A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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domingo, dezembro 30, 2007

Conde vira rei dos livros


Mercado: Dom Quixote e Nova Gaia
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Fátima Vilas Boas
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O empresário Miguel Pais do Amaral fortaleceu ontem a sua posição no mercado livreiro nacional ao juntar as editoras Dom Quixote e Nova Gaia à Texto Editores, Caminho, Asa e Gailivro que já possuía.
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Ao CM, António Baptista Lopes, presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, assinalou que “não se pode falar em monopólio” pois o ex-homem forte da TVI ficará com uma quota de “mercado de 15 a 20 por cento” num volume de negócios anual que se situa “entre os 500 e os 600 milhões de euros”.

Com alguns dos maiores nomes da literatura lusófona sob a alçada – casos de José Saramago, António Lobo Antunes, Mia Couto, Alice Vieira, Manuel Alegre, Agustina Bessa-Luís ou Pepetela – o empresário “finaliza o primeiro ciclo de aquisições com vista à criação de um grupo editorial líder de mercado em Portugal e nos países de língua oficial portuguesa”, conforme explica o próprio em comunicado.

Na mesma nota, Pais do Amaral adianta que se seguirá “uma fase de reorganização interna e de crescimento orgânico que, a médio prazo, permitirá criar um grupo suficientemente forte para iniciar um segundo ciclo de aquisições fora de Portugal, nomeadamente no mercado brasileiro”.

Por outro lado, a Nova Gaia permitirá ao grupo reclamar uma posição de vice-liderança no segmento das edições escolares “com uma quota de mercado próxima dos 30 por cento”.

Conhecida como a casa dos autores portugueses, a Dom Quixote era detida a cem por cento pelo grupo espanhol Planeta, que em comunicado destacou a importância da editora passar a integrar “um projecto líder e com a dimensão e ambição de crescimento oferecida pelo grupo presidido por Pais do Amaral atingindo novas quotas de mercado”.

PERFIL

Miguel Maria de Sá Pais do Amaral, conde de Anadia, nasceu em Lisboa há 52 anos. É casado e tem dois filhos. Licenciado em Engenharia Mecânica, presidiu ao grupo Media Capital (que controlava a TVI).
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in Correio da Manhã 2007.12.29

sábado, julho 07, 2007


Ler : A. M. Galopim de Carvalho
O amigo dos dinossauros
* Dina Gusmão
Os problemas do Ambiente sempre se confrontaram com os da Economia”, diz.
Galopim de Carvalho, geólogo de formação e guardião dos dinossauros por devoção, tem entre mãos um livro de memórias e um dicionário de Geologia que ainda vai na letra ‘C’ e que já lhe leva quatro meses... “Não sei se tenho vida para isto”, desabafa, a pretexto do novo livro: ‘Como Bola Colorida’, da Editora Âncora.
Na origem desta obra está a chamada de atenção urgente para a Terra e os seus recursos. E, quando comparado ao ambientalista Al Gore, responde que a diferença está na candidatura à presidência dos Estado Unidos: “Eu nunca seria candidato!”, brinca. “À dimensão de cada um, dizemos os dois o mesmo: Temos de viver em harmonia com a Natureza! A obra de Al Gore, a sua inesgotável energia, é algo por que a nossa geração vai ter de lhe agradecer... Só interesses economicistas podem acusar o seu discurso de alarmista, mas os problemas do Ambiente sempre se confrontaram com os da Economia”, denuncia.
Por tudo isto, um livro fácil de ler e de reter. Vantagens de um cientista que é também ficcionista desde que, em 1992, se estreou com ‘O Cheiro da Madeira’: o primeiro de quatro.
Inspirado pela simplicidade de Zélia Gattai, arriscou o romance, sempre tangente à biografia. Como aquele em que conta como ‘ganhou’ uma surdez progressiva.“Essa história está no meu terceiro romance (‘Os Homens Não Tapam as Orelhas’), onde conto como durante o serviço militar, sendo artilheiro, quando fazíamos fogo de artilharia, era o que nos diziam... Deu no que deu”, recorda.
Começa a escrever à hora a que o filho mais novo se deita (06:00), mas não é nos livros que tem o seu maior projecto. “Uma batalha sem tréguas e foi por ela que me tornei, como diz, o guardião dos ‘dinos’. Acontece que, há 15 anos, a construção da CREL ameaçava destruir a jazida de Carenque: um trilho de 140 metros de um dinossauro que andou por aqui há 90 e tal milhões de anos. Para salvar a jazida desenvolvi uma campanha de mediatização que me associa até hoje aos dinossauros. E pouco sabia sobre eles. Ganhámos essa batalha porque os túneis foram feitos e as pegadas salvas, mas falta conservá-las... Depois de dez milhões de euros já gastos, por mais 15 milhões não se conclui o projecto? É falta de perspectiva de investimento!”, acusa.
Em 2003, deixou a direcção do Museu de História Natural, ao qual se mantém ligado como colaborador. Neste contexto, organiza uma exposição, a estrear em Setembro no Museu da Pedra, em Cantanhede. Sobre dinossauros, claro!
PESSOAL - QUALIDADE E DEFEITO
Desafiado a revelar a sua maior qualidade e o seu maior defeito, o professor dá resposta única: “A teimosia porque é tudo uma questão de perspectiva."
RITUAL OU SUPERSTIÇÃO
“Sou alegremente liberto de problemas de natureza mística”, diz sobre a ausência de superstições. Rituais tem um: “Brincar com as pedras pretas e brancas dos passeios.”
PERÍODO HISTÓRICO
“O actual, por tudo o que tem sido a evolução da ciência e da tecnologia desde que tenho consciência... É tudo tão fascinante, tão exuberante”, elege.
FILOSOFIA DE VIDA
“A bonomia que é a característica que mais vezes me apontam e aquela em que melhor me reconheço. E recomendo!”, diz.
in Correio da Manhã 2007.07.06
Foto - Marta Victorino
Sobre o Museu da Lourinhã visitar: http://www.museulourinha.org/
Sobre o Museu de História Natural ver: http://www.mnhn.ul.pt/geologia/plumas.htm
Sobre a Pedra Furada, em Setúbal:

sexta-feira, julho 06, 2007


«Clara Zetkin e a luta das mulheres»
Lançado livro das Edições Avante!
A obra insere-se nas comemorações dos 150 anos de Clara Zetkin


As Edições Avante! e a Organização das Mulheres Comunistas editaram o livro «Clara Zetkin e a luta das mulheres – uma atitude inconformada, um percurso coerente».
O lançamento é no próximo dia 17, em Lisboa, e contará com a presença de Jerónimo de Sousa. A edição da obra insere-se nas comemorações dos 150 anos do nascimento de Clara Zetkin e tem o apoio da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres. A revolucionária alemã nasceu em 5 de Julho de 1857.
A obra conta com uma selecção de textos de Clara Zetkin sobre a luta das mulheres. «Trabalho feminino e organizações sindicais», «Só em aliança com as mulheres proletárias o socialismo vencerá», «O que as mulheres devem a Karl Marx» ou o «Relatório sobre a luta pelo direito de voto das mulheres» são alguns dos textos publicados.
Noutra parte do livro, publicam-se dois artigos de Clara Ketkin editados na imprensa comunista da época: «Viva a Terceira Internacional», publicado no Bandeira Vermelha no 1.º de Maio de 1921, e «O comunismo na teoria e na prática», editado em O Comunista de 15 de Julho de 1923.
Noutra secção do livro, autores lêem Clara Ketkin à luz da actualidade. Fátima Messias assina «Um olhar sobre uma vivência (ainda) em desigualdade», Odete Santos realça «Clara Zetkin, uma mulher para o século XXI», Domingos Abrantes destaca «Clara Zetkin e a luta emancipadora das mulheres» e Aurélio Santos escreve sobre «A situação das mulheres e a mudança de mentalidades».
No prefácio, da autoria da Comissão junto do Comité Central do PCP para a luta e movimento das mulheres, destaca-se que a «proposta de Clara Zetkin de criação, em 1910, de um Dia Internacional da Mulher, não foi um acto isolado, antes consubstanciou uma preocupação constante na sua acção política em dinamizar as bases organizativas da luta das trabalhadoras, numa época em que, nos países industrializados, especialmente na Alemanha, nos Estados Unidos e em Inglaterra, as mulheres entravam em grande número no trabalho assalariado e emergiam como parte activa nas lutas do movimento operário».
Porém, a acção política da revolucionária alemã «foi bem mais vasta e rica em defesa dos direitos das mulheres e pela sua emancipação social do que a sua associação ao Dia Internacional da Mulher», realça-se na obra. Clara Zetkin foi também uma prestigiada e influente dirigente do movimento comunista alemão e internacional.
in Avante 2007.07.05

sábado, maio 26, 2007



Africanos e índios na América Latina do período colonial
(do livro “Race and ethnicity in Latin America”, P. Wade)


Estou lendo “Race and ethnicity in Latin America” do Peter Wade. Cheguei no livro do Wade, vinda do livro do Hermano Vianna sobre o samba. Vianna se aprofunda na análise da obra de Gilberto Freyre para explicar como o assunto “raça” era abordado por intelectuais da época. A partir daí, Vianna tenta explicar como foi que o samba passou de algo que era visto com desdém – como coisa de negros – para um símbolo de identidade nacional. Esse é o ponto central do livro. Volto ao livro dele no futuro.

Mas de volta ao Wade...

A fim de tentar entender melhor um pouco as discussões sobre raça no Brasil, sem necessariamente usar Gilberto Freyre, recorri ao livro do Wade.

O que eu mais gosto nesse livro do Wade é o apanhado histórico que ele faz: ele discute extensivamente o modo como se definiam, discutiam e concebiam ambos os termos “raça” e “etnia” em vários países da América Latina em diferentes momentos históricos.

O que segue é um apanhado das idéias que ele levanta nos capítulos 1 e 2, principalmente na parte que trata de como africanos e índios eram vistos na América Latina do período colonial.

• As diferenças e similaridades entre a América Latina e os Estados Unidos em termos de identidades raciais e racismo não podem ser entendidas sem que se entenda o que estes termos (raça e etnia) significam. [Ele fala isso após gastar 20 páginas definindo detalhadamente estes termos.]

• É comum dizer-se que os EU são o lar do “verdadeiro” racismo, um racismo profundo baseado em genética, enquanto que a América Latina é caracterizada por um racismo mais superficial, de aparência ou fenótipo. Wade argumenta que tal oposição é equivocada (p. 24).

• O estudo de negros e índios na América Latina tem sido, de certa forma, dividido em (1) estudos sobre a escravatura ou assuntos relacionados à escravatura e relações entre raças e (2) estudos dos índios. Wade analisa o porquê de tal divisão e argumenta que isto ainda informa muito da pesquisa e das políticas do século XX. Esta divisão, segundo ele, apenas esconde contrastes e semelhanças entre negros e índios na América Latina. Índios e africanos tiveram papéis diferentes no processo de colonização, tanto social quanto conceptualmente. Índios deviam ser, oficialmente, protegidos e explorados. Africanos eram escravos e, embora tivessem direitos garantidos pela legislação, esta era inconsistente e variava grandemente; a principal preocupação era com controle, não proteção (p.27).

• Não foi possível manter três categorias distintas como talvez quisessem os colonizadores: espanhóis, índios e africanos: respectivamente dominadores, pagantes de impostos e escravos. As autoridades falavam da “república de españoles” e da “república de índios”, esta última baseada na comunidade indígena, criada e regulada pela legislação. Mas tal ideal foi sabotado pela possibilidade da criação de uma classe de negros livres (slave manumission) e da existência dos “criollos”. Acima de tudo o ideal de separação foi minado pela “mestizaje” (p.28).

• “Índio” era uma categoria administrativa específica – uma categoria fiscal, já que o típico índio morava numa comunidade indígena e pagava imposto. Isso não era tão evidente no Brasil, onde a população indígena sedentária que podia ser explorada não era tão expressiva.

• Mas todo esse cenário não se aplicava aos negros. O status de escravo, é claro, era claramente definido e o escravo era uma categoria central no censo.

• Este sistema de estratificação socio-racial é frequentemente denominado “sociedad de castas”. Não é um termo usado para o Brasil, já que a situação lá era um pouco mais fluida, embora fosse similar. Neste sistema, brancos ocupavam o topo, índios e negros estavam embaixo e as posições intermediárias eram definidas por critérios de status, dentre os quais cor e descendência eram muito importantes, mas não definitivos. A ocupação do indivíduo podia, na verdade, influenciar na classificação, assim como a posição do cônjuge.

• Índios tinham uma posição relativamente institucionalizada, enquanto que negros não tinham: alguns estavam na categoria de escravos, outros naquela vaga categoria intermediária de castas, pardos, ou libres. Também tem-se a impressão de que os índios eram vistos como sendo superiores aos negros (havia restrições a casamentos com negros, mas permitia-se aos brancos casarem-se com índios).

• Índios e negros tinham diferentes relações com a estrutura burocrática oficial. Mas como a relação entre lei e ordem social é difícil de ser estabelecida, não se pode argumentar que tal diferença traduziu-se diretamente em percepções diferenciadas de negros e índios; índios eram frequentemente tratados de forma miserável.

Fonte:   http://eamusica.blogspot.com/2007/01/africanos-e-ndios-na-amrica-latina-do.html


segunda-feira, maio 14, 2007


Mulheres políticas, lutadoras antifascistas

Uma leitura de Mulheres em Tempos Sombrios. Oposição Feminina ao Estado Novo, por Vanda Gorjão.

* ISABEL ALMEIDA SANTOS

Professora e mestranda no Mestrado em Estudos sobre as
Mulheres da Universidade Aberta.

Quando se fala de resistência à ditadura do Estado Novo a todos ocorrem expressões como clandestinidade, exílio, prisioneiros políticos, mas poucas vezes tais palavras se associam a sujeitos femininos. A obra de Vanda Gorjão, Mulheres em Tempos Sombrios. Oposição Feminina ao Estado Novo (1), dá-nos a conhecer mulheres que se destacaram pela sua acção política durante os anos da ditadura. Quem foram e como viveram essa situação? Que papel desempenharam?

Vanda Gorjão responde a estas questões baseando-se nos percursos (pessoais e políticos) de lutadoras como Alda Nogueira, Cesina Bermudes, Irene Cortesão, Isaura Silva Borges Coelho, Maria Barroso, Maria Elvira Cortesão, Maria Eugénia Varela Gomes, Maria Fernanda Silva, Maria Isabel Aboim Inglês, Maria Lamas, Stella Piteira Santos e Virgínia Moura, entre outras. Entre 1945 e 1960, criaram movimentos ou pertenceram-lhes, foram perseguidas pelo regime de Salazar e estiveram, na sua maioria, nas prisões da PIDE.

A oposição feminina desenvolveu três tipos de luta: a das camponesas e operárias - responsáveis por protestos, greves, marchas; a das "companheiras" - que trabalhavam nos bastidores da clandestinidade comunista, mantendo, em "casas" do partido, como forma de apoio ao trabalho clandestino, a fachada de uma vida familiar normal; e a das intelectuais - responsáveis por uma oposição ideológica de elite.

Quanto às últimas, objecto do estudo de Vanda Gorjão, pertenciam a meios privilegiados da aristocracia, burguesia ou classe média urbana, e a círculos sociais e culturais de acesso restrito: nomeadamente, famílias liberais, republicanas, socialistas, comunistas ou anarco-sindicalistas. Isso garantir-lhes-ia visibilidade social e certa protecção em momentos problemáticos de perseguição e encarceramento. O que não diminui o valor da coragem física e psicológica revelada.

Primeiros confrontos

Algumas primeiras rebeldias, logo no liceu, apontam já para uma aguçada reflexividade e consciência de (in)justiça.

Irene Cortesão escreveu uma carta à reitora, em nome da mãe e com o desconhecimento desta, afirmando não concordar que a filha (na realidade, a irmã, Elvira Cortesão) frequentasse a Mocidade Portuguesa Feminina (MPF). Isaura Borges Coelho, a meio de uma cerimónia religiosa importante, entrega o emblema da Juventude Operária Católica ao bispo, afirmando que tinha deixado de acreditar em Deus. Maria Fernanda Silva chegou a ser chefe de quina da MPF, mas foi expulsa no 4º ano por se recusar ir a uma procissão.

A partir da década de 40 e, sobretudo, a partir da de 60, as raparigas começaram a aceder à universidade em grande número, mas as suas expectativas escolares e profissionais dependiam de um cenário de domesticidade: casa, marido, filhos. A maior parte das mulheres que estudavam, sobretudo as de Letras, desapareciam no 2º ano do curso, porque casavam. As estudantes oposicionistas, na sua maioria, seguiram percursos científicos, embora as saídas profissionais acabassem por direccioná-las no sentido da feminização, ao enveredarem pelo ensino. De igual forma, não escaparam ao cenário de domesticidade.

Os anos da universidade revelavam-se "preponderantes no sentido de impulsionar e ampliar, na prática, manifestações, actividades e tarefas de carácter oposicionista, mesmo para aquelas que tinham iniciado o envolvimento político no liceu, como Alda Nogueira e Virgínia Moura" (2). Maria Barroso convive, na faculdade, com um grupo fortemente politizado, onde conheceu Mário Soares; Maria Fernanda Silva foi convidada por um colega para integrar o Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF) e participar em reuniões em casa do professor Bento de Jesus Caraça - pouco depois aderia ao PCP.

Perseguição profissional e política

A profissão colocou-as em contacto com a ideologia político-social do salazarismo, a qual repudiaram, o que acabou por fortalecer as tendências oposicionistas.

Maria Eugénia Varela Gomes, assistente social, apercebeu-se da "instrumentalização do Estado Novo sobre as assistentes sociais como apaziguadoras de descontentamentos, simulando resolver problemas, mas tomando como natural a hierarquia entre grupos sociais e a divisão entre ricos e pobres" (3). Abandonou o serviço social por recusar pactuar com o regime. Isaura Borges Coelho liderou a luta das enfermeiras no sentido de contrariar a lei que as impedia de casar. Esteve presa. Foi-lhe apreendido o diploma. Não conseguiu colocação e esteve quatro anos sem exercer enfermagem. Maria Lamas, redactora da revista Moda e Bordados desde 1929, e sua directora desde 1938, foi afastada do lugar na sequência da Exposição de Livros Escritos por Mulheres, organizada em 1947 pelo Conselho Nacional de Mulheres Portuguesas, ao qual presidia. A Cesina Bermudes foi recusada, por motivos igualmente políticos, a sua entrada como professora efectiva na faculdade de Medicina, embora se tivesse doutorado com 19 valores. Maria Barroso foi demitida do Teatro Nacional, em 1948, como sanção política.

Muitas destas mulheres passaram pelos calabouços da PIDE, uma ou mais vezes. Veja-se o quando e o porquê de alguns casos: Maria Isabel Aboim Inglês, em 1946, por distribuir exemplares de um documento do Movimento de Unidade Democrática (MUD); de novo em 1958, por desrespeitar o tribunal ao afirmar que "quem não presta declarações na polícia é digno de admiração por ser amante da liberdade" e, também, por louvar o PCP ao proceder dessa forma (4). Maria Lamas, pela primeira vez, em 1949, por ter assinado um documento de protesto contra a prisão de José Morgado e diversas vezes, após essa data, por participar em congressos internacionais pela paz e pelos direitos das mulheres. Virgínia Moura, em 1949 - a PIDE ia à sua procura sempre que se aproximava uma data comemorada pelos antifascistas ou sempre que havia agitação política. Isaura Borges Silva Coelho, no seu julgamento, em 1953, denunciou as duras condições em que as enfermeiras trabalhavam nos hospitais, acusou a polícia de infligir torturas morais e físicas aos presos, deu relevo ao MUD Juvenil e protestou contra o facto de as enfermeiras não poderem casar. Stella Piteira Santos, em 1962, sob a acusação de estar envolvida em actividades que visavam a alteração da constituição por meio da rebelião armada - quando do fracassado golpe de Beja, ela é que conduziu Humberto Delgado de Lisboa até ao Porto Alto, onde se encontrava o carro que o levaria a Beja. Maria Eugénia Varela Gomes, em 1962, também por tentativa de alteração da constituição por assalto à mão armada. Depois da libertação, em 1964, empenhou-se na formação da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. Alda Nogueira esteve na clandestinidade 10 anos, até ser presa em 1959. Esteve presa 9 anos e 3 meses.

Na altura da prisão e condenação assumiram frontalmente as suas posições políticas. O que diziam em tribunal era uma forma de protesto, de se fazerem ouvir publicamente. Era provavelmente o único espaço em que, pela especificidade do processo de defesa, lhes era permitido dizer oficialmente o que pensavam do regime.

Género e acção política

Não é possível ignorar que a oposição feminina foi condicionada pela pertença de género. Maria Fernanda Silva afirma claramente que parecia mal as mulheres andarem na política. Diz, em Beja, muita gente achava que era uma coisa muito má andar metida naquelas coisas, a falar com homens, etc., porque as meninas não faziam política, isso era coisa de homens, e se fizessem devia ser só em coisas femininas. Os próprios maridos metidos nas coisas não gostavam muito que as mulheres também andassem nessas andanças, porque as mulheres até podiam estar empregadas, mas metidas na política não. As mulheres eram muito coagidas por muitas coisas, os pais, os maridos, os namorados (...) (5).

Maria Barroso, por exemplo, participou nas reuniões de fundação do Partido Socialista, mas, apenas, quando o marido não estava presente (6).

Veja-se, ainda, o caso do PCP. Na composição interna do partido as mulheres estavam em minoria, para além de que o seu nível político e preparação ideológica eram baixos. As militantes, na maioria camponesas e operárias, raramente tinham a escolaridade mínima. Seguindo Cândida Ventura, citada por Vanda Gorjão, houve um período em que as mulheres se ocupavam "exclusivamente dos trabalhos doméstico e de vigilância. Não liam a imprensa nem sequer a do partido" (7).

Por volta de 1947, o partido considera fundamental valorizar a formação das militantes e reforçar os seus conhecimentos de carácter geral e político, de forma a que se "dinamizasse a versatilidade de funções" (8). Mas a clandestinidade obrigava a que a "distribuição de tarefas e papéis entre os sexos se adequassem aos interesses partidários conspirativos" (9). Era proibido adoptar qualquer divisão de tarefas que pudesse dar nas vistas e lançar suspeitas sobre as opções políticas do casal. Tais constrangimentos obstavam a um efectivo trabalho de pares. Apesar de tudo, as mulheres estiveram fortemente envolvidas em lutas quotidianas, sobretudo nas que privilegiavam a melhoria das condições materiais de vida e de trabalho. Porém, estiveram afastadas da concepção da maior parte das movimentações políticas de vulto, trabalhando nos bastidores e deixando aos homens (maridos ou companheiros de partido) os papéis de maior visibilidade. Contudo, para o universo cultural da época em que agiram, não podemos afirmar que tenham realizado pouco. Ousaram uma coragem que faz delas não só heroínas, mas mulheres para além do seu tempo.

Não terá sido fácil. Isabel Aboim Inglês teve de se confrontar, primeiro, com a questão da sobrevivência dos filhos. Também Maria Lamas, por exemplo, só intensificou a actividade política após o casamento das filhas. Era preciso que chegassem os finais de 60, com um novo universo de valores capazes de abalar as grilhetas mentais invisíveis que mantinham a discriminação e condicionavam a actividade política das mulheres.

Falamos aqui de mulheres políticas, lutadoras no início de uma caminhada que, afinal, ainda não pudemos concluir. Sólidos "tectos de vidro" permanecem ainda, neste exacto momento, mesmo por cima das nossas cabeças.

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(1) GORJÃO, Vanda (2002), Mulheres em Tempos Sombrios. Oposição Feminina ao Estado Novo, Lisboa: ICS - Na redacção deste trabalho baseámo-nos, essencialmente, na tese de Vanda Gorjão.
(2) Gorjão, 2002, p. 92
(3) id., p. 107
(4) cf. Gorjão, 2002, p. 229
(5) id., p. 247
(6) id., p. 250
(7) id., p. 133
(8) id., p. 134
(9) id., p. 135


in Notícias da Amadora Mulher - Outro Dossier "Mulher / Igualeza" / 2003-03-06

domingo, maio 13, 2007



http://imagens.webboom.pt/imagem?amb=capaprod&id=103876&width=130

Imagens da Mulher na Imprensa Feminina de Oitocentos, Percursos de Modernidade

* Ana Maria Costa Lopes
© 2005
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Trata-se de uma viagem pelo penoso, mas vitorioso!, caminho que a mulher iniciou em Portugal, valendo-se dos periódicos como principal instrumento (este estudo tomou como corpus as publicações de 1820 a 1870), para alcançar a sua autonomia e independência intelectuais, numa peremptória e persistente recusa do papel socialmente passivo, mas “domesticamente” activo, que lhe estava desde há séculos reservado pela hegemonia masculina vigente.
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É com perplexidade que tomamos consciência das posições retrógradas dos intelectuais da Geração de 70, perante as vozes femininas que altissonantes se erguiam, reivindicativas dos seus direitos como agentes activas da vida política, educativa, intelectual, social.
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A batalha pelo tão elementar direito à instrução foi alvo de críticas básicas, saídas da pena pretensamente moderna de autores como Ramalho Ortigão – segundo este, a menina honesta devia sacrificar o seu tempo, consagrando-o «aos nobres trabalhos do ménage, tornando-se [...] uma digna mulher útil, apta para acompanhar, para compreender e para ajudar o homem» –, os quais, afinal, perfilados lado a lado com Almeida Garrett, são ultrapassados por um Castilho visionário, que equaciona problemas cruciais no âmbito da opressão e da emancipação femininas.
Temos a oportunidade de conhecer e ver analisados os pontos de vista dos nomes femininos que mais se fizeram notar, como o de Ana Plácido, Antónia Pusich, Catarina de Andrada, Francisca Wood, Guiomar Torrezão, Maria José da Silva Canuto, Mariana Angélica Andrade, Marquesa de Alorna, entre outros; os primeiros passos, os avanços e os retrocessos desta revolução pela emancipação da mulher em Portugal, que ainda está em curso.
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Sobre a autora
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Doutorada em Línguas e Cultura Portuguesa, Ana Maria Costa Lopes iniciou a sua carreira académica como investigadora na Universidade Católica Portuguesa, em 1983, no Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, transitando também nesta qualidade pela Faculdade de Letras de Lisboa, pela Universidade Nova e pela Universidade Aberta.

[PDF]

MEMÓRIA

Ana Maria Costa Lopes, Imagens da mulher. na imprensa feminina de oitocentos. Percursos de. Modernidade, 1ª edição, Lisboa, Quimera. Editores, 2005, p. 163 ...
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A mulher na literatura portuguesa:
sua imagem e seus questionamentos através do gênero epistolar.


Autor - Ferreira, Carlos Aparecido



Resumo Original



Trabalho que tem como objetivo apontar a transformação da imagem da mulher através dos tempos, tal como tem sido representada na literatura, desde suas origens bíblicas, até o final do século XX. A análise dessa imagem feminina, em sua trajetória histórico-literária se apoiou em textos de várias épocas, começando pela Bíblia, passando pela Era Medieval (cantigas de amor e cantigas de amigo), Era Clássica (episódio de Inês de Castro, em Os Lusíadas; Carta de Guia de Casados, de Dom Francisco Manuel de Melo; e As Cartas Portuguesas, de Sóror Mariana Alcoforado), Era Romântica (as cartas entre Camilo Castelo Branco e D. Ana Plácido; e as cartas entre Simão e Teresa na obra Amor de Perdição – de Camilo Castelo Branco) e Era Contemporânea (Novas Cartas Portuguesas). Através da poesia e do gênero epistolar verifica-se uma linha horizontal a percorrer todos os períodos literários: a linha que registra a permanência da imagem da mulher-mãe e mulher-esposa, consagradas pelo sistema familiar patriarcal. Entretanto, verifica-se que, aqui e ali, surgem cortes verticais nessa linha horizontal, os quais correspondem a questionamentos femininos buscando romper a linha da tradição. A localização dessas "linhas" e "cortes" são os pontos básicos desta dissertação.

domingo, maio 06, 2007

Um filão a ganhar peso nas livrarias




Biografia, ficção, ensaio histórico, correspondência ou BD, são vários os géneros que já contam com edições inspiradas em Salazar. Ainda que a bibliografia, quantitativamente falando, esteja longe do que seria de esperar atendendo ao papel do ditador na sociedade portuguesa e à longevidade do Estado Novo, o interesse despertado pelo tema nos últimos anos tem tido equivalência nos títulos que chegam às livrarias. Há um novo filão editorial.

Como se Levanta um Estado (Atomic Books), do próprio Salazar, o "cartão de visita" do Pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Paris de 1937, figura entre as novidades de 2007. Tal como Vítimas de Salazar: O Estado Novo e a Violência Política (Esfera dos Livros), de João Madeira, Irene Flunser Pimentel e Luís Farinha. A mesma editora já publicara Os Amores de Salazar, de Felícia Cabrita.

De Fernando Dacosta, Máscaras de Salazar (Casa das Letras) já vendeu mais de 50 mil exemplares e vai na segunda versão, revista e aumentada. Salazar e Caetano - Cartas Secretas 1932-1968 (Difusão Cultural), de José Freire Antunes, enquadra historicamente cerca de 500 cartas trocadas entre dois homens que governaram o País.

O Diário de Salazar (Parceria A.M.Pereira), de António Trabulo, transforma textos do Presidente do Conselho numa espécie de diário ficcionado. Salazar: Construção de um Mito (Temas e Debates), de Helena Matos, retrata a máquina de propaganda. Salazar e o Vaticano (ICS), de Bruno Cardoso Reis, analisa a "aliança" com a Igreja. E Salazar e a Europa (Livros Horizonte), de Elsa Santos Alípio, debruça-se sobre a adesão à EFTA (Ass. Europeia de Comércio Livre).

Em BD, com textos de João Paulo Cotrim e desenhos de Miguel Rocha, está publicado Salazar - Agora, na Hora da sua Morte (A.M.Pereira). Valentim Alexandre deu à estampa a investigação O Roubo das Almas -Salazar, a Igreja e os Totalitarismos entre os Anos de 1930 e 1939 (Dom Quixote).

Noutro registo, Uma Brasileira Contra Salazar (Livros Horizonte), de Arajaryr Campos, recolhe postumamente textos da secretária de Humberto Delgado, morta pela Pide. «Entre os "clássicos", destacam-se Salazar - A Mocidade e os Princípios (Atlântida Editora), biografia pioneira de Franco Nogueira, que foi embaixador e ministro do regime; e Entrevistas de António Ferro a Salazar (A.M. Pereira), com as conversas no Diário de Notícias. P. L.

in DIÁRIO DE NOTÍCIAS 2007.04.27





Vítimas de Salazar
João Madeira
Irene Flunser Pimentel
Luís Farinha


Sinopse:

Durante mais de 30 anos António de Oliveira Salazar governou Portugal com punho de ferro. Através de um regime nacionalista, autoritário e repressivo despolitizou-se, desmobilizou a participação cívica dos portugueses e criou uma única e determinada imagem do país.


Pretensamente sem conflitos, problemas, miséria e dificuldades, segundo a norma de «o que se parece é». Mas os homens e mulheres de então tinham fome, viviam amordaçados pelo lápis azul dos censores, controlados por escutas telefónicas ou violação do seu correio, intimidados pelos informadores que colaboravam com o regime. Atormentados pelas torturas da estátua ou do sono perpetrados pela PIDE. Julgados por tribunais fantoches onde a liberdade ficava à porta e onde os próprios advogados passavam a réus. Se a sua atitude fosse considerada suspeita eram saneados, impedidos de exercer a função pública, exilados ou deportados para campos de concentração, ou simplesmente assassinados. Estes homens e mulheres têm um rosto, sofreram a repressão, enfrentaram-na de forma corajosa e muitos morreram de forma heróica a combatê-la. São as Vítimas de Salazar.

in
www.esferadoslivros.pt/novidades.php

Do”maior português de sempre” às “Vítimas de Salazar”

*
Joaquim Gonçalves

Quando criança - nasci na segunda metade dos anos 50 - fui habituado a ouvir (e a repetir) que Monsanto era a aldeia mais portuguesa de Portugal, que o Alentejo era o celeiro da Nação, que beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses e por aí fora, numa sucessão de frases de marketing político-económico de fazer inveja a sucedâneas gerações de brilhantinas, tecnocratas, e sabichões.

Mais tarde vim a saber que existiu um António Ferro. De Salazar já tinha conhecimento, não fosse ele omnipresente na parede da escola, bem por trás da secretária do Senhor Professor, por cima, por baixo ou ao lado do crucifixo, mas sempre em local que os nossos pequenos olhos não pudessem ignorar.

António Ferro foi, de facto, o grande publicitário do regime, fazendo escola que não se terá perdido no tempo. Há quem diga que foi o pai do marketing político português. Mas dessas coisas sei pouco. O que sei, constato, cerca de meio século passado, é que Ferro e Salazar não trabalharam em vão. Como se o lapso de cinquenta anos não tivesse existido na História de Portugal e dos Portugueses – dos grandes e dos pequenos – a televisão pública (e impúdica) oficial paga por todos nós, principalmente os pequenos portugueses, já que os grandes estão lá para colher os louros e as receitas, essa RTP que nunca conseguiu disfarçar sequer a sua dependência dos poderzinhos do momento, impõe-nos, agora, o nome do ditador como o hipotético maior português de sempre, numa lista que inclui Portugueses de maiúscula.

Não me contradigo ao dizer que esse nome não devia sequer ser autorizado a figurar na lista (hipotética) dos maiores. Não ignoro o lapso de cinquenta anos. Salazar existiu, de facto. Mas o tal meio século ensinou-me alguma coisa. Tal como o ontem e o hoje (o amanhã nunca se sabe), a História existe, não a podemos contornar. Deve, por isso, servir para alguma coisa. Quanto mais não seja para aprendermos com os erros do passado. Mas quem quer saber disso?

Entre outros ápodos, Salazar, para além de “bota-de-elástico”, também ficou conhecido pelo “troca-tintas”. Sendo eleito, num “concurso” que fosse sério, como “o maior português de sempre” ficaria consumada a categoria dos portugueses: “troca-tintas”.

Se assim fosse, na minha ascendência haveria de certeza um engano - não seria português. Mas sou. Porque a História continuará a ensinar a vindouros com dois dedos de inteligência que os poderes do momento são efémeros. E bons e maus portugueses havê-los-á sempre.

Cada um é como é. Cá por mim, não apenas como livreiro mas, acima de tudo, como Português, vou fazer a melhor divulgação possível do livro “Vítimas de Salazar”.

Sines, Março de 2007

http://adasartes.blogspot.com/2007/03/todos-os-autores-dia-31.html


Pelas Vítimas de Salazar

* João Tunes

Com uma óbvia oportunidade, o livro recentemente editado sob o título de “Vítimas de Salazar” (*) representa uma súmula de vários aspectos da pesada face negra dos tempos sob a ditadura de Salazar. Obra de uma equipa de historiadores, nela perpassa o essencial de um passado culturalmente (não politicamente?) ainda presente em que, pela distância de uma incerta vivência democrática, não deixa de provocar espanto. Suponho que a admiração maior calhará às gerações pós-abril que terão dificuldade em imaginar-se viverem em tamanho sufoco repressivo. Mas mesmo para as gerações que viveram a ditadura, admito que esta revisita do salazarismo ainda perturbe como retorno de pesadelo.


E se a distância, normalmente um importante factor positivo e essencial para qualquer abordagem histórica, é propícia a uma apreciação mais fria, abrangente e documentada do passado histórico, não é menos verdade que ela é aproveitada pelos gestores do silêncio e do apagamento dos contrastes. Portanto, campo livre para o revisionismo e a recuperação saudosista. Com Salazar, foi isso que aconteceu. O que espreita e é aproveitado atrás dos recuperadores de Salazar, gerindo-lhe e alimentando o mito, é uma mescla de múltiplos vectores: sobreviventes desse tempo que não combateram Salazar (e a maioria dos que viveram o seu tempo não o combateu, por medo, por servilismo ou por benefício); os das mais jovens gerações que desiludidos com o rumo e resultados democráticos, são atreitos a uma projecção negativista radical do presente (fazendo-o para um futuro utópico de revolução libertadora ou pelo retrocesso passadista); os incrédulos, por ignorância, da face negra do salazarismo; os relativistas que se empenham em salientar o cotejo dos limites repressivos do salazarismo com outros fascismos da época.


Numa sucessão de abordagens conformes á metodologia histórica, documentalmente suportada, os autores deste livro revisitam o pesadelo do tempo vivido sob o mando absolutista de Salazar, desdobrado nas várias facetas em que o regime reprimia, controlava e definia os limites das vivências permitidas. Nas quais, só três vias eram consentidas: o colaboracionismo (em grande número, um “colaboracionismo miserável”, como o dos “bufos” e “informadores”); o conformismo (sobretudo o de “a minha política é o trabalho”); a resistência e oposição (para quem o regime usava uma mão pesada e brutal). Os vários capítulos deste livro tratam, sobretudo, deste último (e reduzido) grupo, afinal o sustentáculo das raízes de que saiu a democracia e que depois havia de incorporar activamente os colaboracionistas e os conformistas. Mais, é claro e felizmente, as gerações crescidas ou já nascidas em sociedade democrática (toda ela, uma negação total e absoluta da sociedade salazarista). A censura, a vigilância sobre as conversas telefónicas e o correio, a rede de “bufos” e informadores, a prisão política e a prática de torturas, os julgamentos por juízes-polícias com possibilidade de aprisionamento como “medida de segurança”, os saneamentos da função pública, a deportação e o exílio, os campos de concentração, o controlo político das Forças Armadas, as milícias fascistas, a repressão aos estudantes, a liquidação do protesto sindical, os assassinatos políticos, as fraudes eleitorais, são as faces negras do salazarismo, as vividas pelas suas vítimas, expostas neste livro e atiradas à cara dos saudosistas de Salazar. Impensáveis hoje mas essenciais então para a conservação de um regime hiper autoritário.


Um livro eminentemente útil num tempo em que, pela ignorância e pelo apagamento programado da memória, um punhado de maníacos saudosistas mobiliza, pelo telemóvel, votos televisivos para o ditador nefando como sendo um “grande português”.


(*) – “Vítimas de Salazar – Estado Novo e Violência Política”, João Madeira, Irene Pimentel, Luís Farinha e Fernando Rosas, Edições “A Esfera dos Livros”

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Adenda: Quase em coincidência, também Miguel Cardina faz apreciação deste livro oportuno.

http://agualisa6.blogs.sapo.pt/209856.htm

A violência, o medo e os rostos defronte

* Miguel Cardina

Existe já uma considerável produção memorialística proveniente do diversificado campo da oposição ao Estado Novo. Em 2001, António Ventura publicou o catálogo Memórias da Resistência. Literatura autobiográfica da resistência ao Estado Novo, no qual antologiou noventa e nove extractos de livros escritos por activistas da luta contra o regime de Salazar e Caetano. Desde essa data, mais livros – subtraia-se à contabilidade as inúmeras crónicas ou testemunhos sobre o assunto – foram adicionados a esta lista, estando actualmente o número de relatos desta natureza bem acima da centena. Um exemplo último foi a edição das memórias de Edmundo Pedro, dedicadas ao período da sua formação ideológica e permanência no campo de concentração do Tarrafal.

Por outro lado, e no campo académico, a abordagem dos processos de luta oposicionista tem vindo a interessar um número crescente de investigadores, com alguns deles a deslocarem o foco de atenção para o «outro lado», o lado dos mecanismos, dos fenómenos e dos actores da repressão política. Recentemente, duas teses de doutoramento foram dedicadas a esta temática. Em 2004, Dalila Cabrita Mateus publicou A PIDE/DGS na Guerra Colonial: 1961-1974 – tendo, em 2006, dado à estampa Memórias do Colonialismo e da Guerra, conjunto de quarenta entrevistas, efectuadas no âmbito do referido trabalho, a portugueses e africanos perseguidos pelo seu empenhamento independentista – e Irene Flunser PimentelA Polícia Internacional de Defesa do Estado. Direcção Geral de Segurança (PIDE/DGS). História da Polícia Política do Estado Novo, cuja publicação se anseia para breve. apresentou, já este ano,

Vítimas de Salazar, de João Madeira, Irene Flunser Pimentel e Luís Farinha, permite percorrer esse duplo caminho que atravessa resistência e repressão. Ao mesmo tempo que aborda a violência cometida pelas autoridades, recupera o rosto daqueles que arriscaram romper o cerco e lutar, das mais variadas formas, contra o regime ditatorial. Como declara João Madeira na introdução, este não é o estudo sistemático «que é globalmente indispensável» e «que tem vindo a ser parcelarmente realizado» sobre este domínio. Ainda assim, convém esclarecer que a obra não se limita a coligir e elucidar situações mais ou menos emblemáticas, mais ou menos desconhecidas – tarefa já de si altamente louvável – mas proporciona uma útil visão de conjunto sobre os mecanismos da repressão política.

No prefácio, Fernando Rosas elabora algumas considerações sobre os dois temas que, visível e invisivelmente, percorrem a obra: a violência e a memória. Sobre esta, Rosas salienta que a revolução de 1974/75 se fez, desde logo, em nome da «memória do antifascismo», o que explicaria o assalto à PIDE, a libertação dos presos políticos, a liquidação do partido único e da censura, a extinção da Legião Portuguesa (LP), da Mocidade Portuguesa (MP) e da Mocidade Portuguesa Feminina (MPF), bem como os saneamentos de governantes, delatores e colaboradores do regime.

Num segundo momento, colocado na curva da década de setenta para a década de oitenta, teria emergido uma «cultura de negação/revisão» dessa memória que fora dominante durante o biénio revolucionário. Fernando Rosas identifica três manifestações deste processo: 1. «a anulação ou esvaziamento prático de grande parte das medidas de justiça exigidas e parcialmente impostas»; 2. «o prolongado fecho de alguns arquivos essenciais à investigação histórica do Estado Novo e suas instituições»; 3. «a construção progressiva de um discurso de revisão historiográfica», que não tem a ver com a querela relativa a classificação (ou não) do regime como um fascismo, mas com uma dada interpretação que lhe enfatiza o lado civilista. Liderada por um professor catedrático e temperada por uma «matriz católica», a ditadura portuguesa ter-se-ia caracterizado pelo seu «baixo teor de violência».

É precisamente sobre a questão da violência, central neste volume, que Rosas faz mais algumas breves alusões. Enquanto projecto de superação do liberalismo e de cura da Nação através da erradicação dos «traidores da Pátria», a violência dos regimes de tipo fascista era «potencialmente irrestrita», variando a sua extensão de acordo com as circunstâncias e as possibilidades. A durabilidade dos regimes implicaria, pois, uma cuidadosa gestão entre a «violência preventiva» e a «violência punitiva», caminhos apostados em «enquadrar a massa»«moldar os espíritos». e

A primeira seria a forma mais constante, ainda que menos evidente, de violência política, e sustentava-se na intimidação, na dissuasão e no medo. Neste campo jogaram um papel essencial a igreja católica – sobretudo até a década de cinquenta –, o aparelho censório e os organismos estatais de inculcação ideológica. Aqui se traçava um «primeiro círculo de segurança que toda a gente que não quisesse correr sérios riscos ou arranjar problemas graves, interiorizava não poder pisar». O segundo domínio da violência – o da repressão directa – agia sobre um número quase sempre mais escasso de indivíduos e servia-se de uma rede própria: a PIDE, a PSP, a GNR, a LP, os tribunais especiais, as prisões e os campos de concentração, bem como por uma legislação penal que suportava e permitia uma série de arbitrariedades.

Mobilizando uma quantidade apreciável de documentos, informações e testemunhos, os autores de Vítimas de Salazar desenham um retrato inequívoco da identidade agressiva do Estado Novo. Nele se destacam as perseguições, os assassinatos, os interrogatórios da PIDE – onde, como lembrou o psiquiatra Afonso de Albuquerque, o que interessava não era fazer falar mas «a destruição da personalidade do preso e a criação de um clima de terror» – ao mesmo tempo que se vai apontando a referida «violência preventiva»: a censura, as escutas telefónicas, o medo, a mentalidade delatória, a violação de correspondência, as estruturas ideológicas do regime, são alguns dos temas documentados. Não se confundindo, pois, com um libelo acusatório, o livro não abdica de «tomar partido», isto é, de mostrar que na dialéctica entre torcionários e vítimas, delatores e perseguidos, opressores e oprimidos, a dignidade está apenas num dos lados.

João Madeira, Luís Farinha, Irene Flunser Pimentel (2007), Vítimas de Salazar. Estado Novo e Violência Política. Prefácio de Fernando Rosas. Lisboa: A Esfera dos Livros. 452 pp. [ISBN 978-989-626-044-6]

http://ppresente.wordpress.com/textos/a-violencia-o-medo-e-os-rostos-defronte/



É quase Abril...

18-04-2007

* Francisco Queirós

Estamos a poucos dias do 33.º aniversário do 25 de Abril. Muitos portugueses nasceram depois da revolução e a geração que hoje está no poder era a geração adolescente naqueles últimos anos do regime, da chamada “primavera marcelista” que se sucedeu à queda da cadeira protagonizada por Salazar, primavera só de nome em que a PIDE, agora DGS, continuava a esmerar-se nas torturas do sono e da estátua, na tortura psicológica com o bom e o mau pide, e em tantas outras sevícias, que Salazar, tão hipócrita quanto falsamente seráfico, crismara de: “meia dúzia de safanões a tempo nessas criaturas sinistras”. Portugal era um país de miséria, de analfabetismo, de mortalidade infantil, de fome e era o país onde as mulheres precisavam de autorização dos maridos para se deslocarem ao estrangeiro e onde os maridos tinham direito consagrado a abrir a correspondência das suas mulheres. Era um país em guerra, de onde os seus filhos saíram para morrer em nome falso de uma Pátria que não podia contudo ser a sua. 33 anos depois de Abril recordemos que são milhões as vítimas de Salazar e de Caetano, os que caíram na guerra, os que sofreram a repressão, as prisões e os assassinatos, os que foram condenados à emigração “a salto”, os que foram destinados à miséria, à fome, à tuberculose e a outras enfermidades ou à ignorância por um regime que desprezou o ensino.

33 anos depois da Revolução de Abril eles andam aí de novo, em concursos de tv ou em campanhas de branqueamento dos seus crimes. Por estes dias, representantes do fascismo de toda a Europa concentram-se num evento em Portugal. E o governo mantém-se mudo e quedo face às cada vez mais frequentes cerimónias fascistas, em que se incluiu também a pretensão de inaugurar um santuário em Santa Comba, com o nome de museu.

Curiosamente, quando em Portugal se avança como nunca antes na execução de políticas neoliberais, de direita, em muito semelhantes às executadas por sectores da extrema-direita europeia, recrudescem os episódios e as manifestações nacionalistas. Há quem, professoralmente, os desvalorize. Há quem defenda que se ignorem ou desprezem estes sinais. Mas eles não são inocentes. A extrema-direita clássica tem agora a sua oportunidade e, assumindo-se publicamente com maior frequência e estridência, procura empurrar os homens que estão ao leme para rumarem ainda mais para a direita. A estratégia é velha - cria-se um espaço entre o extremismo, que na pior hipótese a maioria da opinião pública rejeita e condena, e as novas e modernas soluções direitistas, mas aparentemente mais democráticas e logo distintas e por isso aceitáveis e convincentes. Se necessário mesmo, aperta-se o cerco aos protagonistas do poder, obrigando-se a que caminhem ainda mais depressa para onde se quer que estes avancem.

33 anos depois do 25 de Abril, a memória está mal cuidada, de propósito. 33 anos depois da Revolução, há quem cuide em apagá-la e há quem não queira em consciência ver os perigos que espreitam por detrás da falsificação da história e do branqueamento do fascismo. Mas Brecht tem ainda razão: «Primeiro levaram os comunistas / Mas não me importei com isso / Eu não era comunista / Em seguida levaram alguns operários / Mas não me importei com isso / Eu também não era operário / Depois prenderam os sindicalistas / Mas não me importei com isso / Porque eu não sou sindicalista / Depois agarraram uns sacerdotes / Mas como não sou religioso / Também não me importei / Agora estão a levar-me a mim / Mas já é tarde.»

Para que não seja tarde, recordemos Abril. Eu cá vou recordá-lo nas ruas, em Abril e em Maio. E sempre. Sempre que for preciso.

in

http://www.asbeiras.pt/?area=opiniao&numero=41650&ed=19042007



Obra recorda História de Portugal através de frases emblemáticas

Tiradas de governantes, escritores, actores e outros intervenientes na cena política ou cultural portuguesa foram reunidas em "Frases que fizeram a História de Portugal", editado esta semana pela Esfera dos Livros.

Da autoria dos jornalistas Ferreira Fernandes e João Ferreira, o livro reúne cerca de 250 frases que se tornaram emblemáticas por diversas razões, sendo conhecidas ainda hoje na sua versão original ou alteradas pelos mediadores.

É o caso do alegado verso de "Os Lusíadas", de Luís de Camões, "Aquela que depois de morta foi rainha", sobre Inês de Castro, que difere daquilo que o poeta realmente escreveu e que foi "Aquele que depois a fez rainha", referindo-se a D.Pedro (1320-1367).

O livro permite ainda recordar a origem de expressões comuns como "arraia miúda", que Fernão Lopes (1380-1460, sensivelmente) usou para se referir ao povo nas suas "Crónicas" e que tem caracterizado as massas populares ao longo dos séculos.

Outro caso é o da frase "à grande e à francesa" relativa aos modos luxuosos do general Jean Andoche Junot (1771-1813), auxiliar de Napoleão que chegou a Portugal na primeira invasão francesa, e dos seus acompanhantes, que se passeavam vestidos de gala pela capital.

"Frases que fizeram a História de Portugal" permite ainda conhecer a origem de expressões celebrizadas por um uso posterior.

"Felizmente há luar" é uma frase de Dom Miguel Pereira Forjaz, secretário do governo da regência nomeada por Dom João VI, a dizer que a noite de 18 de Outubro de 1817 estava boa para o enforcamento de um grupo de revoltosos contra a ocupação inglesa de Portugal.

O episódio inspiraria a peça de teatro homónima de Luís de Sttau Monteiro, que, por chamar a atenção sobre a repressão e as perseguições políticas no Estado Novo, esteve proibida até 1974.

A obra dos dois jornalistas revela também os erros que Luís António Verney (1713-1792), autor de "O Verdadeiro Método de Estudar", apontava, há mais de dois séculos, ao sistema educativo português quando escreveu "É lástima que homens que passaram tantos anos mas escolas não saibam escrever uma carta!".

O sentido crítico é ainda o ponto forte de "O governo não há- de cair - porque não é um edifício. Tem que sair com benzina - porque é uma nódoa", frase de "O Conde de Abranhos", de Eça de Queiroz (1845- 1900) que, ainda hoje, circula regularmente por e-mail.

"Queres fiado? Toma!", a legenda com que Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) fez acompanhar a figura do Zé Povinho a fazer o manguito (caricatura do português ignorante e explorado pelo poder), é outra das expressões indexadas nesta obra da Esfera dos Livros.

O sector político é dos mais bem representados no livro de Ferreira Fernandes e João Ferreira.

São disso exemplo as frases de Salazar (1889-1970) "Para Angola, rapidamente e em força", adaptada da intervenção que fez em 1961, na tomada de posse de um governo remodelado que tinha Adriano Moreira à frente do Ministério do Ultramar, ou "Orgulhosamente sós", retirada de um discurso de 1965, quando o facto de manter as colónias em África valia a Portugal o isolamento político.

"Meia dúzia de safanões a tempo", frase que - com algumas variantes - se escuta por vezes nos debates sobre métodos educativos, também foi dita por Salazar, numa entrevista em que António Ferro o questionou sobre "rumores" de torturas a presos políticos.

Incluída no livro está também o "Obviamente, demito-o", que o general Humberto Delgado disse a 10 de Maio de 1958, em Lisboa, na conferência de imprensa de apresentação da sua candidatura à Presidência da República.

Humberto Delgado respondia assim a um jornalista da Agência France Presse, que lhe perguntou o que faria em relação a Salazar se fosse eleito a 08 de Junho de 1958, data em que o "General Sem Medo" perdeu para Américo Tomás devido a uma fraude eleitoral.

Américo Tomás (1894-1987) que também não foi esquecido, pois frases como "É a primeira vez que estou cá desde a última vez que cá estive" valeram-lhe uma secção especial na revista Seara Nova, ligada à oposição, como recorda o volume agora publicado.

A organização cronológica das máximas termina com o exemplo recente de "Nunca me engano e raramente tenho dúvidas" - frase atribuída a Aníbal Cavaco Silva, que a terá dito em 1990 durante uma entrevista, algo que o actual Presidente da República já refutou.

Agência LUSA
2006-03-13 17:36:17

quinta-feira, abril 19, 2007

CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DAS MULHERES EM PORTUGAL NO SÉCULO XX:

mulheres oposicionistas ao Estado Novo.

Referência bibliográfica

Publicação resultante da tese de mestrado da autora, Mulheres em tempos sombrios. Oposição feminina ao Estado Novo, de Vanda Gorjão, é um trabalho que nos dá a conhecer a actividade desenvolvida pelas mulheres portuguesas (algumas delas e alguma oposição- a oposição de elites) que não concordavam nem se enquadravam nos princípios e organizações femininas criadas e existentes durante o período da Ditadura.

Fazendo análise em vários domínios e debruçando-se sobre várias realidades, a autora apresenta-nos uma obra com a seguinte orgânica interna:

CAPÍTULO I- A infância. As famílias de origem. Socialização política.
CAPÍTULO II- Dinastias políticas. Adolescência e juventude. A escola.
CAPÍTULO III- A politização da vida adulta. Inserção profissional. Novas dinastias políticas.
CAPÍTULO IV- Oposição feminina ao Estado Novo (1). O Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e a Associação Feminina Portuguesa para a Paz.
CAPÍTULO V- Oposição feminina ao Estado Novo (2). Mulheres nos grupos oposicionistas unitários e "comissões femininas".
CAPÍTULO VI- As prisões políticas. Exercício activo da cidadania. Perfis de mulheres políticas.
CONCLUSÃO

Para complementar esta informação transcrevemos excertos da "Introdução" que é feita à pesquisa e investigação.

Referência bibliográfica:

GORJÃO, Vanda- Mulheres em tempos sombrios. Oposição feminina ao Estado Novo. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2002 (Colecção Estudos e Investigações, 24).

INTRODUÇÃO

(...)

Houve diversos tipos de oposição conduzida por mulheres. A sua configuração e as respectivas dinâmicas variaram em função de muitos factores, entre as quais a composição social dos meios oposicionistas. Camponesas e operárias fizeram protestos graves, marchas de fome, juntaram-se em concentrações (frequentemente levando os filhos) contra a falta de géneros, o racionamento do pão, ou exigindo aumentos de salários. Nos bastidores da clandestinidade comunista, as "companheiras" asseguraram a fachada da normalidade da vida familiar, numa partilha de responsabilidades políticas com os "camaradas" que actuavam no exterior. Deixei de lado essa face anónima da oposição feminina e resolvi tomar por objecto um outro tipo de oposição que podemos designar por oposição de elites.

Para além de indicadores que demonstram a integração em meios privilegiados da burguesia ou das classes médias urbanas, e em círculos sociais e culturais restritos, duas outras características ajudam a definir a especificidade deste tipo de oposição. A primeira diz respeito aos posicionamentos ideológicos e políticos: participando numa mesma frente de luta por um regime democrático, as mulheres que integraram a oposição de elites eram liberais, republicanas, socialistas, comunistas ou anarco-sindicalistas, eram feministas e pacifistas, aderiram à maçonaria ou ao catolicismo progressista. Nos seus posicionamentos ideológicos e políticos estava, pois, representado o vasto leque de culturas e tradições que, em certos momentos, confluíram na unidade democrática oposicionista.

Uma segunda característica é que o meio em que se moviam não era apenas socialmente mais visível como estava impregnado por uma forte cultura de individualidade. Algumas dessas mulheres notabilizaram-se em termos culturais, profissionais ou políticos, ganhando reconhecimento consensual entre os pares. Foram mulheres "nomeadas", tiveram visibilidade nos grupos oposicionistas a que se associaram e, em alguns casos, essa visibilidade alargou-se ao espaço público. Muitas têm uma trajectória de luta conhecida: pertenceram a organizações antifascistas unitárias, criaram movimentos e grupos femininos, foram do Partido Comunista, foram perseguidas pelo regime salazarista, por vezes presas e exiladas. Mais tarde, após 1974, iriam participar no processo de transição democrática. (...)

Demoradamente ou mais de passagem, as mulheres referidas ao longo deste estudo são, entre outras, Alda Nogueira, Beatriz Almeida Cal Brandão, Cândida Ribeiro Gaspar, Casina Bermudes, Cecília Areosa Feio, Francine Benoit, Guida Lamy, Ilse Losa, Irene de Castro, Irene Cortesão, Irene Lisboa, Isaura Silva Borges Coelho, Josefina Simões, Luísa Irene Dias Amado, Manuela Porto, Maria Archer, Maria Barroso, Maria Branca Lemos, Maria das Dores Cabrita, Maria Elvira Cortesão, Maria Emília Tito de Morais, Maria Estanco Louro, Maria Eugénia Varela Gomes, Maria Fernanda Silva, Maria Helena Correia Guedes, Maria Isabel Aboim Inglez, Maria Keil do Amaral, Maria Lamas, Maria Letícia Clemente da Silva, Maria Luísa Costa Dias, Maria da Luz Espírito Santo, Maria Valentina Trigo de Sousa, Stella Piteira Santos e Virgínia Moura. (...)

Vejamos as balizas cronológicas em que nos situamos. Recuando à primeira República e prolongando-se até depois do 25 de Abril de 1974, a análise incide fundamentalmente no intervalo de tempo que vai de 1945 até ao começo dos anos 60, que corresponde a um ciclo político aberto com a reorganização da oposição no pós-guerra e encerrado com a candidatura gorada de Humberto Delgado às eleições presidenciais, o desânimo da oposição anti-fascista e o incremento da repressão política do regime. Curiosamente, esse intervalo de tempo foi uma espécie de eixo cardinal tanto nas temporalidades da história do Estado Novo como no ciclo de vida da maioria das mulheres consideradas: coincidiu com o fim da juventude e a fase crucial da vida adulta, em que se casa, se tem filhos e se define os parâmetros de uma carreira profissional. Dois episódios marcam mesmo, como iniciação ou confirmação, o seu envolvimento político: a constituição do Movimento Unitário Democrático (MUD) em 1945 e a criação do MUD Juvenil em 1946, episódios que vincularam a afirmação de uma nova geração de oposicionistas às primeiras esperanças de democratização do país, logo frustradas. (...)

Publicado por sandra em outubro 18, 2003 (Sandra Cristina Almeida)
Retirado do Blog História e Ciência
Quadro - autor não identificado (Dia da Mulher)


quarta-feira, abril 18, 2007


Álvaro Cunhal e as mulheres que tomaram partido (*)

Novo livro de João Céu e Silva


Esta é uma edição que honra a Asa, pelo esmero e beleza do livro como objecto, mas sobretudo pelo paciente, interessantíssimo (e tão rico de resultados) jornalismo de investigação que João Céu e Silva levou a cabo, unindo o rigor à sensibilidade e ao tacto. Está sempre presente a sua profunda compreensão dos seres humanos, uma desvelada atenção, onde transparece o afecto a cada uma destas mulheres que, como ele diz no título, «tomaram partido».

Tomar partido era, nesse tempo de trevas, sujeitarem?se ao desconforto, ao mau passadio e correr o risco da prisão, da tortura, de todos os vexames que é possível infligir a uma mulher.

João Céu e Silva interroga e elas respondem, mulheres de Lisboa ou do Couço, de origem burguesa ou operária ou camponesa e nos depoimentos, geralmente muito simples e directos, falam das famílias, dos estudos, as que os tiveram, da tomada de consciência, das privações da clandestinidade, do seu sentido de missão (de como se sacrificavam para dar apoio à imprensa clandestina e quanto sofriam por vezes de solidão), dos companheiros que acabavam por escolher, dos camaradas com quem por vezes simulavam estar casadas, das qualidades de uns e outros, do machismo residual de alguns. E uma luz de sacrifício, de coragem, de superação dos limites banha muitas dessas páginas.

É um documento valiosíssimo e, na sua humildade, cheio de grandeza.

Álvaro Cunhal está, mesmo quando ausente, muito presente neste livro, a partir de memórias, do conhecimento que dele tiveram muitas dessas heroínas apagadas.

Aqui surgem figuras brilhantes, no coração da batalha, como outras menos notórias mas não menos generosas, que foram nalguns casos terrivelmente marcadas pelo sofrimento e por experiências de autêntico martírio, quase incríveis, tão sujos e brutais nos surgem aqui descritos os «interrogatórios».

Registo alguns nomes (o inventário está longe de se esgotar na história destas tão naturais, tão singelas heroínas) para vos convidar a mergulhar nestas conversas reais, na descoberta de um mundo sempre surpreendente: Maria Júlia Mendes Brito, Maria Machado, Georgette Ferreira, Sofia Ferreira e Mercedes Ferreira, Maria Armanda Serra, Maria Carvalho, a já citada Margarida Tengarrinha, Maria da Piedade Gomes, Teodósia Gregório, Isaura Moreira, Sisaltina Santos, Conceição Matos, talvez de todas a mais cruelmente torturada, Veríssima Rodrigues, Maria Lourença Cabecinha, Laura Vieira, Olímpia Braz, Ortelinda Nunes, Narcisa Aleixo, Vitalina Pires, Francisca Aço, Margarida Nunes, Maria Galveias, Catarina Pires.

Maria Eugénia Cunhal fala das lembranças que tem do irmão Álvaro. João Céu e Silva esteve em muitos centros de trabalho do PCP, andou pelo Couço e pelo Barreiro, recolheu todo este material vivo e autêntico, forte e comovente, compilou testemunhos riquíssimos do ponto de vista histórico, sociológico e humano.

Mostra?nos o Portugal secreto dos anos do fascismo, com incidência nos duros anos quarenta e cinquenta.

Devemos?lhe uma palavra de agradecimento, não só os comunistas, mas os portugueses em geral por esta desocultação da história, por este contacto tão próximo que nos proporciona com as mulheres que, afrontando todos os riscos e dificuldades, especialmente a prisão, que a muitas arruinou a saúde, consagraram os melhores anos das suas existências às tarefas clandestinas da resistência.

(*)Asa Editora, Porto, 2006, 332 pp.

in AVANTE 2006.11.16

domingo, abril 15, 2007



A fala do índio

“As vastas e abertas planícies, as belas colinas e as águas que em meandros complicados serpenteiam, não eram, aos nossos olhos, “selvagens”. Só o homem branco via a natureza selvagem, e só para ele estava a terra “infestada” de animais “selvagens” e gentes “selvagens”. Para nós ela era mansa. A terra era caritativa e sentíamo-nos rodeados pelas bênçãos do Grande Mistério. Só se tornou para nós hostil com a chegada do homem peludo do Leste, que nos oprime, a nós e às nossas famílias que tanto amamos, com injustiças insanas e brutais. Foi quando os animais da floresta se puseram em fuga, à medida que ele se aproximava, que para nós começou o “Oeste selvagem”.”

* Chefe Luther Standing Bear , do grupo Oglala dos Sioux


“Aprendi muitas palavras inglesas, e poderia até recitar em parte os Dez Mandamentos. Sabia como dormir numa cama, como rezar a Jesus, como pentear o cabelo, sabia comer com uma faca e um garfo e utilizar um quarto de banho… Aprendi também que uma pessoa pensa com a cabeça, em vez de o fazer com o coração.”(1)

* Sun Chief, índio Hopi

"Pergunto-me se a terra tem algo a dizer. Pergunto-me se o solo ouve aquilo que se diz. Pergunto-me se a terra nasceu para a vida, e o que há debaixo dela. E no entanto eu ouço o que a terra diz. A terra diz: "Foi o Grande Espírito que aqui me pôs. O Grande Espírito pede-me que tome conta dos índios, que os alimente bem. O grande Espírito encarregou as raízes de alimentarem os índios." A água diz o mesmo: "O Grande Espírito conduz-me: alimenta bem os índios." A erva diz o mesmo: "Alimenta bem os índios." A terra, a água e a erva dizem: "O Grande Espírito deu-nos nomes." A terra diz: "O Grande Espírito colocou-me aqui para eu produzir tudo quanto cresce sobre mim, árvores e frutos." Da mesma maneira, a terra diz: "É de mim que o homem foi feito." O Grande Espírito, ao pôr os homens sobre a terra, quis que eles tomassem conta dela muito bem, e que não se prejudicassem uns aos outros..."

* (Discurso proferido por ocasião de um conselho índio no Vale de Uala-Uala, em 1855, pelo Chefe Moço dos Caiuses)

“Antes de falar de coisas sagradas, nós preparamo-nos por meio de oferendas... um de nós há-de encher o seu cachimbo e oferecê-lo ao outro, que o há-de acender e oferecer ao céu e à terra... hão-de fumar juntos... É então que ficam prontos para falar*.”

* Mato-Kuwapi, índio sioux
Que tratado houve que os homens brancos tenham respeitado e o homem vermelho rompido? Nenhum. Que tratado houve que o homem branco alguma vez haja feito connosco e ele tenha respeitado? Nenhum. Quando eu era criança, os Sioux eram senhores do mundo; o sol nascia e punha-se dentro das suas terras e podiam enviar dez mil homens ao combate. Onde estão hoje esses guerreiros? Quem os terá chacinado? E as nossas terras, onde estão? Quem será que as possui? Que homem branco poderá sustentar que eu alguma vez lhe tenha roubado a terra ou um só centavo do seu dinheiro? E apesar disso chamam-me ladrão. Que homem branco, mesmo sozinho, foi alguma vez feito cativo ou insultado por mim? E apesar disso clamam que eu sou um índio ruim. Que homem branco me terá alguma vez visto bêbado? Quem terá alguma vez chegado ao pé de mim com fome e se foi embora sem comer? E alguém me terá visto alguma vez bater nas minhas mulheres ou maltratar os meus filhos? Que lei terei eu quebrado? Não terei eu razão por ser fiel à minha própria lei? Acaso será um mal que eu tenha a pele vermelha? Que seja um sioux? Que tenha nascido onde meu pai viveu? Que morra pelo meu povo e pela minha terra?
* TOURO SENTADO (Sitting Bull)

"Estou cansado de combater. Os nossos chefes foram mortos. Os velhos morreram todos. São os jovens quem diz que sim ou que não. Aquele que chefiava os jovens morreu. Está frio e não temos mantas. As crianças estão a morrer geladas. O meu povo, o pouco que resta dele, fugiu para as montanhas e não tem mantas nem comida. Ninguém sabe onde eles estão - talvez a morrer gelados. Queria ter tempo para procurar os meus filhos e ver quantos deles posso encontrar. Talvez os encontre entre os mortos. Ouçam-me os meus chefes. Estou cansado. O meu coração está doente e triste. Daqui, onde o sol agora está, não mais lutareis."

* José, chefe dos Nez Percé

"O Grande Espírito fez-nos a ambos: deu-vos terras e deu-nos terras; vós viestes para aqui e nós respeitámo-vos. Quando viestes, ao princípio, nós éramos muitos e vós poucos, agora vós sois muitos e nós estamos a tornar-nos muito poucos e muito pobres. Eu represento a nação Sioux. Nós não queremos riquezas, mas queremos os nossos filhos ensinados e criados convenientemente."

* Nuvem Vermelha, Chefe dos Sioux

O Lakota era um verdadeiro amante da natureza. Amava a terra e todas as coisas boas da terra, e esse afecto crescia com a idade. Os idosos chegavam literalmente a amar o solo; sentavam-se ou repousavam na terra com o sentimento de se aproximarem das forças maternais. Era bom para a pele o contacto com a terra, e as pessoas idosas gostavam de tirar os mocassins e andar de pés descalços sobre a terra sagrada. Os seus tipis erguiam-se nesta terra de que eram feitos os seus altares. Os pássaros que voavam nos ares vinham repousar-se nela e a terra era o lugar permanente de todas as coisas que viviam e cresciam. O solo suavizava, fortificava, lavava e curava. É por isso que o velho índio se afinca ao solo, em vez de se separar das forças da vida. Para ele, sentar-se ou deitar-se assim consiste em poder pensar mais profundamente e em sentir mais vivamente; contempla assim mais claramente os mistérios da vida e sente-se mais próximo das forças vivas que o envolvem… Esta relação que ele mantém com todas as criaturas da terra, do céu e da água constituía um princípio real e activo. O velho índio tinha um sentimento de fraternidade para com o mundo dos pássaros e dos animais, e estes retribuíam-no com a confiança. Era tão estreita a familiaridade entre certos lakotas e os seus amigos de penas ou de peles que, tal como se fossem irmãos, falavam a mesma linguagem.

O velho lakota era sábio. Sabia que o coração do homem afastado da natureza se torna duro; que a falta de respeito para com o que cresce e vive depressa conduz também à falta de respeito para com os humanos. Por isso mantinha ele os jovens sob a mansa influência da natureza.

Chief Luther Standing Bear

Há uma floreira que vai deixando que as nuvens entrem à raiz dos malmequeres. Sabe-se lá se no Abril que vem haverá flor, não sei. E um texto índio vem à luz: “Antes de falar de coisas sagradas, nós preparamo-nos por meio de oferendas... um de nós há-de encher o seu cachimbo e oferecê-lo ao outro, que o há-de acender e oferecer ao céu e à terra... hão-de fumar juntos... É então que ficam prontos para falar*.”Assim é que, tendo deixado para trás o fumo, as silhuetas para o céu, eu deitaria a boca ao cachimbo, ou à chavena de um chá, só para poder entrar de novo no vício do sagrado, um toque no mistério dos malmequeres.

*
Mato-Kuwapi, índio sioux


EMPOBRECIMENTO ESPIRITUAL

«O sofrimento do homem índio, ao assistir à morte do seu modo de vida, nunca foi inteiramente compreendido pelo homem branco, e talvez nunca o venha a ser. Quando Black Elk, um profeta dos Sioux Oglala, fala da «beleza e singularidade da terra», refere-se à veneração do meio ambiente quotidiano, um meio ambiente que se encontrava numa integral interdependência com a vida do Índio. A destruição dos rebanhos selvagens e a invasão das terras ancestrais conduziram à degenerescência e à morte duma certa forma de vontade e dum certo estado de espírito dos povos índios. O que os Índios eram não poderia, sem um empo­brecimento espiritual grave, ser separado do seu habitat e do modo como nele viviam.

Os Índios, neste livro, falam por si mesmos da qualidade de vida que era a sua. As passagens apresentadas provêm de discursos e, mais recentemente, de artigos de índios que vivem em todas as regiões do continente norte-americano, entre os séculos XVI e XX. Referem-se sempre com uma atenção respeitosa à terra, aos animais, aos objectos que constituíam o território onde viviam; não viram mérito nenhum no facto de imporem a sua própria vontade àquilo que os rodeava; a quase totalidade dentre eles considerava a propriedade privada como o caminho conducente à pobreza, e não à riqueza. A sua razão de viver identificava­-se com as suas relações recíprocas, e as suas relações com a terra natal; a memória dava profundidade e ressonância a este conjunto.»

Teri C. McLuhan, in " A Fala do Índio".
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in “ A fala do índio”- Teri C. McLuhan – edições Fenda

A Fala do Índio


Apreciação:

Este livro é constituído por uma compilação de textos sobre os índios que vivem e viveram no território dos actuais Estados Unidos da América e Canadá. Os assuntos nele versados procuram dar a conhecer tradições e pensamentos que caracterizam esses povos, sobretudo nas suas relações com a terra, as forças da natureza e a sua religião, bem como o confronto dos seus modos de vida com os povos do Ocidente, com quem contactaram à medida que estes iam construindo os actuais países onde vivem os índios.

O livro está ilustrado por fotos a preto e branco de interesse.

Trata-se de uma obra cuja tradução para português permite conhecimentos curiosos e originais, que de noutra forma não seriam acessíveis aos leitores da nossa língua, tornando possível a abordagem dos temas em causa, mas duvidamos de que possam interessar um largo público leitor, para lá de pessoas que gostem de conhecer temas de antropologia cultural de civilizações reduzidas a áreas restritas.


José Manuel Garcia, 2000