por Miguel Carvalho
entrevistado por Nuno Ramos de Almeida Vivemos em democracia, mas também vivemos numa mentira. A nossa memória histórica foi amputada de muito do que se passou. O jornalista Miguel Carvalho escreve um livro,Quando Portugal ardeu [1] , em que se resgata parte da história de Portugal. Nestas quase 600 páginas ficamos a saber que nos venderam um conto de fadas em que os maus vermelhos e totalitários foram derrotados por um grupo de pacíficos democratas impolutos e respeitadores da liberdade. Por baixo do tapete ficaram escondidos anos de terror e mais de 560 ataques da "rede bombista", que aterrorizaram os militantes pró-revolução e mataram muita gente.Depois de escrever este livro, acha que vai ter problemas? (Risos) Confesso que tenho pensado bastante nisso, pelo seguinte: uma das pessoas com quem eu tentei falar para este livro foi Ramiro Moreira. Recusou. Eu não fiz o contacto direto com ele, usei uma cunha de uma pessoa muito próxima dele, e ele, quando ouviu falar do meu nome, disse: "Eu não falo com esse filho da puta." Ele tinha-me processado há uns anos por causa do Apito Dourado, por eu ter referido num texto as suas ligações ao Valentim Loureiro. E processou-me, não por eu ter feito referência a esse negócio, mas por lhe ter chamado bombista. Obviamente, acedi a muita documentação sobre ele, cartas pessoais e elementos dos processos, mas queria falar com ele. Acedeu à gravação da sua confissão? Sim, já a conhecia, o Diário de Lisboa publicou-a na altura e agora ouvi-a. Tem havido uns zunzuns de pessoas que já leram o livro, dos vários lados da barricada, que me têm telefonado a dizer: "Eh pá, se calhar, na sessão de apresentação é melhor ter cuidado", mas confesso que não tenho levado muito a sério. Esses operacionais da altura já devem estar velhinhos e com alguma dificuldade de locomoção, mas há um conjunto de interesses ligados à "rede bombista" que são revelados e postos a nu no seu livro. Há uma série de coisas que nunca tinham sido reveladas. Para este nível de pormenor que o livro revela contribui o facto de muita gente ter falado, passado mais de 40 anos, e a muita documentação consultada. As recusas de gente para falar para o livro mostraram-me que o assunto ainda está quente. Tive três tipos de recusas: a primeira foi do género de contactar o advogado x ou a figura y, pessoa que esteve bastante envolvida a nível processual no julgamento da "rede bombista" e que agora diz que não lhe convém nada, porque é advogado de empresas conhecidas, ser lembrado como advogado das forças de esquerda. Segundo tipo de recusa, mais expectável, é do género: "Eh pá, não me meta nisso porque os meus filhos estudam na universidade z, não sabem o que o pai fez e não quero ser associado a isso." E a terceira recusa, que vai ao encontro da sua pergunta: "Não me meta nisso porque isto foi no século passado, mas não foi assim há tanto tempo, em termos temporais foi ontem, e ainda há muita gente que sabe fazer as bombas, portanto deixe-me em paz." Uma coisa que se percebe no seu livro é que, para além de Joaquim Ferreira Torres [empresário ligado à rede que foi morto a tiro quando seguia ao volante do seu Porsche vermelho, em 21 de agosto de 1979], se percebe que ao longo dos anos houve bastante gente que desapareceu de forma misteriosa. Nomeadamente, alguns operacionais da FLAMA [movimento independentista de extrema-direita da Madeira] que apareceram, como eles gostam de dizer, "suicidados", e o Ferreira Torres, de que fala. Este é um caso que ficou sem conclusão, apesar de, na fase final da investigação, com os cacos deixados por investigações policiais anteriores direcionadas para que nada se soubesse, se terem conseguido algumas pistas. Na parte do livro sobre o ex-coronel Ferreira da Silva [que dirigiu as investigações à "rede bombista"], ele relata uma conversa que teve com um elemento do esquadrão Chipenda [grupo ligado à FNLA - Frente Nacional de Libertação de Angola, que estava em guerra com o MPLA e, em Portugal, associou-se a atos de violência da extrema-direita e da "rede bombista"] que lhe diz, numa boate, que foram eles que mataram o Ferreira Torres por uma questão de dinheiros. Ele também interpreta como uma ameaça a abordagem, salvo erro no Tamila, de quem diz: "Sabemos quem tu és e sabemos como te encontrar." As duas coisas. Ele sabe que é isso, mas também dá crédito à informação. Fica convicto de que lhe estão a contar a verdade, fruto das várias histórias que sabia e investigou. Ele meteu a mão na massa e sabia bem o que tinha um fundo de verdade. Aquilo também foi uma forma de o avisar e de lhe dizer: "Aquilo foi tão perfeito, já sabe o que lhe pode acontecer." Eu consultei o processo Ferreira Torres e muita papelada ligada à matéria, e nunca vi nesses documentos uma afirmação tão direta sobre o motivo eventual do crime. Insinua-se em muitos lugares sobre os negócios e o dinheiro que teria ido para a "rede bombista" à sombra do MDLP [Movimento Democrático de Libertação de Portugal, juntamente com o ELP - Exército de Libertação de Portugal, a principal organização política da rede, dirigida pelo, na altura, general no exílio António de Spínola]. Mas nunca se fala claramente, nessa conversa, sobre as fortunas que ajudou a passar para Espanha e os valores e negociatas à sombra da organização terrorista. Com tudo isso, não é difícil de imaginar que esse elemento do esquadrão Chipenda estivesse a falar verdade quando confessou que Joaquim Ferreira Torres tinha sido morto por causa de "negócios mal resolvidos". Uma das coisas que não são totalmente novidade, porque já era revelada no livro "A Descoberta de Uma Conspiração", do jornalista Günter Wallraff [2] , é a promiscuidade entre os "democratas" do atual regime e os bombistas: eles eram uma espécie de plano B dos "democratas". É precisamente este lado sombrio da história que é importante. Embora eu tenha consciência de que não é este livro que o consegue revelar. Eu tenho um ponto de vista e não abdico dele: quero provar, sem nenhum tipo de ajuste de contas, que a narrativa oficial diz que estivemos à beira de uma ditadura de esquerda quando estivemos muito mais próximos de um golpe de extrema-direita. A direita não foi tão ordeira e civilizada como hoje nos querem fazer crer. Há muito mais gente assassinada pela "rede bombista" do que pelas FP25. Estamos cansados de ouvir que o 25 de Novembro foi o princípio da "normalidade democrática" quando os atentados mais mortais da "rede bombista" foram depois dessa data e já corria o ano de 1976. Ninguém dá resposta para isso. A única coisa que nos pode valer é a confissão do Ramiro Moreira, em agosto de 1976, em que ele diz para um gravador: "Interessava que continuasse a haver bombinhas." Porque havia uma série de frustrados com a independência de Angola e porque os comunistas continuavam a existir. Duas das coisas que essa gente assumiu como os objetivos do seu combate, impedir a independência de Angola e liquidar os comunistas, não tinham acontecido. Não era também uma espécie de chantagem das almas negras para os novos donos do poder e seus anteriores cúmplices? Onde quer chegar? Há setores do CDS, PSD e até PS que aparecem, no seu livro, a colaborar e a apoiar a "rede bombista". Coloca no seu livro um chefe da segurança do PS, preso por causa das chamadas armas de Edmundo Pedro [armas dadas pela direita militar e o Grupo dos Nove ao PS] a dizer na cadeia ao Ramiro Moreira: "Cala-te senão ainda apareces morto." Eu não sou ingénuo, mas confesso que o grau de envolvimento de setores do PS com a "rede bombista" é muito maior que eu imaginava. Setores ou implica a própria direção? Há zonas do país em que as diretrizes do PS não são seguidas. Se, em Braga, o dirigente da distrital do PS é um dos grandes organizadores da manifestação da Igreja [que acaba com o assalto e incêndio da sede do PCP], há outras pessoas, como um dirigente do PS de Viana do Castelo, que se recusam a cumpri-las. Esse dirigente demite-se porque não quer obedecer a uma ordem do Largo do Rato sobre um envio de armas. No seu livro até há um bombista a dizer que colocou um petardo na sede do PS do Largo do Rato, no dia do debate televisivo com o Cunhal, a mando do próprio Partido Socialista, para se vitimar. E quem acaba por indultar o Ramiro Moreira não foi o Eanes. Pois não. Foi o Soares. O próprio julgamento da "rede bombista", a própria forma como o julgamento terminou deve muito às manobras do governo PS da altura. Não me custa nada fazer minhas as palavras do advogado Levy Baptista de que o julgamento da "rede bombista" foi uma farsa. Aquilo ter ido para o fórum militar foi uma forma de condicionar uma data de coisas; o papel de Almeida Santos nesse assunto está por esclarecer; o próprio papel de Mário Soares não é claro. Relembro que, depois dos acontecimentos em Rio Maior [manifestação, a 13 de julho de 1975, que culminou em assaltos às sedes do PCP e FSP], Soares faz um comício em Rio Maior em que diz, "Era bom que este exemplo fosse seguido em várias zonas do país", e a Igreja aproveita logo as declarações em várias dioceses. Uma coisa espantosa, mesmo conhecendo bem a documentação desse período, são as coleções do Diário do Minho [jornal de propriedade da Igreja], que quase chegam a ser uma espécie de Ação Socialista daquele período: abundam fotos e elogios ao Mário Soares. Outra coisa impressionante no seu livro é a dimensão de guerra suja, com operações de provocação que podiam ter custado centenas de vidas, como da vez em que pediram a Ramiro Moreira para colocar 100 quilos de explosivos no Santuário de Fátima para depois acusarem os comunistas do massacre. Não tenho dúvidas de que é verdade. Acho que quando o Ramiro Moreira é genuíno é quando foi ouvido, poucas horas depois de ser detido, não é quando em 1991 é indultado e reescreve a história, e diz que têm de lhe erguer uma estátua porque ele lutou pela democracia. Ele é verdadeiro quando está assustado e está convencido de que, "abrindo o livro", pode ser salvo. É muito curioso o facto de ter sido o próprio Sá Carneiro, de quem Ramiro Moreira tinha sido guarda-costas, a expulsá-lo do PSD, dizendo: "Eu não posso ter um bombista no partido". Francisco Sá Carneiro não era um líder político como os de hoje, que são completamente viciados no aparelho. Soares também não era viciado no aparelho e tinha um historial impressionante... Havia uma diferença entre os dois na forma como ligavam com a estrumeira dos respetivos aparelhos. Sá Carneiro, quando começa a saber do envolvimento de certas figuras do PSD, nomeadamente Ramiro Moreira, que não era só segurança, era militante número 7 do partido, tinha feito parte da comissão política distrital do Porto, tinha sido levado ao colo por Mota Freitas, essa figura altamente protegida pelos militares... Quando Sá Carneiro chama Ramiro Moreira a casa e lhe diz, "Meu amigo, ou entregas o cartão ou és expulso", isso é uma tentativa, admito que já desesperada, de que o partido não resvale par aí. Podemos discutir se o conseguiu ou não, até porque o PPD aparece envolvido em muita coisa. Já os militantes do CDS aparecem bastante envolvidos, são eles que fazem grande parte das ligações, em algumas regiões, da Igreja com a "rede bombista". Basílio Horta chega a reunir com os responsáveis da Igreja, que lhe dizem o que estão a fazer. Claro que ele, depois, diz que não alimentaram isso, mas ele sabia o que estava a ser preparado. Espantoso, para mim, é o grau de envolvimento dos setores do PS nisso. O que me leva a tirar a conclusão de que – não sou o primeiro a tirá-la – o Partido Socialista se aliou a tudo para combater o PCP. Os contactos de Günter Wallraff, a fingir de traficante de armas, com Spínola para armar um golpe de Estado de extrema-direita são posteriores ao 25 de Novembro? São anteriores. Quando Wallraff vem a Portugal, ainda os Corrécios [bando liderado por Eduardo Oliveira que cometia grande parte das agressões e atentados contra militantes de esquerda na zona de Braga] estavam em liberdade. Aliás, o primeiro contacto que Günter Wallraff diz ter com alguém da "rede bombista" é uma conversa que tem, por acaso, com um homem com um cão que é o próprio líder dos Corrécios. Alguns pormenores do livro do jornalista alemão podem ter sido romanceados mas, no geral, ele é rigoroso. Na altura, o semanário O Jornal foi conferir os dados do livro e concluiu que eram verdadeiros. Há vários elementos do ELP e do MDLP que vêm confirmar que o livro acertava em cheio. Quando me perguntam como era possível os bombistas, como os Corrécios, irem gabar-se dos seus atos para os cafés, eu respondo: muito facilmente, grande parte do país era anticomunista e era fácil fazê-lo sem nenhuma consequência. Um dado desconhecido pela maior parte das pessoas é a cumplicidade de membros do Conselho da Revolução com a "rede bombista". Tanto o Canto e Castro como o Vítor Alves sabiam o que estava a acontecer e quem eram as pessoas que estavam por detrás dessas ações. O Vítor Alves "aterrou" várias vezes em casa do Joaquim Ferreira Torres. Aliás, há um frase do Joaquim Ferreira Torres, quando o vê na televisão, que diz: "Este filho da puta veio tantas vezes jantar a minha casa e comer o meu fumeiro e, afinal, não fez nada do que se comprometeu." Para além de tudo isso, está também por esclarecer o papel de Ramalho Eanes em tudo isto. Mas ele parece ter infletido uma eventual cumplicidade. O grau de ódio que Ramiro Moreira manifesta contra Eanes é um pouco indicador disso. Até no seu livro, o coronel Ferreira da Silva fala elogiosamente do grau de distanciamento que Eanes teve com as investigações quando era Presidente. Mas o grau de compromisso dele com tudo o que ardia é muito maior do que se pensa. Lê-se em vários documentos e em depoimentos de várias pessoas que há muita gente que suspeita do seu envolvimento. O próprio Álvaro Guimarães, diretor da Polícia Judiciária do Porto, afirma que um dos objetivos do Eanes foi colocar um espião na PJ para controlar os movimentos da Judiciária e saber o que a investigação sabia. ... Lencastre Bernardo. Sim. Não falou com Ramalho Eanes? Não, e confesso que não tentei. O objetivo do livro era sobretudo ouvir uma data de gente que, apesar de não ser conhecida, tem mais coisas a dar. Quando eu digo que não acho que haja um esclarecimento total do seu envolvimento naquele período, não penso que fosse conversando com ele que isso se conseguiria apurar. Acho que seria mais importante ouvir pessoas que estiveram com as mãos na massa, investigaram e produziram muita documentação. Mas o seu livro acaba por ficar na mesma situação em que ficaram as investigações judiciais: os executantes da arraia miúda foram apanhados e logo libertados, os mandantes foram falados mas permaneceram intocados, e quem politicamente estava por detrás nunca foi incomodado. Essa situação resulta de uma estratégia intencional por parte do poder. Para conseguir que as coisas não se saibam. Quando eu, para fazer este livro, me deparo com a proibição de aceder a alguns arquivos, isso tem o objetivo de conseguir que muita coisa fique escondida. Assiste-se a uma privatização da memória pública. Tudo isso é feito dentro da lei, mas se eu quero consultar o processo de Eduardo Corrécio, que foi condenado a dois anos e meio de prisão por posse de armas – e tudo o que foi dito naquele julgamento é importante para perceber o grau de cumplicidade daquele gangue com aqueles movimentos e os responsáveis políticos –, esse processo é-me negado com o argumento de que ou é autorizado por ele ou, caso ele tenha morrido, a família tem de autorizar. De modo que espero sentado. Isso é legal, o processo não tem de ser público? Eu acho que sim, mas está protegido. Como está protegido o depoimento prestado por Ramiro Moreira a uma das comissões ao acidente/atentado de Camarate. O depoente só aceitou fazer o depoimento quando lhe garantiram que nunca seria tornado público. Se pedir à Assembleia da República, a resposta que lhe vão dar é que o Ramiro tem de autorizar. Aliás, há muitas atas dessa comissão que são impossíveis de conseguir. Isto é tudo formalmente legal. Mas, para mim, isso é uma privatização da memória pública. Legitima que se possa pensar que isto não é por acaso: se calhar, sabendo-se tudo sobre a "rede bombista", algumas biografias vão ficar desfocadas. Já teve algumas reações? Há muitas. Gente que leu e ficou impressionada com o grau de envolvimento de parte dos políticos nestes acontecimentos, mas ameaças e outras coisas não me têm feito chegar. Bastante mais calmo do que seria há alguns anos. Conseguiu falar com os Corrécios? Mais uma vez, houve a possibilidade de falar com o Eduardo Corrécio, mas eu obtive muita documentação sobre o processo e sobre as investigações, e não insisti porque, mais uma vez, não tinha qualquer garantia da fiabilidade dos depoimentos que conseguisse obter. Confio mais naquilo que foi dito na época do que na reescrita que fizeram depois. O Ramiro Moreira é um bom exemplo disso: eu li todas as entrevistas que ele deu, li muita documentação, cartas pessoais, coisas que nunca vieram a público, elementos do processo, e isso é bastante mais fiável do que a reescrita que ele faz da história e da sua participação nesses acontecimentos que fez nas suas últimas entrevistas. E o Ramiro Moreira terá lido o livro? A única coisa é que o Ramiro Moreira ligou a um camarada de profissão que escreveu sobre o livro, dizendo, indignado, como é que essas coisas serão lembradas. Terá dito que não fez só coisas boas, mas porquê só lembrar coisas desse período. Não passou disso. O próprio depoimento do José Silva Santos no livro é um pouco exemplo deste estado de espírito: um homem que, no âmbito daquele processo, desmente tudo aquilo de que o acusam e, 40 anos depois, confirma tudo: "Sim, o carro foi armadilhado aqui, eu até fiz a ponte com a Igreja." Agora, há outros, como o cônsul dos EUA no Porto, que, pelo seu depoimento, ficamos a saber que ele só organizava chás e sessões de relações públicas, e que nunca viu um espião da CIA... O homem que está no centro do furacão e que garante que a sua vida não passava de jogar golfe. Mas é importante o seu depoimento estar aí. É o relato de alguém que tenta reescrever o sucedido, como quando ele diz que isto tudo não passou de uns tipos a baterem com o guarda-chuva na cabeça uns dos outros.
12/Abril/2017
[1] Miguel Carvalho, Quando Portugal ardeu , Oficina do Livro, 2017, 560 p., ISBN: 9789897416675 [2] Günter Wallraff, A descoberta de uma conspiração , Bertrand, 1976, 242 p. O original encontra-se em ionline.sapo.pt/558127
http://resistir.info/portugal/quando_portugal_ardeu.html
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Quinta da Atalaia, Seixal. Quem atravessou o Rio Tejo entre os dias 4 a 6 de setembro e chegou a 33ª Festa do Avante!, organizado pelo Partido Comunista Português, para sustentar seu jornal, o semanário Avante!, pôde conhecer uma Cidade do Sol. Muito parecida com aquela idealizada por Tommaso Campanella no século 16, ali brilhou por três dias um sol radioso, exceto quando deu lugar a uma lua que iluminava quase com a mesma intensidade.
Por Kerison Lopes, de Lisboa
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Parece que o sol havia respondido ao chamado da música Avante Camaradas. A canção que tem letra de Luís Cília e foi imortalizada pela voz de Luísa Basto, quando ambos estavam exilados pela ditadura de Salazar, era tocada o tempo todo na Festa. Avante Camarada, junte a tua a nossa voz. Avante Camarada, o sol brilhará por todos nós, dizem os versos que cada militante comunista conhece bem, pois viraram o hino da resistência e depois da própria Revolução dos Cravos. Aliás, a revolução que libertou Portugal da ditadura este ano completou 35 anos e foi muito saudada no evento.
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Cidade comunista
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A Festa do Avante! acontece em um terreno adquirido pelo PCP, onde é construída uma verdadeira cidade de alvenaria, plástico, ferro e muita garra comunista. O trabalho militante de cerca de 7.500 membros e amigos do PCP somou mais de 50 mil horas de trabalho para projetar, arquitetar construir e edificar um município com centenas de milhares de pessoas. Em três dias, toda essa gente se encontra em espetáculos, exposições, artes plásticas, artesanato, Feira do Livro e do Disco, gastronomia, esporte, Espaço Criança, Novas Tecnologias, Espaço Ciência, Espaço Internacional e Debates Temáticos sobre os mais variados temas.
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Depois dos dias intensos, a Festa terminou em uma grande nuvem de poeira. Após Seyne Torres, que falou em nome da Juventude Comunista Portuguesa, declarar “oficialmente encerrada a Festa do Avante!”, os alto-falantes tocaram A Carvalhesa e os milhares de jovens, alguns com mais de oitenta anos, como Maria Alves, começaram a pular e dançar, levantando muita poeira. A música é um tema popular português que em 1985, por iniciativa do PCP, foi objeto de um arranjo instrumental e desde então transformou-se num símbolo musical da Festa, abrindo e encerrando os seus palcos.
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O PCP não divulga oficialmente o número de participantes da Festa, mas o que se via no Comício de Encerramento era um mar de gente em frente ao palco principal. Dezenas de milhares de comunistas e participantes da Festa em geral. Naquele encerramento, o secretário geral do PCP, Jerônimo de Sousa, afirmou que a Festa será sempre a “Festa da cultura, da amizade, da fraternidade e da solidariedade internacionalista. Uma festa que é um enorme abraço solidário entre todos aqueles que por esse mundo afora travam, nas mais diversas condições, importantes lutas pelo presente e o futuro dos trabalhadores e dos povos, e da própria humanidade”.
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Eleições
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O Comício de encerramento é tido pelos comunistas como o “momento mais marcante”. Como a edição deste ano acontece quando faltam três semanas para as eleições legislativas e pouco mais de um mês para as autárquicas, o discurso de Jerônimo de Sousa teve um grande apelo para a importância do voto na CDU (Coligação Democrática Unida, formada pelo PCP e o PVE, Partido Ecologista os Verdes). “Este momento é uma oportunidade para mudar o rumo do país e a vida de muitas das nossas terras, dos nossos concelhos e freguesias”.
A América Latina mereceu uma saudação especial de Jerônimo, quando agradecia a presença das delegações internacionais. Para ele, o povo latino-americano é protagonista de uma “onda progressista que varre o continente, de intensas e apaixonantes lutas, de processos novos que desbravam novos caminhos na construção de sociedades mais justas, solidárias e fraternas”. No comício de encerramento falou também José Casanova, do Comitê Central do PCP e diretor do Jornal Avante!, além de Seyne Torres, da JCP.
A Festa continua
Quem achava que a Festa terminava com aquele Comício, se assustou ao chegar no Espaço Internacional, que tinha bem na entrada os stands do Partido Comunista do Brasil de uma lado e do outro o Partido Comunista da Espanha. A mesma Carvalhesa era tocada e uma multidão de jovens pulava e dançava regada a muita Caipirinha. Aquela cena se repetiu durante os três dias. O local foi o mais concorrido do Espaço Internacional, que contou com stands de 23 organizações, das 43 que prestigiaram a Festa.
O espaço ganhou o nome de Esquina Brasileira, em homenagem aos botecos de esquina de Minas Gerais, terra natal dos que construíram e trabalharam naquele stand, além claro, da localização geográfica em forma de esquina. De um lado ficou a loja do PCdoB, do outro o Bar do Brasil, que servia caipirinha, caipifrutas, angu à baiana, bobó de camarão, caldo de feijão e de frango. Além dos brasileiros, trabalharam intensamente todos os dias militantes do PCP destacados para auxiliar no stand do PCdoB. Coordenados por Nuno Gonçalves, nove portugueses ali estiveram, a maioria da sua própria família, que tem na sua tradição a militância comunista.
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Presença do PCdoB
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O stand Político do PCdoB se tornou a grande novidade do Espaço Internacional. Foi o mais procurado e comemorado pelos comunistas e portugueses em geral, além de ser o ponto de encontro de mais de uma dezena de comunistas brasileiros que estavam “perdidos” pela Festa.
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Nas décadas anteriores o PCB representava o Brasil e há 16 anos o PT participa oficialmente da Festa. Este foi o terceiro ano que o PCdoB participa e o primeiro em que teve um stand exclusivamente político. Este foi um fato comemorado pelo PCP, pois apesar do respeito com o PT, a solidariedade entre os comunistas é a de partidos irmãos. Além disso, muito se ouve na Terrinha sobre o crescimento e as vitórias acumuladas pelo PCdoB. Aquele foi o momento destes desfazerem suas dúvidas. As perguntas mais frequüentes eram em relação a opinião dos comunistas sobre “o governo de Lula da Silva”, “a diferença do PCdoB com o PCB”, “o número de filiados e de parlamentares do partido”.
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Centenas de bottons do Partido foram vendidos, assim como camisetas feitas especialmente para a Festa. Muitos materiais impressos foram adquiridos pelos portugueses, como as teses do 12o Congresso. Os materiais mais procurados diziam respeito a brasileiros admirados na Terrinha. Cartazes de Luis Carlos Prestes, pintado por Candido Portinari, esgotaram ainda na sexta-feira, assim como a obra de Portinari sobre a Coluna Prestes e sua pintura O Patriarca com o rosto de José Bonifácio, que foi um dos heróis da resistência portuguesa contra a invasão napoleônica e é um dos cem mais importantes cientistas de Portugal.
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Os portugueses também demonstraram sua admiração por Oscar Niemeyer. A revista Princípios que o trouxe na capa com uma entrevista exclusiva e fotos de suas obras esgotou-se rapidamente. A feliz coincidência da atual edição da Princípios expor na capa um desenho de Álvaro Cunhal trouxe grande procura. O histórico secretário geral do PCP é dos mais adorados por todos os portugueses e além de ser um dos principais nomes do comunismo internacional com vasta obra teórica, era também artista plástico e escritor, deixando clássicos da literatura como Até Amanhã Camaradas e Cinco Dias, Cinco Noites, todos assinados com o pseudônimo de Manoel Tiago, por serem lançados no período da ditadura de Salazar.
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A participação brasileira se deu também no debates. No Palco da Solidariedade do Espaço Internacional, o PCdoB participou na tarde do domingo de uma discussão sobre “A crise do capitalismo, repressão e militarismo” ao lado do representante do Partido Comunista da Grécia e do Partido Socialista da Letônia. Centenas de pessoas acompanharam atentamente as idéias comunistas dos brasileiros, representados ali por Ricardo Abreu, membro do secretariado do Comitê Central do PCdoB.
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A Festa da Juventude
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Um dos aspectos que mais chamou a atenção é na Festa a presença da juventude. São milhares deles, andando quase sempre em bandos. “Uma festa que a juventude tomou como sua”, justifica Jerônimo de Sousa. Quando ainda faltavam dois dias para a abertura dos portões, uma enorme fila já se formava com jovens que queriam conseguir um bom lugar no acampamento montado para abrigá-los.
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Foi a juventude que protagonizou um dos momentos mais bonitos nestes 33 anos de Festa, pelo menos na opinião do militante Joaquim do Carmo, que participou de todas elas. “O ponto mais alto cultural destes anos todos foi ver mais de 50 mil pessoas, a maioria jovens, cantar e se emocionar com a “ópera apresentada no primeiro dia, aquilo é algo inédito em Portugal”.
Se é “algo inédito em Portugal”, para o observador brasileiro aquilo desperta mais interesse ainda. Foi uma cena sem igual. Na grama em frente ao palco principal, dezenas de milhares de jovens deitados com roupas e cabelos que lembravam o Festival de Woodstock. Além da poeira que levantava, o cheiro de cigarro lembrava ainda mais o Festival nos Estados Unidos que marcou gerações. Para completar as similaridades, no palco era cantada uma das músicas símbolos de Woodstock, Summer Time, a canção composta por George Gershwin em 1935. As coincidências param por aí, pois se no festival norte-americano a música ficou imortalizada por Janis Joplin, quem entoava os acordes na Festa do PCP era a soprano portuguesa Ana Paula Russo, acompanhada de um coral e de mais de cem músicos de uma orquestra sinfônica comandada pelo maestro japonês Kodo Iamagishi.
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Vermelho
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Dizer que trabalha para o portal Vermelho abre muitas portas do outro lado do Atlântico. Fica fácil entender porque Portugal é um dos países país que mais acessam o portal. Os que procuravam o stand do PCdoB sempre se referiam a ele. Além disso, nas andanças pela Festa era só se identificar como brasileiro para não raro alguém se referir ao portal do galo.
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Foi o caso do encontro com Margarida Martins, militante do PCP na região da Amadora. Ela cuidava das vendas do stand central e se disse leitora assídua. “Leio sempre o Vermelho, principalmente para me informar das questões da conjuntura brasileira e da América Latina. Não só da sua região, pois acompanho e gosto muito das análises que surgem sobre a realidade chinesa”. “Mesmo quando não estou lendo o Vermelho me deparo com ele”, brinca a comunista. “Quando faço uma procura de algum assunto no Google, sempre digo: 'Lá vem o Vermelho de novo'”, conta rindo Margarida, que elogiou bastante as últimas mudanças no portal. “Agora posso deixar meus comentários”.

