A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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sábado, março 05, 2011

A (in)justiça em Portugal (2)



Diário da Manhã


Estado das Coisas

A boa Justiça e a má Justiça

A boa justiça está no chamado caso Camarate. A má justiça está no chamado caso Rui Pedro. Vamos à boa justiça. No caso Camarate, conhecido pela queda do avião que levou à morte, entre outros, de Sá Carneiro e Amaro da Costa, a justiça do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem disse por unanimidade que a justiça portuguesa tinha andado bem e não tinha sido negligente na investigação criminal e na procura da verdade.
  • 04 Março 2011
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Por:Rui Rangel, Juiz Desembargador


A justiça internacional reconheceu a competência e o mérito do trabalho de muitos anos feito pela justiça portuguesa. E é justo que assim seja, porque a justiça portuguesa foi muito maltratada por alguma comunicação social e por uma grande parte do sector político, designadamente pelas inúmeras comissões de inquérito. O caso foi transformado num processo político que, por meio dessas comissões, só andava em certos momentos da vida política e foi muitas vezes utilizado como arma de arremesso no jogo partidário. Mas a justiça não faz política nem investiga processos políticos. 
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O (i)legítimo aproveitamento político passou ao lado da justiça portuguesa. Uma investigação criminal difícil e complexa, que abriu todas as pistas possíveis, que atendeu a todos os pedidos feitos pelos interessados e que esgotou o menu de perícias médicas e técnicas de que há memória na história da justiça europeia. Apesar da grande pressão do poder político, o veredicto da justiça portuguesa foi sempre o mesmo: tratou-se de um acidente e não de um atentado. A boa justiça não se vergou à chacota política nem a pressões ilegais e não foi a reboque das comissões de inquérito, que muitas vezes ultrapassaram os limites das suas competências políticas e investigatórias. Por isso, o Tribunal Europeu absolveu a justiça portuguesa.
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Vamos agora à má justiça. No caso Rui Pedro, conhecido pelo rapto deste menor, a justiça levou 13 anos a produzir um resultado, com a dedução, no fim do inquérito, de uma acusação. A dor daquela mãe, que sofre há tantos anos o desaparecimento do filho, é brutalmente contagiante. Merecia mais respeito das polícias de investigação e do Ministério Público. Bem sei que existem vários casos em investigação de raptos de menores. Está para além dos meus limites e das minhas capacidades, como ser humano, saber avaliar o que representa o desaparecimento, sem morte anunciada, de um filho. 
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Mas já está dentro dos meus limites dizer que uma delonga de 13 anos para proferir acusação, sem explicação e sem, ao que tudo indica, factos novos, é próprio de uma má justiça. Não vale a teoria de produzir um acusação só para evitar a prescrição. O Ministério Público não se pode livrar de uma explicação pública: é preciso dizer à mãe do Rui Pedro e aos portugueses o que se passou. Não me espantaria que o Tribunal Europeu condenasse o Estado Português e a justiça se tivesse de se pronunciar sobre este caso. Cuidado que a má justiça pode corroer a boa justiça.
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Correio Político

O discurso da rainha

O procurador-geral da República (PGR) continua a querer comparar-se com a rainha de Inglaterra. A comparação pode ser lida como um mau presságio, se nos lembrarmos das detentoras da coroa inglesa que perderam a cabeça. Porém, em cada declaração pública, Pinto Monteiro faz questão de insistir nos poucos poderes que tem no cargo que ocupa desde 2006.

  • 0h30 - Correio da  Manhã 2011.03.03 
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Por:Paulo Pinto Mascarenhas, Jornalista


O que não se compreende é que não se queixe com maior veemência em sede própria, ou seja, junto do primeiro-ministro, José Sócrates, e do governo que o indicou ao Presidente da República, Cavaco Silva.
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O que ninguém pode aceitar é que, ainda assim, se vá mantendo num posto em que se sente desprovido de poderes. Enquanto Pinto Monteiro fala das escutas ilegais e corta ‘à tesoura’ escutas legais, acumulam-se as razões de protesto dos cidadãos comuns. 
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Certa ou errada, a sensação que hoje se tem é que tanto o PGR como o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do Nascimento, são advogados do poder político e não agentes da Justiça em Portugal. Nada pior para a credibilidade da política e dos políticos. 
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Diz-se que a Justiça precisa de ser cega, mas no caso de Pinto Monteiro talvez devesse também ser muda. O PGR tem de falar menos e fazer mais.
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Face Oculta’: Tensão na Justiça

Noronha quer escutas

Noronha do Nascimento, presidente do Supremo Tribunal de Justiça, pediu ontem ao juiz Carlos Alexandre que lhe envie a extensão procedimental onde constam as conversas gravadas entre Armando Vara, ex-vice-presidente do BCP, e o primeiro-ministro, José Sócrates, no âmbito do processo ‘Face Oculta’. 
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  • 0h30 - Correio da Manhã 2011.03.04
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Por:Tânia Laranjo


O pedido não é claro e não está especificado se terão de ser enviados os CD com as gravações das conversas – suportes magnéticos que Carlos Alexandre mantém no tribunal e que Noronha do Nascimento quer ver destruídos. A justificação dada por Noronha do Nascimento é que necessita de "apreciar expediente entretanto recebido".
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Também ontem a defesa de Paulo Penedos voltou a contestar a ordem de Noronha do Nascimento de destruir as polémicas escutas. 
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Segundo o requerimento entregue no Tribunal Central de Instrução Criminal pelo advogado de Paulo Penedos, Noronha não poderia ter rejeitado o seu recurso, atendendo a que o mesmo não lhe tinha sido enviado. "Não lhe cabe admitir ou deixar de admitir tal reclamação, porque tal peça processual não lhe é dirigida, como, aliás, decorre do mais elementar bom senso", diz mesmo Ricardo Sá Fernandes.

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Escutas: Noronha quer 'destruição já' - Sol

24 fev. 2011 ... Em despacho de hoje, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça manda o Tribunal Central de Instrução Criminal proceder à «destruição ...
25 fev. 2011 ... Noronha Nascimento interroga-se ainda sobre o motivo pelo qual recebeu as escutas “às pinguinhas” e sobre a actuação dos magistrados do ...
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Noronha ameaça juiz com processo - Exclusivo CM - Correio da Manhã

26 fev. 2011 ... Noronha quer destruir escutas que envolvem Sócrates ...
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Noronha ameaça juiz com processo - Exclusivo CM - Correio da Manhã

26 fev. 2011 ... Noronha quer destruir escutas que envolvem Sócrates ...
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3 mar. 2011 ... Carlos Alexandre quer que o Ministério Público se pronuncie sobre o despacho de Noronha do Nascimento que exige a destruição das escutas a ...
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terça-feira, março 01, 2011

A (in)justiça em Portugal (1)



Diário da Manhã
Terça-feira, 1 de Março de 2011 - 14:31

Juízes com rabo de fora

Noronha do Nascimento, presidente do Supremo Tribunal de Justiça, anda verdadeiramente de cabeça perdida com as escutas entre o senhor engenheiro relativo e o seu camarada e amigo do peito Armando Vara.
  • 0h30 - Correio da Manhã - 2011.03.01
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Por:António Ribeiro Ferreira, Jornalista


Ameaça o juiz de Instrução do caso Face Oculta com o Inferno, os jornalistas assistentes do processo com indemnizações milionárias, enfim, atira pedras e mais pedras para impedir que os arguidos saibam o que andaram a dizer sobre várias matérias relevantes os dois socialistas. O procurador-geral da República, seu sacristão nesta matéria, anda a distrair a passarada com a velha história das escutas ilegais. Acontece que os dois juízes que mandam na triste e pobre Justiça da Pátria estão cada vez mais parecidos com os gatos. Escondidos com o rabo de fora.
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Imprensa

01-03-2011
> Juízes exigem divulgação de auditorias ao Citius > CM
Juízes exigem divulgação de auditorias ao Citius

A Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) considera "precipitado e arriscado" avançar com a informatização dos processos-crime devido aos problemas detectados no sistema. Em comunicado, a ASJP lembra que está em causa uma "área muito mais sensível" onde a questão do segredo é vital. Esta posição surge na sequência de uma resolução do Conselho de Ministros que considera "prioritário" o alargamento da desmaterialização dos processos.

Os juízes dizem que o Conselho Superior da Magistratura está "totalmente arredado" desta questão, o que permite uma "governamentalização da gestão dos dados relativos a actos processuais" e exige que o Ministério da Justiça divulgue as auditorias ao Citius e esclareça se os problemas de segurança foram ultrapassados.  

> Publicado no Correio da Manhã a 1 de Março de 2011

 Ver também
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Não ficará pedra sobre pedra - João Palma


A "domesticação" da Justiça em Portugal - Rui Rangel

A Partidarização da Justiça em Portugal a favor dos ricos e poderosos - Rui Rangel

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Tribunais: Computadores da investigação criminal são queijo suíço

Informática da Justiça vulnerável (ACTUALIZADA)

Os peritos que trabalham com o Ministério Público na aplicação das tecnologias ao sistema informático da Justiça são todos convergentes: a vulnerabilidade à intrusão de piratas é total. Maria José Morgado recusa mesmo utilizar o programa Citius no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa.
  • 03 Outubro 2009
Por:Tânia Laranjo/ Eduardo Dâmaso


Para lá do estudo feito pela equipa do professor José Tribolet há outros diagnósticos feitos que arrasam a segurança informática da rede do Instituto de Tecnologias de Informação na Justiça (ITIJ). Esta é considerada demasiado complexa, com ligações a mais e com pontos de administração remotos que não são controlados judicialmente.
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Sobre o Citius, o programa informático que há dois anos o Ministério da Justiça implementou nos tribunais, Maria José Morgado é peremptória: 'Tem fragilidades e não apresenta condições para ser utilizado.'
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Por isso, o DIAP recusa-se a utilizá-lo. 'Não há perfis de segurança no programa. Pedimos uma auditoria de uma entidade externa e até agora não obtivemos resposta. Optámos por não o utilizar, até porque o DIAP é o maior organismo do Ministério Público em termos de inquérito. E a PGR também não impôs a sua obrigatoriedade', diz Maria José Morgado, que tem certezas ao nível dos perfis de segurança. 'O sistema tem de ter níveis de acesso de acordo com a responsabilidade dos utilizadores. E tem de ser possível verificar quem acedeu a ele. O utilizador tem de deixar a sua impressão digital, a marca, o rasto', afirma a magistrada, lembrando que é possível tornar o sistema 'quase inviolável'. 'Não há sistemas 100 por cento seguros. Mas é possível defendermo-nos das intromissões de terceiros.'
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O Citius não é, no entanto, o único problema nos sistemas informáticos da Justiça. Relatórios a que o CM teve acesso arrasam a maneira como foi feita a reforma tecnológica no ministério, inicialmente assente no sistema operativo Linux, escolhido pelo ITIJ em 2005. Nessa altura, avançou a reforma e foi criado um produto designado por ‘Linius’, baseado num projecto de divulgação do Linux em língua portuguesa conhecido por Caixa Mágica. Este projecto, porém, passou a ser progressivamente abandonado quando o Governo de Sócrates começou a celebrar protocolos com a Microsoft, em 2007.
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A partir daí, toda a rede da Justiça terá ficado sujeita a problemas de exploração eficiente e de segurança. A intromissão é possível e dificilmente detectável. As fragilidades são imensas.
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PORMENORES
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JUÍZES
A Associação Portuguesa de Juízes também pediu ao Ministério da Justiça, há cerca de dois anos, uma auditoria externa sobre a segurança do sistema informático. Não obteve, no entanto, qualquer resposta.
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NOTIFICAÇÕES
A grande mais-valia do Citius tem a ver com as notificações. O sistema foi, aliás, pensado para essa valência e só mais tarde foi adaptado. Na área cível, trouxe rapidez e permitiu aos advogados acompanhar os processos.
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UNIDADE
Na PGR funciona uma Unidade de Missão para a informatização dos tribunais. Os problemas e fragilidades detectados pelo DIAP de Lisboa foram confirmados por aquela entidade do MP.
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JUÍZA ACUSOU PODER POLÍTICO
A juíza do Tribunal de Família e Menores de Lisboa Solange Hasse classificou de inseguro o sistema informático Citius e anunciou no início do ano que não ia recorrer àquela ferramenta. A juíza escreveu num documento enviado ao Ministério da Justiça que é possível 'ler em cada momento o que um juiz escreve em determinado processo', pelo que permite 'a intromissão do poder político nas duas magistraturas'.
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'INTROMISSÃO É FÁCIL DE ACONTECER': Maria José Morgado, Procuradora-geral-adjunta
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Correio da Manhã – O DIAP não utiliza o Citius?
Maria José Morgado – Pedimos ao Ministério da Justiça que nos dessem os perfis de segurança, e até propusemos uma auditoria por uma entidade externa. Continuamos sem resposta e decidimos não o utilizar.
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– Mas ele não era obrigatório?
– Inicialmente, sim, mas depois o Ministério Público entendeu retirar a obrigatoriedade.
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– As fragilidades do sistema são só ao nível da segurança?
– Não. Há problemas técnicos na gestão dos processos, da sua apensação. O Citius não tem capacidade, dada a sua arquitectura. E a intromissão no sistema também é muito fácil de acontecer.
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SEGREDO DE JUSTIÇA EM XEQUE
Um dos relatórios na posse do grupo de trabalho deixa claro que há uma relação entre as fragilidades da rede do Instituto das Tecnologias da Justiça (ITIJ) e a justificação de violações do segredo de justiça. No caso Freeport, chegou a haver suspeitas de intromissão nos computadores dos magistrados que investigam o caso. Na altura, chegou a ser feita uma investigação rápida mas inconclusiva. Para os peritos, para além de estar comprometido o sentimento de confiança dos utilizadores (polícias, magistrados, juízes, funcionários judiciais) em relação à privacidade da informação arquivada ou em circulação nas suas redes, há também um risco real de intrusão informática a suportar algumas violações de segredo de justiça noutros processos que não o do Freeport. O sistema assenta numa rede considerada 'muito complexa', cheia de ligações e interligações, com administração a partir de pontos subtraídos a qualquer controlo judicial. Por outro lado, há vários relatórios técnicos que apontam fragilidades na segurança dos sistemas e bases de dados de todos os Departamentos de Investigação e Acção Penal, do Ministério Público, de todas as polícias e, até, dos Registos e Notariado, serviço que emite o cartão do cidadão.
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No caso do DIAP de Lisboa, a primeira consequência desse sentimento de insegurança está no pedido de auditoria feito por Maria José Morgado. Mas a própria Polícia Judiciária tem vindo a tomar medidas de reforço da segurança dos seus sistemas.
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REDE DO ITIJ NÃO É FECHADA
Os relatórios periciais afirmam que a rede informática do ITIJ não é estanque. Pelo contrário, existem diversos pontos de acesso remoto e sem controlo judicial, o que, na área da investigação criminal, facilita o acesso a informação sensível e protegida pelo segredo de justiça. A rede integra os Registos, Notariado, tribunais, Ministério Público e a Polícia Judiciária. Por outro lado, tem demasiados privilégios de acesso distribuídos.
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SÓCRATES APOSTA NA MICROSOFT
A estratégia assente na Caixa Mágica e no sistema operativo Linux acabou por ser contrariada pela aposta do Governo de Sócrates nos protocolos com a multinacional Microsoft. Estes protoc olos asseguram à empresa a continuidade de venda de licenças dos seus produtos à administração pública portuguesa mas, na óptica expressa pelos peritos em vários relatórios a questão da falta de segurança não foi afastada.
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NOTAS
CAIXA MÁGICA: INÍCIO EM 2000
O projecto de engenharia informática Caixa Mágica começou em 2000 no Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa, com três especialistas portugueses
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REFORMA: GAGO AVANÇOU 
O impulso inicial da reforma informática baseada no ‘software livre e aberto’ foi dado no Governo de António Guterres, sob impulso do então ministro da Ciência Mariano Gago
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OBJECTIVO: DIMINUIR CUSTOS
Um dos objectivos da iniciativa, assente na resolução do Conselho de Ministros 21/2002, visava reduzir custos na Função Pública com o pagamento de licenças
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sexta-feira, janeiro 21, 2011

A "domesticação" da Justiça em Portugal - Rui Rangel




Estado das Coisas

Armado em Adamastor

O que se está a passar no Parlamento com a discussão sobre a aprovação do Estatuto dos Juízes faz-me lembrar a figura mitológica do Gigante Adamastor. O Gigante Adamastor, como sabem, foi criado por Camões para significar todos os perigos, as tempestades e perdições de toda sorte que os navegadores portugueses tiveram de enfrentar nas suas viagens.

  • 20 Janeiro 2011
Por:Rui Rangel, Juiz Desembargador


Ora, a respeito da alteração do Estatuto dos Juízes, o PS, em minoria no Parlamento, assumiu o papel de Adamastor. No contexto da crise financeira, o PS, a mando do Governo, visa funcionalizar os juízes. Pretende semear tempestades para fazer naufragar a soberania do Poder Judicial e a independência e a imparcialidade dos juízes. 
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O PS e o Governo querem vingar-se dos juízes, destabilizando um dos alicerces fundamentais do Estado Democrático de Direito. O PS e o Governo só estão a fazer mal aos portugueses e a Portugal. Só num País de terceiro mundo é que se aceita a funcionalização do juiz e a destruição da sua independência. Só num País com dirigentes que não prezam a modernidade e a civilização é que é aceitável reduzir a dimensão de Estado do Estatuto do Juiz à vontade e às ordens de um qualquer Ministro das Finanças, tecnocrata sem sensibilidade para tratar das questões da justiça. 
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Quem verdadeiramente manda na justiça é o Ministro das Finanças. A crise financeira é o pretexto para tudo se fazer e para atingir a justiça que tocou nos chamados intocáveis. O que é surpreendente nisto tudo é que o Gigante Adamastor está a tentar dar a volta aos restantes grupos parlamentares, lançando o terror com a inviabilização da execução orçamental, caso o Estatuto do Juízes não seja aprovado. Argumento ridículo e sem sentido de Estado. Sendo certo que há muito que este valor está consolidado para poder ficar ao sabor de um qualquer partido político ou de um qualquer governante, é preciso estar sempre vigilante. 
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A maioria dos nossos políticos não tem qualidade e a única consolidação que lhes interessa é a do seu partido, dos seus lobbies e dos seus interesses particulares. Nem quando tinha maioria parlamentar o nosso Gigante Adamastor foi tão longe. As questões da justiça, do vencimento do juiz e do seu Estatuto mereciam outro cuidado e outra atenção. A vontade é reduzir a dimensão institucional do Estatuto, subtraí-lo, em questões fundamentais, ao crivo da lei da Assembleia da República, e é penalizar duplamente o vencimento do juiz, seja através de descontos a incidir sobre este, seja por meio do designado subsídio de renda de casa, esquecendo a imposição constitucional de exclusividade de funções que é imposta ao juiz e as recomendações do Conselho de Europa. Mas mesmo os gigantes têm os seus pontos fracos. A imaginação mitogénica do PS para o abismo e para o mundo desconhecido é a sua fraqueza. É vítima da sua própria história e, tal como o Gigante de Camões, de um amor impossível com os valores da democracia.
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sexta-feira, dezembro 10, 2010

A Partidarização da Justiça em Portugal a favor dos ricos e poderosos

Estado das Coisas
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Falta de liderança

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A justiça, estando fraca, doente e com deficit de credibilidade acentuada, não merece um Ministro da Justiça com uma liderança frágil e pouco assertiva.
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  • 09 Dezembro 2010 - Correio da Manhã
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Por:Rui Rangel, juiz desembargador


Não mereceu Alberto Costa que, para além de ser um líder fraco, tinha muitos preconceitos negativos em relação à justiça, aos juízes e ao Ministério Público. Não sei se foi pelo episódio triste de Macau, mas a verdade é que tentou liquidar a independência do poder judicial, favorecendo interesses pouco transparentes da política partidária. A justiça e o poder judicial não mereciam aquilo que foi feito no consulado de Alberto Costa. Mas também não merece Alberto Martins, bom político partidário e com mestria nas lutas políticas. Porém, como Ministro da Justiça, não tem liderança, não tem cultura judiciária e não tem tido arte e engenho para pacificar a pasta da justiça. 
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Não gosto de falar de pessoas, sim de princípios, de estratégia e de rumos. A pasta da Justiça não tem estratégia, não tem rumo e sabe pouco de justiça. 
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O aparelho do partido socialista, a liderança político-partidária, naquilo que tem de mais perverso, tomou conta da pasta da justiça, tendo como rosto visível José Magalhães, que viu, com o afastamento de João Correia, os seus poderes reforçados. 
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Há muito que existe, na liderança política do governo um sentimento, uma mentalidade e uma cultura contra os interesses do bom funcionamento da justiça e contra a independência dos juízes e a autonomia do MP. Reforçar os poderes de José Magalhães não é bom para o melhoramento e para a imagem da justiça. Só beneficia quem quer manietar com grilhetas a justiça e para quem não respeita nem se revê neste poder, como um poder soberano do Estado. Sendo certo que a justiça nunca foi uma prioridade para o Estado democrático, não pode estar ao serviço e aos interesses da política partidária. 
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Quem está no leme da justiça pode não perceber do que fala, mas tem que ter orientação política, liderança forte e ter a noção que gere um pilar essencial do Estado. 
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Receio o que se está a passar no Ministério da Justiça e os cidadãos também têm razões para recear. O buraco financeiro detectado deve-se, não só a um crónico subfinanciamento da justiça, mas também a uma crónica incompetência e pouco transparente gestão dos recursos financeiros e patrimoniais disponíveis. Privatizar o sistema informático dos tribunais é colocar nas mãos de "gente desconhecida", que não tem o estatuto de independência e de isenção, os interesses públicos da justiça.
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Tudo está em jogo. Pode passar-se do PCP para o PS, mudança pouco nociva para a pureza das ideologias e princípios políticos, mas não se pode pretender colocar a justiça ao interesse de lobbies e dos partidos. Normalmente o partido que está no poder não pensa nos interesses nacionais, mas nos interesses de bem servir quem os serve e quem os alimenta. 
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quinta-feira, maio 27, 2010

Estado das Coisas Os pregadores da falsa moral - Rui Rangel

O mundo dos homens assistiu, ao longo da vida, a discursos de muitos pregadores. O pregador, com a sua pregação, pretende divulgar um determinado ideal de vida, fazendo discursos de mudança, com mensagens que podem ir desde a religião, à moral, passando pela política partidária.
  • 0h30 -- Correio da Manhã 2010.05.27
Por:Rui Rangel, Juiz Desembargador
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Desde Moisés a Jesus Cristo, passando por César, até Mussolini e Hitler, o mundo sempre se deixou galvanizar por estes discursos. Mas há bons e maus pregadores. O bom pregador, não o vendedor da ‘banha da cobra’, nem o ‘fazedor de consciências’, para fins ilícitos ou contra a humanidade, está, em princípio, de boa fé e genuinamente interessado em mudar as coisas para melhor. Ajudando a que todos fiquem bem e preocupado com o mal-estar das pessoas. O mau pregador, aquele que está de barriga cheia e que vive por conta do erário público, exercendo cargos cuja habilitação exigida é a confiança política, só pensa nos seus interesses e na rede de influências em que se move.
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Confesso que não gosto de pessoalizar as questões. O que me dá gozo é discutir ideias, projectos e princípios. Mas desta vez não resisto à tentação de transpor a barreira que impus a mim mesmo. E faço-o com a consciência da transgressão.
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O que pesam os pregadores que se seguem aos bolsos dos portugueses:
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Faria de Oliveira: CGD, 371 000 euros; Vítor Constâncio: Banco de Portugal, 249 448 euros; Carlos Tavares: CMVM, 245 552 euros; Guilherme Costa: RTP, 250 040 euros; Fernando Pinto: TAP, 420 000 euros; Henrique Granadeiro: PT, 365 000 euros; Cardoso dos Reis: CP, 69 110 euros; Luís Pardal: Refer, 66 536 euros; José Manuel Rodrigues: Carris, 58 875 euros. A estes valores acresce carro com motorista, cartão de crédito, telefone, ajudas de custo, subsídios de representação e de compensação, participação na distribuição dos lucros e uma reforma milionária por tempo curto de serviço. 
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Os valores morais da pregação, para que possam ter autoridade, precisam de exemplos que venham de cima. Como podem alguns destes pregadores pedir aos portugueses mais sacrifícios e afirmar que precisam de mudar de vidinha? Como podem pedir ao Governo que faça contenção nos salários das pessoas que mal têm dinheiro para comer e sustentar os filhos e que têm perdido, de forma grave, poder de compra. Existe na boa pregação uma integridade moral e uma fortaleza inexpugnável que deve ser mantida. A alguns destes pregadores do regime, com uma pregação chocante, falta-lhes autoridade moral para pedir sacrifícios aos portugueses, denotando uma decadência da consciência. O mundo está assim por culpa dos grandes pensadores financeiros, onde se incluem os nossos pregadores, e por ausência de mecanismos de regulação.
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O ‘amoralismo’ que pregam é só para os outros. É fácil falar da vida dos que nada ou pouco têm. Como se diz nos textos bíblicos: "Não há vitória sem luta, como não há salvação sem arrependimento". Deviam lavar-se sete vezes no Jordão, para que a sua carne e alma fossem curadas e purificadas. Só assim conseguem o arrependimento para a remissão dos pecados que cometem.
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segunda-feira, abril 19, 2010

Estado das Coisas - Desjudicialização

Correio da Manhã
 
18 Março 2010 - 00h30
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A moda veio para ficar. Na ausência de uma política responsável e eficaz de melhoramento do serviço público da justiça, com medidas acertivas que ousem atacar, de vez, a morosidade no funcionamento da justiça, o que temos é o recurso sistemático à sua privatização.

O processo de desjudicialização da justiça, ou melhor da sua privatização, constitui um perigo para os fundamentos de uma justiça democrática, para os direitos das pessoas e representa a completa falência de uma das funções vitais do Estado. Ir neste caminho é reconhecer a incompetência do Estado, que assim se desobriga desta tarefa, é atirar a toalha ao tapete.
A justiça privada já teve a sua vida na história dos povos e com resultados muito pouco abonatórios. A inoperância do Estado em debelar a morosidade da justiça não pode levar à sua desjudicialização, sacrificando os direitos e garantias do cidadão. Sendo a justiça um valor superior do Estado de Direito só pode ser garantida através dos tribunais. Porém, o que hoje está a acontecer é a recusa do Estado em fazer justiça nos tribunais, substituindo o tribunal por instâncias não soberanas ou privadas, que não são isentas, imparciais e independentes.
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A desjudicialização da acção executiva (não esquecer que a acção executiva é um processo muito intrusivo na privacidade das pessoas: veja-se a penhora com remoção dos bens) tem impedido que o cidadão possa executar o seu direito e receber o seu crédito. São milhares as acções executivas que estão paradas nas mãos dos solicitadores de execução ou nas secretarias. A privatização do processo de inventário, para os cartórios notariais, é das medidas mais insanas de que há memória. Veremos o que acontece com a partilha de heranças fora dos tribunais entre herdeiros desavindos. A privatização do direito de família e a prática de muitos actos que contendem com direitos fundamentais dos cidadãos, praticados em conservatórias, são tudo medidas que contrariam a existência de um Estado civilizado. 
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O recurso a instâncias não formais de resolução de conflitos é perigoso. Como não se conseguem resolver os problemas no interior do sistema, entrega-se nas mãos de privados actos jurisdicionais da competência do juiz. 
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Mas tão grave quanto a desjudicialização formal é a desjudicialização substancial, pautada por um discurso de permanente desligitimação do Poder Judicial. 
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O Estado deve procurar fazer mais e melhor justiça e não apenas preocupar-se em "aliviar" e "descongestionar" os tribunais. Como Antígona: "A justiça não escrita, mas "inscrita" na alma humana contra a legalidade prescritiva do despotismo de Creonte".



Rui Rangel, Juiz Desembargador
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Estado das Coisas Da tragédia à comédia

 Corrreio da Manhã
 
15 Abril 2010 - 00h30

O Código de Execução de Penas, que acaba de entrar em vigor por vontade política exclusiva do Governo, faz-me lembrar a tragédia e comédia gregas, quando se interroga sobre as razões pelas quais a civilização grega sucumbiu ao contrapor-se a uma distinta maneira de conceber o homem, a justiça, o mundo e a vida.

A tragédia deste novo Código está na persistência do legislador que, por teimosia e por interesses pouco transparentes, insiste na desjudicialização da justiça, capturando actos que só podem ser praticados por um juiz, para entregar a órgãos administrativos de confiança política. A comédia (ainda que trágica ), não sendo o legislador louco, só é suportável pelo riso que provoca, quando se atribui competência ao Director-Geral das Cadeias para decidir pela colocação de um recluso em regime aberto no exterior da prisão. 
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Este órgão administrativo, nomeado por confiança política, decide da liberdade de alguém condenado pela prática de crimes graves, designadamente os chamados crimes de sangue, sem restrição, sem custódia e sem qualquer controlo no exterior. Aquilo que era uma excepção, o regime aberto no exterior da cadeia sob controlo judicial, passa a regra, como um direito do condenado e, ainda por cima, por decisão administrativa. Ultrapassam-se os poderes e a decisão de dois juízes, o da condenação e o da execução, permitindo que a decisão que condenou o criminoso numa pena de vinte anos seja alterada, por via administrativa, logo que este tenha atingido um quarto da pena. Trata-se de mais uma medida inoportuna, considerando o momento conturbado que vive a justiça e a insegurança gerada pela reforma das leis penais que, com a modificação do regime da prisão preventiva, obrigou a libertar muitos detidos. 
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Quando se coloca um criminoso no regime aberto, no exterior da cadeia, dando-lhe liberdade para passar o dia fora, está tudo em jogo: a protecção da vítima, a manutenção da paz e da ordem social, os mecanismos de reintegração social. Como é que se pode entregar esta competência importante ao Director-Geral das Cadeias, que não tem sensibilidade, formação e um estatuto de independência e de isenção para apreciar estas matérias? E não se diga que esta decisão passa pelo crivo do MP para apreciar da sua legalidade. 
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É uma apreciação frouxa e sem grande relevo porque, em caso de discordância, o recurso não suspende os efeitos da decisão administrativa, acabando o preso por gozar automaticamente desta medida, podendo, se quiser, evadir-se de vez e ir a banhos, não com o Director, mas com a sua decisão. No limite, se for um colega de partido que esteja preso até dá jeito, passa a gozar de liberdade até ao fim da pena ou até poder beneficiar de liberdade condicional. E é também uma boa forma de gerir o excesso de população prisional de acordo com o orçamento disponível. Completa indignidade para o Estado de Direito e para a vítima e total humilhação para os Tribunais.



Rui Rangel, Juiz Desembargador

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15 Abril 2010 - 11h02  | joseos boys do ps estão garantidos podem praticar os crimes que quizerem, mesmos que condenados, serão postos em liberdade
15 Abril 2010 - 10h05  | D´CostaCritiquem menos e trabalhem mais. é para isso que o povo vos paga, e bem. Única coisa boa, são as ricas férias grandes..
15 Abril 2010 - 10h05  | D´CostaCritiquem menos e trabalhem mais. é para isso que o povo vos paga, e bem. Única coisa boa, são as ricas férias grandes..
15 Abril 2010 - 09h59  | RodriguesÉ sempre a mesma coisa, para esta gente iluminada está sempre tudo mal. Só a justiça está bem, e recomeda-se!!!
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sábado, janeiro 02, 2010

Estado das Coisas - 2010 - Mais do mesmo

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Correio da Manhã - 02 Janeiro 2010 - 00h30

Estado das Coisas

2010 - Mais do mesmo

O Centenário da República, que terá lugar no ano que agora nasceu, devia servir para uma ampla reflexão sobre as virtudes da República e do regime democrático em vez de celebrações encomiásticas. Devia discutir-se, com assombro e alma, o regime político vigente, a separação de poderes na organização política do Estado, o sistema de justiça, a transparência da vida democrática e o tipo de sociedade que somos e queremos, numa lógica europeia.
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Temo que tal não vai acontecer e 2010 vai mesmo ser mais do mesmo.
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Não creio que, por ora, a democracia esteja em causa, até porque a integração europeia foi, é e será uma válvula de segurança. Apesar do que disse Fialho de Almeida – «em países cultos e com uma noção definida de liberdade, república e monarquia constitucionais são tabuletas anunciando uma só mercadoria» – continuo a confiar nos valores republicanos em democracia. Acredito que o problema não está na democracia, mas nos homens que dela se apoderaram com promessas que colonizam o voto e mercantilizam o pensamento dos portugueses. Embora a democracia tenha princípios sólidos, ela é prisioneira desta nova modernidade e deste homem novo sem ética e sem moral.
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A reflexão seria desejável porque a democracia está confrontada com uma crise financeira brutal, com um deficit que caminha para os 10%, com um Estado sem margem de manobra, de cofres vazios e com os custos de dívida pública de dois milhões de euros a cada hora que passa.
E, naturalmente, com o descalabro da justiça.
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Apesar da crise financeira e económica, culpa da ganância e da ausência de regulação no sector financeiro, a justiça representa o maior fracasso das políticas reformistas da democracia. Nem na ditadura o descrédito e a falta de eficácia foram tão acentuados.
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Em vez de estudo, discussão e reflexão, o que temos é sempre o mais fácil: leis e mais leis, pseudo-reformas a todo a vapor.
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Anunciou, o novo governo, novas alterações na lei de divórcio, nas custas judiciais, na acção executiva, na prisão preventiva, nos prazos de inquérito, na uniformização de regime de detenção e que vai reavaliar o novo mapa judiciário, devido às dificuldades verificadas. Legislação esta que foi alterada há muito pouco tempo. As alterações constantes, os erros legislativos demoram muito a ser reparados. Esta é a causa principal da morosidade da justiça e da falta de qualidade do regime judicial.
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Mas a qualidade da justiça também depende da sua capacidade de se questionar. Como disse Teresa de Calcutá, a nossa missão não é julgar o que é justo ou injusto: é apenas ajudar.

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Rui Rangel, Juiz Desembargador
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quarta-feira, dezembro 23, 2009

Estado das Coisas - Crónicas de Rui Rangel e o Estado da Justiça


24 Outubro 2009

  • 00h30  A Bíblia segundo Saramago


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    Estado das Coisas- É preciso abrir o olho

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    Correio da Manhã
     
    31 Outubro 2009 - 00h30

    Estado das Coisas

    É preciso abrir o olho

    De acordo com o relatório da organização internacional dos Repórteres sem Fronteiras, Portugal caiu do 16º para o 30º lugar no ranking da liberdade de imprensa. Dando como assente que em democracia nenhum dos seus valores estruturantes, de que faz parte a liberdade de imprensa, é absoluto, mostra-se evidente que esta queda no ranking é preocupante.
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    É preciso abrir o olho, porque as novas tendências políticas não gostam de poderes livres e independentes, que fiscalizam, que questionam, que querem saber mais, porque a sua missão é a busca da verdade.
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    A verdade é que não precisávamos deste relatório para sentir no ar este cheiro asfixiante, que se revela de múltiplas maneiras. O cidadão tem de estar com os olhos bem abertos, porque a liberdade de imprensa é um valor que lhe pertence. É em nome dele que ela existe, por isso tem obrigação de a defender. Esperar que seja o poder político, as empresas de comunicação ou os jornalistas a defenderem a liberdade de imprensa é não querer acordar de um sonho.
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    Não vale a pena recorrer a interpretações enganosas para afirmar que tal acontece porque a forma de comunicar mudou ou porque o jornalismo já não funciona como funcionava. O mal não está na mudança, mas na substância, ou seja, no tipo de jornalista que temos e no jornalismo praticado. A subserviência, o jornalista de coluna vergada, a ausência de consciência ética da profissão e a não assumpção de uma cultura de responsabilidade estão a matar a liberdade de imprensa. A nova ordem comunicacional, com uma lógica empresarial que alterou os métodos e a forma de conceber e fazer jornalismo, não pode ser a única responsável. Sabemos que temos uma sociedade civil fraca e pouco exigente, mas é importante ter consciência desta realidade.
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    Como o mundo caminha, os governos vão ter cada vez mais dificuldades em passar as suas mensagens políticas e em fazer uma governação honesta. Estamos a viver o tempo das manigâncias e dos compadrios na arte da governação. A denúncia pública destes comportamentos e a identificação dos seus autores só é possível com uma comunicação social forte e credível.
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    O que está em jogo, para além da garantia constitucional da liberdade de imprensa, é o direito que a sociedade tem de ser informada. Sem dúvida que a democracia cresce quando os média têm trajectórias claras e transparentes. Por exemplo, o combate à corrupção e à criminalidade económico-financeira só é possível graças à força de uma imprensa livre e de uma opinião pública informada. Toda a atitude antiética e esquiva não passa de uma canhestra tentativa de acorrentar os princípios universais da liberdade de imprensa.
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    A imprensa não existe para agradar.O seu compromisso é com a verdade e com os diferentes públicos. Precisamos dos dois olhos bem abertos.
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    Rui Rangel, Juiz Desembargador
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    Estado das Coisas - Sucata de regime

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    Correio da Manhã
     
    07 Novembro 2009 - 00h30

    Estado das Coisas

    Sucata de regime

    O nosso regime político está a transformar-se numa verdadeira sucata, com ‘sucateiros’ a mais e homens de virtudes a menos. O regime político-partidário, as ligações entre o poder de quem governa e os interesses instalados de certos grupos, as escolhas para os cargos e o tráfico de influências não souberam, ou melhor, não quiseram, adaptar-se aos valores da democracia.
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    Não é a democracia que é má. São os homens deste tempo, na procura dos seus interesses pessoais e particulares, que pouco fazem para melhorar a qualidade da democracia. O que interessa não é a qualidade do regime democrático ou a melhoria da vida dos portugueses mas a qualidade da sua carteira e da sua barriga, que cresce na proporção do crescimento dos seus bolsos. A sucata do regime tem saído vencedora, minando os alicerces do Estado de Direito.
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    As boas práticas, a ética de comportamento, em suma, os valores que enobrecem a democracia, têm perdido esta luta. E a triste realidade é que este lixo tóxico torna quase insustentável a vida em democracia, porque arrasta consigo os outros segmentos da sociedade. Desde a justiça à saúde, ao ambiente, até ao sector financeiro, tudo paga, em decréscimo de imagem e de credibilidade.
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    Mais importante para o País do que os grandes investimentos e obras é salvar o regime, dando um destaque cimeiro aos valores, aos princípios da honra, da probidade e da seriedade. É não permitir que Portugal se transforme num país de ‘sucateiros’, seja no poder político, no governo, na justiça, na banca ou nas finanças. É não permitir que gente séria e honesta seja arrastada nas ‘águas’ deste lixo. É defender o bom-nome dos homens públicos que não se deixam cair nesta tentação. É impor regras claras e rigorosas nos negócios do Estado, designadamente na contratação pública, porque quando o negócio ‘descarrila’ são sempre os mesmos que pagam. É impor um período significativo de nojo a quem sai do Governo ou de outros cargos públicos relevantes, evitando que salte de cargo em cargo, consoante as conveniências. É simplificar as leis, libertando-as das teias burocráticas e complexas que, muitas vezes, só servem para justificar e legitimar o favor do grande homem público, o salvador do negócio. É, no limite, criar regras – consensuais para o cidadão embora não para muitos políticos – de obrigar quem detém o poder público e o utiliza em seu próprio benefício a deixar, de imediato, vago o ‘lugarzinho’.
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    Um regime político que não é de sucata só pode ser implacável com os ‘sucateiros’ do regime. Só assim, para quem ainda acredita na redenção, se pode salvar o homem e melhorar o regime político.



    Rui Rangel, Juiz Desembargador
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    » COMENTÁRIOS no CM on line
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    10 Novembro 2009 - 11h23  | José Faustino
    É preciso coragem e frontalidade. Não desista Sr, Rangel. O seu artigo é demais.
    08 Novembro 2009 - 18h10  | Antonio Noite
    Se a Justiça FUNCIONASSE, tudo resto funcionava. O PROBLEMA está naqueles que fazem a Justiça e naqueles que a aplicam
    07 Novembro 2009 - 19h24  | Moleiro
    A SUCATA E A JUSTIÇA ESTÃO BEM UMA PARA A OUTRA. a SUCATA AINDA SABEMOS O QUE É, MAS A "JUSTIÇA" NÃO!!!
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    Estado das Coisas - As escutas e a impunidade

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    Correio da Manhã
     
    14 Novembro 2009 - 00h30

    Estado das Coisas

    As escutas e a impunidade

    A vida é considerada, por Sócrates e Platão, uma luta contra a apaideusia, a ignorância acerca dos bens supremos da vida. O saber passa a ser a norma maior na busca do Bem, sendo que a realização desses valores deixa de ser tarefa de meras opiniões para dar lugar ao supremo conhecimento a que o espírito humano se pode erguer.
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    Mas se o homem medíocre quiser nada se salva. Se a boa-fé não estiver ao serviço da busca do Bem e dos mecanismos mais puros da interpretação jurídica da norma, é sempre possível afirmar que o artigo 11º do CPP, que prevê um regime novo de autorização de escutas telefónicas quando os visados são o Presidente da República, o presidente da Assembleia da República ou o primeiro-ministro, não é claro.
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    Diz o legislador, com clareza, que compete ao presidente do Supremo Tribunal de Justiça autorizar a intercepção, a gravação e a transcrição de conversações ou comunicações em que intervenham aquelas figuras do Estado. Intervir significa tomar parte voluntária da acção criminosa, interpor a sua autoridade, tornar-se mediador, interceder, ingerir e participar. Logo, só quando estas figuras do Estado são o alvo principal da escuta são os suspeitos de terem praticado crimes, e, por isso, são as figuras centrais da investigação criminal, mas fora do exercício de funções é que a competência é do presidente do Supremo Tribunal de Justiça.
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    Ao dar, nestes casos, uma nova dignidade às escutas, retirando essa competência ao juiz de instrução criminal, não significa que o legislador pretendeu criar uma zona de impunidade. Nenhum destes titulares dos órgãos de soberania política goza de um estatuto de intocabilidade pessoal e absoluta. Quando o escutado não é o primeiro-ministro mas um cidadão comum, é indiscutível que a competência para ordenar a escuta é do juiz de instrução criminal. Ser terceiro na escuta é ser um cidadão igual aos outros.
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    E, sendo assim, nada pode fazer o presidente do STJ. Só são anuláveis ou não valoradas as provas se da escuta tiver resultado algum conhecimento fortuito relativo a um crime de catálogo que envolva o primeiro--ministro.
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    Se assim não fosse estaria aberta a porta para anular qualquer escuta, sendo materialmente impossível ao JIC adivinhar com quem o escutado ia falar.
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    Qualquer tentativa de criar espaços de impunidade da norma mereceria, com certeza, reprovação constitucional. O que aconteceria se, de forma desproporcional, anulassem a escuta, alargando a previsão da norma aos não suspeitos do crime.
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    A verdade que a justiça procura não se compadece com mais golpes. Não culpem, desta vez, o legislador quando o mal está nos frouxos e coxos intérpretes da norma.
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    Rui Rangel, Juiz Desembargador
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    » COMENTÁRIOS no CM on line
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    14 Novembro 2009 - 12h27  | artur mendes
    As Leis deveriam ser como Codigo de Estrada.. não ha equivocos!O mal da Justiça está em que cada cbeça sua sentença!

    Estado das Coisas - Quando a Justiça treme

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    Coreio da Manhã
     
    21 Novembro 2009 - 00h30

    Estado das Coisas

    Quando a Justiça treme

    A história da justiça é negra quando é avaliada pelos resultados e pela eficácia no combate ao crime económico e à corrupção. O sistema de justiça treme e abana todo quando é confrontado com uma investigação criminal em que os visados são gente poderosa e com influência. E treme de baixo para cima e de cima para baixo, dando uma imagem de si própria de medo e de falta de confiança.
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    A justiça e os seus actores não estão preparados para lidar com este tipo de criminalidade, nem têm capacidade ou força para enfrentar gente fina de colarinho branco, para investigar os ‘donos’ do regime democrático. Sim, porque o verdadeiro dono do regime político não é o povo que vota de quatro em quatro anos, mas os partidos políticos com vocação de poder. A lógica clientelar partidária transformou os partidos em oligarquias que se servem do poder para ajudar os amigos, os confrades, a conseguir bons empregos e bons financiamentos. Há muito que o mérito deixou de sero elemento fundamental a ter conta no preenchimento dos bons lugares. E esta teia é tão poderosa e tentacular que, servindo-se dos valores da democracia representativa, já conseguiu, também, contaminar o sistema judicial.
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    A ideia de nepotismo começa a ser aceite, face ao laxismo cívico. Somos o País do faz--de-conta, das aparências e do deixa-andar. O que é preciso é fazer o jeito e não incomodar quem nos governa. E este mal já chegou à justiça. E quando a justiça treme e tem dois pesos e duas medidas, quem salva a República?
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    A qualidade e a eficácia da investigação criminal medem-se pelos resultados obtidos no combate e na repressão do crime económico. Tudo o mais pouco interessa para a transparência e qualidade da democracia.
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    O défice da acção penal, no campo da repressão deste tipo de crimes, o desfasamento dos códigos relativamente a estes crimes, a ausência de uma prevenção corajosa e a morosidade, fazem o resto que falta para esta pálida imagem da justiça.
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    Neste momento difícil na vida dos tribunais, devido a processos como ‘Submarinos’, ‘Sobreiros’, ‘Freeport’, ‘Apito Dourado’, ‘BPN’ e ‘Face Oculta’, era chegada a hora de os juízes dizerem basta. Bastava, que quisessem, exercer as suas competências constitucionais, de forma exemplar e rigorosa, pondo na ordem esta gente que pensa estar acima da lei. Não era preciso invadir as competências atribuídas ao poder político.
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    E, se em vez de tremerem, agissem beme depressa, tinham o cidadão como aliado, reganhando, junto da sociedade, o prestígio e a confiança perdida. A escolha é entre o abismo com morte certa e o paraíso da moral e da ética que nos salva a alma.



    Rui Rangel, Juiz Desembargador
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    » COMENTÁRIOS no CM on line
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    22 Novembro 2009 - 13h19  | A.F.-Londres
    "Gente Poderosa"cito o seu artigo, e aduzo"com Poder Oculto"!Não seja Tão TIMORATO,DIGA:"Maçonaria"!Eles sao o PODER!
    21 Novembro 2009 - 23h27  | A. Almeida
    O Senhor, sim, é um Homem corajoso, honesto e digno. Aceite o meu preito de homenagem!
    21 Novembro 2009 - 11h31  | sila
    O Estado está doente.O diagnóstico é óbvio. Para o tratar não é preciso um médico. Basta um curandeiro.
    21 Novembro 2009 - 08h50  | Vila/Lordelo
    Justiça...Como chamar de justiça?A velha desculpa esfarrapada do costume,a culpa é do poder político!!! 
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