A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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segunda-feira, outubro 15, 2007

Profissões em vias de extinção - Alfaiate


Alfaiate Adelino Rodrigues
Faz fardas para a Polícia Municipal há 36 anos
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* Ângela Lopes
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Faz 71 anos em Novembro mas continua activo. Adelino Rodrigues é o alfaiate que desde 1971 faz as fardas para os agentes e comandantes da Polícia Municipal (PM) de Lisboa. Ainda há duas semanas teve de adaptar as vestimentas dos 150 elementos que vieram da PSP para a PM. Esteve para abandonar a “casa”, como a apelida, pelo menos duas vezes, mas o “amor à camisola” e à gente que lhe fala ao coração, como diz, fez com que fosse ficando. Já lá vão 36 anos de histórias para contar.
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Quando chegou à PM já tinha feito fardas para chefes, graduados e comandantes da PSP, onde foi agente da Brigada de Minas e Armadilhas convite do comandante Saldanha porque podia fazer o que realmente gostava, e para fugir aos explosivos”, conta ao Correio da Manhã.

Anos antes, em 1965, Adelino viveu uma experiência assustadora e que o fez pensar como era perigoso trabalhar naquela brigada da PSP. O alfaiate estava nesse dia com uns colegas da PSP a fazer uma instrução com material de guerra. O objectivo era fazer uma bomba com uma bateria e com detonadores eléctricos. “Quando se fazia a exemplificação, aquilo explodiu. Um colega foi projectado e eu atirado para um canto. Fiquei com os estilhaços no braço esquerdo para o resto da vida”, recorda Adelino.

A adaptação não foi fácil apesar de adorar fazer fardas e de vestir agentes e comandantes com a maior perfeição e rigor. Mas era um ofício solidário e Adelino estava habituado a trabalhar com muitas pessoas. De todos os que por ali passaram só tem elogios a fazer e agradece por o terem ajudado na fase difícil que passou com a morte dos pais. Mas se há homem que não esquece é o “comandante Luz de Almeida que chegou à PM em 1973 e mudou a imagem e auto-estima” da instituição. “Nunca mais me esqueço dele. E de que, quando cheguei à PM, eram apenas 150 homens, hoje já passam dos 500”, lembra.

Os nervos eram muitos e mais ainda no dia em que o comandante Luz Almeida lhe pediu que fizesse uma farda de Pai Natal para a festa da PM. Adelino nunca tinha feito nada do género, mas não o deixou ficar mal. “Ele era muito exigente, bastava ter um centímetro a mais ou a menos e ele notava logo”, conta ao CM. Foi fazendo fardas, aplicando fitas em chapéus até ter um AVC que lhe afectou a visão. Hoje continua a ser o alfaiate de serviço, mas em regime de part-time.

DIFICULDADES NUNCA FORAM OBSTÁCULO

A família de Adelino vivia com bastantes dificuldades económicas. E foi isso que o fez ter vontade de singrar na vida. “A minha vida foi sempre difícil. Para completar a 4.ª classe fazia sete quilómetros a pé todos os dias numa estrada de altos e baixos”, recorda Adelino. Aos 13 anos, os estudos deram lugar aos trabalhos pesados. Para ajudar a aumentar os rendimentos da família, trabalhava de sol a sol numa incineradora onde, com mais dois miúdos, carregava sacos de cimento com 150 quilos. Mais tarde, a viver em Benavente, ia às compras descalço a Vila Franca de Xira. Aos tios, que acabaram por falecer na sua casa, deve-lhes tudo. “Foram os meus pais e eles que me arranjaram o meu primeiro trabalho como alfaiate”, conta. Os pais morreram já ele estava na PM, foi mais um abanão que a vida lhe deu. No final dos anos 90, a saúde pregou-lhe uma partida. Sofreu um AVC que lhe afectou a visão. Mas nem isso o fez desistir de ser o alfaiate da PM.

PORMENORES

ENSINO ESPANHOL

Aprendeu toda a arte da alfaiataria com a experiência que adquiriu nos vários sítios por onde passou ao longo da carreira de alfaiate. Mas foi graças a uma revista espanhola datada de 1969, que ainda hoje guarda religiosamente, que aprendeu a fazer cortes e provas e viu como podia expandir os seus conhecimentos.

DETESTA FAZER SAIAS

Calças, fraques, casacos com pinças e até smokings. Adelino fez de tudo mas nunca gostou de fazer saias. “Ainda cheguei a fazer algumas mas sempre achei que isso é trabalho para as costureiras”, conta ao CM.

O PRIMEIRO NA FAMÍLIA

Adelino nunca pensou ser alfaiate, até porque na família ninguém trabalhava na área. Cansado de fazer trabalho pesado em incineradoras e nas ceifas do campo de Benavente mudou de rumo e arriscou iniciar carreira como alfaiate.

FEZ A PRÓPRIA FARDA

Era agente da PSP quando pediu autorização ao comandante para fazer a sua própria farda. “Fi-la e apresentei-me. Chefes e comandantes elogiaram-me. Comecei a ter clientes”, conta.

PERFIL

Nasceu em Pedrógão Grande, terra que o orgulha, e foi lá que começou a ter os primeiros clientes como alfaiate. Casado com Alberta Rosa, há mais de 30 anos, Adelino é pai de um rapaz e de uma rapariga. Aos 16 anos estreou-se como alfaiate, pouco depois já trabalhava numa casa lisboeta onde ganhava 28 escudos por mês. Foi agente da PSP na Brigada de Minas e Armadilhas nos anos 60, enquanto geria uma alfaiataria ao mesmo tempo.

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in Correio da Manhã 2007.10.08
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foto mariline alves - alfaiate adelinino rodrigues
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Desde 1971 que Adelino Rodrigues, 70 anos, veste os agentes e comandantes da PM. Na foto, onde se vêem fardas antigas e peças de roupa por arranjar, o alfaiate mostra como em pouco tempo se colocam as inconfundíveis fitas nos chapéus

domingo, julho 29, 2007

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Fados do Tempo da Outra Senhora (38)
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Os Almocreves:
sua importância enquanto agentes de comunicação inter-comunitários
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* André Mano
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Na nossa era de informação instantânea, constante e omnipresente, imaginarmo-nos a nascer, viver e morrer no mesmo sitio poderá ser um exercício mental complicado, contudo, só fazendo este exercício poderemos compreender o quão importantes eram todos aqueles que não faziam o seu dia-a-dia numa determinada localidade mas entre várias.
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Era esse o caso dos Almocreves, condutores de animais de carga que faziam do transporte de bens de uma terra para outra a sua profissão. Não confundir almocreves com mercadores, pois que na maior parte das vezes os bens que transportavam não eram propriedade sua, embora fosse comum um almocreve ser também mercador. Na maior parte das vezes, o almocreve alugava os seus serviços de carga e transporte a mercadores, pescadores, lavradores e até aos municípios e ao Estado. Também acontecia não serem proprietários dos animais porque a almocrevaria, se bem que não sendo uma actividade de grandes rendimentos, atraía algumas pessoas do que hoje chamaríamos "classe média" que entregavam os seus bois e burros a este negócio, contratando um almocreve para o exercício da actividade propriamente dita.
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Profissão conhecida em Portugal desde pelo menos os tempos do Conde D. Henrique (séc. XI-XII), ainda em princípios do séc. XX existiam pessoas que viviam da almocrevaria, altura em que a industrialização e o desenvolvimento das comunicações, tornou este ofício obsoleto. Não obstante, na Idade Média e na Idade Moderna a importância dos almocreves é demonstrada através do facto de cada vila ter o seu corpo de almocreves submetidos ao almotaçé (oficial concelhio encarregado da fiscalização de questões logísticas e de abastecimento da respectiva vila ou cidade), e também por constituírem, não raras vezes, entre os profissionais do comércio e dos serviços o grupo mais numeroso, o que revela a importância da economia local em detrimento de uma economia baseada em relações internacionais como acontece hoje. Assim, e a título de exemplo, Torres Vedras no séc. XV tinha 47 almocreves inscritos e apenas 32 mercadores.
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Como já se percebeu, falamos de um mundo muito maior que o nosso, um mundo em que 50km não são meia hora mas um ou dois dias; um mundo em que os produtos de primeira necessidade se confundem com produtos de luxo; um mundo que assentava numa micro economia e numa micro sociedade de dimensão local que só por ocasião das feiras conhecia produtos e gentes "de fora"...
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Neste mundo grande, quem o pudesse tornar mais pequeno revestia-se de grande importância como comprovam os vários privilégios de que os almocreves gozavam. Em muitos locais podiam comprar e transportar cereais (prática normalmente proibida aos particulares locais), e também era comum terem algum tipo de isenção em algumas portagens terrestres, abundantes na Idade Média. De entre as rotas de abastecimento mais importantes, destaque para as que levavam os almocreves a transportar peixe do litoral para o interior e, no sentido inverso, cereais, bem como o transporte de mercadorias agrícolas e artesanais na zona raiana.
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À importância económica junta-se o papel primordial que tinham enquanto elementos de ligação inter-comunitários, porque não eram só mercadorias que os almocreves levavam. Com eles iam também as noticias de freguesia para freguesia, do campo para a cidade, e da cidade para o campo. Quem ia casar com quem, quem comprou o quê, quem vendeu o quê, quem é o novo pároco de sítio tal, se as colheitas para lá da serra prometem, se há perigo de guerra, etc etc...
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Durante muitos séculos os almocreves foram praticamente o único canal de comunicação, especialmente entre as comunidades das regiões mais inóspitas e isoladas das zonas serranas. Ao manterem a comunicação, os almocreves contribuíram também (aparte as rivalidades, não raras vezes seculares, entre algumas aldeias), para a formação e manutenção de elementos comuns de identidade, fundamentais para a formação de um sentimento de pertença a uma cultura e a uma nação que, não obstante as particularidades regionais, tinha na sua base elementos comuns.
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Embora a partir do séc. XIX o estatuto do almocreve começasse a decrescer, era no geral uma profissão respeitada e considerada, pois além das noticias e das mercadorias, os almocreves trilharam rotas e ao longo dos caminhos por eles trilhados nasciam estalagens, albergarias, e outros negócios familiares de apoio ao viajante, sendo os almocreves uma importante parte da clientela...
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Mas regra geral, a vida de almocreve era perigosa, especialmente nas zonas altas, onde o frio e as tempestades, podiam fazê-los perderem-se, além do perigo constante dos assaltos por parte de bandidos que infestavam os caminhos, sem esquecer os lobos e, em tempos mais remotos, os ursos. Fiquemos com o testemunho que Carlos de Oliveira Silvestre, no seu livro "Crónicas da Serra" (de Montemuro), nos dá sobre a seu contacto, em meados do séc. XX, com aquele que foi decerto um dos últimos almocreves:
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" Quantas vezes foram surpreendidos na serra pelo cair da noite, no meio de terríveis tempestades de chuva e neve, com o ribombar dos trovões a fazerem alternância ao uivar dos lobos. Na escuridão, que só os relâmpagos quebravam aqui e além, era impossível seguir o invisível carreiro que os devia conduzir a porto seguro [...] Lembro-me de, num certo dia de terrível tempestade, ter batido à porta da nossa humilde casa um almocreve de Penude com o burrito carregado de milho. As fortes pancadas que bateu na porta traduziam bem o desespero que lhe ia na alma. Depois de acolhido com a solicitude e carinho que nos era possível, o homem, de lágrimas nos olhos, contou a sua triste viagem. Perdera-se na serra e caminhara à sorte, sem saber para onde. Quando viu a luz da nossa candeia através da janela, quase não quis acreditar que estava salvo."
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sexta-feira, julho 27, 2007


Paredes de Coura: Subal tem apenas um residente
Alfaiate é o último habitante da aldeia
* Carla Alexandra Vieira,
Paredes de Coura


Artur Fernandes Breia é o último alfaiate de Paredes de Coura e curiosamente o único habitante do lugar de Subal. Vive quase isolado e não fossem os clientes, que nunca o abandonaram, a sua vida seria de uma profunda solidão.
Num local que antes fervilhava de vida e movimento, resta agora o “alfaiate de Subal”. Com 70 anos de idade, Artur Breia, natural de Monção, lembra que começou a aprender a arte com apenas dez anos: “Depois da escola ia para uma pequena oficina dar os primeiros pontos e cortes. Com 14 anos já trabalhava por conta própria.
”A aventura por terras de África, sempre acompanhado da máquina de costura, surgiu pouco depois. “Em Angola vivia-se muito bem, com bom clima, sempre com dinheiro no bolso e muitos amigos”, relembra.
Em 1976 regressou a Portugal. Casado e com filhos, estabeleceu-se num lugar onde, “infelizmente”, só ele resiste. “Apenas resto eu e a minha loja. Os moradores foram morrendo, as casas foram-se fechando e até a carpintaria que dava tanto movimento ao local acabou por encerrar”, lamenta.
Na pequena alfaiataria o barulho da velha máquina de costura insiste em quebrar o silêncio. Clientes é que nunca faltaram a Artur Breia. “Não consegui enriquecer, mas fiz sempre uma vida digna e criei os filhos. Tenho clientes certos que já cá vêm há mais de 20 anos”, garante, enquanto afirma que, pelo menos naquelas paragens, a crise não se faz sentir. “Ainda tenho muitos clientes, mas o problema é que eu sozinho não consigo dar resposta a tanto trabalho. Por isso, já não aceito fazer certos serviços e prefiro dedicar-me aos arranjos”, explica ao CM, sem nunca parar de trabalhar, apesar de as visitas serem um bem escasso.
Largar a costura não está nos planos de Artur Breia. “O que é que eu vou fazer depois?”, interroga-se, entre dois pontos numa bainha.
in Correio da Manhã 2007.07.26
Imagem - Artur Breia - Foto Carla A Vieira

quarta-feira, maio 16, 2007




PREGÕES  (4)


O IBES é o lugar por excelência dos pregões dos vendedores a domicílio. Madrugada ainda já os padeirinhos anunciam o dia que nasce e o sol que desponta entre nuvens róseas ou acobecadas, fazendo fundo a um quadro maravilhoso, realçando a imponência do convento de Nossa Senhora, branquinho e altaneiro no topo da montanha recoberta do verde escuro da floresta.

Os padeirinhos percorrem as ruas com os seus pregões:

Balança a roseira...

Ou este outro: Cheguei...

Um bando de garotos de 8 a 14 anos, cestinhas no braço, toalhas limpinhas cobrindo o pão que vendem para ganhar o pão que alimentará a si e a seus irmãos. Uns gritam bonito, outros em tom lúgubre parecem uns arutaus espantando as últimas sombras da noite:

Padei...ro Padei...ro.

Um velho num triciclo, com uma buzina estridente e irritante, contrapõe em fá menor:

Padeiro...

O sol já vai alto e surgem os vendedores de pirulitos, trazendo em "ombros armas" os seus pauzinhos sustentando as rodas empalitadas de pirulitos:

Ah é... o pirulito
Enfiado num palito
Chupa pobre, chupa rico
Chupa eu que também grito.

Mais tarde é o comprador de garrafas, com um cone de flandres na boca como porta-voz:

Este sim...

Comprando garrafa... cobre... chumbo... alumínio ou metal al...

Demora-se um pouco e se ninguém o chamou, avisa:

Então já vou...

Pára o cocadinha gritando:

É a cocadinha baiana...

Há o homem que solda panelas, anunciando-se às donas de casa:

Soldador... soldador...

E, de quando em vez visita o bairro o:

Amolador... vai passando o amolador...

O carrinho chia conduzindo o barrilzinho e o garoto apregoa: Querosene... querosene...

Passam os peixeiros (chamados de tubarões pelo elevado preço de seus peixes), passa o carangueijeiro e o vendedor de "cana caiana". De rua em rua, de porta em porta, todos os dias, ouvem-se os pregões dos vendedores do IBES.

Há pregões bonitos que encantam, que caracterizam um lugar e que deixam uma suave e doce melancolia a nos recordar da infância, a reviver lembranças e a provocar no peito uma saudade da terra da gente, como meninas de pés descalços na areia quente das ruas de Conceição da Barra, uma com a sacola, outra com uma caixinha com Nossa Senhora enfeitada de fitas e de flores, batendo de porta em porta:

Esmola para Nossa Senhora da Boa Morte.

Mas o pessoal de casa está lá no fundo do quintal ensaboando roupa, não ouviu. As meninas gritam mais alto quase cantando:

Esmola pra Nossa Senhora da Boa Morte...

– Ah, minha Nossa Senhora, me perdoe, não tenho nem um dinheirinho. Mas entrem minhas filhas, vou ver alguma coisa... umas florzinhas, um ovo. É o que posso dar. É de coração.

Na Bahia, recorda-se o amigo Seixas, as mulatas de saias rendadas, com o depósito na cabeça, anunciam pelas manhãs:

Olha a canjiquinha, tá quentinha, tá quentinha...

Em Maceió, é o mesmo informante que relembra os vendedores de sururu:

Olha o sururu fresco é sururu de capote...

E em Vitória, quem não se recorda aquele vendedor de sorvete que gritava a primeira sílaba: sor... e sustentando o agudo arrematava lá longe – vete... anunciando a seguir 56 qualidades: coco, manga, abacaxi, laranja e tantas outras frutas que não chegavam a 56, mas era mais de uma dezena.

Muitos citados e conhecidos são os pregões daqueles garotos preguiçosos e tão preguiçosos que um deles vendia pirulito na estação ferroviária para aproveitar o apito da locomotiva: p... i... e arrematar: rulito... E o outro, vendedor de amendoim, tão indolente que se, postava à porta da igreja e quando o sacerdote dizia Amém... ele concluia: "doim torradinho..."

(A Gazeta. Vitória, 8 de março de 1959)

Ano V - junho 2003 - nº 58 © 1998-2002


Pregões de Lisboa  (3)

Autor: Euclides Cavaco
Intérprete: Al Raposo

Mal rompeu a madrugada,
Já Lisboa era acordada,
Com seus pregões matinais,
Pela varina peixeira,
Lá pròs lados da Ribeira,
Ou o ardina dos jornais.

A Rita da fava rica,
Que vem do bairro da Bica,
Traz pregões à sua moda.
E o homem das cautelas,
Diz p’las ruas e vielas,
Amanhã, é que anda a roda…

Apregôa-se a castanha,
Desde o Rossio ao Saldanha,
Os pregões são sempre assim,
Flores na Praça da Figueira
E diz cada vendedeira
Ó freguês!.. compre-me a mim !…

E de canastra à cabeça,
Quase até que anoiteça,
Há em mil bocas pregões.
Mas não se vê já passar,
A figura popular,
Da Rosinha dos limões !…

Euclides Cavaco

PREGÕES (2)


* Mário Sette


Não mudaram muito os pregões do Recife. Ouvem-se ainda hoje alguns dos tempos antigos, embora muitos outros novos existam.

O pregão do homem dos cucuzes é o de outrora e o mais madrugador. Ainda meio escuro é ouvido nas ruas da cidade e nas dos arrabaldes. Insistentemente. Inconfundivelmente. Cedinho. Antes mesmo do "Manhã!… Comércio!…" dos gazeteiros. Brr… Cuscui!

Homens, de tabuleiros de flandres às cabeças, são esperados por todos os que não sabem como tomar o cafezinho cheiroso e quente, sem a saborosa guloseima de milho. O freguês chega afinal, tira a tampa do tabuleiro, e, com uma pazinha de metal arrasta logo o cuscuz amarelinho, úmido, redondo. E gostoso. O cuscuz vem de tempos remotíssimos. Foram os primeiros escravos que trouxeram a receita para nossos antepassados e desde então nunca mais se deixou de pilar o milho de madrugada, de se espremer o coco e de se pôr a massa a cozinhar dentro de um pano alvo à boca de uma chaleira…Com o correr do dia os outros vendedores ambulantes enchem as ruas do Recife. É o das verduras com seus cestos superpostos dentro dos quais se entremostram as talhadas de jerimuns, os gumes dos quiabos, as cabeças de cebolinhas, os molhos dos maxixes.
É o peixeiro com as cavalas e bicudas pendentes dos calões: um portador carrega a mercadoria e o peixeiro vai à frente, de faca em punho, apregoando. "Eh! Bicuda!" É o menino que vende cajus amarrados em grandes rodas vermelhas ou amarelas. É o freguês de bananas, gritando "Maçã madurinha!" É o homem do aipim: "Macaxeira… Bahia!

"Um dos modos de vendagem típicas da capital pernambucana será o de fressuras. Os vendedores carregam os tabuleiros cheios de mocotós, fígados, miolos, miúdos, tudo muito arrumadinho, e vão berrando: Lu! De tal modo que uma pessoa estranha à terra topando com um indivíduo assim, de roupas meio ensangüentadas, de vaca na mão, e dando semelhante berro, pode cair ou correr de susto.

Vendedor ambulante que fez época foi o das vassouras. Ficou mesmo conhecido pelo homem das vassouras. Andava carregando um verdadeiro mostruário da sua especialidade e ia gritando num tom mais de lamento que de oferta:

– Minha gente, olhe o homem da vassoura... O homem da vassoura já vai embora…Pregão também muito interessante, mas que só tem sabor na sua entonação musical é o do vendedor de "lã de barriguda para travesseiros". Também harmonioso e antigo o do mel de engenho: – Mé novo!!Com a vendagem de sorvetes em casquinhas, conduzidos em carrocinhas, o sorveteiro de outrora está desaparecendo. Ele, porém, teve o seu reinado. Nos tempos em que os gelados ainda eram uma novidade, quase uma coisa proibida. Contam os cronistas que o sorvete apareceu no Recife por volta de 1859. Era feito com gelo vindo da Europa… Nem por isso caro. 300 réis o copo. Havia uma casa que publicava um anúncio assim

Na esquina do Rosário
Quer de noite, quer de dia
Há sorvete de patente
Feito por engenharia

um competidor replicava:

Não é por máquina, não
Mas tão bom não há aí
de abacaxi…

Os sorveteiros ambulantes tinham também sua maneira de apregoar muito sonora. Ao escurecer já era ouvida de longe sua doce cantilena:– Sorveeeeeete… É de mangaba!…

O homem da carne de porco, em regra, grita:– … de porco! …de porco!Além da vendagem ambulante, que enche de seu pitoresco o Recife, há, igualmente, com uma cor não menos local, o dos vendedores de rua, mas fixos.

Temos o homem da gelada: um quiosquezinho, com grandes frascos cheios de refrescos, e uma coleção de copos em redor. O de cachorro-quente, nas festas de igreja. A mulher das tapiocas. Esta é uma das mais antigas e típicas. Senta-se sempre numa esquina de rua do bairro de São José ou de arrabalde. Quando não num pé de escada. Tem um fogareiro ao lado, com uma frigideira. Ali, ela espalha a massa de mandioca, salpica o sal, deita o coco e espera que a tapioca fique pronta. Muito alvas, por vezes levemente tostadas, dobradinhas, ela vai arrumando as tapiocas num tabuleiro. Ocasiões há em que a freguesia é tanta que fica esperando pelas tapiocas ainda em preparo.

Embora muito raras, ainda existem as mulheres do mugunzá. Também vendem na rua a sua saborosa mercadoria. À medida que chegam os fregueses, com pratos, tigelas ou terrinas, elas destampam o caldeirão e com uma colher de ágata vão enchendo as vasilhas do caldo grosso de milho, tão perfumado, tão provocador.Ainda passam pelas ruas o freguês das lagostas, o dos caranguejos, o comprador de garrafas e jornais velhos, o das galinhas, montado num cavalo e ladeado por dois caçuás cheios de aves:

– Galinha e capão gordo!
O de ovos não se cansa de gritar, imitando um cacarejo:
– Qué ovos? Qué ovos? Qué ovos? Há, no Recife, um vendedor ambulante que tem para mais de setenta anos de idade e não mudou.

Os quase velhos de hoje o viram assim mesmo em menino. É o homem das ostras. Alto, negro, seco, de calças arregaçadas e pernas sujas de lama, com um samburá na cabeça. O seu pregão é o nosso pregão-vovô:

Eu, tenho ostras
Tenho ostras
Chegada agora…
Chegada agora…

(SETTE, Mário. Maxambombas e maracatus. 3ª ed. Rio de Janeiro, Casa do Estudante Brasileiro, 1958)

in Jangada do Brasil nº 13

 Pregões (1)

O SABOR DOS DIAS

Pregões da Lisboa Antiga (e não só)

* Zecatelhado

Ia ontem Rua do Arco do Carvalhão acima, quando deparei com uma figura que não me era desconhecida de todo. Embora já muito marcada pela idade, reconheci logo aquela senhora que ainda jovem passava na minha rua com um enorme saco de sarapilheira à cabeça apregoando " PALHA BARATA"!

Era a Lisboa de há quase cinquenta anos atrás. Pelas ruas ouviam-se os célebres pregões da época que enchiam o ar ( ainda não poluído ) de sons cantados pelos pregoeiros:

" Ferro Velho!"... "Olha a Fava Rica!"... "Bolinhas de Berlim!"..." Olha a baunilha!"... " Quem tem trapos e garrafas para vender?!"... " Olha língua da Sogra!"..."Há carapau e sardinha linda!"... "Queijo saloio"..."Olha o funileiro" etc...

Os típicos carros do vendedor de castanhas e do vendedor de gelados ( que ainda hoje existem alguns. Mas haviam alguns pregões que eram autênticas maravilhas, senão reparem:

"...Ó meninas desta rua
venham todas à janela
venham cá ver o Germano
e comprar uma cautela
É o 28 mil novecentos e vinte e três
amanhã é que anda a roda!"

Era o "tio Germano" cauteleiro, que subia e descia a Morais Soares todo o santo dia.

Ou ainda:

" Há figuinhos de capa rôta
quem quer figos
quem quer almoçar!"

Recordo também alguns "sinais" que avisavam da presença do vendedor:

O "amolador"- geralmente um galego com uma geringonça feita em madeira com uma enorme roda que servia simultâneamente de peça de balanço para a maquineta e de roda de transporte da mesma. Ainda hoje, embora muito raramente, se encontram.

O "petrolino" - Era uma carroça em metal puxada por um cavalo, uma mula ou um macho, que vendia uma certa gama de produtos tais como: Petróleo para os fogões, álcool etílico, piassabas, vassouras, penicos, sabão, palha de aço, etc...

Era uma outra Lisboa, muito diferente desta de hoje, que, confesso, às vezes recordo com uma pontinha de nostalgia.

Comentários

(...)
2- os petrolinos no Porto, vendiam também azeite. as crianças chamavam as mães gritando:vem aí o azeiteiro!não sei se sabe que no norte azeiteiro tem uma conotação com homossexualidade; por isso o homem deixava a carroça e tentava apanhar-nos. não sou azeiteiro, sou o homem dos azeites!
um abraço
Posted by: grzl at abril 16, 2005 06:22 PM

Era a Lisboa dos pregões, que tanto atraía a curiosidade da garotada.
A voragem do progresso acabou por eliminar os pregões mais bonitos de toda a Europa
Os alfacinhas ainda hoje recordam com nostalgia, essa faceta da cidade.

“Quem merca o molho de alecrim a vintém o quarteirão”!

Posted by: jgonçalves at abril 16, 2005 08:39 PM


in Café Expresso - Tadechuva http://jachove.weblog.com.pt/

Outros pregões

Ierre, ierre, mexilhão!
Quentes e boas!...
A quinze réis quem acaba as uvas?
Quem quer violetas!
Petroline, azeite dô!...
Merca oh cabaz de morangos!
"Quer alguma coisinha, amor?"
"Há água fresquinha! Quem quer, quem quer?"
- Olha o Lisboa... Capital...República...Popular... ( que frase!!!)
Quem tem trapos ó garrafas, queira vender
Compro papeis, guardas chuvas, moveis velhos..
Há figuinhos de capa rota... quem quer figos, quem quer almoçar à tarde
Oh! viva da costa...Há sardinha linda ....
Oh! freguesa quem é que acaba o resto... é treze a dúzia



Pregões do Recife (Brasil)

Os pregões são outra manifestação folclórica de muita beleza. Cantados, falados, ou tocados, cada cidade tem os seus pregões. E o Recife, como não poderia deixar de ser, também tem os seus. Entre os pregões antigos temos o do vendedor de pitomba:

- "Ei, piripiripiripiripitomba! Menino chora prá comprar pitomba! Ei, pitomba! "

Outros pregões enchem de melodia a vida e a saudade de muita gente:

- Olhe o rolete ! Rolete é de cana caiana! Quem vai querer?"
- "Eu tenho lã de barriguda prá travesseiro ! "
- "Ostra chegada agora ! Chegada agora... Chegada agora..."
- Mé novo, de engenho ! "
- "Banana prata e maçã madurinha ! "
- "Verdureiro ! "
- "Macaxeira ! Macaxeira rosa"
- "Macaxeira! Macaxeira Bahia, cozinha n'água fria ! "

E o vassoureiro? Quem, com mais de trinta anos de idade não se lembra da figura folclórica do vassoureiro, com seus dois balaios pendentes de um pedaço de caibro sobre os ombros, balaios cheios das mercadorias constantes de seu pregão melodioso:

- "Vassoura, abano, espanador, bacia de lavar prato, regador, colher de pau, esteira d'Angola, rapa-coco, grelha ! Olha o vassoureiro ! Vai querer hoje?"

E estes outros, também bonitos e saudosos, como:

-"Doce gelado! "
- "Sorvete! É de coco e de maracujá!"

É bom explicar que doce gelado era como se denominava o picolé de hoje, logo quando apareceu, Era redondo e não tinha o formato dos picolés de agora.

Os pregões atuais, quase todos, com exceção de alguns, são tocados como a trombeta do vendedor de picolé, a sineta do pipoqueiro, a gaitinha do vendedor de cuscuz e do amolador de tesouras, a sineta do caminhão de gás, etc. Entre as exceções, lembro:

- "Olha o amendoim I Amendoim torradinho ! "
- "Caranguejo! Olha o carangueijo ! "
- "Pirulito ! Olhe o pirulito ! Quem vai querer?"
- "Cavala! Olha a cioba !"


in   http://www.soutomaior.eti.br/mario/paginas/cur_riq.htm

LUANDA

«Ola almoço, ola amoçoeé
Matona calapau
Jiferrera jiferreresé»

«Maboque m’boquinha boa
Dóce docinha»

« Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!»

quinta-feira, maio 10, 2007


Profissões em vias de extinção (14)
Abegão (Ferrador e Ferreiro)
O etnógrafo José da Silva Picão, na sua obra de 1903, esclarece assim das responsabilidades do abegão: “Encarregado principal de todos os serviços desempenhados pela ganharia de que é mandante e cabeça. «Chavão da lavoura», no dizer de alguns campónios”. Mas, quando discorre sobre os carpinteiros anuncia: “Mestres carpinteiros, mas de «obra grossa», «de machado e enxó» para não se confundirem com os de «obra fina». No concelho de Campo Maior nem carpinteiros de machado lhe chamam. Conhecem-nos por abegãos, dando ao verdadeiro abegão o nome de apeirador”.
No que me é dado saber, a nomenclatura de mestre Picão no que concerne ao abegão, era apenas localizada no seu concelho de Elvas. Mesmo o apeirador tinha, no restante Alentejo, a denominação de feitor. Quanto ao abegão, também no restante Alentejo, não era mais que o mecânico da ucharia agrícola, no que concerne a artefactos de madeira. Já para os artefactos de ferro a responsabilidade do seu maneio cabia ao mestre ferreiro.
Nalguns acentos de lavoura (montes), o abegão era pau para toda a obra. Fazia a manutenção do equipamento agrícola metendo a mão na madeira e no ferro, e, nalguns casos, também fazia as vezes de ferrador. Isto porque os mestres ferreiros, geralmente, tinham oficina aberta apenas nos povoados de maior dimensão, vilas e cidades. O ferreiro também exercia a função de ferrar as cavalgaduras. Por regra, os ferreiros eram mais bem pagos que os abegãos, daí que o lavrador exigisse ao segundo uma habilidosa polivalência. Não era mais que a hoje propalada gestão apropriada dos recursos humanos.
Comentários: Mecânicos da ucharia agrícola
Posso acrescentar, com a devida licença, que não era incomum o abegão dar 'uns toques' na tosquia...
Um abraço,Francisco NunesAfixado por Planície heróica em setembro 27, 2004 02:01 AM

De facto, existem algumas diferenças entre Ferrador e Ferreiro, tem um pouco a ver com certas zonas da "nossa" região do Endovélico. Ferrador profissão das mais antigas muitas vezes com oficinas (nos montes tinha algumas nuances)onde se encontrava a forja onde se faziam os diferentes moldes para cascos de mulas, cavalos, e burros. Escolhido o tipo de ferradura de acordo com a variedade do terreno a pisar e com as características do animal, este era colocado para ser ferrado numa armação de madeira apropriada à tarefa e a que se chamava "Tronco". Para maior segurança prendia-se os beiços do animal com um instrumento a que se dava o nome de "aziar". O ferrador preparava os cascos com os desbastes precisos para ser colocada a ferradura com "cravos" batidos a martelo.
Quanto ao Ferreiro, o essencial já referenciado, apenas uma achega com alguma carga mais histórica. Foi sobretudo a partir da Idade Média que o ferro (numa escala até aí nunca conhecida)começou por ser utilizado no fabrico de alfaias domésticas e agrícolas. Com o desenvolvimento das feiras e mercados os objectos de ferro serviam como objectos de troca por outros artigos e/ou como meio de pagamento de serviços, dada a inexistência de circulação monetária. Nessa altura e em alguns locais o ferreiro acumulava também as funções de ferrador: executava grande quantidade de utensílios para animais.
Numa época de grande instabilidade e insegurança social, os instrumentos de defesa era feitos em ferro. Desde essa época, uma oficina de ferreiro ocupava no mínimo, 4 pessoas: uma que acarretava o ferro, a lenha e o carvão para a forja; outra que se destinava apenas a alimentar a fornalha e que se chamava "foleiro"; mais um ou dois trabalhadores malhavam/batiam o ferro e por último havia um "mestre" do ofício que executava as peças. Durante séculos e séculos, este ofício manteve-se próspero, activo e com grande prestígio social.
Num passado mais recente as oficinas de ferreiro situavam-se perto das abegoarias(oficina de carpintaria grossa). Eram ofícios complementares na construção de alfaias. Os ferreiros estiveram também muito ligados à medicina popular ( curar o cobro - irritação cutânea, etc ).
Joaquim, espero não ter maçado em demasia mas apeteceu-me divagar um pouco sobre o assunto. Já sei que para a próxima "levo nas orelhas"... é mesmo assim!
Um abraço.Afixado por Albardeiro em setembro 28, 2004 12:57 AM
Foto Luís Pavão
Retirado do blog Alentejanando

Profissões em vias de extinção (13)
Correeiro

O gado não só era usado como meio de transporte como era também a principal força de tracção das alfaias agrícola. Assim o gado alimentava uma série de industrias, algumas delas representadas no Museu, como o segeiro, o arreador e também o correeiro.
A construção dos arreios, selas, coelheiras, albardas, etc, era da competência do Sr. Francisco Alves, mestre correeiro, que transmitiu o seu ofício também ao Sr. Ambrósio Andrade e ao, na altura, jovem aprendiz, Sr. Victor de Andrade.
A exposição do Museu está bastante completa e dela destaca-se a máquina de coser cabedal “Singer”, muito idêntica à utilizada pelas antigas “juntadeiras”.
O aparecimento das alfaias agrícolas motorizadas, como os tractores e motocultivadores, levou a que o trabalho de tracção baseado em animais fosse desaparecendo e a necessidade do correeiro diminuindo. Na Lourinhã este ofício acaba por desaparecer com a morte do último correeiro.





Profissões em vias de extinção (12)
Pirolitos (e chupa-chupa)
Os objectos desta exposição, já classificada como arqueologia industrial, foram todos recolhidos do lixo, exceptuando a máquina de engarrafar, propriedade da antiga fabrica de pirolitos e refrigerantes “Balá”.

O pirolito, a única gasosa de então, era muito procurado, não só pelo refrigerante, como também pela esfera de vidro que no interior da garrafa servia de tampa e quando partida usava-se como berlinde.

A fábrica era da propriedade de José Maria de Carvalho.

Respondendo a um desafio que a Rita me fez no post anterior, aqui fica o famoso Pirolito. Refrigerante que tinha como principal característica gustativa… um berlinde.
Alguém comprava o Pirolito pelo sabor? Era o berlinde, o “guélas”, o supremo encanto do Pirolito.Para quem quiser saber a história do Pirolito, pois o Pirolito para além de fazer parte da História, também tem a sua história, basta passar por aqui.

Nota: Já não sou do tempo dos pirolitos, que conhecia apenas das memórias de infância do meu pai, do Porto, E pirolito chamava-se ao engolir água do mar por descuido. Quanto aos refrigerantes, eram vendidos em garrafas rolhadas com as caricas, que por vezes no seu interior traziam gravuras para colecção. As caricas serviam também para jogos de futebol, com as equipas com as cores do clube, e para um outro jogo cujo nome não recordo nem as regras.
O que havia era os chupa-chupa e rebuçados, feitos artesanalmente de açúcar caramelizado, de várias cores, embrulhados também em papel de várias cores, retorcido nas pontas. O filho da nossa cozinheira, a Senhora Ana de Jesus, da Guarda, tinha uma fabriqueta destas.
Havia também os berlindes, esferas de aço dos rolamentos das máquinas, ou de vidro com desenhos no interior, destes os maiores dos quais eram os terríveis abafadores, que permitiam ao seu proprietário apoderar-se de todos os berlindes em jogo, que consistia em metê-los em buracos, com piparotes dos dedos.
VN


Profissões em vias de extinção (11)
Tanoeiro
O Tanoeiro é um artífice que trabalha no fabrico de toneis, barris, tinas, celhas, pipas e outros objectos cujos elementos chave são as aduelas e os aros. A sua actividade foi bastante representativa na Lourinhã devido à sua extensão de vinhas. A venda destes produtos tinha, e tem, normalmente o seu auge durante a feira anual de 21 de Setembro, pelo S. Mateus, que precede as vindimas.
O Tanoeiro é um artífice bastante conhecedor das várias madeiras, matéria prima para o fabrico de aduelas. Estas eram manufacturadas pois a sua curvatura e espessura só poderia ser dada à mão. É ainda em recipientes feitos pelo tanoeiro que se fabricam dos melhores vinhos em Portugal. Porém, uma procura de recipientes noutros materiais em substituição das celhas, como plásticos, mais leves, baratos e facilmente laváveis, a necessidade de uma maior higienização de alguns materiais da produção vinícola, utilizando recipientes em inox, ou a utilização de grandes depósitos de cimento armado, mais fortes e de maior capacidade, para a produção de vinho, vieram a fazer com que esta arte se extinguisse por completo da zona da Lourinhã.
A exposição foi doada na totalidade pelo Sr. José Maria Gomes da Silva encontrando-se muito completa.
NOTA - Em Luanda os barris eram serrados ao meio e transformavam-se em duas celhas, que serviam para lavar a roupa ou pô-la de molho, com cinza, para tomar banho ou para fazer vasos para plantas de maior porte. A despropósito, havia também umas caixas forradas a zinco, que eram utilizadas para conservar os alimentos, com pedras de gelo, especialmente nos piqueniques. As pedras de gelo eram compradas em barras enormes, salvo erro no Baleizão (café e loja de sorvetes vendidos ao balcão ou em carrinhos empurrados por um negro, pela cidade) e depois partidas em casa com um masso ou picão. Por isso os sorvetes em Luanda se chamavam todos «baleizão», qualquer que fosse a marca ou fabricante.
Os aros dos barris ou celhas desmanchados eram utilizados como «aro» conduzido por uma haste de ferro, com a ponta recurvada para encaixá-lo e dirigi-lo, sem o deixar cair.
VN

Profissões em vias de extinção (10)
Segeiro
O Segeiro era o artífice ligado essencialmente à construção e reparação de carroças, não deixando, no entanto, de fazer e reparar alguns objectos agrícolas. Curiosamente o termo de Segeiro era pouco conhecido na Lourinhã, sendo substituído pelo Ferreiro.
O acervo do segeiro foi-nos doado pelos herdeiros quando da morte do “Ti Remexido”. As peças recuperadas encontravam-se debaixo de pó e lixo que as cobriam por completo. Por curiosidade expomos os seu óculos e livro de assentos, o qual, por si só, contribui para um melhor conhecimento da época. Graças a esta generosa oferta a exposição do segeiro encontra-se relativamente completa. Neste momento é impossível a reconstituição da forja ou do grande cilindro de pedra (pesando várias toneladas) e destinado à construção da roda e implantação do seu aro. Desta exposição salienta-se o grande fole para alimentar a forja.
O desaparecimento do gado como animal de tracção e a procura de maquinaria agrícola motorizada levou à extinção do segeiro.

Profissões em vias de extinção (9)
Ourives (e oculista)
Na zona Oeste todos os ourives eram provenientes de Tocha e de Mira e as deslocações a feiras e mercados eram feitas de bicicleta com a tradicional caixa verde que continha relógios ouro e óculos. Existiam óculos de várias graduações que eram mostrados ao possível comprador que os experimentava um a um até que descobrisse o que mais lhe melhorava a vista.
O ourives é representado pelo Sr. José Pinto Maurício que se fixou na Lourinhã e abriu duas ourivesarias as quais ainda se mantém pelos seus filhos após a sua morte. Alguns dos seus familiares e amigos vieram a montar também ourivesarias na zona Oeste.
Da exposição a mala verde é a única que na verdade era do ourives. A bicicleta original já tinha sido completamente destruída pelo que nos servimos de uma das antigas bicicletas da Lourinhã, oferecida pelo Sr. Toscano. O resto da exposição é composta por fotografias, réplicas de ouro e alguns relógios velhos. Nenhum destes objecto possui actualmente grande valor monetário.

Profissões em vias de extinção (8)
Petrolino
A função do Petrolino, designado como “pitrólino” devido à pronuncia local, era percorrer as aldeias do concelho nas “voltas”, constituídas pelo alvará, carroça, macho, reservatórios, líquidos e produtos em armazém. Vendia azeite e petróleo assim como sabão e aguardente. O petroleo era originário da BP-Britum Petroleo e da Vacuumm, que pertencia ao Sr. José Maria de Carvalho, e o azeite era proveniente de Castelo Branco.
Esta actividade foi transmitida pelo Sr. Veríssimo, de Poiares – Coimbra, ao Sr. José António Mateus que doou, juntamente com o filho, a totalidade da exposição presente no museu.

Profissões em vias de extinção (7)
Serrador e Resineiro
A desflorestação no concelho da Lourinhã, iniciada em finais do séc. XIV com o corte de carvalhos, foi enorme. No seu lugar foram plantados pinheiros e somente em zonas que não prestavam para agricultura. Os pinheiros passavam por duas fases de exploração: a resina, durante o crescimento da árvore, e a madeira, com a árvore adulta e com porte que permitisse a sua comercialização.
A recolha da resina era feita através de um processo chamado “sangria”. Os resineiros, não residentes na Lourinhã, vinham anualmente retirar a resina e efectuar novas sangrias. O material do resineiro aqui exposto é todo proveniente do concelho de Soure, distrito de Coimbra, devido ao facto dos utensílios da região se terem perdido.
Depois do derrube dos pinheiros, a machado, estes eram montados na horizontal em cima de uma estrutura chamada “burra” para então serem serrados em tábuas. A mão de obra, geralmente importada, trabalhava aos pares, com um dos homens encavalitado do próprio tronco e outro em baixo, puxando e empurrando a serra.


Resineiro Engraçado

(Popular Beira-alta/José Afonso)


Resineiro engraçado
Engraçado no falare
Ó I ó ai eu hei d’ir à terra dele
Ó I ó ai se ele me lá quiser levar
Já tenho papel e tinta
Caneta e mata borrão
Ó I ó ai p’ra escrever ao resineiro
Ó I ó ai que trago no coração
Resineiro é casado
É casado e tem mulher
Ó I ó ai vou escrever ó resineiro
Ó I ó ai quantas vezes eu quiser
Resineiro engraçado
Engraçado no falare
Ó I ó ai eu hei d’ir à terra dele
Ó I ó ai se ele me lá quiser levar


José Afonso no Disco Cantares do Andarilho

Profissões em vias de extinção (6)


Botica (Boticário)
A botica era a antiga farmácia. Nesta exposição inclui-se um armário original da antiga botica onde se guardavam as diversas drogas e medicamentos e uma mesa com alguns dos antigos instrumentos de produção de pomadas, hóstias (percursores dos comprimidos), supositórios, etc.
Contamos ainda com algumas curiosas peças para a pesagem do vinho, a fim de se saber a sua graduação, trabalho da competência do boticário a que os agricultores da região recorriam regularmente.

NOTA: Uma tia-avó minha era farmacêutica e directora técnica da Farmácia Sanitas, ali ao Camões, em Lisboa, por onde passava muitas vezes para conversarmos. Lembro-me, eram os anos 60, que havia ainda alguns fregueses que levavam receitas passadas pelo médico que ela manipulava num pequeno laboratório na cave.
VN

Profissões em vias de extinção - Chipre (5)

Profissões em vias de extinção - Brasil e Portugal (4)


* Emiéle


Já por aqui tenho falado de profissões que quase desapareceram. Algumas substituídas por robots, outras porque deixaram de fazer sentido. No outro dia ainda ouvi uma gaita na rua com um toque característico e fui estreitar. Era mesmo o "amola-tesouras", que também costumava consertar chapéus de chuva. Tem tudo a ver com uma nova organização do trabalho doméstico. Quando há 50 anos ser dona-de-casa era uma profissão que abrangia uma enorme faixa da população feminina, era natural que a oferta de produtos ao domicílio valesse a pena. Nessa altura podia-se comprar muita coisa sem sair de casa. O padeiro vinha a casa, o leiteiro vinha a casa, a varina trazia peixe a casa, o mesmo para os legumes, e até quando se ia à mercearia o marçano depois trazia as compras à freguesa. É natural que hoje em dia isso não faça sentido, por um lado pelas ruas cheias de movimento e por outro porque não se vai vender nada a casas onde os ocupantes estão no seu local de trabalho... Estas reminiscências sociológicas vieram à baila porque hoje voltei a ver a "aproximação" do antigo ardina. Desde há muito tempo que quem quer o jornal vai comprá-lo ao quiosque. Há mesmo muito tempo. Nessas épocas onde quase tudo se trazia a casa, é claro que o jornal da manhã também vinha ter a casa. Ao tempo que acabou. Mas reparei hoje, num homem com uma braçada grande de jornais que ia entrando em diversos cafés e quando saía a braçada era menor. Imaginei que dado o problema de desemprego ele tenha deitado mão de uma forma de ganhar algum dinheiro ressuscitando a profissão de ardina.


Afixado por Emiéle em 16 de outubro de 2004, às 13:43


* isabel sousa


De manhã acordava sempre com o apito do padeiro.Costumava trazer umas pombinhas ( alguém sabe o que são pombinhas?) óptimas.
O anoitecer era a hora do leiteiro. Ao principio,o leiteiro não ia lá a casa porque morava mesmo em frente. Ao fim do quintal do leiteiro ficavam os estábulos. À esquerda em cima dum pial ( será que isto se escreve assim?) estavam as leiteiras de alumínio. Levava-se um fervedor e pedia-se 1/2 litro de leite. Quando acabava os trabalhos da escola mais cedo ,ainda dava para ver a ordenha das vacas. Quando o leiteiro mudou de casa começou a ser ele a passar. Nunca mais vi uma vaca a ser ordenhada. Ganhei um leiteiro à porta mas perdi as vacas. Nunca lhe perdoei ter mudado de casa.
O sr. Abrantes era o ardina. Acho que passava todos os dias nos cafés a vender jornais. Mas disso não me recordo muito bem. Talvez porque, na altura, não havia dinheiro para cafés nem para jornais.
Claro que também me recordo do amola-tesouras. Mas eu detestava aquele apito. Dizia-se que quando o amola-tesouras passava iria chover no dia a seguir. Se chovesse não podia ir brincar para o quintal. Acho bem que os amola-tesouras tenham acabado.
Também havia o homem do petróleo. Que além de petróleo vendia rebuçados, açúcar, cebolas e batatas. Era muito velho e muito magro e andava de carroça. Ao fim, acho que já ninguém usava petróleo nem lhe comprava batatas, mas ele continuava sempre a passar. Até que a égua morreu e ele morreu logo a seguir com o desgosto.
O Johnny deve pensar o mesmo que o meu filho quando lhe digo isto "Que horror és tão cota!!!"...
Afixado por isabel sousa em 16 de outubro de 2004, às 22:24



Profissões em vias de extinção (3)
Alfaiate
Na Lourinhã sabemos da existência de pelo menos quatro alfaiates, entre 1904 e 1934, pelas inscrições no “Almanach da Folha” de Torres Vedras, e no “Annuário Commercial de Portugal”.
A extinção do alfaiate no concelho da Lourinhã deveu-se ao aparecimento do pronto a vestir, mais cómodo e barato no que se refere à roupa masculina. Além dos fatos domingueiros o alfaiate fazia também os fatos de trabalho de diversos ofícios como o fato de ganga do petrolino, do tanoeiro, o albernós do correeiro, etc.

in www.museulourinha.org/pt/etno_prof_3.htm
Nota: Quando vim para Portugsal nos anos 60, a roupa pronto-a vestir caía mal e durante alguns anos as calças e casacos eram feitos em alfaiates e as camisas em modistas. Quanto às camisolas eram tecidas pela minha tia Lili. Os tempos mudaram e hoje o zé-pagode abastece-se no pronto-a-vestir.
VN

quarta-feira, maio 09, 2007


Fados do Tempo da Outra Senhora (37)
Quitandeira


* Agostinho Neto


A quitanda.
Muito sol
e a quitandeira à sombra ~
da mulemba.

- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!

A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.

A quitandeira
que vende fruta vende-se.

- Minha senhora laranja,
laranjinha boa!

Compra laranja doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.
Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.

Laranja, minha senhora!
Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava ´
eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo com os próprios problemas da existência.


Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
- sangue.

Talvez vendendo-me
eu me possua.

- Compra laranjas!


Canção para Luanda


* Luandino Vieira

(Angola)


A pergunta no ar
No mar
Na boca de todos nós:
- Luanda onde está?

Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos

- Xê
mana Rosa peixeira
responde?

- Mano
Não pode responder
Tem de vender
Correr a cidade
se quer comer!

«Ola almoço, ola amoçoeé
Matona calapau
Jiferrera jiferreresé»

- E você
Mana Maria quitandeira
Vendendo maboque
Os seios-maboque
Gritando
Saltando
Os pés pescorrendo
Caminhos vermelhos
De todos os dias?
«Maboque m’boquinha boa
Dóce docinha»

- Mano
Não pode responder
O tempo é pequeno
para vender!

Zefa mulata
O corpo vendido
Baton nos lábios
Os brincos de lata
Sorri
Abrindo o seu corpo

- seu corpo-cubata!

Seu corpo vendido
Viajado
De noite e de dia.

- Luanda onde está?

Mana Zefa mulata
O corpo-cubata
Os brincos de lata
Vai-se deitar
Com quem lhe pagar
- precisa comer!

-Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casas antigas
O barro vermelho
As nossas cantigas
Tractor derrubou?

Meninos nas ruas
Caçambulas
Quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?
- Manos
Rosa peixeira
Quitandeira Maria
Você também
Zefa mulata
dos brincos de lata

- Luanda onde está?

Sorrindo
As quindas no chão
Laranjas e peixe
Maboque docinho
A esperança nos olhos
A certeza nas mãos
Mana Rosa peixeira
Quitandeira Maria
Zefa mulata
- Os panos pintados
Garridos
Caídos
Mostraram o coração:

- Luanda está aqui!


Luandino Vieira, in “Cultura II, 1957, n.º 1



* Viriato da Cruz

(Angola)

MAKEZÚ


- "Kuakiè!!!... Makèzú, Makèzú..."

...................................................


O pregão da avó Ximinha
É mesmo como os seus panos,
Já não tem a cor berrante
Que tinha nos outros anos.

Avó Xima está velhinha,
Mas de manhã, manhãzinha,
Pede licença ao reumâtico
E num passo nada prático
Rasga estradinhas na areia...

Lá vai para um cajueiro
Que se levanta altaneiro
No cruzeiro dos caminhos
Das gentes que vão p'a Baixa.

Nem criados, nem pedreiros
Nem alegres lavadeiras
Dessa nova geração
Das "venidas de alcatrão"
Ouvem o fraco pregão
Da velhinha quitandeira.

- "Kuakiè... Makèzú... Makèzú..."
- "Antão, véia, hoje nada?"
- "Nada, mano Filisberto...
Hoje os tempo tá mudado..."

- "Mas tá passá gente perto...
Como é aqui tás fazendo isso?"

- "Não sabe?! Todo esse povo
Pegó um costume novo
Qui diz qué civrização:
Come só pão com chouriço
Ou toma café com pão...

E diz ainda pru cima
(Hum... mbundo kène muxima...)
Qui o nosso bom makèzú
É pra veios como tu".

- "Eles não sabe o que diz...
Pru qué qui vivi filiz
E tem cem ano eu e tu?"

- "É pruquê nossas raiz
Tem força do makèzú!..."

(Poemas, 1961)
* António Cardoso
Oferta

Sou a quitandeira mais doce
que todos os doces de coco,
minha boca é tão docinha
como a fruta da minha quinda.
Tenho os seios para dar
duas laranjas do loje,
tenho nos olhos pitangas
tão boas de namorar

Tenho o Sol na barriga
e doçura da manga nos braços,
quem quer a minha vida
pra adoçar os seus cansaços?

(No reino de Caliban II - antologia panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa)
Quadro - Quitandeiras - Lívio Morais