A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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terça-feira, março 03, 2009

Marx, teorias das crises do capitalismo e a posição dos comunistas (1)

28 DE FEVEREIRO DE 2009 - 17h54



por Sérgio Barroso*


Essa série de artigos retoma o debate sobre a interpretação marxiana – e marxista – das crises capitalistas. Seus objetivos são: a) buscar contribuir para a compreensão do fenômeno integrante da estrutura dinâmica do capitalismo – as crises – segundo a teoria de Karl Marx [1]; b) criticar interpretações anacrônicas do marxismo, algumas na crise global de agora ressuscitadas pela mania catastrofista e escatológica [2]; c) opinar sobre a posição teórica e política dos comunistas no enfrentamento da grande crise atual, a partir das lições emanadas da Grande Depressão (1873-96 e 1929-1939).



Na Bolsa de Valores Com efeito, tais objetivos se entrelaçam visando abrir caminhos num panorama marcado por grandes incertezas, o que dificulta horizontes mais claros para combates mais conseqüentes. Noutra palavras, análises reducionistas da teoria de Marx e Lênin frente aos complexos (e singulares) processos, como das grandes crises, resultam “ligeirinho” na substituição dum sistema tático de reforço das posições revolucionárias, pelo discurso estratégico errático.





Aspectos fundamentais inseparáveis: dinamismo e crises





Na primeira parte da série trataremos da correlação entre a valorização do valor (da mais-valia) como objetivo central da produção capitalista, o que resulta, do ponto de vista sistêmico, sempre em superacumulação, superprodução de capital - que também são ativos financeiros. Sempre que possível referenciando-nos na origem e no desenrolar da crise global que presenciamos.





1. Certamente que as crises no capitalismo não podem ser separadas da sua dinâmica própria, intrínseca. O capitalismo, em seu móvel de acumular por acumular, jamais se interessará pelas “necessidades sociais” das massas trabalhadoras. Isto diz respeito à sua “missão”, a qual, segundo Marx, é produzir em larguíssima escala, até superproduzir capital. Quer dizer, sobreinvestir para fazer crescer a produtividade social do trabalho e suplantar a concorrência, superproduzir para superlucrar, e superacumular capital em excesso e em todas as suas formas, referenciando-se numa dada taxa média de lucro.





Portanto, a superprodução de capital – essencialmente de máquinas, equipamentos, instalações, matérias-primas, e ativos financeiros, claro – é uma “novidade” do século 19, então anunciada por Marx contra as teorias Smith e Ricardo. Mais além, constitui imenso equívoco borrar as formas que redesenham as crises que mimetizam o desenvolvimento do capitalismo.





Exemplifico. Na crise atual, há quem, muito estranhamente repita que considerar “uma crise da ‘financeirização’” é “unilateralismo”, pois a crise não é só financeira, “apesar da relevância dos problemas nesta esfera”. Ora, primeiro não se trata de “crise de financeirização”, isso é desconversa. Trata-se sim de uma crise gestada num padrão de acumulação capitalista francamente voltado para a acumulação financeira, onde a financeirização dos mercados de riqueza se fez institucional. Segundo, repitamos: o capital nunca foi somente máquinas, equipamentos e instalações, tampouco mercadorias: é também ativos financeiros que rendem juros e dinheiro. Manipulado por capitalistas, o dinheiro produz mais dinheiro por ser reserva de valor, por agir como capital a juros (capital-dinheiro), por potencialmente atrair mais crédito. O capital procura valorizar-se sempre - sinuosamente tal qual uma serpente -movimentando-se entre o dinheiro, os ativos financeiros, as mercadorias ampliando sua base de valorização. Na operação crédito/capital a juros o capital converte-se em mercadoria e exprime-se "cada vez mais como puro capital", no capital por ações, e outros títulos financeiros que representam o direito de apropriação da riqueza [3]. É uma dimensão do movimento de suas formas, que o gênio Karl Marx denominou de “As três figuras do ciclo”:





“Sempre mudando de forma e se reproduzindo, parte do capital existe como capital-mercadoria que se converte em dinheiro; outra, como capital-dinheiro que se transforma em capital produtivo; uma terceira, como capital produtivo que se torna capital-mercadoria. A existência contínua dessas três formas decorre de o ciclo do capital global passar por essas três fases” [4].





Por isso que, para Robert Guttmann, “A crise atual, todavia, é diferente. Não apenas emanou do centro, em vez surgir de algum ponto da periferia, como também revelou falhas estruturais profundas na arquitetura institucional de contratos, fundos e mercados que compunham o sistema financeiro novo e desregulamentado. Estamos diante de uma crise sistêmica, que é sempre um evento de proporções épicas e efeitos duradouros. Claras são as distinções da preponderância esmagadora da finança, nesta crise."





Valorização, superacumulção e crises





2. Assim, conforme Marx: “a força motriz da produção capitalista é a valorização do capital, ou a seja a criação de mais-valia, sem nenhuma consideração para com o trabalhador” [5]. Daí que na dinâmica do capitalismo, a crise, ou seja, as crises são partes constitutivas da sua dinâmica estrutural. O que não quer dizer - que as crises são sempre estruturais desde priscas eras. Crescimento, recessão, recuperação, expansão e instabilidade - também estagnação - são as categorias principais do capitalismo de hoje, portanto historicamente datadas, e seu vetor de acumulação é projetado pela hegemonia da haute finance (Karl Polanyi).





Pelo seu caráter incontornavelmente expansivo [6], de outra parte, não seria possível a financeirização - um padrão que passou a ser imprescindível ao dinamismo determinado pela hegemonia da grande finança especulativa e concorrencial -, "brotar" da estagnação (veremos mais sobre isso noutro artigo). A exemplo, nas grandes fases expansivas antecedem a dinâmica das crises, geralmente: monopolização + financeirização + superacumulação (também de riqueza financeira fictícia) + crises [podendo haver ou não estagnação].





Está em Marx que o desenvolvimento do moderno sistema de crédito decorre da imperiosa necessidade de centralização de massas de capitais, o que coincide com o processo de autonomização do capital a juros, configurando um circuito financeiro que mobiliza, utiliza e centraliza capital monetário e valoriza capital fictício. É assim que: a) a proliferação de títulos financeiros passa “a ter uma circulação e valorização próprias”; b) as variadas formas de ativos “passam a ser disputadas pelas massas centralizadas de capital”, onde o investimento busca todos os espaços de valorização; onde a sistemática “transformação dos lucros em excedentes financeiros” se submetem “a uma lógica particular de valorização” [7].





Por suposto, o que importa destacar por enquanto é que o monopólio não apenas reafirma a tendência à superacumulação, como introduz novas determinações que terminam por agravar a instabilidade e a incerteza do cálculo capitalista, próprias desse regime de produção; muito mais ainda na época da “globalização financeira”. E que a teorização dos processos mais recentes que catapultam as crises via circuitos da “finança mundializada” (François Chesnais) são similares aos mecanismos originários das crises desse regime de produção. O que, mais uma vez, na presente crise global, pode ser constatado cabalmente na destruição de vários dos maiores bancos de “investimento”, gigantescos bancos e coração do sistema (exatamente) financeiro dos EUA.





Aliás, além de superacumulação-produção, devemos insistir em que a desproporção entre os departamentos e a lei de tendência de queda da taxa de lucro são igualmente fenômenos expressivos da dinâmica da crise. Crises que, conforme Marx, em última instância tem como determinação originária o antagonismo irresoluto: apropriação cada vez mais privada X produção cada vez mais expansivamente social.





O que veremos no próximo artigo.




Notas



[1] É inacreditável, mas há ainda quem pense a crise capitalista quando “a interrupção do processo de circulação do capital ocorre com a paralisação da venda de mercadorias...”. Assim Lênin combatia o rotundo fracasso das teses subconsumistas, costumeiramente copiadas repetidas vezes do marxista Paul Sweezy (“Teoria do desenvolvimento capitalista”): “Marx se limita a manifestar aqui [passagens do Livro II] sobre a teoria da realização uma contradição do capitalismo assinalada já em outras passagens de O Capital, a saber: a contradição entre a tendência à ampliação ilimitada da produção e a necessidade de um consumo limitado (a conseqüência da situação proletária das massas do povo)” (“Observación sobre el problema de La teoria de los mercados”, in: “Sobre El problema de los mercados”, p. 210, Madri, Siglo veinteuno, 1974).





[2] Os “adivinhadores de crise” são os mesmos que agora tergiversam sobre seu longo passado diuturno militante em prol da “catástrofe iminente” do capitalismo, da “decomposição iminente do padrão dólar”, e procuram confundir a análise as grandes crises do capitalismo, como a que transcorre, inúmeras vezes apontadas previamente como tendências que vinham se plasmando - dado o visível grau de superacumulção geral de capital, expansão, especulação, alavancagem e instabilidade -, com suas orações matinais dogmáticas proclamadas há mais de uma década! Chuta que um dia a casa cai...!



[3] Ver: “Capitalismo e crise contemporânea – a razão novamente oculta”, de A. S. Barroso, dissertação de Mestrado, Campinas, Unicamp/IE, 2003. A passagem tem por base observações de Braga, J. C. S. (2000).



[4] Em: “O Capital” Livro 2, v. 3, Cap. IV, p. 106, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, s/data.



[5] Em: “Capítulo inédito D’o Capital - resultado do processo de produção imediato”, Marx, p. 20, Porto, Escorpião, 1975.



[6] Há sim limite estrutural irreversível na dinâmica estrutural do capitalismo: enquanto investe perenemente em sua base técnica (desenvolvimento das forças produtivas como determinante histórico do desenvolvimento), parar alagá-la, expandir a produção e suplantar a concorrência, Das Kapital tem que reduzir, descartar, até mesmo destruir sua própria base de valorização: o trabalho humano e o tempo social necessário à sua subsistência e o da extração da mais-valia.



[7] Ver todo o Capitulo 2 (“O monopólio do capital”) do estudo que considero uma pequena obra-prima, “A contradição em processo – o capitalismo e suas crises”, do professor Frederico Mazzucchelli, especialmente as pp. 84-90 (Campinas, Unicamp/IE, 2004, 2ª edição).






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*Sérgio Barroso, Médico, doutorando em Economia Social e do Trabalho (Unicamp), membro do Comitê Central do PCdoB.




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* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho -
28 DE FEVEREIRO DE 2009 - 17h54
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terça-feira, fevereiro 17, 2009

A crise capitalista mundial. E o inacreditável Marx






14 DE FEVEREIRO DE 2009 - 20h47



por Sérgio Barroso*

“Para sustentar os preços e conter assim a verdadeira causa do mal, foi necessário que o Estado pagasse a preços vigentes antes de estalar o pânico comercial e que descontasse as letras de câmbio, as quais não representavam outra coisa senão bancarrota estrangeira. Em outras palavras, as perdas dos capitalistas privados deveriam ser pagas com o patrimônio de toda a sociedade, representada pelo governo” (Marx, “A crise financeira na Europa”, Editorial do New York Daily Tribune, 22 de dezembro de 1857). [1]


Foto legenda: Desempregados em massa nos EUA: a grande semelhança

Quando da aprovação de mais um pacotaço bilionário (US$ 789,5 bilhões), pelo Senado e a Câmara dos Estados Unidos, o “mercado recebeu o plano de secretário de Tesouro de Barack Obama como se ele tivesse sido elaborado e apresentado pelo governo de George W. Bush” - decifra um mofado cenário Luiz Guimarães (“Bala de festim desaponta mercado”, Valor Econômico, C-2, 11/02/2009). Simultaneamente, as últimas estimativas do governo Obama apontam uma ampliação bem maior que esperada do déficit fiscal: de US$ 455 para US$ 1,2 trilhão, quer dizer para 8% do PIB, sem as contas do novo pacote. Pelo menos 10% do PIB, em 2009, essa é a conta que deve ser feita, por enquanto – cifra que, mesmo oficial, será ultrapassada. Para os alucinados apologistas da “haute finance” do “Wall Street Journal” – finos velhacos manipuladores do fetiche do capital –, “As perspectivas de recuperação econômica este ano começaram a desaparecer” (Valor Econômico, 13/02/2009, C-3).

Ora – afirmo aqui -, os EUA estão encharcando os passos no pântano de uma grande depressão. [2] O que não significa estarmos marchando a uma depressão mundial, dada a “retranca” que, muito provavelmente, farão os países “em desenvolvimento” ou subdesenvolvidos. Ademais, poderão os imperialistas do norte decretarem um monumental calote de seus superindividamentos cruzados e inéditos (empresas, famílias, governos, estrangeiros), cujo círculo destrutivo está indo, incontornavelmente, em direção à insolvência!

Não há nenhuma ingenuidade no badalado Martin Wolf, economista sênior do influente diário burguês londrino Financial Times, quando abre seu artigo com a seguinte pergunta, desta feita algo menos sinuosa: “Será que a presidência de Barack Obama já fracassou? Em tempos normais, esta seria uma pergunta ridícula. Mas estes não são tempos normais. São tempos de grande perigo”. Eis, similarmente a Guimarães, o título de seu artigo: “Porque o plano de Obama fracassará” (Valor Econômico, A-15, 11/02/2009).


Conforme Paul Krugman - sempre um conselheiro à espreita e espécie de “vigilantes do peso” frente ao abismo depressivo da economia norteamericana -, insistindo na insuficiência do novo pacote, a “economia americana está a beira de uma catástrofe, e boa parte do partido republicano está tentando empurrá-la por sobre essa beira” (“À beira da catástrofe” (Estado de S. Paulo, 7/02/2009, B-4).

Revelaram-se agora perdas também bilionárias e situação “próximas da insolvência” de companhias Seguradoras. Desde 2007 as seguradoras norteamericanas tiveram perdas gigantescas, calculadas em US$ 243,6 bilhões. A Swiss Re, a maior dessas empresas no mundo, perdeu 1 bilhão de francos suíços, depreciando mais 6 bilhões em ativos. Menos expostas na Europa, ainda assim não ficaram ilesas na grande crise.

Europa afunda e a Ásia resiste

Europa? O presidente do BC do Reino Unido, Mervyn King anunciou estar a Grã-Bretanha “em profunda recessão”, com a taxa oficial de desemprego atingindo 6,3% da PEA, com o maior número de desempregados desde 1997. Depois de 15 anos a recessão chega e afunda a Espanha, jogando nas costas dos trabalhadores a maior taxa de desemprego da Europa: 14% da PEA (População Economicamente Ativa).


Pior ainda: a queda da produção industrial nos 27 países da União Européia atingiu 12% em dezembro, frente a dezembro de 2007; no setor de bens de capital, alarmantes 20%. “Esses dados são inéditos. A profundidade da crise é algo jamais visto”, disse Günter Verheugen, comissário para indústria da UE. Crise financeiro-econômica no continente que se mostra “mais longa e profunda do que imaginávamos”, arrematou Erkki Liikanen, da diretoria do Banco Central Europeu. O crescimento da economia da zona do euro será negativo em 1,3% (15 países), nesse primeiro trimestre, preveem eles. (“Indústria européia tem maior recuo desde 1990”, O Estado de S. Paulo, 13/02/2009, B-9).


Crescem e continuarão a crescer, especialmente na Europa, a xenofobia, o racismo e a violência. Problemas graves os quais o protecionismo, sempre presente em todas as grandes crises, só faz agravar.


Na Ásia, as exportações chinesas, em janeiro, tiveram maior queda em 10 anos: 17,5% a menos que janeiro de 2008. No entanto, as importações caíram expressivos 43,1%, ou seja, mais que as importações, o que lhe conferiu um superávit de US$ 39,1 bilhões, segundo maior de sua série e abaixo dos US$ 40,1 bilhões de novembro de 2008. Já a Coréia do Sul, a quarta economia da região, reduziu fortemente sua taxa de juros, para 2%, quando as previsões oficiais calculam em -2% o mergulho recessivo de sua economia – vigaristas e banqueiros de lá fazem aposta em -4%.

Nas previsões do FMI, divulgadas no início deste mês, o PIB da Ásia deverá crescer 2,7% este ano, com os chamados “emergentes” da região expandindo 5,5% a partir do crescimento resistente na China e na Índia, declarou o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn. De todo modo, a previsão de novembro era de uma taxa de 4,9% para a região. Previsões do Fundo, sabemos muito bem, são 100% otimistas para o capital


Brasil: movimentos contraditórios na crise

“(...) a força motriz da produção capitalista é a valorização do capital, ou seja a criação da mais-valia, sem nenhuma consideração para com o trabalhador” (Marx,Capítulo inédito d’O Capital). [2]

No Brasil, em dezembro a produção industrial caiu 12,4%, frente ao mês anterior, queda pelo terceiro mês consecutivo, informara o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Significa – diz o Instituto - o pior resultado da série histórica, iniciada em 1991. Em novembro, a queda havia sido de 5,2%. O desemprego anunciado atingiu 650.000 trabalhadores, cerca do dobro do que ocorre sazonalmente. Há clara perspectiva de uma retração da economia no primeiro trimestre deste ano.


No entanto, após três meses seguidos de queda, em janeiro a produção industrial subiu 5,7% em São Paulo, relativamente a dezembro. A produção da indústria automobilística quase dobrou de dezembro para janeiro, informou nesta segunda-feira a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores). Foi o primeiro aumento após cinco meses de queda. Houve crescimento da vendagem de automóveis (1,5% em janeiro sobre dezembro e queda de 8,1% frente a janeiro do ano passado). O número de unidades fabricadas passou de 96.586 no último mês de 2008 para 186.124 no primeiro deste ano, uma alta de 92,7%.


De outra parte, a Vale do Rio Doce retomou o programa de investimentos de uma usina siderúrgica no Espírito Santo, após a desistência de associação com os chineses, a menos de um mês. O PAC sofre reforço pesado: no 4 de Fevereiro anunciou-se acréscimo de mais R$ 142 bilhões nos próximos dois anos. Em Janeiro, o transporte de passageiros domésticos cresceu 9,6%, computou a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), ficando surpreendentemente acima da taxa de janeiro de 2008: 6,7%. A explicação seria a troca do internacional pelo mercado nacional; o que deve cair a partir de março.


Frente à crise no Brasil, o presidente Lula afirma que em 2008 a rotatividade da força de trabalho alcançou 15 milhões de pessoas, contra a contratação de 16,5 milhões. “É uma coisa absurda”, disse Lula, referindo-se à ofensiva patronal de flexibilização das leis trabalhistas. E exemplificou: “Mesmo quando o emprego está crescendo, a rotatividade é altíssima”, enfatizando o absurdo de se achar que há dificuldade de se demitir trabalhadores. (Folha de S. Paulo, 12/02/2009). E anunciou ampliar de 500 mil para 1 milhão a construção de casas populares, até 2010.


Assim, agora, não pode haver dúvida sobre duas posições acertadas e ousadas do presidente Lula: a) o governo joga muito pesado na manutenção de uma política para infraestrutura que talvez não tenha precedentes na história do Brasil; b) o presidente tem feito críticas diretas e duras a esses setores da nossa burguesia mil vezes cretina!


Mas a grande perturbação persiste: uma política macroeconômica que fratura qualquer perspectiva de um desenvolvimento nacional e social duradouro, contra a barbárie da era das finanças como “armas de destruição em massa” (Warren Buffett).

Na mesma direção, urge no Brasil a construção de um Fórum Nacional Contra a Crise.


Notas

[1] Em “Marx-Engels – Escritos económicos menores. Carlos Marx, Frederico Engels – Obras fundamentales v. 11, pp. 204-5, México, Fondo de Cultura Económica, 1987.

[2] Assinalo, no entanto, que são inteiramente válidos os argumento do professor Frederico Mazzucchelli, de que as medidas tomadas na Grande Depressão de 1929-33 – de forte espraiamento internacional - foram no geral no sentido de aprofundar a débâcle; o que não pode ser igualado agora às ações dos estados capitalistas centrais, periféricos - e mesmo no caso da China socialista que vem, acertadamente, optando por uma via de reforço, com políticas nitidamente keynesianas.

[3] Em: “Capítulo inédito d’O Capital – resultados do processo de produção imediato”, p. 20, Porto, escorpião, dezembro/1975.





*Sérgio Barroso, Médico, doutorando em Economia Social e do Trabalho (Unicamp), membro do Comitê Central do PCdoB.



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in Vermelho 2009.02.14
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sexta-feira, maio 02, 2008

Capitalismo, ganância e fracasso humano





por Sérgio Barroso*
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''É um massacre dos pobres do mundo. O problema não é a produção de alimentos. É o modelo econômico, social e político do mundo. O modelo capitalista está em crise'' (Hugo Chávez).

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As primeiras revoltas de famintos e famélicos no Haiti, África Ocidental ou Bangladesh implicaram até numa (cínica) advertência registrada pelo Banco Mundial e o FMI. Seis pessoas morreram em Port au Prince (Haiti), em recentes e desesperadores levantes. Como disse Mike Whitney “as pessoas enlouquecem quando não podem alimentar seus filhos” (Tumultos alimentares e especuladores, Counterpunch, 26-27/4 2008).

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Na Indonésia, Vietnam e Índia adotaram-se controles sobre as exportações de arroz. Os preços do trigo, do milho e da soja estão a bater recordes. A própria ONU - adepta de carteirinha da “globalização financeira” - denominou a atual crise alimentar global de ''tsunami silencioso''. Via de regra, praticamente todas as commodities vêm subindo. Pari passu à profunda crise financeira, deflagrada pela oligarquia gringa ianque.

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De fato, entre 2004-2007, os preços dos alimentos subiram em média de 83%. Assustado, o economista-sênior do Financial Times, liberal Martin Wolf afirma que a causa principal para o surgimento de um novo surto inflacionário encontrar-se-ia na alta mundial e espetacular dos preços das commodities. Segundo escreveu, entre 2002 e 2008 (fevereiro), o índice amplo do Goldman Sachs foi de 288%, o do preços da energia 358%, o de metais industriais 263% e o de produtos agrícolas 220% (Valor Econômico, 5/3/2008).

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Ora, seguindo exatamente a orientação de política monetária do chefão do Federal Reserve (Fed, Banco Central dos EUA), Ben Bernanke, um verdadeiro vagalhão especulativo de commodities sacudiram os preços para a lua. Como assim? “O dólar fraco continuará afetando a economia européia porque dificultará as exportações européias'', declarou ontem o premiado com o Nobel de economia (2001), J. Stiglitz, a uma revista austríaca. Conforme imagina, além do euro, a ultravalorização do iene é parte de uma política proposital para ''empobrecer os vizinhos''. [O cara-pálida esqueceu o real!]

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Assim, enquanto o dólar está, por decisão do Estado norte-americano, muito mais barato, para, também, fortalecer suas exportações, a especulação grossa torna os alimentos e as matérias-primas muito mais caros. Não à toa a inflação corre solta na maior parte dos Estados do Golfo Pérsico, “informalmente” dolarizados.

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Escassez de petróleo? Uma gigantesca mentira! Os especuladores estão simplesmente jogando à estratosfera o preço do barril de petróleo. Assim agindo, nada mais fazem do que fugir da desvalorização de grande parte dos ativos financeiros, deslocando-se temporariamente do dólar e, óbvio, das ações do mercado imobiliário.

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Corretíssima a análise do destacado economista Elmar Altvater: formou-se uma ''aliança diabólica'' entre transnacionais petrolíferas, o setor automobilístico, a indústria farmacêutica e setores agrícolas propondo-se a transformar superfícies cultiváveis do Sul global numa plataforma para a produção de combustível destinado ao Norte global. “Ambas crises, a dos combustíveis fósseis e a dos alimentos, são as duas faces de uma mesma moeda” - assegura.

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Sim, digo eu: capitalismo que mata gente de fome em meio à exuberância, por sadismo congênito.

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O presidente Hugo Chávez, como qualquer pessoa, deve ter muitos defeitos. Contudo, talvez, na seara política, o maior deles seja dizer as coisas com as palavras que lhes correspondem – em luta contra o fracasso humano.

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O capitalismo, historicamente, é sistema obsoleto. Mas será necessária ampla consciência para transformá-lo.

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Artigo publicado originalmente em O Jornal (AL), 30/4/2008




*Sérgio Barroso, Médico, doutorando em Economia Social e do Trabalho (Unicamp), membro do Comitê Central do PCdoB.



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in vermelho -
1 DE MAIO DE 2008 - 18h08
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segunda-feira, abril 21, 2008

Os vigaristas




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por Sérgio Barroso*


“Como podemos errar tanto? (Alan Greenspan, Valor Econômico/Financial Times, 18/3/2008).


Deus se apiedará da alma – em chamas – desse senhor. Greenspan, chefão do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), por nada menos que 18 anos, multiplicou a riqueza de poucos e iludiu multidões. Desgraçou a vida de incontáveis seres humanos. Como?

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Ao fazer desabar, anos a fio, a taxa básica de juros mais poderosa do planeta, o Midas da grande burguesia americana trejeitou-se num “maníaco soprador de bolhas” – designação magistral do professor Belluzzo. Pior: Greenspan afirmou que a crise atual ocorre sob a égide de modelos em que “respostas inatas do ser humano resultam das oscilações entre a euforia e o medo”. Vigarice.

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Karl Marx, o inglês J. Hobson – e mesmo um ex-diretor do Fed, o economista C. Kindleberger –, a exemplo, apontaram a especulação como fenômeno endógeno do modern capitalism. Para Marx, as formas do capital (como portador de juros e como fictício) são indissociáveis do desenvolvimento do moderno sistema de crédito. Ao brotar lucro e juros no capitalismo atual – dinheiro que cria dinheiro –, reproduzem uma “nova aristocracia financeira, nova espécie de parasitas... um sistema completo de especulação e embuste” – fulminou Marx (O Capital, Livro 3, Cap. XXVII). Disse Hobson, um liberal: os financistas do final do século 19 especulavam com títulos como numa “casa de jogo”; que “planejavam golpe (coup) contra a Bolsa de Valores” (Evolução do capitalismo moderno, Cap. X).

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Voltemos às psicoses da crise financeira. Greenspan, no final do dito artigo, labaredas nas calças, defende uma “regulação” do sistema financeiro dos EUA que não “iniba” o que ele chama de “salvaguardas mais confiáveis e eficazes: a flexibilidade do mercado e a competição aberta”. De bate pronto e anunciado no 31 de março, pelo secretário do Tesouro Henry Paulsen (esse tolinho foi ex-diretor do FMI e executivo-chefe do Goldman Sachs!), o plano “regulador de estabilidade de mercado” não passa de um festival de demagogia.


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Primeiro, porque ele, seguindo mais ou menos os conselhos de Greenspan, passou pelo crivo de um grupelho da alta finança americana – como não podia deixar de ser. Não à toa o liberal Paul Krugman escreveu, comparando: as medidas são “para esconder a falta de idéias práticas sobre o que fazer”; tomadas por “dirigentes [que] gostam de promover grande algazarra quando reorganizam caixinhas e linhas de um organograma informando quem se reporta a quem”.

Ou seja, trata-se de uma ressaca de fim de festa de governo, que em nada tocará na própria crise. (Em 5 de abril, o Departamento de Trabalho dos EUA informou quem de fato está se lascando com a crise: 80 mil novos desempregados, somando 232 mil, somente até março).

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Segundo, porque elas fora publicizadas exatamente quando se soube das violentas perdas bancárias com a crise, registradas oficialmente até 1º de abril, a superar os US$ 140 bilhões (blog Deal Journal,The Wall Street Journal, 1/4/2008). As baixas contábeis do banco suíço UBS totalizaram as maiores (US$ 27 bilhões).

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Veja o leitor mais da bagaceira: Merrill Lynch – US$ 19,4 bilhões; Morgan Stanley – US$ 12,9 bilhões; Deutsche Bank – US$ 7,12 bilhões; Bank of America – US$ 5,68 bilhões; Royal Bank of Scotland – US$ 5,621 bilhões; Credit Suisse – US$ 4,859 bilhões; Société Générale – US$ 3,775 bilhões; Goldman Sachs – US$ 3,7 bilhões, e por aí vai.

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Sexta passada, a Bloomberg subiu o rombo para US$ 195 bilhões; e o banco Lehman Brothers (quarto maior de investimentos dos EUA) declarou a liquidação de três de seus Fundos. Na segunda, seguradoras chiaram o estrago de US$ 38 bilhões.

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A quebradeira prosseguirá.

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Artigo publicado originalmente em O Jornal (AL), 16/4/2008

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*Sérgio Barroso, Médico, doutorando em Economia Social e do Trabalho (Unicamp), membro do Comitê Central do PCdoB.



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in Vermelho -
19 DE ABRIL DE 2008 - 19h29
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