A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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quarta-feira, agosto 22, 2012

Eugénio Rosa - Desemprego é mera nota negativa para Passos Coelho


Avante!

  • Eugénio Rosa 


Desemprego é mera nota negativa para Passos Coelho
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Os portugueses ficaram a saber pela boca do 1.º ministro, no discurso que fez na festa do PSD no Pontal, que o desemprego em Portugal não é um problema importante para Passos Coelho, porque «o que era importante não falhámos»; o desemprego é uma mera «nota negativa» para  utilizar também as próprias palavras do 1.º ministro. E isto no dia em que o INE divulgou os dados sobre o desemprego do 2.º trimestre de 2012, que revelavam que 1,3 milhões de portugueses estavam desempregados ou subempregados por falta de trabalho, e estatísticas recentes da Segurança Social informavam que o número de desempregados a receber subsídio de desemprego tinha diminuído no 2.º trimestre deste ano, apesar do desemprego continuar a aumentar. Mas analisemos os dados divulgados pelo INE e pela Segurança Social para se poder avaliar a dimensão da insensibilidade social e da falta de respeito do 1.º ministro pelos desempregados.

O INE, na informação referente ao 2.º trimestre de 2012, utilizou dois conceitos novos que é importante ter presente para compreender os dados do Quadro anexo. O primeiro, é o «Subemprego de trabalhadores a tempo parcial» que, segundo o INE, corresponde ao «conjunto de indivíduos empregados dos 15 aos 74 anos que, no período de referência em que foi realizado o inquérito, tinham um trabalho a tempo parcial (inclui os «biscates» para sobreviver) e declararam pretender trabalhar mais horas do que as que habitualmente trabalham e estavam disponíveis para isso»; portanto, são pessoas que desejam trabalhar mais para obter uma melhor remuneração e que só o não fazem porque não encontram trabalho. Este conceito substitui o «subemprego visível» que o INE utilizava anteriormente. O segundo conceito novo é o de «inativo disponível mas que não procura emprego» que é, segundo o INE, o «inativo com idade dos 15 aos 74 anos que, no período de referência, estava disponível para trabalhar, mas não tinha procurado um emprego ao longo do período de referência ou nas três semanas anteriores ao inquérito do INE». Este conceito substitui o anterior de «inactivo disponível», que incluía também os «inactivos disponíveis desencorajados» – os que tinham deixado de procurar emprego porque já não acreditavam que o conseguissem arranjar. Portanto, estes dois grupos abrangidos pelos novos conceitos utilizados pelo INE, que os adoptou por serem usados pelo Eurostat, são constituídos (ambos) por portugueses que estão aptos e disponíveis para trabalhar mas que ou não o fazem ou o fazem apenas um número reduzido de horas porque não encontram trabalho. Na prática, ou estão totalmente sem trabalho ou apenas conseguem trabalhar poucas horas.

Assim, o desemprego oficial, que no 2.º trimestre de 2012 atingiu a taxa 15% (15,4% segundo o Eurostat), o que corresponde a 829,6 mil desempregados (849 mil de acordo com o Eusrostat), ascende de facto – se somarmos aqueles dois grupos, um de desempregados e o outro de subempregados – a 1 305 300, o que corresponde a uma taxa de desemprego real de 22,8%. Apesar disso, no fim do 2.º trim./2012, apenas 356,5 mil desempregados (43,1% do desemprego oficial; 27,3% do desemprego real) recebiam subsídio de desemprego, segundo a Segurança Social. E não obstante o desemprego continuar a crescer, o número de desempregados a receber subsídio, que tinha aumentado até ao 1.º trim./2012 para 360,7 mil, no 2.º trim./2012 diminuiu para 356,5 mil. Mas isto não é um problema importante para o 1.º ministro; nas suas palavras é apenas uma «nota negativa».

Acresce que o desemprego de longa duração está a aumentar muito, como revelam os dados do INE.

Entre o 2.º trim./2011 e o 2.º trim./2012, o desemprego de longa duração, ou seja, com mais de um ano, passou de 372,3 mil para 443,3 mil, representando já 53,6% do desemprego oficial total. Para a maioria destes desempregados de longa duração isso significa a crescente exclusão do mercado de trabalho, pois devido à sua baixa escolaridade (63,1% tinham o Ensino Básico) será cada vez mais difícil encontrar emprego. Mas para o 1.º ministro, isso também não é um problema importante, o que é importante é obter uma avaliação positiva da troika.


A «regra de ouro» salazarista


No discurso que fez no Pontal, Passos Coelho não falou uma única vez de qualquer medida para impulsionar o crescimento económico, nem para criar emprego. Certamente porque isso também não é um problema importante para ele, ou então porque acredita, cego pela ideologia neoliberal, que as «avaliações positivas da troika trarão, como por milagre, o crescimento económico. No entanto, o 1.º ministro foi ao baú das velharias salazaristas e retirou dele aquilo que chamou a «regra de ouro» de qualquer governo a qual, segundo ele, devia ser inscrita na Constituição para obrigar todos os governos a respeitá-la. E essa «regra de ouro» é que o governo nunca devia fazer qualquer despesa que aumentasse a dívida. E isto com a justificação de não sobrecarregar as gerações futuras que teriam de pagar essa dívida. A ignorância sobre a economia e tacanhez desta «regra de ouro» salazarenta tornam-se claras quando a confrontamos com a realidade.

Suponha-se um investimento na construção de um hospital, ou de uma escola, ou de uma universidade, ou ainda de uma estrada, ou então medidas para impulsionar o crescimento económico e o desenvolvimento do País. É evidente, pela duração da sua vida útil, que esse hospital, essa escola, essa estrada vão ser utilizadas também pelas gerações futuras, assim como o crescimento económico e o desenvolvimento do País vão também beneficiar as futuras gerações. Se o Estado nunca se pudesse endividar para fazer esse tipo de investimentos, tal significaria que as gerações actuais teriam de pagar integralmente esses investimentos, embora eles fossem também utilizados pelas gerações futuras, ou então que esses investimentos não se realizariam e o País não se desenvolvia. A «regra de ouro» salazarista, agora também adoptada por Passos Coelho, a vingar só poderia conduzir o País ao atraso e à anemia económica, tal como sucedeu no salazarismo.

A defesa do investimento público com base no endividamento não significa que todos os investimentos públicos sejam bons investimentos e por isso devam ser realizados. A situação que o País actualmente enfrenta também resultou de maus investimentos públicos. São exemplos a compra dos submarinos; a construção de estádios de futebol que não são utilizados; as rendas excessivas pagas pelo Estado a grandes empresas como a EDP e Mota-Engil, que ninguém tem coragem para reduzir, embora não se canse de o prometer; benefícios fiscais enormes concedidos às grandes empresas como à GALP e à banca, a construção de centenas de quilómetros de auto-estradas quando era suficiente uma boa estrada; e múltiplas despesas onde se continua a desbaratar impunemente fundos públicos (leia-se o livro recente de Bárbara Rosa e Rui Oliveira, a Má despesa pública, que é esclarecedor). Há boa despesa pública e má despesa pública, e é necessário e urgente boa despesa pública para tirar Portugal da recessão económica e para criar emprego. Mas a cegueira neoliberal e o espírito de classe impedem Passos Coelho e Vítor Gaspar de compreenderem este ensinamento elementar da ciência económica. Nenhuma empresa funcionaria nem se desenvolveria com gente com esta miopia e tacanhez à frente.

terça-feira, maio 03, 2011

Alterações no apoio ao desemprego farão subir a pobreza



Finanças: Governo apresenta amanhã plano

Mudar subsídio ameaça 300 mil

Alterações no apoio ao desemprego farão subir a pobreza
  • 03 Maio 2011
Por:António Sérgio Azenha/C.R.


A introdução de alterações no subsídio de desemprego, no âmbito do plano de ajuda financeira externa a Portugal, irá contribuir, segundo alguns especialistas, para o aumento da pobreza entre os desempregados. A confirmar-se esta medida, as mudanças irão afectar cerca de 300 mil pessoas, metade do número total de indivíduos sem emprego. Para já, a troika entregou ontem ao Governo a sua proposta para conceder ajuda a Portugal. E hoje o plano deverá ser entregue aos partidos da oposição.
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O plano da troika, constituída pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Central Europeu (BCE) e Comissão Europeia, que será apresentado amanhã pelo Governo, é conhecido apenas de um núcleo muito restrito de pessoas no Executivo. Só que, dados os sinais revelados pelos técnicos da troika nas reuniões com os parceiros sociais, é dado como garantido que o subsídio de desemprego poderá sofrer mudanças importantes: desde logo, o seu período de duração poderá não só passar a ser inferior a 12 meses, como não é de excluir a possibilidade de o seu valor ser diminuído. 
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Para Bettencourt Picanço, presidente do Sindicato dos Quadros Técnicos do Estado (STE), a verificarem-se alterações no subsídio de desemprego, "a consequência óbvia é o empobrecimento ainda mais acentuado dos portugueses". Para este dirigente sindical, "as medidas deviam ir no sentido de fomentar a competitividade da economia", mas tudo indica que "se esteja a caminhar para uma Europa liberal".
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Eugénio Rosa, especialista em assuntos sociais, concorda com esta análise: a diminuição do período de atribuição do subsídio de desemprego ou a redução do seu valor "vai fazer cair os desempregados em situações de miséria", afirma.
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Para este especialista em assuntos sociais, mexidas negativas no subsídio de desemprego "agravam a situação social, mas não resolvem o problema do défice orçamental"
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CONSTÂNCIO GANHA 25 MIL EUROS/MÊS
O ex-governador do Banco de Portugal Vítor Constâncio ganhou 180 mil euros por sete meses de trabalho no Banco Central Europeu (BCE), o que dá uma média superior a 25 mil euros por mês. Constâncio tomou posse como vice--presidente do BCE a 1 de Junho de 2010. Em 2009, o ex--governador auferiu um salário anual superior a 249 mil euros, o que dá uma média de 17 800 euros por mês. 
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Jean-Claude Trichet, presidente do BCE, ganhou 387 mil euros. 
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Vítor Constâncio disse ontem esperar um "consenso" entre todas as instituições da troika e as autoridades portuguesas em torno de um eventual alargamento dos prazos para a correcção do défice. Falando aos jornalistas à saída de uma conferência conjunta do BCE e da Comissão Europeia, em Bruxelas, Constâncio referiu que "a decisão do Ecofin sublinhava desde o princípio que era necessário um consenso nacional mais alargado, para permitir que houvesse verdadeiramente um compromisso do país em relação ao cumprimento das medidas".  
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CATROGA INSISTE NA FALTA DE INFORMAÇÃO
O tom é duro, mas o PSD "não deixará de assumir as suas responsabilidades". O representante do PSD nas negociações de ajuda externa, Eduardo Catroga, conclui assim a quinta carta ao Governo desde 13 de Abril e acusando-o de "opacidade". Exige respostas e responsabiliza o Executivo por um "País à beira da bancarrota", tal como em 1892, facto que é "uma tragédia nacional". Ontem, na carta a Silva Pereira, diz que o PSD não recebeu a devida informação e que carta do Governo de 29 de Abril, faz "considerações de ordem política que o PSD repudia".

quarta-feira, abril 06, 2011

Informação Económica Alternativa - Eugénio Rosa

Eugénio Rosa - Economista

A maior parte da informação divulgada sobre a economia e a sociedade portuguesa nos media é dominada pelo pensamento neoliberal, porque é este que tem acesso privilegiado aos media. Este domínio é tão grande que atinge os próprios meios académicos podendo-se falar, com propriedade, de um pensamento económico único dominante. Quem esteja familiarizado com a ciência económica, sabe bem que a economia não está acima dos interesses de classe que se confrontam na sociedade, e o neoliberalismo defende os interesses do poder económico dominante nas sociedades capitalistas actuais. Nos estudos disponíveis neste “site” procura-se analisar  os problemas económicos e sociais numa perspectiva  diferente, que é a dos interesses dos trabalhadores. No entanto, não existe qualquer pretensão de substituir um pensamento único por outro, mas apenas o propósito de fornecer ao leitor uma outra forma de analisar os problemas económicos e sociais, para que ele, confrontando-a com a do pensamento neoliberal dominante nos media,  forme a sua própria opinião, que é o mais importante. A verdade só poderá surgir do confronto democrático de ideias e nunca da imposição de um pensamento único como se pretende actualmente.
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Para facilitar a pesquisa do leitor agrupamos os estudos por temas e dentro destes com indicação da data da sua elaboração, pois os estudos são datados.
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Consulte estudos nas seguintes áreas:
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Administração Pública   Crescimento Económico, Defices, Crise   Desigualdades Regionais   Empresas Publicas   Grupos Económicos   Impostos   Orçamento do Estado e Segurança Social   Política de Crédito   Preços   Quadros Comunitários e QREN   Qualidade do Investimento   Salários / Produtividade   Transportes   Outros Temas  Comunicação e Media   Desigualdades Sociais   Direito do Trabalho   Educação e Formação   Emprego e Desemprego   Injustiça na Repartição do Rendimento   Saúde   Segurança Social, CGA, Fundos Pensões   Situação da Mulher  

ÚLTIMO ESTUDO   

quarta-feira, janeiro 05, 2011

O desemprego está a aumentar em Portugal

  • Eugénio Rosa

Governo esconde a verdade
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Os dados do INE sobre a evolução do desemprego em Portugal revelam que o desemprego não pára de aumentar em Portugal. O número oficial de desempregados atingiu os 609,4 mil no 3.º trimestre de 2010, mas o número real, calculado também com base em dados do INE, atingiu já 761,5 mil desempregados. 
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Com o objectivo de desacreditar estes números oficiais, o Governo tem utilizado o desemprego registado divulgado pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) que só abrange os desempregados que se inscreveram nos Centros de Emprego. Todos os que não se inscreveram (e são muitos) não constam desses dados. E mesmo os dados do IEFP são reduzidos administrativamente como se vai provar.
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O Gráfico I, construído com os dados mensais do IEFP, mostra a grande diferença entre o número de desempregados que se inscreveram mensalmente nos Centros de Emprego e o número de desempregados a quem os Centros de Emprego conseguiram arranjar trabalho.
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Entre 1 de Janeiro e 30 de Novembro de 2010 inscreveram-se nos Centros de Emprego 631 972 novos desempregados, ou seja, uma média de 57 452 desempregados por mês. Durante o mesmo período de tempo, os Centros de Emprego conseguiram arranjar trabalho para apenas 65 828 desempregados, ou seja, uma média de 5984 por mês. Assim, o número de desempregados que se inscreveram no período Janeiro/Novembro 2010 foi superior ao número dos que arranjaram trabalho em 566 144. Apesar disto, o número de desempregados inscritos nos Centros de Emprego não aumentou; até diminuiu.
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O Gráfico II, construído também com dados do IEFP, mostra o desemprego registado no fim de cada mês que foi divulgado pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional.
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Apesar de o número de novos desempregados inscritos ser 9,6 vezes superior ao número daqueles a quem estes Centros conseguem arranjar trabalho, o desemprego registado divulgado pelo IEFP no 2.º semestre é inferior ao do 1.º semestre como revela claramente o Gráfico anterior.
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O Gráfico III, construído igualmente com dados divulgados mensalmente pelo IEFP, mostra o número de desempregados eliminados em cada mês dos ficheiros dos Centros de Emprego. Entre 1 de Janeiro e 30 de Novembro de 2010 foram eliminados dos ficheiros 543 892 desempregados, ou seja, uma média de 49 445 desempregados por mês.
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Apesar de ser um número tão elevado, o IEFP nunca apresentou na informação que divulga todos os meses as razões desse facto, apesar de solicitado a fazê-lo, assim como da variação que se verifica de mês para mês como revela o Gráfico (Jan. 2010: eliminados 29 389; em Nov. 2010: 59 722).
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O Gráfico IV, também construído com dados do MTSS, mostra o número de desempregados inscritos nos Centros de Emprego e o número desses a receber subsídio de desemprego.
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Em Janeiro de 2010, o número de desempregados a receber o subsídio de desemprego representava 63,8% do numero total de desempregados inscritos; e, em Novembro de 2010, essa percentagem diminuiu para apenas 57,4%. É clara a redução do apoio aos desempregados em Portugal. E tenha-se presente que muitos desempregados não estão inscritos nos Centros. Por isto também a miséria está a aumentar em Portugal perante a indiferença do Governo
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Avante 2010 12 30
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segunda-feira, dezembro 27, 2010

Despedimentos - Corte nas indemnizações pode chegar aos 25%

Victor Nogueira Eles comem tudo, eles comem tudo ...
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Corte nas indemnizações pode chegar aos 25% - Exclusivo CM - Correio da Manhã
www.cmjornal.xl.pt
Governo atento a exemplo da reforma laboral espanhola. Empresários querem que subsídio de desemprego cubra todas as rescisões por mútuo acordo.

Duarte Roriz
Helena André e João Proença admitem discutir indemnizações

Trabalho

Corte nas indemnizações pode chegar aos 25%

Governo atento a exemplo da reforma laboral espanhola. Empresários querem que subsídio de desemprego cubra todas as rescisões por mútuo acordo.
  • 10 Dezembro 2010 - Correio da Manhã
Por:Pedro H. Gonçalves/S.C.


O Governo quer negociar uma redução das indemnizações em caso de despedimento e está atento ao exemplo espanhol: a indemnização mínima passaria de um mês de salário por cada ano de trabalho para perto de 75 por cento. Ou seja, será um corte de 25 por cento.
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Esta e outras alterações serão discutidas por Helena André com os parceiros sociais em sede de Concertação. José Sócrates reuniu-se esta semana com a UGT e a CGTP e hoje recebe os patrões com o objectivo de chamar a atenção para as potencialidades "não utilizadas" no actual Código Laboral, de forma que se diminuam os custos de contexto das empresas. Hoje, o valor das indemnizações é, por lei, um mínimo de um mês de salário por cada ano de trabalho. Só nos casos em que se verifique a ilicitude do despedimento é que o tribunal poderá decidir a reintegração ou uma indemnização entre 15 a 45 dias de salário por ano. Se tomarmos como exemplo uma pessoa que ganhe 800 euros e seja despedido ao fim de dez anos, esta receberá oito mil euros de indemnização. Se for adoptado o modelo espanhol, vai receber seis mil euros. É uma diferença de dois mil euros. 

A possibilidade de as empresas pagarem menos no momento do despedimento permitiria uma maior flexibilização do mercado laboral e uma maior competitividade ao tecido empresarial, segundo o Governo. As reuniões ainda estão numa fase preliminar, mas o CM sabe que José Sócrates só quer aplicar estas regras aos novos contratados. 
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Mas para os patrões, apurou o CM, mais importante do que reduzir o valor das indemnizações é abolir as quotas de acesso ao subsídio de desemprego no caso das rescisões por mútuo acordo. É que os empresários queixam-se de terem trabalhadores que até querem sair, mas não o fazem porque, se aceitarem a indemnização, ficam sem direito ao subsídio de desemprego. A redução das indemnizações não terá grande impacto no orçamento das empresas. "A maioria dos patrões até prefere pagar mais do que aquilo que a lei prevê através da rescisão por mútuo acordo para evitar que o processo se prolongue nos tribunais", explica ao CM Eugénio Rosa, economista e membro da CGTP.
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Bruxelas tem pressionado para que em Portugal seja mais barato despedir. Mas Sócrates garantiu que não precisa de "sugestões" da União Europeia. 
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GOVERNO REÚNE-SE COM BANCADA PARLAMENTAR
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Os deputados do PS vão reunir--se com o Governo para discutir uma eventual alteração às leis laborais, de acordo com o líder da bancada socialista, Francisco Assis. 
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"Não abordámos especificamente esse assunto, mas ficou decidido que haverá brevemente uma reunião dos nossos deputados que trabalham nessa área com os membros do Governo que dirigem esse sector", disse Assis, após o encontro semanal da bancada socialista. 
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Sobre esta matéria, a deputada do PS Ana Freitas afirmou que o actual Código do Trabalho "contém soluções como a flexibilidade funcional, de tempo de trabalho, mecanismos de conciliação entre a vida pessoal e profissional, que precisam de ser agilizados". "Aquilo que está em cima da mesa não é o papão dos despedimentos nem da flexibilização", garantiu. 
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"ISTO É O DOMÍNIO DO CAPITAL SELVAGEM"
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A Igreja Católica não concorda com a facilitação dos despedimentos que está, nesta altura, a ser discutida em Portugal. Os bispos entendem que este tipo de medidas é, por norma, a "abertura de portas" para outras ainda mais prejudiciais para os trabalhadores. Para o bispo de Beja, D. António Vitalino Dantas, "este caminho é extremamente preocupante e deve ser combatido".
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.O prelado vai mais longe ao afirmar, em declarações ao CM, que "isto é revelador do domínio do capitalismo selvagem sobre a economia". No entanto, o prelado considera que não há maneira de fugir às regras que vão sendo impostas pela União Europeia e que os portugueses têm de se adaptar à realidade. "Sabemos bem que o nosso País não está sozinho e que tem de aceitar as regras europeias, mas temos de lutar para que essas regras sejam aplicadas dentro do respeito pela pessoa humana", afirma D. Vitalino. 
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DISCURSO DIRECTO
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"NÃO HÁ RIGIDEZ LABORAL EM PORTUGAL", Eugénio Rosa, Economista e membro da CGTP
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Correio da Manhã – Considera que a redução das indemnizações terá um impacto positivo na economia?
Eugénio Rosa – Não deve ter muito significado na prática. Os empresários optam pelo mútuo acordo e a prática é pagarem acima do mínimo legal para evitar que o processo se prolongue nos tribunais.
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Mas não acha que iria tornar o mercado laboral mais flexível?
– Essa é uma falácia. Usando números oficiais, em Dezembro de 2006, foram criados 119 mil empregos e destruídos 147 mil. Não há rigidez. E a isto temos de somar os contratos a prazo. Temos é precariedade laboral.
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– E as empresas não seriam mais produtivas por poderem despedir de forma mais fácil?
– Não me esqueço do que escreveu um director de recursos humanos da Autoeuropa sobre isso: não se pode estar sempre a despedir e a contratar, perde-se a experiência acumulada. 
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terça-feira, outubro 26, 2010

A mentira como instrumento de manipulação da opinião pública



– é falso que o salário mensal na Administração Pública seja superior em 75% ao do sector privado como divulgaram os media

por Eugénio Rosa [*]

RESUMO DESTE ESTUDO

Na semana de 13/17 de Julho de 2009, a Agência Lusa, e depois a maioria dos órgãos de comunicação, incluindo a TV, acabaram por colaborar numa gigantesca operação de manipulação da opinião pública. Para isso, foi utilizado um estudo divulgado no Boletim Económico – Verão de 2009 do Banco de Portugal, que, segundo os autores da noticia, provava que "os funcionários públicos auferem um salário mensal claramente acima dos seus congéneres do sector privado e o diferencial aumentou ao longo do tempo, passando de 50% em 1996 para quase 75% em 2005" Desta forma, ficava justificada a politica deste governo contra os "privilegiados" da Administração Pública (uma ajuda para a campanha eleitoral de Sócrates), por um lado, e, por outro lado, preparava-se já a opinião pública para que o futuro governo continuasse a reduzir as condições de vida destes trabalhadores. Uma análise objectiva de todo o estudo do Banco de Portugal, e não apenas de alguns dados retirados do seu contexto, revela que a notícia dada pelos media é falsa.

Na pág. 65 do referido estudo do Banco de Portugal encontra-se a passagem anterior que foi utilizada pelos media no seu ataque à Administração Pública. Mas logo a seguir, na pág. 66, do mesmo estudo chama-se a atenção que " Os diferenciais brutos que temos vindo a referir podem ser indicadores erróneos de desigualdade salarial, já que remunerações mais elevadas podem ser justificadas, por exemplo, por uma maior dotação de capital humano", ou seja, por uma maior escolaridade e qualificação. E logo na mesma página do estudo refere-se que "a proporção de funcionários públicos que reportam educação universitária ronda os 50% em 2005, enquanto no sector privado esta corresponde a pouco mais de 10%". Mas tudo isto foi ocultados pelos media.

Utilizando os valores dos rendimentos auferidos pelos trabalhadores por conta de outrem de acordo com o seu nível de escolaridade obtidos através do "Inquérito às despesas das famílias 2005/2008" realizado pelo INE, e tendo em conta a percentagem de trabalhadores no sector público e no sector privado em cada nível de escolaridade, conclui-se que só o efeito da escolaridade mais elevada que existe na Administração Pública, explica que o salário médio ponderado anual nesta seja superior em 58% ao do sector privado. Por outras palavras, devido ao facto de 50% dos trabalhadores da Administração Pública terem formação superior, enquanto no sector privado são apenas 10%, e como os trabalhadores com formação superior auferem, em média, um salário muito mais elevado do que aqueles que apenas possuem o ensino básico ou secundário, o salário médio ponderado na Administração Pública teria de ser superior em 58% ao do sector privado.

Mas as razões das diferenças salariais não resultam apenas do efeito escolaridade. Na pág. 68 do estudo reconhece-se "que a disparidade salarial bruta entre os dois sectores apresentada na última secção é largamente explicada pelas diferenças nas características da mão de obra". Assim, segundo o estudo divulgado pelo Banco de Portugal, devido a essas características verifica-se, "em termos do salário mensal, que a diferença passou de 10% em 1996, para 15% ou um pouco mais na década que se seguiu" (pág. 68), portanto valores muito inferiores aos 50% e 75% divulgados pelos media. E mesmo esta diferença 15% não corresponde à realidade.

Em 2006, o governo de Sócrates, contratou a CAPGEMINI , que é uma das maiores empresas do mundo de serviços de consultoria, para fazer um "Estudo Comparativo de Sistemas de Remuneração entre os Sectores Público e Privado". E as conclusões a que esta empresa chegou desagradaram o governo de tal forma que ele fez desaparecer o estudo apesar do seu elevado custo para o erário público (em 2006, na Assembleia da República, durante o debate do Orçamento do Estado, em que participamos, solicitamos ao ministro das Finanças que fornecesse o estudo aos deputados, o que ele recusou). Segundo o estudo da CAPGEMINI, por categorias profissionais as remunerações dos trabalhadores da Administração Pública eram inferiores aos do sector privado nas seguintes percentagens: (1) Grupo técnico : entre -188% e -156%; (2) Grupo Técnico-profissional : entre -75% e -46%; (3) Grupo administrativo : entre -89% e -55%; (4) Grupo de auxiliares : entre -19% e - 27%; (5) Grupo de operários : entre -26% e -65%. O estudo divulgado pelo Banco de Portugal apenas analisa por categorias profissionais um grupo de trabalhadores: os com formação superior. E, em relação a este grupo, chega a conclusões opostas às divulgadas pelos média. Segundo o Banco de Portugal, o s salários destes trabalhadores eram em 2005, em média, inferiores aos do sector privado em -5,9% (quadro 4, pág. 76). E há profissões em que a penalização é muito maior. Por ex., os salários dos trabalhadores de informática da Administração Pública eram inferiores aos do sector privado em -13,8%; os dos economistas em -18,6%; e os salários dos não especialistas em -9,3%. Se a análise for feita para os trabalhadores do 3º Quartil, portanto os com formação superior e com qualificação mais elevada, a penalização sobe de -5,9%, referida anteriormente, para -25,9%. Portanto, os salários destes trabalhadores da Administração Pública são, em média, inferiores em -25,9% do sector privado segundo o próprio estudo do Banco de Portugal. E no período 2005/2008, a desigualdade salarial agravou-se ainda mais, pois os salários na Função Pública aumentaram apenas 7,5%, enquanto os do sector privado subiram 13,5%. A questão que se coloca agora é esta: Terão os órgãos de comunicação que divulgaram aquela noticia falsa, manipulando assim a opinião pública, a honestidade de a corrigir informando com objectividade os seus leitores? Vamos ver.
Na semana de 13 a 17 de Julho de 2009, muitos órgãos de comunicação social nacional e regional, incluindo regiões autónomas, lançaram uma gigantesca e articulada campanha de manipulação da opinião publica utilizando alguns dados, retirados do seu contexto, de um estudo divulgado no Boletim Económico – Verão de 2009 do Banco de Portugal que acabara de ser publicado.

O Diário de Noticias de 17/07/2009, citando a Agência Lusa, escrevia que "os funcionários públicos auferem um salário mensal claramente acima dos seus congéneres do sector privado e o diferencial aumentou ao longo do tempo, passando de 50% em 1996 para quase 75% em 2005". Muitos outros órgãos de informação, incluindo a TV, utilizaram os mesmo dados para fazer caixas na 1ª página fazendo passar a mensagem junto da opinião pública que os "funcionários públicos continuam a ser um privilegiados", justificando assim a politica deste governo contra estes trabalhadores (uma ajuda para a campanha eleitoral de Sócrates), por um lado, e, por outro lado, preparando já a opinião pública para que o futuro governo continue a tomar medidas contra os funcionários públicos. No sábado seguinte, o DN, com "caixa" de 1ª página e artigo de opinião do director, continuava a mesma campanha agora utilizando os dias de férias e o horário da Administração Pública.

Uma análise objectiva e séria de todo o estudo divulgado pelo Banco de Portugal, e não apenas de algumas linhas desenquadradas do seu contexto, como fizeram a Agência Lusa e outros órgãos de comunicação social, leva a conclusões diferentes das divulgadas pela generalidade dos media. E isto apesar do estudo do Banco de Portugal se caracterizar pela falta de transparência e conter importantes deficiências e lacunas técnicas. É isso o que se vai procurar mostrar neste estudo.

O SALÁRIO MEDIO NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA TEM DE SER SUPERIOR AO DO SECTOR PRIVADO PORQUE A PERCENTAGEM DE TRABALHADORES COM O ENSINO SUPERIOR É CINCO VEZES SUPERIOR AO DO SECTOR PRIVADO

Na pág. 65 do estudo do Banco de Portugal pode-se ler, como foi divulgado pela Agência Lusa e outros media, que "os trabalhadores do sector público auferem um salário médio mensal claramente acima dos seus congéneres do sector privado, tendo o respectivo diferencial aumentado ao longo do tempo, de cerca de 50% em 1996 para quase 75% em 2005".

Mas esta conclusão baseia-se em salários brutos médios, que não têm em conta as diferenças grandes que existem quer a nível de escolaridade quer mesmo em relação a qualificações e profissões (por ex., no sector privado não existem juízes, mas os seus vencimentos entram no cálculo do salário médio utilizado pelos media), entre a Administração Pública e o sector privado. O próprio estudo divulgado pelo Banco de Portugal, na pág. 66, chama a atenção para isso: " Os diferenciais brutos que temos vindo a referir podem ser indicadores erróneos de desigualdade salarial, já que remunerações mais elevadas podem ser justificadas, por exemplo, por uma maior dotação de capital humano", ou seja, por uma maior escolaridade e qualificação. Apesar desta advertência dos autores do estudo, os media ocultaram-na e utilizaram aqueles valores "erróneos".

O estudo do Banco de Portugal refere-se a uma importante diferença que se verifica neste campo entre o sector público e o sector privado, que tem um reflexo muito grande no nível de remunerações auferidas pelos trabalhadores, que é a seguinte: "A proporção de funcionários públicos que reportam educação universitária ronda os 50% em 2005, enquanto no sector privado esta corresponde a pouco mais de 10%" (pág. 66). Para que se possa avaliar o efeito no salário dos diferentes níveis de escolaridade, apresentamos no quadro seguinte uma simulação construída com base, relativamente ao nível de rendimentos dos trabalhadores por conta de outrem, nos valores obtidos no inquérito às despesas das famílias 2005/2006 realizado pelo INE e, em relação às estruturas de escolaridade existente no sector público e no sector privado, os dados do Boletim do Observatório do Emprego Publico publicado pela DGAEP do Ministério das Finanças e da Administração Pública.

QUADRO I – Efeito do nível de escolaridade no rendimento médio dos trabalhadores da Administração Pública e do sector privado em 2005
RUBRICAS
Ensino básico
Secundário
e pós secundário
Superior
Rendimento
médio anual
Rendimento médio anual – TCO (*) 9.335 € 16.743 € 28.538 €  
% Trabalhadores em relação total (**)        
Administração Pública 41,8 12,9 45,3 18.990 €
Sector Privado 72,5 14,5 13 12.906 €
Fontes: (*) Inquérito às Despesas das Famílias 2005/2006 - INE;   (**) Boletim do Emprego Público – Out. 2008 - DGAEP
Em 2005, segundo o INE, em Portugal o rendimento médio anual de um trabalhador por conta de outrem com o ensino básico era de 9.335 euros/ano (este valor foi obtido com base na média aritmética dos rendimentos dos indivíduos com o 1º , 2º e 3º ciclos); o de um com o ensino secundário era de 16.743 euros/ano; e o de um com o ensino superior era de 28.538 euros/ano.

Utilizando estes valores de rendimento tanto para o sector privado como para o sector público, e calculando o rendimento médio com base numa media ponderada que tem como pesos precisamente a percentagem da repartição dos trabalhadores por níveis de escolaridade quer na Administração Pública quer no sector privado, obtém-se um valor médio global de 18.990 euros para a Administração Pública e de 12.906 euros para o sector privado. Isto significa que, entrando apenas com o efeito escolaridade, o rendimento médio de um trabalhador na Administração Publica teria de ser superior em 47% (+ 6.804 euros) ao sector privado. Portanto, apenas pelo facto da percentagem de trabalhadores com o ensino superior na Administração Publica ser muito superior ao sector privado, só por esta razão e utilizando apenas dados oficiais, conclui-se que o rendimento na função pública tem de ser 3,5 vezes superior ao do sector privado. E isto se trabalharmos com dados da DGEAP do Ministério das Finanças. Se utilizarmos os dados do estudo do Banco de Portugal utilizado pelos media (a percentagem de trabalhadores com o ensino superior na Administração Pública – 50% - ser 5 vezes superior à percentagem no sector privado – 10%), então o rendimento médio na Função Publica teria de ser superior, só devido ao efeito escolaridade, em cerca de 58% ao rendimento médio de um trabalhador do sector privado. Por aqui se vê a dimensão da manipulação feita pela generalidade dos media, a falta de rigor e de preparação, para não dizer outra coisa, dos jornalistas que divulgaram aquela noticia.

A DIFERENÇA SALARIAL ENTRE A ADMINISTRAÇÃO PUBLICA E O SECTOR PRIVADO É EXPLICADA TAMBÉM PELAS DIFERENÇAS DE QUALIFICAÇÕES

Para além do efeito escolaridade, também se observam diferenças importantes nas áreas das qualificações e da experiência. Na página 68 do estudo do Banco de Portugal chama-se a atenção para o facto de que "a disparidade salarial bruta entre os dois sectores apresentada na última secção é largamente explicada pelas diferenças nas características da mão de obra".

Como reconhece o estudo divulgado pelo Banco de Portugal, entrando em conta com este factor, observa-se "em termos do salário mensal, que a diferença passou de 10% em 1996, para 15% ou um pouco mais na década que se seguiu" (pág. 68), portanto valores muito inferiores aos 50% e 75% divulgados pelos media. E mesmo esta diferença não corresponde à realidade.

Em primeiro lugar, interessa chamar a atenção para a forma como são valorizados no estudo do Banco de Portugal os factores que diferenciam o sector público do sector privado (nível de escolaridade, qualificações, experiência), cujos critérios não divulgados e, por isso, não são conhecidos, portanto não são controláveis e, consequentemente, não é transparente. No próprio estudo se refere que "quando se controla também para a categoria profissional ( disponível apenas para 1999 ), o prémio, ou seja, a diferença, diminui" (pág. 68). É evidente o carácter limitado e mesmo erróneo, sob o ponto de vista técnico, do estudo mesmo nesta área pois, relativamente a uma variável importante – categoria profissional –, esse factor não é considerado para 2005, por não haver dados, o que naturalmente enviesa os resultados e conclusões.

Em segundo lugar, o "premio salarial" referido no estudo, ou seja, a diferença média entre os salários praticados na função pública e no sector privado, é ainda fortemente influenciada pela diferença de salários praticados nas zonas menos desenvolvidos do País onde o sector privado aproveita a situação de maior escassez de emprego para impor salários de miséria, por um lado, e, por outro lado, pela forte desigualdade que existe no sector privado entre os salários dos homens e das mulheres. Como refere o próprio estudo, "observam-se diferenças substanciais no nível de prémio, ou seja, de diferença de salários entre o sector público e o sector privado, consoante o género e a região de local de trabalho. Considerando os valores relativos ao ano de 2005, o "prémio" médio varia entre cerca de 3% para indivíduos do sexo masculino cujo local se situa em áreas mais desenvolvidas (para os quais ainda em 1996 existia uma penalização), e mais de 40% para as mulheres cujos empregos estão localizados em zonas menos desenvolvidas" (pág. 70), que são os distritos de Beja, Bragança, Castelo Branco, Évora, Guarda, Portalegre, Vila Real, Viseu e RA dos Açores. Portanto, segundo o estudo do Banco de Portugal, e com todas as limitações e deficiências que temos vindo a referir, nas zonas desenvolvidas do País, em relação aos homens, os salários médios praticados na Administração Pública são apenas superiores em 3% aos do sector privado. Apenas nas zonas menos desenvolvidas do País, e somente relativamente às mulheres, é que os salários da Administração Pública são superiores em 40% aos do sector privado. E isto não resulta da Administração Pública pagar mais nessas regiões, mas sim do sector privado aproveitar a escassez de emprego para impor às trabalhadoras salários que atingem menos 40% aos praticados pela Administração Pública a nível de todo o País. A Administração Pública, por praticar os mesmos salários em todo o País, para idêntico nível de escolaridade e de qualificação, acaba por funcionar como um instrumento importante de equidade e de garantia de respeito do principio constitucional – salário igual para trabalho igual – , o que não sucede com o sector privado, que é fonte de graves desigualdades salariais. As desigualdades salariais entre as regiões mais desenvolvidas e menos desenvolvidas, e de género, seriam ainda maiores que as existentes se não existisse a Administração Pública.

O próprio estudo do Banco de Portugal afirma que a "actividade do sector público é enquadrada por condicionalismos de equidade e redistribuição que se sobrepõem a um propósito de maximização do lucro (como sucede no sector privado, acrescentamos nós) . Assim, a uniformidade salarial neste sector tem efeitos redistributivos entre regiões e, nesta medida, pode servir um objectivo de politicas públicas" (pág. 70). Mais um aspecto ocultado e silenciado pelos media.

PARA IDENTICAS CATEGORIAS PROFISSIONAIS OS SALÁRIOS NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA SÃO MUITO INFERIORES AOS DO SECTOR PRIVADO

Em 2006, o governo de Sócrates, contratou a CAPGEMINI, que é uma das maiores empresas do mundo de serviços de consultoria ( www.capgemini.com ), para fazer um "Estudo Comparativo de Sistemas de Remuneração entre os Sectores Público e Privado. E as conclusões a que esta empresa chegou desagradaram de tal forma o governo que este não divulgou o estudo fazendo-o desaparecer (na Assembleia da República, durante o debate do Orçamento do Estado, em que participamos, solicitamos ao ministro das Finanças que o fornecesse aos deputados, o que ele recusou). De acordo com as conclusões desse estudo, os salários médios na Administração Pública eram inferiores aos dos sector privados, por categorias profissionais, nas seguintes percentagens: (1) Grupo técnico : entre -188% e -156%; (2) Grupo Técnico-profissional: entre -75% e -46%; (3) Grupo administrativo: entre -89% e -55%; (4)Grupo de auxiliares : entre – 19% e – 27%; (5) Grupo de operários : entre -26% e – 65%.

O próprio estudo divulgado pelo Banco de Portugal reconhece que se a análise for feita por categorias, conclui-se que se verifica uma forte penalização salarial dos trabalhadores da Administração Pública. O estudo do Banco de Portugal faz uma análise mais pormenorizada por categorias apenas dos salários dos trabalhadores com formação superior. E chega a conclusões totalmente opostas àquelas que foram divulgadas pelos órgãos de informação portugueses.

Exceptuando as profissões predominantemente ou mesmo exclusivamente públicas, como é a dos juízes, em relação às restantes profissões verificava-se já em 2005 uma penalização salarial dos trabalhadores da Administração Pública com formação superior, já que os seus salários eram, em média, inferiores aos do sector privado em -5,9% (quadro 4, pág. 76). E há profissões em que penalização é muito maior. Por ex., os salários dos trabalhadores de informática da Administração Pública eram inferiores aos do sector privado em -13,8%; os economistas em -18,6%; e os salários dos não especialistas em -9,3%.

E isto em termos médios, porque se a análise for mais desagregada, por ex., apenas em relação aos com formação superior e de mais elevada qualificação e responsabilidade (os do 3º Quartil) a penalização salarial dos trabalhadores da Administração Pública é muito maior, passando de -5,9%, referido anteriormente, para -25,7%. Portanto, nas profissões em que o sector público concorre com o privado, os salários na Administração Pública dos trabalhadores com formação superior e com mais elevada qualificação são inferiores aos do sector privado em -25,7%. E isto segundo o próprio estudo do Banco de Portugal, que é um estudo que, por um lado, não é transparente (desconhece-se os critérios como foram valorizadas as grandes diferenças existentes entre o sector público e o sector privado, nomeadamente escolaridade, qualificações, experiência) e, por outro lado, não são consideradas várias variáveis importantes que diferenciam os dois sectores (a não correspondência das categorias profissionais, nomeadamente em relação ao ano de 2005 em que não existem dados disponíveis como refere o estudo do Banco de Portugal).

Existe um outro aspecto importante que foi também silenciado pelos órgãos de comunicação social nacionais. Durante muitos anos, a Administração Pública era o principal empregador de novos licenciados. Com o actual governo, a Administração Politica deixou de ser uma entidade criadora de emprego e passou a ser uma entidade que destrói emprego. Como consequência, o número de jovens de licenciados no desemprego aumentou significativamente, o que determinou que o sector privado aproveite esse "excesso" de licenciados para baixar os salários pagos. Fala-se agora já de uma "geração de jovens licenciados de 500/600 euros por mês" (alguns até não ganham nada durante 4 a 6 meses em estágios fictícios) O próprio estudo do Banco de Portugal reconhece que devido ao "abrandamento do recrutamento por parte do sector público, as empresas passaram a ter de concorrer menos por estes trabalhadores e são susceptíveis de ter baixado o salário de entrada." (pág. 74) Mais uma consequência negativa para os jovens licenciados da politica deste governo.

A desigualdade salarial entre o sector público e o sector privado, com os trabalhadores da Administração Pública fortemente penalizados, aumentou ainda mais no período 2005/2008, ou seja, com Sócrates, devido aos salários nominais no sector privado terem aumentado em 13,6% (3,9% em 2005; 2,7% em 2006; 3,4% em 2007; e 3% em 2008) segundo o Relatório do Banco de Portugal de 2008, enquanto no sector público os vencimentos subiram apenas 7,5% (2,2%, em 2005; 1,5% em 2006 e em 2007; e 2,1% em 2008) de acordo com as Portarias deste governo.
02/Agosto/2009
[*] Economista, edr2@netcabo.pt
Nota: Outros estudos sobre a Administração Pública estão disponíveis em www.eugeniorosa.com


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

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domingo, outubro 17, 2010

CS/PSD/PS - Uma política sem futuro e para o caos

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Blogue da Emigração

Eugénio Rosa

Outubro 6, 2010
Contrariamente ao que Sócrates, a direita e o pensamento económico neoliberal dominante nos media procuram fazer crer à opinião pública, o problema mais grave que o País enfrenta neste momento não é o da receita e da despesa pública serem elevadas, mas sim o da divida ao estrangeiro ser incomportável para o País e não parar de crescer a um ritmo elevado. 
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Em 2009, segundo dados do Eurostat a receita pública em Portugal representou 41,6% do PIB, quando na UE27 foi, em média, 43,9% do PIB. Em relação à despesa pública, no mesmo ano, e segundo também o serviço de estatística da UE, ela em Portugal atingiu 51% do PIB, quando na UE27 correspondeu em média a 50,7%. Portanto, em Portugal, tanto a receita como a despesa pública estão em linha com a média dos países das U.E, embora exista, do lado receita, uma profunda injustiça fiscal e, do lado da despesa, má utilização de uma parte dela. A direita e os defensores do pensamento económico único nos media mentem descaradamente quando afirmam que a receita e a despesa pública em Portugal são muito mais elevadas do que na UE. 
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O grave problema que o País enfrenta neste momento, que o governo e toda a direita ignoram ou deliberadamente ocultam é o elevado e crescente endividamento do País ao estrangeiro. E este grave problema não se resolve nem com as medidas anunciadas pelo governo nem com as que o PSD e CDS querem impor ao País. A elevada e crescente divida externa é determinada pelo elevado défice da Balança de Pagamentos. Só nos 5,5 anos de governos de Sócrates (Jan2005/Jul2010) a soma destes défices atingiu -96.135 milhões €, ou seja, o correspondente a 56,5% do PIB. Uma parte muito significativa dele resulta do défice permanente da Balança Comercial Portuguesa. Em cinco anos de governos de Sócrates (2005/2009), a soma dos défices da Balança Comercial atingiu -72.176 milhões €, ou seja, 84% do défice acumulado da Balança de Pagamentos durante o mesmo período (o resto são fundamentalmente de juros e lucros). 
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Este elevado défice da Balança Comercial Portuguesa resulta do País importar muito mais do que exporta, não produzindo o necessário para satisfazer uma parte importante do consumo interno. Em 2009 por ex., 84,5% das importações e 71,6% das exportações eram de bens, ou seja, de produtos fundamentalmente da indústria e da agricultura. E apesar dos produtos da indústria e da agricultura representarem a esmagadora maioria das importações e exportações portuguesas tem-se verificado em Portugal, nos últimos anos, uma profunda desindustrialização e uma quebra significativa da produção agrícola e da pesca. Segundo dados do próprio INE, entre 1999 e 2009, o peso da produção da industria transformadora em Portugal, medido pelo VAB (riqueza produzida) diminuiu em -18,6%, pois passou de 16,1% da produção nacional para apenas 13,1%. A quebra verificada na produção agrícola e pesca foi também grande já que diminuiu em -15,6%, passando, entre 1999 e 2009, de 3,2% para somente 2,7% da produção nacional. Como consequência, em especial durante os governos de Sócrates (entre 2004 e 2009, o peso da produção da Industria Transformadora na produção nacional diminuiu em -14,4% pois passou de 15,3% para apenas 13,1%) o emprego na Industria Transformadora que, em 1999, contribuía com 22,5% do emprego total do País, em 2004 representava já 19,6%, e após 5 anos de governos de Sócrates, ou seja, em 2009 era apenas 17% do emprego em Portugal. Nos 5 anos de governos de Sócrates foram destruídos só na Indústria Transformadora portuguesa 255.000 empregos. 
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As medidas anunciadas por Sócrates visando uma redução brutal e irracional do défice orçamental só poderão provocar o agravamento de toda esta situação. Para além de agravarem ainda mais a injustiça fiscal (79% do aumento das receitas são de impostos sobre as famílias), elas determinarão uma forte contracção do mercado interno, o que causará a falência de muitas empresas com consequente disparar do emprego e destruição da economia, determinando o aumento do défice externo e subida do endividamento. E com uma economia destruída e sem crescimento económico os chamados mercados (bancos e fundos) considerarão que Portugal terá dificuldades crescentes em pagar o que pede emprestado, e por isso aumentarão ainda mais as taxas de juro. A agravar a situação, está a baixa poupança das famílias portuguesas determinada pelo crescimento económico anémico (em 2009, a taxa de poupança das famílias em Portugal foi apenas de 8,8%, quando na UE27 atingiu 13,7%) que limita o recurso ao endividamento interno para cobrir as necessidades de financiamento do País, acelerando o recurso ao crédito externo. 
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É um circulo vicioso de agravamento social e de miséria, de destruição da economia, de aumento da divida externa que esta politica absurda e irracional inevitavelmente determinará. É uma política sem visão do futuro. Por isso, os sacrifícios que estão a ser impostos serão inúteis, porque no fim o País ainda estará mais endividado e mais à mercê dos credores externos. É urgente inverter esta política de corrida cega para o abismo.
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http://jdei.wordpress.com/2010/10/06/eugenio-rosa/
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quinta-feira, junho 03, 2010

Trabalho: O número efectivo de desempregados chega já aos 742 mil

direitos reservados

Estimativas europeias contrariam expectativa do Governo, que esperava uma queda no desemprego

Taxa real nos 13,25%

Em Abril, a taxa de desemprego oficial bateu novo recorde ao atingir os 10,8%, diz o Eurostat.
  • 02 Junho 2010 - Correio da Manhã
Por:Diana Ramos/C.R. com Lusa
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Portugal registou em Abril a quinta taxa de desemprego mais elevada da União Europeia, atrás da Letónia, Espanha, Eslováquia e Irlanda, ao atingir o valor recorde de 10,8%, mas o número efectivo de desempregados é já bem mais elevado.
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Segundo as contas do economista Eugénio Rosa, 'uma taxa de 10,8% corresponde a 604 mil desempregados [oficiais]' o que, somado aos inactivos disponíveis e ao subemprego visível, 'que são desempregados que ou não procuraram emprego ou fazem pequenos biscates para sobreviver', o número real de pessoas sem trabalho 'sobe para 742 mil', ou seja, 13,25%. A diferença entre as estatísticas oficiais e o desemprego real está na forma como é feita a contabilização, já que estes dois grupos são eliminados. 
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Apesar destes números, o certo é que só 359,9 mil pessoas estão a receber o subsídio de emprego. Por isso, Eugénio Rosa afirma que duas das medidas anticrise eliminadas pelo Executivo 'vão reduzir ainda mais o numero de desempregados a receber subsídio'. São elas o aumento do prazo de garantia para ter direito à prestação, que passa de 365 dias de descontos para 450 dias, e o fim do prolongamento do subsídio social de desemprego, que permitia aos desempregados receber um valor reduzido de prestação, durante mais 6 meses, após cessar o direito ao subsídio de desemprego. De acordo com os dados ontem revelados pelo Eurostat, a taxa de desemprego entre os mais jovens (com menos de 25 anos) atingiu os 22,2%. Em termos de género, foi entre as mulheres que o desemprego mais se agravou, com a taxa a subir para os 11,9%. Nos homens, o valor situou-se nos 9,9%.
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O secretário de Estado do Emprego, Valter Lemos, desvaloriza os números do gabinete de estatística europeu, afirmando que as projecções do Eurostat deverão ser corrigidas em baixa. 'Os dados que nós temos não apontam para um crescimento, bem pelo contrário, apontam para uma descida com início no mês de Abril.' E acrescenta: 'A minha convicção é que a projecção do Eurostat, à semelhança de três anteriores, irá revelar-se inadequada e ser revista em baixa'. 
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SAIBA MAIS
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SÓ TRAVOU PELO NATAL
Nas estimativas Eurostat, o agravamento do desemprego foi constante em Portugal. Desde Abril 2009, subiu 1,6% e só parou em Novembro e Janeiro.

23,311
milhões de desempregados contavam-se em Abril nos 27 países da União Europeia. Na zona Euro havia 15,86 milhões, o que dava uma taxa de 10,1% superior aos 9,7% da UE-27.
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11,9%
de desempregadas é a taxa que se regista entre as mulheres em Portugal. Nos homens, os sem trabalho estão nos 9,9%.
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PIOR PARA OS JOVENS
Nos menos de 25 anos, a taxa de desemprego em Portugal sobe a 22,2% e está acima da média. A Espanha tem 40,3%.
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PASSOS EXIGE MUDANÇAS NO GOVERNO
O líder do PSD, Pedro Passos Coelho, endureceu ontem o discurso. Pediu ao Executivo socialista para rever o seu programa de Governo e apontou o caminho para uma remodelação. No Palácio da Bolsa, no Porto, Passos Coelho quis marcar o debate que hoje se realiza com dois pontos: 'É preciso rever o programa de Governo (...) e até refrescar a equipa de trabalho'.
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A sua intervenção surge nas vésperas de o Parlamento aprovar o aumento de impostos, incluídos nas medidas de austeridade acordadas entre Governo e PSD, com algum incómodo junto de deputados sociais-democratas.
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O aumento de impostos foi contestado por toda a restante Oposição e a sua forma de aplicação levantou muita polémica. Mas, hoje, o plano de austeridade acabará por juntar PS e PSD. As novas tabelas de retenção na fonte entraram, contudo, em vigor ontem, com os aumentos já estipulados. O debate sobre a constitucionalidade da retroactividade desta medida ainda não terminou. Sexta-feira, dia 4, regressa à Assembleia pela mão do CDS-PP, que aguarda pelo sentido de voto do PSD. 
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O reforço da Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) também vai a votos e é, na prática, a ‘moeda de troca’ para que o PSD vote a favor.
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MENOS DINHEIRO NO FINAL DO MÊS
As novas tabelas de IRS entraram em vigor ontem, mas os contribuintes só sentirão o seu efeito nos salários no final do mês. Com o aumento dos impostos em um por cento até ao terceiro escalão e de 1,5 por cento acima deste escalão, o Estado vai arrecadar mais 334 milhões de euros no final do ano.
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Como os impostos são descontados no final de cada mês, os contribuintes só sentirão o efeito do aumento da carga fiscal quando receberem o vencimento.
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SÓCRATES: DESCIDA NO VERÃO
O primeiro-ministro, José Sócrates, afirmou ontem, em Marraquexe, que está convicto de que a taxa de desemprego está a registar 'melhorias' e espera um 'abrandamento' já no Verão
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CDS: VALTER LEMOS EM XEQUE
O líder parlamentar do CDS-PP, Pedro Mota Soares, anunciou ontem que vai chamar o secretário de Estado do Emprego, Valter Lemos, para esclarecimentos sobre o desemprego
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PCP: DESMENTEM O GOVERNO
O líder parlamentar do PCP, Bernardino Soares, responsabiliza o Executivo pelo aumento da taxa e afirma que os dados 'desmentem as campanhas que o Governo procura montar'
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sexta-feira, janeiro 08, 2010

Preço da electricidade sobe 2,9% em 2010



Eugénio
Rosa

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EDP lucrou 835 milhões de euros em nove meses
Preço da electricidade sobe 2,9% em 2010
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Numa altura em que os média dão preferencialmente voz aos «especialistas» que defendem aumentos reduzidos dos salários ou mesmo a sua manutenção (leia-se, congelamento) em 2010, a ERSE – a entidade oficial que tem como função controlar os preços no chamado mercado regulado de electricidade (porque no mercado livre os preços já são livres e fixados de acordo apenas com os interesses das empresas) – acaba de anunciar que o preço da electricidade para as famílias deverá aumentar mais 2,9% em 2010.
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O aumento anunciado é mais de três vezes superior à previsão de subida de preços em Portugal em 2010 feita pela OCDE (+0,8%) e pelo FMI (+1%), e o dobro da previsão do Banco de Portugal (+1,5%). E é certamente também superior ao aumento salarial que se verificará em 2010. Um aumento tão elevado do preço da electricidade é inaceitável não só pelas razões anteriores mas também pelas que se apresentam seguidamente.
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O Quadro I, construído com dados divulgados pelo Eurostat, que é o serviço oficial de estatísticas da União Europeia, mostra o preço actual da electricidade em Portugal em 2009 e o preço do mesmo bem, para as famílias, nos países da União Europeia.
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Em 2009, segundo o Eurostat, o preço médio da electricidade na União Europeia (inclui os 27 países) era inferior ao preço médio em Portugal em -2,2%, embora o poder de compra médio na União Europa (inclui também os 27 países), medido pelo PIB por habitante SPA, portanto anulando os efeitos das diferenças de preços entre os diferentes países, fosse superior ao poder de compra médio em Portugal em mais de 31,6%. E dizemos mais de 31,6% porque esta era a diferença em 2008, e em 2009 a situação deverá ter piorado para Portugal. Dito de outra forma, o poder de compra médio actual em Portugal deverá corresponder a menos de 76% do poder de compra médio da União Europeia, mas o preço da electricidade no nosso País é superior ao preço médio da electricidade na UE27 em +2,3%.
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Por outro lado, nos países com preços de electricidade superiores ao de Portugal, essa diferença de preços é mais do que compensada com a diferença para mais que se verifica no poder de compra desses países relativamente a Portugal. Assim, na Alemanha o preço da electricidade é superior em +10,8% ao preço em Portugal, mas o poder de compra médio na Alemanha é superior ao português em +2,6%; no Luxemburgo a electricidade custa mais +8,1% do que em Portugal, mas o poder de compra médio no Luxemburgo é superior ao de Portugal em +263,2%. Na Finlândia, Dinamarca e Noruega, o preço da electricidade é mais baixo do que em Portugal (entre -10,5% e - 22,9%) , mas o poder de compra médio das famílias nesses países é muito superior ao das famílias portuguesas (entre +53,9% e +151,3%).
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Nos países com menor poder de compra médio, tal facto é mais do que compensado pelo preço
da electricidade ser muito mais baixo do que em Portugal. Por exemplo, na Estónia o poder de compra médio é inferior em -11,8% em relação a Portugal, mas o preço de electricidade para as família é inferior em -43,7%; na Polónia, o poder de compra médio é inferior ao português em -26,3%, mas o preço da electricidade para as famílias é inferior ao de Portugal em -30,1%.
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Portanto, é neste contexto que uma entidade que se diz reguladora (a ERSE), cujo presidente foi nomeado pelo 1.º Governo de Sócrates, propõe um aumento do preço da electricidade de +2,9% em 2010 a ser pago pelas famílias, quando idêntica subida percentual dos salários em 2010 não está garantida aos trabalhadores, que constituem o conjunto mais numeroso dos clientes da EDP. E isto também quando o preço da electricidade em Portugal é já superior ao preço médio da União Europeia (27 países), e quando a EDP, que domina o mercado da electricidade em Portugal, arrecadou, só nos primeiros nove meses de 2009, varias centenas de milhões de euros de lucros.
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Mais de 800 milhões de euros de lucros líquidos
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A EDP já apresentou o seu Relatório e Contas de 2009 referente ao 3.º Trimestre deste ano. E como consta desse relatório os lucros líquidos, ou seja, os lucros depois de deduzidos osimpostos, já atingiram 835,2 milhões de euros só nos primeiros 9 meses de 2009.
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Mas para que se possa ficar com uma ideia clara de como evoluíram os lucros da EDP após a entrada em funções do Governo de Sócrates, reunimos no Quadro II os valores dos lucros líquidos constantes dos Relatórios e Contas de 2004-2009 desta empresa que, apesar de dominar o mercado de electricidade em Portugal, foi privatizada.
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Em 2005, o primeiro ano em que Sócrates foi 1.º ministro, os lucros líquidos da EDP foram superiores em +143,3% aos de 2004; em 2006 em +113,7%; em 2007 em +131,7% ; em 2008 em mais 148%; e, em 2009, só nos primeiros 9 meses, os lucros da EDP foram superiores aos de 2004 em +89,7%.
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Se somarmos os lucros líquidos da EDP nos últimos 5 anos e 9 meses, eles totalizam 5399,1 milhões de euros a preços correntes (a preços actuais são muito superiores), o que mostra, por um lado, que o Estado perdeu uma fonte importante de receitas com a privatização da EDP; por outro lado, que a EDP privatizada se transformou num instrumento importante de exploração dos consumidores e de acumulação dos lucros para os seus actuais proprietários; e, finalmente, que a EDP pode absorver, sem grandes dificuldades, o chamado défice tarifário que está a ser utilizado para «justificar» o elevado aumento de preço que se pretende impor às famílias. E isto sem aumentar os preços e sem deixar de ter lucros, embora os lucros fossem naturalmente menores, o que seria até uma medida moralizadora face às dificuldades crescentes das famílias.


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Outros Títulos:
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Avante 1383 - 2009.12.30
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quarta-feira, dezembro 16, 2009

Desemprego atinge 700 000 pessoas e só metade recebe subsídio



Medidas do Governo são insuficientes
Desemprego atinge 700 000 pessoas e só metade recebe subsídio


O Instituto Nacional de Estatística (INE) acabou de publicar os dados do desemprego relativos ao 3.º trimestre de 2009. Esses dados desmentem a mensagem que o Governo tem procurado fazer passar de que a economia já teria entrado na fase de recuperação e que as medidas tomadas pelo Governo estariam a ter efeitos. Na verdade, o que os dados do INE revelam é que o desemprego já atinge 696,9 mil portugueses, dos quais apenas 350,8 mil recebem subsídio de desemprego.

Os dados divulgados pelo INE mostram que a situação é pior do que aquela que o Governo e os seus defensores pretendem fazer crer, e que as medidas tomadas são claramente insuficientes, pois o desemprego em Portugal está a atingir valores que nunca se verificaram no passado. O quadro seguinte, construído com os dados divulgados pelo INE, mostra com clareza a gravidade da situação e que são necessárias novas medidas para a enfrentar.
No 3.º trimestre de 2009, o desemprego oficial atingia 547,7 mil portugueses, quando no 3.º trimestre de 2005 somava 429,9 mil. Num ano apenas, ou seja, entre o 3.º trimestre de 2008 e o 3.º trimestre de 2009, o desemprego oficial passou de 433,7 mil para 547,7 mil, ou seja, aumentou em 114 mil, e a taxa de desemprego oficial subiu de 7,7% para 9,8% (+ 27,3%).
Mas o desemprego oficial não inclui a totalidade dos desempregados. No número oficial de desempregados não estão incluídos aqueles que, embora na situação de desemprego, não procuraram emprego no mês em que foi feito o inquérito. E esses, que têm a designação de «inactivos disponíveis», somavam 82,7 mil no 3.º trimestre de 2009, segundo o próprio INE. Para além disso, também não estão considerados no número oficial de desempregados todos os desempregados que, para sobreviverem, fizeram um pequeno «biscate», por exemplo de uma hora. Esses são designados «subemprego visível», e somavam 66,5 mil no 3.º trimestre de 2009, também segundo o INE.
Se somarmos ao desemprego oficial os desempregados que não foram considerados no cálculo do desemprego oficial – «inactivos disponíveis» e «subemprego visível» – obtemos, para o 3.º trimestre de 2009, um total de 696,9 mil desempregados (o número oficial é apenas 547,7 mil) e uma taxa efectiva de desemprego de 12,3% (a taxa oficial é somente 9,8%). Isto é, valores muito superiores aos valores de desemprego oficial que são divulgados pelos média. Quadro I.
Em Setembro de 2009, portanto no fim do 3.º trimestre de 2009, o número de desempregados a receber o subsídio de desemprego, segundo o Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social, era apenas de 350,8 mil, o que correspondia a 64,1% do número oficial de desempregados, e somente a 50,3% do número efectivo de desempregados. Isto significa que entre 196,9 mil e 346,1 mil desempregados não estavam a receber subsídio de desemprego. A medida anunciada pelo 1.º ministro na Assembleia da República de redução do prazo de garantia de 450 dias para 360 dias, vai apenas permitir a mais 10 000 desempregados receberem subsídio de desemprego. É uma medida claramente insuficiente face à gravidade e à dimensão da situação. É urgente adaptar a lei do subsídio de desemprego à actual situação, o que o Governo se tem recusado fazer.

Destruição de emprego continua e precariedade atinge mais de 29% da população

Outro aspecto que contribui para agravar ainda mais a situação é a elevada destruição líquida de emprego e a elevada precariedade que se verifica em Portugal. O
Quadro II, construído também com dados divulgados pelo INE, dá uma ideia da dimensão do problema.
Desde o 3.º trimestre de 2008 que se tem verificado em Portugal um destruição líquida crescente de emprego. Entre o 3.º trimestre de 2008 e o 3.º trimestre de 2009, a destruição líquida de emprego em Portugal atingiu 178,3 mil de trabalho, pois o emprego total diminuiu de 5191,8 mil para 5017,5 mil. Só no 3.º trimestre de 2009, a destruição líquida de emprego atingiu 58,5 mil postos de trabalho.
Por outro lado, muitos daqueles que têm emprego – 1 452 600 – têm emprego precário. E neste total apenas incluímos 70% dos «trabalhadores por conta própria como isolados», ou seja, aqueles que têm o ensino básico ou menos. Só estes é que considerámos «falsos recibos verdes» pois não têm qualificações para serem verdadeiros prestadores de serviços. É evidente que também muitos trabalhadores com o ensino secundário e mesmo superior são também «falsos recibos verdes», pois as condições em que realizam a sua actividade são idênticas às dos trabalhadores por conta de outrem. Entre o 3.º trimestre de 2005 e o 3.º trimestre de 2009, o número de trabalhadores que considerámos como precários aumentou de 26,5% para 29% da população empregada, o que corresponde a mais 101,2 mil precários.

Operários e trabalhadores não qualificados são os mais atingidos

A análise da destruição de emprego por profissões revela que alguma delas estão ser mais atingidas, como mostra o Quadro III, construído também com dados divulgados pelo INE.
Entre o 3.º trimestre de 2008 e o 3.º trimestre de 2009, a destruição líquida de emprego atingiu o elevado total de 178,3 mil, mas 104,5 mil foram postos de trabalho de «operários, artífices e trabalhos similares» e 79,1 mil postos de trabalho ocupados por «trabalhadores não qualificados». São fundamentalmente estes dois grupos profissionais que estão a ser mais atingidos pela destruição de emprego. No entanto, no 3.º trimestre de 2009 também se começou a verificar destruição líquida de emprego em profissões de escolaridade e qualificação mais elevada. Entre o 2.º trimestre e o 3.º trimestre de 2009, o número de postos de trabalho de «quadros superiores do sector privado e da administração pública» diminuiu em 31,8 mil; o de «especialistas de profissões intelectuais e científicas» reduziu-se em 23,2 mil; e de «técnicos profissionais de nível intermédio» diminuiu em 27,8 mil. Só nestas três profissões, que são de qualificação mais elevada, a destruição líquida de emprego no 3.º trimestre de 2009 atingiu 82,8 mil. O emprego mais qualificado começou também a ser destruído, pondo-se em causa o desenvolvimento do País.

Nota: Dados do Eurostat divulgados esta terça-feira apontam para uma taxa de desemprego de 10,3% em Outubro, a maior de sempre no País e a quarta maior entre os 16 países da Zona Euro.
Nº 1879
03.Dezembro.2009 - Avante
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