A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht

sábado, julho 29, 2006




Sorriste
e

na tua voz

os pássaros vieram de longe

pensando que era madrugada!


Victor Nogueira





Quadro de Magritte

segunda-feira, julho 24, 2006


Um mundo de Contrastes
* Victor Nogueira

«Se tem mais de um milhão de euros em activos financeiros (acções, obrigações, fundos e depósitos bancários), então faz parte dos onze mil milionários portugueses», informa o Expresso de 22 de Julho.

Até nisto estamos atrasados, pois este valor corresponde apenas a 0,1 % da população portuguesa, apesar de em 2005 terem entrado mais 200 portugueses ou portuguesas para o clube dos ricos. Com efeito, a Espanha tem 148 mil milionários (0,3 % da população), o Reino Unido 448 mil (0,8 % da população) e a Alemanha 767 mil (0,9 %). Uma ninharia face aos EUA, onde existem 2,7 milhões de milionários, mesmo assim quase nada face aos 2,2 milhões de portugueses que vivem com a pensão mínima ou os 500 mil desempregados, que não param de crescer em Portugal. Sabe-se quem são os dez mais ricos de Portugal, entre os quais figura Belmiro de Azevedo, sucessivamente um dos 750 mais ricos do Mundo, segundo a revista Forbes. Mas o Expresso não publica os seus nomes.

Nem o Correio da Manhã, mais preocupado com os ordenados, custos e reformas «milionárias» pagas aos funcionários públicos.

Apesar da «crise mundial», ou por isso mesmo, em 2005 no mundo inteiro os milionários tiveram um crescimento de 10 %, isto é, foram acrescidos de 86 mil efectivos.


VN

.

continua em O significado do Trabalho - Uma perspectiva Marxista - Harry Magdoff

.

.

quinta-feira, julho 20, 2006

« Guerra Civil Espanhola - foto R. Capa - Morte dum combatente miliciano»



É a guerra o monstro que ceifa a vida

Ruína as casas, viola a criança;

Velhos, novos, não fogem à matança,

No campo a seara é já perdida.


O fogo e a peste, em grande corrida,

Afastam do burgo a bela festança;

O mal, a vida e natureza alcança.

Só dos loucos pode ela ser querida.


Homens, mulheres, crianças, lutam

Por outro mundo novo construir;

Cantam rouxinóis, bem alto voam águias.


Na verde planura os cordeiros vivam;

Na festa, na eira, todos a bailar,

P'la paz lutando, sem demagogias.

Victor Nogueira

segunda-feira, julho 17, 2006

"Campo de flores - fotografia de Victor Nogueira"
Eclesiastes - 3: 1-22

1 Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu. 2 Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; 3 tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar; 4 tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar; 5 tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar; 6 tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora; 7 tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; 8 tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz. 9 Que proveito tem o trabalhador naquilo em que trabalha? 10 Tenho visto o trabalho penoso que Deus deu aos filhos dos homens para nele se exercitarem. 11 Tudo fez formoso em seu tempo; também pôs na mente do homem a idéia da eternidade, se bem que este não possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até o fim. 12 Sei que não há coisa melhor para eles do que se regozijarem e fazerem o bem enquanto viverem; 13 e também que todo homem coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho é dom de Deus. 14 Eu sei que tudo quanto Deus faz durará eternamente; nada se lhe pode acrescentar, e nada se lhe pode tirar; e isso Deus faz para que os homens temam diante dele:
15 O que é, já existiu; e o que há de ser, também já existiu; e Deus procura de novo o que já se passou. 16 Vi ainda debaixo do sol que no lugar da retidão estava a impiedade; e que no lugar da justiça estava a impiedade ainda. 17 Eu disse no meu coração: Deus julgará o justo e o ímpio; porque há um tempo para todo propósito e para toda obra. 18 Disse eu no meu coração: Isso é por causa dos filhos dos homens, para que Deus possa prová-los, e eles possam ver que são em si mesmos como os brutos. 19 Pois o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos brutos; uma e a mesma coisa lhes sucede; como morre um, assim morre o outro; todos têm o mesmo fôlego; e o homem não tem vantagem sobre os brutos; porque tudo é vaidade. 20 Todos vão para um lugar; todos são pó, e todos ao pó tornarão. 21 Quem sabe se o espírito dos filhos dos homens vai para cima, e se o espírito dos brutos desce para a terra? 22 Pelo que tenho visto que não há coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras; porque esse é o seu quinhão; pois quem o fará voltar para ver o que será depois dele?

segunda-feira, julho 10, 2006



Dificuldade de Governar

1.
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2.
E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3.
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4.
Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

Bertolt Brecht

domingo, julho 09, 2006


sem nome - fotografia de Victor Nogueira

O que amo em ti é a vida
são os campos, as encostas verdejantes
a cidade, os carros que passam
os animais, as plantas e as árvores
as montras iluminadas e coloridas
a chuva na vidraça ou no rosto
o sol, o mar, a brisa
o cheiro a maresia
o perfume das flores

O que amo em ti é
a verdade
a ternura amor que entre nós é
a camaradagem
o andar que percorre o corpo
sem segredos nem esconderijos
a novidade aventura
o frémito, o prazer, a paz

Somos milhares somos milhões
pelas estradas e pelos atalhos
pelos campos e pelos pinhais
pelas ruas e pelos becos
na cidade dos homens
ombro a ombro
frente a frente
lado a lado
desencontrados

Victor Nogueira

sábado, julho 08, 2006


Mural - Fernando Pessoa, em Setúbal - fotografia de Victor Nogueira

XLVIII - Da Mais Alta Janela da Minha Casa

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.
E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.
Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.
Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.
(Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos)

Natureza - Pôr do sol no Buçaco - fotografia de Victor Nogueira

1974 - Campanhas de Alfabetização

* Victor Nogueira

Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra!!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler! (1974.11.17)

sexta-feira, julho 07, 2006

No comboio, preparando a chegada - fotografia de Victor Nogueira

Avó e neta: chegada a Campanhã (Porto) - fotografia de Victor Nogueira
MEMÓRIAS - Viajando pelas linhas do Norte e do Oeste
* Victor Nogueira
Às 8:30 tomámos o rápido da linha do Norte. Caía uma chuva miúdinha e no céu via-se um lindo arco‑íris. Matabichámos [pequeno almoçámos] no bar da estação de Santa Apolónia, em, Lisboa, que é original, com motivos do caminho de ferro.

À saída de Lisboa passámos por um aeródromo militar. Monte Real era sobrevoada por aviões a jacto, da Base Aérea 5. A primeira paragem foi em Santarém. As cadeiras da automotora são mais espaçosas que as do rápido. Às 9:40 chegámos ao Entroncamento , a terra dos fenómenos. Ia tão entretido a ler que, entre Fátima e Pombal, passámos por um túnel sem eu dar por isso.

Antes de Pombal passámos por um outro que estava em obras. Nesta altura chovia. Às 11:10 chegámos a Alfarelos e pouco depois à estação de Coimbra B. O rio Mondego estava quase seco - e é um rio importante do continente! Passámos por Pampilhosa da Serra (11:43), Cúria (11:50), Aveiro (12:18), Estarreja, Ovar, Espinho, Granja (13:05), Vila Nova de Gaia (13:25), Campanhã e S. Bento (13:50). Na nossa carruagem seguiam 4 indianos que deveriam ter saído em Coimbra, mas por ignorância (passaram lá sem saber) não o fizeram e resolveram seguir até ao Porto. Muitas das estações do percurso tinham bonitos jardins.

E de Aveiro (ou será de Ovar?) recordo os vendedores que invadiam a carruagem do comboio, apregoando jornais, bebidas e... doces de ovos moles, em pequenas barricas de madeira. Espinho, cuja estação ficava no centro da povoação, indicava qase o fim da viagem.A partir de certa altura, em Vila Nova de Gaia, nova mudança de comboio, devido à fragilidade crescente da ponte D. Maria ! [1963]

No comboio, a caminho de Lisboa, pedi a um dos meus companheiros de viagem que me emprestasse as "Modas e Bordados" para folhear, pausa na conversa que mantínhamos desde o Porto. Agora o dia está maravilhoso e cheio de sol. (No Porto chovia a cântaros) Há já um bom bocado que deixámos Coimbra, onde era sempre a confusão da mudança de comboio, arrastando o saco de viagem ou malas.. O comboio desliza rápido, tac-tac, tac-tac. deixando para trás campos verdejantes, olivais e vinhedos, pinhais, alguns deles alagados, e casas dispersas na paisagem. Os meus vizinhos de compartimento dormitam, enquanto a sineta toca para o almoço. Daqui a uma hora chegaremos a Lisboa. (...) Os companheiros de viagem: a sra. D. Alice, ar aristocrático, minha velha conhecida do Porto, cheia de vivacidade, apesar da idade, rosto quadrado, sanguínea. O outro, desconhecido, deve ser um homem ligado à actividade comercial, pelo modo como veste e pelos apetrechos: óculos e lapiseira no bolso do lenço no casaco, pasta. Veste com pouca elegância, fato de um tecido acastanhado mesclado de azul e vermelho, colete cinzento de malha, gravata preta com duas listas - uma encarnada e amarela, estreita, outra mais larga, verde, junto ao nó. Sapatos castanhos, mal engraxados. Afinal a pasta continha um farnel embrulhado num guardanapo dentro dum saquito de plástico, que ele come, e que me ofereceu. (Isto faz‑me lembrar que tenho de ir ao bar comer uma sandes).

A D. Alice, o [jornal] "O 1º de Janeiro" nos joelhos, dormita, a cabeça apoiada na mão. Queixa‑se do frio, mas aqui para nós ainda bem que desligaram o aquecimento, pois isto já era um forno.
Chegamos ao Entroncamento são 12:40. Por causa das obras na linha, penso eu, o comboio vem atrasado. As casas, blocos uniformes, regularmente monótonos, as linhas, cruzando‑se e divergindo, cheias de carruagens, vagões e locomotivas, são uma nota diferente na paisagem, que desde há uns bons quilómetros é mais árida que no princípio da viagem. A linha férrea é uma ponte nos campos alagados, com água barrenta, levemente ondulada. Solitariamente, pequenas ilhas, renques de árvores de ramos desfolhados, cujos nomes desconheço. Já não se vêm no entanto árvores cortadas e oliveiras deitadas no solo, raízes desentranhadas pela força dos ventos, que no Porto e nos últimos dias sibilaram noites seguidas, infiltrando‑se pelas frestas das portas e janelas. Gostaria de andar num barquito por esses campos alagados. [1972]
Doutra feita a viagem decorreu bem, embora maçadora. No compartimento, além de mim, viajavam dois rapazes sisudos e calados e uma rapariga, que não tinha culpa de ser feiosa e fortezita! Ia mesmo sentada à minha frente mas, contra o meu costume, não trocámos uma única palavra. Pensando bem, ela não era tão feiosa como isso, até tinha uns lindos olhos azuis e um sorriso bonito. Só sorriu uma vez, quando eu, com um ar muito circunspecto, fingia admirar a paisagem; eis senão quando aparece um malandro dum comboio, sem avisar, às apitadelas, que me fez dar um salto na poltrona. A muito custo lá consegui assumir um ar de dignidade ofendida, embora a vontade de rir fosse grande. Bem, lá chegámos a Lisboa, onde chovia a potes. Táxis, nem sombra; os que apareciam eram logo anexados. Mas... enquanto há vida há esperança e sempre apanhei um! [1968]

Em Aveiro a corrente eléctrica foi abaixo e lá ficou o comboio parado e eu cheio de sede e de fome, a ver que íamos ali passar o resto da noite! Lá para as tantas entrou o "Foguete" na estação, rumo ao Porto. Vai daí, eu e mais alguns expeditos mudámos para ele, e assim consegui viajar confortavelmente, em poltronas estofadas e com aquecimento (1ª classe), conseguindo chegar ao Porto à tabela, i.e, ás 21:30, sem pagar bilhete. (Soube depois que o resto da malta, do outro comboio, só chegou depois das 23:00). Enfim ...

(...) Cá vou de regresso a Lisboa, num comboio cheio mas onde consegui arranjar um lugar sentado. Os meus companheiros de cabine dormem e um deles ressona beatificamente. Este postal é - creio - uma fotografia retirada dum dos dois filmes que há dias vi sobre as campanhas de alfabetização, as tais em que eu gostaria de ter participado em Agosto último se... Esta cena do filme era comovente: uma mulher que até aí não sabia comunicar por escrito, conseguir fazê-lo. A procura das sílabas, o gesto hesitante, o voltar atrás para corrigir ou desenhar melhor a letra!!! Deve ser bestial um tipo descobrir que sabe ler! (1974)

As carruagens do comboio da Linha do Oeste são antiquadas e as do Caminho de Ferro de Benguela [em Angola] são um pouco melhores. Passámos em Francelos, onde há um sanatório para doenças dos ossos. Perto de Aveiro, os campos têm pinheiros e milho. Em Coimbra nada vi, pois a estação velha não fica na cidade. De Coimbra a Monte Real vim a conversar com um sacerdote franciscano, bastante falador. O Rio Mondego estava quase seco. Havia muito arroz e oliveiras. Chegámos a Monte Real cerca das 17:30. Na Pensão Cozinha Portuguesa fiquei instalado. Um quarto do sótão, pequeno, sem água corrente, com uma clarabóia. O quarto tem uma cama com um óptimo colchão, um guarda fatos, uma mesa de cabeceira, além do lavatório e bidé. Como é meu costume tratei de visitar a terra, tendo dois hotéis e quase duas dezenas de pensões; a nossa fica num extremo. (1963)
E se a viagem era normal em épocas normais, aos fins de semana eram mais complicadas, com as carruagens cheias de magalas ruidosos. Mas ainda mais complicada era na altura do Natal, onde uma vez fiz a viagem quase toda de pé, a cesta de vime de alguém entre as minhas pernas, a carruagem cheia de sacos, aves vivas e o mais que as pessoas transportavam. Mas o que eu gostava mesmo, nos meus tempos de juventude, era seguir no degrau da porta, o vento a bater na face e, por vezes, uma fagulha traiçoeira incomodando os olhos.

Na linha do Oeste um deslumbramento para mim foi descobrir Óbidos entre muralhas, que na altura pensava ser um enorme castelo, até que mais tarde descobri que os castelos eram mais pequenos, normalmente situados no cimo da encosta aproveitando o alcantilado, e que o resto eram apenas muralhas mais ou menos extensas protegendo a povoação, conforme a sua importância. Victor Nogueira (Memórias de Viagem - 1996)


Mirandês,
a segunda língua de Portugal

Oubir i ber son pais de l saber


* Victor Nogueira

Existe uma segunda língua em Portugal - o mirandês - acantonado lá para Trás os Montes, em Miranda do Douro, com cerca de quinze mil falantes, que se tenta salvar da extinção, nestes tempos em que o inglês e suas variantes tudo pretendem substituir, incluindo o português.

Para quem quiser saber mais ficam alguns links interessantes:

Centro de Estudos António Maria Mourinho -
http://ceamm.no.sapo.pt/

Centro de Linguística da Universidade de Lisboa: Sítio de i Mirandés - http://mirandes.no.sapo.pt/

Centro de estudos mirandeses da Faculdade de Letras da Universidade do Porto -
http://www.letras.up.pt/upi/cem/cem.htm

eb2 - Miranda do Douro -http://www.eb2-miranda-douro.rcts.pt/mirandes/mirandes.html

Mirandês na Net -
http://www.mirandes.net/index2.asp?idcat=1051

Lléngua mirandesa -
http://www.galeon.com/lenguamirandesa/

Editora Apenas Livros -
http://www.apenas-livros.com/apenas_cordel.php?coleccao=12




Quien cuônta un cuônto
Acrecénta-l’ un puônto.
VN - Publicado no Jornal do STAL
Endechas a Bárbara Escrava

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Para ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo,
E, pois nela vivo,
É força que viva.

Luís de Camões (1524-1580)


Praia de Santa Cruz (cerca da Ericeira) - fotografia de «Donatília»


Porto - cidade granítica - Sé - fotografia de Victor Nogueira

Coimbra - 1974 - fotografia de Victor Nogueira
MEMÓRIAS - De Lisboa ao Porto, no antigamente
Victor Nogueira

Falando como o senhor de La Palisse diremos que de Lisboa ao Porto podemos ir utilizando variadíssimos meios de transporte: barco, avião, comboio, automóvel... Ou, o que será uma grande estafa, pode ir-se caminhado pelo seu próprio pé, se escravos não houver para transportarem a liteira. E a verdade é que há quem o faça, em magotes mais ou menos alegres ou macerados, peregrinos a caminho de Fátima, pela berma da estrada, alguns de mochila às costas e bordão na mão, confluindo para um 13 de Maio a 13 de Outubro, datas das aparições da Senhora que tomou o nome da terra, embora tenha aparecido na Cova de Santa Iria.

A viagem de comboio é descrita mais adiante. De automóvel, leva umas horas, sem necessidade de fazer testamento prévio, como no tempo do meu avô Luís, que me dizia que a viagem duraria... cinco dias (e cinco noites). Indo de automóvel, houve tempo que se poderia ir alongadamente pela costa, ou combinadamente, ao longo do Tejo para norte, depois pelo interior, inflectindo quase lá em cima para o litoral até ao Porto.

Era o tempo da Estrada Nacional nº 1, quando a autoestrada ia apenas até Vila Franca de Xira para quem rumasse ao Norte, ou até aos Carvalhos, para quem do Norte quisesse vir por aí abaixo. Pela costa ou pelo interior, ambos os caminhos rumavam a Coimbra, a meio caminho com alguma boa vontade. A viagem era uma festa, uma canseira ou uma sensaboria. Dependia do clima ou do tempo disponível. Passava‑se pelo interior das povoações, parava-se para meter gasolina, para comer ou devido aos engarrafamentos provocados pela estreiteza das vias, pelas carroças puxadas por animais ou devido a qualquer acidente rodoviário. Se tempo houvesse era mais demorada a paragem nas povoações ou pelo caminho para admirar a paisagem ou para pequenos desvios.

A chegada a Santa Apolónia era precedida pela lezíria, por vezes inundada, pelo rio Tejo aqui ou ali entrevisto, até começar a paisagem industrializada e desgraciosa desde Vila Franca de Xira, e zona oriental de Lisboa, com o seu emaranhado de linhas férreas. Em Vila Franca de Xira a ponte deixou de ter portagem para quem a atravessasse, mas nem os ventos do 25 de Abril lhe mudaram o nome como à de Lisboa. Esta deixou de ser de Salazar, mas aquela continuou a ser do Marechal Carmona!

Mas a caminho do Norte, Alenquer era uma visão agradável, as casas pela encosta acima como se fora uma cascata, à noite iluminada e, no Natal, com gigantesco presépio cheio de luz. Depois acabava a planície e lá se andava às curvas e contracurvas ou no sobe e desce das serras de Montejunto e de Candeeiros. Passava-se por Rio Maior, mais tarde conhecida como a capital da contra-revolução, com a célebre moca para espancar os comunistas e as placas de sinalização pichadas com «Aqui começa Portugal», isto é, acrescento, para quem fosse para Norte, porque para quem demandasse o Sul ali... acabaria Portugal e começariam a moirama e os infiéis. Mas rumando a Norte, a curiosidade era desperta pela Venda das Raparigas, pouco antes de Alcobaça ou da Batalha, pontos de breve paragem e visita se tempo ou inclinação para isso houvesse.

Mas a paciência perdia‑se de vez em Leiria, sempre uma estafa para atravessar, o trânsito condicionado pela estreiteza da ponte sobre o rio Lis quando não agravada por ser hora de ponta. Um breve relance ao castelo com a sua varanda de arcos ogivais, lá em cima, e ala que se vai fazendo tarde. Ao lado da estrada o castelo de Pombal chamava a nossa atenção, altaneiro no cume do monte, mas Conimbriga merecia mais um desvio e uma paragem para admirar as ruínas da velha cidade romana mais as muralhas que ainda existiam e o jardim dos repuxos. Após Condeixa, finalmente Coimbra, reconhecível ao longe pela Torre da Universidade, lá no cimo, no local onde noutras terras está o castelo. Na Mealhada havia sempre muitos camiões e automóveis parados, para que os seus ocupantes comessem e bebessem nos restaurantes à beira da estrada, que não se pode impunemente andar com a garganta seca ou a barriga a dar horas.
Seguiam‑se Malaposta (do tempo das diligências), Águeda, Albergaria‑a‑Velha, Oliveira de Azeméis, S. João da Madeira (que alívio, estamos quase a chegar!), Picôto e - finalmente - a então mini auto-estrada, cinco km dos Carvalhos à capital do Norte, onde se entrava atravessando a elegante ponte da Arrábida sob o rio Douro, sempre cheio de água mas sem ser o mar espelhado do enorme estuário do rio Tejo, com a ponte metálica de D. Luís para montante, que desde o século XIX une Gaia ao Porto.
Hoje a viagem faz‑se por auto‑estrada e o que se ganhou em comodidade e rapidez nem sempre compensa a monotonia e o passar ao largo destas povoações, afastadas porque para elas aceder é necessário procurar um acesso e por vezes andar muitos km pela estrada velha, para norte ou para sul. (Victor Nogueira - Memórias de Viagem, 1997.11.16)

quinta-feira, julho 06, 2006


Natureza - Tempestade em Setúbal - fotografia de Victor Nogueira
Um outro ponto de vista sobre a CRISE em Portugal e no Mundo

Victor Nogueira

O Governo, o Patronato e os «fazedores de opinião» nos jornais e televisão falam na crise como argumento para retirar direitos, aumentar impostos, precarizar vínculos de trabalho. Um dos Patrões dos Patrões, presidente do BPI, diz mesmo que os trabalhadores deveriam ver os seus salários diminuídos em 10 %. E o Governo diminui o valor das reformas e aumenta a idade para aposentação.

E no entanto, os maiores bancos apresentam lucros da ordem dos nove contos por segundo e o rendimento das dez famílias mais ricas de Portugal equivale às reformas de dois milhões de pensionistas.

Apresentados como privilegiados, os trabalhadores da Administração Pública Portuguesa são os que estão a ser mais penalizados no seu poder de compra, quando comparados com os seus pares de sete países comunitários. E dentre estes, em Portugal, os que têm salários mais baixos são os da Administração Local, para cujos municípios o Governo transfere cada vez mais responsabilidades sem os necessários meios financeiros. Note-se que os trabalhadores da Administração Pública, apresentados como «privilegiados», perderam nos últimos cinco anos poder de compra na ordem dos 5,5 %

Apesar da crise e do apertar do cinto aos trabalhadores e pensionistas, verifica-se que os sacrifícios não são iguais para todos Com efeito os principais grupos financeiros portugueses (BCP, BPI e BES apresentaram em 2005 um lucro de 1 300 milhões de Euros, o que significa um aumento global médio de …. 58 % face a 2004. Mas, apesar destes lucros fabulosos, em 2004 a Banca havia pago apenas 50 % do valor de IRC de 1998. Aumentando as comissões sobre as operações bancárias e «poupando» com o encerramento de balcões, diminuição de pessoal e aumento da carga horária dos seus trabalhadores sem pagamento de horas extraordinárias, a Banca prepara-se para cobrar taxas pela utilização das caixas Multibanco, apesar da sua frequente inoperacionalidade

Mas outros sectores ou empresas viram os seus lucros aumentarem em 2005: Sonae SGPS – 513 milhões € (+ 18 %), Brisa - 297,8 milhões de € (+ 56 %); Cimpor – 266,2 milhões de € (+ 3,9 %), EDP – 910 milhões € (+ 300 %), GALP – lucro record de 442 milhões € (+ 33 %), Mota-Engil – 30,4 milhões € (+ 36 %), PT – 654 milhões € (+ 4,9 %), PT Multimédia – 112 milhões € (- 8,9 %), Jerónimo Martins – 110,3 milhões € (+ 19,3 %), Banif – 60,9 milhões € (+ 126,5 %). Esta alta de lucros manteve-se no 1º trimestre de 2006 para a generalidade destas empresas, como a Portucel – 27,6 milhões € (+71,8 %).

Simultaneamente os dados estatísticos confirmam que em Portugal, tal como nos restantes países capitalistas, onde campeia o neoliberalismo mais desenfreado, os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres estão cada vez mais pobres: a 10% de portugueses mais ricos corresponde 29% do Rendimento Nacional e a 10% dos mais pobres corresponde apenas 2% do Rendimento Nacional. Mas se considerarmos os 20% mais ricos, então estes são donos de 45,9 por cento do Rendimento Nacional. ´

PORTUGAL é o país da União Europeia com mais desigualdade entre ricos e pobres. Em Portugal, presentemente, o desemprego atinge mais de 500 mil trabalhadores, dos quais cerca de 70 mil são licenciados e destes cerca de 40 mil são jovens, existindo mais de 2 milhões de portugueses pobres.

* De acordo com o estudo da Unicef sobre a Situação Mundial da infância (2005), cerca de 200.000 portugueses viviam com menos de 1 dólar por dia.

No outro extremo, a fortuna conjunta dos dez mais ricos de Portugal está avaliada em 7.552.000.000 euros. Como é possível que tais multimilionários tenham esta imensa fortuna? Como é possível que em período de crise propalada e que fundamenta o apertar do cinto para «todos», haja quem no último ano tenha visto a sua fortuna aumentar, como foram os casos de José Manuel de Mello (24,6%), Queiroz Pereira (19,4%) e Belmiro de Azevedo (12,7%), figurando este último na lista dos homens mais ricos do Mundo? Mas entre os milionários portugueses de quem não se fala e cujos fabulosos rendimentos não causam «escândalo» encontram-se Teixeira Duarte, Soares dos Santos (Jerónimo Martins), Horácio Roque, José Berardo e João Pereira Coutinho.

Ao pé dos rendimentos destas famílias e dos administradores das suas empresas, o barulho à volta do valor das reformas de juízes, embaixadores e professores é poeira para com êxito tapar o Sol e cegar a clarividência da maioria do povo português cada vez mais espoliado de direitos e sujeito à canga que lhe colocam sobre os ombros.

• Para se construírem fortunas desta dimensão, quantos milhares de trabalhadores e re­formados foram atirados para situações de grande debilidade económica e para a miséria? Como é possível que 10 (dez!) famílias possam acumular uma fortuna superior ao rendimento anual de dois milhões de refor­mados. Como é possível que perante isto, Fernando Ulrich, Presidente do BPI, defenda que face à crise os trabalhadores devem contribuir com uma redução dos seus salários em dez por cento?

Relembre-se de novo que segundo dados oficiais nacionais e internacionais, incluídos no manifesto contra a pobreza da Oikos, um em cada cinco portugueses vive no limiar da pobreza, 12,4 por cento da população activa ganha o salário mínimo nacional (374,7 euros), 26,3 por cento dos reformados recebe menos de 200 euros por mês e quase 150 mil recebem o rendimento social de inclusão (151,84 euros). De acordo com o estudo da Unicef sobre a Situação Mundial da infância (2005), cerca de 200.000 portugueses viviam com menos de 1 dólar por dia.

Do outro lado, 10.800 pessoas têm rendimentos de cerca de 816 mil euros anuais

Cabe esclarecer que a «fome» de 200 mil é apenas a visível, a dos que procuram ajuda nas instituições: mas a esta deve acrescentar-se a fome dos sem-abrigo, dos idosos que vivem isolados e em condições mínimas de subsistência, sobrevivendo com umas bolachas e um copo de leite, sem dinheiro para remédios ou tratamentos. Mas da fome envergonhada não «falam» as estatísticas.

Não obstante, o Governo do PS continua o ataque aos direitos dos trabalhadores e das populações, prosseguindo e aprofundando as políticas dos anteriores Governos do PS/PSD/CDS. No que se refere à Administração Pública o Governo tripudia sobre a Constituição. Depois de fazer abortar a criação de Regiões Administrativas com órgãos eleitos por sufrágio universal, como determina a Constituição, o Governo, através do PRACE - Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado –, extingue serviços públicas, ressuscita o quadro de excedentes e desenha regiões por si próprio definidas e geridas por pessoal de nomeação governamental, não sujeitos ao escrutínio e responsabilização perante o eleitorado e as populações.

Passando por cima da Lei e com desprezo absoluto pelos direitos individuais e colectivos inscritos na Constituição, o Governo propõe-se o encerramento de escolas, de centros de saúde, de maternidades, de postos de correio, de serviços regionais da EDP, de transportes rodoviários e ferroviários, o que inevitavelmente vai provocar maiores desigualdades, injustiças e desequilíbrios entre o interior e o litoral, entre o mundo rural e o mundo urbano, com o aumento da exclusão e da marginalidade sociais e diminuição da qualidade de vida de quem não viva encerrado na «fortaleza» dos condomínios fechados.

Toda esta guerra orquestrada em nome da crise e contra os «malandros» dos trabalhadores da Administração Pública? Porque o Governo satisfaz o Patronato que o apoia na gula pelos negócios e lucros sem restrições à custa do sacrifício de direitos essenciais como a Saúde, a Educação, a Segurança Social, a distribuição de água, a recolha do lixo, que o Estado tem a obrigação de garantir às populações.

Esta política baseia-se numa ofensiva que se caracteriza pela entrega aos «privados» de sectores fundamentais da economia portuguesa, pelo aumento dos impostos sobre trabalhadores, pensionistas e reformados, enquanto diminui a carga fiscal sobre as grandes empresas e as grandes fortunas. A diminuição do valor real dos salários e das pensões, a destruição do serviço nacional de saúde, da rede pública escolar e da segurança social pública, universal e solidária inserem-se também nesta política neo-liberal da limitação do aparelho do Estado às Forças de «segurança», de «soberania», da «justiça» e de «fiscalização» e à generalização do «trabalho sem direitos».

Deste modo, com a destruição do sector produtivo e favorecimento da especulação financeira, permite-se e criam-se melhores condições para que os «senhores» do dinheiro aumentem ainda mais as suas fortunas com os negócios da saúde, da habitação, da educação, das pensões de reforma, da água, da electricidade, dos transportes e das telecomunicações, da preservação do meio ambiente, dos serviços de segurança e do fornecimento dos bens de primeira necessidade.

E contudo, esta onda globalizadora e de «privatizações» é uma vaga destrutiva que se alimenta da fome, da miséria e da degradação das condições de vida dum número crescente de pessoas em todo o Mundo.

De acordo com dados estatísticos desde 1820 até hoje tem aumentado cada vez mais o fosso entre ricos e pobres. Presentemente o rendimento dos 20% mais ricos da Terra é 82 vezes mais elevada do que aquela dos 20% mais pobres.

Alguns números permitem ver o egoísmo da minoria que comanda o Mundo e a maioria dos governantes
 Em 1998, as três maiores fortunas do mundo ultrapassavam o PIB dos 600 milhões de habitantes que vivem nos 48 países mais pobres;
 5% das despesas mundiais com armamento ou 4% das riquezas acumuladas pelas 225 maiores fortunas do mundo seriam suficientes para resolver todas as necessidades elementares da humanidade (água potável, acesso à saúde, generalização do ensino básico, implementação de programas de vacinação infantil, eliminação dos casos de desnutrição grave, planeamento familiar, entre outros);
 No mundo, actualmente, morrem 3 milhões de pessoas devido à poluição atmosférica e 5 milhões de doenças por causa da contaminação das águas;
 Embora o continente africano produza 15% da energia mundial, apenas consome 3%;
 80% dos recursos naturais e energéticos são consumidos por apenas 20% da população mundial consome

Há uma outra saída. Há um outro caminho, que não seja o da destruição da Natureza, da Humanidade e do Futuro Um caminho baseado na Paz, na Solidariedade, na Justiça e na Responsabilidade Sociais.

quarta-feira, julho 05, 2006

terça-feira, julho 04, 2006

Carta ao filho - Nazim Hikmet




Não vivas sobre a terra como um estranho
Um turista no meio da natureza.
Habita o mundo como a casa do teu pai.
Crê na semente, na terra, no mar.
mas acima de tudo crê nas pessoas.
Ama as nuvens,
as máquinas,
os livros,
mas acima de tudo ama o homem.
Sente a tristeza do ramo que murcha,
do astro que se extingue,
do animal ferido que agoniza,
mas acima de tudo
Sente a tristeza e a dor das pessoas.
Alegra-te com todos os bens da terra,
Com a sombra e a luz,
com as quatro estações,
mas acima de tudo e a mãos cheias
alegra-te com as pessoas.


Nazim Hikmet, (1902 - 1963) c. 1960. Traduzido do inglês por Carlos Eugênio Marcondes de Moura.


Escritor e poeta turco nascido em Salonica, Grécia, então parte do império otomano, que, perseguido por suas idéias políticas, marcou profundamente a literatura turca ao romper com a tradição islâmica e sob a influência dos futuristas russos, propôs a despoetização da poesia. Pensando seguir uma carreira militar, entrou para a academia naval de Istambul e serviu na Marinha, da qual foi expulso (1919) por atividades revolucionárias. Partiu para Moscou, onde estudou ciências políticas e sociais por cinco anos, na Universidade Comunista de Moscou. Regressou à Turquia (1924), após a proclamação da república e tornou-se conhecido com seus primeiros poemas, de cunho patriótico. Condenado (1938) pela suposta participação num complô, após ser posto em liberdade (1950) por força de uma intensa campanha internacional, radicou-se então em Moscou, onde morreu. Publicou as coletâneas 835 satir (1929) e 1 + 1 = 2 (1930), os poemas históricos Sesini kaybeden sehir (1931) e Benerci kendini niçin öldürdü? (1932), as peças para teatro Kofatos (1932) e Unutulan adam (1935) e lançou uma autobiografia em Berlim (1961).
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Estepes Poliliterárias

segunda-feira, julho 03, 2006

domingo, julho 02, 2006


6 de JULHO - razão de ser duma jornada de luta

Victor Nogueira

Face à brutal ofensiva do Governo contra os Direitos das Populações e desmantelamento do Aparelho do Estado Democrático e Social, em 6 de Julho os trabalhadores da Administração Pública Central e Local estão em greve a nível nacional com o objectivo de:

- Defender o direito à carreira, ao emprego e às condições de trabalho com respeito pela dignidade pessoal e profissional;
- Defender a estabilidade de emprego, contra a precariedade e em defesa do vínculo de emprego público;
- Defender serviços públicos de qualidade e as funções sociais do Estado, combatendo políticas privatizadoras;
- Lutar contra os propósitos da lei de reorganização de serviços e de mobilidade porque são contrários à Constituição da República Portuguesa, desrespeitando princípios constitucionais relativos a direitos, liberdades e garantias e outros relativos à Administração Pública;
- Recusar a criação de supranumerários, agora chamada situação de mobilidade especial;
- Defender a efectivação do direito à negociação e contratação colectivas.

As intenções do Governo

Está nas intenções do Governo acabar com o regime de carreiras, criando-se um regime de “posto de trabalho” para todos os trabalhadores excepto técnicos e técnicos superiores.

Da actual carreira técnico-profissional para baixo, passará a haver categoria única. Através de Luís Fazenda, presidente da Comissão para a Revisão do Sistema de Carreiras e Remunerações da Função Pública, o Governo advoga a extinção da avaliação de desempenho para a generalidade dos trabalhadores, com a justificação de que é desperdício gastar dinheiro e tempo na avaliação de desempenho dos mesmos. Relativamente aos corpos especiais, estes devem ser extintos.

Já em relação às remunerações, o presidente da Comissão afirmou que não se justifica que o Estado pague tanto aos seus trabalhadores quando no mercado de trabalho há mão-de-obra muito mais barata. E exemplificou: não se justifica que o Estado pague mais de 725 euros aos seus técnicos superiores, quando existem muitos licenciados disponíveis por esse preço.

Toda esta campanha, desencadeada em nome do combate ao deficit, traduz-se na continuação da degradação e desqualificação da Administração Pública e dos trabalhadores, acompanhada da privatização de importantes Funções Sociais do Estado, com a liquidação do Sistema Público da Segurança Social, geral, universal e solidário, do Serviço Nacional de Saúde, universal e tendencialmente gratuito, e do Sistema Público de Ensino.

Esta violenta ofensiva dirige-se, em particular, contra os Trabalhadores da Administração Pública, Central e Local, agora apresentados como privilegiados, a quem são imputadas as deficiências de funcionamento destes serviços, escamoteando que estas se devem a uma política deliberada dos sucessivos Governos da República, do PS/PSD/CDS, que “justifique” a sua privatização, desde que sejam lucrativos para o Capital.

A nova ofensiva: a lei da mobilidade

Depois dos «cortes» na ADSE com vista à sua extinção e à da Caixa Geral das Aposentações, depois das «mexidas» cada vez mais gravosas nas regras da Aposentação, dos aumentos salariais inferiores à inflação e do congelamento dos escalões, o Governo «avança» com a chamada «Lei da Mobilidade» criando condições para a criação de «praças da jorna» e despedimentos maciços, com vista à privatização de sectores fundamentais do Estado Social debaixo do disfarce da «reorganização de serviços».

Nada impede a sua extensão à Administração Local, onde se prevê ou já é possível entregar a sectores privados funções até agora da competência das autarquias locais, como o abastecimento de água, a recolha e tratamento de resíduos sólidos e de efluentes, o abastecimento público (mercados municipais), cemitérios, entre outros. Por outro lado continua a transferência de novas responsabilidades da Administração Central para a Local sem atribuição das correspondentes verbas e meios financeiros, conjugada com a limitação das despesas com pessoal e ao investimento público.

A nova proposta de «Lei das Finanças Locais» traduz não o reforço financeiro das autarquias, nem tão pouco das mais pobres, mas sim o libertar o Estado Central e o seu Orçamento da obrigação constitucional de cumprir a sua função redistributiva e de promoção da coesão do território nacional. Com a nova Lei pretende-se empurrar as autarquias para penalizar as populações sobrecarregando-as com novos e mais pesados tarifários e a acentuação da carga fiscal, «aliviando» o Governo de combater a fraude e a evasão fiscais das grandes empresas e das grandes riquezas.

O Governo: comissão liquidatária

O Governo está transformado numa comissão liquidatária a favor dos interesses das transnacionais e das grandes fortunas, com vista ao desmantelamento do Estado Social e condenação à morte da Democracia, da Constituição e do Portugal de Abril

Para barrar isto, é necessário a luta e a unidade dos trabalhadores e das populações. Por isso, em 6 de Julho, é importante uma grande adesão à greve nacional da Administração Pública, fazendo desse dia um dia de protesto e de luta em defesa do Estado Social, da Democracia e do Portugal de Abril