A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht

sábado, março 31, 2007

Um 1º de Maio no tempo do fascismo . Victor Nogueira


Um 1º de Maio no tempo do fascismo
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*  Victor Nogueira
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O 1º de Maio é um dia dos trabalhadores comemorado em muito países desde 1889, por vezes em festa mas quase sempre em luta por melhores condições de vida e de trabalho. O mesmo sucedeu em Portugal na longa noite fascista, apesar de repressão e da negação de direitos elementares, como os de associação, manifestação e reunião.
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Ao folhear jornais desse tempo encontramos o 1º de Maio de 1962 segundo o Diário de Notícias de 3 de Maio, de que transcrevemos partes essenciais, mantendo os subtítulos originais:
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"O 1º de Maio foi assinalado em Lisboa por desagradáveis acontecimentos ocorridos ao fim da tarde, em várias artérias da Baixa. Os incidentes, com correrias e muito alarido, desenrolaram-se à hora em que o movimento era mais intenso (aquando do encerramento das actividades quotidianas) voltando a repetir-se à noite, após terminados os espectáculos, lançando a confusão e envolvendo a população ordeira que, nas duas circunstâncias, só tinha a preocupação de regressar aos lares.
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(...) Através de uma intensa propaganda por meio de panfletos clandestinos espalhados pela cidade e distribuídos de várias formas ilícitas, os perturbadores, além de pretenderem incitar as classes trabalhadoras a concentrarem-se na Praça do Comércio [em Lisboa] para apresentarem certas reivindicações, instigavam-nos também a faltar ao trabalho.
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Num belo exemplo de ordem e de compreensão, ninguém faltou à fábrica ou oficina, ao escritório ou ao estabelecimento, numa inequívoca afirmação de que o povo de Lisboa - e de todo o País, aliás - quer continuar a viver na ordem, na paz e no trabalho.
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A despeito da indiferença da população e dos trabalhadores, as entidades governativas ordenaram medidas especiais de segurança, tendo a PSP montado um dispositivo de vigilância e de patrulhamento na zona do Terreiro do Paço, onde foram estabelecidas as aconselháveis precauções. Junto das esquadras da área foram concentradas forças para acorrer em caso de necessidade, enquanto os automóveis das brigadas moveis [da Legião Portuguesa] não deixaram de percorrer a zona. Também foram montados serviços de vigilância, nas gares e estações, como medida de precaução. (...)"
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"Aparece um grupo de desordeiros
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Mas pouco depois das 18,30, formaram-se grupos de indivíduos que, a pretexto da detenção de três desordeiros (...) injuriaram e vaiaram a polícia, tentando rodear um carro patrulha.
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Acorreram os pelotões ao mesmo tempo que os grupos de desordeiros engrossavam, envolvendo, na massa, as muitas pessoas que transitavam despreocupadas. (...) 
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A força policial tentou afastar a multidão que então se formara num ápice, aconselhando, através de potentes altifalantes portáteis, as pessoas ordeiras a afastarem-se, o que muitos fizeram, e outros, embora o quisessem, não o conseguiram.
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Á desobediência seguiu-se a tentativa de resistência e a Polícia viu-se obrigada a carregar de bastão em riste, no meio de gritaria e insultos dos manifestantes, sucedendo-se as correrias.
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Não sem bastante trabalho a Polícia conseguiu fazer evacuar da praça, do lado oriental, os que ali se concentravam, tendo estes e mais outros grupos que então se formaram subido as ruas Augusta, da Prata e dos Fanqueiros. Nesta última artéria diversos díscolos desligaram os "trolleys" dos carros eléctricos para provocar o congestionamento do trânsito.
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(...) Um carro patrulha da PSP foi igualmente atacado por outro grupo de díscolos (e a respectiva) "tripulação teve de sair e disparar alguns tiros para o ar, pondo em fuga os atacantes. 
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A Polícia teve de carregar novamente e os desordeiros, muito aumentados e continuando a misturar-se com a multidão que procurava, em vão, afastar-se desses locais, fugiam dum lado para logo aparecerem e se reagruparem noutro.
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Em dada altura a situação piorou por motivo de alguns amotinados começarem a apedrejar os agentes da autoridade, que continuavam a dispersar os desordeiros, e os motins aumentaram.
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Disparos para o ar para intimidar os desordeiros
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Perante a agressão praticada pelos desordeiros a Polícia viu-se na necessidade de empunhar as armas de fogo para impor respeito e intimidar os díscolos. Várias descargas, algumas de armas automáticas, foram feitas para o ar e durante algum tempo ouviu-se tiroteio.
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Os elementos provocadores não cessaram entretanto a sua actividade, procurando alastrar a confusão até à Praça da Figueira e Martim Moniz, para onde fugiram perseguidos pela força pública.
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O aparecimento de um esquadrão de cavalaria da GNR facilitou depois a tarefa da polícia, abreviando a dispersão dos desordeiros.
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Atingido mortalmente quando actuava com os desordeiros na área da Madalena
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A despeito de a Polícia haver feito as descargas para o ar, com a preocupação de não atingir a multidão, alguns projecteis disparados mais baixo atingiram seis dos manifestantes e até mesmo um polícia foi ferido por uma bala.
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Dos desordeiros atingidos um deles teve morte imediata, pois um projéctil atravessou-lhe o crânio (...)
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Voltaram a repetir-se incidentes à noite
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À noite, como atrás dissemos, depois de terminarem os espectáculos, outros grupos de desordeiros voltaram a tentar perturbar a ordem no Rossio e proximidades, obrigando os esquadrões da GNR e os pelotões da PSP a intervir mais uma vez. (...)
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Num breve momento a Polícia teve de disparar alguns tiros de advertência.
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Mais de uma centena de detenções
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No decorrer dos acontecimentos da tarde e da noite foram detidos mais de cem indivíduos que foram entregues à PIDE, que está a proceder a investigações sobre as suas actividades e apurar as responsabilidades que lhes cabem.
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Entre as detenções efectuadas à noite figuravam duas senhoras e um homem que, dentro de um automóvel em que seguiam e haviam parado próximo de um ajuntamento que as forças da ordem dispersaram, injuriaram e ameaçaram a polícia.
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Um outro indivíduo foi preso quando atirava pedras a um esquadrão de cavalaria. Na esquadra do Teatro Nacional foram-lhe apreendidos panfletos de propaganda subversiva que ele transportava dentro da capa de um livro.
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A outros presos foram encontrados fragmentos de vidro com os quais chegaram a golpeara agentes da Polícia.
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Temos informação de terem sido detidos três estrangeiros capturados no decurso dos incidentes.
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A calma voltou a a partir da madrugada
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Quando dos incidentes ocorridos à noite a Polícia mandou encerrar os cafés e casas de pasto existentes na área entre o Rossio e a Praça do Comércio. A partir da 1,30 da madrugada a cidade voltou à normalidade, mantendo-se, no entanto, de prevenção até ao alvorecer, as forças da polícia com intenso patrulhamento na Baixa.
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O dia de ontem foi de inteira calma e apenas os estragos nalguns estabelecimentos, que ainda não tinham sido reparados, faziam lembrar as ocorrências da véspera."
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Enquanto isto se passava em Lisboa, reinaria a paz noutras zonas do país, como na Covilhã, importante centro industrial onde, segundo o jornal que vimos citando, "o Governador Civil de Castelo Branco (havia comunicado) ao sr. Ministro do Interior ter recebido da Secção do Sindicato Nacional do Pessoal da Indústria de Lanifícios daquela cidade o seguinte telegrama da gerência duma fábrica de Cebolais de Cima, em que se empregam mais de mil operários: "Nesta hora em que tantos parecem esquecer o seu dever de portugueses, os operários da indústria de lanifícios de Cebolais de Cima dão o seu exemplo de trabalho, na ordem e no amor da Pátria"
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No Porto a PSP dispersou os grupos de agitadores
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Bem, não reinaria propriamente a paz em toda a parte, pois o Diário de Notícias anunciava que "no Porto a PSP dispersou os grupos de agitadores"
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O esquema da notícia é o mesmo. Assim, segundo o jornal, "o 1º de Maio na cidade do Porto foi, para a a sua população, um dia de trabalho como outro qualquer. Todos os estabelecimentos funcionaram normalmente e nada houve até ao fim da tarde que fizesse prever uma alteração da ordem pública ou qualquer agitação".
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Contudo não faltaram as medidas de precaução da PSP, o que não impediu os manifestantes de se manifestarem a partir das 18,30 .
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Como em Lisboa houve feridos entre os manifestantes e a prisão de "alguns mais recalcitrantes" Tal como em Lisboa, "as correrias, diminuindo de intensidade a pouco e pouco, duraram até depois da meia noite, mantendo-se o serviço de vigilância enquanto foi julgado necessário."
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Eis pois como a imprensa ao serviço do fascismo relatava o 1º de Maio, segundo ela obra de uma minoria de subversivos, díscolos e desordeiros, que forçavam multidões a manifestarem-se durante horas seguidas, obrigando à efectiva declaração do estado de sítio, apesar das forças policiais carregarem com os cavalos, dispararem tiros que matavam e feriam, e prenderem para que a PIDE averiguasse. e a "ordem pública" fosse mantida.
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Comentários de VN
Jornal do STAL nº 53 (1999 Abril)
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FOTOGRAFIA de Repressão duma Manifestação em Battle - 1934
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sexta-feira, março 30, 2007



O POVO

“Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão.

Estes homens são o POVO.

Estes homens estão sob o peso de calor e de sol, transidos pelas chuvas, roídos de frio, descalços, mal nutridos, lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos.

Estes são o POVO, e são os que nos ALIMENTAM.

Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos.

Estes homens são o POVO, e são os que nos VESTEM.

Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respiram mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias.

Estes homens são o POVO, e são os que nos ENRIQUECEM.

Estes homens, nos tempos de lutas e crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, como machas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento.

Estes homens são o POVO, e são os que nos DEFENDEM.

Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados.

Estes homens, são os que nos SERVEM.

E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem?

Primeiro, despreza-os; não pensa neles, trata-os como se fossem bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos, não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades, forma-lhes em redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga, não lhes dá proteção; e, terrível coisa, não os instrui, deixa-lhes morrer a alma.

É por isso que os que têm coração e alma, e amam a JUSTIÇA, devem lutar e combater PELO POVO.

E ainda que não sejam escutados, têm na amizade dele uma consolação suprema.”
Eça de Queirós (1845-1900)



No cimo das escadas, o menino ...

Lá em baixo, os meninos,
E as rodas
E as escondidas
E a tia Anica
E o Mestre André
E o pião
Que gira
Gira
Gira.

No cimo das escadas, o menino ...

... e a mão!

Lá em baixo, os meninos,
E as rodas
E as escondidas
E a tia Anica
E o mestre André
E o pião
Que gira
Gira
Gira
Com o menino !

No cimo das escadas, o menino ...

Lá em baixo, os meninos,
E as rodas
E as escondidas
E a tia Anica
E o Mestre André
E o pião
Que gira
Gira
Gira

No cimo das escadas, o menino!

Victor Nogueira
1969.Janeiro.18 - Évora


O primeiro poema que escrevi, baseado no meu primeiro dia de aulas no Colégio D. Duarte, em Luanda, sendo minha professora a D. Judite Mata, jovem e simpática. O meu interesse pela poesia surgiu muito mais tarde, primeiro com o Eugénio de Andrade, por indicação da Noémia Mendes, e também nas tertúlias da Margarida Morgado, em Évora.

CENAS DO JARDIM

1. Era um jardim
geometricamente desconfortável
artificial
No coreto
a banda tocava.
Além
caridosamente
alguém partilhava com os "jardineantes"
as goelas do transístor escancaradas
No banco
ao meu lado
uma matrona e uma gaiata conversam
banalmente,
"Puxa a mala um bocadinho mais para baixo.
Isso! Assim!
Para que te não vejam as pernas"
E eu sorrio-me
por entre a sisudez duma "Introdução à Vida Política"
Pobres e ridículas gaiatas!
Pobres e ridículas matronas!

2. Era um miúdo esfarrapado
sujo
de rosto envelhecido,
Aproxima-se do guarda, mas o dinheiro não chega.
Mas o velho, que já terá sido criança, deixa-lo entrar.

O miúdo envelhecido corre,
Para,
Hesita!
Os olhos sorriem no rosto sujo,
Balancé? Carrocel? Escorrega? Ou avião?
Não poder ele desdobrar-se!
Corre, sobe, escorrega
o mundo é dele

Agarra-lo.
Sobe, desliza, corre, sobe, desliza
sobe; desliza, corre, sobe, desliza
contorce-se

"MÃE, OLHA ESTE MATULÃO SUJO! VAI-TE EMBORA!"
As avózinhas contorcem os lábios
num rictus de desprezo
os meninos apedrejam com a língua e crucificam com os lábios.
Ele hesita.
Baloiça, baloiça, baloiça!
Roda, roda, roda,
sobe, desliza, corre, sobe, tropeça, sobe, desliza, corre!
contorce-se, baloiça, roda
Olhos brilhantes cheios de felicidade!
Um velho num corpo de criança
pequena para a roupa suja
esfarrapada!

As avózinhas contorcem os lábios num rictus de desprezo
Os meninos, esses apedrejam com a língua
e crucificam com os lábios
Velhas envelhecidas
Garotos moribundos

e uma criança num pequeno corpo de velho!

Victor Nogueira
1969.Fevereiro.24 - Évora

Gravura . postal do MDM - autor não identificado
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NOTA - A entrada no parque infantil do Jardim de Diana, em Évora, era condicionada pelo pagamento prévio dum bilhete da Câmara ao velhote bilheteiro e vigilante.
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quinta-feira, março 29, 2007




O Orlando, sobrinho da Dona Vitória em Évora, na Rua do Raimundo
* Victor Nogueira

Isto aqui em casa são umas correrias escada acima, escada abaixo, que nem calculas. Sim, que o amigo Orlando anda alvoroçado com a escola e um mundo novo para ele, de que me não fala mas pressinto. Os cuidados com os livros, todos bem arranjadinhos, o ar tímido quando com ele falo! (...) O sr. Prates já foi largando a bisca para um explicador ... À borla, pois então. Só que o coração já me caíra aos pés quando na véspera a D.Vitória me comunicara que a minha pensão aumentara de 200 $ 00 mensais, isto é, para 1600 $ 00. (MCG - 1972.10.04)

Por toda a casa soam estalidos, consequência do irrequietismo do Orlando. Não descortino bem qual o gozo daquilo, mas enfim ...

Volto a página e pergunto‑me que mais vou eu escrever? Levanto‑me, dou uma volta pelo quarto, remexo numas quantas coisas e torno a sentar‑me para escrever isto.

Entretanto a D.Vitória regressa, para levantar a bandeja do lanche e despejar o cinzeiro (o João, o Carlos, o Tobias e a Lídia empestaram‑me o quarto com cigarros). Há cinco anos que lido diariamente com a D.Vitória e nunca as nossas relações foram muito cordiais nem estreitas!

Acendo o candeeiro, não porque seja absolutamente necessário, mas num gesto algo inconsciente ou automatizado.

Olho para a minha direita e vejo um enorme calhamaço: "Os Macondes de Moçambique", vol III - "Vida Social e Ritual". Terei de consultar este e os dois primeiros para redigir a monografia de Antropologia Cultural. (MCG - 1973.01.26)

O Orlando faz hoje anos. Deve haver festinha. Reprovou na Escola e anda ouvindo discursos por causa disso há tanto tempo que já estou enjoado (....) A Vicência faz exame depois de amanhã. (...) [O Orlando] deu‑me alguns dos desenhos dele (que eu podia ficar com todos os que quisesse). Vai sendo altura de mudar a decoração do meu quarto. O rapazinho agora pediu‑me trabalho - não tem nada que fazer - de modo que desde sábado que me anda em arrumações aqui no quarto - ordenou‑me revistas, separou‑me jornais e amanhã vou comprar umas folhas de cartão para fazer cadernos para arquivar a papelada e revistas. (MCG - 1973.06.17 B)

Quanto à D. Vitória tem‑me recebido com um sorriso bom. ([1]) O sorriso que não tenho à minha volta nem dentro de mim. O Orlando tem feito grandes estádios no meu quarto. Por causa da máquina de escrever. (MCG - 1973.11.27)
Vindo da rua, deparei com a D.Vitória carregada com camas, que ajudei a transportar escadas acima, enquanto ouvia um desabafo: "Muito pena a gente para ganhar uns tostões!" Já ontem o Orlando me retorquira "ora, isto vai mal!"quando lhe fiz a pergunta habitual: "Então, sô Orlando, como vai isso?!" Referir‑se‑ia à sua "exclusão" do 2º andar? (MCG - 1973.12.04)

[1] - A nossa relação mútua sempre foi algo distante, talvez por não sermos muito expansivos. Mas a verdade é que a D. Vitória me aturou algumas madurezas e creio que me estimava. Sempre foram seis anos de convivência. Dizia-me ela que um alentejano só dá a sua amizade a alguém apenas depois deste provar merecê-la. E foi no Alentejo que me habituei a usar a palavra amigo, como em Setúbal se utiliza a de vizinho. Visitei-a algumas vezes quando ia a Évora depois de sair de lá, uma delas com o Rui e a Susana, estava ela na loja do irmão, na Rua de Aviz, e telefonei-lhe algumas outras, ficando contente por não esquecê-la. Morreu em 1998 e desse facto soube acidentalmente pela Noémia muito depois, quando me vai dando notícias dos nossos conhecimentos comuns em Évora. A D. Vitória era solteirona, tal como os irmãos que com ela viviam: o sr. Prates e, posteriormente, a D. Joana. Na pensão ficavam sucessivamente os sobrinhos que do Cano vinham para Évora estudar, como o Manuel, a Ermelinda e o Orlando.

Victor Nogueira, in RETRATOS


Histórias com o Caló
* Victor Nogueira

Hoje veio visitar-me o Caló, um miúdo que mora aqui no Largo e anda aí pelo prédio a pedir esmola e que asila aqui muitas vezes para jantar e ver filmes de desenhos animados ou banda desenhada. É um miúdo com dez anos, delicado e simpático (mas também com a escola da vida), muito franzino e parecendo por isso mais novo, embora tenha um rosto envelhecido, cujo pai, segundo ele, é pastor. Por vezes, ao fim de semana, aparece arranjado, mas isto não é regra nos restantes dias, talvez porque a madrasta não lhe ligue muito, embora esta não ande mal cuidada, quando por vezes aparece a procurá-lo; no princípio era todo machista, mas agora oferece-se para pôr a mesa, lavar a loiça e regar as plantas. As pessoas escorraçam-no ou não lhe devem dar muita atenção, por ser pobre e pedinte, pelo que ele diz a toda a gente que eu sou o maior amigo dele.

Hoje anda por aí muito feliz e risonho, admirado com as magias do Rui e para as quais me vem chamar a atenção com frequência. (MMA - 1993.08.15)

Bem daqui a pouco vou interromper para ver um filme policial na televisão. Entretanto apareceu o Caló, o miúdo de quem falei em tempos, para visitar o grande amigo dele, que sou eu. Abancou ali numa cadeira a ver fotografias, comentando-as em voz alta, com perguntas e grandes exclamações. Agora fez uma interrogação enorme por causa dum bicho que nunca tinha visto: um perú. Entretanto viu umas fotografias de esculturas feitas pelo meu irmão e diz que não acredita que ele as tenha feito, respondendo que não, que não me estava a chamar mentiroso, mas lá que não acreditava, não acreditava, acrescentando Mas o meu pai sabe desenhar. Vai daí, disse-lhe: Eu não sei desenhar nem cuidar de ovelhas como o teu pai mas escrevo melhor que ele. Não acreditou. Que escrevesse Fernando ali num papel. Disse-lhe, apontando para o meu volumoso livro de poemas: Então não vês que escrevi aquele livro?. Respondeu-me: Ah! mas isso não é escrever, isso foi feito no computador. Claro que para o Caló não saberei escrever, tanto mais quanto ele não será capaz de ler os meus hieroglifos. Depois perguntou-me onde é que eu trabalhava e respondi-lhe que na Câmara. Exclamou ele: Ah! Apanhas o lixo! No prédio dele mora um cantoneiro de limpeza do Município, o Ramiro. Respondi-lhe que não, que trabalhava num escritório, o que nada lhe terá dito pois não deve conhecer a palavra e muito menos o que faz um sociólogo. Enfim! (MMA - 1993.09.10/11)

Hoje tive visitas ao jantar: o Caló. Reparei que também utiliza muito o Victor quando fala comigo, tal como sucede com a filha da Maria do Mar. Aquele devia ir para diplomata: oferece-se para ajudar-me, pergunta-me pelo Rui, pela Susana e pela minha mãe, elogia a minha comida ... (MMA - 1993.09.20)

Passei o fim de semana metido em casa. Apenas o Caló por cá apareceu à tarde, para ver e interrrogar-me sobre as fotografias e ver no vídeo filmes de desenhos animados do Walt Disney. Quando me preparava para regar as plantas ofereceu-se para fazê-lo, mas não jantou cá, pois entretanto a madrasta veio buscá-lo. (MMA - 1993.09.25/26)

Um dia destes dei pela falta dum velho binóculo de teatro, que era da minha avó materna e tinha ali na sala. O Caló negou que o tivesse levado, mas sugeri-lhe que procurasse bem lá em casa pois poderia ter caído para o saco sem ele dar por isso. E hoje bateram à porta e lá estava a figura franzina e envelhecida do miúdo, com um enorme sorriso de alegria quando me viu. Mas perguntei-lhe pelo binóculo e ele respondeu-me que o não encontrara, apesar de tê-lo procurado pela casa toda (dele). Observei: se não levaste o binóculo, porque o foste procurar? ao que me respondeu com um ar muito sério e convicto que o não havia tirado e que o tinha procurado em casa porque eu dissera que ele poderia ter caído para o saco sem ele dar por isso. Disse-lhe então que não viesse a minha casa enquanto o binóculo não aparecesse. Olha, o miúdo ficou com um ar tão triste, os ombros alquebrados numa enorme fragilidade, que eu tive pena dele. E depois pediu--me um pacote de leite para o irmão mais novo mas tive de dizer-lhe que não podia dar-lhe um pacote de leite e comida todos os dias. E assim se meteu no elevador. Não posso garantir que foi ele que levou o binóculo, mas de qualquer modo terei perdido a única pessoa que me vinha visitar, para além da vizinha Maria, que falava comigo e me fazia companhia ao jantar, me regava as plantas e ajudava a pôr a mesa e a lavar a louça. (MMA - 1993.09.26)

Tive duas visitas: o Caló e um irmão, que vieram pedir um pacote de leite e a quem além disso dei dois chocolates. (MMA - 1994.01.01)

Victor Nogueira in RETRATOS

Nunca mais soube do Caló: desapareceu, simplesmente.

Sobre o Caló (falar cigano)
Sobre o povo cigano no Brasil ver:

quarta-feira, março 28, 2007


Breve história dum miúdo: o Jorge
* Victor Nogueira

Em 5 de Abril de 1971 escrevia eu: "Sábado fui com o Jorge ao cinema, ver um filme de desenhos animados com o Asterix. Pois bem, o miúdo pulava e ria‑se, enfim, era um espectáculo. Gosto dele, só tenho pena ... que não estude. Tem‑me oferecido rebuçados, uma daquelas bolinhas de plástico que saltam muito e até me chegou a pagar o jornal ! Há dias apareceu‑nos no café todo eufórico. Tinha ganho algum dinheiro e então comprou um cinto com uma espada de plástico, postais, maçãs e ... um copo. Enquanto não mostrou a espada a toda a malta sua conhecida não descansou. Queria também que aceitássemos as maçãs dele e os postais. Quem não gosta da brincadeira é a D.Vitória [Prates, minha hospedeira na Rua do Raimundo]. Um novo desenho existe no meu quarto, mas esse foi oferta dum outro miúdo, o Carlos. (MCG - 1971.04.05)

Nas minhas deambulações de hoje encontrei a Lídia e o Jorge. Este andava à procura de dez tostões para o cinema - eu fiz que não percebi a indirecta; informou‑me que esteve em Beja a trabalhar no circo e à minha observação sobre a sua magreza retorquiu "É da fome que passo." (e que não está em mim remediar) (MCG - 1972.02.23)

Podia falar‑te do Jorge, que agora anda todo bem vestido - fato cinzento com colete e gravata - , do seu amigo Carlos .- que é moço de recados no Café Arcada e maça as pessoas com os seus préstimos (as gorjetas são a sua única remuneração). Ou do Pedro, que esteve muitos anos no Brasil, que é um tipo expansivo e bom palrador, mas que fala com sotaque brazuca para impressionar (o Jorge desmascarou‑o no café, com um dos seus comentários de miúdo que não está ainda dentro de certos mecanismos sociais) (...) (MCG - 1972.11.06)

Ah! acabei por não ir ao cinema. À tarde o nosso amigo Jorge veio cravar‑me dinheiro para o "Trinitá" (MCG - 1972.12 ?)

O Jorge apareceu ontem pelo café, depois duma longa ausência. Mais velho, já não o miúdo que conhecemos, agora com os ombros curvados, mostrando-nos os calos do trabalho de servente de pedreiro. Gosto dele, mas não encontro nem os gestos nem as palavras que lho digam. ( MCG - 1973.06.10)

Comigo, aqui na mesa encarnada do Arcada, após o jantar, a minha mãe e o Jorge, que trabalha como ajudante de carpinteiro, vencendo uma jorna de 70 $ 00. Em Setúbal ganharia 120 $ 00, mas os pais prendem‑no aqui no burgo [Évora] (...) O Camilo e o Carlos não apareceram por aqui. O Jorge está aqui com uma conversa muito adulta, apesar dos seus dezasseis anos. Ele agora está atrapalhado. Por causa da minha mãe passou a tratar‑me por "Senhor Victor" e por "vocemecê" [abandonando o "Victor" e o "tu"] (...) Perguntei ao Jorge se queria escrever qualquer coisa [para ti, nesta carta], mas ele não quer, pois diz que parece mal a letra dele ao pé da minha de doutor. ([1] ) (MCG - 1973.12.06)


[1] - Ao arrumar papelada, encontrei um texto que ele dactilografara na minha velha Olivetti Lettera 2000: a primeira parte é um conto, escrito com piada embora com muitos erros ortográficos. É demasiado longo para esta nota de rodapé. Na segunda parte escreveu: "1. - O senhore Vitor Nogeira 'e muito meu amigo e axo que ele tambem gosta de mim eu pelo menos gosto dele as coizas que eo gosto de fazera! gosto de escrever a maquina gosto de houvir discos gosto de ler livros 2. - (gosto muito dos meus pais foram eles que me quriaram;" Ainda hoje me comovo com este escrito, especialmente com a segunda parte.


Victor Nogueira in RETRATOS

quadro de Salvador Dali

Cartoon de Luís Afonso

sexta-feira, março 23, 2007

O Cunha Morreu !


Vidas (2)


O Cunha, alfarrabista em Luanda


(...) Lembras-te do Cunha? Em Luanda era um alfarrabista de corpo dolorido e disforme a quem os miúdos roubavam e provocavam. Cria em mim, esperava ainda ver o meu canudo de senhor doutor, dizia ser eu um jovem diferente dos outros e nunca o consegui convencer do seu erro; falávamos de ópera e ele trauteava as árias, falávamos do Camilo e do Zola e da enorme fortuna que ele teria se os livros em stock fossem libras. O homem que não conseguiu ser ele mesmo, condenado a vender a abominável literatura de cordel. "Escreva-me, não se esqueça deste pobre velho!""Havemos de ver-nos nas Ferias Grandes! " O meu postal ficou sem resposta. O Cunha morreu, só, abandonado, como um cão! (Eu, que era seu amigo, nunca o convidara para a minha mesa). E nas tardes quentes e plúmbeas mais uma voz silenciou-se: os frigoríficos do Pólo Norte -Frimatic, o Rei dos Frigoríficos - substituem os livros que nunca foram libras! ([1])

[1] - Escrito em Évora, em 1969.03.16 (Num repelão) O Cunha havia falecido em fins de 66, princípios de 67. O "Notícias" de Luanda dedicou-lhe umas linhas, lastimando a sua morte e o egoísmo dos homens. Teriam posto em leilão os livros da livraria e a Casa dos Frigoríficos anexou a lojeca, perto da Sé. Ficou deste modo privado do seu único meio de subsistência. O seu sonho era vender tudo e regressar a Portugal (à Metrópole, como então se dizia). Gostaria de ter vendido bons livros, de ter sido um bom alfarrabista. E dizia-me, quando vim para Lisboa: "Escreva‑me, meu amigo, não se esqueça deste velhote. O senhor há‑de ser alguém!" (NSF - 1968.08.20)


Texto - Victor Nogueira in RETRATOS
Foto da loja de Alfarrabista no Arco da Almedina, em Coimbra

NOTA: Uma outra referência ao Cunha encontra-se em

Galeria :: Luanda de Outros Tempos - Preto e Branco :: 44

Gallery: Galeria Album: CENTROS URBANOS Album: Luanda Album: Luanda de Outros ... Cunha, alfarrabista, ao lado da Frimatic ; à esquerda, um prédio com uma ...
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Uma greve no antigamente (1)
* Victor Nogueira

E isso faz‑me lembrar que se diz por aí que houve uma greve dos empregados da Carris, que pretenderiam aumento de salários; a greve teria sido sufocada, mas os jornais, que eu saiba, nenhuma referência fizeram ao assunto. (NSF - 1968.06.24)

Hoje todo o mundo, em Lisboa, anda à borla nos autocarros e nos eléctricos da Carris; não é nenhuma graciosa oferta da companhia aos seus utentes. Os seus empregados pretendiam um aumento de salário, que lhes não foi concedido - diga‑se de passagem que eles ganham muito mal. Assim hoje e não sei por quanto tempo os transportes circulam, cumprindo os horários habituais, mas os condutores não cobram bilhetes, por decisão tomada pelo respectivo Sindicato. A não cobrança dos bilhetes acarretará prejuízos à Carris, pelo que muito provavelmente os seus empregados alcançarão o que pretendem. Mas, ... como é tradicional, os grandes accionistas não quererão ver os seus dividendos diminuídos, pelo que o Zé Povinho, um dia destes, verá o preço dos bilhetes aumentar.

Já no ano passado, quando uniformizaram para um escudo o preço dos bilhetes dos eléctricos - acabando com os de $70 e aumentando os dos elevadores de $20 para $50 - já não me ocorre a que pretexto pretenderam "actualizar o dos autocarros. Eu creio que os transportes colectivos alfacinhas são mais acessíveis que os tripeiros ou os de Luanda. (...) Ultimamente a Companhia adquiriu novos autocarros onde, para aumentar a lotação, quase não existem bancos, amontoando‑se os passageiros em pé, à rectaguarda e no centro. Neles deixamos de ser humanos para sermos gado, amontoados em equilíbrio instável. Há semanas os eléctricos começaram a sofrer idênticas transformações, suprimindo‑se os bancos para aumentar a lotação. (NSF - 1968.07.01)

Os transportes na Carris continuam a ser gratuitos. Os jornais vespertinos não aludem ao assunto enquanto que os matutinos de hoje se limitam a publicar uma nota do Ministério das Corporações e Previdência Social. À noite já gozavam com a situação e desde então muitas são as pessoas que aproveitam as circunstâncias para passearem e andarem o menos possível a pé. Os autocarros e os eléctricos vão pejados de gente. (...) Em média os funcionários da Carris ganham 60$00 por dia e pretendem um aumento de cerca de 25$00 diários. (NSF - 1968.07.02)

Os empregados da Carris retomaram, há três dias, o serviço normal As negociações entre o Sindicato e a Companhia continuam, mas um intervenção do Ministério das Corporações e Previdência Social deu àqueles, para já, um aumento de 20$00 diários e 520$00 mensais, respectivamente aos assalariados e aos empregados. (NSF - 1968.07.06)

Uma nota por mim ontem lida no diário vespertino "A Capital" informava que a Carris contactara com a Câmara Municipal de Lisboa com vista a um aumento de preço dos bilhetes dos eléctricos. Comentários !? (NSF - 1968.08.04)

Os empregados da Carris foram todos agradecer ao Presidente do Conselho [Salazar] a intervenção do Governo. Discursos, ramos de flores, palmas, beijinhos ás criancinhas! ...

Para quê? Agradecer o quê? O Governo só tem razão de ser para servir a Nação. É a sua obrigação. Para isso é que lá está! (NSF - 1968.08.20)

Texto - Victor Nogueira in RETRATOS
Quadro - Fernando Pessoa por J. J. Brito

quinta-feira, março 22, 2007



A Invenção do Amor


Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com caracter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranhezade um sorriso natural e inesperado


Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem e uma mulher um cartaz denuncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e nas avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencialé possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia
Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja tarde
a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas
Fechem as escolas Sobretudo
protejam as crianças da contaminação
uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade
Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

...

É possível que cantem
mas defendam-se de entender a sua voz Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
lhe lembravam a infância Campos verdes floridos
Água simples correndo A brisa das montanhas
Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

...

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua


Daniel Filipe (1925 - 1964)

A Invenção do Amor e Outros Poemas
iluminura dum Livro de Horas

terça-feira, março 20, 2007








Crédito, incidentes e gestores atrasados mentais




Quando começam a surgir em Portugal empresas de crédito especializadas em clientes com incidentes bancários, nos EUA, onde este conceito nasceu por volta de 1992, estas empresas começam agora a definhar e a falir arrastando consigo muito mais do que seria de esperar. A taxa de incumprimento dos clientes destas empresas anda na ordem dos 14%, levando os responsáveis até à beira de um ataque de nervos para simplesmente conseguirem sobreviver. Em Portugal, no entanto, o mercado dos incidentes bancários continua a crescer surdo aos avisos dos irmãos mais velhos americanos. Por cá são conhecidas as agressivas campanhas da GE Money, do banco Primus, até mesmo da Cofidis que se debatem por uma cada vez maior fatia do mercado de crédito, pois também existe um cada vez maior número de pessoas com incidentes na banca.

O problema é, no entanto, muito mais grave do que se imagina. Todas estes casos de incumprimento referem-se a empréstimos suportados pela habitação, com uma hipoteca, às vezes até mais do que uma. Como estas empresas se apresentam financeiramente débeis, sem suporte financeiro para aguentar muito tempo com estas taxas de incumprimento, a sua única solução é mesmo executar a hipoteca e colocar o imóvel no mercado para fazer dinheiro rápido. Isto obviamente acarreta graves problemas sociais e económicos, pois inúmeras pessoas estão agora em risco de perder as suas casas.

Ora, colocar mais casas à venda num mercado já saturado de casas por vender e onde os preços estagnaram ou estão mesmo a descer será agravar a situação geral, forçando a um forte decréscimo no valor da habitação, colocando todos as outras hipotecas, mesmo as que estão a ser cumpridas em pior estado, pois o valor das casas deixa de ser suficiente para suportar o valor das dívidas.Mais ainda, os consumidores deixarão de consumir de modo a pouparem dinheiro apenas para pagar as hipotecas e assim não perder o local onde vivem. Esta situação já acontece de momento com o índice de consumo a descer nos EUA em Fevereiro depois de um crescimento de 0% em Janeiro. E sem consumo não há economia que aguente.Assim, podemos ver a gravidade da situação gerada apenas pela irresponsabilidade de quem dá.

A ajudar à festa temos a constante subida das taxas de juro que ameaçam constantemente quem tem dívidas à banca. É uma realidade muito complicada e que poucos se apercebem da verdadeira dimensão, pode ser o início de uma das mais graves recessões a nível mundial, como alguns analistas já o afirmam.

Numa situação típica como esta a reacção da banca é aumentar as taxas de juro de modo a controlar o crédito e a disponibilidade de moeda, coisa que já está a ser feita pelos bancos centrais. De qualquer modo esta função está já a ser cumprida pelas medidas mais apertadas de concessão de crédito que a própria banca resolveu tomar à pressa, o que na prática, é o mesmo que afastar os clientes da banca e do crédito. Assim, só não temos uma escalada maior das taxas de juro porque a banca simplesmente já não é obrigada a dar crédito, fazendo caír por terra as alegações da própria banca sobre o seu importante papel na sociedade.

E quando a banca já não tem clientes a quem possa extraír dinheiro, nem saída para as casas que ocupou nas execuções das hipotecas, a única coisa que lhe resta fazer é virar-se para uma fonte de rendimento mais limpa, secreta e inesgotável: os nossos impostos. De facto, nos EUA criou-se agora uma comissão governamental com o objectivo de ajudar financeiramente as famílias em vias de perder as suas casas por via das suas dívidas. Decerto que poucos vão protestar contra uma medida tão "social" mas abre-se assim a porta ao aumento brutal dos impostos e ao ainda maior conluio entre banca e Estado, ficando todos nós a pagar pela irresponsabilidade de apenas alguns, referindo-me aqui aos gestores das empresas de crédito que resolveram afogar ainda mais as pessoas endividadas com crédito a taxas exorbitantes e sem qualquer controlo ou pedagogia apenas em busca de dinheiro fácil à custa de quem mais dele necessitava.

Assistimos assim a mais um episódio na fusão Estado-Banca, que agora está cada vez mais às claras.

2007.Março.17 - FONTE:


Embora não sejam de hoje, os dados seguintes seguramente não mudaram … para melhor!

Quem são e como são os patrões portugueses?

Segundo um estudo efectuado pela AD Capita International Search e a Cranfield School of Management e citado em artigo de Pedro Fonseca de Castro publicado no jornal O Público a culpa da baixa produtividade em Portugal não é só dos trabalhadores e do Estado. A falta de visão estratégica, a incapacidade de trabalhar em equipa e o desprezo pelo planeamento dos gestores também ajudam

No estudo foram inquiridos 130 gestores de topo, de diversas nacionalidades europeias, cuja actividade profissional se desenvolve em Portugal . Os resultados, esses, revelam-se muitas vezes arrasadores. Cerca de 82 por cento dos gestores estrangeiros manifestam a convicção de que as empresas portuguesas são desorganizadas e ineficientes. Os inquiridos consideram que os gestores portugueses trabalham tanto ou mesmo mais que os seus congéneres do resto da Europa, mas que a quantidade de horas de trabalho não é justificada pela qualidade do desempenho. Para a ineficiência, muito contribui o ambiente geral que envolve os agentes económicos, caracterizado, de acordo com a opinião expressa por três quartos dos inquiridos - 74 por cento - por um grau de exigência burocrática exagerado.

Quais são outras características reveladas?. Em primeiro lugar, temos aquilo que no estudo se define como o estilo autocrático ainda cultivado por grande parte dos responsáveis das empresas nacionais. Apenas 18 por cento dos gestores estrangeiros consideram que os seus colegas portugueses trabalham bem em equipa. Um dado curioso, que mostra a dificuldade em delegar poderes, diz respeito às reuniões de trabalho e à discussão de ideias. Aparentemente, estes momentos resumem-se a um simples convívio, uma vez que mais de metade das respostas - 54 por cento - confirmam que as decisões tomadas por comum acordo numa reunião tendem a não ser aceites e a não originar qualquer alteração de rumo.

Quando se pergunta directamente se os gestores portugueses são autoritários, uma maioria muito significativa de 78 por cento concorda com esta visão da cultura empresarial portuguesa. Associada a esta conclusão está uma outra, que confirma aquilo que o senso comum há muito deixava adivinhar: as relações profissionais em Portugal caracterizam-se por um inusitada formalidade, com a maioria a destacar a obsessão nacional pelos títulos académicos. No fundo, um pequeno sinal que simboliza a perda de tempo precioso com questões não essenciais.

De entre as qualidades básicas que qualquer gestor deve possuir, uma das mais importantes é uma visão estratégica. Para 58 por cento dos inquiridos no estudo elaborado pela Ad Capital International Search, os gestores portugueses preferem trabalhar de uma forma não planeada, sem uma estratégia de médio e longo prazo bem definida. Esta arriscada preferência surge associada a uma falta de concentração e eficiência no trabalho. A crítica encontra suporte em 73 por cento dos inquiridos, que destacam aquilo a que chamam "presentismo". Trata-se de uma cultura que, no seu entender, é típica dos profissionais portugueses e que se traduz pela permanência no local de trabalho durante longas horas, apenas para que essa presença seja notada. Sabendo-se que Portugal é um dos países da União com menor produtividade, não abona em favor dos gestores saber-se que, afinal, o problema começa nos "chefes". Uma constatação que contribui para aliviar as culpas que nessa matéria têm pesado sobre os trabalhadores em geral

Existe em Portugal a convicção de que os profissionais em geral e os gestores em particular possuem um dom quase mágico, que lhes permite ultrapassar as situações mais inesperadas. A palavra que define esta qualidade, e a que os autores do estudo dedicam alguma atenção, é "desenrascar". Contudo, os gestores estrangeiros não avaliam positivamente o "desenrascanço" nacional, com mais de metade - 52 por cento - a subscrever a afirmação de que a criatividade e a originalidade não são qualidades abundantes na gestão do tecido empresarial português.

Uma conclusão que confirma igualmente as ideias pré-concebidas diz respeito ao facto de 82 por cento dos inquiridos, uma das maiores percentagens deste estudo, concordarem com a afirmação de que o cumprimento de prazos em Portugal se resume a deixar tudo para o último instante. Mais uma vez, é a falta de planeamento estratégico que é colocada em causa por estes observadores privilegiados.

Apesar das falhas, não se julgue que a remuneração dos gestores em Portugal está longe dos níveis europeus. Vários estudos recentes e a experiência de recrutamento da Ad Capita demonstram que os salários dos gestores de topo são em Portugal superiores à média europeia, em claro contraste com a remuneração auferida pela generalidade dos trabalhadores portugueses, que não ultrapassa os 60 por cento da média dos colegas europeus. O mais caricato é que são os próprios gestores a definir quanto ganham.

Cabe perguntar: até onde este retrato se aplica também à maioria dos políticos e dos dirigentes e chefias da Administração Pública Central, Regional Autónoma e Local?

VN


Nota - o referido estudo deve ter sido efectuado em 2002/2003

segunda-feira, março 19, 2007


Dois anos da "nova política"

São José Almeida
A semana política


A "nova política" levada a cabo pelo PS tem como fio condutor comum a tentativa de desprestígio do papel do Estado

Há dois anos, José Sócrates tomou posse como primeiro-ministro do primeiro Governo do PS com maioria absoluta. O feito eleitoral, que a posteriori tem sido lido como um resultado da imagem impositiva e determinada transmitida pelo agora primeiro-ministro, deve-se, em grande parte, ao facto de José Sócrates ter estado no lugar certo no momento certo. Se é exagerado dizer-se que o poder lhe caiu no colo, a realidade é que a maioria absoluta do PS deveu-se mais ao desastre da governação de Barroso-Portas. Lembre-se o colapso eleitoral da coligação governativa de direita nas europeias de 2004. Santana Lopes não passou de um epifenómeno, vítima tão-só da sua vaidade e da sua ânsia de poder, que o levaram a aceitar ser primeiro-ministro sob tutela. Importa também recordar que o PS ascendeu à maioria absoluta em Fevereiro de 2005, mas o PCP e o BE também subiram eleitoralmente. A erosão eleitoral atingiu, então, o PSD e o CDS.

Ao tomar posse em condições de poder inéditas à esquerda, José Sócrates inicia a concretização de um programa político de influência ideológica neoliberal que tem como objectivo desestruturar o papel social do Estado tal como foi construído no pós-guerra (em Portugal, após o 25 de Abril), não só na vertente de garante de direitos democráticos, mas também na da redistribuição de riqueza, numa pressão inédita, numa luta de classes invertida, por forma a retirar poder de compra e qualidade de vida a quem trabalha, a favor do mercado, do capital e da classe dominante que o representa, as elites de gestores e empresários. O resultado tem sido o dumping social dos últimos dois anos.

Esta "contra-revolução neoliberal", como a designou Milton Friedman, que leva à precarização das relações de trabalho, à desregularização social, à informalização da política, está em marcha desde os anos 70 e domina, entretanto, os critérios de orientação da União Europeia. Chega agora a Portugal e é concretizada com um conjunto de medidas políticas, que têm como fio condutor comum a tentativa de desprestígio do papel do Estado e de criação de um novo modelo social em que os ricos são cada vez mais ricos e os pobres aumentam, em relação aos níveis de vida de há algumas décadas. Isto porque, apesar do bolo da riqueza aumentar, as fatias de uns aumentaram de tal forma que as que sobram para os outros são forçosamente mais pequenas.

Passando ao concreto, esta orientação está patente na reforma da função pública, mas também no agravamento geral das condições e do poder de compra da população que, aliás, não têm deixado de engrossar, de manifestação para manifestação, a corrente dos protestos sociais. É, aliás, a percepção dos índices de descontentamento, a noção do risco da "revolta" social, do "motim" - um risco que a história ensina -, que podem ser originados pela radicalidade das mudanças sociais, que estão também na origem do novo espírito securitário, que de repente assolou as políticas de administração interna. Políticas que denotam uma preocupação de controlo de informação (cartão único) e de centralidade policial de admoestação e domesticação da sociedade (desejo do "cidadão transparente"), que podem pôr em causa os fundamentos da liberdade individual, como ela é entendida nas sociedades democráticas, e que não é explicável apenas pelo risco do terrorismo.

A "nova política" está a ser levada a cabo por um partido socialista, membro da Internacional Socialista, que é herdeiro do património da social-democracia, mas que não hesita em medidas que põem em causa a dimensão humana do modelo social europeu e o seu objectivo de preocupação com o bem-estar e a dignidade das pessoas. A começar pela Saúde, onde as reformas em curso não são uma mera optimização, mas que tem como pressuposto - quer o fecho de serviços de urgência, quer de maternidades - não o princípio do interesse do cidadão, mas o da comercialização e da orientação da saúde por critérios economicistas: os que podem tratam-se no privado, os que não podem morrem.Mas também na Educação essa lógica e diminuição do papel social do Estado está presente. Mais: o feroz ataque que tem sido desferido pelo Ministério da Educação contra a dignidade profissional dos professores tem como resultado, acima de tudo, o desprestígio do ensino público. Fecham-se largas centenas de escolas no Interior, ignorando conscientemente a sua função social e cultural insubstituível nas regiões mais deprimidas, e degradam-se as universidades, reduzindo-as ao papel de prestadores de serviços às empresas.

Já na Segurança Social, José Sócrates assumiu a herança social-democrata e recusou-se a aceitar o sistema misto que abriria a porta à privatização de parte das reformas, mas, no que toca ao financiamento do sistema, colocou a responsabilidade deste nos ombros de quem trabalha que passa a pagar mais, receber menos e mais tarde.

Isto para não falar da Cultura, onde o grande investimento destes dois anos feito pelo Governo socialista é o patrocínio estatal garantido, durante pelo menos dez anos, à colecção artística privada de um conhecido empresário.

Com o ponto de viragem do mandato a celebrar-se agora e depois do que já foi feito por José Sócrates, não é de excluir que aumentem os apelos para o incremento das reformas por parte dos porta-vozes das elites políticas e sócio-económicas dominantes, até porque, a entrada em plano descendente do ciclo político para período eleitoral poderá levar as cassandras da "nova política" a temer que o seu Governo não seja suficientemente frio e racional para ir com o programa até ao fim e venha a cair em temores eleitoralistas de perda de votos. Daí que seja natural que se passe a viver com uma intensidade maior a histeria da inevitabilidade da receita única.

São José Almeida
Jornalista
17.03.2007, Público

ilustração - autor não identificado

quinta-feira, março 15, 2007


Personnages sur fond de collines, 1924.

por Lasar Segall, 1891-1957, pintor brasileiro de origem lituana, no Museu de Arte e de História do Judaísmo em Paris.

O 15 de Março em Angola - Victor Nogueira









O 15 de Março










* Victor Nogueira
Das cartas por mim então escritas e os comentários que o tempo e outra visão ditaram posteriormente

Registaram‑se massacres no Norte de Angola, praticados por terroristas. Os europeus e os indígenas que não quiseram aderir aos terroristas foram martirizados e mortos. Muitos dos mortos foram cortados às postas pelos terroristas. Grande número de fazendas ([1]) e pontes foram destruídas. Em Luanda os civis têm‑se exaltado. Anteontem foram falar com o cônsul americano, o qual lhes perguntou o que desejavam. Após ouvir as alegações dos civis, teria respondido: “Vão‑se embora que isto é dos pretos.” Aqueles, ouvindo isto, arvoraram a bandeira portuguesa no mastro do consulado e atiraram o automóvel do cônsul ao mar. Ontem outro grupo de civis atacou a Missão Evangélica, mas foi disperso com bombas lacrimogéneas. ([2])

Têm‑se formado Milícias de Defesa Civil do Território, nos bairros da cidade. Na Praia do Bispo ainda se ofereceram 15 homens, que têm feito a ronda nocturna. No entanto ontem eu e outro rapaz andámos a distribuir os papéis de inscrição pelo bairro. Houve uma casa em que me responderam: “Nós somos velhos, não precisamos disso. Vai‑te embora.” Essa é uma casa de mulatos. Se eles aceitassem menores de 18 anos para fazer a ronda eu oferecia‑me. Assim só precisam dos menores para fazer os serviços dum contínuo quase.

A semana passada aprendi a carregar e descarregar uma espingarda, quando fui com o meu pai ver os funcionários das O.P. [Obras Públicas] que ficam de velada à noite. O meu pai é quem abre as portas dos armazéns onde dormem. (JLF - 1961.03.24)

Registaram‑se no Norte de Angola, nas regiões de Maquela do Zombo e S. Salvador insurreições de indígenas. Há a lamentar numerosas vítimas, quer entre os europeus, quer entre os indígenas (principalmente os bailundos) que defenderam as fazendas. Segundo os relatos dos refugiados os insurrectos após martirizarem os europeus e indígenas cortaram‑nos às postas! Para evitarem a fuga dos europeus os revoltosos abriram valas nas estradas e derrubaram as pontes. Felizmente que a calma já se encontra restabelecida! ([3])

Em Luanda os civis têm‑se exaltado e já por diversas vezes atacaram pretos pela simples razão de serem pretos. Anteontem um grupo de civis foi falar com o cônsul americano, mas estes ter‑lhes‑ia dito: “Vão‑se embora que isto (Angola) é dos pretos”. Claro que os civis indignaram‑se e, após espatifarem o carro do consulado, atiraram‑no à baía, cantando “A Portuguesa” e dando vivas a Salazar. Ontem outro grupo de civis queria fazer uma manifestação em frente do consulado americano, mas a polícia dispersou‑os com bombas lacrimogéneas. No entanto mudaram de rumo e depredaram a Missão Evangélica. (NID - 1961.03.24)

Registaram‑se no Norte da Província, nas regiões de Maquela do Zombo, S. Salvador e outras, insurreições dos indígenas. Estes praticaram atrocidades. Além de assassinarem os colonos europeus mataram os pretos que a eles não quiseram aderir. Sanzalas inteiras e fazendas foram arrasadas. Graças à rápida intervenção das forças armadas as insurreições acham‑se quase dominadas. Têm‑se efectuado numerosas prisões. A grande maioria dos europeus até aqui presos são pequenos funcionários, a quem tinham prometido os cargos de ministros dos governos do Negage e de Camabatela, que se haviam de formar. As zonas assaltadas pelos terroristas estavam cheias de colonos barbaramente mutilados, estando muitos vexados, principalmente as senhoras e raparigas.

Em Luanda os civis têm‑se exaltado. No dia 22 um grupo de civis foi falar com o cônsul americano. Este ter‑lhes‑ia dito: “Vão‑se embora que isto é dos pretos.” Aqueles exaltaram‑se, arvoraram a bandeira Portuguesa no consulado e atiraram com o carro do cônsul à baía. No dia seguinte tentaram fazer outra manifestação no consulado americano, mas a polícia dispersou‑os com bombas lacrimogéneas. Nesse mesmo dia assaltaram a Missão Evangélica partindo todos os vidros. (...) A Missão situa‑se perto do Colégio das Irmãs e o Consulado na Av. Marginal, mas foi disperso com bombas lacrimogéneas.

Não sei se conhecias o Cónego Manuel das Neves, aquele padre velhote que celebrava a missa na Sé, geralmente às 9 horas. Pois bem, foi preso. Com ele foram encontrados planos para diversas insurreições, uma delas em Luanda. Esse cónego seria um dos ministros do novo estado!!! (JG - 1961.03.27) ([4])

Isto cá por Angola não vai muito melhor. No entanto os nossos mortos podem contar‑se pelos dedos, comparados com as pesadas baixas que temos infligido aos terroristas. (JG - 1961.06.19)

[1] - Herdades agrícolas ou roças.

[2] - Neste processo os maus da fita eram os EUA e as igrejas protestantes, acusados de apoiarem a UPA (União dos Povos de Angola) de Holden Roberto, apresentado como um preto estrangeiro que nem português sabia falar!
.
[3]- Estava creio que numa festa de aniversário quando soube dos massacres no Norte de Angola, massacres atribuídos ao mau exemplo da independência do Congo ex‑belga tempos antes, sendo Lumumba apresentado como um malfeitor e Tschombé, separatista do Katanga, como um amigo. Os massacres pareciam inexplicáveis, tanto mais quanto a maioria de nós desconhecia que semanas antes a aviação militar portuguesa tinha bombardeado aldeias e chacinado camponeses no Norte de Angola, em greve devido ao regime de monocultura estabelecido pelas grandes companhias, em detrimento das culturas tradicionais de subsistência. Neste contexto poderá ser explicado o ódio aos fazendeiros e indígenas com eles colaborantes, independentemente doutras considerações. A verdade é que entre os brancos se instalou um autêntico clima de histeria, alimentado pela publicação de fotos, notícias e romances dos massacres dos europeus, sem que a outra parte pudesse fazer o mesmo. Eram frequentes os boatos em Luanda sobre o envenenamento da água das canalizações ou da descida dos negros dos muceques, infiltrados de terroristas, para massacrar os brancos da cidade. Muitas vezes fomos todos dormir para o escritório do meu pai, num arranha‑céus na Marginal, adultos e miúdos todos deitados uns ao lado dos outros, à espera do que viesse. Este clima de histeria desculpava e justificava os massacres indiscriminados sobre os negros, linearmente o inimigo, logo ali abatidos pelas milícias populares ao menor gesto suspeito. A célebre frase de Salazar, «Para Angola e em força», marcou uma viragem no ânimo dos civis, levado ao rubro pela chegada e desfile dos primeiros contingentes militares que marchavam pela Marginal perante as ovações de quem pejava os passeios. Tropa mal preparada, que nos primeiros tempos morria como tordos nas emboscadas, com armamento obsoleto que muitas vezes rebentava na cara e nas mãos dos soldados, os maçaricos como depreciativamente começaram a ser tratados pelos brancos de Angola.

[4] - O Cónego Manuel das Neves era um velhote simpático, mestiço, com quem gostava de falar, que me baptizou, crismou e deu a 1ª comunhão. Apesar de todas as histórias que se passaram a contar, nunca o vi como um terrorista sedento de sangue. Aliás, nunca consegui embarcar nas teses maniqueístas dos brancos bons vítimas da maldade dos negros a soldo do estrangeiro. Foram criados negros que andaram comigo ao colo, me embalaram e contaram histórias para adormecer; foram negros os criados com quem brinquei; eram negros a lavadeira e os criados com quem conversava, que gostavam do menino Vitó porque os tratava sem arrogância, os considerava seus iguais e procurava que tivessem os mesmos direitos que os brancos! Lembro‑me da Maria, lavadeira, velhota, que fumava os cigarros com o morrão para dentro. Lembro‑me dos criados, como o Sebastião, o Laurindo, o Ambrósio ou o Fernando, este que se dizia filho dum soba e sucessor do pai lá na sua aldeia no sul de Angola.


Gravuras - Goya - Os desastres da Guerra


«Los desastres de la guerra» é um conjunto de 80 gravuras criadas por Francisco Goya na segunda década do século XIX e publicadas em 1863, 35 anos após a sua morte.
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VER:
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quarta-feira, março 14, 2007


REFEIÇÃO


Estendemos a toalha
Trouxeste o pão, o vinho
Eu trouxe a fome, a sede o cansaço
E a mão para colher
A pureza espontânea do teu gesto
Que tem a dimensão do teu braço

Eu recebi
Tu deste
Compartilhámos.
Da refeição ficou o travo doce e bom do mel
E a certeza daquilo que está certo.

Eugénia Cunhal
Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
nenhum de nós dirá nada
mas a mãe largará o bordado
o pai largará o jornal
as crianças os brinquedos
e abriremos para ti os nossos corações.
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.


Maria Eugénia Cunhal, in "Silêncio de Vidro"
Da Carta

1.
Se as cartas não fossem cartas, muitas vezes escreveria a V.M. como desejo, mas porque o são o não ouso fazer, pois as não leva o vento, como palavras e plumas, antes se guardam tão bem, que a todo o tempo se pode pedir razão de como se escreveram e porque as escreveram (…)

(Garcia de Resende a D. Francisco de Castelo Branco, 20.11.1535)


2.
(…) Antigamente as pessoas escreviam muito e as cartas eram meio de transmitir notícias e muitas delas, com maior ou menor valor literário, tornaram-se testemunho dos factos, acontecimentos, ideias e sentimentos. Mas hoje, hoje as pessoas telefonam ou encontram-se, devido à facilidade e rapidez dos transportes e das comunicações, e o tempo é pouco, paradoxalmente, devido à sobrecarga do que se gasta em transportes, sentado frente à TV ou em tarefas domésticas.

O mesmo sucede com o convívio e a conversação: por vários motivos os cafés e as tertúlias desaparecem, só se conhece o vizinho da frente ou do lado, quando se conhece, e as pessoas metem-se na sua concha, casulo, carapaça ou buraco. Muita gente junta, ao alcance da mão ou da voz, não significa que estejamos mais acompanhados e humanizados. (…)

(Victor Nogueira à «Maria do Mar», 18.08.1993)

sábado, março 10, 2007


Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,
em serenos sobressaltos
como estes pinheiros altos


que em verde e ouro se agitam
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma. é fermento,
bichinho alacre e sedento.
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel.
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança.,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra som televisão
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre a mãos de uma criança.

(António Gedeão)

Quadro

The Alchymist, In Search of the Philosopher’s Stone, Discovers Phosphorus, and prays for the successful Conclusion of his operation, as was the custom of the Ancient Chymical Astrologers - Derby Museum and Art Gallery - Derby (UK)

"Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida."

Foram estas palavras que depois de apresentadas pela primeira vez em 1969 no programa de televisão "Zip-Zip", pela voz de Manuel Freire marcaram uma geração que, reprimida por uma ditadura fascista e atormentada por uma guerra colonial sem fim à vista, se encontrava ávida de liberdade em que o sonho se afirmava como o único caminho. Desde então, o poema "Pedra Filosofal" tornou-se uma bandeira de luta e de crítica, fazendo crer que o sonho comanda a vida. Toda a simbologia deste poema numa fase tão conturbada da história recente contribuiu ainda mais para adensar a aura que o transformou num grito de revolta e sofrimento mas ao mesmo tempo de afirmação e esperança.

Texto retirado de

http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/antonio_gedeao/geracao_filosofal.html




Sábado em Santa Comba



As imagens da televisão podem sugerir uma dimensão engrandecida das realidades focadas: tomando um exemplo frequente e não conotável com nada de grave, digamos que é comum verificarmos que um sujeito ao vivo é de presença bem mais discreta, bem menos impressionante, do que a imagem no ecrã do nosso televisor levava a crer. Parece ter acontecido alguma coisa de algum modo semelhante com as reportagens que a TV nos trouxe do «choque ideológico» ocorrido no passado sábado nas ruas de Santa Comba Dão. Quem viu aquelas imagens pode ter pensado que a população inteira de Santa Comba e arredores saiu à rua para defender o direito de transformar a localidade numa espécie de Meca do fascismo lusitano; que todos os cidadãos locais e seus anexos são devotos fiéis do salazarismo e que foram centenas os que quiseram opor-se à recusa expressa pelos antifascistas da URAP, porta-vozes do sentimento de milhares de outros que não foram com eles. Ora, não foi assim, não é assim: nem os chamados contra-manifestantes eram mais que um punhado deles, nem a gente de Santa Comba Dão é toda devota do ditador de má-memória. Aliás, um dos santacombadenses veio explicar perante a TV o que de facto o motiva, e a muitos outros: palpita-lhe que a criação de um «museu de Salazar» suscitará um surto de turismo capaz de muito beneficiar o comércio local. Percebe-se: a vida está má. Entenda-se, contudo, que esta motivação, inocente de objectivos políticos de raiz neofascista, não significa que não esteja em curso uma campanha sorna mas muito entusiasmada que visa o branqueamento da imagem do criador do campo do Tarrafal. Não me parece que a gente que comanda essa ofensiva esteja completamente alheia à ideia do museu, como não o estará quanto ao aproveitamento do concurso ridículo, mas afinal perigoso, que é os «Grandes Portugueses» da RTP. E permita-se-me dizer que me parece pelo menos curioso que um jornal de referência tenha citado na passada segunda-feira, por três vezes sendo uma delas na primeira página, a observação de um historiador de Coimbra segundo o qual «falar de Salazar já não é vergonha». É certo que não o é, que de facto nunca o foi, dependendo isso, porém, do modo como se fala. Se for para fazer o inventário público não apenas dos muitos crimes que Salazar cometeu, ainda que não usando as próprias mãos, mas também para denunciar o verdadeiro conteúdo da sua alegadamente virtuosa política económico-financeira que saneou as finanças nacionais pelo preço da fome de muitos milhares de portugueses; para lembrar a sua cumplicidade infame com os carrascos franquistas e para esclarecer que o seu «milagre da paz» foi uma consequência da posição geográfica de Portugal no calcanhar da Europa e não dos seus talentos, é mesmo justo dizer que até se tem falado de menos de Salazar. Sobretudo nos grandes media, sobretudo na televisão pública. Porém, se se pretende agora «falar de Salazar» para induzir à sua canonização política, não apenas isso será uma vergonha como será uma impostura grave e perigosa.

Uma União que existe

Voltando às reportagens da TV e ao tema do desejado museu, é claro que, se instalado, ele consubstanciaria um permanente acto de propaganda do fascismo, coisa que a Constituição expressamente interdita. É certo que já se injectou na prática política portuguesa o entendimento tácito de que a Constituição não é para cumprir, é para «actualizar» de acordo com os interesses dominantes, mas ainda assim parece forçoso um mínimo de recato. Ou de «vergonha», para usar aqui a palavra usada pelo historiador de Coimbra. Assim como o elogio do sujeito a quem Sophia, poeta de moderada expressão, chamou o «velho abutre», feito na RTP pelo incomparável Nogueira Pinto ao abrigo do já referido concurso èrretêpaico, foi também um momento de propaganda do fascismo lusitano. Quanto ao que se passou agora em Santa Comba e à eventual repercussão que a cobertura televisiva permitiu, sublinhe-se que teve pelo menos um mérito: divulgou a existência da URAP – União de Resistentes Antifascistas Portugueses que, ao que tudo indica, tem sido objecto de um cuidadoso boicote por parte dos grandes media nacionais que contudo falam de Salazar sem «vergonha». Mas o caso é que a URAP está aí, talvez à espera de cada um de nós, pois é claro que nem o fascismo nem os antifascistas acabaram em Abril de 74: o fascismo foi apenas afastado do poder, os antifascistas prosseguiram diversas formas de resistência, agora legal. Que a RTP tenha informado, mesmo sem muito o querer, que a URAP existe, foi um bom subproduto das suas reportagens. Não disse, é certo, que a URAP precisa de todos os antifascistas, sobretudo dos que nunca se lembraram dela. Mas fica aqui dito, pelo menos. Graças à televisão.

in Avante 2007. Março.08

NOTA:
Lembro-me de em 1974 o então «nascido» PPD (Partido Popular Democrático)», criado por Francisco Sá Carneiro, entre outros membros da chamada Ala Liberal da Assembleia Nacional de Marcelo Caetano, ter feito um comício no jardim público de Évora Estive lá e constatei que a assistência era diminuta. Contudo as fotos então publicadas na imprensa «mostravam» uma imensa multidão, devido ao ângulo de captação de imagem escolhido pelo fotógrafo.
VN


Nós somos

argila barro calcário

argamassa que une

tijolo a tijolo

pedra a pedra

a ponte o muro a casa o celeiro

o ferro a caldeira o aço

a charrua o arado o tractor

a grua o guindaste o elevador

esta oficina esta fábrica

a corda a linha

o tecido

que amassa nosso alimento

que protege o nosso corpo

Nós somos o caminho

a distância e o acontecimento

no instante ultrapassados

Sem nós

outra seria a mudança

outra seria a qualidade

outro seria o mundo

outras seriam as sementes

Desde sempre pela paz e pela liberdade lutamos

Não pela liberdade dos senhores e dos senhoritos

Não pela paz dos cemitérios

deserto da Roma imperial

Mas pela vida

Enquanto houver voz e mãos

Enquanto houver inteligência e vontade

Enquanto houver

um homem uma mulher

duas crianças

Victor Nogueira

(do Barreiro a Setúbal, em 17 Janeiro 1985,

reelaborado em 13 Outubro 1985 e 01 Março 1989)

fotografia de Terri Weifenbach