A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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segunda-feira, maio 14, 2007


Mulheres políticas, lutadoras antifascistas

Uma leitura de Mulheres em Tempos Sombrios. Oposição Feminina ao Estado Novo, por Vanda Gorjão.

* ISABEL ALMEIDA SANTOS

Professora e mestranda no Mestrado em Estudos sobre as
Mulheres da Universidade Aberta.

Quando se fala de resistência à ditadura do Estado Novo a todos ocorrem expressões como clandestinidade, exílio, prisioneiros políticos, mas poucas vezes tais palavras se associam a sujeitos femininos. A obra de Vanda Gorjão, Mulheres em Tempos Sombrios. Oposição Feminina ao Estado Novo (1), dá-nos a conhecer mulheres que se destacaram pela sua acção política durante os anos da ditadura. Quem foram e como viveram essa situação? Que papel desempenharam?

Vanda Gorjão responde a estas questões baseando-se nos percursos (pessoais e políticos) de lutadoras como Alda Nogueira, Cesina Bermudes, Irene Cortesão, Isaura Silva Borges Coelho, Maria Barroso, Maria Elvira Cortesão, Maria Eugénia Varela Gomes, Maria Fernanda Silva, Maria Isabel Aboim Inglês, Maria Lamas, Stella Piteira Santos e Virgínia Moura, entre outras. Entre 1945 e 1960, criaram movimentos ou pertenceram-lhes, foram perseguidas pelo regime de Salazar e estiveram, na sua maioria, nas prisões da PIDE.

A oposição feminina desenvolveu três tipos de luta: a das camponesas e operárias - responsáveis por protestos, greves, marchas; a das "companheiras" - que trabalhavam nos bastidores da clandestinidade comunista, mantendo, em "casas" do partido, como forma de apoio ao trabalho clandestino, a fachada de uma vida familiar normal; e a das intelectuais - responsáveis por uma oposição ideológica de elite.

Quanto às últimas, objecto do estudo de Vanda Gorjão, pertenciam a meios privilegiados da aristocracia, burguesia ou classe média urbana, e a círculos sociais e culturais de acesso restrito: nomeadamente, famílias liberais, republicanas, socialistas, comunistas ou anarco-sindicalistas. Isso garantir-lhes-ia visibilidade social e certa protecção em momentos problemáticos de perseguição e encarceramento. O que não diminui o valor da coragem física e psicológica revelada.

Primeiros confrontos

Algumas primeiras rebeldias, logo no liceu, apontam já para uma aguçada reflexividade e consciência de (in)justiça.

Irene Cortesão escreveu uma carta à reitora, em nome da mãe e com o desconhecimento desta, afirmando não concordar que a filha (na realidade, a irmã, Elvira Cortesão) frequentasse a Mocidade Portuguesa Feminina (MPF). Isaura Borges Coelho, a meio de uma cerimónia religiosa importante, entrega o emblema da Juventude Operária Católica ao bispo, afirmando que tinha deixado de acreditar em Deus. Maria Fernanda Silva chegou a ser chefe de quina da MPF, mas foi expulsa no 4º ano por se recusar ir a uma procissão.

A partir da década de 40 e, sobretudo, a partir da de 60, as raparigas começaram a aceder à universidade em grande número, mas as suas expectativas escolares e profissionais dependiam de um cenário de domesticidade: casa, marido, filhos. A maior parte das mulheres que estudavam, sobretudo as de Letras, desapareciam no 2º ano do curso, porque casavam. As estudantes oposicionistas, na sua maioria, seguiram percursos científicos, embora as saídas profissionais acabassem por direccioná-las no sentido da feminização, ao enveredarem pelo ensino. De igual forma, não escaparam ao cenário de domesticidade.

Os anos da universidade revelavam-se "preponderantes no sentido de impulsionar e ampliar, na prática, manifestações, actividades e tarefas de carácter oposicionista, mesmo para aquelas que tinham iniciado o envolvimento político no liceu, como Alda Nogueira e Virgínia Moura" (2). Maria Barroso convive, na faculdade, com um grupo fortemente politizado, onde conheceu Mário Soares; Maria Fernanda Silva foi convidada por um colega para integrar o Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF) e participar em reuniões em casa do professor Bento de Jesus Caraça - pouco depois aderia ao PCP.

Perseguição profissional e política

A profissão colocou-as em contacto com a ideologia político-social do salazarismo, a qual repudiaram, o que acabou por fortalecer as tendências oposicionistas.

Maria Eugénia Varela Gomes, assistente social, apercebeu-se da "instrumentalização do Estado Novo sobre as assistentes sociais como apaziguadoras de descontentamentos, simulando resolver problemas, mas tomando como natural a hierarquia entre grupos sociais e a divisão entre ricos e pobres" (3). Abandonou o serviço social por recusar pactuar com o regime. Isaura Borges Coelho liderou a luta das enfermeiras no sentido de contrariar a lei que as impedia de casar. Esteve presa. Foi-lhe apreendido o diploma. Não conseguiu colocação e esteve quatro anos sem exercer enfermagem. Maria Lamas, redactora da revista Moda e Bordados desde 1929, e sua directora desde 1938, foi afastada do lugar na sequência da Exposição de Livros Escritos por Mulheres, organizada em 1947 pelo Conselho Nacional de Mulheres Portuguesas, ao qual presidia. A Cesina Bermudes foi recusada, por motivos igualmente políticos, a sua entrada como professora efectiva na faculdade de Medicina, embora se tivesse doutorado com 19 valores. Maria Barroso foi demitida do Teatro Nacional, em 1948, como sanção política.

Muitas destas mulheres passaram pelos calabouços da PIDE, uma ou mais vezes. Veja-se o quando e o porquê de alguns casos: Maria Isabel Aboim Inglês, em 1946, por distribuir exemplares de um documento do Movimento de Unidade Democrática (MUD); de novo em 1958, por desrespeitar o tribunal ao afirmar que "quem não presta declarações na polícia é digno de admiração por ser amante da liberdade" e, também, por louvar o PCP ao proceder dessa forma (4). Maria Lamas, pela primeira vez, em 1949, por ter assinado um documento de protesto contra a prisão de José Morgado e diversas vezes, após essa data, por participar em congressos internacionais pela paz e pelos direitos das mulheres. Virgínia Moura, em 1949 - a PIDE ia à sua procura sempre que se aproximava uma data comemorada pelos antifascistas ou sempre que havia agitação política. Isaura Borges Silva Coelho, no seu julgamento, em 1953, denunciou as duras condições em que as enfermeiras trabalhavam nos hospitais, acusou a polícia de infligir torturas morais e físicas aos presos, deu relevo ao MUD Juvenil e protestou contra o facto de as enfermeiras não poderem casar. Stella Piteira Santos, em 1962, sob a acusação de estar envolvida em actividades que visavam a alteração da constituição por meio da rebelião armada - quando do fracassado golpe de Beja, ela é que conduziu Humberto Delgado de Lisboa até ao Porto Alto, onde se encontrava o carro que o levaria a Beja. Maria Eugénia Varela Gomes, em 1962, também por tentativa de alteração da constituição por assalto à mão armada. Depois da libertação, em 1964, empenhou-se na formação da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. Alda Nogueira esteve na clandestinidade 10 anos, até ser presa em 1959. Esteve presa 9 anos e 3 meses.

Na altura da prisão e condenação assumiram frontalmente as suas posições políticas. O que diziam em tribunal era uma forma de protesto, de se fazerem ouvir publicamente. Era provavelmente o único espaço em que, pela especificidade do processo de defesa, lhes era permitido dizer oficialmente o que pensavam do regime.

Género e acção política

Não é possível ignorar que a oposição feminina foi condicionada pela pertença de género. Maria Fernanda Silva afirma claramente que parecia mal as mulheres andarem na política. Diz, em Beja, muita gente achava que era uma coisa muito má andar metida naquelas coisas, a falar com homens, etc., porque as meninas não faziam política, isso era coisa de homens, e se fizessem devia ser só em coisas femininas. Os próprios maridos metidos nas coisas não gostavam muito que as mulheres também andassem nessas andanças, porque as mulheres até podiam estar empregadas, mas metidas na política não. As mulheres eram muito coagidas por muitas coisas, os pais, os maridos, os namorados (...) (5).

Maria Barroso, por exemplo, participou nas reuniões de fundação do Partido Socialista, mas, apenas, quando o marido não estava presente (6).

Veja-se, ainda, o caso do PCP. Na composição interna do partido as mulheres estavam em minoria, para além de que o seu nível político e preparação ideológica eram baixos. As militantes, na maioria camponesas e operárias, raramente tinham a escolaridade mínima. Seguindo Cândida Ventura, citada por Vanda Gorjão, houve um período em que as mulheres se ocupavam "exclusivamente dos trabalhos doméstico e de vigilância. Não liam a imprensa nem sequer a do partido" (7).

Por volta de 1947, o partido considera fundamental valorizar a formação das militantes e reforçar os seus conhecimentos de carácter geral e político, de forma a que se "dinamizasse a versatilidade de funções" (8). Mas a clandestinidade obrigava a que a "distribuição de tarefas e papéis entre os sexos se adequassem aos interesses partidários conspirativos" (9). Era proibido adoptar qualquer divisão de tarefas que pudesse dar nas vistas e lançar suspeitas sobre as opções políticas do casal. Tais constrangimentos obstavam a um efectivo trabalho de pares. Apesar de tudo, as mulheres estiveram fortemente envolvidas em lutas quotidianas, sobretudo nas que privilegiavam a melhoria das condições materiais de vida e de trabalho. Porém, estiveram afastadas da concepção da maior parte das movimentações políticas de vulto, trabalhando nos bastidores e deixando aos homens (maridos ou companheiros de partido) os papéis de maior visibilidade. Contudo, para o universo cultural da época em que agiram, não podemos afirmar que tenham realizado pouco. Ousaram uma coragem que faz delas não só heroínas, mas mulheres para além do seu tempo.

Não terá sido fácil. Isabel Aboim Inglês teve de se confrontar, primeiro, com a questão da sobrevivência dos filhos. Também Maria Lamas, por exemplo, só intensificou a actividade política após o casamento das filhas. Era preciso que chegassem os finais de 60, com um novo universo de valores capazes de abalar as grilhetas mentais invisíveis que mantinham a discriminação e condicionavam a actividade política das mulheres.

Falamos aqui de mulheres políticas, lutadoras no início de uma caminhada que, afinal, ainda não pudemos concluir. Sólidos "tectos de vidro" permanecem ainda, neste exacto momento, mesmo por cima das nossas cabeças.

_____

(1) GORJÃO, Vanda (2002), Mulheres em Tempos Sombrios. Oposição Feminina ao Estado Novo, Lisboa: ICS - Na redacção deste trabalho baseámo-nos, essencialmente, na tese de Vanda Gorjão.
(2) Gorjão, 2002, p. 92
(3) id., p. 107
(4) cf. Gorjão, 2002, p. 229
(5) id., p. 247
(6) id., p. 250
(7) id., p. 133
(8) id., p. 134
(9) id., p. 135


in Notícias da Amadora Mulher - Outro Dossier "Mulher / Igualeza" / 2003-03-06

domingo, abril 22, 2007

Reforma sem democratização

* ORLANDO CÉSAR

A reforma do ensino fazia parte da agenda política europeia nos anos 60 e 70 do século passado. Uma reforma que pressupunha não só a democratização do sistema como um ensino de massas.

A luta estudantil assumiu o seu expoente máximo em Maio de 1968, em França. Mas a revolta estudantil visou mais do que o sistema de ensino. E conjugada com a greve geral decretada pelas centrais sindicais francesas, pôs em causa o próprio sistema político. O general Charles de Gaulle acabou por demitir-se na sequência de um referendo que promoveu e lhe foi desfavorável.

Fenómenos como o Maio de 68 lançaram o debate sobre a relação existente entre os interesses específicos dos estudantes e os problemas sociais gerais de toda a sociedade. Estudos sociológicos avaliavam as mutações processadas na situação dos estudantes e tentavam definir o seu lugar na estrutura de classes do capitalismo moderno.

Num artigo cortado parcialmente pela Censura, salientava-se que «o crescimento do movimento estudantil no Ocidente colocou na ordem do dia a questão da natureza social dos estudantes, quer no seu aspecto estrutural quer no seu aspecto político e ideológico.1» Matéria esta em que «a sociologia está dividida».

Em Portugal, este assunto também era enunciado. Mas num país sujeito a uma ditadura desde 28 de Maio de 1926, o papel dos estudantes e a democratização do ensino eram indissociáveis da conquista das liberdades fundamentais e da luta contra a guerra colonial.

Embora a democratização do ensino fosse aflorada no discurso de Veiga Simão, a sua proposta de reforma inseriu-se na tónica de evolução na continuidade formulada por Marcello Caetano. O continuador de Salazar assumiu o poder em Setembro de 1968, um mês depois do ditador de Santa Comba Dão ter caído da cadeira, no Forte de Santo António da Barra, no Estoril.

Três ministros fazem a diferença

O primeiro governo de Marcello Caetano só se distinguia do último de Salazar em três ministros. Vaz Pinto foi empossado como ministro de Estado, Sá Viana Rebelo assumiu a Defesa e Rui Sanches as Obras Públicas. José Hermano Saraiva manteve-se na Educação Nacional.

A repressão, as prisões, a incorporação militar forçada e a mobilização para a guerra colonial eram as respostas usuais do regime às reivindicações estudantis. Em 9 de Março de 1962, realizou-se em Coimbra o I Encontro Nacional de Estudantes, que decidiram comemorar o Dia do Estudante em Lisboa, entre 23 e 25 de Março.

O ministro da Educação de Salazar, Lopes de Almeida, proibiu as comemorações. Os estudantes reagiram pela luta e em 6 de Abril foi iniciada uma greve estudantil em Lisboa, que se estendeu a Coimbra. Na sequência dessa crise, demitiu-se o professor Marcello Caetano, então reitor da Universidade Clássica de Lisboa, em discordância com as circunstâncias da invasão da universidade pela polícia de choque.

A luta prolongou-se por vários meses e num só dia, em 11 de Maio de 1962, foram presos 1.500 estudantes. Vinte e um estudantes foram expulsos da universidade. Mas também o ministro da Educação Nacional deixou o governo no final do ano, sendo substituído por Inocêncio Galvão Teles.

A luta dos estudantes pela democratização do país e do ensino prosseguiu. Mas também a repressão. As lutas académicas recrudesceram em 1967 e 1968. A Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa foi encerrada em 20 de Maio de 1968 e o Instituto Superior Técnico em 26 de Dezembro. No ano seguinte, a luta académica assumiu particular relevância em Coimbra, cuja cidade viveu em clima de total agitação entre Abril e Outubro. O Presidente da República, Américo Tomás, foi vaiado pelos estudantes, numa cerimónia que decorreu na academia em 17 de Abril, e em 2 de Junho foi desencadeada a greve aos exames. A luta estendeu-se igualmente a Lisboa.

Nova crise académica, novo ministro. José Veiga Simão assumiu em 1970 a pasta da Educação Nacional. Apresentado como reformador do sistema caduco do ensino salazarista, a sua acção suscitou contestação tanto no seio do regime como na oposição, e pautou-se por algumas incongruências. Tanto amnistiou os estudantes de Coimbra da crise de 1969 como estabeleceu o regime de excepção para as universidades, que permitia o acesso da polícia às suas instalações.

Abriu a porta das universidades à polícia de choque, o que em 1962 levara Marcello Caetano a demitir-se da reitoria, e introduziu os vigilantes, que os estudantes baptizaram de gorilas. A política de Veiga Simão inspirou também a nova letra de uma moda popular cantada pelos estudantes. «Polícias, polícias aos molhos/ Por causa dos gases choram os meus olhos/ Oh! Veiga Simão quem te disse a ti/ Que a universidade era só para ti».

A chamada «reforma de Veiga Simão» continha algumas propostas inovadoras. Todavia, o seu enunciado não se compaginava com a ausência de uma política que assegurasse a democratização efectiva do ensino e da sociedade.

A sua acção teve, no entanto, resultados. Foram criadas quatro universidades novas: a Universidade Nova de Lisboa e as Universidades do Minho, de Aveiro e de Évora [ISESE, entregue aos Jesuítas] e, ainda, um instituto superior com estatuto universitário de autonomia, o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). A última criação no ensino superior datava de Setembro de 1968, quando foi inaugurada em Lisboa a Universidade Católica.

Marcello Caetano não lhe conferiu, porém, grande primazia nos resultados e chamou a si a iniciativa reformadora. Tanto pela sua vocação de professor como pela necessidade de tomar medidas face ao estado em que se encontrava o ensino. «Tudo era admissível em 1968 no domínio do ensino público em Portugal menos que o governo cruzasse os braços», escreveu no Brasil, no seu depoimento de 1974.

Simultaneamente enumerou uma lista de dificuldades que puseram em causa a bondade da sua reforma. Aludiu à preponderância que «os elementos comunistas foram ganhando» no movimento estudantil. As «escolas superiores iam sendo, assim, persistente e habilmente trabalhadas pelo Partido Comunista que só começou a ter dificuldades pelo aparecimento dos seus inimigos à esquerda — os trotskistas, maoístas e anarquistas».

Aliado a esse processo, chegaram a Portugal os ecos do Maio de 68, «a grande epifania europeia dessa doença romântica que é a anarquia». E como se as dificuldades não fossem já bastantes, «do lado da burguesia entrava-se francamente em crise». Era a crise dos professores, a crise dos padres, a crise da família. Marcello Caetano escreveu que o seu governo deu prioridade à educação e que o seu orçamento foi reforçado.

Opinou que José Hermano Saraiva tomou uma posição de maior firmeza na crise académica, enquanto Veiga Simão tinha o «incorrigível gosto de agradar a todos». Marcello Caetano aceitou a abertura, pondo apenas «uma condição: enquanto existisse agitação académica não se admitiriam representantes de estudantes nos órgãos do governo escolar».

Mas, apesar da «vontade reformadora do governo» e de todas «as complacências do ministro», logo se começou «a formar a oposição revolucionária à reforma». A esquerda «rompeu fogo» e o mesmo fez a direita. «O caso é que as intenções reformadoras se viram atacadas da esquerda e da direita, sem o apoio dos alunos e com a hostilidade dos professores».

Dados que desmentem

Joel Serrão e Rui Grácio confirmaram, em tese que apresentaram ao II Congresso Republicano de Aveiro, a declarada intenção de Marcello Caetano de conferir um tratamento prioritário aos investimentos na educação. Mas também apresentaram os dados que a desmentem. A Educação e a Investigação ocupava a sétima posição nos investimentos de dez sectores considerados. Cabia-lhe 4,5 por cento do total, menos de metade do que era previsto para o Turismo (9,6%).
«A educação na democratização do país», assim se intitulava a tese, na qual defenderam que não há outra forma de aprender do que «aprender usando». Defenderam que «a escola é, ou deveria ser, logo após a iniciação familiar, um instrumento da implantação da cidade política dos homens civilizados».

Todavia, nesse ano de 1969, as taxas de escolarização acima do ensino primário «são baixíssimas, sinal de que nos encontramos muito aquém — como há trinta anos relativamente à alfabetização — de outros países da Europa». Situação considerada incompatível com o mundo moderno. E «só a tacanhez de certas minorias sociais pôde supor que a ignorância e a cultura rudimentar das massas aproveita ao privilégio».

Os dois oposicionistas sustentaram que «a tentativa de corrigir o erro, com atraso, paga-se caro, porque a formação profissional extra-escolar é dispendiosíssima». Citaram com agrado as palavras do secretário de Estado da Indústria, Rogério Martins, dirigidas a industriais do Norte do país, «incitando-os a colaborar na elevação do “nível global da classe operária” pagando-lhes mais».

Disse o membro do governo, citado na tese, «que não há melhor meio para a formação de capital técnico que a melhoria dos salários. O operário, honra lhe seja feita, e nunca é de mais publicamente o reconhecer, investe o que ganha da maneira socialmente mais útil, que é elevar o nível de educação e habilitações dos seus filhos; assim transfere para o futuro a sua poupança com juros socialmente muito superiores aos de qualquer fonte, e contribui para o progresso industrial pela elevação substancial do nível de cultura do agente do trabalho». Seria útil que os actuais membros do governo relessem Rogério Martins e considerassem, como ele, que «permitir e incitar este fenómeno é um meio privilegiado de acelerar o desenvolvimento».

Há vários outros contributos nas teses do Congresso de 1969. J.A. dos Santos Simões abordou a democratização do ensino em Portugal e o ensino particular, Veiga Pires e Veloso Pinho dissertaram sobre a extensão e profundidade do ensino superior em Portugal e Rogério Fernandes sobre a batalha socialista pela democratização do ensino.

Salientaram em Aveiro que era impossível hoje aceitar uma universidade sem autonomia, onde a cogestão é um mito e sem participação dos estudantes. Criticaram a falta de escolas, incluindo universitárias, reivindicaram o ensino infantil gratuito, a formação de professores, a democratização do conteúdo do ensino e a correcção das assimetrias e desigualdades da rede escolar a todos os níveis.

Mas também em 1973, o 3º Congresso da Oposição Democrática, que decorreu em Aveiro, de 4 a 8 de Abril, acrescentou um volume considerável de contributos, em teses, no debate e nas suas conclusões. Os democratas lembraram que «a reforma do ensino anunciada pelo actual ministro entra em contradição, nos princípios que a dominam e proclamam, com os condicionalismos económico-sociais e políticos que caracterizam a actual sociedade portuguesa e que a reforma teoricamente parece ignorar».

Diziam que «a verdadeira democratização consiste na criação de uma autêntica igualdade de oportunidades», preconizavam o prolongamento da escolaridade obrigatória até aos 14-15 anos, a criação e diversificação de estabelecimentos de ensino superior e novas universidades em várias regiões do país, além das anunciadas por Veiga Simão.

Mas as críticas e o cepticismo quanto ao alcance da reforma também soaram na ala liberal do regime. O deputado Miller Guerra afirmou que «é impossível modernizar o ensino se, por exemplo, a economia continuar atrasada, se a saúde continuar pisando velhos caminhos, se a informação continuar a viver à sombra de estafados dogmas». E considerava que «as esperanças fundadas só nas modificações da educação são vãs...»

António Reis também interpelou a reforma, em artigo publicado no Notícias da Amadora2. Perante uma transição ideológica entre a filosofia da educação do ministro Galvão Teles e a de Veiga Simão, questionou os seus fundamentos e em que medida reflectia «as necessidades económico-políticas do bloco social no poder?». Perguntou também como «se perpetuam com o novo esquema os mecanismos de selecção social?»

Num artigo publicado mais tarde, a propósito do falso diálogo dos exames3 e que foi cortado parcialmente, é citado Marcello Caetano, quando afirma que «no fim do ano chega o momento crucial do exame. Professor e aluno que até aí, em geral, tinham sido indiferentes um ao outro, defrontam-se como adversários».

Reconhece que esse momento era encarado pelo estudante como «uma espécie de torneio em que o professor, incontestavelmente mais bem apetrechado, procura derrotá-lo», numa «luta desigual». E em vez do que deveria ser uma «indagação serena», tornava-se em geral «uma cena tétrica durante a qual a maioria dos estudantes trava o seu primeiro diálogo com o professor».

O contraponto destes discurso era dado por estudantes franceses, cujas palavras a Censura se encarregou de cortar. «O aspecto repressivo dos exames condicionam e alienam o trabalho dos estudantes e dos professores. Constitui um dos factores que falseia a relação estudante-professor e obriga uns e outros a situarem-se de facto em posição de força».

Mário Rodrigues, autor do artigo, afirmava que os exames constituem um dos múltiplos mecanismos de selecção social. Integram-se «perfeitamente num esquema de relações sócio-económicas em que uma minoria dominante detém o privilégio cultural de escolher os que melhor possam servir os seus interesses, a médio ou longo prazo».

«Acresce ainda o carácter quase policial da prova de exames, com todos os seus aspectos de vigilância repressiva, de sanções eliminatórias e mesmo de humilhação do aluno». «O sentido da competição e do “triunfo” é uma das componentes ideológicas da sociedade dividida, em que tudo se atribui à “vontade” individual, à “moral” de cada um, abstraindo das condições objectivas e colectivas da vida social».


Notas
(1) «Um grupo social – Os estudantes do Ocidente», Notícias da Amadora, nº 573, de 9 de Setembro de 1972.
(2) «Questões prévias a propósito da reforma do ensino», António Reis, Notícias da Amadora, nº 489, de 30 de Janeiro de 1971.
(3) «Exames ou o falso diálogo», Mário Rodrigues, Notícias da Amadora, nº 564, de 8 de Julho de 1972.

Referências bibliográficas
«II Congresso Republicano de Aveiro – Teses e Documentos», volume I e II, Seara Nova, Lisboa, 1969.
«3º Congresso da Oposição Democrática – Conclusões», Seara Nova, Lisboa, 1973.
Caetano, Marcello, «Depoimento», Distribuidora Record, Rio de Janeiro, 1974.

Com cortes de Censura a vermelho.

in

http://www.noticiasdaamadora.com.pt/nad/artigodossaut.php?codaut=PPLocal&eaid=576&lng=pt