-americano, um apache de cinema, já que no Brasil, apenas os Kadiwéu domesticaram os cavalos e são uma etnia pouco conhecidos.

Poucos animais aparecem nos desenhos. Alguns pássaros. Nenhuma galinha, nenhuma paca, nenhum tatu. Nenhum macaco. A "floresta" dos índios infantis não é perigosa, mas bucólica e hospitaleira.

Conclusão:


A imagem dos índios representada pelas crianças é fortemente influenciada pela mídia e é a que grande parte da sociedade tem.

Os índios do passado, vestindo-se de penas, vivendo exclusivamente da caça (nem pescam), em torno de uma fogueira, felizes. Estão completamente distanciadas do fato da diversidade étnica. Existe O INDIO e não se sabe que são diferentes entre si. Eles são sempre muito diferentes dos brancos. São melhores. São mais alegres por viverem na floresta. E pertencem ao passado, o que se depreende das imagens e mesmo de uma legenda que diz "as armas que eles usavam". Muito dessa situação se deve não apenas aos meios de comunicação (que transmitem essa idéia, que inclusive é sedutora), mas também aos livros didáticos; ao modo como se aprende sobre os índios nas escolas.

Os livros de História, ainda transmitem a impressão de que os índios começaram a existir com a chegada dos europeus. Não se fala de sua existência antes disso. E eles são cordiais e amigáveis. Ajudam os portugueses, carregando o pau-brasil em troca de bugingangas e miçangas, construindo fortes e casas que dão origem aos primeiros povoados e ensinam os brancos a viver na nova terra.

Logo depois parece que os índios começam a "atrapalhar" a colonização. Aliam-se aos franceses para atacar os portugueses. De cordiais, os índios passam a traiçoeiros. A colonização, entretanto, precisa muito da força de trabalho dos indios, que é utilizada em toda parte. Nesse momento o índio aparece junto dos bandeirantes, ensinando os caminhos e sendo escravizado pelos portugueses, além de ajudarem, logo em seguida, na recaptura de negros fugidos. Aliás, a escravidao dos negros só começa porque, como ensinam vários livros, "o indio não gostava de trabalhar, era preguiçoso e seu amor à liberdade não permitia que ele vivesse como escravo". Eles se matavam. Precisavam ser civilizados, catequisados.

Depois disso o índio desaparece da História do país e deles só se sabe que sao tupis, adoram Tupã, Guraraci (o sol) e Jaci (a lua) e moram em tabas e ocas: Que ensinaram a técnica da queimada, a fabricação de redes e de esteiras e criaram belas lendas. Depois, ao se falar da necessidade de ocupar espaços vazios não se fala mais de índios.

"É como se o Centro-Oeste e Norte do Brasil fossem virgens, como se ninguém morasse lá. E no presente a coisa se complica. A maior parte dos livros didáticos nem aborda a presença indígena no presente. Alguns poucos apresentam dados pulverizados, às vezes incorretos. Referem-se vagamente à existência de índios na Amazonia e no Xingu, lembram os trabalhos de Candido Rondon e dos irmãos Villas-Boas e da Funai".(GRUPIONI, 1995)

A imagem do índio parece sofrer de uma contradiçao: Ou há índios vivendo isolados, protegidos, ou já estao "contaminados" pela civilizaçao e a aculturaçao é seu caminho sem volta. Como se ao deixarem de andar nus,enfeitarem-se com penas e de caçarem, deixassem também de ser índios. Os índios ou estão no passado ou vão desaparecer em breve. Esta dicotomia parece corresponder a duas perspectivas sempre a eles associadas: a do bom e a do mau selvagem. Os indios de Rousseau e Hobbes. O primeiro argumentando que os índios representariam um estágio primitivo da humanidadem vivendo basicamente pelos seus instintos e o segundo, falando em degenerescência; os indios viveriam num passado numa era sem ordem e caótica, bárbara, e que só a civilização os levaria ao progresso. Parece que ainda não conseguimos, nós mesmos, sair do passado e aprender sobre nossa própria diversidade. A imagem que as crianças têm dos índios reflete esta imagem social, e para que ela mude, para que corresponda à realidade, é necessário que o modo como as instituições tratam os índios mude.

BIBLIOGRAFIA

GRUPIONI, Luis Donizete B. "Livros didáticos e fontes de informações sobre sociedades indígenas no Brasil" IN: SILVA, Aracy Lopes e GRUPIONI, Luis Donizete Benzi. (orgs) A Temática Indígena na Escola MEC, MARI, UNESCO, Brasília, 1995 ( pp 481-526).

RIBEIRO, Berta. O Índio na História do Brasil. Editora Global, São Paulo, 1983.

RICARDO, Carlos Alberto. "Os índios"e a sociodiversidade nativa contemporânea no Brasil IN: SILVA, Aracy Lopes e GRUPIONI, Luis Donizete Benzi. (orgs) A Temática Indígena na Escola MEC, MARI, UNESCO, Brasília, 1995

SILVA, Aracy Lopes & GRUPIONI, Luis Donisete B. A Temática Indígena na Escola. - novos subsídios para professores de 1o e 2o Graus. MEC, MARI, UNESCO. Brasília, 1995

SILVA, Aracy Lopes. A Questao Indígena na sala de aula. - Subsídios para professores de 1o e 2o. Graus. Ed. Brasiliense, São Paulo, 1987.RIBEIRO, Berta. O Índio na História do Brasil. Editora Global, São Paulo, 1983.


in   http://www.aguaforte.com/antropologia/osurbanitas/revista/povosindigenas.html


Africanos e índios na América Latina do período colonial
(do livro “Race and ethnicity in Latin America”, P. Wade)


Estou lendo “Race and ethnicity in Latin America” do Peter Wade. Cheguei no livro do Wade, vinda do livro do Hermano Vianna sobre o samba. Vianna se aprofunda na análise da obra de Gilberto Freyre para explicar como o assunto “raça” era abordado por intelectuais da época. A partir daí, Vianna tenta explicar como foi que o samba passou de algo que era visto com desdém – como coisa de negros – para um símbolo de identidade nacional. Esse é o ponto central do livro. Volto ao livro dele no futuro.

Mas de volta ao Wade...

A fim de tentar entender melhor um pouco as discussões sobre raça no Brasil, sem necessariamente usar Gilberto Freyre, recorri ao livro do Wade.

O que eu mais gosto nesse livro do Wade é o apanhado histórico que ele faz: ele discute extensivamente o modo como se definiam, discutiam e concebiam ambos os termos “raça” e “etnia” em vários países da América Latina em diferentes momentos históricos.

O que segue é um apanhado das idéias que ele levanta nos capítulos 1 e 2, principalmente na parte que trata de como africanos e índios eram vistos na América Latina do período colonial.

• As diferenças e similaridades entre a América Latina e os Estados Unidos em termos de identidades raciais e racismo não podem ser entendidas sem que se entenda o que estes termos (raça e etnia) significam. [Ele fala isso após gastar 20 páginas definindo detalhadamente estes termos.]

• É comum dizer-se que os EU são o lar do “verdadeiro” racismo, um racismo profundo baseado em genética, enquanto que a América Latina é caracterizada por um racismo mais superficial, de aparência ou fenótipo. Wade argumenta que tal oposição é equivocada (p. 24).

• O estudo de negros e índios na América Latina tem sido, de certa forma, dividido em (1) estudos sobre a escravatura ou assuntos relacionados à escravatura e relações entre raças e (2) estudos dos índios. Wade analisa o porquê de tal divisão e argumenta que isto ainda informa muito da pesquisa e das políticas do século XX. Esta divisão, segundo ele, apenas esconde contrastes e semelhanças entre negros e índios na América Latina. Índios e africanos tiveram papéis diferentes no processo de colonização, tanto social quanto conceptualmente. Índios deviam ser, oficialmente, protegidos e explorados. Africanos eram escravos e, embora tivessem direitos garantidos pela legislação, esta era inconsistente e variava grandemente; a principal preocupação era com controle, não proteção (p.27).

• Não foi possível manter três categorias distintas como talvez quisessem os colonizadores: espanhóis, índios e africanos: respectivamente dominadores, pagantes de impostos e escravos. As autoridades falavam da “república de españoles” e da “república de índios”, esta última baseada na comunidade indígena, criada e regulada pela legislação. Mas tal ideal foi sabotado pela possibilidade da criação de uma classe de negros livres (slave manumission) e da existência dos “criollos”. Acima de tudo o ideal de separação foi minado pela “mestizaje” (p.28).

• “Índio” era uma categoria administrativa específica – uma categoria fiscal, já que o típico índio morava numa comunidade indígena e pagava imposto. Isso não era tão evidente no Brasil, onde a população indígena sedentária que podia ser explorada não era tão expressiva.

• Mas todo esse cenário não se aplicava aos negros. O status de escravo, é claro, era claramente definido e o escravo era uma categoria central no censo.

• Este sistema de estratificação socio-racial é frequentemente denominado “sociedad de castas”. Não é um termo usado para o Brasil, já que a situação lá era um pouco mais fluida, embora fosse similar. Neste sistema, brancos ocupavam o topo, índios e negros estavam embaixo e as posições intermediárias eram definidas por critérios de status, dentre os quais cor e descendência eram muito importantes, mas não definitivos. A ocupação do indivíduo podia, na verdade, influenciar na classificação, assim como a posição do cônjuge.

• Índios tinham uma posição relativamente institucionalizada, enquanto que negros não tinham: alguns estavam na categoria de escravos, outros naquela vaga categoria intermediária de castas, pardos, ou libres. Também tem-se a impressão de que os índios eram vistos como sendo superiores aos negros (havia restrições a casamentos com negros, mas permitia-se aos brancos casarem-se com índios).

• Índios e negros tinham diferentes relações com a estrutura burocrática oficial. Mas como a relação entre lei e ordem social é difícil de ser estabelecida, não se pode argumentar que tal diferença traduziu-se diretamente em percepções diferenciadas de negros e índios; índios eram frequentemente tratados de forma miserável.

Fonte:   http://eamusica.blogspot.com/2007/01/africanos-e-ndios-na-amrica-latina-do.html


sexta-feira, maio 25, 2007

AS SOCIEDADES INDÍGENAS NO BRASIL

* SOLANGE CALDEIRA

Apesar da produção e acumulação de um conhecimento considerável sobre as sociedades indígenas brasileiras, tal conhecimento "ainda não logrou ultrapassar os muros da academia e o círculo restrito dos especialistas.

As organizações não-governamentais. que têm elaborado campanhas de apoio aos índios e produzido material informativo sobre eles, têm atingido uma parcela muito reduzida da sociedade.

Os índios continuam sendo pouco conhecidos e muitos estereótipos sobre eles continuam sendo veiculados. A imagem de um índio genérico, estereotipado, que vive nu na mata, mora em ocas e tabas, cultua Tupã e Jaci e que fala tupi permanece predominante.

Nunca é demais insistir no fato de que a humanidade é composta por uma rica variedade de grupos humanos. Todos estes grupos humanos têm uma capacidade específica para atribuir significados a suas experiências de vida, à fenômenos da natureza ou da realidade social, às condutas dos animais e também das pessoas. Os significados atribuídos podem variar muito de grupo para grupo. O conjunto de significados explicativos da realidade compõe um código simbólico, que é próprio de cada cultura.

Essa capacidade comum a todos os seres humanos de criar significados, é o que chamamos de cultura. E é a cultura que nos diferencia dos animais, criando uma igualdade entre todos os Homens. Por outro lado, esta capacidade de atribuir significados não é algo parado no tempo. Assim como a realidade se transforma , o homem deve buscar novos símbolos que possam traduzir o significado que estas novas realidades têm para ele. E deste modo que as culturas vão se modificando, no processo histórico que transforma os próprios grupos humanos. É comum cada um destes grupos ''considerar a sua própria visão das coisas como a mais correta; como aquilo que é realmente humano, civilizado, normal, natural.

Ao afirmarmos isto, queremos chamar a atenção para o fato de que cada cultura vê o mundo, através de pressupostos que lhe são próprios. E muitas vezes, não só vemos, como também julgamos. E é neste momento, em que tomamos nossos pressupostos (significados que damos às coisas e aos acontecimentos, valores pelos quais nos guiamos e regras que pautam nossas condutas) como padrões para julgarmos ou entendermos as outras culturas, que tomamos atitudes etnocêntricas (centradas na nossa cultura) e preconceituosas. Quase sempre, temos uma valorização positiva do nosso próprio grupo, aliado a um preconceito acrítico em favor do nosso grupo e uma visão distorcida e preconceituosa em relação aos demais. Precisamos, assim, perceber que somos uma cultura, um grupo, e mesmo uma nação, no meio de muitas outras. Que nossas explicações são particulares, específicas e diferentes das de outros grupos, que também têm as suas. E que as nossas são importantes e fundamentais porque são nossas referências para entendermos as situações que vivemos e para nos orientarmos: a partir delas formamos nossos princípios morais, nossos padrões de comportamento e nossas opiniões.

Neste sentido, podemos entender o preconceito como uma tendência presente em determinados agrupamentos humanos, mas não como algo constitutivo da própria natureza humana.

A congruência de três raças -brancos, negros e índios- na formação do povo brasileiro é sempre lembrada. Porém, o que normalmente fazem é recalcá-la para o passado, índios e negros são quase sempre enfocados no passado. Falar em índios é falar do passado, e fazê-lo de uma forma secundária: o índio aparece em função do colonizador. Mas que passado é este?

Não se trata de uma história em progresso, que acumula e que transforma. É uma história estanque, marcada por eventos, eventos significativos de uma historiografia basicamente européia (Cf. Telles, 1987).

A presença do índio neste continente não é problematizada, é um fato consumado. Privilegia-se os feitos e a historiografia das potências européias, silenciando-se ou ignorando-se os feitos e vivência dos povos que aqui viviam. Isto resulta no fato do índio aparecer como coadjuvante na história e não como sujeito histórico, o que revela o viés etnocêntrico e estereotipado da historiografia em uso.

Como entender a data de 1492 ou 1500 como uma descoberta? O continente americano havia sido descoberto e habitado há milhares de anos atrás, quando as primeiras levas de homens saíram da Eurásia, passando pelo estreito de Bering e adentrando o continente americano pelo Norte. De lá, esses grupos migraram e ocuparam todo o continente. Assim, quando os europeus aqui chegaram, o continente americano vivia uma dinâmica própria, que foi substancialmente alterada com sua chegada. Mas não havia um mundo a ser criado ou à espera de seu descobridor. O conceito de descoberta só faz sentido se o entendermos dentro da perspectiva da historiografia européia. Como conceito, sua preocupação básica era o que ocorria na Europa, ignorando a história do continente americano.

É evidente a desconsideração à história do continente e de seus povos, primeiramente pela forma como estas sociedades são tratadas: geralmente pela negação de traços culturais considerados significativos ( falta de escrita, falta de governo, falta de tecnologia para lidar com metais, nomadismo, etc.) e, em segundo lugar, pela apresentação isolada e des-contextualizada de documentos históricos que falam sobre os índios. Assim, cartas, alvarás, relatos de cronistas e viajantes são fragmentados, recortados e, porque não dizer, adulterados e apresentados como evidências, como relatos do passado, sem que sejam fornecidos instrumentos para que se possa filtrar as informações e reconhecê-las dentro do contexto no qual elas foram geradas. É assim que, fatos etnográficos retirados do seu contexto, bem como iconografas da época, são apresentados, criando um quadro de exotismo, de detalhes incompreensíveis, de uma diferença impossível de ser compreendida e, portanto, aceita. É significativo, neste sentido, o fato de ainda se usar informações sobre os índios produzidas nos primeiros séculos da colonização, escritas por cronistas, viajantes e missionários europeus . Isto pode levar os desavisados a concluírem pela não contemporaneidade dos índios, uma vez que estes são quase sempre apresentados no passado e pensados a partir do paradigma evolucionista, onde os índios estariam entre os representantes da origem da humanidade, numa escala temporal que colocava a sociedade européia no ápice do desenvolvimento humano e a "comunidade primitiva'' em sua origem. Pode levar também a concluírem pela inferioridade destas sociedades: a achar que a contribuição dos índios para nossa cultura resumir-se-ia a uma lista de vocábulos e à transmissão de algumas técnicas e conhecimentos da floresta.

Mas se é forte a apresentação dos índios no passado e como pertencentes a um tempo pretérito, fato é que a imagem do índio não é una. Há diferentes imagens, contraditórias entre si, fragmentadas, assim como também são fragmentados os momentos históricos nos quais os índios aparecem. O que parece mais grave neste procedimento é que, ao jogar os índios no passado, não é possível se entender a presença dos índios no presente e no futuro. Deste modo, não somos preparados para enfrentar uma sociedade pluriétnica, onde os índios, parte de nosso presente e também de nosso futuro, enfrentam problemas que são vivenciados por outras parcelas da sociedade brasileira .

Não obstante essa multiplicidade de imagens, é interessante notar a recorrência e redundância de informações presentes nos diversos meios de comunicação. Praticamente todos informam coisas semelhantes e privilegiam os mesmos aspectos da sociedade tribal: que os índios fazem canoas, andam nus, gostam de se enfeitar e comem mandioca, mas, por outro lado, ninguém aprende nada sobre a complexidade de sua vida ritual, as relações entre esta e sua concepção do mundo ou da riqueza de seu sistema de parentesco e descendência

Opera-se com a noção de índio genérico, ignorando a diversidade que sempre existiu entre estas sociedades. Eles são tratados como se formassem um todo homogêneo e como se a generalização fosse a maneira correta de estudá-los. É evidente que as sociedades indígenas compartilham um conjunto de características comuns e que são estas características que as diferenciam da nossa sociedade e de outros tipos de sociedades. Mas estas sociedades são extremamente diversificadas entre si: cada uma tem uma lógica própria e uma história específica, habitam diversas áreas ecológicas e experimentaram situações particulares de contato e troca com outros grupos humanos. Têm, portanto, identidades próprias: cada sociedade Indígena se pensa e se vê como um todo homogêneo e coerente e procura manter suas especificidades apesar dos efeitos destrutivos do contato. Um Guarani ou um Yanomami, apesar de índios, vão continuar se pensando como um Guarani e como um Yanomami, donos de uma rica diversidade sócio-cultural indígena.


O índio na história do Brasil

Num primeiro momento da nossa história, que começa com a chegada dos europeus, os índios da colônia são cordiais e amigáveis: carregam o pau-brasil em troca de bugigangas e miçangas, ajudam os portugueses a construir fortes e casas que dão origem às primeiras povoações e ensinam os brancos a sobreviver e conhecer a nova terra. Logo em seguida, entretanto, os índios começam a atrapalhar a colonização. São os Tamoios que se aliam aos franceses e promovem ataques aos núcleos dos brancos. O brasileiro é o português, neste momento, os franceses são estrangeiros e os índios os aliados, ora do estrangeiro, ora do brasileiro . De cordiais, os índios passam a ser traiçoeiros.

A colonização exige, por sua vez, trabalho, e o índio é mão-de-obra utilizada em toda a colônia. Nesse momento a figura do índio aparece ligada à do bandeirante, que expande o território e resolve o problema da mão-de-obra, escravizando índios e depois recapturando negros fugidos. Mas a escravidão negra só se inicia porque, como explicam vários manuais, o índio não era afeto ao trabalho: "eram preguiçosos" e sua índole para a liberdade não permitia que ele vivesse sob o jugo da escravidão. É nesse momento também que apareceu a figura do índio que deve ser "civilizado", ou melhor, "catequizado". Não são poucas as figuras que trazem Anchieta e Nóbrega com indiozinhos aos seus lados.

Mas depois disto, o índio desaparece, não antes de nos legar algumas generalidades: são tupis, adoram Jaci e Tupã e moram em ocas e tabas. E também uma herança: ensinam algumas técnicas, como a queimada, a fabricação de redes e esteiras e nos deixam suas lendas. Eles viram uma herança cultural a ser resgatada pela nacionalidade (Cf. Almeida, 1987:64-65). Tempos depois, ao se falar da necessidade de ocupação dos espaços vazios, não se fala mais de índios.

E como se o território do Centro-Oeste e do Norte do Brasil fosse virgem, como se ninguém morasse por lá (Cf. Almeida, 1987:37-40 e Telles, 1987:76-82). E é assim que chegamos aos índios atuais, isto quando chegamos, pois a maior parte dos livros didáticos não aborda a presença indígena no presente. Pulverizam-se dados, muitas vezes incorretos. Falam da existência de índios na Amazônia e no Xingu, lembram dos trabalhos de Rondon e dos Vilas-Boas e referem-se à FUNAI.


Bons e maus selvagens

Essas imagens diversas e contraditórias dos índios parecem encobrir uma dicotomia que perpassa toda a história: ou há índios vivendo isolados na Amazônia e protegidos no Xingu ou já estão contaminados pela civilização e a aculturação é seu caminho sem volta. Esta dicotomia pode ser escrita de outra forma: ou estão no passado ou vão desaparecer em breve. Tal perspectiva remete a duas vertentes opostas e sempre associadas: a do bom e mau selvagem. Sua origem talvez possa ser buscada nos primeiros anos do contato dos europeus com as populações do Novo Mundo, quando do célebre debate ocorrido em 1550 entre o dominicano Las Casas e o jurista Sepúlveda ou nas proposições filosóficas do século XVII representadas por Rousseau e Hobbes. O primeiro, argumentando que os índios representariam um estágio primitivo da humanidade, vivendo basicamente pelos seus instintos e o segundo, propagando a teoria da degenerescência, onde os índios viveriam num passado, numa era sem ordem e que só a civilização os levaria para o progresso.

Bom e mau selvagem são imagens opostas e parecem catalisar o imaginário sobre os índios na nossa sociedade. Imagens cristalizadas ao longo de séculos, diante delas não se pode ficar indiferente: ou os índios são bons e é preciso que os protejamos tais como eles são, ou os índios são maus e é preciso trazê-los logo à "civilização". Tais imagens tomam o homem civilizado como parâmetro para comparação. De um lado, há a figura do bom selvagem e do mau civilizado, que espelha uma fascinação pelo estranho e pela pureza, com valores e ideais a serem resgatados e, de outro, a figura do mau selvagem e do bom civilizado, marcando uma recusa do estranho, visto como um empecilho ao progresso da humanidade

Devemos reconhecer que estas duas imagens nos permitem uma aproximação da forma como a sociedade ocidental representa tais sociedades: contraditórias entre si, elas realizam uma simplificação da questão e demonstram a nossa incapacidade em compreender um outro, que é diferente, em seus próprios termos. É assim que a questão indígena tem estado envolta num ambiente de preconceito, intolerância e muita desinformação.

Continua-se a ignorar as pesquisas feitas pela história e pela antropologia no conhecimento do outro, que se revelam deficientes no tratamento da diversidade étnica e cultural existente no Brasil, dos tempos da colonização aos dias atuais, e da viabilidade de outras ordens sociais.

Para reduzir ou acabar com o preconceito e a discriminação é preciso gerar idéias e atitudes novas, num processo que deve ser levado tanto a nível individual como coletivo. Se levarmos em conta que atitudes preconceituosas implicam em apreciações feitas sem um conjunto de informações satisfatórias, é lógico esperar que, melhorando a informação, o resultado seja mudanças de atitude.



BIBLIOGAFIA

ALMEIDA, Mauro William Barbosa de . "O racismo nos livros didáticos" in LOPES DA SILVA, Aracy (org) - A questão indígena . SP: Brasiliense, 1987, págs. 13-71.

JUNQUEIRA, Carmen . Antropologia indígena - uma introdução. São Paulo: Educ, 1991.

LÉVI-STRAUSS, Claude. O Pensamento Selvagem. RJ: Zahar Ed., 1983.

LOPES DA SILVA, Aracy . Índios. Coleção Ponto-Por-Ponto. São Paulo: Editora Ática, 1988.

RAMOS, Alcida . Sociedades indígenas. São Paulo: Editora Ática. Série Princípios, 1986.

ROGNON, Fredéric. Os primitivos nossos contemporâneos. SP: Papirus, 1991.

TELLES, Norma - ''A imagem do índio equivocada, enganadora" in LOPES DA SILVA, Aracy (org) - A questão indígena . SP: Brasiliense, 1987.


O Brasil mal resolvido

Ecologistas disputam reservas florestais com comunidades indígenas

Pablo Pereira:
• Maurício Tuffani


O QUE RESTA

Índios buscam ocupar as poucas terras que os brancos deixaram intactas e ambientalistas querem preservar

Dez anos após ter sediado a conferência Rio-92, o Brasil chega às vésperas da Rio+10, marcada para agosto em Joanesburgo, na África do Sul, sem ter feito uma importante lição de casa. O país não resolveu nem tem um projeto para solucionar o impasse entre dois interesses que deveriam ser harmoniosos: o de sociedades indígenas que desejam viver nas florestas e o de ambientalistas e cientistas que defendem as matas para preservação e pesquisa científica.

Entre os dois interesses, pendendo às vezes de um lado e às vezes de outro, está a sociedade. Sem falar na Igreja, cuja Campanha da Fraternidade este ano se inspira no tema indígena da "terra sem males".

O conflito entre indigenistas e conservacionistas no Brasil vinha sendo camuflado pelas diversas entidades governamentais desde os anos 70 como "sobreposição de áreas indígenas e unidades de conservação". Mas explodiu no ano 2000, coincidentemente quando se comemorou o quinto centenário da chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral.

Em Novembro de 2000, cerca de mil técnicos de órgãos ambientais e pesquisadores, reunidos em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, aprovaram um manifesto ao presidente da República, pedindo a "imediata retirada dos invasores" de parques e estações ecológicas. Não era um protesto informal, mas um documento oficial do 2º Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. Ressaltava que o país havia reservado 11% do seu território como áreas indígenas, mas em menos de 2% dessas áreas estava assegurada a proteção da biodiversidade.

SURPRESA NO PARQUE

Em Agosto, houve a invasão do Parque Nacional do Monte Pascoal, no sul da Bahia, por pataxós, os mesmos que tumultuaram em Abril as comemorações oficiais do Descobrimento, manifestando-se contra posseiros em suas terras. "Eles acabaram com a Mata Atlântica da reserva indígena do Monte Pascoal e agora estão derrubando a floresta do parque", disse à revista Época na ocasião Marília Marreco, presidente do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis). Mas o estopim da revolta ambientalista não aconteceu no Nordeste nem na Amazônia, mas no eixo Rio-São Paulo. Em 1992, índios guaranis nômades ocuparam o Parque Nacional do Superagui, no Lagamar, uma extensa área de estuários e lagoas do litoral entre São Paulo e Paraná com status de Patrimônio Natural da Humanidade, atribuído pela Unesco. As ocupações se estenderam rapidamente para São Paulo. Os guaranis se instalaram no Parque Estadual da Ilha do Cardo- so no mesmo ano. Na Estação Ecológica de Juréia-Itatins, entre o litoral sul e o Vale do Ribeira, a ocupação teve em 2000 apoio da Justiça: para impedir o agravamento de um conflito numa aldeia em Peruíbe, 24 famílias foram transferidas para a estação.

Em 1999, 49 índios, provenientes da região de Missiones, na Argentina, penetraram no Parque Estadual Intervales, no Vale do Ribeira, sul de São Paulo, e estabeleceram ali uma aldeia. Acostumada a agir com firmeza contra caçadores, palmiteiros e outros transgressores do meio ambiente, dessa vez a equipe do parque estava à frente de invasores protegidos por leis especiais. Desde 1973, o Estatuto do Índio estabelece que não podem ser considerados crimes atos praticados por pessoas de "origem e ascendência pré-colombiana" não integrados à sociedade não-índia.

Os sobreviventes

Quando se fala de índios brasileiros não se tem idéia do que representam essas populações. Hoje, são 345 mil indivíduos, divididos em 215 etnias segundo a Funai (Fundação Nacional do Índio). Esse número representa cerca de 0,2% dos brasileiros. Há também entre 100 mil e 190 mil índios fora das aldeias, nas periferias urbanas, e cerca de 500 grupos isolados em florestas.

Os números do Ibama são diferentes. O órgão ambientalista calcula que existam 325,6 mil índios no Brasil. A falta de dados confiáveis não é exclusividade do país. No livro Povos Indígenas no Brasil, editado pelo ISA (Instituto Socioambiental), a antropóloga Marta Azevedo diz que é assim em toda a América Latina. Segundo o ISA, existem 300 mil índios entre 216 etnias, das quais pelo menos 40 presentes também em países vizinhos, como os ianomâmis, na divisa com a Venezuela, e os guaranis. Muito menos que os 6 milhões estimados na época do Descobrimento.
Briga na Justiça

COMÉRCIO

O caso do Parque Estadual Intervales foi parar na Justiça. A Fundação Florestal de São Paulo processou a Fundação Nacional do Índio (Funai) e quer a desocupação da área pelos guaranis, que hoje são cerca de 80. A ação foi movida pelo órgão oito meses após uma reunião com a Funai e o Ministério Público Federal para buscar uma saída legal para a ocupação. A reportagem de GALILEU esteve em Intervales, um reduto da Mata Atlântica com cerca de 49 mil hectares que abriga diversas espécies de animais e plantas ameaçadas de extinção. Os índios ocupam uma clareira na área do Rio Manoelzinho, em Sete Barras, município de 13 mil habitantes, a 20 quilômetros de Registro. A Funai não deu autorização para entrar na área, mas a ação de reintegração de posse que está na Justiça, encaminhada pela Fundação Florestal, diz que "os invasores estão desmatando a área para a implantação de roça e provavelmente caçando e aprisionando espécies de fauna silvestre".

Em Sete Barras, a comunidade dos índios já começa a ter a simpatia dos moradores. "Eles falam pouco e sempre que chegam aqui trazem artesanato para vender", diz Terezinha de Jesus Vieira Campos, dona de uma banca de frutas ao lado da estação rodoviária da cidade. "São gente boa." Terezinha troca produtos da sua barraca por artesanato, uma das fontes de renda dos índios. A equipe do Intervales constatou no ano passado que obras de uma barragem, o prédio da escola e estrada de acesso já vinham sendo realizadas sem autorização do parque e sem nenhum licenciamento ambiental, onde há agora uma placa da Funai indicativa de área indígena.

"Pediremos a avaliação do caso para antropólogos, pois a lei exige isso, mas a Funai ainda não nos apresentou nenhuma", disse José Goldemberg, secretário do Meio Ambiente de São Paulo. Sua secretaria está estudando áreas próximas do parque para serem propostas à Justiça como alternativa para a comunidade invasora.

"Não há como fazer preservação com gente nos parques", afirma por sua vez Fábio Olmos, biólogo da Unesp (Universidade Estadual Paulista). "É preciso rediscutir a idéia de que populações tradicionais, sem relação direta com a civilização industrial ocidental e capitalista, vivem em harmonia com a natureza", acrescenta.

Olmos não está sozinho nessa tese. Ela foi apresentada pelo biólogo no polêmico estudo "Correção política e biodiversidade: a crescente ameaça das 'populações tradicionais' à Mata Atlântica", assinado também por mais dez pesquisadores e ambientalistas conceituados, como Miguel Serediuk Milano, Ibsen de Gusmão Câmara, Adelmar Coimbra Filho e outros. Apesar da posição desses especialistas, não há prova científica da ameaça de extinção de espécies provocadas por indígenas brasileiros. Mas para os ambientalistas que lutam pela preservação do pouco de floresta nativa que ainda resta depois de 500 anos de devastação dos brancos, até mesmo a limpeza de áreas para roçados e a derrubada de árvores de palmito significam um perigo.

"Essa discussão é um absurdo", disse a antropóloga Maria Inês Ladeira, do Centro de Trabalho Indigenista (CTI). Segundo ela, há um grande desconhecimento da cultura guarani, que traz preconceito contra os índios. "Eles têm outra concepção de território e de mundo", explica. Os guaranis vivem numa faixa que vai do Espírito Santo ao Rio Grande do Sul, estendida ainda ao Paraguai, Argentina e Uruguai. Maria Inês cita a motivação religiosa dos índios, que acreditam que no leste, onde nasce o sol, há uma terra na qual podem encontrar a divindade. É o que chamam de busca pela "terra sem males". Parques e reservas

CELEIRO

O Brasil tem 203 unidades de conservação federais, nome genérico para a rede de parques e florestas nacionais, além de estações ecológicas e reservas extrativistas. Há ainda 460 áreas protegidas por legislação ambiental dos Estados em 20 milhões de hectares. Juntas, essas áreas federais e estaduais compõem um bloco de mais de 45 milhões de hectares, equivalente a pouco menos de 8% do território brasileiro.

Esse número, no entanto, ainda está abaixo da meta de preservação de 10% de biomas, considerada compatível com a conservação da biodiversidade, segundo as conclusões do 4º Congresso Internacional de Áreas Protegidas, em Caracas, em 1992. Essa é a meta adotada pelo governo brasileiro. Do outro lado dessa polêmica, sob a proteção da Funai, há os interesses de uma população de 325,6 mil índios distribuída em 561 áreas indígenas, total que corresponde a 10,8% do território nacional.

A sobreposição das áreas indígenas com as unidades de conservação atravessa o país. Da Amazônia – onde as pressões sobre as comunidades indígenas e ecossistemas são fortes, mas são diluídas pela vastidão – à Mata Atlântica, um conjunto de florestas, mangues, restingas e outros ecossistemas reduzido a somente 7% da cobertura original, que havia há 500 anos, no Descobrimento.

No extremo norte, nos Estados de Roraima e Amazonas, o Parque Nacional do Pico da Neblina, de 2,2 milhões de hectares, está sobre 9,6 milhões de hectares de terras dos ianomâmis. Duas outras áreas – a Floresta Nacional de Roraima (2,6 milhões de hectares) e a Floresta Nacional do Amazonas (1,5 milhão de hectares) – também estão em disputa de posse.

Outros casos
CULTURA INDÍGENA

Para biólogos, é preciso rediscutir mito do índio vivendo em harmonia com a natureza.

A falta de uma definição sobre a questão e a imunidade às leis por parte dos índios têm deixado os órgão ambientais vulneráveis. Foi o que ocorreu em 2000, quando, na iminência de um ataque de índios, agentes do Ibama abandonaram às pressas uma parte do Parque Nacional do Araguaia. Com 2 milhões de hectares entre Tocantins e Mato Grosso, incluindo a maior ilha fluvial do mundo, a do Bananal, o parque abriga um raro ecossistema de transição entre o Cerrado e a Floresta Amazônica. Sua área já havia sido reduzida para abrigar índios.

Mas em 1999, o Ibama foi surpreendido pela Funai, que começou a demarcar mais 400 mil hectares. Em uma reunião com os dois órgãos para resolver a situação, líderes javaés e carajás disseram que não queriam negociar e haveria invasão. Após o Ibama sair da área, a Funai prosseguiu na demarcação.

Apesar de ter agido assim naquela e em outras ocasiões, nem sempre a Funai se valeu do Estatuto do Índio para garantir o direito desses povos de permanecer nas áreas que ocupam. Foi o caso dos panarás, os "índios gigantes" – muitos deles tinham cerca de 2 metros de altura – apresentados à imprensa em 1973 como krenhakarores, nome dado a eles pelos caiapós, os inimigos com quem foram obrigados a viver dois anos depois, ao serem levados ao Parque Indígena do Xingu. O motivo do exílio forçado de suas terras no Mato Grosso para o Pará não foi a implantação de uma unidade de conservação, mas as obras da Rodovia Cuiabá-Santarém, uma das mais devastadoras da Amazônia.

Um exemplo recente da confusão do conflito entre Ibama e Funai foi o decreto de demarcação da área indígena Enawane-nawe, que revogou um artigo de outro decreto, que criou em 1996 a Estação Ecológica do Iquê, em Mato Grosso. "Nem o ministro da Justiça nem o presidente da República podiam notar no texto que assinaram que o artigo anulado definia a área de uma unidade de conservação", comentou Paulo Nogueira-Neto, professor de ecologia da USP e secretário especial do Meio Ambiente do governo federal de 1974 a 1985.

Nogueira-Neto também deu um exemplo no sentido contrário: a criação do Parque Nacional do Pico da Neblina, no Amazonas, em área onde vivem milhares de ianomâmis e outras etnias. (Veja nesta reportagem o mapa da sobreposição de áreas indígenas e de preservação.)A visão da Igreja

Na escolha entre índios e áreas de conservação, o que vale é a precedência histórica desses povos, de acordo com Egon Heck, secretário-executivo do Cimi (Conselho Indigenista Missionário), vinculado à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Segundo ele, muitos ecologistas exageram ao falar do impacto de índios em florestas e se esquecem que foram os não-índios que devastaram 93% da Mata Atlântica e 14% da Floresta Amazônica. É preciso, diz Heck, ver que os povos indígenas não vêem o mundo com a lógica da acumulação do capital.

Engajado no tema da Campanha da Fraternidade deste ano – "Por uma terra sem males" – , d. Demétrio Valentini, bispo de Jales, ressalta que a Igreja há muito tempo deixou de atuar junto aos povos indígenas com o objetivo de catequizá-los, e hoje busca uma aproximação espiritual. Para o bispo, a escolha do tema da campanha se fundamenta na identificação da busca indígena da "terra sem males" com a idéia bíblica da "terra prometida".

Ideia engavetada

Enquanto o governo patina sem chegar a uma proposta, a sociedade se articula para tentar obter resultados. O Instituto Socioambiental, ONG ambientalista e indigenista, apresentou a proposta de criação de uma nova categoria de unidade de conservação, a Reserva Indígena de Recursos Naturais, que pressupõe a aprovação pelos órgão ambientais e o planejamento do uso dos recursos naturais formulado e executado com a comunidade indígena e pelos indigenistas e ambientais. "Faltou vontade política para inserir nossa proposta na lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, que obriga os órgãos governamentais a falar a mesma língua nos temas ambientais e indigenistas", disse João Paulo Capobianco, diretor do ISA.

Procurados pela reportagem, a Funai e o Ministério do Meio Ambiente não se pronunciaram sobre o conflito que vivem apesar de a harmonia entre a conservação ambiental e as comunidades tradicionais, entre elas a indígena, constar da Agenda 21, estabelecida entre diversos países na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92. Mas terão de se manifestar. Esse e outros compromissos serão avaliados em agosto na Rio+10, em Joanesburgo, na África do Sul.ANOTE

Para navegar

Fundação Nacional do Índio
www.funai.gov.br
Ibama
www.ibama.gov.br
• Instituto Socioambiental
www.socioambiental.org
Cimi/CNBB
www.cimi.org.br

Para ler

• Povos Indígenas no Brasil , Inst. Socioambiental. São Paulo. 2001
• "Correção política e biodiversidade: a crescente ameaça de 'comunidades tradicionais' à Mata Atlântica" in Ornitologia e Conservação. Sociedade Brasileira de Ornitologia. 2001. Tubarão, SC

in    http://galileu.globo.com/edic/129/rindio1.htm