
* João Frazão Basta ler os jornais dos últimos dias para perceber que o que marca grelha de apreciação da reentre deste ano (o facto político da semana) são as novidades, não obstante as dificuldades novas e antigas nesta ou naquela agremiação.. O que já não tem novidade nenhuma é a dificuldade do PSD em fazer de contas que está na oposição a uma política de direita que eles próprios gostariam de estar a levar a cabo e por isso vão-se entretendo numas picardias internas que a ninguém aproveitam, mas sempre dão o ar de estarem ocupados. . Novo, novo apareceu o PP (Paulo Portas ou Partido Popular que é uma e a mesma coisa) com um discurso na internet, uma coisa mesmo moderna, que isso de andar nas feiras a contactar com o povo foi coisa de outra encarnação, e com um pezinho a puxar para a xenofobia, com uma palavra de ordem suficiente dúbia (imigração: outra vez a confusão) para ao mesmo tempo acolitar os direitinhas da linha e abrir para o mercado dos que, no ano passado, desenvolveram uma acção fascizante com grande visibilidade contra a imigração. . Temos também os que escolheram o debate, coisa apresentada como originalíssima. O BE, cansado de olhar para o lado e ver vazio e oco de ideias, decidiu pensar o socialismo, juntando as suas forças ali para o lado do Parque das Nações que é sítio ainda a cheirar a novo, certamente agora mais reconfortado com a possibilidade que tem de o concretizar na Câmara Municipal de Lisboa, onde foi dar uma mãozinha ao PS. . O Governo não está dado a inovações. As mesmas medidas, os mesmos ataques aos trabalhadores, mais professores no desemprego, as mesmas visitas secretas do primeiro ministro com a devida mobilização de aplausos e helicópteros para fugir depressa a eventuais protestos, as mesmas dificuldades para os que menos têm e menos podem, a mesma opulência para as grandes fortunas. . Falemos do Governo uma vez que do PS não consta que estejam a pensar reentrar, acometidos numa espécie de limbo (nem sei por que é que o Papa acabou com isso, que agora dava tanto jeito). . Nós, pela nossa parte, este fim-de-semana encontramo-nos na Festa do Avante! Espaço ímpar de debate, de cultura, de arte, de música, de desporto, de amizade, de fraternidade, de solidariedade com os povos de todo o mundo, espaço de participação massiva para jovens e outros que nem tanto, espaço para, aí sim, exigir uma nova política, uma ruptura democrática com as políticas de direita. . Mas isso é capaz de não ser grande novidade. Até porque não reentramos em coisa nenhuma, faz tudo parte da luta que continua. . in Avante 2007.09.06 |
 Escandaloso, como de costume• João Frazão
Os números aparecem-nos com a força e a clareza do costume. Os cinco maiores bancos portugueses, que detêm 90% do mercado, viram os seus lucros crescer, no primeiro trimestre deste ano, 21,8%. Ascendendo a mais de 780 milhões de euros, estes lucros somam-se aos mais de 2600 milhões do ano passado. A coisa é de tal ordem, que logo se apressam os especialistas do costume a vir justificar, explicar, ajudar as amplas massas a perceber e mesmo exultar perante tão importante demonstração de vitalidade da economia portuguesa.
Perante tais resultados, há quem seja devidamente recompensado. Dizem os entendidos, que os salários dos gestores das empresas cotadas em bolsa no índice PSI 20 (entre as quais se encontram os ditos bancos), triplicaram nos últimos 5 anos. Mais, segundo um estudo da Comissão de Mercados de Valores Mobiliários, estes esforçados assalariados recebem, em média, 60 vezes mais (eu soletro, se-ssen-ta, não foi engano), do que o salário médio em Portugal.
Entretanto, estes números que colocam Portugal como um dos países que melhor remunera os seus gestores de topo, contrastam de forma escandalosa com a informação que nos diz que os trabalhadores por conta de outrem, viram o poder de compra dos seus salários diminuir em 2006. Diminuição que, segundo um estudo da Comissão Europeia, foi a mais acentuada desde há 22 anos.
Ou seja, mesmo com aumentos salariais os portugueses trabalhadores por conta de outrem, excluindo os gestores de topo que para este caso não são chamados, conseguem comprar menos coisas que antes dos aumentos.
O agravamento das taxas de juros, particularmente nos empréstimos para compra de habitação, que no último ano ascendeu a mais de 25%, por opção do grande capital financeiro e com o apoio do Governo, tem aqui um peso muito significativo.
Donde se pode concluir que os lucros de que falamos no início, que para alguns são a evidência suprema da prosperidade económica, que só eles conseguem ver, assentam directamente nas dificuldades cada vez maiores da esmagadora maioria dos portugueses. Que os faustosos lucros e compensações de uns poucos engordam na directa medida em que emagrecem os salários de muitos milhões.
E é assim que o Governo do PS constrói Portugal - o país com as maiores desigualdades sociais da União Europeia.
São estes escândalos obscenos do costume que uns especialistas da coisa nos querem fazer engolir.
Aqui repito-me: também é para travar este e outros escândalos obscenos, que em 30 de Maio estamos em Greve Geral!
in Avante 2007.05.17
Executivos “Ronaldos”
* Helena Garrido
Em Portugal um gestor de uma empresa cotada ganha em média até ao meio-dia do seu primeiro dia de trabalho anual quase tanto quanto leva para casa num ano quem recebe o salário mínimo. Nos EUA a relação é apenas um pouco mais gritante: até à hora de almoço um executivo de topo ganha o equivalente ao salário mínimo de um ano. O gestores portugueses estão quase no nível dos americanos e são mais prósperos que os espanhóis. (...)
in Diário Económico 2007.05.09

Operadoras de fralda* João FrazãoNo Chile é assim. Operadoras de caixa de uma cadeia de supermercados vêem-se obrigadas a usar fralda, por não terem autorização para se ausentar do seu posto de trabalho durante as nove longas horas de trabalho diário, de acordo com uma denúncia da Central Sindical do Chile.
Após o choque inicial que o título nos causa, lido e relido o texto para nos certificarmos de que é mesmo assim, somos tentados a pensar que é consequência de relações de trabalho distorcidas, que por sua vez são fruto de uma situação concreta do chamado terceiro mundo, onde imperam os capitalistas caceteiros, ávidos de aumentar exponencialmente os lucros, à custa da sobre-exploração dos trabalhadores.
Mas esta teoria simplista não resiste a uma espreitadela às grandes superfícies comerciais em Portugal. Sendo um dos sectores mais prósperos e dinâmicos da economia portuguesa, com novas catedrais do consumo a abrir todas as semanas, não faltam aqui casos de trabalhadores que após pedirem para ser substituídos para ir à casa de banho, têm que esperar mais de uma hora até que isso aconteça.
Medida da mesma família do abuso e atropelo da dignidade de quem trabalha, é a de pôr trabalhadoras, que foram contratadas para fazer caixa, a recolher assinaturas para uma petição que a Associação Patronal do sector lançou para poder abrir aos domingos e feriados de tarde, campanha que, a ter os resultados que os seus promotores desejariam, as prejudicaria directamente, obrigando-as a trabalhar num dia que é de descanso obrigatório há mais de dez anos.
Este desejo dos patrões da distribuição até já nem é novo. Ávidos de aumentar ainda mais os seus brutais lucros, têm procurado apresentar como moderno o funcionamento sem regras nem limites. O Grupo Amorim até já ensaiou, nos seus Centros Comerciais em Coimbra e Porto o funcionamento 24 horas seguidas. Operação que foi derrotada com a oposição dos trabalhadores e do sindicato do sector.
Dizem os patrões que com as grandes superfícies abertas ao domingo seriam criados 4000 novos postos de trabalho. Como se não estivesse bem de ver que, com um ainda maior concentração de compras realizadas aos fins-de-semana (que hoje já ocupam 50% do total), o caminho seria o da desregulamentação dos horários, com arranjos estapafúrdios de horários concentrados nesse período. Não é por acaso que hoje se discute a possibilidade da jornada de trabalho chegar às 12h.
Também é para mostrar sinal vermelho ao avanço destas e de outras fraldas, que a 30 de Maio estamos em Greve Geral.
in Avante 2207.05.10Bem, aqui em Setúbal havia, não sei se ainda há, uma empresa de sucesso duns patrões nortenhos cujas «caixas» tinham de laborar nove horas .... de pé!
 Já nem somos só nós a dizer | |
| | O Governo PS/Sócrates celebra o seu segundo ano de mandato com um conjunto de tristes medalhas no seu palmarés!
Atente-se no estudo da União Europeia, já tratado nas páginas do Avante, que afirma, preto no branco, que Portugal é o país com maior nível de desigualdades no quadro dos 27. (Foi a UE que fez e mandou publicar!)
Atente-se também nos números do desemprego, os maiores dos últimos 20 anos – 8,2% (isto é o INE que afirma), ou bastante mais, segundo um estudo de Eugénio Rosa.
Factos a dar razão às preocupações e denúncias do PCP perante o prosseguimento da política de direita em que, obstinadamente, obsessivamente, cegamente o PS insiste.
No passado domingo, o «Público», ainda que o não quisesse, veio atribuir mais uma triste medalha à governação do PS.
Titulava assim aquele jornal – «Portugueses vítimas de exploração na construção civil em Espanha» (a afirmação é do Público!).
Neste título estão contidas duas ideias. A primeira é a de que, em tempos de lucros milionários da Banca e das principais empresas cotadas em Bolsa, há milhares e milhares de portugueses forçados a ir vender a sua força de trabalho para o estrangeiro (e Espanha não é o único destino, como ficou bem provado na recente crise de gripe das aves numa herdade britânica, onde trabalhavam centenas de portugueses), desperdiçando-se assim, um capital de energia que tanta falta faz a Portugal.
A segunda é a de que estes portugueses, na ausência de perspectivas de futuro na sua terra, sujeitam-se à mais aviltante «exploração». E, não sendo nossa a expressão, ela tem o significado de uma relação de trabalho que pouco mais é que escravatura.
Num vai-vem diário ou semanal – correndo riscos que a vida vem demonstrando serem bem reais – andam, conforme sublinha outro título do periódico, «centenas ao engano».
Serão centenas ou mais de 70 mil, de acordo com os Sindicatos. Deixam famílias em busca de um salário que recompense jornadas de doze e mais horas diárias. Descansam em pardieiros arranjados à pressa por empresários sem escrúpulos. Quantas vezes para não trazer nada para casa.
São estas as medalhas que deviam envergonhar qualquer governo e, por maioria de razão, um Governo do PS.
Trinta e três anos após a Revolução de Abril, já não vai muito longe o tempo em que era preciso ir a salto para terras de França fugindo à Guerra e à miséria.
Agora já não é preciso ir a salto. E só não se foge à guerra.
in AVANTE 2007.03.15
IMAGEM:
Vincent van Gogh
Shoes, 1888, oil on canvas Metropolitan Museum of Art, New York City photograph courtesy Michael Weinberg Photography, Clarks Summit, Pennsylvania
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