A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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quarta-feira, julho 31, 2013

Serafim Lobato - FEIOS, PORCOS E MAUS

tabanca de ganturé


quarta-feira, 31 de julho de 2013


FEIOS, PORCOS E MAUS


1 – Em 1976, o realizador italiano Etore Scolla fez um filme, que se chamou em português “feios, porcos e maus”, como um sátira realista à putrefacção de uma família do lumpem proletariado de um bairro da lata dos subúrbios de Roma.

O enredo do filme tem todos os ingredientes demonstrativos como o capitalismo (ao longe vêem-se os prédios de arranha-céus impecáveis das classes médias-altas e altas) transforma um proletário, a quem atribui uma mísera indemnização – elevada, na perspectiva da família que está na fossa – de um milhão de liras por um acidente de trabalho, que o confinou a uma barraca deplorável, destruindo, deste modo, a sua condição económica e moral.

 
Assim surge nessa família – cerca de 20 pessoas entre filhos, noras e genros e netos e uma avó inválida, a única com uma misérrima pensão, que serve de “peça de caça”, logo no acto de a receber, a uma corja de seres humanos embrutecidos e depravados, mesmo nas relações sexuais entre familiares.

E que não têm pejo de procurar todos os meios para sacar o dinheiro da indemnização do antigo operário, embrutecido pelo álcool.

Um comportamento humano, todo ele, forjado e forçado pelas condições de vida no mais abjecto individualismo.

O que predispõe esse tipo de pessoas para servirem de tropa de choque das acções mais reacionárias.

2 -  Quando em Outubro de 2012, o senhor Fernando Ulrich, presidente do Conselho de Administração do Banco BIP, afirmou, alto e bom som, depois do seu banco, na falência, ter recebido uma capitalização em dinheiro, sacado ao contribuinte, de cerca de mil milhões de três mil de euros, para o “salvar” , que as classes trabalhadoras poderiam continuar a serem roubadas nos seus salários e pensões, porque elas aguentavam esse esbulhamento.

Cínica e arrogantemente,  ele estava, pura e simplesmente,  a tornar público, vangloriando-se, o que constituía, em todo o seu esplendor, o triunfo, em Portugal, da lúmpen grande burguesia financeira.

(A trama do BPN, do BANIF, dos sawps, representa, simplesmente  o exemplo acabado desse domínio: especulação financeira  corrupção a rodos, aumento das dívidas e toda uma dissimulação constante do aumento do décife a favor dessa fracção de classe, em nome da austeridade).

Na realidade, no período em apreço, ou seja, por alturas daquelas declarações, o governo de Passos Coelho, sem hesitações, deu de mão beijada, ao sistema financeiro bancário português 5,6 mil milhões de euros, lançando o ónus da “desgraça” para cima das classes assalariadas e de certos sectores da média burguesia.

Eram eles, para aquele governo, os sectores sociais que viviam acima das suas posses.

//Convém referir que os 5,6 mil milhões euros foram distribuídos pelo BCP (três mil milhões), BIP (1,5 mil milhões) e BANIF (1, 1 milhões)//.

Para Ulrich, um descendente de judeus alemães, ligado umbilicalmente  por via familiar, ao capital que apoiou Salazar, e que ascendeu ao cargo pela via das ligações estreitas com o poder capitalista vigente no pós-25 de Abril – foi chefe de gabinete dos ministros das Finanças João Salgueiro e Morais Leitão, que não levantou um dedo contra o anterior regime, não admite que seja posto em causa o seu salário milionário de um inútil de 60 mil euros por mês.

Ou seja vive à custa do Orçamento de Estado, embora diga e bata no peito que trabalha numa empresa privada.


Este mesmo Ulrich, que antes da crise de 2008, lançou o banco, a que preside, no lamaçal dos negócios especulativos, que o afundaram, tem a lata de que não admite que ninguém o possa pôr em causa e o seu modo de vida.

E a sua fortuna – e dos outros seus iguais, como os Jardim Gonçalves, Paulo Teixeira Pinto, João Salgueiro,  Lobo Xavier, Valente de Oliveira, Armando Vara, Maldonado Gonelha, Oliveira Costa, Dias Loureiro, Ferreira do Amaral, entre outros -  advem, pois, da rapinagem do tesouro nacional, dos salários e das pensões dos portugueses, dos negócios especulativos dos seus lacaios do governo em sawps, privatizações a custo zero, dos concursos transacionados, com distribuição equitativa pelo sistema financeiro onde está inserido.

São eles que dominam, como lumpem grande burguesia, o poder político (Presidência da República, Governo, Assembleia da República), o poder económico (a banca, as bolsas especulativas, os negócios chorudos das grandes obras públicas), que superintende a própria administração do Estado, colocando nos lugares-chave os seus homens de mão, desde os Ministérios até às empresas estatais e paraestatais.

Como chacais esfomeados, colocaram o Estado no estertor da falência, e, com as garras cravadas no pescoço do contribuinte querem mais lucro, mais juros, mais controlo do dinheiro no seu sector.

Já o afirmava o velho Karl Marx, há mais de 160 anos, no seu texto “As lutas de classes em França” – cujo conteúdo é actual  na sua temática teórica e argumentativa – que “no seu modo de fazer fortuna, como nos seus prazeres, a aristocracia financeira não é mais do que o renascimento do lumpen proletariado nos topos da sociedade burguesa”.


http://tabancadeganture.blogspot.pt/2013/07/feios-porcos-e-maus.html

quinta-feira, julho 18, 2013

Serafim Lobato - SALVAÇÃO NACIONAL NÃO EXISTE SEM ATINGIR OS INTERESSES DO CAPITAL FINANCEIRO

tabanca de Ganturé


erça-feira, 16 de julho de 2013

SALVAÇÃO NACIONAL NÃO EXISTE SEM ATINGIR OS INTERESSES DO CAPITAL FINANCEIRO

1 – Os últimos acontecimentos ocorridos em Portugal, com os pedidos de demissão do todo, aparentemente, poderoso ministro das Finanças Vítor Gaspar, tendo a indigitação da sua sucessão recaído numa personalidade vulgar, a  ser investigada judicialmente, chamada Maria Luís Albuquerque, com uma actividade ligada à especulação financeira, sem qualquer atitude de valor como profissional, seguida de uma rocambolesca demissão “irrevogável”, que deixou de ser, do presidente do CDS, Paulo Portas (por causa, exactamente, da nomeação da dita adjunta para o cargo), bengala da coligação que mantém com o PSD, que, de imediato, volta atrás, subindo na hierarquia do executivo e ficando, em teoria, a controlar a área financeira e económica governamental, apresentam uma interligação interna e externa, que para serem, completamente, compreendidos tem de se analisados com o desenvolvimento económico em Portugal, no geral desde o 25 de Novembro, mas, no particular, em toda a evolução económica do país, desde que Cavaco Silva iniciou a sua ascensão ao poder, como Primeiro-Ministro em 1985.

Quando a semi-revolução, que se seguiu ao golpe de Estado militar de 25 de Abril de 1974, adquiriu alguma pujança, fazendo crer que poderia levar o curso dos acontecimentos para um estádio avançado de revolucionamento social, no entanto, foi destroçada por um contra-golpe militar-politico em 25 de Novembro de 1975.

Todavia, o recuo imediato da acção política nessa época não deu lugar a uma destruição sem freio dos muitos projectos de cariz revolucionário que emergiram num espaço, muito curto, de poucos meses: nacionalizações do sistema bancário, redistribuição da posse da terra, particularmente na região centro e sul do país, relações contratuais de trabalho, entre outras.

Houve, realmente uma reacção a uma acção breve de ruptura, ainda que profunda, pois foi efectuada sobre a força revolucionária popular de meia dúzia de meses, conduzida contra o poder do Capital e contra o poder efectivo dos partidos burgueses que se afirmavam do socialismo e do comunismo.

Houve, portanto, uma derrota, mas o recuo foi efectuado, durante certo período, com uma burguesia no poder, mas ainda sem as alavancas económicas totais.


De tal modo que a Constituição da República Portuguesa de 2 de Abril de 1976, aprovada, portanto, depois do golpe novembrista, se intitulava como Socialista no seu regime e pretendia enquadrar um poder sem classes dominantes.

As lutas políticas interpartidárias, que se seguiram, e , particularmente, a acção concertada entre o PS, de Mário Soares e o PPP/PSD, de Sá Carneiro, teve um objectivo político e ideológico central, para formatar a inflexão económico capitalista, bem como a repressão, empenhada, quer dos soaristas, quer dos sá-carneiristas, especialmente, contra a Reforma Agrária,  de efectuar a transformação jurídico-legal-constitucional do poder de Estado.

E este caminho ainda demorou uns anos. O primeiro processo de revisão constitucional teve um “parto” demorado – entre Abril de 1981 e 30 de Setembro de 1983.

Com o recuo dos movimentos populares, os mais influentes políticos no seu seio, em escalas diferentes é certo, o PCP/APU/CDU, em primeiro lugar, depois o PC (R)/UDP (ambos com representações parlamentares), trouxeram, igualmente, uma inversão grande do seu papel parlamentar, pondo de lado, pelo “adormecimento” da concepção revolucionária de subversão estatal, enquanto os defensores “moderados” que apoiavam o socialismo da Constituição e a sociedade de classe, se transformaram em defensores abertos do capitalismo “democrático”, mudando os seus estatutos e as concepções políticas que antes enalteciam. 

O PS passou o “socialismo” para a gaveta com o inefável salta-pocinhas Mário Soares, e mais tarde, com Vítor Constâncio, então secretário-geral deu aos estatutos “marxistas-leninistas” do PS a nova visão de defesa intransigente do mercado, e Sá Carneio tornou-se no defensor máximo do capitalismo bolsista e especulativo.

(Seguiram-se outras revisões, que ajustaram o poder legista constitucional `a marcha dos acontecimentos capitalistas. Em 1989 teve lugar a 2.ª Revisão Constitucional que deu maior abertura ao sistema económico, nomeadamente pondo termo ao princípio da irreversibilidade das nacionalizações directamente efectuadas após o 11 de Março de 1975.

As revisões posteriores, em 1992 e 1997, vieram adaptar o texto constitucional aos princípios dos Tratados da União Europeia, Maastricht e Amesterdão, consagrando ainda outras alterações referentes, designadamente, à capacidade eleitoral de cidadãos estrangeiros, à possibilidade de criação de círculos uninominais, ao direito de iniciativa legislativa aos cidadãos, reforçando também os poderes legislativos exclusivos da Assembleia da República).

2 – Com a entrada formal de Portugal na Comissão Económica Europeu, a 1 de Janeiro de 1986, e o impulso capitalista rejuvenescido que se deu no Mundo com o ressurgimento de uma nova potência económica chamada União Europeia, com o mínimo de harmonia económico-política, a facção mais rapace e desbragada do capital financeiro que juntava banqueiros sedentos de lucros obtidos da maneira mais rápida e especulativa, a lumpen grande burguesia financeira especulativa juntou banqueiros, grandes capitalistas, grupos de advogados sem escrúpulos, políticos analfabetos e tidos como corruptos, como Almeida Santos, Galvão Teles, Rui Pena, Castro Caldas, José Miguel Júdice, Mota Amaral, Dias Loureiro, Valentim Loureiro, Fernando Nogueira, Oliveira Costa, Mira Amaral,  Arlindo de Carvalho, António Vitorino,  José Lamego, Mário Lino, entre outros, uma chusma de assessores e jornalistas chamados de economia, a hierarquia religiosa católica e os seus asseclas laicos, como Jardim Gonçalves, Teixeira Pinto, Vítor Melícias, Américo Amorim, Belmiro de Azevedo, entre outros, lançou-se ao assalto aos principais centros de poder económico, social, cultural e político.

É, precisamente, com a chegada de Cavaco Silva ao poder político, em 1985, que todas as classes dominantes burguesas se encavalitaram, como fossem uma só, na cravagem das garras na repartição dos lucros escandalosos e gananciosos das mais valias que davam entrada com os chamados dinheiros da CEE.

Com essa ascensão, desapareceu da cena política toda a aparência de um Estado Constitucional, inserto no texto de 1976. 
06278.01435


Os antigos partidos que se diziam revolucionários, PCP/CDU e PCP(R) – convém dizer que o MRPP e o PCP (m-l) foram apêndices do golpe novembrista – e o PS, que procurou dissimular a sua capitulação completa por detrás de um slogan estafado de um “socialismo democrático”, tornaram-se ser inúteis e os “socialistas” foram mesmo cúmplices declarados dessa lúmpen grande burguesia capitalista.

Os governos do PSD cavaquistas intitulavam-se, num auto-elogio degradante de subserviência, os “alunos” cumpridores dos ditames da política do grande capital financeiro, que avassalava já a União Europeia.

Entrando no governo, em 1985, com um apoio parlamentar minoritário, Cavaco Silva colocou em marcha uma política agressiva favorável ao Capital, levando para o Parlamento a arrogância de que pretendia “mudar” Portugal, atacando todos os princípios constitucionais ainda vigentes.  

A sua ascensão à Presidência do PSD foi preparada pela grande burguesia, cujo testa de ferro foi um depravado sexual empresário ignóbil nortenho, chamado Eurico de Melo, e que se veio instalar no poder em luta contra uma coligação PS/PSD, que estava a braços com a aplicação titubeante de uma política de austeridade, imposta, como agora pelo FMI/capital financeiro judeu de Wall Street, e que teve a cumplicidade descarada do então Presidente da República general Ramalho Eanes, também ele emaranhado por mil laços ao capital financeiro e comercial do Norte e à hierarquia da Igreja Católica, via Opus Dei.

Formando um partido (PRD- Partido Renovador Democrático) o falso impoluto Eanes deita abaixo, em Abril de 1987, o governo minoritário de Cavaco Silva, sabendo que toda a camarilha de banqueiros, generais e almirante, empresários da grande imprensa, rádio e televisão, estruturas dirigentes das policiais, e incluindo uma chusma de vendidos antigos militantes políticos pequenos burgueses, ditos revolucionários, reforçavam a ideia de que Cavaco Silva seria o agente transformador da sociedade. 

Deram-lhe as honrarias de homem providencial. 

Levaram os camponeses, destroçados por impostos,a incensá-lo, arregimentaram mesmo uma classe de assalariados, saídos recentemente das fileiras do campesinato, residentes, em amontoados bairros de lata nos subúrbios das grandes cidades.

Nas eleições de Julho de 1987, uma maioria dos portugueses atribui a primeira maioria absoluta a uma força política conservadora não coligada (com 50,2% dos votos para o PSD), que se havia de repetir nas eleições legislativas de 1991. 

Dessas vitórias resultaram, respectivamente, a constituição dos XI e XII Governos Constitucionais, cujo seu chefe colocou em marcha, com rapidez, a política do grande capital financeiro.

Os resquícios da semi-revolução de 1975 foram arrasados, humilhados, destroçados: introduziram-se impostos que beneficiavam à acumulação de Capital, como o IRS e o IRC. 

Privatizou-se, ao desbarato, as grande empresas públicas, revogaram-se as leis laborais e agrárias, deu-se de bandeja as grandes estações de televisão aos seus apaniguados privados. 

Foram lançadas obras faraónicas, como o Centro Cultural de Belém.

Embora se utilizasse uma parte dos dinheiros recebidos da CEE para modernizar estruturas rodoviárias e grandes parques industriais, tudo isto era controlado pela lumpem grande burguesia capitalista especulativa, que dominava os concursos, os preços, a distribuição de cargos públicos, a destruição da indústria, da agricultura e das pescas em detrimento da especulação bolsista, e acentuava, na realidade, uma penúria constante das Finanças do Estado, cujos ganhos e impostos não pagos pelo capital financeiro seguiam para off-shores e outros paraísos fiscais.

A administração do Estado era sugada, sem dó, nem piedade, por esses abutres financeiros, que pediam sempre mais, transformando a sua dívida privada em pública.  

(Entrega de toneladas de ouro do Banco de Portugal a uma empresa norte-americana que terminou na falência, uma operação conduzida por Cavaco Silva e o secretário de Estado Tavares Moreira).

Embora governasse num período de vacas gordas, colocando o Estado numa crescente e evidente da dívida pública ao fim de 10 anos de consulado cavaquista levou-o ao afastamento do poder: Cavaco deixa o governo, em 1995, numa altura que o desemprego começa a subir e se fazem sentir o desequilíbrio já acentuado dos orçamentos de Estados.

Mas o partido sucessor, o PS tornou-se um canino seguidor dessa mesma política. 

O rendimento dos trabalhadores começou a baixar ainda mais acentuadamente, os investimentos estrangeiros, que apostaram no apoio sem fundo do Estado e na mão de obra intensiva, começaram a abandonar o país.

Idênticas facções dominantes da burguesia europeia tomaram conta dos diferentes governos europeus e das suas instituições de poder económico, como o Banco Central Europeu, e político, como a Comissão Europeia e o Conselho Europeu, que unificava toda a estrutura financeira e dirigia a administração já formada supranacional sob os ditames da grande burguesia financeira capitalista financeira, centrada essencialmente na subserviência a Wall Street e à parceria conjunta vaticana e do lobby judeu internacional.

Toda a União Europeia, na sua formulação política e monetária, estava a transformar-se, tal como Portugal, numa descuidada e asfixianteentidade accionista supercapitalista, ligada a Washington e ao Papado Romano que explorava as riquezas construídas ao longo de cerca de 60 anos para dar ligar a um novo tipo de potência económica, que arrecadava cada vez mais lucros, que punham de lado quer o interesse europeu, que, essencialmente, a harmonização da sua indústria, do seu comércio, da sua agricultura, na sua pesca e navegação, desprezando a produção que deveria ter sido orientada para fortalecer os diferentes Estados mais débeis dessa União.

A grande burguesia financeira mundial colocava homens de mão, como Mário Draghi, um servidor desse polvo chamado Goldamn Sachs, a dirigir o BCE, fazendo alastrar a crise a todo o espaço europeu,  destroçando – ou pelo menos atrasando - a unificação política dos Estados, enlameando-os, pelo contrário e deliberadamente, no mundo da corrupção, do saque dos tesouros nacionais, no empobrecimento das classes assalariadas, nas fraudes mais descaradas.

Revertendo salários, impostos e pensões para favorecer o sistema financeiro com uma política de roubo descarado, de ladroagem doentia, chamada austeridade.

3 – Esta política, com nuances menos aberrantes, continuava a ser praticada pelos governos de Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e Sócrates, e no meio do descalabro governamental e financeiro crescente, um homem, que se considerava providencial, chamado Cavaco Silva, preparava, com a chusma de seus antigos ministros, transformados em banqueiros, unidos a velha estirpe bancária, que ia dos Espíritos Santos aos Mellos,  e escritórios de advogados, cujos sócios principais medraram no governo e no aparelho de Estado, desde Rui Pena a Castro Caldas, passando por André Gonçalves Pereira, Júdice e Proença de Carvalho, até José Luís Arnault, Aguiar Branco, para unificar, finalmente, e dar rédeas soltas, à fracção da grande burguesia que já dominava o poder de Estado.

Ascendeu ao poder em Junho de 2006, clamando contra “a década perdida em termos de ganhos de nível de vida”, que atribui, única e exclusivamente à governação do PS. Pedia “um caminho”. 

Com ele, subiu ao poder, preparando a sua estratégia de “pequeno Salazar”, rodeado de rufias seus apaniguados e ex-ministros, encravados na onda lamacenta do dinheiro sujo, que iria governar, sendo Chefe de Estado, garroteando a Constituição e impondo a sua vontade.

Sempre a vociferar, cinicamente, contra a austeridade do “aliado” PS do arco governativo.

Um acontecimento mundial acelerou um descontrolo total sobre a economia, fez aumentar o mal-estar geral das populações, incrementou um descontentamento larvar, com conflitos duros de rua e mesmo das instituições políticas quer na Europa, quer nos Estados Unidos, mas especialmente neste: a falência técnica oficial do grande sistema bancário norte-americano, que a administração norte-americana “esbateu” com uma aceleração forçada de dinheiro – dólar – pondo-o em circulação e remetendo-o para o salvamento do seu sistema financeiro: a crise financeira de 2008 nos EUA.

Propositada e por tabela, o lobby de Wall Street “exportou” essa crise financeira para a Europa, cujos principais bancos e companhias de seguros estavam dependentes do poder de Washington.

Os bancos europeus – e particularmente o sistema financeiro dos chamados países da União Europeia – caiaram na alçada da ameaça latente da finança. 

Portugal foi, justamente, dos mais atingidos. A banca portuguesa descapitalizou-se rapidamente, com os seus responsáveis a colocarem os seus activos em paraísos fiscais e a exigirem, como senhores reais do poder, aos seus executivos governamentais a que aumentassem os impostos, fizessem restrições drásticas nos salários e pensões para “salvar”, em primeiro, lugar as instituições de rapina financeira.

Foi justamente, no início da sua segunda passagem pela Presidência da República que Cavaco Silva, encavalitando-se no descontentamento popular, que mostrou a sua verdadeira face: na sua tomada de posse a 9 de Fevereiro de 2011, fez um violento discurso contra o governo, criticando-o pela má governação – evidente – e sugerindo que deveria ser derrubado.

Ele vai ser o porto seguro do novo governo, entretanto eleito, numa coligação PSD/CDS, cujo lema principal é a recapitalização bancária e o “corte” das gorduras das classes assalariadas e sectores da média burguesia para compensar todo o chamado endividamento do Estado ao sistema bancário.

Cavaco Silva tornou-se, deste modo, a cabeça do polvo que utilizou o défice do Estado como fonte constante de enriquecimento do capitalismo especulador.


Durante estes dois anos, o Chefe de Estado esteve sempre no lado mais radical da aplicação prática e sem qualquer recuo das medidas do Memorando de Entendimento, inclusive das medidas que os seus subordinados no governo ultrapassavam todas as metas do razoável. 

Quando se começa a desmoronar todo o sistema montado, se inicia a degradação humilhante desse executivo, Cavaco Silva não tem pejo em lançar mãos de propostas que ultrapassam a Constituição para a manutenção do “status quo”, sempre na defesa do sistema financeiro da chamada tróica. 

Um governo ou compromisso de "salvação do capital" tutelado ultrapassado tudo o que o sistema judirico-constituição defende, em nome da “salvação nacional”.

A classe dominante, essencialmente de Wall Street e do FMI, assim o exige.

4 – Convém seguir uma trama desta personalidade vulgar, intriguista e cobarde, que se apelida inimiga dos políticos, mas age, com presteza, em defesa do grande capital.

Com as ascensão, em 1985, de Cavaco Silva significou o fim da carreira do velhos sonhos republicanos de avental, ou de uma social-democracia capitalista, que embora já beliscados pela arrogância da AD, de Sá Carneiro ainda se mantinha nas instituições do Estado.

Cavaco foi o começo real da montagem e da caminhada do capital financeiro para o topo do poder de Estado.

Quando é nomeado Presidente do PSD não era nada, mas poderia tornar-se uma personalidade saliente, porque tinha a pretensão de representar os interesses convergentes de diversas classes e extractos de classe da burguesia.

A partir do seu primeiro governo de maioria absoluta tornou-se uma personalidade colectiva para todos os partidos que representavam o capital, desde o financeiro até ao agrário, passando pelo industrial, e ate da pequena burguesia que odiava os “devaneios burgueses” dos socialistas que abocanhavam tudo o que fosse interesse negocial em torno do aparelho de Estado.

A falsa imagem de ícone de Cavaco está a e irá, ainda mais, desvanecer-se quando o vamos ficar a conhecer ao longo dos anos, como informante policial, pequeno burguês agarrado ao dinheiro que faz negócios obscuros, através de homens de mão que foram seus ministros e que medraram em torno da sua figura e lhe dão umas migalhas, homem de pequenos rancores contra os seus pequenos barões, que depois de bolsos cheios, lhe cospem na cara, como Mira Amaral. E outros.

Estamos perante uma figura patética do pequeno burguês que pensava agigantar-se como político e dirigente de Estado, dando a mão ao grande capital, como o faz agora. 

Mas, presentemente, age também, com medo de ser preso, se houver uma mudança de regime, porque se enlameou (ele e a família) em negócios de vão de escada, para arrecadar mais uns cobres para o fim de vida.

5 – Tal como a União Europeia, e em particular Portugal, os governos de cada um do país, especialmente os da zona euro, estão completamente encarcerados pela fracção da grande burguesia financeira, e, esta submissão está ligada à sua míngua de capacidade consentida de financiamento.

Nestes dois últimos anos, de intervenção do FMI e do BCE na política interna de Portugal, mas igualmente de outros países, verificamos que essa míngua cresceu e o desequilíbrio entre as receitas e as despesas do Estado se aprofundaram, porque a distribuição de encargos recaiu sempre sobre os sector assalariados e pensionistas. 

Foram aplicados roubos sem nome, feitos pelo governo, em nome do interesse nacional, simplesmente para pagar os “empréstimos” e juros dos bancos privados, sacados a custo quase zero ao Banco Central Europeu, e “comprados” pelo Estado a juros exorbitantes. 

Os banqueiros estão a pedir sempre mais, a pilhar o dinheiro dos contribuintes em nome de novos “empréstimos”.

Não é possível inverter esta situação, sejam quais forem as cambalhotas, enquanto não se atingir os interesses rapinantes do capital financeiro e sem realizar legislação drástica que obrigue, a bem ou a mal, um redistribuição dos impostos sem os ir buscar ao lado do Capital – dentro e fora do país.



Sem esta capacidade de restabelecer o equilíbrio nas despesas e receitas do Estado, sem atingir o Capital financeiro, o caminho da sociedade será para procurar uma outra via para acabar com este estado de coisas. 

A bem ou a mal. 

 

quinta-feira, março 07, 2013

Guilherme da Fonseca-Statter - A dívida absurda ou a aberração da dívida

     


por Guilherme da Fonseca-Statter
Somos alguns milhões – só em Portugal – a sermos esbulhados, por meio de impostos e contribuições cada vez mais exorbitantes, para pagarmos uma dívida pública "externa" que não contraímos. Alguns papagaios, comentadores e "economistas" de aviário dizem-nos também que "não há alternativa", temos mesmo que pagar ("eles emprestaram ou não emprestaram"?...).

Vamos por uns minutos imaginar que esta dívida pública (esta e as outras, dos outros páises todos...) é uma dívida legítima. Que até resulta de empréstimos feitos por entidades que tinham acumulado esses capitais financeiros com toda a legitimidade e, sobretudo, sem terem fugido ao pagamento dos impostos sobre os lucros ao longo de várias décadas. Mesmo assim, nessas hipotéticas circunstâncias de legitimidade, o que me parece mais aberrante (estupidamente aberrante...) é que isso, o pagamento da dívida (se por milagre alguma vez acontecesse...), não serve para nada...

Ou seja, aquele dinheiro todo "que nos vai sendo emprestado e que nós vamos pagando" não vai ter uma qualquer outra aplicação que não seja voltar a ser emprestado. Acumulando juros e "capital emprestado".

Quando muito na compra ("investimento" dizem eles...) de coisas que já existem...
Per secula seculorum... Se entretanto os povos não se revoltarem, claro...

Acontece que existe no sistema capitalista um característica muito peculiar e que eu designo por "esgotamento progressivo de oportunidades de investimento". Investimento lucrativo, claro. Não é difícil demonstrar a existência dessa característica, mas isso não cabe agora aqui. Em todo o caso essa demonstração está feita e disponível para quem estiver interessado.

Em consequência desse esgotamento progressivo das oportunidades de investimento, os donos e gestores de todo aquele capital financeiro procuram naturalmente aplicações alternativas. Vamos imaginar que na busca de aplicações financeiras rentáveis conseguem todos os seus objectivos; ou seja a obtenção de oportunidades de aplicação rentável em coisas ou actividades úteis e necessárias à sociedade e que sejam susceptíveis de "compra e venda" (os mercados, sempre os mercados....).

Como vão assinalando os observadores mais atentos, aquelas "coisas ou actividades úteis e necessárias à sociedade" que constituem aquelas oportunidades de investimento e que estão assim "à mão de semear", são a privatização de tudo e mais alguma coisa que compete a um Estado moderno, progressista e com um mínimo de preocupação por tudo quanto é social.

Vamos pois imaginar que eles conseguem privatizar todos os ensinos públicos e todos os serviços nacionais de saúde e que conseguem também privatizar toda a distribuição de água (um monopólio natural por execelência...). Acrescentemos a isso a privatização de portos e transportes (vias férreas e todo o tipo de estradas) e ainda (porque não, já agora...) a privatização da segurança interna e da Justiça.

Vamos então imaginar que com todas essas privatizações, e através da manipulação de preços, os donos do capital financeiro, conseguem obter taxas de lucro melhores do que as "meras" aplicações financeiras. Nessa altura, em vez de nos retirarem "poder de compra" por via dos impostos para "pagarmos a dívida", vão-nos retirar "poder de compra" por via dos preços – que teríamos que pagar – por aqueles serviços que antes eram prestados de modo tendencialmente gratuito pelo Estado.

E depois?...

Nesse cenário de pesadelo absurdo de onde viria o "poder de compra" necessário e suficiente para escoar a oferta daqueles serviços todos?...

É neste contexto que se coloca a questão da aberração do pagamento indefinido de uma dívida absurda. Se os senhores da "troika" e seus mandatários locais (aqui ou na Grécia, por exemplo) tivessem um pingo de bom senso, talvez fosse possível perguntar-lhes "o que vão fazer com o dinheiro dos pagamentos das dívidas públicas"...

Para onde vão todos esses fundos financeiros?... Para que servem?... Em que vão ser aplicados (ou "investidos")?

Muito provavelmente responderiam que "não temos nada a ver com isso", o dinheiro é deles (ou melhor dos seus patrões...) e eles, os patrões, é que têm que decidir o que querem fazer com os dinheiros que alguém fabricou, sendo que este "fabrico de dinheiro" resultou a partir de lucros empresariais minimanente legitimos (mas sobretudo engordados com o não pagamento de impostos) , ou a partir da fabricação de dinheiro ou capital fictício resultante da criação de empréstimos bancários virtuais...

Mas a resposta mais prosaica seria muito provavelmente a de que esses fundos financeiros todos serão de novo aplicados na compra de mais dívida pública...

É evidente que o Planeta está cheio de oportunidades para fazer coisas, úteis e necessárias; desde a regeneração do meio ambiente (o mar e as florestas...) até à renovação de estruturas físicas e desenvolvimento de novas tecnologias de fontes de energia e de aproveitamento "verde" das coisas da Natureza.

Só que isso, tudo isso, cai cada vez mais no âmbito da coisa pública...

Não constitui oportunidade de investimento que tenha o lucro como objectivo imediato.

Ou seja, o sistema parece ter entrado num beco sem saída.

Mas "saídas" há: o caos (e a barbárie...) ou o Socialismo.
O original encontra-se em umoutroparadigma.blogspot.pt/...

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

05/Mar/13

quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Juntos pela mudança ~Vozes pelo 12 de Março

27 Fevereiro 2013


Jumtos pela mudança

Vozes pelo 2 de Março


Onde pára a democracia?Para onde quer que se olhe, os sinais que avançam e nos cercam são os de um país que empobrece e se afunda, enquanto uma caixa negra nos nega as mais nítidas evidências do imenso desastre que para nós preparam.

1. A Dívida, quê?
A dívida, quê? A dívida Soberana é como se chama a uma dívida assumida e garantida por um ser ou uma entidade soberana (um estado ou o seu banco central). Este par (nome + adjectivo) joga, com a gramática, um jogo que te leva à certa. Só compreenderás o que ele significa, se compreenderes que, no fim de qualquer passo de dança, a dívida deixou de ser uma propriedade ou uma qualidade do estado. O que ela exprime é que é ela que é soberana. Quem manda na política sou eu, a dívida. Tal como quem manda nisto tudo são os bancos (privados).

2. Soberania
Que Europa é esta que nos atou ao pescoço o BPN, em cujo buraco o estado enterrou vai para sete mil milhões de euros, e não nos autoriza o investimento de 1300 milhões de euros para o saneamento financeiro da TAP, o maior exportador do país e uma empresa estratégica para o nosso desenvolvimento soberano? É certamente a mesma Europa que fica sentada à espera que o governo português manobre de forma a tornar aceitável o inaceitável, a destruição dos estaleiros de Viana do Castelo.

3. Incomensurável, inaceitável hipocrisia.
As manifestações como aquela a que se assistiu nas instalações do ISCTE, em que um grupo de estudantes calou essa figura inenarrável de licenciado-com-emprego (Miguel Relvas), equiparado a governante, «suscitam necessariamente», disseram eles, os da sua pandilha, «o repúdio da parte de todos quantos prezam e defendem as liberdades individuais, designadamente o direito à livre expressão no respeito pelas regras democráticas». E, coisa espantosa, eis que se lhe juntam alguns outros, de outra pandilha, mas da mesma troika, usando os mesmos argumentos e tiques de quem se prepara para criminalizar o protesto.

4. O desemprego
Em Portugal, 51 % dos jovens licenciados estão no desemprego. É uma violência que lhes é feita, assim como ao país que se vê por essa via impedido de utilizar o seu trabalho qualificado. A dor humana do desemprego jovem é a dor causada por uma amputação social de perspectivas de vida. Entretanto cresce também o desemprego de longa duração. Às suas vítimas cabe agora o sofrimento de verem desqualificada e ofendida a sua experiência de vida. Jogar uns contra os outros é uma jogada miserável contra o trabalho. Torna-se cada vez mais claro que esta ofensiva contra direitos individuais e colectivos é uma révanche do grande capital, que quer arrancar aos trabalhadores assalariados tudo o que foi obrigado a ceder-lhes ao longo do último século e que constitui uma plataforma civilizacional avançada.

5. Saúde pública
Ela entrou na nossa sala, como se fosse uma pequena ventania que se libertasse e disse: «eu e o Óscar, foi já demasiado tarde que nos apercebemos que ela não aviava na farmácia as receitas por inteiro. Agora sei que deitá-los de lá abaixo já não é só um objectivo político, tornou-se uma necessidade urgente de saúde pública».

6. A organização da nossa legítima defesa
Tendo perdido o medo ou a repugnância que lhe provocavam certas palavras e frases que usamos, sobretudo em circunstâncias em que se trata de atribuir intenções a certos gestos ou modos de agir, chegou um dia em que a ouvimos dizer, muito calma e cheia de fúria: «mas eles estão a matar-nos; eles querem matar-nos». A nota de espanto que soava na sua voz indicava que ela já estava preparada para compreender que se tratava de pôr na ordem do dia a organização da nossa legítima defesa.

7. Quem somos nós?

Nós somos «a esperança que não fica à espera».

Quem pode ser no mundo tão quieto
Que o não movem nem o clamor do dia
Nem a cólera dos homens desabitados
Nem o diamante da noite que se estilhaça e voa
Nem a ira, o grito ininterrupto e suspenso
Que golpeia aqueles a quem a voz cegaram
Quem pode ser no mundo tão quieto
Que o não mova o próprio mundo nele.

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Serafim Lobato - O Papa saíu de cena e deu lugar aos acontecimentos posteriores

Tabanca de Ganturé

Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013


O PAPA SAIU DE CENA E DEU LUGAR AOS ACONTECIMENTOS FUTUROS



O Papa da Igreja Católica Romana, que se auto-intitulou, como seu Sumo Pontífice, há cerca de oito anos, com o nome de Bento XVI, anunciou, num consistório (na linguagem ritual e cifrada da Santa Sé, é uma reunião de cardeais),  efectuado no Vaticano, no passado dia 11, logo após o domingo de Carnaval ocidental, que iria abdicar do seu cargo, porque, segundo ele, as suas faculdades “já não são idóneas para exercer adequadamente o ministério petrino”.

Esperando pela noite de cristal  

É uma explicação esfarrapada, pois o seu antecessor, em condições físicas mais extremadas, ocupou o cargo até ao fim. 

É um pormenor, certamente. 

Mas não a verdadeira razão. 

Os hierarcas da Igreja Católica são os mentores mores da mentira e da manipulação. Tem uma experiência contínua de mais de dois mil anos…

Este acto de renúncia não mereceria uma simples notícia se o Vaticano não fosse a maior instituição financeira mundial no presente momento. 

Os problemas dessa enorme seita são, pois, humanos, e, essencialmente, do âmbito da economia.

É um poder dominante e explorador, portanto.  Mas merece, também, um enquadramento.

1 - Há dois mil anos, começava a formar-se numa parte do Império Romano uma formação religiosa próxima do judaísmo, praticamente desconhecida.

De acordo com os próprios dignitários do poder de então de Roma, como Plínio, o Jovem, governador da Bitínia, uma extensa região na actual Turquia asiática – ele escreve ao imperador Trajano, sendo, portanto, o primeiro documento oficial e documental a admitir a existência de cristãos nos princípios do século II DC – essa formação, em que os seus membros se intitulavam cristãos, eram, para o Império, “uma sociedade secreta”.

Tornaram-se subversivos – os cristãos primitivos - face a Roma, porque, - retiro da carta de Plínio -, em primeiro lugar, não reconheciam a autoridade imperial, nem lhe devotavam religiosidade como deus, e, nos seus rituais diferenciados do comum romano, em determinados dias, costumavam comer antes da alvorada e rezar responsivamente hinos a Cristo, como a um deus; obrigavam-se por juramento a não praticar algum crime, mas à abstenção de roubos, rapinas, adultérios, perjúrios e sonegação de depósitos reclamados pelos donos. Concluído este rito, costumavam distribuir e comer seu alimento. Este, aliás, era um alimento comum e inofensivo”. 

E Plínio acrescentava: “Esta superstição contagiou não apenas as cidades, mas as aldeias e até as estâncias rurais”.

Da descrição daquele alto funcionário imperial romano, infere-se que, na hierarquia dessa nova formação religiosa nascente, perigosa, nesses primórdios, para Roma imperial, se encontravam também mulheres, “chamadas diaconisas”.

O chefe romano não explicita a existência de outros hierarcas, incluindo bispos ou o seu equivalente feminino, como entidade superior. O que pressupõe que não haveria nessa região, pelo menos.

(Uma curiosidade: pouca referência de “missionação” existe nos textos cristãos canónicos nos inícios do cristianismo naquela região do Império).

Historicamente, com confirmação fidedigna coeva, igualmente, é desconhecida a existência dos chamados primeiros Papas.
  
Era, na altura, realmente, uma verdadeira formação revolucionária, que recusava o poder ditatorial de Roma, a usura, os lucros excessivos obtidos pela extorsão de impostos e de empréstimos por prestamistas ligados ao reinado imperial.

Esses revolucionários imiscuíram-se na administração do Império, controlaram as próprias Forças Armadas, desobedeceram, ainda que com repressão sem freio, dos Pontifex Maximus e Imperatores colocados em Roma.

Os autocratas de Roma, vendo o crescimento subversivo da nova religião, começaram a fazer alianças com os chefes cristãos, que se começaram a hierarquizar em bispos, presbíteros e patriarcas, e já detinham algum poder temporal regional.

No século IV,  em 380 DC, com a anuência dos bispos,  o cristianismo foi declarado como religião de Estado exclusiva do Império Romano.

A partir daqui, o Império passou a ser um Estado confessional e os seus maiores defensores foram os Papas, que entretanto foram transformados, com o apoio directo imperial, em chefes teocráticos unificados e ferozmente centralizados pelo novo poder.

Desde então, embora com altos e baixos, o Papado romano adquiriu um poder temporal de invejar, um poder de interferência directa nos reinos e nos Estados, principalmente do Mundo Ocidental.

E, com esta “ascensão”,  toda a história do cristianismo primitivo foi reescrita e destruídos os documentos que a ele se referiam e contrariavam a nova orientação dos responsáveis da religião agora já consolidada.

E aconteceu sem contemplações, trucidando tudo o que pusesse em causa a supremacia e os dogmas criados para o estabelecimento da teocracia ditatorial do Papa Católico Apostólico Romano.

2 – Desde então, o Papa Romano desempenha o cargo monárquico teocrático ditatorial mais antigo do Mundo.

O cargo, como atrás referimos, não existiu nos princípios do cristianismo. 

Tornou-se, no entanto, uma realidade à medida que a Igreja Católica foi centro de poder, quer pela posse territorial (muitos dos bispos na decadência do Império Romano, no século VI, tornaram-se condes e duques, com amplos poderes político-militares), quer pelo poder da autoridade religiosa, interligada com os poderes patrimonial e militar (cujo início se pode situar com o rei dos francos Carlos Magno, de que daremos uma breve explicação mais à frente), como sucedeu em toda a Idade Média e no Renascimento, quer, como sucede, nos últimos 80 anos, com o acesso ao controlo, de parte substancial, do sistema societário financeiro, industrial, comercial, educacional e político transnacional.

Foi, realmente, com Carlos Magno, que começou por ser rei dos francos, em 768 DC, e se tornou Imperador do Ocidente (Imperatur Romanorum), de 800 a 814, que abrangeu a Europa Ocidental e Central e o reino de Itália, tudo em íntima associação com as ordens religiosas e o Papado. 

O Sumo Pontífice Católico Leão III coroou-o como Imperator Augustus. 


Com ele. e, a partir dele, a Igreja Católica controlou toda a estrutura económica e cultural do que foi o reino de França e  senhor do Sacro Império Romano Germânico.

Os hierarcas religiosos foram, frequentemente, arcebispos-bispos-condes e, mais tarde, duques. 

Das suas famílias, da dos réis católicos, ou dos seus protegidos, foram escolhidos, os cardeais e entre estes os Papas, ao longo dos séculos.

(Um dos filhos do infante português Pedro, duque de Coimbra, filho do rei João I e da duquesa de Urgel Isabel, de nome Jaime foi arcebispo de Lisboa (com 20 anos, 1453), de Arras e cardeal-infante (1456) . Morreu com 25 anos (1459) e está enterrado em Florença (Convento de S.Miniato).

3 – A Igreja Católica somente ganhou poder e supremacia no Mundo, quando teve na sua posse bens terrenos patrimoniais e financeiros, que lhe garantiram (e garantem) uma capacidade de influenciar os diferentes poderes.

(O banco mais antigo do mundo ocidental, o Monte dei Paschi di Siena, nascido em 1472, aparentemente pertencente à comuna de Siena, na prática, em maioria, na mão da Igreja, quer directamente pela arquidiocese de Siena, quer instituições de voluntariado. O seu presidente executivo actual é o anterior presidente do banco do Vaticano o Unicredit)

Sem estes “atributos”, a Santa Sé, apesar dos prosélitos religiosos, pouco ou nada contou na política europeia, como aconteceu no final do século XIX, com a extinções dos chamados Estados Papais e o corte da circulação monetário, quando os revolucionários italianos unificaram o país. 

O Papa e a religião católica ficaram reduzidos a um “estado de espírito”, cujo poder de influência se baseava na manutenção do seu fanatismo e obscurantismo confessionais.

A inversão deste estado de coisas deu-se, em primeiro lugar, com o apoio directo e militante ao fascismo italiano e ao apoio cúmplice à ascensão do poder nazi na Alemanha.

O camareiro papal alemão Von Pappen foi indigitado, através do partido católico e a benção da Santa Sé, vice-chanceler alemão, tendo como líder Adolf Hitler.

Mas, situemo-nos na Itália, em 1929,  onde o Papa Pio XII se comprometeu a dar o seu aval sem qualquer subterfúgio ao regime fascista de Benito Mussolini, em troca de um vultosa quantidade de liras e da garantia da religião católica se tornar a religião oficial do Estado ditatorial, ao mesmo tempo que permitiu a existência de um pequeno Estado papal no Vaticano, com todas as garantias de imunidade para os negócios da Santa Sé. Chamou-se o Tratado de Latrão, a esse acordo, que vigora ainda hoje, com certas modificações.

O dinheiro do Estado italiano doado por Benito Mussolini foi assim distribuído 750 milhões de liras a pronto pagamento e mil milhão de liras em Títulos do Tesouro a bom juro.


No Estado do Vaticano,meses depois, foi instituída como Lei Fundamental, a concentração de poderes, sem qualquer espécie de discussão, (legislativo, executivo e judiciário) nas mãos do Papa.

Isto no bairro do Vaticano propriamento dito e em mais 12 edifícios espalhados  por Roma, bem como no Palácio de Castelgandolfo. No fundo, a administração financeira, patrimonial, meios de comunicação social vaticanistas, tudo ficaria (a ainda está) ao arbítrio do Chefe de Estado da Santa Sé, ao mesmo tempo Sumo Pontífice universal da Igreja Católica e bispo de Roma.

4 – Os dignitários do Vaticano aplicaram este dinheiro – com o assentimento directo do regime fascista – primeiro, dentro da própria Itália. 

Entraram nas finanças (os principais bancos), nas seguradoras, na indústria (química, armamento, ferrovia, aviação, marítima), no comércio (empresas distribuidoras alimentares), na educação (escolas e universidades), comunicação social (a RAI) e na própria actividade partidária (fundaram um partido católico- A Democracia Cristã). 

O Banco de Itália é, maioritariamente, administrado por sicários da Santa Sé.

Ler, para o efeito, o livro “Empório do Vaticano”, do jornalista norte-americano, correspondente na Santa Sé do "New York Herald Tribune" durante oito anos, Nino LoBello, falecido em 1997, onde, além de referenciar os principais patrimónios controlados pela Igreja, assinala que a ligação entre o Vaticano e a Máfia era tão forte que “muita gente” considerava que a Sicília não era mais do que um edifício do Papado.

Escreveu ainda o livro “The Vatican Papers", em 1978.

Lo Bello sublinhava, com dados, que o Vaticano, já naquela altura, segunda metade dos anos 60 do século passado, “era um dos maiores accionistas do Mundo”.

Descrevia ainda que o número de companhias de que a Santa Sé era proprietário, ou continha uma participação societária relevante, era de tal modo elevado, que nem dava para acreditar, desde os principais bancos, as seguradoras, a Italgás, que era a única empresa fornecedora de gás a 36 cidades italianas. 

Por seu turno, esta ultima empresa controlava 11 outras formas desde os anidridos, minérios de ferro, fósforo, carvão, destilados, água potável (a EPAL de Roma), fogões de gás e industriais, grandes construtoras civis. Controlava a Montecatini-Edison, então uma das maiores instituições industriais de Itália.

Expandiram o seu negócio pela Europa, pelos Estados Unidos, pela América Latina.

Depois seguiram para África. Hoje apostam, em grande, na Ásia, incluindo a China.

Fundaram empresas de fachada, multiplicaram e entrecruzaram centenas de “off-shores”. “um império secreto”, como lhe chamou recentemente (Janeiro de 2013) o jornal inglês The Guardian.

A revista The Economist, igualmente, tem acompanhado com frequência a evolução do poder político, económico e financeiro da Santa Sé.

Dois livros de um jornalista italiano chamado Gianluigi Nuzzi, um intitulado “Vaticano S.A – a verdade sobre os escândalos financeiros e políticos da Igreja”” (2009), e “Sua Santidade – As carta secretas de Bento XVI – Como o Vaticano vendeu a alma”,  são fontes que ajudam a conhecer toda a trama em que se transformou a Santa Sé.

Uma outra personalidade investigou profundamente os negócios do Papado. Trata-se do aristocrata e filósofo britânico Avro Manhattan, morto em 1990, que escreveu,  em 1983, a obra, entre outras, “Os Biliões do Vaticano”.

Antes de sair da Igreja Católica foi cavaleiro da Casa de Sabóia e Templário.

Indicamos estes jornais, investigadores e jornalistas, porque os seus relatos nunca foram postos em causa.

Deles respigamos – e, essencialmente, de dezenas de publicações de vários países, incluindo italianos – que a Igreja Católica é sócia maioritária – ou com intervenção decisiva – em quase todos os principais bancos de grande projecção internacional: desde o Bank of América, Stanley Bank, Chase Manhattan, City Bank, JP Morgan Chase, Bankers Trust., dos Estados Unidos, aos Rothschilds, Hambros, Barclays e Royal Bank of Scotland (Inglaterra), Crédit Suisse, UBS (Suíça)  NBP Paribas (França),  Santander, Bilbao y Vyscaya (Espanha).

Mas, igualmente, mantém uma forte componente accionista em empresas de grande gabarito industrial, como a General Motors , a General Electric e a Bethlem Steel no sector da do aço, automóvel e electricidade, Boeing, Lockeeh, Douglas e Curtis Wright, da aviação,  ou a Gulf e a Shell, do petróleo.

Mas, segundo as investigações que estamos a referenciar, nos Estados Unidos, a sua penetração económica é muito superior: na educação, desde jardins de infância até universidades, passando por colégios e instituições de ensino primário e secundário. E isto, pago a taxa zero pelos contribuintes norte.americanos, através de organismos ditos de “assistência” ou “caridade”. 

E a seguir na saúde: hospitais, centros de reabilitação, clínicas de apoio a doenças crónicas. Registos ainda que podem passar pelas empresas de construção civil, empreendimentos turísticos.

5 – A penetração dos investimentos do Vaticano no Mundo não se fazem somente de maneira subtil e sub-reptícia, mas também pelo papel desempenhado pelos seus representantes no aparelho de Estado.

Assim como o lobby judaico domina os principais corpos legislativos norte-americanos (Senado e Câmara dos Representantes) e muitos dos governadores de Estado, e através particularmente de Wall Street, a Igreja Católica segue-lhe o mesmo caminho.

No Senado, existem 25 representantes que se confessam abertamente católicos (16 democratas e nove republicanos) e na Câmara dos Representantes, num total de 436, 134 afirmam professar e seguir a Igreja Católica Romana.

No Supremo Tribunal dos Estados Unidos, actualmente, a maioria pertence a praticantes católicos.

Na política, dois nomes a reter: o vice-Presidente Joe Biden e o Secretário de Estado, recentemente nomeado John Kerry.

6 – A renúncia do Papa Católico Bento XVI, que ele fez, oficialmente, em 11 de Fevereiro em consistório, não nos pode emocionar pelo argumento da velhice. 

Dizia ele: “Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para  administrar bem o ministério que me foi confiado”.

Parece uma linguagem simples, propositadamente púdica, hipocritamente admitida, elevada pelos outros hipócritas hierarcas e confrades da Igreja Católica a uma virtude de frontalidade.

Na quarta-feira de cinzas católica, um dia depois, Bento XVI  fustigava com os verdadeiros argumentos: fracassara a sua tentativa de ser mediador e o verdadeiro controleiro das lutas intestinas do Vaticano, minadas pelas confrarias do poder financeiro que se foram constituindo e ocupando posições que já ombreiam com o próprio poder do autocrata.     
                                                                                                               
Cito da imprensa:

Foi a última missa pública do Papa Bento XVI e a ocasião não poderia ser mais simbólica. Na Quarta-feira de Cinzas, que lembra o carácter transitório e efémero da vida humana, Bento XVI apelou à superação dos "individualismos e rivalidades" no período da Quaresma, num sinal "humilde e precioso para aqueles que estão distantes da fé ou indiferentes".

Bento XVI comentou a sua renúncia: "É uma ocasião propícia para agradecer a todos, agora que me preparo para concluir o ministério de Pedro."

Bento XVI deixou também vários alertas e avisos, contra "a hipocrisia religiosa", contra "o comportamento de quem quer aparecer" e contra "as atitudes que procuram aplausos e aprovação".

"A qualidade e a verdade da nossa relação com Deus é o que certifica a autenticidade de qualquer gesto religioso", frisou o Papa, num tom grave, segundo o relato da agência AFP.

Numa missa interrompida pelos aplausos dos presentes, Bento XVI alertou contra o que considera ser "os golpes contra a unidade da Igreja" e a "divisão do corpo eclesiástico", lamentando que "o rosto da Igreja seja, por vezes, desfigurado".

O Papa criticou ainda aqueles que se dizem prontos "a rasgar as próprias roupas face aos escândalos e às injustiças, naturalmente perpetrados por outros", mas que não se mostram "prontos a agir de acordo com o seu próprio coração, a sua consciência e as suas intenções", cita a AFP.

Ou seja, o Sumo Pontífice da Igreja Católica confessou, com a sua renúncia, que não sabia ou não conseguia governar ou gerir o saco de lacraus e altos interesses económico-financeiros  que estão a surgir com a própria crise mundial, nem estava a conseguir apoiar-se numa das facções para contar as outras, nem destruir ou trucidar as mais afoitas. 

Nem queria romper com elas.

Deixou, saindo de cena, que o curso dos acontecimentos possa resolver a questão.