A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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quinta-feira, novembro 24, 2011

«PIGS» em luta



sábado, julho 11, 2009

O Chora e a Auto-Europa


O ministro Manuel Pinho, após cornear, literalmente e de uma assentada, a Assembleia da República, o Governo a que pertencia, o cargo que ocupava e as regras básicas da civilidade, foi inevitavelmente despedido com os encómios da praxe – aqueles que, nos funerais, transformam qualquer morto num vivo acervo de virtudes.
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As exéquias ao turbulento governante prolongaram-se num «jantar de homenagem» enjorcado pelos colaboradores que o acompanharam na aventura ministerial e, para parecerem muitos, organizaram-se em pequena multidão, que ia desde os motoristas e contínuos aos secretários de Estado, assessores e outros consultores, presentes e pretéritos.
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Tudo isto dificilmente justificaria uma missa, e muito menos uma reportagem, quando um conviva salvou repentinamente a noite e o entremez.
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Foi ele António Chora, o dirigente sindical da Autoeuropa, que fez questão de se apresentar no Solar dos Presuntos (local do repasto) para declarar solenemente ao Pinho, ao jantar e a Portugal que «o ministro fez muito pela indústria do País».
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Tão salvífica prestação valeu ao Chora um lugar à esquerda do ministro, pois claro, e o destaque da sua presença no jantar em todas as reportagens do evento, enquanto ao Diário de Notícias dava a possibilidade de titular o seu relato com a ribombante afirmação «Manuel Pinho fez jantar de despedida com trabalhadores».
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A confirmá-lo, ali estava o Chora a brindar, animadíssimo, entrechocando copos com o próprio governante.
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Acontece que António Chora não é um simples operário entre os milhares da Autoeuropa: é sobretudo porta-voz da Comissão de Trabalhadores (CT) da empresa, papéis que lhe granjearam relevo nacional, no exercício dos quais conquistou inesgotáveis receptividades na Comunicação Social e aberta simpatia nos patrões e comentadores afins.
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Simpatias, aliás, exemplarmente resumidas e fixadas numa crónica de Emídio Rangel, esse opinador fatal, que incensava o Chora porque «fez recuar os anacrónicos sindicatos que temos no País», «tem conseguido travar as reivindicações sem nexo» e tem «provado à saciedade que a defesa dos interesses dos trabalhadores pode ser conciliada com a salvaguarda dos objectivos e propósitos da entidade empregadora». Por isso, lamentava que um plenário geral de trabalhadores tivesse «tramado o Chora» ao chumbar o pré-acordo que este havia cozinhado com a administração da Autoeuropa na sequência de mais uma chantagem, louvando-lhe, para cúmulo, a sua «imensa sabedoria» ao considerar «que os trabalhadores (seus camaradas de trabalho) confundiram as propostas de mais flexibilidade com perda de direitos adquiridos».
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Adaptando o aforismo, «diz-me quem te apoia e dir-te-ei quem és». No caso do Chora, o seu sindicalismo fica reforçadamente «dito» com os apoios que ele próprio já concede a ministros especializados em falências e despedimentos colectivos.
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Por isso não admira que Francisco Louçã, líder do Bloco de Esquerda, se tenha apressado a demarcar-se do Chora, declarando que «esse jantar não tinha carácter de afirmação política e a participação de António Chora reporta exclusivamente a uma participação de carácter pessoal».
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É que o Chora também é dirigente do Bloco de Esquerda e, convenhamos, não fica bem a uma «Esquerda a Sério» ter um membro da sua Comissão Política a jantar louvores ao ministro do Executivo que mais à direita tem governado nas últimas décadas...
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in Avante 2009.07.09
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sábado, junho 27, 2009

As «escolhas» de Cavaco ou a sua maior importância


A escolha

Há dias, o Presidente da República Aníbal Cavaco Silva proferiu uma afirmação de peso.
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Disse ele: «Não consigo imaginar algo mais importante para os superiores interesses de Portugal do que a escolha de um português para presidente da Comissão Europeia».
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Comecemos por anotar que o Presidente da República «não consegue imaginar», no actual momento de crise profunda que o País atravessa, com mais de meio milhão de desempregados, o sistema produtivo desarticulado e a economia em recessão, algo mais importante para «os superiores interesses de Portugal» que «meter um português» na presidência da Comissão Europeia.
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Provavelmente, o que aqui falta em imaginação só tem paralelo com o que também falha em sentido de Estado.
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Primeiro, não se percebe que importância terá, seja para que país for da União, a escolha de um seu autóctone para presidente da Comissão Europeia quando, por definição e compromisso expresso, o titular deste cargo está obrigado a uma estrita independência em todos os domínios de intervenção, a começar pelo das nacionalidades e nações.
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Acresce que, ao colocar a escolha para a presidência europeia de um patrício e correligionário ao nível dos «superiores interesses» da pátria, o Presidente da República parece ver a presidência europeia como um negócio de amigos e o «interesse nacional» como um produto de mercado.
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Finalmente, fica a ideia de que, para o actual PR, o ser português é qualidade necessária e suficiente para definir um patriota e segregar os aplausos da nação. Esquece que Salazar também era português, tal como Silva Pais ou os seus torcionários da PIDE, para falarmos de exemplos «superiores».
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Ora quem é este português que o PR não hesita em equiparar a um «superior interesse de Portugal»?
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É Durão Barroso, o correligionário de Cavaco Silva que usou o cargo de primeiro-ministro português para transformar o território nacional no palco da «Cimeira da Vergonha», onde foi engendrada a Guerra do Iraque.
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O mesmo Durão Barroso que serviu, pessoalmente, nos Açores de mordomo ao Trio da Guerra – Bush, Blair e Aznar -, contentando-se com um lugar nas «fotos de família», onde se encarrapitava exundando felicidade.
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O Durão Barroso que foi devidamente compensado por esta «disponibilidade» açoriana com um convite para a presidência da Comissão Europeia, penacho que aceitou tão gulosa como rapidamente, tal era a vontade de fugir ao ajuste de contas eleitoral que se acastelava no horizonte, como corolário da sua desastrosa governação.
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Compreende-se que nada disto impressione o Presidente da República, um veterano e pioneiro nesta manobra da fuga às responsabilidades governativas.
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Por isso também se compreende – embora seja inadmissível – que Cavaco Silva, agora como Chefe de Estado, não consiga imaginar «algo mais importante» para os «superiores interesses de Portugal» que a recandidatura de Durão Barroso à presidência da Comissão Europeia.
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Já não se percebe onde é que tal currículo de Durão Barroso motiva o PS de Sócrates a apoiar, igualmente, a sua recandidatura à dita presidência.
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Só se for em paga pelo «desastre Santana Lopes», que a fuga de Barroso propiciou e tão determinante se tornou para a maioria absoluta do PS.
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A tal com que o Governo Sócrates bateu a própria política reaccionária de Durão Barroso, ultrapassando-a - pela direita, e largamente.
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in Avante 2009.06.26
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quarta-feira, abril 30, 2008

Os dramas do PSD

A demissão

O PSD entrou mais uma vez em ebulição e, com ele, o País. Neste momento não há canal de televisão que não apresente um debate sobre o assunto, rádio que sobre ele não alinhe comentários a puxar ao judicioso, primeiras páginas que não lhe dispensem o melhor do seu espaço, comentadores que não se apliquem, esforçados, a desencantar mistérios na demissão de Luís Filipe Menezes.
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Isto apesar de a coisa, razoavelmente, não ter mistério que se veja. Luís Filipe Menezes limitou-se a dar mais uma cambalhota após uma entusiasmada série delas à frente do PSD. Aceita-se que este último exercício teve a sua espectacularidade, mas não desmerece qualquer dos que exibiu nesta sua fugaz liderança, seja a promessa de desmantelar o Estado em seis meses, de impor uma nova Constituição, de privatizar tudo numa legislatura ou de declarar o seu partido em estado impróprio para governar, asserções que igualmente desdiria com a mesma descontracção, após críticas e sarcasmos colhidos nos jornais.
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É, aliás, um ponto assente que este atleta nunca teve fôlego para a alta competição mas, em contrapartida, foi-se tornando exímio na pista dos circos políticos.
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Seja lá como for, Menezes desistiu e desta vez nem chorou nem nada perante a televisão, mesmo afirmando, de novo, que a traição e a infâmia o continuam a perseguir.
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Pode ser, ou não, que Menezes sonhe recandidatar-se, tal como é possível haver por aqui, ou não, a tal manobra visando uma «vaga de fundo» que desencadeie o regresso triunfal do líder agora demissionário. Com a figura em presença tudo é possível, mas o que importa é que a demissão de Menezes desencadeou o alvoroço da praxe e, nem uma semana depois, já vários candidatos escarvam promessas na linha de partida.
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O primeiro a chegar-se à frente foi Pedro Aguiar Branco, para ser também o primeiro a desistir a favor de Manuela Ferreira Leite, que de medíocre ex-ministra da Educação e má ex-ministra das Finanças (por exemplo, são dela os primeiros grandes ataques à Função Pública), com o passar dos anos e a promoção mediática se transmutaria numa «personalidade incontornável» destilando «competência» e «prestígio» que ninguém sabe donde vieram ou como foram adquiridos, mas que a generalidade dos órgãos de Informação garante e proclama. Há também um Pedro Passos Coelho, que parece ter deixado de ser o «jovem dirigente» que protagonizou durante décadas para surgir agora - ao que consta finalmente licenciado e tudo -, maduro o suficiente para reivindicar o troféu da casa, além do inevitável Pedro Santana Lopes, que continua a «andar por aí» nos seus preparos de «menino-guerreiro», sempre pronto a subir ao primeiro palco que apanhe a jeito.
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Todavia, o drama maior do PSD já não assenta no conhecido «saco de gatos» que sempre constituiu a disputa pelo poder no partido. O seu maior problema, actualmente, chama-se José Sócrates, cujo Governo PS está não apenas a cumprir toda a política de restauracionismo capitalista também praticada e defendida pelos Executivos do PSD, como o está a fazer com muito mais eficácia – tanta que, com Menezes ou sem ele, o PSD não consegue de há três anos para cá opor-se seriamente ao que quer que seja na política deste Governo.
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Não é por acaso que José Júdice, um ex-PSD agora unha-com-carne com José Sócrates, chegou já ao extremo de propor a «fusão» entre o PS e o PSD. Na verdade nada os tem distinguido, no terreno concreto da governação que ambos têm partilhado em exclusivo.
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A não ser, eventualmente, a melhor performance de Sócrates. Na política de direita, claro.
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in Avante 2008.04.24
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quarta-feira, outubro 31, 2007

O arruaceiro



* Henrique Custódio
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São conhecidas as penas que por aí andam a opinar ao serviço e ao sabor das conveniências do poder. Compreende-se porquê: não se morde a mão do dono. Hoje, os grandes órgãos de comunicação social ou pertencem a meia dúzia de grupos económicos ou dependem do Governo.
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Daí que não seja novidade o branqueamento que, mais uma vez, a alfurja desses comentadores tentou espraiar sobre as graves ocorrências desencadeadas na sequência de manifestações frente ao primeiro-ministro José Sócrates, nomeadamente o «sequestramento» e identificação de manifestantes atrás de uma fita realizado pela GNR em Montemor-o-Velho ou a inacreditável «visita» de dois agentes da PSP ao Sindicato dos Professores na Covilhã, para intimidar a luta dos sindicalistas.
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Um comentador houve, contudo, cujo encarniçamento na defesa de Sócrates atingiu tal desvario nas páginas do CM, que merece alguma referência. Falamos de Emídio Rangel, autor de uma prosa com o mimoso título «Os arruaceiros».
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Depois de perguntar se «é democrático» que «um cidadão, legitimado pela escolha dos portugueses em eleições livres, chamado a ser primeiro-ministro» tenha de «suportar, sempre que se desloca em serviço pelo País», diversas «ofensas e indignidades» vindas de «uma “manifestação espontânea” com trinta ou quarenta cidadãos vindos de fora», Rangel denuncia, citando uma fonte chamada «toda a gente»: «Creio que toda a gente sabe que essas “manifestações espontâneas”, ilegais, são da inteira responsabilidade do Partido Comunista, que as prepara meticulosamente».
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Posto isto, lança a «hipótese» de o PCP ter «um centro de preparação de arruaceiros desta estirpe» e denuncia, agora sem citar «fontes», como é que se organiza a coisa: «São mobilizadas vinte ou trinta pessoas comuns» (pelos vistos os comunistas também podem ser «comuns»), com umas «faixas com as mensagens decididas no partido, os atestados médicos para os libertarem do emprego naquele dia, um “autocarrozito” para os levar», mais «umas lancheiras para o “almocito” do dia e lá vão eles, cumprir a arruaça programada».
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E para que não restem dúvidas sobre o pensamento que o move, conclui que «ainda não percebi, em toda esta mistificação, a razão pela qual os Serviços de Segurança permitem que os arruaceiros façam o seu “teatro” ilegal e ofensivo a poucos metros do primeiro-ministro».
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Só lhe faltou acrescentar que os tais «arruaceiros» deveriam ser presos ou corridos a tiro -como no fascismo -, mas não faz mal, a gente percebe.
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Convém recordar ao prosador que as manifestações – longe ou perto do primeiro-ministro - não são «ilegais» nem «teatros»: são direitos democráticos conquistados com Abril e consagrados na Constituição.
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Registamos, contudo, o repentino desvelo de Rangel para com as «escolhas dos portugueses em eleições livres». Para quem, não há muito tempo, fanfarronava do alto da sua proeminência à frente da SIC que «elegia Presidentes da República como quem vende sabonetes», configura um passo em frente.
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Quanto a seu anticomunismo, pela amostra, já deixou de ser primário e tornou-se bacoco.
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«Central de arruaceiros»?!... «Mensagens do Partido» com «lancheiras» e «almocitos»?!... Francamente...
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Assinalamos, finalmente, que Rangel não se deve iludir com o facto de ter começado a ser notícia e «notável» da comunicação quando arrombou à marretada as portas da TSF. Se sonha recuperar o poder doutros tempos na televisão adulando José Sócrates, deve ter em conta que a marreta não será a pena mais adequada para redigir panegíricos...
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in Avante 2007.10.18
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Foto - O Fado - de Maurice Mariaud - Col Cinemateca Portuguesa

terça-feira, outubro 30, 2007

O método


* Henrique Custódio
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No «Forum TSF» da passada terça-feira abriu-se a antena para os ouvintes se pronunciarem sobre a inacreditável «visita» de dois polícias à paisana, no dia anterior, à sede do Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC) na Covilhã, onde se apropriaram de documentos de informação e deram «conselhos» intimidatórios sobre as palavras de ordem a utilizar numa manifestação, durante uma deslocação do primeiro-ministro José Sócrates.
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No coro generalizado de protestos por parte dos ouvintes que telefonaram para a TSF – e onde as classificações a este acto policial oscilaram entre o «autoritarismo inadmissível» e o «semelhante ao fascismo» - foi proferida uma frase lapidar: «Neste caso lamentável não se deve criticar a PSP, porque a polícia é um braço armado às ordens do Governo. O grande responsável deste acto pidesco é o primeiro-ministro José Sócrates».
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É o que se chama acertar no alvo. De facto, e incontornavelmente, José Sócrates é o grande protagonista da semana, tendo o seu actual descalabro começado exactamente nas cerimónias do 5 de Outubro.
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Nesse dia, após as festividades, o chefe do Governo foi interpelado sobre os protestos dos professores contra a política na Educação, tendo respondido esta coisa extraordinária: «protestos dos professores, não, o que há são protestos de sindicalistas, o que é uma coisa muito diferente».
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Ficava dito, sem tergiversações, que para o «socialista» José Sócrates os sindicalistas não são trabalhadores, não representam os seus camaradas de profissão e, pelos vistos, nem legitimidade têm para falar por quem os elegeu e mandatou. Já que assim pensa, como se atreve José Sócrates a brandir a sua famosa maioria absoluta para justificar todos os desmandos sociais da governação? Segundo o seu raciocínio, o Executivo que chefia também não é quem o elegeu, não representa sequer quem o elegeu e, assim sendo, como pode reivindicar o direito – ainda por cima absoluto - de governar em seu nome?!...
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.Dois dias depois, em Montemor-o-Velho, nova manifestação o aguardava durante mais uma inauguração, e aqui a fleuma democrática do primeiro-ministro estalou num instante: enquanto subia a parada com a declaração, em sorriso amarelo, de que «os comunistas, onde quer que eu vá, fazem manifestações utilizando os seus dirigentes sindicais» - usando, sem rebuço, a argumentação do fascismo para silenciar protestos sociais -, a GNR no local tirava faixas aos manifestantes, identificava outros e acabou a encurralá-los atrás de uma fita, fora da qual só permitiam quem fosse aplaudir o governante, que entretanto presenciava tudo isto com flagrante anuência.
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Parecia o ensaio do episódio supracitado da Covilhã: num acto sem precedentes desde o 25 de Abril, dois agentes da PSP entraram na sede de um sindicato para amedrontar os sindicalistas e condicionar uma manifestação programada para o dia seguinte.
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Tão chocante escalada repressiva desencadeou a indignação generalizada por todo o País, com declarações de repúdio partidário da Esquerda à Direita e a vergonhosa tergiversação do PS, o que levou o Ministério da Administração Interna a promover «um inquérito» ao episódio da Covilhã, que classificou de «inaceitável», e o próprio José Sócrates a recuar com a afirmação ridícula de que «só soube do assunto pelos jornais», acrescentada com a ironia pacóvia de que «sentiria a falta» dos manifestantes do PCP se estes «deixassem de o acompanhar».
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Porém, tudo isto evidencia mais factos incontornáveis. Um, que José Sócrates é o óbvio e directo responsável de tudo isto: na verdade, as polícias cumprem sempre ordens e quem as determina é o Governo. Outro, que José Sócrates tem uma visão tão autoritária do poder, que se atascou em métodos perigosamente antidemocráticos e, já, a confundir-se com o que se usava no fascismo.
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in Avante Nº 1767 11.Outubro.2007

quarta-feira, maio 16, 2007


Nem um chavo...

* Henrique Custódio

O Tribunal de Contas surgiu esta semana com umas contas demolidoras, como mostra o Público.

Uma dessas contas – apresentadas num relatório de auditoria às parcerias público-privadas - conclui que «as concessionárias rodoviárias e ferroviárias reclamam do Estado quase 1200 milhões de euros em processos de reequilíbrio financeiro», custos que «podem ultrapassar 1600 milhões de euros se incluirmos um montante de 465,3 milhões já objecto de acordos».

Isto, sublinhe-se, para «reequilíbrio financeiro», o que significa que esta verba astronómica de 1600 milhões de euros (320 milhões de contos) é «apenas» um complemento, um extra que o Estado terá de pagar aos privados sobre o negociado.

É que se somarmos tudo – o «bolo central» que está contratualizado, mais os «reequilíbrios» atrás referidos e ainda os «encargos adicionais» relativos a «expropriações», «alargamento de vias» e «outros» (onde há-de caber sabe-se lá o quê) -, o Tribunal de Contas destapa outro buraco neste negócio com os privados: nem mais nem menos que uma diferença de encargos de quase 3.500 milhões de euros (700 milhões de contos) que podem recair sobre o Estado até 2037 pelas principais concessões actualmente em vigor, ou seja, as despesas totais deste «negócio» podem ascender a cerca de 19.500 milhões de euros, quando o relatório do Orçamento do Estado para 2005 inscrevia «apenas» 16.060 milhões (3.212 milhões de contos...).

Com tantos milhões do erário público a andar displicentemente para trás e para a frente pelas mãos dos nossos governantes, há uma coisa que já ninguém pergunta: quem ganhou o quê com esta onda de concessões e privatizações na construção e exploração de auto-estradas, que sucessivos Governos do PSD e do PS aplicadamente impuseram ao País?

Sempre disseram que tais concessões iam permitir a «construção de mais estradas» sem sobrecarregar «o investimento público» e o Governo PS de António Guterres criou inclusivamente as agora famosas «Scut» (auto-estradas sem custos para o utilizador) na base de umas contas onde o erário público não seria penalizado.

Agora que tudo está «em andamento», o que se conclui, pela avaliação do próprio Tribunal de Contas, é que o Estado paga tudo e com língua de palmo, desde a construção das auto-estradas, continuando nas «expropriações, alargamento de vias e outros» e desembocando em rendas astronómicas ao longo de décadas acrescentadas com mais pagamentos astronómicos anuais para «reequilíbrios financeiros».

Portanto está à vista quem ganha neste negócio das concessões das auto-estradas e ferrovias: todos os «privados» que celebraram contratos, sempre leoninos, com o Governo de serviço, onde não arriscam um tostão furado e exigem lucros garantidos antecipadamente e à partida, como foi escandalosamente «exemplificado» pelo então ministro João Cravinho ao «negociar» com a Fertagus a exploração da travessia ferroviária da Ponte 25 de Abril (onde o Governo pagou todas as obras e infraestruturas e esta se limitou a receber a exploração com a garantia de que teria sempre lucro pago pelo Estado, independentemente do tráfego registado e receitas obtidas), prosseguindo em todas as auto-estradas e Scuts por aí espalhadas, onde os privados – sem nada arriscar - ora recebem as verbas fabulosas das portagens, ora o pagamento correspondente pelo Estado no caso das Scuts, tudo acrescentado por «reequilíbiros financeiros» onde o dinheiro público continua a jorrar em caudal para as suas privadas contas.

Na prática, o que sucessivos Governos do PS e do PSD queriam mesmo era entregar ao capital privado o sector das comunicações, tão estratégico como lucrativo. E fizeram-no, ainda por cima, de modo a que os «privados» nem um chavo arriscassem...

Artigo publicado na Edição Nº1672 2005.12.15