A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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terça-feira, maio 10, 2016

As escolas com subsídios querem mesmo ser livres?

Que violências, atrocidades, ditaduras, invasões, guerras, bombas (duas delas atómicas), torturas, genocídios, discriminações, roubos ou escravidões foram cometidos, lançados, executados ou institucionalizados em nome da fé ou do livre-arbítrio?

O paradoxo começa logo no Génesis da Bíblia: Adão e Eva, no paraíso, são livres mas estão proibidos, por Deus, de comer uma simples maçã... Que liberdade tão limitada, que divindade tão picuinhas!...

O inferno que herdámos desde a criação deu-nos, em nome dos deuses ou da liberdade, o império da casta dos cidadãos de Roma para impor, sem restrições, ao resto do mundo, a escravidão e a pata esmagadora da sua pax;

deu-nos inúmeras guerras para os povos escolherem, independentes mas cegos de fanatismo, um "único", "verdadeiro", "indiscutível" e "omnipotente" Deus;

deu-nos as descobertas, o colonialismo, o massacre e o esclavagismo de milhões e milhões de negros e de índios para certos brancos, sem peias, enriquecerem com o comércio, as minas e a ordem imposta pela expansão da fé;

deu-nos revoluções de gente faminta, afogada em banhos de sangue abençoado, aos domingos na missa, para absolver a liberdade do industrial triturar operários, lentamente, numa máquina de expelir fuligem em compasso quaternário;

deu-nos duas guerras mundiais e 85 milhões de pessoas que, em nome de Deus, se suicidaram na defesa da liberdade de 50 Estados que os enviaram patrioticamente para a frente de combate;

deu-nos a liberdade sem fronteiras da troca instantânea de mercadorias e bens que, graças a Deus, oferece a 62 pessoas metade de toda a riqueza do mundo e a uma em cada nove menos do que o suficiente para comer.

A minha visão simplória e ignorante da história é lastro mais do que suficiente para ter medo das multidões enfurecidas que gritam em nome da liberdade e de Deus: quase sempre o que pretendem é oprimir alguém e manipulam a seu favor o amor genuíno, puro, que cada um de nós sente pela dignidade da independência individual ou pela esperança eterna da religião em que acredita.

Vejo nesta freguesia a que chamamos Portugal alguns cidadãos reclamarem um subsídio do Estado para os pais serem livres de mandar os filhos para as escolas que eles dirigem. Dizem até que o corte desse subsídio é um ataque à Igreja, que patrocina várias dessas escolas...

Penso neste assunto. Não me metem medo, fazem-me rir! Então estes liberais de pacotilha, afinal, querem nacionalizar e coletivizar a liberdade e a fé privadas?!...

http://www.dn.pt/sociedade/interior/universidade-vende-palacio-classificado-para-sede---dos-ismaelitas-5166081.html

domingo, abril 20, 2014

"Infelicidades verbais várias"

Diário de Notícias
por PEDRO MARQUES LOPES
Não é que seja surpreendente para ninguém a forma como o duo dinâmico, Passos Coelho/Maria Luís Albuquerque, conduz o processo político. O já nosso mais que conhecido cocktail de ignorância, incompetência e desprezo pelos cidadãos, servido com a imprescindível casquinha de limão mentirosa, continua a jorrar em abundantes doses.
Esta semana, Passos Coelho abusou do limão. Ou melhor, como dizia um membro do Conselho de Ministros ao Expresso, o "primeiro-ministro teve infelicidades verbais várias". Pelos vistos, há mais ministros a aderir à novilíngua. A bem verdade, o muitíssimo provável autor da dita frase já começa a ser um especialista: o seu primeiro contributo foi a alteração do significado da palavra irrevogável.
No diálogo televisivo de terça-feira, o primeiro-ministro falou dum alargamentozinho no corte de salários face ao do anterior Governo. Segundo o primeiro-ministro, fazer cortes de 3,5% nos salários a partir de 1500 euros não é muito diferente de cortar 2,5% a partir dos 675. Também, segundo ele, não existirá grande diferença entre o tal corte de 3,5% nos salários de 1500 euros e o atual de 8,5%. Mais do dobro. As brutais diferenças não acabam aqui, mas serão pormenores que não passam duma maçadoria. Infelicidade verbal, pois então. Mas existiram mais aspectos que houve quem achasse claros. Houve tempo para libertar (bem sei que agora esta palavra quer dizer despedir, mas é só enquanto não nos habituamos) uma não verdade, quando disse que os cortes nas despesas de funcionamento do Estado tinham sido de 1600 milhões de euros: não foram, foram de metade desse valor como provou o Jornal de Negócios dois dias depois. Infelicidade verbal, sem dúvida. Também não faltaram, no alegre convívio, momentos de puro entretenimento: o desonerar (isto dos novos significados deve ter como objetivo aumentar a atividade económica das editoras de dicionários, só pode) das pensões e salários em 2016. Se der, eventualmente, às tantas. Tão certo como "termos cumprido as metas". Não houve tempo para explicar como é que não se tendo cumprido uma única meta original se diz exatamente o contrário. Infelicidade verbal, claro.
Depois, e como se fosse a coisa mais natural do mundo num responsável pela condução dos destinos dum país, pôs-se a adivinhar, a achar, a alvitrar, dizendo com a candura dos irresponsáveis que a Segurança Social não é sustentável. Um cidadão faz os seus descontos, acredita no sistema que lhe venderam, e vem alguém que representa a parte com quem ele fez o contrato dizer que aquilo não presta. Estudos que o comprovem? Provas irrefutáveis? Um numerozinho que seja? Nada. Põe-se em causa um pilar fundamental da comunidade utilizando o coeficiente de queixas, fazendo palpites, tendo uma fezada. Infelicidade verbal do líder do seu Governo, sr. ministro escondido com o rabo de fora?
Curiosamente, não faltam personalidades, da esquerda à direita, com provas dadas e estudos publicados, a dizer exatamente o contrário e até, espanto dos espantos, a argumentar com números, apresentando provas.
Se se fala de assuntos que dizem respeito à sobrevivência das pessoas, ao seu mais básico núcleo de direitos como salários, ou a contratos civilizacionais como a Segurança Social, que podíamos esperar da forma como se está a tratar da reforma do sistema de pensões, ou melhor, do método para tornar os cortes definitivamente provisórios ou provisoriamente definitivos? Aquela coisa que não devemos transformar um bicho de sete cabeças, nas palavras de Passos Coelho, aquilo de tirar dinheiro às pessoas que não têm maneira de o ir buscar a mais lado nenhum e que para isso trabalharam toda a vida. Será que nos devemos espantar? Espantar, talvez não. Mas não podemos deixar de nos indignar. É demasiado insultuoso ignorar por completo os cidadãos que se representa, é brincar com a dignidade das pessoas estarmos a 15 dias da apresentação duma medida que altera por completo a vida de tanta gente e percebermos que não existiram estudos sérios, que não se sabe ainda o que fazer, que não houve a mais pequena tentativa de diálogo com os parceiros sociais ou partidos da oposição, que um primeiro-ministro fala de relatórios que os que os deviam ter feito desconhecem, que o Ministério da Segurança Social não é tido nem achado no processo que aparentemente a única reforma se chama cortar.
Também a palavra "pessoas" perdeu significado. Deve ser isso. Talvez a expressão "vida das pessoas" tenha também uma nova dimensão. Algo com que se pode brincar, que pode ser testado, que em quinze dias se arruma.
Infelicidades várias temos tido nós e as piores, de certeza absoluta, não são verbais.

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3820850&seccao=Pedro%20Marques%20Lopes&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco&page=-1

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

André Macedo - Economia para tótós

Diário de Notícias
ANDRÉ MACEDO

Economia para totós

por ANDRÉ MACEDOOntem69 comentários

 
Vou escrever sobre a última do Camilo Lourenço. Digo a última porque parece que ele faz de propósito. Reconheço que, dentro do estilo, ele até é relativamente moderado, embora seja a favor da über austeridade e eu não consiga perceber porquê. Desta vez, o Camilo decidiu afirmar que é um disparate tirar uma licenciatura em humanidades porque não há mercado. A escolha de uma profissão deve ser feita, diz ele, tendo como norte as leis da oferta e da procura. Optar por uma profissão é, digamos assim, um processo linear e previsível. Tiras o curso de História, vais para o desemprego. Tiras o curso de Gestão, acabas na Goldman, vais de férias para o Taiti e regalas-te numa piscina a transbordar de garotas.
Isso das garotas interessa-me, é um belo incentivo, mas não julgo ser preciso citar as estatísticas que demonstram ser elevadíssimo o desemprego entre todos os jovens, licenciados ou não, embora haja áreas em que é certamente mais elevada. Mas o Camilo não se limita a dizer que há profissões em que há mais desemprego. Isso é evidente. O que ele sugere é mais abrasivo: que os mais novos devem fazer as escolhas tendo em conta não a vocação e o talento individual, mas o mercado. Faltam médicos? Vou para cirurgião, apesar de odiar sangue. Os portugueses têm uma higiene oral horrível? As cáries são uma excelente oportunidade de negócio.
De acordo com este método, as grandes escolhas de vida são coisas rasteiras. Ser ou não ser é um sentimentalismo literário que já não vende. No essencial, a vida é uma espécie de economia para totós. Quer escolher uma carreira? Abra o Expresso Emprego e veja o que está a dar. Nada de dramas, impulsos, romantismos: siga a manada. Na escola, a mesma coisa. As disciplinas dividem-se entre as úteis e as inúteis. No primeiro grupo, a Matemática, as Ciências, o Chinês e, claro, o Alemão. No segundo, a Literatura, a Música, as Artes.
O problema com este raciocínio é que não é raciocínio: é preconceito. Os nossos sistemas educativos - defende a Harvard Business Review - centram-se em ensinar os alunos de ciências e de gestão a controlar, prever, verificar, garantir e testar dados. Não ensinam como navegar nas questões "e se..." ou em futuros desconhecidos. "Se quer um pensamento original" - acrescenta a HBR -, "precisa de libertar a criatividade das pessoas. Os humanistas são treinados para serem criativos. Steve Jobs reconheceu como estudar caligrafia o levou a criar o Mac."
Não são estas também as ferramentas que se exigem num mundo cada vez mais complexo e dinâmico? Eu diria que sim. Diria que, em vez de apostar no Excel para moldar o futuro - e falhar -, talvez faça sentido cultivar uma maior variedade de talentos. Só assim um dia podemos fazer alguma coisa de original em vez de passar o tempo a olhar para o retrovisor à procura do que era para ser e, afinal, nunca será.
P. S. Já agora: há banqueiros da Goldman licenciados em História...

http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3078994&seccao=Andr%E9&page=-1

quarta-feira, agosto 29, 2012

Juan José Millás -. Um canhão pelo cu


‎"Um canhão pelo cu" é o título de um texto de Juan José Millás publicado na semana passada no El País e que se tornou viral. O suplemento Dinheiro Vivo ( do DN e JN) publica hoje a sua tradução que, com a devida vénia, aqui republico.
Aviso: contém linguagem que pode ser considerada ofensiva.
- Um canhão pelo cu

«Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.

Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.

Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.

Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.

Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.

E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.

Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.

A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.

A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.

Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.

Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.

Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.»

| Juan José Millás
| Via: Patrícia Fonseca / Blogkiosk
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segunda-feira, abril 30, 2012

O 1.º de Maio de 1962 nas colunas do DIÁRIO DE NOTÍCIAS


Memórias do PREC, da resistência anti-salazarista e outras crónicas históricas

Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

O 1.º de Maio de 1962 nas colunas do DIÁRIO DE NOTÍCIAS

O ano de 1962 culmina a grave crise política do regime de Salazar, mais atanazado das pulgas, iniciada com o terramoto de Humberto Delgado em 1958, umas nuvens negras a marcar a ronceira agonia do salazarismo. Aquele ano inicia-se com o assalto ao Quartel de Beja, logo na madrugada de 1 de Janeiro de 1962 sob mando do capitão João Varela Gomes, coadjuvado por um grupo civil liderado por Manuel Serra.

Toda esta agitação de massas originada a partir da campanha eleitoral de Humberto Delgado, leva, em si, à reorganização do Partido Comunista Português e a um crescendo de influência dos comunistas, que culminou em Janeiro de 1960 com a espectacular fuga de Peniche empreendida por vários dirigentes do partido, à cabeça dos quais estava Álvaro Cunhal
[1].

O ano de 1962 marca de sobremaneira um pico da radicalização da luta antifascista, em especial junto das camadas mais politizadas dos operários, trabalhadores agrícolas e dos estudantes das zonas urbanas.

A 8 de Março desse ano a polícia reprime uma manifestação popular no Porto, e, a 24 de Março a proibição da comemoração do Dia do Estudante vai despertar a“crise académica de 1962”, marcada por uma série de lutas estudantis nas Universidades de Lisboa e Coimbra, em permanência de Março até Junho, sucessivas manifestações de rua e recontros com a polícia, suscitando mais uma onda repressiva de prisões.

Em plena maré da luta estudantil, ocorrem as grandiosas manifestações populares do 1.º de Maio em Lisboa, Almada e no Barreiro. As artérias da Baixa de Lisboa, entre o Martim Moniz e o Terreiro do Paço, encheram-se de povo, naquela que foi a maior manifestação de rua contra o regime desde 1958, com a presença de 100.000 manifestantes, segundo a propaganda do PCP.

A ferocidade repressiva foi enorme, e da mesma se fizeram eco os jornais da época, uma cantilena melada
[2]. Uma imensa multidão a vozear bem alto contra a repressão fascista, em sucessivas vagas, aproveitando as actividades quotidianas, em especial a hora do almoço e o princípio da noite.

«O dia 1.º de Maio foi assinalado em Lisboa por desagradáveis acontecimentos», noticiava então a imprensa, salientando as loucas «correrias e muito alarido» «lançando a confusão». O articulista chamava particular atenção para o facto dos «elementos subversivos» terem escolhido as horas de ponta da circulação diária da populaça, aquele «constante vaivém», a fim de manifestarem «os seus criminosos fins e também com o propósito de suscitar entre o povo sentimentos de hostilidade» contra as «forças encarregadas de zelar pela ordem pública». Para o jornal não havia falso nem verdadeiro.

A organização da manifestação utilizara, dizia enfaticamente, «uma intensa propaganda por meio de panfletos clandestinos espalhados pela cidade e distribuídos de formas ilícitas», acicatando «as classes trabalhadoras a concentrarem-se» para apresentarem «certas reivindicações» contra a falta de liberdade, a miséria e a guerra colonial emergente e instigando também «a faltar ao trabalho». Um estendal de agravos.

No intuito de manter o povoléu «na ordem, na paz e no trabalho», pois claro,«as entidades governativas», sempre a “bem da Nação”«ordenaram medidas especiais de segurança», e, devido a «aconselháveis precauções», até os«automóveis das brigadas móveis» de choque foram colocados de alerta e bastão em punho, para além de serem «montados serviços de vigilância» nas estações ferroviárias e fluviais, não fosse o diabo tecê-las…

O pormenor dessa sanha repressora era de truz. Para facilitar «o serviço de vigilância da polícia» – porém decerto complicar a vida aos trabalhadores que regressavam ao domicílio depois duma jornada de trabalho – foram «mudadas várias paragens de eléctricos e de autocarros».

Na oportunidade de malhar nos assalariados, o regime duro e impiedoso que não professava grande estima pela arraia-miúda, nada deixava ao acaso. Até na ordem para impedir «paragens e ajuntamentos», havendo o necessário recurso a umas traulitadas para convencer os «recalcitrantes», e calabouço para «três desobedientes».

Quando «tudo parecia decorrer na devida ordem», estas prisões na Praça do Comércio, assegura o noticiário que seguimos par e passo, deram origem ao«pretexto» de diversos «grupos de indivíduos», em alta grita a «injuriaram e vaiaram a Polícia, tentando rodear um carro patrulha». Do pé para a mão,«os grupos de desordeiros engrossavam», enquanto «a força policial tentou afastar a multidão que então se formara num ápice». Toque-se a rebate!

Como «as pessoas ordeiras» entraram em horda de franca «desobediência» e até resistiam à intimação dos «potentes altifalantes portáteis» no sentido de se afastarem, foi usada a dialéctica da força bruta e espancamento para afastar a canalha e «fazer evacuar a praça». Assim, a autoridade, certamente pouco contrariada, e zás, «viu-se obrigada a carregar de bastão em riste, no meio de gritaria e insultos dos manifestantes, sucedendo-se as correrias», ofensa gravíssima.

A confusão e as cargas policiais alastraram às ruas Augusta, do Ouro, da Prata, dos Fanqueiros, da Madalena, ao Largo da Sé, ao Rossio e Restauradores, e os manifestantes recebiam tratamento diferenciado de «díscolos»«desordeiros»,«provocadores» e outros mimos na pena servil do redactor, e, claro, bordoada e remetidas dos cívicos, naquela missão patriótica de rachar cabeças à bastonada, mais um crivo de pontapés e coronhadas.

A polícia, coitada, botava-se de corrida e lá «teve de carregar novamente» sobre «os desordeiros, muito aumentados» no número, que«fugiam dum lado, para logo aparecerem e se reagruparem noutro», desalmados desconformes que não ficavam quietos a levar pancada de criar bicho como mandava a lei…

A coisa foi de tal monta, imaginem, «em dada altura a situação piorou por motivo de alguns amotinados começarem a apedrejar os agentes da autoridade», e assim, os «motins aumentaram» de intensidade. Para pôr fim a tal despautério, e mais a meia dúzia de pedradas, «agressão praticada pelos desordeiros», a polícia «viu-se na necessidade de empunhar armas de fogo para impor respeito e intimidar».

Aqui se prova que o povo português é dos mais altos do mundo – ou tinha a polícia pouca pontaria –, pois tão-somente atirou umas «descargas» de «armas automáticas», dando «alguns tiros para o ar», as balas a uivar, mesmo assim, cortavam a carne, num banho de sangue e rasto de vítimas.

Apesar do tiroteio à carga cerrada, «durante algum tempo», os elementos«provocadores não cessaram» a actividade, sendo necessário recorrer a frenéticas cargas de «um esquadrão de cavalaria da GNR». O jornal, narração feito para crédulos e tolos, realçava uns parágrafos à frente, que «a despeito de a Polícia haver feito as descargas para o ar, com a preocupação de não atirar para a multidão, alguns projécteis» atingiram «seis dos manifestantes». A ordem salazarista, assim pintada, parecia alma dócil e piedade cristã.

«Dos desordeiros atingidos, um deles teve morte imediata, pois um projéctil atravessou-lhe o crânio», relatava dando um ar cândido à tirânica morte de Estêvão José Dangue Giro, caiu cerce aos 25 anos, servente de tipografia, natural e residente em Alcochete. Os maltratados, afinal veio a constatar-se serem muitos mais, foram transportados para o banco de urgência do Hospital de S. José e o posto de socorros do Terreiro do Paço.

Entrementes, o teatro das operações mudava-se para o Rossio, onde a polícia utilizou «o chamado carro de água», e com «fortes jactos» de «água colorida de azul» lá «dispersou os desordeiros», tingindo também «paredes, portas e o pavimento». Dias de muita bicheza!

O resto, para não saturar a moleirinha, vai o relato do tamanho dum mantéu, foi respingo de violência, com a «força pública» a «agir com energia» na Praça da Figueira e no Martim Moniz. Mais cacetadas da polícia na Rua da Palma, uso de«bombas lacrimogéneas» por todo o lado, açoitando além, rompendo adiante, desde o Rossio ao Largo do Duque de Cadaval, intercalados por galopes de quadrúpedes da cavalaria e «tiros de advertência» para o ar.

E ainda outras «desordens» de «menor importância» nas zonas do Largo do Carmo, Chiado e Escola de Veiga Beirão, «facilmente dominadas pela GNR e pela Polícia». Os tumultos com os «grupos de desordeiros» reacenderam-se à noite «depois de terminarem os espectáculos», levando a lesta e desembaraçadas intervenções dos pelotões da PSP e GNR no Rossio, Largo de D. João da Câmara, Praça da Figueira, S. Domingos e ruas do Ouro e Augusta. Nova carga de disparos e rajadas de metralhadora sobre a multidão, a turbamulta em carne viva, os pimpões a calcar em pé de guerra.

Nessa ocasião a polícia mandou «encerrar os cafés e as casas de pasto» entre o Rossio e o Terreiro do Paço. A situação amainou lá para a 1h30, altura em que a «cidade voltou à normalidade», embora debaixo de «intenso patrulhamento» das forças policiais, dormitando com um olho, o trabuco aperrado para a fuzilaria, o bastão da vergalhada à mão de semear.

No decorrer dos «acontecimentos da tarde e da noite» foram detidos na esquadra vizinha ao Teatro Nacional cerca de 150 indivíduos, «entregues à PIDE» para «apurar as responsabilidades que lhes competem». Entre as detenções, a notícia faz relevo para duas senhoras por «injuriaram e ameaçaram a Polícia», um perigo público eminente, certamente.

Um dos trincafiados, lata suprema, fora detido pela lesa-nação de atirar «pedras a um esquadrão de cavalaria» que espezinhava os manifestantes, e ao mesmo tempo «foram-lhe apreendidos numerosos panfletos de propaganda subversiva».

Dos feridos, a rebolarem pelo chão, seis ficaram hospitalizados no Hospital de S. José, cinco dos quais «feridos a tiro»
[3]. Entre eles, um elemento da polícia[4]atingido por “fogo amigo” das próprias forças repressivas.

Na sua santa indignação de virgem melindrada o jornal destacava que, para além do cívico baleado, ficaram feridos mais um guarda da PSP
[5], um agente da PIDE[6], um guarda prisional[7] e um oficial do Exército[8]. Os restantes 28 indivíduos feridos receberam tratamento hospitalar e passaram de imediato para o calabouço do Governo Civil, detidos à ordem da PIDE, velhaca e traiçoeira.

No dia seguinte, a 2 de Maio de 1962, o ministro do Interior, o finório dr. Santos Júnior
[9], percorreu as ruas de Lisboa onde se deram os«lamentáveis acontecimentos da alteração da ordem pública», certamente com ar consternado, dada a dimensão dos estragos, mas soberbo da sua força.

Para outra oportunidade ficará o relato que o AVANTE! fez dos mesmos acontecimentos, assim como as demais manifestações que ocorreram no Porto, Setúbal, Alentejo e de novo em Lisboa. Aqui e agora, fica a exposição duma jornada antifascista que o regime salazarista, gente desvairada, tentou esmagar por entre clamores, tiros e bordoadas de partir tudo. Tudo, menos a vontade dum povo em grito de revolta a sair do peito.


[1] Do Forte de Peniche fugiram os seguintes elementos, numa das fugas mais espectaculares: Álvaro Barreirinhas CunhalJoaquim Gomes dos Santos, Jaimedos Santos SerraCarlos Campos Rodrigues da CostaFrancisco Miguel Duarte (“Chico Sapateiro”), José CarlosPedro dos Santos SoaresGuilherme da Costa CarvalhoRogério Rodrigues de Carvalho e Francisco Martins Rodrigues (“Chico Martins”). A comissão de fuga do interior era composta por Álvaro Cunhal, Jaime Serra e Joaquim Gomes, e do exterior organizaram a fuga Joaquim Pires Jorge, António Dias Lourenço, Octávio Pato e Rogério Paulo.
[2] Cf. DIÁRIO DE NOTÍCIAS, de 3 de Maio de 1962. Todas citações são tiradas deste periódico.
[3] Ficaram internados e detidos no Hospital de São José: Eugénio Baptista, 64 anos, carpinteiro; José Augusto Rosendo, 42 anos, marinheiro; António José Mendes de Andrade, 16 anos, empregado de livraria; Armando Correia de Carvalho, 30 anos, maleiro; António Bernardino Poças Lopes, 27 anos, torneiro mecânico.
[4] Manuel Antunes Jacinto, de 22 anos, guarda da PSP, no quartel da Parede.
[5] António Maia de Morais, 25 anos, agente da PSP do quartel da Parede.
[6] Luís Martins Ferreira, 46 anos, agente da PIDE, morador na Amadora.
[7] José da Costa Quebrada, 37 anos, guarda dos Serviços Prisionais do Reduto Sul de Caxias.
[8] Jorge Marques Ferreira, tenente do Exército, de 49 anos.
[9] Alfredo Rodrigues do Santos Júnior (1908+1990), formado em Medicina pela Universidade de Coimbra, foi presidente do Centro Académico de Democracia Cristã (1933-1934), médico do Hospital de Gouveia, director do posto médico da Caixa de Previdência dos Lanifícios de Gouveia, presidente da Câmara Municipal de Gouveia (1946-1959), subdelegado regional da Mocidade Portuguesa em Gouveia, presidente da Comissão Distrital da Guarda da União Nacional (1952), deputado da Nação pelo distrito da Guarda (1957-1960), governador civil do distrito da Guarda (1960-1961) e Ministro do Interior (1961-1968). Foi condecorado como oficial da Ordem de Cristo. A sua actuação no Ministério do Interior ficou marcada pelo notório reforço da acção repressiva do regime.

quinta-feira, dezembro 08, 2011

A Nebulosa da Corrupção em Portugal

Folhetim de Casos de Corrupção Em Portugal

www.scribd.com/doc/.../Folhetim-de-Casos-de-Corrupcao-Em-Portugal...
22 jan. 2010 –http://pt.scribd.com/doc/25600471/Folhetim-de-Casos-de-Corrupcao-Em-Portugal



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Correio da Manhã

Parlamento: Impasse na criminalização

Coligação dividida no enriquecimento ilícito

Os partidos que compõem a coligação de Governo, PSD e CDS, estão divididos sobre o alvo da legislação sobre a criminalização do enriquecimento ilícito e até a forma como se chega à prova do crime. O PSD pediu ontem mais tempo e foi adiada a reunião do grupo de trabalho. O objectivo será alargar a todos os cidadãos a criminalização.
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Por:Cristina Rita
Inicialmente, o projecto da coligação só se destinava a titulares de cargos públicos e políticos. Porém, há cerca de três semanas que a coligação troca papéis e esboços de um texto-base para garantir um diploma de consenso na especialidade. Sem êxito.
Os dois líderes parlamentares, do PSD e do CDS-PP, têm tentado o consenso. Do lado social-democrata, o líder da bancada, Luís Montenegro, procurou nas últimas horas garantir novo entendimento, mas no CDS há muitas dúvidas. Ao que apurou o CM, as divisões serão jurídicas.
Dos dois lados, garante-se ao CM que haverá entendimento e que é possível fechar este dossiê até ao fim do ano. No limite, o PSD pode optar por chegar a acordo com o PCP. Amanhã, o PS apresenta um pacote sobre corrupção e quer uma maior agilização da identificação de contas bancárias de suspeitos junto do Banco de Portugal.

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Correio da Manhã
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Crise

Asfixia financeira trava investigação

Judiciária cobra ao Ministério Público todos os exames e perícias. CM revela tabela de preços. Exemplo: descrição e caracterização de arma branca custa 153 euros.
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Por:Henrique Machado
Todos os exames e perícias da Polícia Judiciária passaram agora a ser cobrados ao Ministério Público (MP), por decisão ainda do anterior Governo. E alguns serviços da PJ são pagos à hora - o DIAP de Lisboa, por exemplo, tem contas de 1600 euros a pagar pela extracção de oito fotogramas numa videovigilância ou pela análise de seis telemóveis.
Uma nova realidade que "asfixia o MP e mata a investigação criminal", diz Maria José Morgado, confrontada pelo CM. A directora do DIAP reconhece que o seu departamento "está neste momento a pedir menos perícias, limitando o que é investigado nos processos. O DIAP não tem orçamento para suportar este nível de despesas", lamenta a procuradora-geral adjunta.
A medida foi tomada por Alberto Martins, ex-ministro da Justiça, e passou agora a ter aplicação prática. Titular da acção penal, o MP tem de pagar os serviços da PJ pela tabela de preços que o Governo fez publicar em Diário da República.
"Em meu entender, os DIAP não têm cabimento orçamental para fazer face a esta apresentação de honorários da PJ por hora de trabalho. E com isto coloca--se ainda mais em crise os meios do MP para executar a investigação criminal. Pese embora a necessidade de financiamento da PJ, não é este o caminho. São soluções que comprometem os resultados no combate ao crime", segundo Maria José Morgado.
Em causa, os preços praticados pela PJ, por exemplo na análise de balística e por perícias a computadores e telemóveis. O DIAP de Lisboa, que só numa secção tem 3000 processos por ano em que o recurso a imagens de videovigilância é essencial para identificar e apanhar assaltantes, por exemplo, vê-se encurralado: não pode recorrer à PSP, sem meios técnicos para visionamento de imagens, nem tem recursos próprios.
TABELA DE PREÇOS
Análise de balística e marcas
Descrição, teste e introdução na base de dados de arma de fogo 306 € - Testes de dispersão para estimativa de distância de disparos de projécteis múltiplos 357 € - Descrição e teste da munição (por unidade) 10,2 € - Descrição e teste de cartucho (por unidade) 20,4 € - Descrição, comparação microscópica e introdução na base de dados de cápsula/cartucho deflagrados 204 € - Descrição, comparação microscópica e introdução na base de dados de projéctil 306 € ~Descrição e teste de arma eléctrica, aparelho de electrochoques 153 € - Descrição e caracterização de arma branca 153 € - Descrição e teste de outras armas 306 € - Perícia a peças de armas 153 € - Descrição e/ou comparação de rasto de calçado 306 € - Descrição e/ou comparação de rasto de um rodado de pneu 306 € - Descrição e/ou comparação de marcas de ferramenta 306 € - Reavivamento de números de série em arma/veículo, por hora ou fracção de tempo superior a 30 minutos 40,8 € - Aditamento ao relatório, prestação de esclarecimentos/resposta a quesitos 102 € - Perícias informáticas e a aparelhos de telecomunicações - Perícias e exames a equipamentos de telecomunicações 72,42 €/hora - Perícias e exames a equipamentos informáticos 72,42 €/hora - Extracção de fotogramas com CD ou DVD incluídos 72,42 €/hora - Despistagem de escutas telefónicas ilegais 306 €/hora
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Economia

Quem são os corruptos em Portugal?

Estudo traça perfil do corrupto típico e identifica as áreas onde a corrupção é maior
  • PorRedacção  com Claudia Rosenbusch
  • 2010-04-08 13:13
O corrupto típico é homem, casado, tem entre 36 e 55 anos, exerce uma profissão a tempo inteiro e não tem antecedentes criminais.


Profissionais dos serviços e vendedores são os que mais oferecem subornos, enquanto os quadros intermédios e superiores da administração pública são os que mais se deixam «comprar». 




Segundo o relatório da Procuradoria-geral da República e do ISCTE, que analisou a corrupção participada em Portugal entre 2004 e 2008, e a que a TVI teve acesso, a classe política é visada em 10% dos casos de corrupção passiva, mas também surge como suspeita de oferecer subornos em quatro por cento dos processos analisados.



As empresas do sector privado são líderes absolutas na oferta de subornos, com destaque para a área da construção civil, seguida do desporto, ensino automóvel, hotelaria/ restauração e imobiliária.



A situação inverte-se quando está em causa o perfil de quem aceita «vender-se». Aqui o sector público domina, com os órgãos do poder local a levarem a dianteira, visados em quase 60% dos 463 processos abertos.



Entre 2004 e 2008 registaram-se 155 participações contra câmaras municipais, 40 participações contra juntas de freguesia e 68 contra serviços municipalizados de água e saneamento.



O ministério da administração interna ocupa o segundo lugar na lista dos mais permeáveis à corrupção, com 47 participações, a maioria visando a GNR e a PSP.



O terceiro lugar pertence ao Ministério da Justiça. Os 32 casos participados dizem respeito sobretudo a tribunais, conservatórias e registos civis, mas também atingem estabelecimentos prisionais e num caso, até, a própria Procuradoria-geral da República.



O distrito judicial do Porto bate recordes no caso da corrupção, com perto de 40% da criminalidade participada, contra os quase 30% de Lisboa.



O estudo analisou 838 processos, cerca de 90% de toda a corrupção participada em Portugal entre 2004 e 2008.

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ESTUDO

500 euros valor médio da corrupção em Portugal

por CARLOS RODRIGUES LIMA09 Abril 2010
500 euros valor médio da corrupção em Portugal

Câmaras municipais continuam a liderar lista das entidades com mais processos relativos a crimes de corrupção. E na administração central são as forças de segurança

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Das duas uma: ou a percepção social da corrupção em nada tem a ver com os processos que, de facto, existe nos tribunais, ou estes apenas conseguem investigar e punir a pequena corrupção. Dados de um estudo - que incidiu sobre uma amostra de 838 processos entre 2004 e 2008- revelam que, na maioria dos casos, o suborno em causa fica-se por valores baixos que oscilam entre os 100 e os 500 euros (ver infografia).
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Os números constam do estudo realizado pelo Centro de Investigação e Estudos Sociológicos (CIES) do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) e pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP). A análise incidiu apenas sobre os processos em curso nos tribunais. Por isso, durante a sessão de apresentação das conclusões que decorreu ontem, houve alguma discussão à volta das chamadas "cifras negras", isto é, dos casos que não chegam ao conhecimento dos tribunais.
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Numa análise global ao estudo, o seu coordenador, Luís de Sousa, declarou que o sistema judicial "consegue detectar a corrupção de pequeno porte".
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Uma das novidades que a análise dos investigadores trouxe é que, nos actos de corrupção, a iniciativa da abordagem é feita, maioritariamente (52,5%), por quem pretende corromper (o agente activo), e só em 10% dos processos estudados é que o primeiro passo partiu do funcionário público. "Os dados confirmam a percepção generalizada de que o problema da corrupção em Portugal não resulta de uma cultura predadora por parte dos funcionários públicos", concluíram os investigadores. A estes dados acresce o facto de o local da abordagem não ser - como, em tese, faria sentido - o local de trabalho do alvo da corrupção (funcionário), mas sim o do corruptor activo (35,1%).
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No período estudado, as autarquias locais surgem a liderar a lista dos organismos públicos onde se verifica mais corrupção, com 68,9% dos processos registados. Seguem-se as empresas municipais e as freguesias. "O poder local é o principal foco de corrupção participada", diz o estudo. Os investigadores adiantam alguns factores: o aumento de volume de negócios e a diversificação de intervenção das câmaras, a desordem e complexidade normativa em vários domínios, como o urbanismo ou o licenciamento comercial, que geram "negociação" interpretativa da lei e da disciplina a aplicar, entre outros.
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Para prevenir a continuidade de tais fenómenos, Guilherme d'Oliveira Martins, presidente do Tribunal de Contas, deixou a receita: "É indispensável combater a burocracia e evitar que haja legislação muito complexa. A lei tem de ser clara e, sobretudo, a prova tem de ser fácil."
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Na administração central do Estado, a lista é encabeçada por organismos ligados ao Ministério da Administração Interna, sobretudo relacionados com casos de corrupção nas forças de segurança, PSP e GNR.
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Em termos de distribuição geográfica, os distritos do Porto (38,5%) e de Lisboa (29,7%) apresentam dois terços dos processo instaurados. O estudo conclui, também, que mais de metade dos casos terminam em arquivamento. E todos com os mesmos motivos: falta de provas.
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Avante!  
N.º 1964 
21.Julho.2011

PCP foi pioneiro nas medidas de combate à corrupção





PCP volta a propor criação do crime de enriquecimento ilícito
Prevenir e punir a corrupção
Criminalizar o enriquecimento ilícito continua a ser um objectivo prioritário para o PCP. Pela quarta vez, depois de ter avançado em 2007 com uma iniciativa pioneira na matéria, a bancada comunista volta à carga com um novo projecto de lei.

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Várias coisas mudaram entretanto nestes quatros anos que levam o PCP a admitir que há condições favoráveis para aprovar finalmente legislação que crie o tipo de crime de enriquecimento ilícito.
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«Desde que os partidos mantenham a posição que assumiram na legislatura anterior, desta vez podemos, de facto, criminalizar o enriquecimento ilícito», sublinhou o deputado comunista António Filipe em recente conferência de imprensa destinada a apresentar o conteúdo do texto legislativo da sua bancada.
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É que os partidos que rejeitaram a criminalização do enriquecimento ilícito (PS e CDS-PP) estão em minoria, pelo que estão agora reunidas condições, observou, «bastando para isso apenas que o PSD mantenha a posição que assumiu na legislatura anterior».
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Segundo o vice-presidente da bancada comunista o Governo terá ainda dado sinais de «anuência» para a criminalização do enriquecimento ilícito e, posteriormente, houve mesmo «declarações da ministra da Justiça em que afirmou a intenção do Governo de avançar nesse sentido».
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Por isso, sustentou, há nesta legislatura «condições para discutir esta matéria na Assembleia da República e proceder à sua aprovação».

Recomendação da ONU

A ideia de que a criação deste tipo de crime contemple uma «inversão do ónus da prova que possa inconstitucionalizar a iniciativa» foi igualmente rejeitada pelo parlamentar do PCP.
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«Os rendimentos licitamente obtidos por titulares de cargos públicos são perfeitamente verificáveis. A verificar-se a existência de património e rendimentos anormalmente superiores aos que são licitamente obtidos tendo em conta os cargos exercidos e as remunerações recebidas, ficará preenchido o tipo de crime se tal desproporção for provada», refere a nota preambular do diploma do PCP, acrescentando: «A demonstração de que o património e os rendimentos anormalmente superiores aos que seriam esperáveis foram obtidos por meios lícitos excluirá obviamente a ilicitude».
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Ainda a este propósito foi lembrado pelo parlamentar comunista o facto de Portugal ter ratificado em 2007 a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, na qual é feita a recomendação aos Estados para que adoptem as medidas legislativas que se revelem necessárias para «classificar como infracção penal, quando praticado intencionalmente, o enriquecimento ilícito, ou seja, o aumento de património de um agente público sem justificação razoável face ao seu rendimento».
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De acordo com o projecto comunista, os titulares de cargos públicos e políticos que incorram no crime de enriquecimento ilícito são punidos com pena de prisão até três anos e multa até 360 dias.
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Lusa/SOL  

30 de Novembro, 2011

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A magistrada Maria José Morgado considerou hoje «ridiculamente escassos» os recursos periciais colocados ao dispor do Ministério Público (MP) e das polícias para investigar os ataques dos piratas informáticos, uma ameaça «não só portuguesa, mas globalizada».
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Numa altura em que o MP está a investigar os ataques alegadamente perpetrados por hackers contra o sistema informático do MAI e de órgãos policiais e de segurança, a directora do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa assegurou que o MP e a Polícia Judiciária «estão a tomar todas as medidas adequadas ao caso».
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«Em tese geral, o cibercrime é dos maiores desafios às polícias, ao MP e aos tribunais», disse Maria José Morgado, enfatizando que isso significa que «os Governos têm que repensar a afectação de recursos periciais ao MP e às polícias», seguindo o exemplo dos Estados Unidos em que o combate ao cibercrime é a segunda prioridade da investigação criminal, logo depois do terrorismo.
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A directora do DIAP de Lisboa falava aos jornalistas durante a 9/a edição da Job Shop, organizado pela Universidade Católica Portuguesa com vista a criar uma interacção entre os estudantes de Direito e representantes das diversas áreas jurídicas, numa perspectiva de emprego e mercado de trabalho.
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Questionada sobre as razões que levaram o MP a não abrir um inquérito para averiguar a alegada carga policial desproporcionada da PSP sobre um jovem alemão, no âmbito dos incidentes nas escadarias de S. Bento, Maria José Morgado argumentou que a «PSP tem a Inspecção Geral da Administração Interna (IGAI) que fiscaliza a actuação» policial.
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Reconheceu que o MP também fiscaliza a actuação das polícias, mas que a PSP tem a responsabilidade na ordem pública na rua e que as «assumiu», pelo que, neste momento, a sua posição como directora do DIAP de Lisboa é «aguardar pelos resultados» do inquérito interno que a PSP vai realizar.
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«Penso que não há aqui nenhuma omissão da parte do MP», considerou.
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Na sua intervenção diante dos alunos e professores de Direito, Maria José Morgado criticou a «desinformatização» da justiça, designadamente o facto de o MP não dispor de um sistema informático na fase da investigação criminal.
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«A complicação é tão grande que até tinha um funcionário que cada vez que vinham informações sobre a informatização ele dizia:Ah pomos na pasta da desinformatização, não é?».
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A magistrada lembrou ainda que a crise da Justiça é, sobretudo, a «crise da eficácia e da falta de prestação de contas», bem como de um «défice de justiça material penal, principalmente nos crimes mais graves».
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«É também a falta de capacidade de resposta», adiantou, apontando ainda o corporativismo, a falta de planeamento, a falta de avaliação e a falta de realismo legislativo do poder político como factores de estrangulamento da acção judiciária.
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Quanto ao mapa judiciário, considerou que se tratou de «uma reforma megalómana», copiada de outros sistemas e desadequada da realidade portuguesa, assinalando que como o projecto ficou a «meio» daí resultam «graves prejuízos» na articulação e funcionamento do sistema de justiça.

http://sol.sapo.pt/inicio/Sociedade/Interior.aspx?content_id=35174

“Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo, dizendo ter formação, que nunca adquiriram, (Olá! camaradas Sócrates…Olá! Armando Vara…), que usem dinheiros públicos (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público acrítico, burro e embrutecido. Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, em governação socialista, distribui casas de RENDA ECONÓMICA – mas não de construção económica – aos seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de gratidão, passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a “prostituir-se” na sua dignidade profissional, a troco de participar nos roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada, mas mais honesta que estes bandalhos. Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como O VERDADEIRO PODER.
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Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos políticos e pelo poder judicial. Agora continua a ser o VERDADEIRO PODER mas senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido. Para garantir que vai continuar burro o grande “cavallia” (que em português significa cavalgadura) desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação das Novas Oportunidades. Gente assim mal formada vai aceitar tudo, e o país será o pátio de recreio dos mafiosos. A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca. Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo “normal” e encolhem os ombros. Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada. Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que, nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.
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Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou, nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve. Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas, pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituamo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal, e que este é um país onde as coisas importantes são “abafadas”, como se vivêssemos ainda em ditadura. E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.
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Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém que acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos? Vale e Azevedo pagou por todos? Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência do Ministério da Saúde Leonor Beleza com o vírus da sida? Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático? Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico? Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana? Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.
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No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar alguém? As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia espalha rumores e indícios que não têm substância. E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecida antes delas, quem as procurou? E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos, alguns menores, onde tanta gente “importante” estava envolvida, o que aconteceu? Alguns até arranjaram cargos em organismos da UE. Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu. E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente “importante”, jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê? E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára? O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina? E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca. Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento. Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade. Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os “senhores importantes” que abusaram, abusam e abusarão de crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra. Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade.
Este é o maior fracasso da democracia portuguesa.”
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Clara Ferreira Alves ín “Jornal Expresso”.
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