
Mercado: Dom Quixote e Nova Gaia
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* Fátima Vilas Boas
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in Correio da Manhã 2007.12.29
"e como que a experiência é a madre das cousas, por ela soubemos radicalmente a verdade" (Duarte Pacheco Pereira)






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| Biografia, ficção, ensaio histórico, correspondência ou BD, são vários os géneros que já contam com edições inspiradas em Salazar. Ainda que a bibliografia, quantitativamente falando, esteja longe do que seria de esperar atendendo ao papel do ditador na sociedade portuguesa e à longevidade do Estado Novo, o interesse despertado pelo tema nos últimos anos tem tido equivalência nos títulos que chegam às livrarias. Há um novo filão editorial. Como se Levanta um Estado (Atomic Books), do próprio Salazar, o "cartão de visita" do Pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Paris de 1937, figura entre as novidades de 2007. Tal como Vítimas de Salazar: O Estado Novo e a Violência Política (Esfera dos Livros), de João Madeira, Irene Flunser Pimentel e Luís Farinha. A mesma editora já publicara Os Amores de Salazar, de Felícia Cabrita. De Fernando Dacosta, Máscaras de Salazar (Casa das Letras) já vendeu mais de 50 mil exemplares e vai na segunda versão, revista e aumentada. Salazar e Caetano - Cartas Secretas 1932-1968 (Difusão Cultural), de José Freire Antunes, enquadra historicamente cerca de 500 cartas trocadas entre dois homens que governaram o País. O Diário de Salazar (Parceria A.M.Pereira), de António Trabulo, transforma textos do Presidente do Conselho numa espécie de diário ficcionado. Salazar: Construção de um Mito (Temas e Debates), de Helena Matos, retrata a máquina de propaganda. Salazar e o Vaticano (ICS), de Bruno Cardoso Reis, analisa a "aliança" com a Igreja. E Salazar e a Europa (Livros Horizonte), de Elsa Santos Alípio, debruça-se sobre a adesão à EFTA (Ass. Europeia de Comércio Livre). Em BD, com textos de João Paulo Cotrim e desenhos de Miguel Rocha, está publicado Salazar - Agora, na Hora da sua Morte (A.M.Pereira). Valentim Alexandre deu à estampa a investigação O Roubo das Almas -Salazar, a Igreja e os Totalitarismos entre os Anos de 1930 e 1939 (Dom Quixote). Noutro registo, Uma Brasileira Contra Salazar (Livros Horizonte), de Arajaryr Campos, recolhe postumamente textos da secretária de Humberto Delgado, morta pela Pide. «Entre os "clássicos", destacam-se Salazar - A Mocidade e os Princípios (Atlântida Editora), biografia pioneira de Franco Nogueira, que foi embaixador e ministro do regime; e Entrevistas de António Ferro a Salazar (A.M. Pereira), com as conversas no Diário de Notícias. P. L. in DIÁRIO DE NOTÍCIAS 2007.04.27 |


http://adasartes.blogspot.com/2007/03/todos-os-autores-dia-31.html
Com uma óbvia oportunidade, o livro recentemente editado sob o título de “Vítimas de Salazar” (*) representa uma súmula de vários aspectos da pesada face negra dos tempos sob a ditadura de Salazar. Obra de uma equipa de historiadores, nela perpassa o essencial de um passado culturalmente (não politicamente?) ainda presente em que, pela distância de uma incerta vivência democrática, não deixa de provocar espanto. Suponho que a admiração maior calhará às gerações pós-abril que terão dificuldade em imaginar-se viverem em tamanho sufoco repressivo. Mas mesmo para as gerações que viveram a ditadura, admito que esta revisita do salazarismo ainda perturbe como retorno de pesadelo.
E se a distância, normalmente um importante factor positivo e essencial para qualquer abordagem histórica, é propícia a uma apreciação mais fria, abrangente e documentada do passado histórico, não é menos verdade que ela é aproveitada pelos gestores do silêncio e do apagamento dos contrastes. Portanto, campo livre para o revisionismo e a recuperação saudosista. Com Salazar, foi isso que aconteceu. O que espreita e é aproveitado atrás dos recuperadores de Salazar, gerindo-lhe e alimentando o mito, é uma mescla de múltiplos vectores: sobreviventes desse tempo que não combateram Salazar (e a maioria dos que viveram o seu tempo não o combateu, por medo, por servilismo ou por benefício); os das mais jovens gerações que desiludidos com o rumo e resultados democráticos, são atreitos a uma projecção negativista radical do presente (fazendo-o para um futuro utópico de revolução libertadora ou pelo retrocesso passadista); os incrédulos, por ignorância, da face negra do salazarismo; os relativistas que se empenham em salientar o cotejo dos limites repressivos do salazarismo com outros fascismos da época.
Numa sucessão de abordagens conformes á metodologia histórica, documentalmente suportada, os autores deste livro revisitam o pesadelo do tempo vivido sob o mando absolutista de Salazar, desdobrado nas várias facetas em que o regime reprimia, controlava e definia os limites das vivências permitidas. Nas quais, só três vias eram consentidas: o colaboracionismo (em grande número, um “colaboracionismo miserável”, como o dos “bufos” e “informadores”); o conformismo (sobretudo o de “a minha política é o trabalho”); a resistência e oposição (para quem o regime usava uma mão pesada e brutal). Os vários capítulos deste livro tratam, sobretudo, deste último (e reduzido) grupo, afinal o sustentáculo das raízes de que saiu a democracia e que depois havia de incorporar activamente os colaboracionistas e os conformistas. Mais, é claro e felizmente, as gerações crescidas ou já nascidas em sociedade democrática (toda ela, uma negação total e absoluta da sociedade salazarista). A censura, a vigilância sobre as conversas telefónicas e o correio, a rede de “bufos” e informadores, a prisão política e a prática de torturas, os julgamentos por juízes-polícias com possibilidade de aprisionamento como “medida de segurança”, os saneamentos da função pública, a deportação e o exílio, os campos de concentração, o controlo político das Forças Armadas, as milícias fascistas, a repressão aos estudantes, a liquidação do protesto sindical, os assassinatos políticos, as fraudes eleitorais, são as faces negras do salazarismo, as vividas pelas suas vítimas, expostas neste livro e atiradas à cara dos saudosistas de Salazar. Impensáveis hoje mas essenciais então para a conservação de um regime hiper autoritário.
Um livro eminentemente útil num tempo em que, pela ignorância e pelo apagamento programado da memória, um punhado de maníacos saudosistas mobiliza, pelo telemóvel, votos televisivos para o ditador nefando como sendo um “grande português”.
(*) – “Vítimas de Salazar – Estado Novo e Violência Política”, João Madeira, Irene Pimentel, Luís Farinha e Fernando Rosas, Edições “A Esfera dos Livros”
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Adenda: Quase em coincidência, também Miguel Cardina faz apreciação deste livro oportuno.
http://agualisa6.blogs.sapo.pt/209856.htm
Existe já uma considerável produção memorialística proveniente do diversificado campo da oposição ao Estado Novo. Em 2001, António Ventura publicou o catálogo Memórias da Resistência. Literatura autobiográfica da resistência ao Estado Novo, no qual antologiou noventa e nove extractos de livros escritos por activistas da luta contra o regime de Salazar e Caetano. Desde essa data, mais livros – subtraia-se à contabilidade as inúmeras crónicas ou testemunhos sobre o assunto – foram adicionados a esta lista, estando actualmente o número de relatos desta natureza bem acima da centena. Um exemplo último foi a edição das memórias de Edmundo Pedro, dedicadas ao período da sua formação ideológica e permanência no campo de concentração do Tarrafal.
Por outro lado, e no campo académico, a abordagem dos processos de luta oposicionista tem vindo a interessar um número crescente de investigadores, com alguns deles a deslocarem o foco de atenção para o «outro lado», o lado dos mecanismos, dos fenómenos e dos actores da repressão política. Recentemente, duas teses de doutoramento foram dedicadas a esta temática. Em 2004, Dalila Cabrita Mateus publicou A PIDE/DGS na Guerra Colonial: 1961-1974 – tendo, em 2006, dado à estampa Memórias do Colonialismo e da Guerra, conjunto de quarenta entrevistas, efectuadas no âmbito do referido trabalho, a portugueses e africanos perseguidos pelo seu empenhamento independentista – e Irene Flunser PimentelA Polícia Internacional de Defesa do Estado. Direcção Geral de Segurança (PIDE/DGS). História da Polícia Política do Estado Novo, cuja publicação se anseia para breve. apresentou, já este ano,
Vítimas de Salazar, de João Madeira, Irene Flunser Pimentel e Luís Farinha, permite percorrer esse duplo caminho que atravessa resistência e repressão. Ao mesmo tempo que aborda a violência cometida pelas autoridades, recupera o rosto daqueles que arriscaram romper o cerco e lutar, das mais variadas formas, contra o regime ditatorial. Como declara João Madeira na introdução, este não é o estudo sistemático «que é globalmente indispensável» e «que tem vindo a ser parcelarmente realizado» sobre este domínio. Ainda assim, convém esclarecer que a obra não se limita a coligir e elucidar situações mais ou menos emblemáticas, mais ou menos desconhecidas – tarefa já de si altamente louvável – mas proporciona uma útil visão de conjunto sobre os mecanismos da repressão política.
No prefácio, Fernando Rosas elabora algumas considerações sobre os dois temas que, visível e invisivelmente, percorrem a obra: a violência e a memória. Sobre esta, Rosas salienta que a revolução de 1974/75 se fez, desde logo, em nome da «memória do antifascismo», o que explicaria o assalto à PIDE, a libertação dos presos políticos, a liquidação do partido único e da censura, a extinção da Legião Portuguesa (LP), da Mocidade Portuguesa (MP) e da Mocidade Portuguesa Feminina (MPF), bem como os saneamentos de governantes, delatores e colaboradores do regime.
Num segundo momento, colocado na curva da década de setenta para a década de oitenta, teria emergido uma «cultura de negação/revisão» dessa memória que fora dominante durante o biénio revolucionário. Fernando Rosas identifica três manifestações deste processo: 1. «a anulação ou esvaziamento prático de grande parte das medidas de justiça exigidas e parcialmente impostas»; 2. «o prolongado fecho de alguns arquivos essenciais à investigação histórica do Estado Novo e suas instituições»; 3. «a construção progressiva de um discurso de revisão historiográfica», que não tem a ver com a querela relativa a classificação (ou não) do regime como um fascismo, mas com uma dada interpretação que lhe enfatiza o lado civilista. Liderada por um professor catedrático e temperada por uma «matriz católica», a ditadura portuguesa ter-se-ia caracterizado pelo seu «baixo teor de violência».
É precisamente sobre a questão da violência, central neste volume, que Rosas faz mais algumas breves alusões. Enquanto projecto de superação do liberalismo e de cura da Nação através da erradicação dos «traidores da Pátria», a violência dos regimes de tipo fascista era «potencialmente irrestrita», variando a sua extensão de acordo com as circunstâncias e as possibilidades. A durabilidade dos regimes implicaria, pois, uma cuidadosa gestão entre a «violência preventiva» e a «violência punitiva», caminhos apostados em «enquadrar a massa»«moldar os espíritos». e
A primeira seria a forma mais constante, ainda que menos evidente, de violência política, e sustentava-se na intimidação, na dissuasão e no medo. Neste campo jogaram um papel essencial a igreja católica – sobretudo até a década de cinquenta –, o aparelho censório e os organismos estatais de inculcação ideológica. Aqui se traçava um «primeiro círculo de segurança que toda a gente que não quisesse correr sérios riscos ou arranjar problemas graves, interiorizava não poder pisar». O segundo domínio da violência – o da repressão directa – agia sobre um número quase sempre mais escasso de indivíduos e servia-se de uma rede própria: a PIDE, a PSP, a GNR, a LP, os tribunais especiais, as prisões e os campos de concentração, bem como por uma legislação penal que suportava e permitia uma série de arbitrariedades.
Mobilizando uma quantidade apreciável de documentos, informações e testemunhos, os autores de Vítimas de Salazar desenham um retrato inequívoco da identidade agressiva do Estado Novo. Nele se destacam as perseguições, os assassinatos, os interrogatórios da PIDE – onde, como lembrou o psiquiatra Afonso de Albuquerque, o que interessava não era fazer falar mas «a destruição da personalidade do preso e a criação de um clima de terror» – ao mesmo tempo que se vai apontando a referida «violência preventiva»: a censura, as escutas telefónicas, o medo, a mentalidade delatória, a violação de correspondência, as estruturas ideológicas do regime, são alguns dos temas documentados. Não se confundindo, pois, com um libelo acusatório, o livro não abdica de «tomar partido», isto é, de mostrar que na dialéctica entre torcionários e vítimas, delatores e perseguidos, opressores e oprimidos, a dignidade está apenas num dos lados.
João Madeira, Luís Farinha, Irene Flunser Pimentel (2007), Vítimas de Salazar. Estado Novo e Violência Política. Prefácio de Fernando Rosas. Lisboa: A Esfera dos Livros. 452 pp. [ISBN 978-989-626-044-6]
http://ppresente.wordpress.com/textos/a-violencia-o-medo-e-os-rostos-defronte/
| É quase Abril... 18-04-2007 * Francisco Queirós | |
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| Obra recorda História de Portugal através de frases emblemáticas |
| Tiradas de governantes, escritores, actores e outros intervenientes na cena política ou cultural portuguesa foram reunidas em "Frases que fizeram a História de Portugal", editado esta semana pela Esfera dos Livros. |
Da autoria dos jornalistas Ferreira Fernandes e João Ferreira, o livro reúne cerca de 250 frases que se tornaram emblemáticas por diversas razões, sendo conhecidas ainda hoje na sua versão original ou alteradas pelos mediadores.
É o caso do alegado verso de "Os Lusíadas", de Luís de Camões, "Aquela que depois de morta foi rainha", sobre Inês de Castro, que difere daquilo que o poeta realmente escreveu e que foi "Aquele que depois a fez rainha", referindo-se a D.Pedro (1320-1367).
O livro permite ainda recordar a origem de expressões comuns como "arraia miúda", que Fernão Lopes (1380-1460, sensivelmente) usou para se referir ao povo nas suas "Crónicas" e que tem caracterizado as massas populares ao longo dos séculos.
Outro caso é o da frase "à grande e à francesa" relativa aos modos luxuosos do general Jean Andoche Junot (1771-1813), auxiliar de Napoleão que chegou a Portugal na primeira invasão francesa, e dos seus acompanhantes, que se passeavam vestidos de gala pela capital.
"Frases que fizeram a História de Portugal" permite ainda conhecer a origem de expressões celebrizadas por um uso posterior.
"Felizmente há luar" é uma frase de Dom Miguel Pereira Forjaz, secretário do governo da regência nomeada por Dom João VI, a dizer que a noite de 18 de Outubro de 1817 estava boa para o enforcamento de um grupo de revoltosos contra a ocupação inglesa de Portugal.
O episódio inspiraria a peça de teatro homónima de Luís de Sttau Monteiro, que, por chamar a atenção sobre a repressão e as perseguições políticas no Estado Novo, esteve proibida até 1974.
A obra dos dois jornalistas revela também os erros que Luís António Verney (1713-1792), autor de "O Verdadeiro Método de Estudar", apontava, há mais de dois séculos, ao sistema educativo português quando escreveu "É lástima que homens que passaram tantos anos mas escolas não saibam escrever uma carta!".
O sentido crítico é ainda o ponto forte de "O governo não há- de cair - porque não é um edifício. Tem que sair com benzina - porque é uma nódoa", frase de "O Conde de Abranhos", de Eça de Queiroz (1845- 1900) que, ainda hoje, circula regularmente por e-mail.
"Queres fiado? Toma!", a legenda com que Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) fez acompanhar a figura do Zé Povinho a fazer o manguito (caricatura do português ignorante e explorado pelo poder), é outra das expressões indexadas nesta obra da Esfera dos Livros.
O sector político é dos mais bem representados no livro de Ferreira Fernandes e João Ferreira.
São disso exemplo as frases de Salazar (1889-1970) "Para Angola, rapidamente e em força", adaptada da intervenção que fez em 1961, na tomada de posse de um governo remodelado que tinha Adriano Moreira à frente do Ministério do Ultramar, ou "Orgulhosamente sós", retirada de um discurso de 1965, quando o facto de manter as colónias em África valia a Portugal o isolamento político.
"Meia dúzia de safanões a tempo", frase que - com algumas variantes - se escuta por vezes nos debates sobre métodos educativos, também foi dita por Salazar, numa entrevista em que António Ferro o questionou sobre "rumores" de torturas a presos políticos.
Incluída no livro está também o "Obviamente, demito-o", que o general Humberto Delgado disse a 10 de Maio de 1958, em Lisboa, na conferência de imprensa de apresentação da sua candidatura à Presidência da República.
Humberto Delgado respondia assim a um jornalista da Agência France Presse, que lhe perguntou o que faria em relação a Salazar se fosse eleito a 08 de Junho de 1958, data em que o "General Sem Medo" perdeu para Américo Tomás devido a uma fraude eleitoral.
Américo Tomás (1894-1987) que também não foi esquecido, pois frases como "É a primeira vez que estou cá desde a última vez que cá estive" valeram-lhe uma secção especial na revista Seara Nova, ligada à oposição, como recorda o volume agora publicado.
A organização cronológica das máximas termina com o exemplo recente de "Nunca me engano e raramente tenho dúvidas" - frase atribuída a Aníbal Cavaco Silva, que a terá dito em 1990 durante uma entrevista, algo que o actual Presidente da República já refutou.
Agência LUSA
2006-03-13 17:36:17
CONTRIBUTOS PARA A HISTÓRIA DAS MULHERES EM PORTUGAL NO SÉCULO XX:Publicação resultante da tese de mestrado da autora, Mulheres em tempos sombrios. Oposição feminina ao Estado Novo, de Vanda Gorjão, é um trabalho que nos dá a conhecer a actividade desenvolvida pelas mulheres portuguesas (algumas delas e alguma oposição- a oposição de elites) que não concordavam nem se enquadravam nos princípios e organizações femininas criadas e existentes durante o período da Ditadura.
Fazendo análise em vários domínios e debruçando-se sobre várias realidades, a autora apresenta-nos uma obra com a seguinte orgânica interna:
CAPÍTULO I- A infância. As famílias de origem. Socialização política.
CAPÍTULO II- Dinastias políticas. Adolescência e juventude. A escola.
CAPÍTULO III- A politização da vida adulta. Inserção profissional. Novas dinastias políticas.
CAPÍTULO IV- Oposição feminina ao Estado Novo (1). O Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e a Associação Feminina Portuguesa para a Paz.
CAPÍTULO V- Oposição feminina ao Estado Novo (2). Mulheres nos grupos oposicionistas unitários e "comissões femininas".
CAPÍTULO VI- As prisões políticas. Exercício activo da cidadania. Perfis de mulheres políticas.
CONCLUSÃO
Para complementar esta informação transcrevemos excertos da "Introdução" que é feita à pesquisa e investigação.
Referência bibliográfica:
GORJÃO, Vanda- Mulheres em tempos sombrios. Oposição feminina ao Estado Novo. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 2002 (Colecção Estudos e Investigações, 24).
INTRODUÇÃO
(...)
Houve diversos tipos de oposição conduzida por mulheres. A sua configuração e as respectivas dinâmicas variaram em função de muitos factores, entre as quais a composição social dos meios oposicionistas. Camponesas e operárias fizeram protestos graves, marchas de fome, juntaram-se em concentrações (frequentemente levando os filhos) contra a falta de géneros, o racionamento do pão, ou exigindo aumentos de salários. Nos bastidores da clandestinidade comunista, as "companheiras" asseguraram a fachada da normalidade da vida familiar, numa partilha de responsabilidades políticas com os "camaradas" que actuavam no exterior. Deixei de lado essa face anónima da oposição feminina e resolvi tomar por objecto um outro tipo de oposição que podemos designar por oposição de elites.
Para além de indicadores que demonstram a integração em meios privilegiados da burguesia ou das classes médias urbanas, e em círculos sociais e culturais restritos, duas outras características ajudam a definir a especificidade deste tipo de oposição. A primeira diz respeito aos posicionamentos ideológicos e políticos: participando numa mesma frente de luta por um regime democrático, as mulheres que integraram a oposição de elites eram liberais, republicanas, socialistas, comunistas ou anarco-sindicalistas, eram feministas e pacifistas, aderiram à maçonaria ou ao catolicismo progressista. Nos seus posicionamentos ideológicos e políticos estava, pois, representado o vasto leque de culturas e tradições que, em certos momentos, confluíram na unidade democrática oposicionista.
Uma segunda característica é que o meio em que se moviam não era apenas socialmente mais visível como estava impregnado por uma forte cultura de individualidade. Algumas dessas mulheres notabilizaram-se em termos culturais, profissionais ou políticos, ganhando reconhecimento consensual entre os pares. Foram mulheres "nomeadas", tiveram visibilidade nos grupos oposicionistas a que se associaram e, em alguns casos, essa visibilidade alargou-se ao espaço público. Muitas têm uma trajectória de luta conhecida: pertenceram a organizações antifascistas unitárias, criaram movimentos e grupos femininos, foram do Partido Comunista, foram perseguidas pelo regime salazarista, por vezes presas e exiladas. Mais tarde, após 1974, iriam participar no processo de transição democrática. (...)
Demoradamente ou mais de passagem, as mulheres referidas ao longo deste estudo são, entre outras, Alda Nogueira, Beatriz Almeida Cal Brandão, Cândida Ribeiro Gaspar, Casina Bermudes, Cecília Areosa Feio, Francine Benoit, Guida Lamy, Ilse Losa, Irene de Castro, Irene Cortesão, Irene Lisboa, Isaura Silva Borges Coelho, Josefina Simões, Luísa Irene Dias Amado, Manuela Porto, Maria Archer, Maria Barroso, Maria Branca Lemos, Maria das Dores Cabrita, Maria Elvira Cortesão, Maria Emília Tito de Morais, Maria Estanco Louro, Maria Eugénia Varela Gomes, Maria Fernanda Silva, Maria Helena Correia Guedes, Maria Isabel Aboim Inglez, Maria Keil do Amaral, Maria Lamas, Maria Letícia Clemente da Silva, Maria Luísa Costa Dias, Maria da Luz Espírito Santo, Maria Valentina Trigo de Sousa, Stella Piteira Santos e Virgínia Moura. (...)
Vejamos as balizas cronológicas em que nos situamos. Recuando à primeira República e prolongando-se até depois do 25 de Abril de 1974, a análise incide fundamentalmente no intervalo de tempo que vai de 1945 até ao começo dos anos 60, que corresponde a um ciclo político aberto com a reorganização da oposição no pós-guerra e encerrado com a candidatura gorada de Humberto Delgado às eleições presidenciais, o desânimo da oposição anti-fascista e o incremento da repressão política do regime. Curiosamente, esse intervalo de tempo foi uma espécie de eixo cardinal tanto nas temporalidades da história do Estado Novo como no ciclo de vida da maioria das mulheres consideradas: coincidiu com o fim da juventude e a fase crucial da vida adulta, em que se casa, se tem filhos e se define os parâmetros de uma carreira profissional. Dois episódios marcam mesmo, como iniciação ou confirmação, o seu envolvimento político: a constituição do Movimento Unitário Democrático (MUD) em 1945 e a criação do MUD Juvenil em 1946, episódios que vincularam a afirmação de uma nova geração de oposicionistas às primeiras esperanças de democratização do país, logo frustradas. (...)
Publicado por sandra em outubro 18, 2003 (Sandra Cristina Almeida)
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* (Discurso proferido por ocasião de um conselho índio no Vale de Uala-Uala, em 1855, pelo Chefe Moço dos Caiuses)
* TOURO SENTADO (Sitting Bull)Que tratado houve que os homens brancos tenham respeitado e o homem vermelho rompido? Nenhum. Que tratado houve que o homem branco alguma vez haja feito connosco e ele tenha respeitado? Nenhum. Quando eu era criança, os Sioux eram senhores do mundo; o sol nascia e punha-se dentro das suas terras e podiam enviar dez mil homens ao combate. Onde estão hoje esses guerreiros? Quem os terá chacinado? E as nossas terras, onde estão? Quem será que as possui? Que homem branco poderá sustentar que eu alguma vez lhe tenha roubado a terra ou um só centavo do seu dinheiro? E apesar disso chamam-me ladrão. Que homem branco, mesmo sozinho, foi alguma vez feito cativo ou insultado por mim? E apesar disso clamam que eu sou um índio ruim. Que homem branco me terá alguma vez visto bêbado? Quem terá alguma vez chegado ao pé de mim com fome e se foi embora sem comer? E alguém me terá visto alguma vez bater nas minhas mulheres ou maltratar os meus filhos? Que lei terei eu quebrado? Não terei eu razão por ser fiel à minha própria lei? Acaso será um mal que eu tenha a pele vermelha? Que seja um sioux? Que tenha nascido onde meu pai viveu? Que morra pelo meu povo e pela minha terra?
A Fala do Índio | ||
de McLuhan, Teri C. Editora: Fenda | ||
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