A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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sábado, julho 07, 2007


Terra em Risco
Lixeiras ameaçam Planeta

* André Pereira / Pedro H. Gonçalves / Miguel Azevedo

A Terra corre o risco de ficar atolada em lixo caso nada seja feito para diminuir e tratar os mais de mil milhões de toneladas produzidos por ano pela Humanidade, de acordo com as estimativas das Nações Unidas e de agências especializadas em questões ambientais.
Os países mais desenvolvidos e industrializados, como seria de esperar, são os principais responsáveis pelo lixo existente. Só os EUA respondem pela produção de um quarto do lixo mundial, ou seja, cerca de mais de 235 milhões de toneladas.
No top cinco dos países mais poluidores do Mundo, além do já referido líder isolado, aparecem Rússia (207,4 milhões), Japão (52,36), Alemanha (48,84) e Reino Unido (34,85). Portugal, com uma população de cerca de dez milhões de habitantes, ficou-se pelos cinco milhões de toneladas, das quais apenas 16 por cento são recicladas. Os dados são referentes a 2005.
A maior parte deste lixo denomina-se de resíduos sólidos urbanos, compostos por restos de comida, cartão, papel, vidro, plásticos e outros, cuja principal fonte são as habitações. Mas se parte deste lixo pode ser reciclado, a verdade é que muitas outras toneladas ficam por tratar. As más práticas são frequentes e ainda é possível ver locais onde os resíduos de construção e demolição (entulho) ou equipamento eléctrico e electrónico (os vulgares electrodomésticos) se amontoam a céu aberto.
Das cerca de cinco toneladas de resíduos sólidos urbanos produzidas em Portugal, cerca de 60 por cento é lixo biodegradável. Se à primeira vista esta característica podia ser considerada positiva, a verdade é que o seu depósito em aterros implica alguns problemas, como a produção de fortes odores, gases com efeito de estufa mais poderosos do que o dióxido de carbono ou águas residuais de difícil tratamento.
Segundo um relatório sobre a gestão dos resíduos sólidos urbanos e a emissão de gases de estufa, no âmbito da Plano Estratégico dos Resíduos Sólidos Urbanos (PERSU II), a reciclagem é o método de tratamento mais eficaz no que diz respeito à redução na emissão de dióxido de carbono para a atmosfera. Em 2005, foi responsável pela poupança de 376 mil toneladas. A previsão aponta para 488 mil toneladas em 2020.Quanto ao destino final dos cinco milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos produzidos no País, cerca de 3,2 milhões são colocados em aterros. A recolha selectiva e a valorização orgânica representam, respectivamente, nove e sete por cento.
No entanto, nem tudo é mau. Apesar de ainda se estar longe do cenário ideal, os últimos indicadores parecem revelar uma mudança de atitude nas populações dos países mais desenvolvidos. Se até há bem pouco tempo a quantidade de lixo produzido era um parâmetro de desenvolvimento, hoje em dia essa ideia está completamente afastada.
"PROGRESSO NÃO É SINÓNIMO DE POLUIÇÃO"
Pedro Carteiro, do Centro de Informação de resíduos da Quercus
CM – Qual é o impacto dos resíduos no ambiente?
Pedro Carteiro – Além dos fortes odores que os aterros sanitários emanam, também libertam gás metano, que contribui 21 vezes mais para o efeito de estufa se compararmos com o dióxido de carbono. As águas residuais que resultam desses locais possuem uma carga poluente muito elevada e para a qual não existe equipamento tecnologicamente sofisticado capaz de tratar.


– Que medidas podem ser adoptadas para minimizar esse impacto?
– Temos de implementar o tratamento mecânico e biológico, vulgarmente designado por TMB, que separa os resíduos em três facções e consegue tratar de forma eficaz o lixo biodegradável, que é o grande responsável pelas emissões de gás metano. Em Portugal existem quatro grandes unidades de tratamento, o que é insuficiente para o País. Devíamos usar as verbas comunitárias para investir a sério no TMB.
– Como aliar o progresso com a necessidade de reduzir a quantidade de lixo que produzimos?
Progresso não é um sinónimo de poluição. É possível conciliarmos essa necessidade através da aplicação de medidas que já são usadas, como a reciclagem. Também as empresas já começam a pensar num design ecológico.
"TODOS NÓS SOMOS EGOÍSTAS E COMODISTAS
"Nuno Guerreiro, vocalista da Ala dos Namorados, banda que participa amanhã no evento Live Earth no Pav. Atlântico.
Correio da Manhã – Sempre foi uma pessoa atenta aos problemas ambientais?
Nuno Guerreiro – Confesso que às vezes tento não pensar tanto nos problemas do ambiente, porque são assustadores. O aquecimento global é algo verdadeiramente preocupante. As diferenças de temperatura são cada vez maiores e a culpa é da poluição que, afinal de contas, é da responsabilidade de todos nós. Não sei como é que as coisas estarão daqui a vinte anos! Até podemos dizer que a culpa é dos políticos, mas a verdade é que somos nós que lhes damos o poder.
– De que forma procura contribuir para o bem-estar do ambiente?
– Tenho sempre a preocupação de separar o lixo e nunca deixo luzes ligadas. Mas apesar de tudo também sou um pecador. Todos fazemos asneiras. Muitas vezes nem nos lembramos, mas só pelo facto de termos carro já estamos a contribuir para a poluição e para o mal-estar do ambiente. A verdade é que todos nós somos egoístas e comodistas.
– Pode a música, efectivamente, sensibilizar as pessoas para a preservação do ambiente?
– Acho que a música pode ajudar a despertar as pessoas para causas. Por isso, qualquer figura pública pode e deve ajudar, sobretudo porque as coisas hoje também andam muito camufladas. Acho que quem não andar bem informado nem sabe bem o que se está a passar no nosso Planeta. Acredito no evento Live Earth da mesma forma que acreditava noutras iniciativas do género. Vi há pouco tempo o Live Eight e era um evento muito bem organizado e que tocou as pessoas.
– Durante a actuação de amanhã, no Pavilhão Atlântico, a Ala dos Namorados vai passar algum tipo de mensagem? Têm algum discurso preparado?
– Estou obviamente a pensar dizer qualquer coisa. Até estou a pensar investigar um pouco mais sobre o assunto para poder falar com conhecimento de causa. É possível que prepare um pequeno texto para dizer em palco. Quanto ao alinhamento, é quase certo que iremos interpretar ‘Canção de Edite’ e ‘Loucos de Lisboa’. Mas o tempo não dá para muito. Não deveremos exceder cinco canções.
SUPERPOTÊNCIA NO MAU SENTIDO
Os Estados Unidos são os líderes destacados no que à produção de lixo diz respeito. Respondem por um quarto do total: 235 milhões de toneladas.
ALTERAÇÕES DE MENTALIDADES
Antigamente a quantidade de lixo produzido media o desenvolvimento de um país. Uma ideia totalmente ultrapassada hoje em dia.
TRÊS MEDIDAS PARA SALVAR O PLANETA
Padre Vítor Melícias - Aos 68 anos é o superior provinvial da Ordem dos Franciscanos em Portugal.
1. - Tratar o Planeta Terra como se fosse a Madre Terra, ou seja, praticando uma ecologia não do interesse e do medo, mas de fraternidade universal, com o homem a perceber que é apenas um dos habitantes da Terra.
2. - Todos os dirigentes, independentemente de crenças ou culturas, têm de notar que o Planeta é a casa de todos e para todos e, portanto, são necessários compromissos internacionais que sejam efectivamente respeitados.
3. - Que se comece pelas crianças e jovens a ensinar de forma prática que o interesse de todos é que ninguém tenha interesses seus contra os dos outros. O amanhã dos homens só será seguro se for construído por todos.
in Correio da Manhã 2007.07.06

terça-feira, julho 03, 2007






Terra em risco
Degelo ameaça espécies em extinção

* André Pereira / Miguel Azevedo
O degelo nas regiões polares (Antárctida, no Sul, e Ártico, no Norte) é um fenómeno cada vez mais evidente e preocupante. As consequências serão devastadores e, segundo os cientistas, far-se-ão sentir em todo Mundo. Os gelos glaciares estão a desaparecer por acção do aquecimento global.

Os relatórios sobre o impacto do aquecimento global nestas regiões são alarmantes. Investigadores de mais de 200 países apresentaram, em 2004, um estudo exaustivo sobre as alterações climáticas verificadas no Ártico, alertando para a extinção de várias espécies como os ursos polares ou as focas árcticas até ao final de 2100. Mas não é só a vida animal que sofrerá com este fenómeno. Os países mais próximos das regiões polares, como a Gronelândia, a Islândia, a Suécia, a Finlândia ou a Rússia, têm de começar já a preparar o futuro de forma a atenuarem os efeitos.
No relatório – Artic Climate Impact Assessment (ACIA) – os investigadores prevêem que mais de quatro milhões de pessoas serão afectadas pelo degelo dos glaciares polares. As investigações apontam para que se registe uma subida na temperatura média anual na ordem dos sete graus centígrados, podendo deixar de existir valores negativos nessas regiões. Entre 1954 e 2003 as temperaturas oscilavam entre os -3 e os 4 graus centígrados. As previsões estimam agora valores entre os zero e os 12 graus.Se as alterações introduzidas no ambiente são negativas, o impacto na economia e na vida das populações não será melhor. Teme-se, por exemplo, que a Rússia e o Canadá venham a sofrer derrocadas de edifícios devido ao degelo das camadas existentes no subsolo. Na Sibéria já é possível ver-se as consequências dessa fusão em algumas construções.
'CONTINENTES' À DERIVA
Imagens recentes da NASA mostram que são cada vez mais os pedaços de gelo à deriva no oceano. Na Antárctida, a agência espacial norte-americana identificou, em 2002, um bloco de gelo com cerca de 85 quilómetros de diâmetro. Três anos mais tarde, no Canadá, a NASA registou um iceberg com cerca de 50 quilómetros. Os cientistas temem que este fenómeno venha a ser cada vez mais frequente.
Uma das personalidades mais activa na sensibilização da Humanidade para os problemas do aquecimento global é Al Gore. O ex-vice presidente dos Estados Unidos, com o livro e posterior filme ‘Uma Verdade Inconveniente’, traça um cenário negro para os próximos anos, caso os países mais industrializados mantenham as actuais taxas de emissão de dióxido de carbono para a atmosfera. Com base nos mais recentes estudos, Al Gore voltou a chamar à atenção para o aquecimento global: “Se parte da Gronelândia derreter o efeito sobre Manhattan será pior do que os ataques de 11 de Setembro”. O alerta está dado.
"SITUAÇÃO AGRAVOU-SE NOS ÚLTIMOS DEZ ANOS"
(Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas)
- CM – A que ritmo está a verificar-se o degelo na Antárctida?
- Filipe Duarte Santos – É difícil quantificar, mas a situação agravou-se nos últimos dez anos, período em que se tem verificado um maior desprendimento dos glaciares. A zona ocidental é mais instável nesse aspecto. Na Gronelândia, por exemplo, a área de gelo, que durante o Verão se funde, aumentou 16 por cento desde 1979.
- De que forma Portugal pode ser afectado?
- Para já não há um efeito directo sobre o nosso país. A fusão do gelo, que está acima do nível do mar, provoca um aumento do nível do mar, mas essa fusão não é a principal causa para essa subida.
- O que pode ser feito para contrariar o fenómeno do degelo?
- A fusão do gelos glaciares é uma consequência do aquecimento global. Assim, tudo o que seja diminuir a emissão de CO2 e poupança de energia é positivo para nós e para o Planeta.
"ABISMO FOI CRESCENDO"
(Sérgio Godinho, músico que actua a 7 de Julho na iniciativa Live Earth no Pavilhão Atlântico, em Lisboa)
- Quando despertou para as questões ambientais?
- Sérgio Godinho – Não se falava em ecologia ou problemas ambientais quando eu andava na escola. Lá íamos, cantando e rindo, a caminho do abismo. Ele foi crescendo, como o buraco do ozono.
- Quais as questões que mais o preocupam?
- A falta de esforços concertados, sobretudo pelo egoísmo norte-americano. A fuga de Bush ao protocolo de Quioto foi um passo gravíssimo que atrasou perigosamente a salvação de uma só terra.
- De quem é a culpa?
- Os grandes interesses económicos falam muito alto e mandam geralmente na política. Mas convém que cada um de nós faça parte de uma voz comum, que fale mais alto ainda.
- Pode a música sensibilizar as pessoas para estes problemas?
- A música pode sensibilizar para coisas boas e coisas más. Veja-se os hinos que mandam homens para a guerra. No caso do Live Earth é mais um alerta. E isso é bom, já de si.
- Vai levar algum discurso preparado?
- O estar presente é a primeira das mensagens. O resto logo se vê.
TRÊS MEDIDAS PARA SALVAR O PLANETA
(Rogério Alves, Bastonário da Ordem dos Advogados. 45 anos.)
PRIMEIRA Introdução no sistema educativo de uma disciplina relativa à defesa ambiental desde o ensino infantil. Sensibilizar todas as pessoas, desde quase o berço, para a necessidade de proteger o nosso Planeta que está em perigo.
SEGUNDA Campanhas contra o desperdício dos recursos utilizados no quotidiano das pessoas. A soma de todos os pequenos contributos, de cada um de nós, significa um avanço brutal na poupança dos recursos.
TERCEIRA Repressão e penalização das actividades altamente poluentes. Em simultâneo, deveria haver maior investimento público na investigação de energias alternativas e mais rentáveis para substituir os combustíveis fósseis.
in Correio da Manhã 2007-07-03





Terra em risco
Amazónia está a encolher

* Domingos Grilo Serrinha, São Paulo - Correspondente
* Miguel Azevedo
Uma enorme área de floresta, equivalente a quase três vezes o tamanho de todo o Algarve ou a cinco países do tamanho do Luxemburgo, desapareceu da Amazónia num único ano.
Apesar dessa imensa desflorestação, o governo brasileiro comemora: de acordo com dados oficiais, os 13 100 quilómetros quadrados desmatados ilegalmente nos últimos 12 meses analisados representam uma diminuição de 30 por cento no ritmo de devastação da Amazónia em relação ao ano anterior.
De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente, nos últimos dois períodos em que os dados já foram consolidados (2004-2005 e 2005-2006) ocorreu uma diminuição total de 52 por cento no ritmo de desmatamento. Desde que foi criado um programa especial de combate ao desmatamento, que engloba acções de 13 ministérios, desencadearam-se grandes operações repressivas, que culminaram com a apreensão de 814 mil metros cúbicos de madeira derrubada ilegalmente, 471 tractores, 171 camiões e 643 moto-serras, equipamentos usados no derrube, corte e transporte de árvores, foram presas 379 pessoas e aplicadas multas superiores a mil milhões de euros.
Esses números parecem positivos, mas a verdade é que ainda é dramático o tamanho da enorme clareira que a cada ano se abre na maior floresta do Mundo, mudando as condições do eco-sistema, afectando a fauna e a flora locais e o clima de todo o Planeta. O aquecimento global deve-se em parte ao desmatamento da Amazónia, principalmente nos últimos 50 anos, mas é na própria região que as consequências são mais graves.
Em 2005, o desequilíbrio da Natureza provocou a maior seca já registada na Amazónia nas últimas cinco décadas, fazendo aqueles que são alguns dos mais caudalosos rios do mundo secarem até se poder atravessar o seu leito a pé. Foram muitos meses de uma devastação dramática, com mais de 250 mil pessoas afectadas directamente, ficando dezenas de milhares isoladas na floresta durante semanas, pois os rios, única via de acesso, não permitiam a passagem das equipas de socorro.
Nesse ano, muitas crianças indígenas morreram de doenças provocadas pela falta de água ou ingestão de água insalubre, houve epidemias por toda a Amazónia e uma indescritível mortandade de peixes e animais. Como na Pré-história, homens e alguns animais enfrentaram-se na disputa de comida, com pescadores a matar cruelmente golfinhos e peixes-boi, estes últimos em extinção, pois as duas espécies alimentam-se de peixes e estes ficaram escassos com a descida das águas.
A tragédia evidenciou ainda o despreparo e o desinteresse dos governantes pela Amazónia. Lula da Silva, ocupado em tentar desmentir a sua participação no então recém-eclodido escândalo do “Mensalão”, só reagiu depois de fortes críticas da imprensa e protestos de governantes da região.
A produção de cana, grande aposta brasileira para produzir e exportar Etanol, teoricamente menos poluente que os combustíveis fósseis, é a nova ameaça. De olho nos milhões que há para ganhar, empreendimentos avançam na mata um pouco por todo o país, substituindo árvores centenárias por canas, que crescem rápido e geram muitos empregos e lucros, mas também desequilibram ainda mais o já periclitante eco-sistema amazónico.
ESTRANGEIROS DOMINAM O TERRITÓRIO
Maior de todas as riquezas do Brasil, a Amazónia não recebe das autoridades de Brasília uma atenção equivalente à sua importância para o país. E os estrangeiros aproveitam esse descaso para assumir controlo tanto no aspecto legal, com a implantação de grandes pólos industriais e de pesquisa, quanto no ilegal, através do tráfico de minerais preciosos, animais, sementes e plantas medicinais.
Sem uma presença militar forte na região, patrulhada com assombrosa escassez de meios humanos e técnicos, a imensa Amazónia, com mais de cinco milhões de quilómetros quadrados, transformou-se numa terra de ninguém e num palco livre para traficantes de todos os tipos.
Chegam de todas as partes do Mundo, com os mais variados pretextos e sem qualquer fiscalização dos seus intuitos e passos. internam-se na mata, colhem amostras, conquistam segredos e voltam para os seus países com informações preciosas e exemplares vivos ou mortos de plantas, insectos e animais.
DOIS MÁRTIRES AMBIENTALISTAS
Apesar da apatia generalizada da grande maioria e do interesse apenas retórico de outros, existem heróis capazes de se dedicarem à protecção da Natureza, mesmo com risco para a própria vida e sabendo que irão pagar um preço elevado por essa dedicação, como sucedeu ao seringueiro Chico Mendes, assassinado no Acre em 1988. Mas há quem vá mais além e sacrifique a vida para que o seu martírio contribua para melhorar o Mundo.
Foi o caso do ambientalista Francisco Anselmo de Barros, de 65 anos. No dia 12 de Novembro de 2005, promoveu uma manifestação contra a instalação de uma fábrica de produção de combustível nas margens do rio Paraguai, percorrendo várias ruas da capital do estado de Minas Gerais acompanhado de dezenas de militantes. A certa altura, deitou no meio de uma avenida dois colchões formando uma cruz, embebeu-os em gasolina, ateou-lhes fogo e, com a tranquilidade de quem acredita estar a fazer o que é preciso, deitou-se sobre as labaredas.Gravemente ferido, resistiu um dia e meio num hospital, mas morreu, como era seu intento, e conseguiu o que pretendia. O governo do estado, comandado pelo polémico Zeca do PT (correligionário do presidente Lula da Silva), que era favorável à implantação da indústria, foi forçado a ceder às pressões internacionais e da opinião pública brasileira, chocadas com o sacrifício do ambientalista, pelo que o projecto foi suspenso.
"AS PESSOAS SÃO MUITO NEGLIGENTES"
(Tiago Santos, vocalista dos Cool Hipnoise, que participam no Live Earth, a 7 de Julho no Pavilhão Atlântico)
- Correio da Manhã- Em que altura sente que despertou para os problemas ambientais?
- Tiago Santos- Nós já fazemos parte de uma geração que está mais atenta e preocupada com estas questões do ambiente. Curiosamente, são os mais novos que hoje estão a alertar os mais velhos. Penso que nos dias que correm todos temos noção de que é preciso fazer alguma coisa para parar esta destruição do Planeta. A alteração cimatérica, a destruição dos pólos e a desertificação do nosso País pelos incêndios (que têm interesses particulares) são problemas de que já nos habituámos a ouvir falar com frequência e com os quais parece que já nos habituámos a viver.
- De que forma procura no seu quotidiano contribuir para o ambiente?
- Poupar água é um acto que já faço com consciência há vários anos. A água é um bem precioso e as pessoas são muito negligentes. Às vezes nem nos apercebemos que o simples acto de lavar os dentes ou lavar a loiça e deixar a água a correr pode estar a contribuir para o agravar de determinadas situações. Quanto a separar o lixo, faço-o com algum cepticismo porque ainda tenho algumas dúvidas quanto ao tratamento que lhe é dado.
- Na sua lista de preocupações com o ambiente, que lugar ocupa a poluição sonora?
- Obviamente que os músicos estão sujeitos a elevados níveis de décibeis mas o ruído dos carros e das buzinas afectam-me muito mais.
- Pode a música, efectivamente, sensibilizar as pessoas para a preservação do ambiente?
- Acho que é importante que as pessoas que têm tempo de antena o usem em benefício de causas importantes. Os músicos não têm que ser só empregados da indústria. A música dos Cool Hipnoise, por exemplo, sempre foi usada como uma arma para chamar a atenção para os problemas globais do nosso Planeta.
- Durante a actuação no Pavilhão Atlântico, os Cool Hipnoise vão passar algum tipo de mensagem? Têm algum discurso preparado?
- Não preparámos nada. Na altura saberemos o que dizer, mas é certo que também não vamos fazer um grande discurso. A nossa música fala por nós. Temos, por exemplo, um tema chamado 'Caótica Republica’ que fala precisamente da destruição da Terra.
TRÊS MEDIDAS PARA SALVAR O PLANETA
(Bagão Félix. Tem 59 anos. Economista, já foi ministro das Finanças)
PRIMEIRA Eu defendo que deveria ser criado uma espécie de ‘mecenato da árvore’ pela Organização das Nações Unidas ou outras organizações internacionais para podermos proteger as florestas a nível mundial
SEGUNDA Deve ser, desde as idades mais precoces, aprofundada a consciência individual. Deve ser sublinhado, em particular, que estão em causa as futuras gerações. É uma tarefa que deve ser iniciada ainda no Ensino Básico
TERCEIRA Uma medida que eu assumiria seria a de tornar mais efectiva, e não apenas retórica, a responsabilidade dos poluidores-pagadores de todo o tipo. Talvez assim se reduzissem os níveis de poluição a que assistimos.
NOTA - O pulmão da Terra sob ameaça: Uma área correspondente a três Algarves despareceu da Amazónia em 2006. A juntar às queimadas e desmatamento, em 2005 viveu-se a maior seca em meio século, com inúmeras mortes e doenças por falta de água ou por água insalubre
in Correio da Manhã 2007-07-02
Cartoon - Jorge Barreto

segunda-feira, julho 02, 2007


Terra em risco
Fuga para cidades ameaça ambiente
* João Saramago com P.H.G / Miguel Azevedo
Em 2008, e pela primeira vez, metade da população mundial viverá em cidades. Relatório ontem divulgado pelas Nações Unidas prevê risco de urbes marcadas por conflitos armados, favelas, falta de água e alterações climáticas.
No próximo ano, e pela primeira vez, metade da população do Mundo (3,3 mil milhões de pessoas) viverá em cidades, revela o relatório ‘Situação da População Mundial 2007’, das Nações Unidas. Uma pressão urbana que representa um “quadro ameaçador” se não forem criadas políticas que combatam a poluição e, sobretudo, a pobreza.
Portugal irá acompanhar este reforço. Segundo as Nações Unidas, a uma pequena subida de cem mil habitantes nos próximos 43 anos (atingindo o País 10,7 milhões de habitantes em 2050) haverá uma taxa de crescimento urbano de 1,5% de 2005 até 2010. Uma subida só ultrapassada na Europa pela Albânia (2,1%)e Irlanda (1,8%). Portugal é, ainda assim, um dos países da Europa com menor população urbana. São 59% do total, quando a média europeia é de 72%.
Nas próximas décadas a explosão urbana irá ocorrer sobretudo nos países pobres, que já concentram a maioria das megacidades. Das 37 cidades com mais de cinco milhões de habitantes apenas oito estão em países desenvolvidos: Nova Iorque, Los Angeles, Londres, Paris, Tóquio, Osaka, Seul e Hong Kong.
Com a queda da população rural “os impactos das mudanças climáticas no abastecimento urbano de água serão provavelmente dramáticos. Muitos países pobres já enfrentam deficiências acumuladas de abastecimento, distribuição e qualidade da água, contudo as mudanças climáticas deverão agravar essas dificuldades”, diz o relatório ontem divulgado. Para a ONU, “as cidades concentram os principais problemas da Terra: crescimento populacional, poluição, degradação de recursos e produção de resíduos. Mas o mesmo documento salienta que “é nas zonas urbanas que surge a possibilidade de um futuro sustentável”.
Isto porque “a batalha pela conservação dos ecossistemas saudáveis não será vencida nas florestas tropicais ou nos recifes de coral, mas nas ruas das paisagens menos naturais do Planeta”. Perante o facto de metade da população viver em apenas três por cento do Planeta, a ONU defende que é nas cidades que há maior necessidade de adoptar políticas de redução do consumo e de produção com recurso a fontes de energia poluentes. Bem como uma gestão urbana com tratamento de esgotos e acesso a água potável.
Caso isto não venha a ser feito, ontem, na apresentação do relatório, em Londres, Thoraya Obaid, directora do Fundo Populacional da ONU, revelou forte preocupação. “Crescendo de uma forma desordenada, as cidades podem ser um ninho de conflitos armados” disse, referindo-se a uma população pobre, a viver em favelas sem água potável ou esgotos e sujeita a inundações e à subida do nível do mar.
CIDADES VÍTIMAS DE CATÁSTROFES NATURAIS
Para 65% da população que vive em cidades como mais de cinco milhões de habitantes - como Rio de Janeiro, Nova Iorque ou Xangai - a subida do mar é uma séria ameaça
MAIS CEM MILHÕES DE LUSÓFONOS
A ONU revela que até 2050 existirão nos oito países de língua oficial portuguesa mais cem milhões de falantes, elevando esse total de 242 para 355 milhões"
LITORAL ESTÁ SOBRELOTADO E O INTERIOR AO ABANDONO",
Pedro Costa, coordenador de ord. território da GEOTA
- CM – Portugal apresenta um dos crescimentos urbanos mais elevados da Europa. Como tem ocorrido este aumento ?
- Pedro Costa – Resulta de uma subida da população no Litoral e consequente abandono do Interior. Esta urbanização é marcada por uma grande distância entre o local de trabalho e a habitação, que se traduz em perda de qualidade de vida.
- Existe cuidado na preservação do ambiente?
- Não. Além do consequente acréscimo de poluição e a perigosidade do ozono nos dias mais quentes, é uma expansão assente numa rede de transportes públicos limitada e forte uso do veículo privado. Há também uma política de construção que cresce em áreas de aptidão agrícola e florestal, e sobre leitos de cheia.
- Com a deslocação da população de Lisboa para as áreas limítrofes dá-se uma duplicação de custos?
- Sim. Verifica-se que entre 1991 e 2001 não houve um acréscimo significativo de população na Área Metropolitana de Lisboa, o que houve foi a saída de milhares de pessoas da capital para outros concelhos, como Sintra. Isso significa que infra-estruturas já existentes ficaram sem aproveitamento, como acontece com as escolas em Lisboa. E foi preciso abrir outras em Sintra. Também se tornou necessário aumentar as redes de luz, gás, electricidade e água perante uma população em forte movimento.
"OS TROVANTE JÁ FALAVAM DO PROBLEMA AMBIENTAL",
João Gil, da Filarmónica Gil, é um dos músicos que estarão presentes no evento Live Earth, marcado para o dia 7 de Julho no Pavilhão Atlântico, em Lisboa
- Correio da Manhã – Em que altura sente que despertou para os problemas ambientais?
- João Gil – Sempre fui uma pessoa preocupada com o ambiente e é por isso que vejo com grande curiosidade a descoberta dos combustíveis alternativos. Se conseguirmos resolver de uma vez por todas a alternativa ao petróleo, acabamos certamente com um dos grandes problemas do Planeta. É com bons olhos que vejo os EUA reconhecerem finalmente o problema.
- De que forma procura contribuir para o bem-estar do Planeta?
- Tenho por hábito separar o lixo. É um gesto simples, mas para o qual nem toda a gente está sensibilizada. São os mais novos que se preocupam. Os mais velhos estão a passar pela Terra quase sem darem conta disso.
- Enquanto músico, na sua lista de preocupações ambientais em que lugar aparece a poluição sonora?
- Em Portugal a poluição sonora é um problema muito grave. E não são apenas os automóveis. Ninguém fala, por exemplo, do ruído dentro dos bares e restaurantes. O barulho dos talheres, dos pratos e das chávenas de café produzem um som altamente agressivo. Outra questão pouco falada é a música nos elevadores, que pura e simplesmente não devia existir.
- Pode a música sensibilizar as pessoas para a preservação do ambiente?
- Se já serviu para denunciar a guerra e apelar à paz, por que razão não pode sensibilizar as pessoas para o ambiente? Os músicos falam de sensibilidades, de emoções e de afectos, e por isso conseguem sempre tocar as pessoas.
- Durante a actuação no Pavilhão Atlântico, a Filarmónica Gil vai procurar passar alguma mensagem?
- A questão não é nova e por isso não tenho de procurar ficar bem no retrato. Não me vou pôr em bicos dos pés porque o problema do ambiente é antigo e do conhecimento de todos. Já os Trovante alertavam para isso. Um dos nossos álbuns mais importantes, ‘O Baile do Bosque’, de 1981, já falava dessa problemática.
TRÊS MEDIDAS PARA SALVAR O PLANETA,
Francisco Ferreira, tem 40 anos, é membro da Quercus e também professor universitário
PRIMEIRA É essencial reduzir o consumo de combustíveis fósseis, como o carvão e petróleo, através da aposta nas energias renováveis e numa maior eficiência energética, principalmente no sector dos transportes
SEGUNDA A preservação da água é crucial para Portugal e não só. Desperdiçamos 15% de água no sector doméstico e até 80% na agricultura. É essencial saber gerir este recurso. Fazem falta dispositivos que permitam poupar água
TERCEIRA Manter a biodiversidade. O norte e centro da Europa já viram essa riqueza degradar-se, mas em Portugal é um património natural, desde ecossistemas a espécies em vias de extinção, que deve ser protegido da exploração
NOTA - Megacidades.
Existem 37 cidades com mais de cinco milhões de habitantes. Sete destas cidades têm uma área metropolitana com mais de vinte milhões de habitantes.
in Correio da Manhã 2007-06-28

Seca provoca as guerras do século XXI
Terra em risco
* João Saramago/P.H.G./Miguel Azevedo
ONU defende que alterações climáticas, aumento da população e poluição provocarão uma forte escassez de água em África e na Ásia.
Mais de mil milhões de pessoas no Planeta não dispõem de um copo de água limpa e 25 mil de entre elas morrem diariamente devido a doenças como a febre amarela ou a malária, provocadas pelo consumo de água de má qualidade. Quinze por cento da população da Terra vive numa situação insustentável e as alterações climáticas só irão trazer mais ameaças.
Previsões das Nações Unidas apontam para um redução da precipitação nas zonas onde os recursos hídricos são, já hoje, mais escassos.
A água – ou melhor dizendo, a sua falta – será o maior problema do século e a escassez do “ouro azul” pode provocar uma série de conflitos nos rios mais problemáticos: Jordão (tensão entre Israel, Jordânia e Palestina); Eufrates e Tigre (Iraque, Síria e Turquia); Nilo (Sudão, Etiópia, Quénia e Egipto); Mekong (Cambodja e Vietname); Okavango (Botswana, Angola e Namíbia); Ganges (Índia e Bangladesh) e Brahmaputra (Índia e China).
Recorde-se que a Guerra dos Seis Dias em 1967, que opôs Israel aos vizinhos árabes teve origem numa disputa de água, quando Israel pretendeu desviar o curso do rio Jordão. No final do conflito, Israel adquiriu o controlo exclusivo das águas da Cisjordânia e do Mar da Galileia, recursos responsáveis por cerca de 60 por cento da água potável do país.
DEZENAS DE CONFLITOS
Segundo as Nações Unidas, “nos últimos 50 anos verificaram-se 37 casos de violência declarada entre Estados devido à água, sete deles no Médio Oriente”. O último relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) sustenta, contudo, que “em igual período foram negociados mais de 200 tratados relativos à água”.
A organização desafia assim as previsões de que “a crescente competição pela água irá inevitavelmente causar conflitos armados” e defende que a cooperação transfronteiriça sobre os rios tem sido bem sucedida, mesmo entre países inimigos como a Índia e Paquistão.
Perante um cenário em que é estimado em três mil milhões o número de pessoas que viverão em países a braços com secas em 2025, Kevin Watkins, principal autor do relatório das Nações Unidas, afirmou que está nas mãos dos políticos decidirem se “a gestão de recursos hídricos partilhados pode continuar a ser um motor para a paz ou para o conflito”.
Segundo a organização não-governamental britânica Tearfund, a falta de água provocará também altas nos preços dos produtos agrícolas e novas vagas de imigração para os países ocidentais, aqueles que serão menos atingidos pelas secas.
Se os acordos transfronteiriços são a solução avançada para a ameaça de conflitos, alargar a oferta de água potável é o caminho para reduzir as mortes por doença.
As Nações Unidas estabeleceram em 2000 o objectivo de reduzir para metade, até 2015, os 1,2 mil milhões de pessoas que não tinham água potável. As prioridades máximas para a instalação de infra- -estruturas são a Mauritânia, Líbia, Etiópia, Madagáscar, Oman e Pápua Nova-Guiné.
Uma das causas para a má qualidade da água é a poluição.
Na China, quinto maior país em reservas renováveis de água após o Brasil, Rússia, EUA e Canadá, o problema ganha maior dimensão. Pequim considera que o maior desafio deste século para o país passa por ficar de fora da lista dos Estados pobres de água que ameaça englobar a maior parte dos continentes africano e asiático.
'ESCASSEZ PODE CONDUZIR AO AGRAVAR DE CONFLITOS'
CM – Na África sub-sariana a maioria da população não tem um copo de água potável. Isso explica que milhares arrisquem a vida no mar para chegarem a Espanha?
Loureiro dos Santos – A falta de água potável é uma parcela do conjunto de motivos que levam esses jovens a emigrarem. A água é um bem essencial vital mas extremamente caro e raro nos países onde vivem.
– Estados com falhas na distribuição de bens essenciais são particularmente vulneráveis a conflitos
– A ausência de um bem essencial perante um cortejo de reivindicações e insatisfações é motivo para grande instabilidade interna e torna um país muito vulnerável a conflitos externos.
– Entende então que o objectivo da ONU em reduzir para metade as pessoas sem acesso a água potável constitui uma medida pacificadora?
– Sim, traduz a redução de um foco de potencial instabilidade e abre novas perspectivas a esses países.
– Existem, no entanto, previsões de agravamento das secas. Isso cria uma tensão bélica?
– No Médio Oriente e em África a escassez pode conduzir ao agravar de conflitos pelos recursos hídricos, o que pode comprometer os objectivos das Nações Unidas.
'A CULPA É DE UMA MÃO BEM VISÍVEL: A HUMANA
Correio da Manhã – Em que altura despertou para os problemas ambientais?
– Há fases da vida que nos levam a ganhar maior consciência ambiental, uma delas é a adolescência, quando nos descobrimos a nós próprios, descobrimos os outros e começamos a pensar no ambiente que nos rodeia. Hoje tenho a perfeita noção de que chegámos a um momento-chave em que voltamos a página ou fechamos o livro.
– Quais os problemas que mais o preocupam?
– Aquilo que mais me assusta é, sem dúvida, o aquecimento global e a forma como não conseguimos prever seja o que for tirando desastres sucessivos. Depois temos a poluição. Há espécies animais a desaparecer por culpa de uma mão bem visível: a humana.
– De que forma procura contribuir para a preservação do ambiente?
– Não sou propriamente um activista. Não consigo, por exemplo, ter o discernimento mental para separar o lixo todos os dias. Ainda assim, acho que o meu grande pecado são os aquários que tenho em casa e que me levam a gastar alguma água. Mas todos nós temos o direito a pecar, até porque o ambiente não deve ser uma maçã proibida. Se o ambiente for tratado como um tabu então é que é meio caminho andado para ninguém o respeitar.
– Enquanto músico, que lugar ocupa a poluição sonora na sua lista de preocupações ambientais ?
– Nós músicos estamos muito expostos ao ruído e aos decibéis, mas penso que o mais importante é daqui a uns anos todos nós sermos capazes de ouvir o silêncio. Preocupo-me com isso diariamente. Nós, por exemplo, tentamos criar espaços dentro do nosso espaço de ensaio.
– Pode a música sensibilizar as pessoas para a preservação do ambiente?
– Não tenho dúvidas nenhumas. O Live Earth é uma iniciativa louvável, já que os problemas do ambiente devem ser comunicados a uma escala mundial.
– Durante a actuação no Pavilhão Atlântico os Blind Zero vão tentar passar algum tipo de mensagem?
– Certamente que vou falar no assunto, mas o evento já fala por si. Não se pode confundir o concerto com um comício e por isso, não vou falar muito.
TRÊS MEDIDAS PARA SALVAR O PLANETA
1. - Sensibilizar as pessoas para a evidência científica de que a preservação da espécie humana, a médio termo, depende crucialmente da preservação da Terra e das suas diversas formas de vida, num equilíbrio global.
2. - Tornar prioritária, e urgente, uma optimização da utilização global dos recursos, escassos e mal distribuídos – água, alimentos, cuidados médicos e energia, mas, acima de tudo, o conhecimento, porque esse é essencial aos restantes.
3. - Moderar o desperdício acelerado das matérias-primas nesta corrida frenética de “usar e deitar fora” para substituir por novo, em quase tudo. Computadores, relógios, ferramentas e utensílios são apenas alguns dos exemplos.
Teresa Lago, professora universitária e directora do Centro de Astrofísica no Porto
in Correio da Manhã 2007.06.29
Foto: STR/Reuters

Terra em risco
Subida do mar está a ameaçar civilização
* João Saramago Com P.H.G. / Miguel Azevedo
Cientistas acreditam que a Humanidade está em perigo devido ao aumento do nível do mar. Cem milhões de pessoas vivem em zonas que poderão ficar submersas se entretanto os países nada fizerem para o evitar.
Aumenta o número de especialistas que questionam as projecções das Nações Unidas sobre um aumento do nível dos oceanos em meio metro até 2100. Cientistas de reputadas instituições dos Estados Unidos alertam que é a própria civilização que está em perigo perante uma subida do mar, que poderá atingir os seis metros.
Em Portugal, o Atlântico sobe em média dois milímetros por ano, o que se traduz num avanço de um metro sobre a costa. Mas na Costa de Caparica, Vagueira e Esmoriz a força das águas engoliu dez metros de praia. Dos 750 quilómetros da costa do continente, segundo o relatório da Comissão Europeia ‘Viver com a Erosão do Litoral na Europa’, o avanço do mar atinge um terço. Mas as projecções são piores, pois 67 por cento da costa corre sérios riscos de erosão, segundo o relatório ‘Cenários, Impactos e Medidas de Adaptação’.
Por Portugal continental ter uma costa pouco recortada por enseadas, e por isso mais exposta ao mar, o relatório da Comissão Europeia estima que é mais susceptível a sofrer danos resultantes das marés vivas do que países banhados por mares interiores, como a Suécia, Itália ou Grécia.
PERIGO IMINENTE
O oceanógrafo australiano John Church acredita no “perigo iminente de os gelos da Antárctida e da Gronelândia se aproximarem de um degelo irreversível, fenómeno que levará à subida do mar em vários metros”. O investigador lembra que há cem mil anos os mares eram quatro a seis metros mais elevados, quando as temperaturas atingiam mais quatro graus do que hoje. Segundo as Nações Unidas, o Globo irá aquecer quatro graus até ao final do século, pelo que o australiano pensa que a subida do mar poderá atingir os seis metros. Outro cientista australiano, John Hunter, explica que por cada metro adicional no nível dos oceanos há um recuo de cem metros na linha das praias e lembra que cem milhões de pessoas vivem a menos de um metro do nível do mar.Investigadores norte-americanos publicaram agora na revista científica ‘Philosophical Transactions’ um relatório de 29 páginas que dá razão ao trabalho dos australianos. O trabalho coordenado por James Hansen, director do Instituto God-dard de Estudos Espaciais da NASA, alerta que a Humanidade não pode permitir a queima das reservas subterrâneas de combustíveis, pois ao fazê-lo terá “um Planeta diferente do que serviu de suporte à civilização”.
Hansen, que trabalhou com investigadores das Universidade da Califórnia e Columbia (Nova Iorque), alerta ainda que o Homem só tem dez anos para aplicar duras medidas para reduzir a poluição e assim evitar o aquecimento global e consequente subida dos mares.
"OCEANO SUBIU 15 CENTÍMETROS"
(José Carlos Ferreira, professor universitário)
- CM – Como pode a subida dos oceanos atingir Portugal?
- José Carlos Ferreira – Portugal, como país costeiro, está naturalmente mais vulnerável a eventuais mudanças. Os estudos mais recentes indicam que no século XX ocorreu uma elevação do nível médio do mar na ordem dos 1,5mm/ano, ou seja, 15cm num século.
- Quais as zonas mais sensíveis?
- Todo o litoral(continente e ilhas) encontra-se vulnerável. No entanto, as costas arenosas e baixas, lagoas costeiras e estuários têm maior risco, bem como as áreas actualmente sob maior efeito de erosão. A título de exemplo: Espinho, Vagueira e Costa de Caparica.
- Como uma subida de centímetros em décadas pode ter consequências tão nefastas?- Esta subida pode associar-se a um agravamento de fenómenos meteorológicos como os temporais, aumentando a capacidade destrutiva deste fenómeno: aumento de erosão, galgamento oceânico, inundações, destruição de obras de defesa e património natural, entre outros.
"É PRECISO SENSIBILIZAR"
(Viviane, ex-vocalista dos entre aspas, vai actuar no Pavilhão Atlântico no dia 7 de Julho)
Correio da Manhã – Em que altura despertou para os problemas ambientais?
- Viviane – Sempre fui muito ligada à natureza. Desde miúda que sou muito sensível, por exemplo, às questões da poluição. Em vinte anos o ambiente alterou-se drasticamente. E isso tem de ser entendido como sinal de alarme. Todos temos de compreender que a economia está por detrás de tudo. A indústria gerou um consumismo desenfreado que é um dos males da sociedade.
- Como procura contribuir para o ambiente?
- Conheço a cidade e o campo e acredito que as pessoas que vivem na cidade não têm tanto a noção dos problemas ambientais, pois não percebem como sofre a agricultura. Actualmente moro no campo e vejo a preocupação dos meus vizinhos quando não chove. No que me toca, faço a reciclagem de todo o lixo, até do orgânico, e tento ao máximo poupar água e energia.
- Na sua lista de preocupações ambientais, que lugar ocupa a poluição sonora?
- De uma maneira geral, as cidades são afectadas pelo barulho agressivo dos automóveis e das motorizadas. O stress das pessoas também vem daí. Nas cidades devia ser possível voltar a ouvir os passarinhos.
- Pode a música sensibilizar as pessoas para a preservação do ambiente?
- A música sempre foi uma forma de passar valores. O Live Aid foi um bom exemplo. Por isso acredito no Live Earth. É preciso sensibilizar e se há coisa capaz de tocar as pessoas é a música. Os artistas têm esse dom, enquanto os políticos já não conseguem fazer-se ouvir.
- Tem discurso preparado para a sua actuação?
- Vou dizer alguma coisa, mas a música falará por si.
TRÊS MEDIDAS PARA SALVAR O PLANETA
(D. Januário Torgal. É, desde 2001, bispo das Forças Armadas e Segurança)
PRIMEIRA - Se queremos salvar a Terra é imperativo aplicar as decisões do Protocolo de Quioto. Particularmente as restrições da emissão de dióxido de carbono.
SEGUNDA - É preciso que as pessoas se consciencializem da necessidade de uma intervenção profunda na limpeza das matas e florestas para ajudar a prevenir fogos florestais.
TERCEIRA - Defendo uma utilização cada vez mais moderada de água e electricidade. Mas esta moderação deve ser equilibrada, sem chegarmos a extremos ridículos.

in Correio da Manhã 2007.07.01

domingo, julho 01, 2007


Terra em risco
Extinção ameaça um terço


* Sofia Rato / Miguel Azevedo


Milhões de animais podem desaparecer até 2050. Será a consequência das alterações climáticas, mas também da negligência humana na introdução de novas espécies que leva à destruição de habitats naturais.
Entre 15 a 37 por cento das espécies animais correm o risco de se extinguir até 2050. Estes dados foram revelados num estudo publicado na prestigiada revista científica ‘Nature’. As alterações climáticas constituem actualmente a maior ameaça à biodiversidade. Estas incontornáveis mudanças agravam os ecossistemas que, por si só, estão debilitados devido à poluição e, em muitos casos, à perda do habitat das espécies. Por outro lado, quando se introduzem animais nos habitats de espécies indígenas acelera-se o processo de extinção, na medida em que existem distúrbios.
Algumas espécies podem extinguir-se não apenas devido às alterações climáticas mas em consequência das acções do ser humano. Manuel Moutinho, presidente da associação ANIMAL, dá um exemplo: “A exploração pecuária dos animais tem um papel fortíssimo no aquecimento global, isto é, a emissão de gases nocivos decorrentes destas explorações são superiores e mais graves do que os gases produzidos pelos automóveis”.
DIREITO A EXISTIR
Também o relatório elaborado pela WFF (Fundo Mundial para a Natureza) aponta para uma queda das espécies entre 1970 e 1995. Segundo o documento, durante este período de tempo cerca de 35 por cento dos animais de água doce e 44 por cento dos animais marinhos extinguiram-se.Sensibilizar as populações para a urgente necessidade de preservação das espécies é uma tarefa complexa. “Há um argumento central a favor das espécies que é simplesmente o direito que os animais têm de existir, ou seja, os animais têm direitos. Esta mensagem não tem sido suficientemente trabalhada. Nós, seres humanos, não temos qualquer direito de fazer desaparecer as espécies”, diz Manuel Moutinho. O activista – que desde 1998 se dedica à defesa dos direitos dos animais – vai mais longe e aponta o dedo à Humanidade: “O ser humano tem a concepção antropocêntrica de que é superior e isso conduz irremediavelmente a fenómenos como o aquecimento global.”Para atenuar a queda das espécies, o dirigente da ANIMAL deixa algumas reflexões: “Devemos abolir a caça, uma vez que esta constitui uma das principais ameaças à conservação das espécies, e limitar ao máximo a pesca.”
ALGUMAS ESPÉCIES EM VIAS DE EXTINÇÃO
- Lagartixa-de-dedos denteados (Acanthodactylus erybrurus)- Águia de Bonelli (Hieraaetus fasciatus)- Lince Ibérico (Lynx pardinus)- Ouriço-Cacheiro (Caendau prehensilis)- Rã Rela (Hyla arbórea)- Cegonha-preta (Cicania nigra)- Arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus)- Cachalote (Physeter macrocephalus)
DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DOS ANIMAIS
A Declaração Universal dos Direitos dos Animais foi adoptada pela Liga Internacional dos Direitos dos Animais em 1977. Em 1978 foi aprovada pela UNESCO.
ANO INTERNACIONAL DA BIODIVERSIDADE
2010 vai ser o Ano Internacional da Biodiversidade, mas há muito que as Nações Unidas e a Greenpeace, entre outras organizações, promovem campanhas de sensibilização.
"ÁGUA CUSTA MAIS QUE GASOLINA"
(Nelson, dos Anjos, é um dos cantores que estará presente no concerto Live Earth, marcado para o dia 7 de Julho, no Pavilhão Atlântico, em Lisboa)
Correio da Manhã – Em que altura despertou para os problemas ambientais?
- Sempre fui uma pessoa preocupada com estas questões. Hoje, mais do que nunca, assusta-me a questão da água. É com grande preocupação que quando andamos em digressão e paramos numa área de serviço para comprar água, vejo que uma garrafa de litro é mais cara do que um litro de gasolina.
De que forma procura contribuir para o bem-estar do ambiente?
- Fui educado para não fazer lixo, mas só comecei a separá-lo há pouco tempo, até porque esta nova forma de viver, que tem a ver com a reciclagem, é uma coisa relativamente recente.
Como músico, que lugar ocupa a poluição sonora na sua lista de preocupações ambientais?
- Não consigo entender como é que é possível existirem automóveis que produzem ruído acima do permitido. Na nossa profissão, temos de cumprir limites de potência. Porque razão as entidades competentes não fazem actuar a fiscalização sobre os veículos?
Pode a música, efectivamente, sensibilizar as pessoas para a preservação do ambiente?
- Acredito no Live Earth porque a música é um veículo forte de comunicação com as pessoas. Há bandas que arrastam multidões e são autênticas fazedoras de opinião.
Durante a actuação no Pavilhão Atlântico, os Anjos vão passar algum tipo de mensagem? Têm discurso preparado?
- O tempo de actuação vai ser escasso, cerca de 20 minutos. Claro que terei umas palavras a dizer, mas a melhor delas surgirá seguramente no momento.
TRÊS MEDIDAS PARA SALVAR O PLANETA
(José Manuel Alho, Biólogo e ambientalista, membro da Liga para a Protecção da Natureza)
PRIMEIRA Sempre que possível devemos prescindir da viatura individual, sobretudo em percursos curtos e que se podem fazer perfeitamente a pé. O ideal era os cidadãos recorrerem à rede de transportes públicos.
SEGUNDA Quando utilizamos os nossos electrodomésticos, aparelhagens e computadores em casa, não os devemos deixar em stand-by mas sim desligá-los completamente. Com isso, estamos a poupar muita energia.
TERCEIRA Devíamos ser sensíveis aos cuidados preventivos no que toca aos fogos florestais. Os proprietários devem acautelar a limpeza dos seus terrenos e todos nós temos que estar atentos.
in Correio da Manhã, 2007.06. 30
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