A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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domingo, dezembro 19, 2010

Para onde vai a Europa?

Mundo

Vermelho - 18 de Dezembro de 2010 - 13h32

Depois da Grécia, a Irlanda. E depois, provavelmente, Portugal. Na sequência, não sabemos. O que é certo é que vários países estão ameaçados pelos mercados. A Espanha já está sob a alça da mira. Mas com o devido respeito pelos demais, o caso da Espanha é diferente. Trata-se da quarta economia da Europa (12% do PIB europeu) e é um peso pesado da política europeia.

Por Sami Nair


A dívida espanhola é três vezes superior à grega, seu déficit está, há dois anos, em torno de 10% do PIB, e o desemprego, que atinge todas as faixas de idade, está acima dos 20%. Se a Espanha recorrer ao fundo de resgate europeu, isso abriria também, de maneira inevitável, o caminho para ações especulativas contra Itália e França, o que significaria um giro decisivo para a Europa.

O paradoxo é que a estratégia europeia de saída da crise mundial (desregulamentação do mercado de trabalho, deflação salarial, desemprego estrutural, cortes orçamentários e privatizações) mostra os mercados cada vez mais vorazes. Daqui em diante, eles querem tudo. Essa estratégia, fundamentalmente recessiva, provoca um aumento legítimo das reivindicações sociais e políticas e dá lugar a perguntas que começam a ser formuladas espontaneamente pelas opiniões públicas. Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, expressa assim esse estado de ânimo: “Para Atenas, Madri ou Lisboa, se colocará seriamente a questão de saber se interessa continuar o plano de austeridade imposto pelo FMI e por Bruxelas, ou se, ao contrário, é melhor a voltar a serem donos de suas políticas monetárias” (Le Monde, 23-24 de maio de 2010).

Ainda não chegamos a esse ponto, mas se não mudarmos as regras do jogo, a divisão da zona euro se tornará uma hipótese séria. Pois está claro que não poderemos resolver esta crise somente com medidas restritivas que atingem as populações mais expostas (classes médias e populares), e menos ainda com medidas técnicas vinculantes como as apoiadas por Alemanha e França para ativar o fundo de resgate. O presidente do Banco Central alemão, Axel Weber, deu a entender, durante uma visita recente a Paris, que os 750 bilhões de euros deveriam ser de todo modo aumentados se a Espanha recorresse ao fundo. Isso não deve ter agradado muito ao ministro alemão de Finanças, Wolfgang Schäuble, que, em uma entrevista ao Der Spiegel (08/11/2010), informou: durante a fase crítica, prolongação da vida dos créditos; se isso não bastar, os investidores privados deverão aceitar uma depreciação de seus empréstimos em troca de garantias para o restante. Isso é o mesmo que agitar a capa vermelha diante dos investidores privados.

Estes reagiram imediatamente, colocando a Irlanda de joelhos e cercando Portugal antes de assinalar os alvos na Bélgica e na Espanha. Quanto falta para que passem ao ataque? A margem de confiança que concedem aos diferentes países da zona euro já é insustentável: a Alemanha encontra compradores de seus bônus a uma média de 2,7%, enquanto que a Espanha os negocia no melhor dos casos em torno de 5% e Portugal a 6,7%. Os países endividados emprestam, pois, a taxas cada vez mais proibitivas e, se às vezes conseguem ganhar uns pontos, é só porque o Banco Central compra alguns bônus, coisa que não poderá durar muito tempo.

Na verdade, estamos assistindo a uma verdadeira guerra dos mercados contra os Estados. Quando a crise começou, apontei (“A vitória dos mercados financeiros”, El País, 08/05/2010) que os mercados iam submeter à prova a capacidade de resistência dos Estados e dos movimentos sociais, e quem em caso de uma debilidade comprovada dos europeus para definir uma estratégia progressista comum frente à crise, os investidores iam incrementar sua vantagem atacando frontalmente os Estados mais fracos. Objetivos: desregulamentar ainda mais os mercados internos e exigir mais privatizações. É exatamente o que está ocorrendo hoje. O que estamos vendo é uma contrarrevolução social “thatchero-reaganiana”. A questão é saber se as sociedades europeias vão aceitar isso. Neste contexto, o estatuto do euro é um teste definitivo: será, finalmente, posto a serviço da promoção de um modelo social sustentável ou se tornará o vetor da destruição dos restos do Estado de bem estar europeu?

A partir de agora, o problema para a Europa já não é econômico, mas sim político. Se as medidas técnicas adotadas não conseguirem resolver as dificuldades dos países europeus, veremos a divisão da zona do euro anunciada por Stiglitz? E qual será a forma dessa divisão? Uma zona reduzida a seis, sem a Espanha? Uma zona baseada no desacoplamento entre uma moeda única para o casal franco-alemão e alguns outros países, e uma moeda comum para o resto? Um retorno às moedas nacionais? E, neste caso, o que será do mercado único? Ouvimos todos os dias dirigentes políticos afirmarem que estas hipóteses são impensáveis: mas estamos seguros de que controlam os fluxos monetários? Não estão submetidos ao uníssono da Bolsa? Tudo pode ocorrer?

Na verdade, está em jogo o futuro do projeto europeu. As regras de funcionamento do euro previstas pelo Tratado de Lisboa entram cada vez mais em contradição flagrante com as divergências de desenvolvimento dos diversos países da zona. Nenhum governo se atreve, aparentemente, a colocar em dúvida os dogmas que sustentam o Pacto de Estabilidade, ainda que, na prática, ninguém os respeite. Mas, se queremos salvar o euro, é preciso flexibilizar essas regras. E talvez mudá-las. É vital estabelecer, daqui em diante, uma coordenação forte das políticas econômicas europeias, ainda que a Alemanha, tutora do Banco Central, não queira ouvir falar de um “governo econômico”. Aqui está o coração da batalha para a sobrevivência da zona euro e não nas medidas coercitivas previstas pelo acordo adotado em 28 de outubro, em Bruxelas.

Para relançar a Europa, essa coordenação deverá enfrentar pelo menos quatro grandes tarefas: 1) Uma proteção do espaço monetário europeu, regulando efetivamente, como foi previsto na reunião da UE de 18/05/10, os fundos de investimento alternativos e sobretudo os instrumentos ultraespeculativos (hedge funds, private equity, CDS). Isso supõe que se pode pedir explicações ao Reino Unido para que ponha fim à política desestabilizadora da City, principal praça especulativa mundial. 2) Uma mutualização das dívidas públicas europeias com a criação de “bônus europeus” para os países endividados que recorrerem ao fundo de resgate. Para evitar que aumente a desconfiança dos mercados, a Alemanha deve aceitar que a ativação do mecanismo de resgate seja, sob condições precisas, mecânico e não negociável a cada caso, como ocorre agora. 3) A realização de um empréstimo para financiar uma grande política pública europeia de crescimento, de criação de emprego e de pesquisa-inovação, o que supõe uma reforma dos estatutos do Banco Central. 4) Uma harmonização fiscal comum da zona do euro apoiada por um reforço dos fundos de coesão para os países em dificuldades.

Estas medidas teriam um efeito de arrasto prodigioso. Elas fariam os investidores refletir e criariam um impacto psicológico salvador para mobilizar os povos europeus. Na verdade, a escolha é simples: ou bem a Europa sairá desta crise reforçada e capaz de enfrentar a nova geopolítica da economia mundial opondo aos mercados um interesse geral europeu, baseado em estratégias cooperativas entre as nações europeias, ou bem, atolada em seus egoísmos nacionais, terminará ardendo em cinzas moribundas.

(*) Sami Nair é professor convidado da Universidade Pablo de Olavide, Sevilha. Publicado originalmente no jornal El País (16/12/2010)

Fonte: Carta Maior
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segunda-feira, agosto 23, 2010

O capitalismo traz a guerra como a nuvem traz a tempestade

Mundo

Vermelho - 22 de Agosto de 2010 - 21h22
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A notícia surgiu com a marca de grande acontecimento. O crescimento do PIB da Alemanha no segundo trimestre de 2,2% terá sido «o maior desde a reunificação». Houve jornais que titularam: «a locomotiva alemã a todo o vapor».É óbvio que os poderosos grupos económicos alemães e o potencial exportador da Alemanha lucraram com a desvalorização do euro e as imposições imperialistas às economias mais débeis como Portugal.


Por Albano Nunes

Mas é duvidoso que se trate de uma tendência duradoura. É aliás significativo o modo como os tecnocratas da UE estão a lidar com a notícia: ao mesmo tempo que alimentam expectativas de recuperação para breve, falam de «incerteza» e «fragilidade» advertindo que as «reformas estruturais» e as politicas de «austeridade» têm de continuar.

Perante as acções de massas convocadas para o Outono por toda a Europa procuram assim desmobilizar e diminuir o alcance da luta, anunciando desde já ser impossível atender as reivindicações dos trabalhadores pois isso comprometeria a recuperação. Em qualquer caso de que «recuperação» falam? Da sua, de novos patamares de concentração do capital e de exploração dos trabalhadores e dos povos.

A solução de problemas tão graves como o desemprego, o trabalho precário e sem direitos ou o fosso cada vez maior entre ricos e pobres, estão ausentes desta sua «recuperação».

E ntretanto se é verdade que, mesmo segundo os critérios da economia política burguesa, a evolução da crise económica está carregada de incertezas, noutras vertentes da dinâmica do capitalismo as tendências são infelizmente bem nítidas: corrida aos armamentos, alastramento de focos de tensão e de guerra, ataques cada vez mais graves a direitos e liberdades fundamentais, avanço de forças racistas e fascizantes. Quando depois das solenes promessas de Obama, o campo de concentração de Guantanamo continua por encerrar e os «tribunais» militares criados por Bush continuam a funcionar; quando na composição da comissão de inquérito criada pela ONU ao sangrento ataque israelita de 31 de Maio à flotilha de solidariedade com Gaza, pontifica o ex-presidente fascista da Colômbia Álvaro Uribe; quando em França se desenvolvem a partir do poder medidas racistas e xenófobas que levam o Le Monde a titular a toda a largura da primeira página que «M. Sarkozy quer endurecer a repressão contra os delinquentes de origem estrangeira» ou que «a extrema direita quer recolher o que M. Sarkozy semeia»; quando um governo japonês assinala o 65.º aniversário do holocausto nuclear de Hiroshima e Nagasaki, pela primeira vez, na companhia de representantes da potência agressora e declara o apoio do Japão à política de «dissuasão nuclear» dos EUA, precisamente quando os EUA e a Coreia do Sul realizam nas fronteiras da RPDC gigantescas manobras militares simulando provocatoriamente a invasão deste país soberano; quando tudo isto e muito mais acontece como se da coisa mais natural do mundo se tratasse, temos de preparar-nos para o pior e desenvolver esforços redobrados para mobilizar os trabalhadores, a juventude, as massas contra o imperialismo e a reacção, por alternativas de soberania, progresso, cooperação e paz.

E fazê-lo sabendo que «o capitalismo traz a guerra como a nuvem traz a tempestade» e que, enquanto subsistir a exploração do homem pelo homem, não estarão liquidadas as raízes da opressão e da guerra. Mas também com a mobilizadora certeza, apoiada na experiência histórica, de que, se unidas e mobilizadas, as forças do progresso social e da paz podem travar o caminho à reacção e aos mais perigosos desígnios do imperialismo. É com esta perspectiva que o PCP chama a intensificar a solidariedade internacionalista com os povos que estão na primeira linha da resistência ao imperialismo e a transformar a campanha unitária «Paz Sim, NATO Não» numa grande campanha política de massas.

Fonte: Jornal Avante!
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sábado, julho 10, 2010

A Terceira Depressão - Paul Krugman



02.Jul.10 :: Outros autores
PAUL 
KRUGMANSão cada vez mais, mais fortes e mais apreensivas as vozes dos epígonos do capitalismo que alertam para os perigos económicos e as graves consequências sociais das políticas impostas pelo grande capital na sua tentativa da recuperação capitalista da crise. Sabedores dos perigos sociais e políticos de uma recuperação à custa da classe trabalhadoras procuram a quadratura do círculo: uma inexistente posição intermédia entre a recuperação á custa da classe trabalhadora ou do grande capital monopolista.

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Receio que estejamos nos estágios iniciais de uma terceira depressão. E o custo para a economia mundial será imenso
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Recessões são comuns; depressões são raras. Pelo que sei, houve apenas duas eras qualificadas como «depressões» na ocasião: os anos de deflação e instabilidade que acompanharam o Pânico de 1873, e os anos de desemprego em massa, após a crise financeira de 1929-31.
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Nem a Longa Depressão do século XIX nem a Grande Depressão, no século XX, registaram declínio contínuo. Pelo contrário, ambas tiveram períodos de crescimento. Mas esses períodos de melhoria jamais foram suficientes para desfazer os danos provocados pela depressão inicial e foram seguidos de recaídas.
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Receio que estejamos nos estágios iniciais de uma terceira depressão. Que provavelmente vai se assemelhar mais à Longa Depressão do que a uma Grande Depressão mais severa. Mas o custo – para a economia mundial e, sobretudo, para as milhões de pessoas arruinadas pela falta de emprego – será imenso.
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E essa terceira depressão tem a ver, principalmente, com o fracasso político. Em todo o mundo – e, mais recentemente, no desanimador encontro do G-20 – os governos mostram-se obcecados com a inflação quando a ameaça é a deflação, e insistem na necessidade de apertar o cinto, quando o problema de fato são os gastos inadequados.
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Em 2008 e 2009, parecia que tínhamos aprendido com a história. Ao contrário dos seus predecessores, que elevavam as taxas de juro para enfrentar uma crise financeira, os atuais líderes do Federal Reserve e do Banco Central Europeu (BCE) cortaram os juros e partiram em apoio aos mercados de crédito. 
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Ao contrário dos governos do passado, que tentaram equilibrar os orçamentos para combater uma economia em declínio, os governos hoje deixam os déficits crescerem. E melhores políticas ajudaram o mundo a evitar o colapso total: podemos dizer que a recessão causada pela crise acabou no Verão (no Hemisfério Norte) passado.
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Mas os futuros historiadores vão nos dizer que esse não foi o fim da terceira depressão, da mesma maneira que a retoma econômica em 1933 não foi o fim da Grande Depressão. Afinal, o desemprego – especialmente a longo prazo – continua em níveis que seriam considerados catastróficos há alguns anos. E tanto os Estados Unidos como a Europa estão perto de cair na mesma armadilha deflacionária que atingiu o Japão. 
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Diante desse quadro, você poderia esperar que os legisladores entendessem que não fizeram o suficiente para promover a recuperação. Mas não. Nos últimos meses observamos o ressurgimento da ortodoxia do equilíbrio orçamentário e da moeda forte. 
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O ressurgimento dessas teses antiquadas é mais evidente na Europa. Mas, em termos práticos, os EUA não estão agindo muito melhor. O FED parece consciente dos riscos de deflação – mas o que propõe fazer é: nada. O governo Obama entende os perigos de uma austeridade fiscal prematura – mas, como republicanos e democratas conservadores não aprovam uma ajuda adicional aos governos estaduais, essa austeridade se impõe de qualquer maneira, com os cortes nos orçamentos estaduais e municipais.
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Por que essa virada da política? Os radicais com frequência referem-se às dificuldades da Grécia e outros países na periferia da Europa para justificar seus atos. E é verdade que os investidores atacaram os governos com déficits incontroláveis. Mas não há evidência de que uma austeridade a curto prazo, ante uma economia deprimida, vai tranquilizar os investidores. 
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Pelo contrário: a Grécia concordou com um plano de austeridade, mas viu seus riscos se ampliarem; a Irlanda estabeleceu cortes brutais dos gastos públicos e foi tratada pelos mercados como um país com risco maior que a Espanha, que até agora resiste em adotar medidas drásticas propugnadas pelos radicais.
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É como se os mercados entendessem o que os legisladores não compreendem: que, embora a responsabilidade fiscal a longo prazo seja importante, cortar gastos no meio de uma depressão vai aprofundar essa depressão e abrir caminho para a deflação, o que é contraproducente. 
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Portanto, não acho que as coisas tenham a ver de fato com a Grécia, ou com qualquer visão realista sobre o que priorizar: déficits ou empregos. Em vez disso, trata-se da vitória de teses conservadoras que não se baseiam numa análise racional e cujo principal dogma é que, nos tempos difíceis, é preciso impor sofrimento a outras pessoas para mostrar liderança.
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E quem pagará o preço pelo triunfo dessas teses? A resposta: dezenas de milhões de desempregados, muitos deles sujeitos a ficar sem emprego por anos e outros que nunca mais voltarão a trabalhar. 
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* Paul Krugman, economista galadoardo com o Prémio Nobel em 2008 é colaborador habitual do New York Times
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Este texto em português, traduzido do New York Times, foi publicado no diário brasileiro Estado de S. Paulo
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Tradução de Terezinha Martino
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http://www.odiario.info/?p=1656
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Economia

Vermelho - 10 de Julho de 2010 - 14h02

Paul Krugman: Austeridade contraproducente

O blog de economia do WSJ traz um artigo interessante mostrando como a restrição dos benefícios aos desempregados pode na verdade acabar aumentando o déficit no longo prazo, ao fazer com que trabalhadores perto da idade de aposentadoria se vejam obrigados a recorrer a programas de aposentadoria por invalidez. Mas a questão vai muito além disto.

Paul Krugman

Há uma argumentação bastante razoável segundo a qual medidas de austeridade no contexto de uma economia em depressão equivalem, literalmente, a uma falsa poupança – no longo prazo, os problemas orçamentários são agravados.

Pessoas como eu têm hesitado em expor tal argumentação em voz alta, por medo de sermos tachados de versão esquerdista de Arthur Laffer – mas que se dane a cautela, vou explicar do que se trata.

Funciona mais ou menos assim. Imaginemos um corte nos gastos equivalente a 1% do PIB. Isso tem a aparência de uma redução no orçamento, certo? Mas se o fizermos no caso de uma economia que se depara com o limite inferior zero, de modo que o Fed se veja impossibilitado de compensar os efeitos sobre a demanda com juros mais baixos, o resultado será um encolhimento da economia. Usemos um multiplicador de 1,4; os números podem ser ajustados a gosto.

Sabemos que uma economia mais fraca significa uma arrecadação menor. Suponhamos que cada dólar somado ou subtraído ao PIB represente US$ 0,25 em arrecadação, uma estimativa conservadora. Então a austeridade fiscal reduz a arrecadação em 0,35% do PIB; a proporção realmente poupada é de apenas 0,65%.

O governo precisa captar estes fundos por meio de empréstimos; digamos que os juros reais sejam de 3% (no momento eles são muito mais baixos do que isto.) No longo prazo, o impacto da austeridade sobre a posição fiscal será uma redução de 0,0195% do PIB no pagamento dos juros reais.

Espere: e se houver efeitos negativos de longo prazo decorrentes de um declínio mais profundo na economia? O artigo do WSJ mostrou um exemplo: trabalhadores excluídos permanentemente da força de trabalho. Há também o efeito negativo de uma economia em depressão que incide sobre o investimento privado. Temos os talentos desperdiçados porque os jovens têm suas carreiras prejudicadas pelo resto da vida. E assim por diante. E aí é que está o problema: se a economia se mostrar mais fraca no longo prazo, isso significa uma arrecadação menor, o que anula a quantia poupada pela austeridade inicial.

Qual deve ser a dimensão destes efeitos negativos para que a austeridade seja transformada numa perda líquida para o equilíbrio orçamentário? Não precisa ser grande demais. No meu exemplo, a quantia poupada no pagamento de juros reais proporcionada por medidas de austeridade equivalentes a 1% do PIB é inferior a 0,2% do PIB; se a proporção do PIB convertida em arrecadação for de 25%, isto significa que uma redução adicional no PIB da ordem de 0,8% seria suficiente para anular os supostos benefícios fiscais. Não é nada difícil imaginar a ocorrência de algo do tipo.

Em resumo, é fácil perceber que implementar medidas de austeridade agora é uma má ideia, não apenas por causa do seu impacto sobre a economia e os desempregados; pode ser que isso fracasse até na tentativa de ajudar a equilibrar o orçamento.

É importante perceber que não estou dizendo que os gastos governamentais sempre valem a pena, e nem que poupar dinheiro seja necessariamente contraproducente. Os efeitos que analisamos condizem com uma situação de armadilha de liquidez. Mas é esta a situação em que nos encontramos.
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domingo, junho 06, 2010

Governo da Hungria garante que situação económica está “consolidada”

Tentativa para tranquilizar os mercados

“As declarações [sobre uma possível bancarrota do país] são exageradas”, afirmou em conferência de imprensa o secretário de Estado Mihaly Varga, que chefia a comissão de inquérito para investigar o estado da economia da Hungria.

A possibilidade de uma nova crise orçamental num país europeu causou grande agitação nos mercados financeiros na sexta-feira, com quedas acentuadas nas bolsas, principalmente em Espanha.

O porta-voz do primeiro-ministro Viktor Orban admitiu na sexta-feira à agência de informação financeira Bloomberg que a Hungria pode entrar em bancarrota, afirmando que o anterior governo socialista “manipulou” e “mentiu” sobre o estado da economia.

“Não é nenhum exagero” falar em bancarrota, disse Peter Szijjarto, na sexta-feira.

Já hoje, o secretário de Estado Mihaly Varga assegurou que “a economia húngara tem as suas fundações saudáveis e o objectivo do défice orçamental de 3,8 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) [a meta estabelecida pelo anterior governo socialista] pode ser mantida para 2010 se adoptarmos as medidas certas”.

Na sexta-feira, o governo da Hungria apontou para 2010 um défice orçamental entre sete e 7,5 por cento do PIB, números longínquos dos estimados pelo Banco Nacional da Hungria, que prevê um défice equivalente a 4,5 por cento do PIB.

O mesmo responsável desmentiu ainda que a situação da Hungria seja semelhante à da Grécia, depois de na sexta-feira o vice-presidente do partido que está no poder, Lajos Kosa, ter dito que a situação “é comparável à da Grécia. A falência do Estado está próxima”.

“Se há colegas que comparam a situação da Hungria à de outro país com uma situação difícil, é lamentável”, respondeu o governante.

À margem da cimeira do G20 na Coreia do Sul, o comissário europeu para os Assuntos Económicos, Olli Rehn, afirmou hoje que evocar a incapacidade de a Hungria cumprir os seus compromissos internacionais é “largamente exagerada”.

“A Hungria fez importantes progressos no controlo das suas finanças públicas nos últimos anos”, disse, acrescentando que o défice da Hungria foi reduzido em 5 por cento entre 2006 e 2009.

Por seu turno, o director-geral do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, disse hoje que ficou “surpreso” com estes desenvolvimentos.

Já em Outubro de 2008, pouco após o início da crise financeira internacional, a Hungria recebeu um empréstimo de 20 mil milhões de euros do FMI, da União Europeia (UE) e do Banco Mundial.

O novo chefe da missão do FMI na Hungria, Christoph Rosenberg, vai segunda-feira encontrar-se com o novo governo húngaro para discutir a situação e perspectivas económicas do país.

Analistas contactados pelas agências de notícias pediram cautela quanto à situação da Hungria, sugerindo que o novo executivo húngaro esteja a fazer estas declarações com o objectivo de convencer o país da necessidade de medidas drásticas na economia, depois de na campanha eleitoral ter prometido o corte dos impostos.

Notícia actualizada às 16h44

URL desta Notícia

http://publico.pt/1440646

 

Comentários 1 a 10 de 15




  1. CarlosLux . 05.06.2010 20:28
    Via PÚBLICO

    Eu tenho a receita.

    Nós temos por cá um político, que por acaso até é agora Primeiro Ministro, e que acredita que está num País super desenvolvido. É mandá-lo para a Hungria e o povo passa a viver melhor num golpe de mágica. E realmente, termos um Primeiro que afirma que ainda está por nascer um Primeiro Ministro que tenha feito tanto pelo défice, de modo que pode ir fazer uns truques com o défice dos outros. Por mim, até que pode ir para o défice que o pariu !



    • Anónimo , vlc. 05.06.2010

      RE: Eu tenho a receita.

      AMÉM



  2. Pois , Local. 05.06.2010 22:54

    O bloco central ...deles

    Os que mentem nas campanhas eleitorais e quando chegam ao poder...é o que se vê:" o novo executivo húngaro esteja a fazer estas declarações com o objectivo de convencer o país da necessidade de medidas drásticas na economia, depois de na campanha eleitoral ter prometido o corte dos impostos."Lá como cá.O neo-liberalismo a mostrar que sabe jogar com os partidos certos.Os governos neo-liberais,travestidos de socialistas e que fazem a política de direita,lá como cá...A máfia a estender a sua garra implacável sobre os povos,lá como cá...



  3. Demagogo , S.M.Infesta. 05.06.2010 19:21

    Eu acredito, são "exageradas"

    Não são a caminho do abismo, as notícias são exageradas.Ainda falta mais uma ou duas semanas para o Mundo deles mudar e passarem à fase da caminhada.... Calma, especuladores, é preciso paciência!



  4. Anónimo , .,.. 05.06.2010 16:14

    Os três insuspeitos PHIIGS...

    Portugal, Espanha, Hungria. Três países na bancarrota. Com os cumprimentos de três governos socialistas.


    Nuno , Parede. 05.06.2010

    RE: Os três insuspeitos PHIIGS...

    Esqueceu-se da Grécia, que foi governada durante 21 anos dos últimos 30 por Socialistas.




  • Atum , Mar das Caraíbas. 05.06.2010 16:03

    Arranjem outro artigo

    Que este é uma grande m.rda para comentar!




  • Anónimo , bom ja não podemos acreditar em ninguem, nem nos governos.. 05.06.2010 14:31

    bom ja não podemos acreditar em ninguem, nem nos g

    bom ja não podemos acreditar em ninguem, nem nos governos.As 8 horas estão falidos, às 12 está resolvido e às 18 está tudo rico.Enfim ingnorar os polticos e as suas leis, não pagar impostos e fazer a nossa vida à parte desta sociadade...




  • Anónimo , b. 05.06.2010 13:50

    Durao Barroso

    O discurso do governo Húngaro fez lembrar o célebre discurso "o país está de tanga" proferido pelo Durao Barroso há uns anos atrás. Assim se ve a irresponsabilidade de uns e outros. No caso do Durao, este chegou a Presidente da Comissao Europeia... Como é que possível?!



    • Anónimo , Baguim do Monte - Gondomar. 05.06.2010

      RE: Durao Barroso

      Bem lembrado caro anónimo. Por aqui se vê a irresponsabilidade destes políticos de plástico da nova vaga. Gente sem qualquer preparação nem perfil de estadistas; feitos pela televisão, pelo marketing, pelos "donos da quinta" apenas com a incumbência de cumprirem as suas ordens ou simples desígnios.



    • ACIDO MELECULAR , PORTUG.. 05.06.2010

      RE: Durao Barroso

      VERDADE DOI.... ESTAVA-MOS E ESTAMOS DE TANGA !!!




  • Miguel Ferreira , Lisboa. 05.06.2010 13:37

    O dito pelo não dito

    O dito pelo não dito pelo que não havia ter dito.




  • manelovski , figueira da foz. 05.06.2010 13:31

    OKAY

    Mais umq que deve ter recebido "luvas" valentes dos especuladores financeiros!




  • Afonso , Coimbra. 05.06.2010 13:14

    sobre a Hungria

    Em resposta a alguns comentários que só revelam ignorância de quem comenta: na última eleições da Hungria venceu a direita. A esquerda, que se encontrava no poder, mentiu sobre o verdadeiro estado das contas públicos, facto que originou um escândalo no país que acabaria por conduzir o socialismo à derrota. Nos últimos anos, houve na Hungria um grande investimento em obras públicas, causa principal do seu endividamento. A direita teve a coragem de denunciar o verdadeiro estados das contas húngaras, ao contrário do que tem sucedido noutros países europeus. Por isso, a direita húngara está de parabéns. Aliás, na Hungria está-se a pensar em reduzir o número de concelhos para metade. Oxalá o nosso PSD fosse assim. Quanto à pobreza da Hungria, há uma causa: comunismo.



    • Nuno , Parede. 05.06.2010

      RE: sobre a Hungria

      Mas isso não interessa à esquerda. O comunismo pode ter condenado milhões à miséria ou à morte, e o capitalismo pode ter tirado muitos milhões da pobreza, mas mesmo quando foi o comunismo/socialismo a arruinar uma nação, a culpa é automaticamente do capitalismo e dos neo-liberais. A esquerda é assim, e não há nada a fazer.




    1. Anónimo , lx. 05.06.2010 13:05

      Capitalismo no sru melhor…

      Vivemos num mundo de faz de conta!!!!!



    2. Paulo , Lisboa. 05.06.2010 12:30

      sim

      ahah ...então a seguir vai ser a Hungria, já não é Portugal...tambem não é de estranhar por de trás da imensamente bela capital nota-se a pobresa muito mais em Budapeste de em qualquer esquina de Lisboa... Ha muita fome na Humgria que só o grande orgulho Hungaro teima em esconder!



    3. Spitzer , Margem Sul. 05.06.2010 12:05

      O GOLPE DO HÉROI

      O clássico «golpe do héroi»: Primeiro dizem que «os senhores deixaram o país de tanga!».. Segundo dizem que «já está tudo bém porque chegou o «salvador da pátria!».Ontém, o novo governo Húngaro veio dizer que a Hungría estava falida. As agências de rating não tinham dado por isso.. mas a Hungría estava, ontém, pior do que Portugal ou mesmo que a Grécia. Mas isso era ontém.Hoje, a Hungría já tem «as Contas consolidadas».Qualquer pessoa minimamente inteligente percebe que não é de um dia para o outro que um país «consolida» as suas contas. Qualquer pessoa inteligente percebe que tudo não passou de uma tentativa, aliás muito mal executada, de alguém se fazer passar por salvador da pátria e das finanças públicas. Uma tentatíva patética porque a executaram muito mal. Deveriam aprender com os tipos do PSD português. Se os Húngaros tivessem estudado bem a lição saberiam que não se pode passar da fase 1 à fase 2 de um dia para o outro. É preciso dar tempo para que uma mudança na situação das Contas públicas seja mínimamente credível. mesmo que a situação seja a mesma, ou pior, como foi o caso no consulado de Ferreira-Leite. Mas é preciso tomar alguma medida, nem que sejam medidas placebo ...



    4. Farto dos Mentirosos , Matosinhos. 05.06.2010 11:55

      Hungria "consolidada"

      Os argumentos são sempre os mesmos. Tanto faz ser em Portugal como na Hungria. Inicialmente põem-se a dizer a verdade. Segue-se depois as solenes declarações para colocar as velhas dúvidas do é, será ou não será?... Finalmente confirma-se que a crise do capitalismo selvagem não passa de um sistema sem futuro, alicersado na mentira. Mentira igualada ao "paraíso" que vendem: Vendem Gato por lebre!!! Este sistema não serve.



    5. Sousa da Ponte , UK. 05.06.2010 11:52

      Por onde os socialistas passam

      Só deixam defices.



      • Anónimo , Ate a vitoria sempre. 05.06.2010

        RE: Por onde os socialistas passam

        Não metas o Socialismo, onde ele nos Países Capitalistas nunca existiu. O que te cria problemas é o verdadeiro socialismo. Burguesito



        • Nuno , Parede. 05.06.2010

          RE: RE: Por onde os socialistas passam

          Qual verdadeiro socialismo? O de Cuba? O que houve na URSS ou na Alemanha? Diz lá qual? Eu tenho medo de todos os socialismos, assim como qualquer uma que prese a liberdade individual acima do "bem comum".
  • quinta-feira, junho 03, 2010

    Cozido à Portuguesa - Domingos Amaral e a Alta Finaça

    Cozido à portuguesa

    A alta finança

    Não é preciso ser comunista, ou órfão de Lenine, para perceber que algo vai profundamente mal no mundo da alta finança, e que muitas coisas terão de mudar para que "os mercados" deixem de ser um casino especulativo, sempre à beira de uma derrocada colossal.
    • 02 Junho 2010 - Correio da Manhã
    Por:Domingos Amaral, Director da 'GQ'
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    Desde há vários anos que os sinais de caos são bem visíveis. Primeiro, foi a alta absurda, e injustificada, do preço do petróleo, entre 2007 e 2008. Depois, a subida do preço dos alimentos, dramática para muitas populações. Seguiu-se a megacrise da Banca, que começou na América, com a queda do Lehman Brothers, provocando um dominó que ceifou muitas outras sociedades financeiras. De um dia para o outro, o dinheiro secou, e mesmo a América, a Inglaterra ou a Alemanha sentiram-se em grave risco. 
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    De seguida, deu-se a propagação. Tsunami atrás de tsunami varreram o planeta, massas colossais de fundos voaram, de um lado para o outro, bastando para isso um click num computador de alguém, e no final deixaram a sensação de que a alta finança se transformara numa banheira a quem alguém tinha retirado o ralo, e a água (o dinheiro) desaparecia, pois já nem os bancos conseguiam, entre si, crédito. 
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    As garantias dos Estados travaram o pânico, mas cedo se percebeu que, dentro dos armários, havia demasiados cadáveres escondidos. Se até a Bolsa de Nova Iorque não tinha a mínima ideia de quantos "hedge funds" lá actuavam, imagina-se noutras paragens. Por isso, quando julgávamos a tormenta atravessada, surge o ataque ao euro, ou a crise da "dívida soberana", como alguém pomposo a definiu. 
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    Sócrates afirmou que o Mundo mudou em três semanas, mas não tem razão. Foram 25 anos de efeitos combinados de desregulamentação dos mercados; políticas do dinheiro fácil, com taxas muito baixas; multiplicação dos intervenientes, com milhares de "hedge" e outros "funds"; fraquíssima supervisão; bolhas e falsos crashes; e liberdade total de movimentos de capitais entre países. Nasceu uma hidra, com muito mais de sete cabeças. A alta finança é o verdadeiro monstro do século XXI: caótico, anónimo, subversivo, libertino, indomável e letal. Varre tudo à frente: petróleo, arroz, bancos, países, euro. Se políticos e cidadãos não o domesticarem, dará cabo de ambos. Este capitalismo, nesta modalidade desbragada, selvagem e planetária, pode vir a ser tão sinistro como o comunismo foi. 
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    domingo, fevereiro 07, 2010

    As faces do capitalismo - Jorge Cordeiro





    As faces do capitalismoAvante Nº 1888
    04.Fevereiro.2010


    As notícias sobre uma nova edição do Fórum Social Mundial e, em particular a realização da Cimeira de Davos que lhe sucedeu, reacenderam na agenda mediática o tema da globalização. Notícias vindas do Brasil, dando conta da expressão que ali conflui de indignação e oposição ao processo de globalização, ainda que sem encontrar correspondência plena ao nível da tomada de consciência da natureza económica que a percorre, do carácter imperialista da sua expressão à escala planetária e da essência capitalista que a enforma na sua fase actual.

    Notícias que nos acabam de chegar de Davos, procurando apresentar o actual processo como inevitável e imutável, carecido sobretudo daqueles mecanismos de regulação, mais uma vez defendidos pelos responsáveis do Fundo Monetário Internacional e do Banco Central Europeu, que o tornariam humanamente suportável e de uma quantas filantrópicas decisões capazes de aliviar a míngua de muitos e assegurar a fausta acumulação de alguns.
    A globalização neoliberal, que tem no capitalismo o seu fundamento ideológico, é expressão do carácter desumano e explorador do seu desenvolvimento enquanto sistema. Fenómeno complexo e de múltiplas expressões (filosóficas, ideológicas, culturais) é no terreno económico que se encontra a chave para a compreensão e projecção da globalização. Na sua acepção, a globalização não é uma «novidade», uma «ruptura» com o já longo percurso do capitalismo, mas sim o próprio capitalismo na sua profunda essência. Expressão máxima da dominação capitalista, cujos eixos políticos e económicos universalizam a exploração, a globalização revela na fase actual do desenvolvimento do capitalismo contradições mais graves e consequências mais gravosas nas relações humanas, sociais e de produção.
    A globalização neoliberal é, pois, uma expressão actual do capitalismo e do seu percurso natural de desenvolvimento, das contradições e premissas inerentes ao modo e relações de produção próprias do respectivo sistema. E não um acidente, uma degenerescência, uma etapa conjuntural ditada por uma má condução de políticas. O neoliberalismo é cada vez mais inconciliável com os direitos sociais, políticos e democráticos. A afirmação do neoliberalismo desenvolve-se assente no retrocesso dos direitos sociais conquistados pelos trabalhadores ao longo de mais de um século, no ataque a direitos políticos fundamentais, na instalação de um clima de insegurança internacional e de guerras, na ameaça crescente à democracia e à liberdade.
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    Três condições
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    A luta contra o neoliberalismo e a globalização capitalista e a possibilidade de tornar consequente o amplo movimento que une, na indignação e na crítica, milhões de homens e mulheres de todo o mundo perante os efeitos devastadores da sua imposição aos povos, são inseparáveis de três condições: da apreensão das razões e origens económicas e políticas que explicam a crua realidade de desigualdades, miséria e fome que alastra pela mão do neoliberalismo; da indispensável identificação e unificação na acção do objectivo político em torno do qual se deve alargar e agregar a base social da luta, afirmando a necessidade imprescindível da liquidação do capitalismo e da afirmação do socialismo enquanto sistema alternativo; da afirmação e reforço de organizações e partidos revolucionários e de classe capazes de dar expressão e força material às ideias e objectivos políticos alternativos ao capitalismo, de protagonizar a luta pela transformação revolucionária das estruturas e do sistema capitalista.
    A fome que atinge e mata milhões de seres humanos só se pode explicar pela falta de direitos, não pela escassez de bens. É indesmentível que a capacidade de produzir alimentos é superior às necessidades humanas. O declínio acentuado do nível de vida das populações não resulta da escassez dos recursos produtivos.
    O problema está na organização da sociedade e na essência da lógica capitalista. É evidente a mais completa falência do capitalismo na mobilização, ao serviço dos povos e da melhoria das suas condições de vida, dos recursos humanos e materiais que o desenvolvimento das forças produtivas possibilitou. Como Engels o evidenciou, só uma nova sociedade assente em novas relações de produção poderá assegurar que a produção alargada, ou sobreprodução (a «epidemia da sobreprodução», como a designou), seja, não um factor de miséria, mas de satisfação das necessidades.
    O capitalismo não é o fim da história ou uma fatalidade. A luta pela sua superação revolucionária e a construção de uma nova sociedade mais justa e democrática, o socialismo, apresenta-se como a mais importante e consequente tarefa que se coloca perante os povos. É a luta pelo socialismo que poderá conduzir a um mundo de paz, a uma afirmação soberana de cada país e de cada povo e a um desenvolvimento que respeite a dignidade humana e esteja ao serviço da satisfação das suas necessidades básicas.
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