A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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quarta-feira, fevereiro 10, 2010

São os Estados Unidos reformáveis? - por Serge Halimi



São os Estados Unidos reformáveis?

(dossiê «Obama: balanço de um ano»)
por Serge Halimi

A luta política favorece por vezes as oposições personalizadas, as rejeições obsessivas. As necessidades da luta frontal criam então reagrupamentos heteróclitos cuja única motivação é o desejo de destruírem o mesmo alvo. Os dissabores, porém, começam logo que esse inimigo é abatido. E com os dissabores, surge a pergunta: e agora, que fazer? No encadeamento das opções políticas, os equívocos que favoreciam o antigo pacto dos opositores têm de ser revogados; o desencanto instala-se. Depois, passado não muito tempo, o detestado adversário volta ao poder. E a sua passagem pela oposição não o tornou mais amável.
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Este esquema já teve aplicação na Itália de Silvio Berlusconi. Vencido em 1995 por um centro-esquerda simultaneamente descorado, heteróclito e sem projecto, voltou a triunfar seis anos depois. Agora, também na França de Nicolas Sarkozy se multiplicam as alianças de circunstância, ora entre partidos (ecologistas, centristas, socialistas), ora entre personalidades (Dominique de Villepin, num apelo contra o governo, ao lado de Olivier Besancenot, de quem tudo o separa). Um único alvo, o chefe de Estado. Muito bem; e depois?
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O tríptico que a coligação ocasional, a proposta política indecisa e a decepção programada constituem remete-nos também para a actualidade americana. Há um ano, a derrota dos republicanos e o fim da presidência de George W. Bush causaram um momento de regozijo. Mas agora esse entusiasmo parece ter chegado ao fim, embora uma parte do eleitorado, cujas condições não melhoraram, continue a acreditar em Obama. A intensificação da guerra no Afeganistão aflige os pacifistas, a reforma do sistema de saúde ficou aquém das esperanças razoáveis, tal como a política ambiental. A avaliação «menos do que bom, mas melhor do que nada» está a propagar-se, criando um clima incomodativo. A paixão política volta a mudar de terreno.
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Uma tal espiral da estagnação fortalece o peso dos lóbis, ao mesmo tempo que impõe a interrogação sobre o poder efectivo do presidente dos Estados Unidos. Este não é um Bush, já se sabe; Romano Prodi também não era um Berlusconi. Mas isso não basta para sabermos para onde vai Obama e para termos vontade de o seguir. Ora, entretanto, o país padece: a taxa de desemprego aumentou muito, bairros inteiros são compostos por casas confiscadas pelos credores. É certo que o presidente intervém, fala, explica-se, tenta convencer; os seus discursos, com frequência eloquentes, encadeiam-se com nexo. Mas quais são os resultados? No Cairo, condenou os colonatos israelitas; entretanto implantaram-se outros, e ele resignou-se. Prometeu uma reforma ambiciosa do sistema de saúde; os parlamentares atenuaram-na, e ele deu-se por satisfeito.
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Anunciou aos cadetes de West Point que ia enviar mais reforços para o Afeganistão, e pouco depois recebeu o Prémio Nobel da Paz. Um tal exercício poderá vir a tornar-se esquizofrénico. Mas a cacofonia das situações encontra aparente remédio numa nova torrente de palavras, equilibrando com uma sugestão contrária cada conjunto de problemas por resolver. No fim, prevalece quase sempre o refrão «os meus amigos progressistas proclamam uma coisa, os meus amigos republicanos replicam outra; os primeiros exigem demasiado, os segundos não cedem o suficiente. Eu opto pela via intermédia.»
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Por conseguinte, Obama incitou os cadetes de West Point a «darem provas de contenção no recurso à força armada»; em Oslo, apelou ao júri do Prémio Nobel que avaliasse «a necessidade da força com base nas imperfeições do homem e nos limites da razão». Estes últimos tiveram também de meditar no exemplo do presidente Richard Nixon, o qual, em 1972, apesar dos «horrores da Revolução Cultural», aceitou encontrar-se com Mao Zedong em Pequim. Ao antigo chefe de Estado republicano, exigente como era na questão dos direitos humanos, esse encontro custou-lhe tanto que teve de consolar-se, pouco depois, ordenando o bombardeamento das grandes cidades vietnamitas e favorecendo no Chile o golpe do general Augusto Pinochet… Disso, porém, Obama nada disse ao júri de Oslo. Impecavelmente «centrista», preferiu saudar ao mesmo tempo Martin Luther King e Ronald Reagan. (...)
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(continue a ler este artigo na p. 10 da edição de Janeiro de 2010; para consultar os outros artigos que fazem parte do dossiê em que se integra, «Obama: balanço de um ano», clique aqui.)
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sexta-feira 8 de Janeiro de 2010
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«Consenso de Pequim» por Serge Halimi




«Consenso de Pequim»

por Serge Halimi

Parafraseando uma formulação célebre de Mao Zedong, proferida a de 1 de Outubro de 1949, o presidente Hu Jintao, seu longínquo (e distanciado) sucessor, afirmou sessenta anos depois: «A China encontra se hoje de pé graças às realizações do socialismo». O restabelecimento é notável; há muito que o país não é humilhado nem esquartejado pela Europa nem pelo Japão. Melhor ainda, uma parte da sua população tornou se próspera. Mas o socialismo, isso é outra questão… E uma questão tão estranha à realidade que se pode mesmo avançar que o crescimento chinês (de 9,6 por cento em 2008, de 8,7 por cento em 2009) veio em certa medida substituir uma locomotiva americana avariada. Contribuiu, assim, para a convalescença de um sistema capitalista que acabava de sofrer a sua principal borrasca desde 1929. A globalização, ferida em Wall Street, restabeleceu se em Xangai.
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Quando o ar do tempo era vermelho, a fórmula «o vento de leste vencerá o vento de oeste» anunciava algo diferente da elevação da China ao lugar de primeiro exportador mundial e do eldorado das cadeias de supermercados. Hoje o Carrefour possui cinquenta e seis lojas no país, o britânico Tesco tem setenta e duas e o gigante norte americano Wall- Mart seria menos poderoso sem a sobrexploração dos trabalhadores chineses que lhe permite esmagar os preços (e os concorrentes).
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Se avaliarmos as viragens verificadas no mundo pela bitola destas transformações, não há nenhuma razão para que certos meios de negócios ocidentais se assustem. Aliás, o The Wall Street Journal até lambe os beiços: «A China continua a ser um mercado extremamente atractivo para as empresas ocidentais em busca de crescimento. Toda a gente reconhece que são os mercados emergentes que tiram o mundo da recessão» [1]. Singularmente menos entusiasta, o Sindicato americano dos Metalúrgicos pediu a Washington que processasse a China por dumping
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O «modelo chinês» já não pode, contudo, ser resumido a uma plataforma de exportação alimentada por baixos salários. O país está a procurar orientar o seu desenvolvimento para o mercado interno e multiplicar as ligações com as economias regionais. Está já a surgir uma zona comercial comparável ao Acordo de Comércio Livre da América do Norte (NAFTA) ou à União Europeia. Essa zona vai favorecer, como costuma acontecer, os sectores mais poderosos do país dominante. Ora, ultrapassando o Japão, certamente muito menos povoado, a China deverá tornar se este ano a segunda economia do mundo. E a primeira até 2026, segundo o banco americano Goldman Sachs.
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De que forma vai a China usar o seu poder? Nem as cimeiras do G20 nem a de Copenhaga permitiram, até agora, vislumbrar o país como advogado dos pobres ou dos países do Sul. O seu modelo de desenvolvimento é sedutor, mas sobretudo para os que quiserem conciliar crescimento económico, liberalismo comercial e estabilidade no poder de uma oligarquia que é meio política, meio industrial [2]. Encontram se cada vez mais defensores do «Consenso de Pequim» nas fileiras do patronato ocidental…
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sexta-feira 5 de Fevereiro de 2010

Notas

[1] Patience Wheatcroft, «Don’t Begrudge China’s Exports Coup», The Wall Street Journal, Nova Iorque, 12 de Janeiro de 2010.
[2] Em 2005, mais de um terço dos patrões do sector privado eram membros do Partido Comunista Chinês.
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sexta-feira, julho 10, 2009

Os primeiros passos de Obama

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por Serge Halimi

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Para afrontar a herança dos seus antecessores, o novo presidente dos Estados Unidos repudiou muitas das ideias deles. É certo que Barack Obama não acelerou a retirada das tropas americanas do Iraque e que mobilizou mais soldados para o Afeganistão, para uma guerra mortífera e sem saída. No plano interior, a sua política relativa à indústria automóvel, aos bancos ou às remunerações dos dirigentes não rompeu com o imparável «liberalismo», que socializa somente as perdas das empresas. Apesar disso, Obama representa sem dúvida aquilo que o sistema estadunidense pode actualmente criar de mais progressista, ao ponto de as decisões dos dirigentes de Washington parecerem por vezes preferíveis às dos seus homólogos de Paris, Bruxelas, Moscovo, Pequim ou… Teerão. Se a determinação de Washington não vergar, e se alguns dos lóbis que controlam o Congresso forem postos em xeque, dentro de pouco tempo os Estados Unidos irão dispor de uma legislação que protege o direito sindical e se preocupa com as despesas de saúde dos 46 milhões de americanos que não têm nenhuma segurança social. Não é nada pouco.

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Poder‑se‑á objectar que Obama, no fim de contas, é democrata; mas isso será ignorar quarenta anos de história. Porque desde a chegada de Richard Nixon à Casa Branca, em 1969, os dois presidentes democratas que se lhe seguiram aludiram de facto a uma ruptura… mas com a ortodoxia do seu partido, a seu ver demasiado progressista. Desse modo, tanto um como o outro prepararam o terreno para os republicanos que lhes sucederam (Ronald Reagan e George W. Bush). Jimmy Carter abriu o baile das desregulamentações, promoveu uma política ultramonetarista e, a pretexto da «defesa dos direitos humanos», relançou a Guerra Fria. Com Bill Clinton foi ainda pior: endurecimento das sanções penais, generalização da pena de morte, abolição das ajudas federais aos pobres, activação de operações de guerra no Afeganistão, no Iraque, no Sudão e no Kosovo, sem mandato das Nações Unidas. Devemos pois avaliar o balanço inicial de Barack Obama tendo também como termo de comparação estes precedentes.

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O seu discurso do Cairo, no passado dia 4 de Junho, não trouxe nada de muito novo quanto ao fundo da questão: George W. Bush já tinha admitido a ideia de um Estado palestiniano e desde a governação de Jimmy Carter todos os ocupantes da Casa Branca reclamaram – com os resultados que todos conhecemos – o congelamento da colonização israelita. Em contrapartida, o tom mudou por completo. Obama, desejoso de «romper o ciclo da suspeita e da discórdia» entre os Estados Unidos e os povos do Médio Oriente, evitou cuidadosamente empregar o adjectivo «terrorista», tão apreciado pelo seu antecessor. Ao evocar o Hamas, o presidente americano admitiu até que esta organização «tem apoiantes entre alguns palestinianos». Por último, ao sugerir a estes últimos que se inspirem nas lutas (não violentas) dos afro‑americanos, assimilou implicitamente a colonização israelita à «humilhação segregacionista» outrora vivida pelos negros dos Estados Unidos.

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No entanto, acrescentou, «a América não pretende saber o que é melhor para toda a gente». Este tão sábio princípio foi de imediato aplicado ao Irão. No seu discurso do Cairo, Obama lamentou o golpe de Estado que em 1953 foi orquestrado contra Mohammad Mossadegh pelos serviços secretos americanos: «Em plena Guerra Fria, os Estados Unidos desempenharam um papel no derrube de um governo iraniano democraticamente eleito». Desde logo, essa declaração sugere que os Estados Unidos não estão na situação ideal para repreender os que falsificam os resultados das urnas, sobretudo quando estes últimos só estão à espera que isso aconteça para acusarem os seus desgraçados concorrentes, anteriormente pilares do regime teocrático, de se terem transformado em mercenários do Grande Satã. Mas quanto mais a situação iraniana for endurecendo, mais a disposição do presidente dos Estados Unidos para negociar com Teerão o irá expor às diatribes da direita neoconservadora, e essa não vai desarmar nunca.

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Os interesses estratégicos norte‑americanos continuam a ser extraordinariamente constrangedores para qualquer presidente dos Estados Unidos, que será sempre tributário, queira ou não queira, do papel de soberano do império. Os primeiros passos de Barack Obama parecem todavia indicar que ele ainda não esqueceu completamente o seu passado progressista nos bairros pobres de Chicago.

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in Le Monde Diplomatiue - quinta-feira 9 de Julho de 2009

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sábado, junho 06, 2009

Simulacro europeu

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por Serge Halimi


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«Imaginemos», escreve Vaclav Havel, «uma eleição cujos resultados são em grande parte previamente conhecidos e à qual se apresenta uma sucessão de candidatos de notória incompetência. Qualquer escrutínio pretensamente democrático organizado dessa maneira não poderá deixar de ser classificado como uma farsa» [1]. O antigo presidente checo não tinha aqui em mente o Parlamento Europeu, mas sim o Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas. No entanto…
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Desde a primeira eleição dos deputados europeus por sufrágio universal, em 1979, a taxa de abstenção saltou de 37 para 54 por cento. Todavia, os poderes deste Parlamento foram incrementados e o seu campo de acção abrange 495 milhões de habitantes (contra 184 milhões há trinta anos). A Europa ocupa o palco; mas não tem impacto sobre o público. Porquê?
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Sem dúvida porque não existe realmente uma comunidade política continental. A esperança de que a simultaneidade de vinte e sete escrutínios nacionais, quase sempre disputados à volta de questões internas, venha um dia a resultar no advento de uma identidade europeia continua a ser da alçada do pensamento mágico.
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Terão os eslovenos qualquer conhecimento, mesmo aproximativo, dos debates eleitorais suecos? Informar-se-ão os alemães a respeito da vida política búlgara? Mas após o escrutínio europeu, tanto uns como os outros ficam a saber que em Estocolmo ou em Sófia o veredicto das urnas pode ter infirmado o resultado da única eleição a que prestaram alguma atenção, e que os seus votos, na realidade, designaram apenas 1 por cento (Eslovénia) ou 13,5 por cento (Alemanha) do total dos deputados da União [2]. Será possível imaginar que uma revelação deste género não leva o eleitor a sentir-se relativamente inútil? Impressão essa que os governantes europeus não contradisseram, ao ignorarem a escolha feita sucessivamente por três povos no tocante ao Tratado Constitucional, ao cabo de uma campanha que, nesse caso, mobilizou o interesse dos eleitores e os empolgou.
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Em França, sete das oito circunscrições eleitorais foram retalhadas unicamente com o objectivo de favorecer os grandes partidos; não correspondem a nenhuma realidade histórica, política ou territorial. A circunscrição do Sudeste tem aliás como líder um socialista outrora eleito no Noroeste e que classificou a sua própria transferência como um «suplício». Esse, no entanto, está previamente eleito, tal como a ministra francesa da Justiça, tão pouco interessada pelo escrutínio que julga que é em Haia, e não na cidade de Luxemburgo, que o Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias tem a sua sede. Em Itália, Silvio Berlusconi encarou sem hesitação a possibilidade de apresentar como candidatas oito manequins e actrizes de telenovelas.
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Mas há mais. As forças políticas que desde há trinta anos transformaram, em conjunto, o Velho Continente num grande mercado indefinidamente alargado a novos países, propõem de repente «uma Europa que proteja», «humanista», «social». Ora, se é verdade que os socialistas, liberais e conservadores se afrontam nas campanhas eleitorais, eles votam juntos na maior parte dos escrutínios do Parlamento Europeu. E dividem entre si os lugares de comissários – seis dos quais atribuídos aos sociais-democratas, encarregados, designadamente, da fiscalidade, da indústria, dos assuntos económicos e monetários, do emprego, do comércio. O medo do confronto e a despolitização das grandes questões favorecem a renovação indefinida deste bloco governante, que vai «de um centro-direita esponjoso a um centro-esquerda amolecido, passando por uma coligação liberal insossa» [3].
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Poderá uma tal ausência de alternância garantir o lugar de José Manuel Durão Barroso na chefia desta atrelagem cujo balanço é mais do que medíocre? «Ele fez um excelente trabalho, faço questão de dizer claramente que nós o apoiaremos», declarou o primeiro-ministro trabalhista britânico, Gordon Brown. O socialista espanhol José Luis Zapatero disse a mesma coisa: «Eu apoio o presidente Barroso». É verdade que Brown e Zapatero têm o mesmo programa, o do Partido Socialista Europeu (PSE). Ao qual também pertence Martine Aubry. «A Europa que eu quero», preveniu a dirigente francesa, «não é uma Europa dirigida por Barroso com os seus amigos Sarkozy e Berlusconi». Os eleitores que percebam tudo isto…
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sexta-feira 5 de Junho de 2009
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Notas
[1] Vaclav Havel, «A Table for Tyrants», The New York Times, 11 de Maio de 2009.
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[2] Dos 736 deputados do Parlamento Europeu, os eslovenos elegem 7, os alemães, 99.
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[3] «An Unloved Parliament», The Economist, Londres, 9 de Maio de 2009.

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n Le Monde Diplomatique -

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sábado, maio 09, 2009

Elogio das revoluções


Duzentos e vinte anos depois de 1789, o corpo da Revolução ainda mexe. Apesar de François Mitterrand ter convidado Margaret Thatcher e Joseph Mobutu para confirmarem o seu enterro, aquando das cerimónias do bicentenário. E porque esse ano das comemorações foi também o da queda do Muro de Berlim, Francis Fukuyama anunciou o «fim da história», ou seja, a eternidade da dominação liberal exercida sobre o mundo e o encerramento, a seu ver, do parêntesis revolucionário. Mas a crise do capitalismo está de novo a abalar a legitimidade das oligarquias no poder. O ar está agora mais ligeiro, ou mais pesado, segundo as preferências. Aludindo «aos intelectuais e artistas que apelam à revolta», o diário Le Figaro mostrou-se desolado: «François Furet parece ter-se enganado: a Revolução Francesa não terminou» [1].


No entanto, como muitos outros, o historiador em questão não se poupou a esforços para esconjurar a lembrança da Revolução e para que as tentações se afastassem dela. Outrora considerada expressão de uma necessidade histórica (Marx), de uma «nova era da história» (Goethe), de uma epopeia encetada pelos soldados do Ano II cantados por Victor Hugo – «E víamos marchar os soberbos maltrapilhos nesse mundo deslumbrado» –, dela já se mostrava apenas o sangue que tinha nas mãos. De Rousseau a Mao, uma utopia igualitária, terrorista e virtuosa, teria espezinhado as liberdades individuais, parido o gélido monstro do Estado totalitário. Depois, a «democracia», voltando a sentir-se senhora de si, vencera – jovial, pacífica, de mercado. Também ela herdeira de revoluções, mas de uma outra espécie, à inglesa ou à americana, mais políticas do que sociais, «descafeinadas» [2].


Em Inglaterra também tinham decapitado um rei. Mas, como a resistência da aristocracia ali fora menos vigorosa do que em França, a burguesia, para assentar o seu domínio, não sentiu necessidade de fazer uma aliança com o povo. Nos meios favorecidos, um tal modelo, sem maltrapilhos nem revolucionários radicais, parecia mais distinto e menos arriscado do que o outro. Assim sendo, Laurence Parisot, presidente do patronato francês, não traiu o sentimento dos seus constituintes ao confidenciar a um jornalista do Financial Times: «Adoro a História de França, mas não gosto muito da Revolução. Foi um acto de extrema violência, de que ainda hoje padecemos. Obrigou cada um de nós a situar-se num determinado campo». Acrescentando: «Nós não praticamos a democracia com tanto sucesso como a Inglaterra» [3].



É pois uma lamentável polarização social isso de as pessoas se «situarem num campo», porque todos deveriam, pelo contrário, mostrar-se solidários com a sua empresa, com o seu patrão, com a sua marca – nunca saindo, é claro, cada qual do seu lugar. O que a revolução tem de mais errado, para quem a encara com maus olhos, não é a violência, fenómeno tristemente banal na história – é uma outra coisa, infinitamente mais rara: a convulsão da ordem social que irrompe ao ocorrer uma guerra entre ricos e proletários. Em 1988, em busca de um argumento de grande peso, o presidente George Herbert Bush admoestou assim o seu adversário democrata, Michael Dukakis, um tecnocrata perfeitamente inofensivo: «O que ele quer é dividir-nos em classes. Isso é bom para a Europa, mas não existe na América». Classes, na América! Imagine-se o horror de semelhante acusação! Vinte anos depois, quando o estado da economia americana parecia impor sacrifícios tão desigualmente repartidos como os benefícios que os haviam antecedido – um verso da Internacional reclama que «o ladrão restitua pela força aquilo de que se apoderou de forma indevida»… –, o actual ocupante da Casa Branca considerou urgente neutralizar a fúria popular: «Uma das lições mais importantes a tirar desta crise é que a nossa economia só funciona se estivermos todos unidos. (…) Não podemos dar-nos ao luxo de ver um demónio em cada investidor ou empresário que tenta obter lucros» [4]. Contrariamente ao que afirmam alguns dos seus adversários republicanos, Barack Obama não é um revolucionário…


«A revolução é antes de mais nada uma ruptura. Quem não aceite esta ruptura com a ordem estabelecida, com a sociedade capitalista, não pode aderir ao Partido Socialista.» Assim falava François Mitterrand em 1971. Desde então, as condições de adesão ao Partido Socialista (PS) francês tornaram‑se menos draconianas, visto não repugnarem ao director‑geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss‑Kahn, nem ao da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy. A ideia de uma revolução também refluiu por outras bandas, inclusive nas formações mais radicais. O que levou a direita a apoderar‑se da palavra, aparentemente ainda portadora de esperança, para a transformar num sinónimo de restauração, de aniquilamento das protecções sociais conquistadas, ou arrancadas, à «ordem estabelecida».


Censura‑se, contudo, a violência das grandes revoluções. Há quem se choque, por exemplo, com o massacre dos guardas suíços na altura da tomada das Tulherias, em Agosto de 1792, ou com o da família imperial russa, em Julho de 1918, em Ekaterinburgo, ou com a liquidação dos oficiais do exército de Chang Kai‑Chek, após a tomada do poder pelos comunistas chineses em 1949. Nesse caso, teria sido melhor não haverem anteriormente ocultado as fomes do Antigo Regime sobre o pano de fundo dos bailes em Versalhes ou do dízimo que os padres extorquiam; as centenas de manifestantes pacíficos de Petrogrado massacrados pelos soldados de Nicolau II, num certo «domingo vermelho» de Janeiro de 1905; os revolucionários de Cantão e de Xangai atirados vivos, em 1927, para dentro das caldeiras das locomotivas. Sem falar das violências quotidianas exercidas pela ordem social que outrora se pretendia derrubar.


O episódio dos revolucionários queimados vivos não marcou apenas quem se interessa pela história da China, é conhecido dos milhões de leitores do romance de André Malraux, A Condição Humana. Porque, durante décadas, os maiores escritores e os maiores artistas formaram um conjunto indissolúvel com o movimento operário, celebrando as revoluções, os amanhãs que cantam. Inclusive – é certo – menorizando as decepções, as tragédias, as lívidas madrugadas (polícia política, culto da personalidade, nepotismo familiar, campos de trabalho, execuções).


Em contrapartida, desde há trinta anos, só se fala disso; é mesmo recomendado a quem queira ter êxito na universidade e na imprensa, ou para brilhar na Academia. «Quem diz revolução, diz irrupção da violência», assevera Max Gallo. «As nossas sociedades são extremamente frágeis. A maior responsabilidade de quem tem acesso à palavra pública é advertir contra essa irrupção. » [5] François Furet, por seu lado, considerava que qualquer tentativa de transformação radical era totalitária ou terrorista, que «a ideia de uma outra sociedade tornou‑se quase impensável». Sendo pois esta a sua conclusão: «Estamos condenados a viver no mundo em que vivemos» [6]. Não é difícil imaginar que um tal destino correspondia às expectativas dos seus leitores, em geral protegidos das tormentas por uma existência agradável de jantares e de debates.


A fobia às revoluções e o seu corolário, a legitimação da ordem estabelecida, encontraram muitos outros retransmissores, além de Max Gallo e François Furet. Basta pensarmos nas opções dos media, incluindo o cinema. Desde há trinta anos, os media pretenderam demonstrar que fora da democracia liberal só havia regimes tirânicos e conivência entre eles. A importância dedicada ao Pacto Germano‑Sovietico foi pois muito maior do que a atribuída a outras alianças contranatura, como os Acordos de Munique e o aperto de mão de Adolf Hitler e Neville Chamberlain. O nazi e o conservador comungavam, pelo menos, no ódio às frentes populares. Esse mesmo medo de classe inspirou os aristocratas de Ferrara e os donos da siderurgia da região do Ruhr, quando favoreceram a ascensão ao poder de Mussolini e do III Reich [7]. Ainda será permitido lembrar estas coisas?

Nesse caso, podemos ir mais longe… Embora Léon Blum tenha teorizado com clamor a sua rejeição de uma revolução de tipo soviético, classificada por um dos seus amigos como «blanquismo com molho tártaro», essa figura socialista, tão respeitada pelos professores de virtude, reflectiu sobre os limites de uma transformação social cujo único talismã seria o sufrágio universal. «Não estamos muito seguros», preveniu ele em 1924, «de que os representantes e dirigentes da sociedade actual não saiam eles próprios da legalidade quando os seus princípios essenciais lhes parecerem muito gravemente ameaçados». Com efeito, desde então, as transgressões desse género não têm faltado, do pronunciamento de Franco em 1936 ao golpe de Estado de Augusto Pinochet em 1973, sem esquecer o derrube de Mohammad Mossadegh no Irão, em 1953. Sublinhava então o dirigente socialista que «nunca a República foi proclamada em França pela virtude de um voto legal, exprimido segundo as formas constitucionais. Ela sempre foi estabelecida, contra a legalidade existente, pela vontade do povo insurrecto» [8].


Evitar as restaurações conservadoras oriundas do saber



Deste modo, o sufrágio universal, agora invocado para desqualificar as outras formas de intervenção colectiva (entre as quais as greves nos serviços públicos, assimiladas a sequestros de reféns), teria passado a ser o princípio e o fim de toda a acção política. Mas as questões que Léon Blum levantou a este respeito não envelheceram nada: «Será hoje (o sufrágio universal) uma realidade plena? Não pesará sobre os eleitores a influência do patrão e do proprietário, juntamente com as pressões das forças do dinheiro e da grande imprensa? Será todo o eleitor livre no sufrágio que exprime, livre pela cultura do seu pensamento, livre pela independência da sua pessoa? Para o libertar, não será justamente necessária uma revolução» [9] Murmura‑se agora, todavia, que o veredicto das urnas fez abortar, em três países europeus – Holanda, França e Irlanda –, as pressões conjugadas do patronato, das forças do dinheiro e da imprensa. Mas, precisamente por isso, esse veredicto não foi tido em conta…


«Perdemos todas as batalhas, mas éramos nós que tínhamos as mais belas canções.» Esta declaração, cujo autor terá sido um combatente republicano espanhol que procurou refúgio em França após a vitória de Franco, resume à sua maneira o problema dos conservadores e da sua lancinante pedagogia da submissão. Ditas estas coisas simplesmente, as revoluções deixam na história e na consciência humana um vestígio indelével, inclusive quando falharam, inclusive quando foram aviltadas. Com efeito, elas incarnam o momento, tão raro, em que a fatalidade se subleva, em que o povo ganha vantagem. Daí a sua ressonância universal. Porque, cada qual à sua maneira, os amotinados do Potemkin, os sobreviventes da Longa Marcha ou os barbudos da Sierra Maestra ressuscitaram o gesto dos soldados do Ano II, esse gesto que levou o historiador britânico Eric Hobsbawm a dizer que «a Revolução Francesa revelou a força do povo de uma forma que nunca nenhum governo pôde dar‑se ao luxo de esquecer – quanto mais não seja por terem de se lembrar do improvisado exército de recrutas que venceu, sem preparação militar, a poderosa coligação constituída pelas mais experimentadas tropas de elite das monarquias europeias» E [10].


Não se trata apenas de uma «lembrança»: o vocabulário político moderno e metade dos sistemas jurídicos existentes no mundo inspiram‑se no Código que a Revolução Francesa inventou. Quem pensar no «terceiro‑mundismo» da década de 1960 bem pode perguntar‑se se uma parte da sua popularidade na Europa não terá vindo da sensação de reconhecimento (no duplo sentido da palavra) que ele fez nascer. De facto, o ideal revolucionário das Luzes, igualitário e emancipador, pareceu renascer no Sul, em parte graças a vietnamitas, argelinos, chineses e chilenos que tinham passado pelo Velho Continente.


Nesse tempo, o Império empastava‑se, antigas colónias revezavam‑se, a revolução prosseguia. A situação actual é diferente. A emancipação da China ou da Índia, a sua afirmação na cena internacional, suscitam aqui e ali curiosidade e simpatia, mas não remetem para nenhuma esperança «universal», ligada, por exemplo, à igualdade, ao direito dos oprimidos, a um outro modelo de desenvolvimento, à preocupação de evitar as restaurações conservadoras oriundas do saber e da distinção.


Se é maior o entusiasmo internacional que a América Latina suscita, é porque ali a orientação política se revela simultaneamente democrática e social. Desde há vinte anos, uma certa esquerda europeia tem justificado a prioridade que atribui às solicitações das classes médias teorizando o fim do «parêntesis revolucionário», o apagamento político das camadas populares. Ora, pelo contrário, os governantes da Venezuela ou da Bolívia mobilizam de novo estas últimas provando‑lhes que a sua existência é tida em conta, que o seu destino histórico não está encerrado, que, em suma, a luta continua.


Por mais desejáveis que continuem a ser, as revoluções são raras. Elas pressupõem, ao mesmo tempo, uma massa de descontentes prontos a agir, um Estado cujas legitimidade e autoridade são contestadas por uma fracção dos seus defensores habituais (devido à sua imperícia económica, à sua incúria militar ou a divisões internas que o paralisam e desmembram) e, por último, a preexistência de ideias radicais que ponham em causa a ordem social, extremamente minoritárias à partida mas às quais poderão apegar‑se todas as pessoas cujas antigas crenças ou lealdades se dissolveram [11].


A historiadora norte‑americana Victoria Bonnell estudou os operários de Moscovo e São Petersburgo nas vésperas da Primeira Guerra Mundial. Como se trata do único caso em que este grupo social foi o actor mais importante de uma revolução «bem sucedida», merece ser referida a sua conclusão: «O que caracteriza a consciência revolucionária é a convicção de que as queixas só podem ser satisfeitas transformando as instituições existentes e estabelecendo uma outra organização social» [12]. Ou seja, essa consciência não surge de forma espontânea, sem uma mobilização política e uma ebulição intelectual prévias.


Tanto mais que em geral, e é a isso que actualmente assistimos, as exigências dos movimentos sociais começam por ser defensivas, desejando restabelecer um contrato social que consideram ter sido violado pelos patrões, pelos proprietários de terras, pelos banqueiros, pelos governantes. Ficam na ordem do dia o pão, o trabalho, a habitação, a escolaridade, um projecto de vida – não (ainda) um «futuro radioso», apenas «a imagem de um presente liberto dos seus aspectos mais dolorosos» [13]. Só depois, quando se torna manifesta a incapacidade dos dominantes para cumprir as obrigações que legitimam o seu poder e os seus privilégios, é por vezes levantada a questão, extravasando os círculos militantes, de saber «se os reis, os capitalistas, os padres, os generais e os burocratas continuam a ter utilidade social» [14]. Pode então falar‑se de revolução. Podendo a transição de uma etapa para a outra ocorrer rapidamente – dois anos em 1789, uns meses em 1917 – ou nunca acontecer.


Desde há quase dois séculos, milhões de militantes políticos ou sindicais, de historiadores e sociólogos, têm examinado as variáveis que determinam esse desenlace. Está a classe dirigente dividida e desmoralizada? Está o seu aparelho repressivo intacto? Estão as forças sociais que aspiram à mudança organizadas e capazes de se entenderem? Curiosamente, onde estes estudos têm sido mais abundantes é nos Estados Unidos, onde muitas vezes se tratou de compreender as revoluções, de admitir todos os seus contributos, para esconjurar melhor a sua pavorosa perspectiva.


Mas a fiabilidade desses estudos tem‑se revelado… aleatória. Em 1977, por exemplo, a maior preocupação era ali a «ingovernabilidade» das sociedades capitalistas. Surgindo, por contraste, esta pergunta: por que motivo é a URSS tão estável? Neste último caso, sucediam‑se as explicações: preferência dos dirigentes e da população soviética pela ordem e pela estabilidade; socialização colectiva fortalecedora dos valores do regime; natureza não cumulativa dos problemas a resolver, podendo assim o partido único ter campo de manobra; bons resultados económicos que contribuíam para a estabilidade desejada; melhoria do nível de vida; estatuto de grande potência; etc. [15]. Já então imensamente célebre, o politólogo Samuel Huntington, da Universidade de Yale, concluía da seguinte maneira essa enxurrada de índices concordantes: «Nenhum dos desafios previstos para os próximos anos parece ser qualitativamente diferente daqueles a que o sistema soviético já conseguiu dar resposta» [16].


Todos sabemos o que veio depois…

quinta-feira 7 de Maio de 2009

Notas

[1] Le Figaro, Paris, 9 de Abril de 2009.

[2] «Em suma, o que a sensibilidade liberal exige é uma revolução descafeinada, uma revolução que não tenha o sabor da revolução», resume Slavoj Zizek em Robespierre: entre vertu et terreur, Stock, Paris, 2008, p. 10.

[3] Financial Times Magazine, Londres, 7‑8 de Outubro de 2006.

[4] Conferência de imprensa de 24 de Março de 2009.

[5] Le Point, Paris, 25 de Fevereiro de 2009.

[6] François Furet, Le Passé d’une illusion, Robert Laffont/Calman‑Levy, 1995, p. 572 (O Passado de uma Ilusão, Presença, Lisboa, 1996).

[7] Em 1970, este assunto foi abordado pelos realizadores Vittorio de Sica (Il giardino dei Finzi‑Contini, O Jardim dos Finzi‑Contini) e Luchino Visconti (La caduta degli dei, Os Deuses Malditos).

[8] Léon Blum, «L’idéal socialiste», La Revue de Paris, Maio de 1924.

[9] Ibid.

[10] ric J. Hobsbawm, Aux armes, historiens. Deux siècles d’histoire de la Révolution française, La Découverte, Paris, 2007, p. 123 (Ecos da Marselhesa. Dois Séculos Revêem a Revolução Francesa, Companhia das Letras, São Paulo, 1996).

[11] Ler Jack A. Goldstone, Revolution, Wadsworth Publishing, Belmont (Califórnia), 2002, e Theda Skocpol, States and Social Revolutions, Cambridge University Press, 1979.

[12] Victoria Bonnell, The Roots of Rebellion. Workers’ Politics and Organizations in St. Petersburg and Moscow, 1900‑1914, University of California Press, Berkeley, 1984, p. 7.

[13] Barington Moore, Injustice. The Social Bases of Obedience and Revolt, Sharpe, White Plains (Nova Iorque), 1978, p. 209.

[14] Ibidem, p. 84.

[15] Cf. Seweryn Bialer, Stalin’s Successors. Leadership, Stability, and Change in the Soviet Union, Cambridge University Press, 1977.

[16] Samuel Huntington, «Remarks on the Meaning of Stability in the Modern Era», Seweryn Bialer e Sophia Sluzar (ed.), Radicalism in the Contemporary Age. 3 – Strategies and Impact of Contemporary Radicalism, Westview Press, Boulder (Colorado), 1977, p. 277.

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in Le Monde Diplomatique - Maio 2009

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