A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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sábado, abril 28, 2007


FERNANDO LOPES-GRAÇA

músico/compositor, 1906-1994

Leonor Lains

Fernando Lopes-Graça

A MÚSICA É A MINHA ÚNICA RELIGIÃO...

QUANDO TUDO ACONTECEU

1906: Nasce a 17 de Dezembro em Tomar, onde inicia os estudos de piano. -1924: Ingressa no Conservatório Nacional de Lisboa. - 1927: É aluno da Classe de Virtuosidade de Viana da Mota. - 1931: Termina o Curso Superior de Composição. É preso e desterrado para Alpiarça. - 1934: Ganha uma bolsa para estudar em França, que lhe é recusada por motivos políticos. -1937: Parte para Paris. Estuda com Koechlin Composição e Orquestração. -1938: A Maison de la Culture de Paris encomenda-lhe uma obra: «La fiévre du temps» (ballet-revue). Harmonizações de canções populares portuguesas. -1940: Ganha o prémio de Composição do Círculo de Cultura Musical com o 1º Concerto para Piano e Orquestra. - 1941: Tomás Borba convida-o para professor na Academia de Amadores de Música. - 1942: Obtém o prémio do Círculo de Cultura Musical com a «História Trágico-Marítima» (poema de Miguel Torga). - 1944: Ganha pela 3ª vez o Prémio de Composição do CCM com a «Sinfonia». - 1945: Faz parte da Comissão Distrital do MUD. - 1949: Faz parte do júri do Concurso Internacional Béla Bartók em Budapeste. - 1952: Novo prémio de composição do Círculo de Cultura Musical com a 3ª Sonata para Piano. - 1961: Edita com Michel Giacometti o 1º volume da Antologia de Música Regional Portuguesa. Início do In Memoriam Béla Bartók (8 suites progressivas para piano) que completa em 1975. - 1969: Rostropovich interpreta o Concerto de Câmara para violoncelo encomendado a Lopes-Graça. - 1973: Início da publicação das «Obras Literárias» (Editora Cosmos) em 18 volumes. - 1974: Assume a presidência da Comissão para a Reforma do Ensino Musical criada pelo Governo Provisório da Revolução de Abril. - 1979: Compõe para grande orquestra, solistas e coro o «Requiem pelas vítimas do fascismo em Portugal». - 1981: Convite do governo húngaro para as Comemorações do Centenário do nascimento de Béla Bartók. - 1993: Audição integral das sonatas e sonatinas para piano (Matosinhos). Homenagem no seu 87º aniversário. - 1994: Morre na noite de 27 Novembro na sua casa na Av. da República, na Parede, junto a Cascais.


TEMA E VARIAÇÕES

Lopes Graça, retrato de Alberto de Lacerda

Capa da brochura "Marchas, Danças e Canções próprias para grupos vocais e instrumentos populares" com música de Fernando Lopes-Graça.

Lopes-Graça faz crítica musical na "Seara Nova". Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

1906: Na Hungria Bartók e Kodály publicam uma colecção de 20 canções populares. A 25 de Setembro o compositor russo Dimitri Chostokovich nasce em S. Petersburgo. Em Lisboa Fernando Pessoa é aluno voluntário de Filosofia do Curso Superior de Letras que abandona por motivo das revoltas estudantis contra a ditadura de João Franco. Os republicanos começam a fazer das suas no Portugal monárquico cheio de contradições.

A 17 de Dezembro de 1906, não longe da capital, em Tomar, nasce Fernando Lopes-Graça. Sobre a sua pequena cidade natal escreverá que é onde «o monumento completa a paisagem; a paisagem é o quadro digno do monumento; e a luz é o elemento transfigurador e glorificador da união quase consubstancial da Natureza com a Arte.»

Cresce no seio de uma família da pequena burguesia. O pai toma de trespasse o hotel que fora do padrinho. Entre os trastes que mobilam a casa, um velho piano. A brincar, o pequeno Fernando matraqueia o teclado. É o acaso que se lhe proporciona estudar música a sério. O tenente Aboim é hóspede no hotel paterno. Entusiasmado com as habilidades da criança, insiste para que tenha lições com a filha do seu general.

A completar este cenário, aristocratas e republicanos digladiam-se entre os sonidos da Serenata Tomarense e a Banda do Regimento. A populaça assiste à refrega entre as duas bandas rivais: Gualdim Pais, a «Música do pau teso», e a Nabantina, a «Música do cu aberto»; assim chamadas devido a estranhos ornamentos dos seus bonés.

A propósito do meio musical em que cresceu escreverá com humor Lopes-Graça: « Eu até entrei na música pelas mãos da tropa, e não pelas da Igreja ou da Nobreza, como nos belos tempos em que o músico era ungido do Senhor ou de Sais!». Apesar de tudo, num café de Tomar, através de um radio-receptor, ouve pela primeira vez "O Mar" de Debussy, dirigido por Toscanini. Descoberta decisiva nos caminhos futuros da sua formação e linguagem musical.

Aos 14 anos é pianista no Cine-Teatro de Tomar. Contra o que é habitual toca Debussy e compositores russos contemporâneos, a solo ou integrado no quinteto que formou.

Em 1923 ingressa no Curso Superior do Conservatório de Lisboa. São seus professores: Adriano Meira (Curso Superior de Piano), Tomás Borba (Composição) e Luís de Freitas Branco (Ciências Musicais). Em 1927 inscreve-se na Aula de Virtuosidade de um antigo aluno de Liszt, José Viana da Mota, seu mestre e amigo.

Matricula-se no ano seguinte na Faculdade de Letras de Lisboa em Ciências Históricas e Filosóficas. Apresenta-se pela primeira vez como compositor interpretando ele próprio as Variações sobre um tema popular português (1927) para piano solo. Funda em Tomar o semanário republicano «A Acção». Em 1929, com Pedro Prado, publica no Conservatório de Lisboa a revista «Música».

Em 1931 abandona a Faculdade de Letras de Lisboa como protesto contra certas medidas coercivas tomadas pelo Conselho Escolar durante uma greve académica. Termina o Curso Superior de Composição com a mais alta distinção. Obtém a 1ª classificação para o lugar de professor de piano e solfejo do Conservatório. Não chega a tomar posse por motivos políticos. É preso, desterrado para Alpiarça e escreve: «Revolução e Liberdade são sinónimos, são equivalentes. São leis imutáveis gravadas na face do Cosmo, eternas e divinas como ele.»

Volta à Faculdade de Letras mas não chega a acabar o curso. Convive com os poetas e escritores da revista «Presença», grupo de vanguarda da poesia portuguesa.

Em 1937 ganha uma bolsa para estudar em Paris, a qual acaba por lhe ser recusada pelas mesmas razões que o impediram de ser professor no Conservatório de Lisboa. No entanto, parte a expensas suas para Paris, onde estuda Composição e Orquestração com Koechlin.

Dias antes de partir para Paris, Lopes-Graça assiste a um concerto no Teatro Éden, em Lisboa. Francine Benoit encontra-se entre os presentes, na companhia de uma jovem aluna e pianista. É o início de uma amizade que durará mais de 50 anos. Maria da Graça Amado da Cunha será a intérprete favorita de Lopes-Graça.

Avizinha-se a 2ª Guerra Mundial. Em 1939 Lopes-Graça alista-se no corpo de voluntários dos Amis de la République Française. Colabora com muitos patriotas espanhóis exilados no rescaldo guerra civil espanhola. Recusa a naturalização francesa. Em Outubro, antes da bota nazi pisar a França, é obrigado a regressar e fixa-se em Lisboa.

Grande actividade como compositor, pianista, crítico teatral em "O Diabo" e musical na "Seara Nova". Lopes-Graça é um homem bem humorado. Diz o que pensa e pensa o que diz. Numa crítica nada favorável a um bailado acaba da seguinte forma: "E mais não direi, pois não sei se já disse de mais... Ah! esquecia-me de que tenho ainda uma coisa importante a dizer ou, antes, a confessar; não culpem outra pessoa do grito Basta! que, no momento mais enfadonho da Pastoral, retumbou no "galinheiro" de S. Carlos. Fui eu quem o soltou."

Organiza coros de amadores de música, ao mesmo tempo que escreve canções originais e harmoniza canções regionais portuguesas. Pedro Prado, o amigo e antigo colega de Conservatório, agora director de programas, convida-o a assumir a direcção da secção de música da Emissora Nacional. Recusa por não querer satisfazer as formalidades de ordem política.


"A ACADEMIA É O MEU LAR MUSICAL"

Gesto e expressão que sempre acompanharam o Coro (numa colectividade do Barreiro)

Programa de um Concerto Coral-Sinfónico em 1950

Lopes-Graça, retrato de Augusto Cabrita

Em 1941 inicia o seu magistério na Academia de Amadores de Música. Agora o compositor, o intérprete e o público são a consciência de uma comunidade que resiste, que preserva a sua independência de espírito contra o statu quo vigente.

Em 1942, com o apoio do director artístico Tomás Borba da Academia de Amadores de Música, organiza a sociedade de concertos Sonata. Divulgar a música do século XX através de concertos, palestras e audição pública de música gravada, é o seu objectivo.

As democracias vencem Hitler. A guerra acaba e os povos da Europa celebram a paz em 1945. Mas em Portugal Salazar continua. Surge o Movimento de Unidade Democrática (MUD) de muitos patriotas portugueses. O matemático Bento de Jesus Caraça, fundador da Universidade Popular, é grande amigo do Graça. O músico e o matemático unidos na mesma luta. As suas actividades inserem-se no conceito de intervenção politico-cultural. Dar a conhecer as duas linguagens conceptuais ao mais comum dos comuns. O entendimento do mundo será então claro e humano.

Juntamente com os poetas José Gomes Ferreira, João José Cochofel, Carlos de Oliveira, entre outros, compõe as Canções Heróicas, cantadas em defesa da paz e da liberdade nas ruas de Lisboa. Proibição total, censura.

Em 1948 promove, no âmbito da Sonata, a 1ª audição integral dos quartetos de Bartók pelo Quarteto Húngaro. Maria da Graça Amado da Cunha apresenta também ao público português toda a obra para piano solo de Béla Bartók. Para o Graça, a música contemporânea supõe um espectador atentamente crítico e uma atitude de confronto com a ideia vinculada pelos regimes totalitários de circunscrever a grande música a lugar-comum e mundano, servindo de manipulação emocional para fins de propaganda. Depressa a Sonata torna-se num ponto de encontro de uma vanguarda intelectual, politicamente contra a ditadura salazarista.

Através de Coros de músicos amadores o Graça desenvolve o gosto pela Música e a cultura cívica na Academia de Amadores de Música. Uma elite que sabe música constitui o Coro de Câmara que canta música erudita. Os que não sabem música cantam harmonizações suas da música regional portuguesa na Secção de Folclore. Lopes-Graça conversa com o seu amigo, o escritor Manuel Mendes:

- Adeus, tenho de ir para o ensaio do Coro.

- Do Coro? Qual deles? O «Coiro» fino ou o «Coiro» grosso?

Com humor, os amigos passaram a chamar a um o Coro «fino» e ao outro o Coro «grosso».

A Europa central é dividida entre os Aliados e a Rússia de Estaline. O exército vermelho domina a Polónia, Checoslováquia e Hungria. Novas repúblicas socialistas. A grande ilusão e optimismo perpassa o pensamento progressista europeu. Lopes-Graça participa no 1º Congresso para a Paz na Polónia. Vai a Praga ao 2º Congresso dos Compositores e Musicólogos Progressistas. Chega a Amsterdão como secretário da secção portuguesa da Sociedade Internacional de Música Contemporânea, na qual se insere a Sonata. No ano seguinte, em 1949 é convidado para Júri do Concurso Internacional Béla Bartók, em Budapeste. Mais uma vez é impedido de sair do país. As divergências políticas começam a surgir no seio do movimento democrático. Por não concordar com a orientação ideológica assumida pela "Seara Nova", Lopes-Graça deixa a revista de que era secretário da redacção desde 1946.

É também na Academia de Amadores de Música que em 1951 aparece a publicação mensal a "Gazeta Musical". Esteio da Arte dos Sons, enquanto actividade intelectual e cultural, reúne à sua volta músicos, poetas, escritores e pintores. Mesmo debaixo do fogo da censura de imprensa, muitos intelectuais anti-salazaristas colaboram gratuitamente.

Em 1969 é movida uma acção de despejo contra a Academia de Amadores de Música que se acha instalada há trinta anos no nº 18 da Rua Nova da Trindade. Lopes-Graça, Maria da Graça Amado da Cunha e os poetas João José Cochofel e José Gomes Ferreira, entre outros intelectuais, defendem mais uma vez este centro de cultura musical. Lançam uma campanha junto da comunicação social. No "Século Ilustrado" Lopes-Graça escreve:« A Academia é o meu lar musical. (...) Como artista, mas sobretudo como pedagogo, aqui me realizei na medida em que me foi vedado realizar-me noutros sectores.». Até hoje a Academia continua no coração do Chiado em Lisboa.


"A MÚSICA É A MINHA ÚNICA RELIGIÃO"

Fac simile da primeira página da brochura manuscrita "Canções Regionais Portuguesas", série VI da autoria de Fernando Lopes-Graça. Início da canção popular "Toscadeiras do meu linho" recolhida no Douro Litoral.

«Que hei-de dizer-lhes acerca da Música, que os interesse e que esteja ao meu alcance?» pergunta Lopes-Graça nos anos trinta. A resposta será o seu caminhar resistente reflectido nestas palavras: « Poderia dizer-lhes enfim, como além de uma Arte a considero uma Religião, a minha única religião (...) e como visiono uma única Religião do Futuro, a única Religião de uma Humanidade Livre, Justa e Sábia».

Em 1954, mais uma vez por razões políticas, o regime retira-lhe o diploma do Ensino Artístico Particular. Não pode dar aulas na Academia de Amadores de Música e até mesmo em casa!...Fica sem meios de subsistência. Pensa novamente em ir para Paris. Mas os amigos não o deixam partir. Manuel Rodrigues das "Edições Cosmos" dá-lhe a oportunidade de realizar um projecto que há muito ambicionava fazer: publicar um "Dicionário de Música" em português.

Em 1961 conhece Michel Giacometti, um francês da Córsega que vem para Portugal. Grande amizade se estabelece entre os dois. O trabalho do etnógrafo é completado pelo do músico. Giacometti calcorreia o País de norte a sul. Recolhe na origem canções que os camponeses cantam nas aldeias e transmitem de boca a ouvido, de pais para filhos. Lopes-Graça classifica e analisa todo o material recolhido que, depois de seleccionado, é divulgado em disco. Ele próprio harmoniza algumas destas canções para o Coro da Academia de Amadores de Música que serão ouvidas novamente pelos camponeses nas muitas digressões feitas pelo país.

Para ele a música é uma coisa tão necessária como respirar, comer, amar, pensar. Não precisa de rostos sisudos e façanhudos. Necessário é ter prazer em fazer música. Lopes-Graça entende que o ensino musical deve ser um contacto vivo, permanente, directo entre a Música e o jovem. Escreve várias obras para os mais novos: Álbum do Jovem Pianista, Presente de Natal para as Crianças, Canções e Rondas Infantis, As Cançõezinhas da Tila.

Segundo o compositor francês e seu grande amigo, Louis Saguer, a Música de Fernando Lopes-Graça é uma multiplicidade de técnicas e de estilos: da tonalidade mais clássica ao atonalismo mais marcante. Imbuído das ricas polifonias da música regional portuguesa e alimentado por um vasto tesouro de obras-primas de todo o mundo. A sua pesquisa é feita em todas as direcções na certeza de encontrar sempre a síntese necessária à própria expressão enquanto músico e cidadão.


UMA CONSCIÊNCIA DO NOSSO TEMPO

1º de Maio de 1974, durante o cortejo, entoando livremente as canções heróicas.

25 de Maio de 1974, no Coliseu, em franca apoteose.

Lopes-Graça, foto de Rui Pacheco.

Noite de 25 de Maio de 1974. Há um mês que Lisboa fervilha, fraternidade. O país desperta da morrinha secular. O pulular de reuniões de sindicatos desagua nas calçadas de Lisboa. De olhar brilhante, sorri-se aos abraços. Comunica-se nas paredes, nos candeeiros, nas árvores. É a festa da esperança. A imaginação e a poesia estão na rua. No Coliseu, Lopes-Graça dirige o Coro da Academia de Amadores de Música. Uma catedral de vozes ergue-se na noite:

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
havemos de chegar ao fim da estrada
ao sol desta canção.

A poesia feita canção militante do poeta resistente José Gomes Ferreira. Outros estão presentes: Carlos de Oliveira, Mário Dioniso, amigos que voltam do exílio e da clandestinidade.

Noite memorável! O grande músico, figura frágil, agradece à assistência da sala imensa, emoção. É a visibilidade do valor nacional da obra de Lopes-Graça, embora este não tenha «uma ideia mítica, mas sim dialéctica do que possa ser uma música nacional» segundo o musicólogo Mário Vieira de Carvalho.

Seguem-se as honrarias públicas. Condecorado com a Ordem da Amizade dos Povos em 1976 pelo Soviete Supremo da URSS. Em 1980 recebe do Presidente da República Mário Soares o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago de Espada.

Aos 75 anos a lucidez e o seu espírito independente continuam a provocar polémica. Em 1982, numa entrevista ao "Jornal de Letras" reafirma o seu «iberismo»: «Porque a separação de Portugal de Espanha foi um erro histórico, sem querer com isso dizer que deixássemos de ser portugueses. A própria Galiza não se considera espanhola; a Andaluzia e a Catalunha também não. Há o problema grave dos bascos... Penso que deveria haver uma federação, tal como a federação dos povos soviéticos, cada um com a sua personalidade, mas com um projecto social, político e económico comum. Continuo a defender essa ideia, sem a absorção de qualquer parte por outra.»

Em 1994 uma jovem, recém licenciada em musicologia, vem de terras de Espanha para Portugal. Por sua conta e risco quer conhecer Lopes-Graça e estudar a sua obra. Teresa Cascudo chega à Parede. Percorre a Av. da República e quase junto ao mar vê uma vivenda com um jardim na frente e uma horta nas traseiras. É o próprio Graça quem lhe abre a porta. Uma fotocopiadora atravanca a entrada. Fazem-se cópias de segurança de toda a obra musical de Lopes-Graça. Na sala principal o velho piano de meia cauda tem em cima várias partituras passadas à mão pelo próprio compositor. São edições caseiras com o seu anagrama FLG e que durante as últimas décadas serviram para divulgar a sua obra junto dos seus intérpretes.

O mérito de toda esta azáfama é de Conceição Correia, directora do Museu da Música (Casa "Verdades Faria"). Conseguiu que a Câmara de Cascais disponibilizasse meios. Filipe de Sousa orienta os trabalhos com o apoio do Dr. Francisco Mota da Veiga e o Arq. Romeu Pinto da Silva.

Durante meses o trabalho prossegue com entusiasmo. Testemunhos de uma vida intensa que se mistura com a história deste século estão finalmente a salvo. Lopes-Graça, que foi sempre meticuloso e organizado, está feliz mas um pouco cansado. Fim de semana de Novembro. Está sol e durante a tarde recebe algumas pessoas que o visitam. Durante a noite está só como sempre vivera. Morre a 27 de Novembro de 1994.

Em 1995 é editado pela Câmara de Cascais/Museu da Música Portuguesa o Catálogo do Espólio Musical de Lopes-Graça. Obra fundamental para se ter uma ideia da dimensão da sua obra e proceder-se à edição criteriosa de um dos compositores mais significativos da história da Música Portuguesa e da Península Ibérica.

[Página Principal] [Página As Vidas]

http://www.vidaslusofonas.pt/lopes_graca.htm

Fotografia – Fernando Lopes Graça em Évora

Autor - VN

segunda-feira, abril 23, 2007

CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE FERNANDO LOPES GRAÇA

Na imensa figura de Fernando Lopes Graça houve posturas, decisões, posições políticas e culturais, sentimentos e actos que no entender da Juventude Comunista Portuguesa foram essenciais na luta anti-fascista e no desenvolvimento da sociedade em que hoje vivemos. Toda a concepção musical por si elaborada é de tal forma importante que ainda não o sabendo já compunha música de intervenção sendo esta só entendida como tal anos depois.

Daqui concluímos que só alguém com uma visão revolucionária do mundo poderia, mesmo sem o fazer propositadamente, compor música em que para si fosse natural sê-la interventiva, reivindicativa e acima de tudo humanista.

Fernando Lopes Graça, Membro do PCP desde 1948, será sempre invocado como o compositor-militante que na sua análise social e politica sempre entendeu o povo como soberano, concretizando assim (ao lado de Michel Giacometti) a maior recolha, pesquisa e publicação da música popular portuguesa.

Homem de valores e sentimentos imensamente progressistas, sempre entendeu a juventude como motor galvanizador e construtivo da luta anti-fascista, seguindo sempre ao lado do MUD-Juvenil organizando e mobilizando os jovens nesta frente revolucionária. Surgem então 5 abordagens à figura de Fernando Lopes Graça de forma a assinalar o centenário do seu nascimento. 5 abordagens ao homem, ao compositor, ao militante comunista, ao compositor interventivo e ao revolucionário que sempre acompanhou os jovens e nos deixa hoje uma parte viva da história da luta do povo português contra o fascismo.


JUVENTUDE

O MÚSICO

O MILITANTE

O MÚSICO COMUNISTA

terça-feira, fevereiro 20, 2007

ALGUMAS MODAS DO ENTRUDO



máscara de Filipe Abreu


Ó entrudo, ó entrudo
Ó entrudo chocalheiro
Que não deixas assentar
As mocinhas ao soalheiro

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Que no monte é que eu estou bem
Que no monte é que eu estou bem

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Onde não veja ninguém,
Que no monte é que eu estou bem

Estas casas são caiadas
Estas casas são caiadas
Quem seria a caiadeira
Quem seria a caiadeira
Foi o noivo mais a noiva
Foi o noivo mais a noiva
Com o ramo de laranjeira,
Quem seria a caiadeira

(versão interpretada por José Afonso no seu álbum Traz outro amigo também, de 1970)

Eu quero ir para o monte
Quero ir para o monte
Que no monte é que eu estou bem
Que no monte é que eu estou bem

Eu quero ir para o monte
Quero ir para o monte
Que no monte é que eu estou bem
Onde não tenha ninguém

Estas casas estão caiadas
As casas estão caiadas
Quem seria a caiadeira
Quem seria a caiadeira

Foi o noivo mais a noiva
O noivo mais a noiva
Com um ramo de laranjeira
Quem seria a caiadeira
_________________________

Ó entrudo, ó entrudo, ó entrudo chocalheiro
Ó entrudo chocalheiro
Não deixas parar as moças sentadas ao soalheiro
Sentadas ao soalheiro

Moleirinha dá-me um homem se ele não fora velhaco
Se ele não fora velhaco
Quando vai para o Inferno, leva-me aqui ele no saco
Leva-me aqui ele no saco

Moleirinha dá-me um homem se ele não fora ladrão
Se ele não fora ladrão
Quando vai para o Inferno, leva-me aqui ele na mão
Leva-me aqui ele na mão

Meus senhores vai o entrudo, cachopas deixai-o i
Cachopas deixai-o ir
Daqui a sete semanas o entrudo torna a vir
O entrudo torna a vir

(versões interpretadas por Zeca Medeiros e pelo coro Cramol, no CD Cantigas de Amigos, projecto colectivo de 1999, acompanhadas da seguinte nota:

"Duas versões acopladas desta famosa moda (canção) beirã. A segunda versão é bastante desconhecida e contrasta com o ambiente da primeira")

Tónio Sacoto,
Que lá está ao canto, (bis)
Dá-lhe lá um lenço
Que se baba tanto. (bis)

Entre as numerosas letras com que se canta esta cantiga do Entrudo, consignemos, como mais curiosas, as seguintes:

Tónio Sacoto,
Foi ao Ladoeiro, (bis)
A comprar laranjas,
Não tinha dinheiro. (bis)

Chamais ao um velho,
Tôco de oliveira (bis)
Cheio de formigas,
Não há quem o queira. (bis)

O velho m disse
Que fosse com ele (bis)
A levar as vacas
Junto ao Valverde. (bis)

Tónio Sacoto,
Tem umas cuecas, (bis)
Que as ganhou ele
A guardar marrecas. (bis)

(recolha de Michel Giacometti e de Fernando Lopes-Graça, incluída no disco relativo às Beiras da colecção Portuguese Folk Music, editada em CD pela Strauss, em 1998, integrado no "Projecto discográfico do Ministério da Cultura")

O TEMPO DO ENTRUDO

O tempo do entrudo
É um tempo louco
Faz sair as velhas
Fora dos "atoucos"

E não sei se é por ser
As voltas do entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo
Demudado em nada;
Não
sei se é por ser
Voltas d'entruda(da).

Algum dia era eu
E agora já não,
Da tua roseira
(E) o melhor botão.

E não sei se é por ser
As voltas do entrudo,
Acho o meu amor
Demudado em tudo.

Demudado em tudo
Demudado em nada;
Não
sei se é por ser
Voltas d'entruda(da).

(Granja de Mourão)

(recolha de Michel Giacometti e de Fernando Lopes-Graça, incluída no disco relativo ao Alentejo da colecção atrás referida)

Lá em baixo está o entrudo
De gordo não pode andar
De gordo não pode andar
Que comeu um burro morto
Entre o almoço e o jantar
De gordo não pode andar

Ó entrudo, ó entrudo
Ó entrudo chocalheiro
Que não deixas assentar
As mocinhas ao soalheiro
Ó entrudo chocalheiro

Estas casas são caiadas
Estas casas são caiadas
Quem seria a caiadeira
Foi o noivo mais a noiva
Com um ramo de laranjeira
Quem seria a caiadeira

Cá em baixo vai o entrudo
Em farrapos pelo chão
Que comeu um burro morto
Entre o Inverno e o Verão
Em farrapos pelo chão

O entrudo foi á vila
Já não quer de lá sair
Caiu dentro duma pipa
Dá-lhe a mão que quer subir
Já não quer de lá sair

(incluída no álbum de José Afonso, Galinhas do Mato, de 1985 - interpretada por Janita Salomé)