A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht
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domingo, julho 29, 2007

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Fados do Tempo da Outra Senhora (38)
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Os Almocreves:
sua importância enquanto agentes de comunicação inter-comunitários
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* André Mano
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Na nossa era de informação instantânea, constante e omnipresente, imaginarmo-nos a nascer, viver e morrer no mesmo sitio poderá ser um exercício mental complicado, contudo, só fazendo este exercício poderemos compreender o quão importantes eram todos aqueles que não faziam o seu dia-a-dia numa determinada localidade mas entre várias.
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Era esse o caso dos Almocreves, condutores de animais de carga que faziam do transporte de bens de uma terra para outra a sua profissão. Não confundir almocreves com mercadores, pois que na maior parte das vezes os bens que transportavam não eram propriedade sua, embora fosse comum um almocreve ser também mercador. Na maior parte das vezes, o almocreve alugava os seus serviços de carga e transporte a mercadores, pescadores, lavradores e até aos municípios e ao Estado. Também acontecia não serem proprietários dos animais porque a almocrevaria, se bem que não sendo uma actividade de grandes rendimentos, atraía algumas pessoas do que hoje chamaríamos "classe média" que entregavam os seus bois e burros a este negócio, contratando um almocreve para o exercício da actividade propriamente dita.
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Profissão conhecida em Portugal desde pelo menos os tempos do Conde D. Henrique (séc. XI-XII), ainda em princípios do séc. XX existiam pessoas que viviam da almocrevaria, altura em que a industrialização e o desenvolvimento das comunicações, tornou este ofício obsoleto. Não obstante, na Idade Média e na Idade Moderna a importância dos almocreves é demonstrada através do facto de cada vila ter o seu corpo de almocreves submetidos ao almotaçé (oficial concelhio encarregado da fiscalização de questões logísticas e de abastecimento da respectiva vila ou cidade), e também por constituírem, não raras vezes, entre os profissionais do comércio e dos serviços o grupo mais numeroso, o que revela a importância da economia local em detrimento de uma economia baseada em relações internacionais como acontece hoje. Assim, e a título de exemplo, Torres Vedras no séc. XV tinha 47 almocreves inscritos e apenas 32 mercadores.
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Como já se percebeu, falamos de um mundo muito maior que o nosso, um mundo em que 50km não são meia hora mas um ou dois dias; um mundo em que os produtos de primeira necessidade se confundem com produtos de luxo; um mundo que assentava numa micro economia e numa micro sociedade de dimensão local que só por ocasião das feiras conhecia produtos e gentes "de fora"...
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Neste mundo grande, quem o pudesse tornar mais pequeno revestia-se de grande importância como comprovam os vários privilégios de que os almocreves gozavam. Em muitos locais podiam comprar e transportar cereais (prática normalmente proibida aos particulares locais), e também era comum terem algum tipo de isenção em algumas portagens terrestres, abundantes na Idade Média. De entre as rotas de abastecimento mais importantes, destaque para as que levavam os almocreves a transportar peixe do litoral para o interior e, no sentido inverso, cereais, bem como o transporte de mercadorias agrícolas e artesanais na zona raiana.
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À importância económica junta-se o papel primordial que tinham enquanto elementos de ligação inter-comunitários, porque não eram só mercadorias que os almocreves levavam. Com eles iam também as noticias de freguesia para freguesia, do campo para a cidade, e da cidade para o campo. Quem ia casar com quem, quem comprou o quê, quem vendeu o quê, quem é o novo pároco de sítio tal, se as colheitas para lá da serra prometem, se há perigo de guerra, etc etc...
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Durante muitos séculos os almocreves foram praticamente o único canal de comunicação, especialmente entre as comunidades das regiões mais inóspitas e isoladas das zonas serranas. Ao manterem a comunicação, os almocreves contribuíram também (aparte as rivalidades, não raras vezes seculares, entre algumas aldeias), para a formação e manutenção de elementos comuns de identidade, fundamentais para a formação de um sentimento de pertença a uma cultura e a uma nação que, não obstante as particularidades regionais, tinha na sua base elementos comuns.
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Embora a partir do séc. XIX o estatuto do almocreve começasse a decrescer, era no geral uma profissão respeitada e considerada, pois além das noticias e das mercadorias, os almocreves trilharam rotas e ao longo dos caminhos por eles trilhados nasciam estalagens, albergarias, e outros negócios familiares de apoio ao viajante, sendo os almocreves uma importante parte da clientela...
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Mas regra geral, a vida de almocreve era perigosa, especialmente nas zonas altas, onde o frio e as tempestades, podiam fazê-los perderem-se, além do perigo constante dos assaltos por parte de bandidos que infestavam os caminhos, sem esquecer os lobos e, em tempos mais remotos, os ursos. Fiquemos com o testemunho que Carlos de Oliveira Silvestre, no seu livro "Crónicas da Serra" (de Montemuro), nos dá sobre a seu contacto, em meados do séc. XX, com aquele que foi decerto um dos últimos almocreves:
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" Quantas vezes foram surpreendidos na serra pelo cair da noite, no meio de terríveis tempestades de chuva e neve, com o ribombar dos trovões a fazerem alternância ao uivar dos lobos. Na escuridão, que só os relâmpagos quebravam aqui e além, era impossível seguir o invisível carreiro que os devia conduzir a porto seguro [...] Lembro-me de, num certo dia de terrível tempestade, ter batido à porta da nossa humilde casa um almocreve de Penude com o burrito carregado de milho. As fortes pancadas que bateu na porta traduziam bem o desespero que lhe ia na alma. Depois de acolhido com a solicitude e carinho que nos era possível, o homem, de lágrimas nos olhos, contou a sua triste viagem. Perdera-se na serra e caminhara à sorte, sem saber para onde. Quando viu a luz da nossa candeia através da janela, quase não quis acreditar que estava salvo."
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quarta-feira, maio 09, 2007


Fados do Tempo da Outra Senhora (37)
Quitandeira


* Agostinho Neto


A quitanda.
Muito sol
e a quitandeira à sombra ~
da mulemba.

- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!

A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.

A quitandeira
que vende fruta vende-se.

- Minha senhora laranja,
laranjinha boa!

Compra laranja doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.
Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.

Laranja, minha senhora!
Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava ´
eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo com os próprios problemas da existência.


Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
- sangue.

Talvez vendendo-me
eu me possua.

- Compra laranjas!


Canção para Luanda


* Luandino Vieira

(Angola)


A pergunta no ar
No mar
Na boca de todos nós:
- Luanda onde está?

Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos

- Xê
mana Rosa peixeira
responde?

- Mano
Não pode responder
Tem de vender
Correr a cidade
se quer comer!

«Ola almoço, ola amoçoeé
Matona calapau
Jiferrera jiferreresé»

- E você
Mana Maria quitandeira
Vendendo maboque
Os seios-maboque
Gritando
Saltando
Os pés pescorrendo
Caminhos vermelhos
De todos os dias?
«Maboque m’boquinha boa
Dóce docinha»

- Mano
Não pode responder
O tempo é pequeno
para vender!

Zefa mulata
O corpo vendido
Baton nos lábios
Os brincos de lata
Sorri
Abrindo o seu corpo

- seu corpo-cubata!

Seu corpo vendido
Viajado
De noite e de dia.

- Luanda onde está?

Mana Zefa mulata
O corpo-cubata
Os brincos de lata
Vai-se deitar
Com quem lhe pagar
- precisa comer!

-Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casas antigas
O barro vermelho
As nossas cantigas
Tractor derrubou?

Meninos nas ruas
Caçambulas
Quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?
- Manos
Rosa peixeira
Quitandeira Maria
Você também
Zefa mulata
dos brincos de lata

- Luanda onde está?

Sorrindo
As quindas no chão
Laranjas e peixe
Maboque docinho
A esperança nos olhos
A certeza nas mãos
Mana Rosa peixeira
Quitandeira Maria
Zefa mulata
- Os panos pintados
Garridos
Caídos
Mostraram o coração:

- Luanda está aqui!


Luandino Vieira, in “Cultura II, 1957, n.º 1



* Viriato da Cruz

(Angola)

MAKEZÚ


- "Kuakiè!!!... Makèzú, Makèzú..."

...................................................


O pregão da avó Ximinha
É mesmo como os seus panos,
Já não tem a cor berrante
Que tinha nos outros anos.

Avó Xima está velhinha,
Mas de manhã, manhãzinha,
Pede licença ao reumâtico
E num passo nada prático
Rasga estradinhas na areia...

Lá vai para um cajueiro
Que se levanta altaneiro
No cruzeiro dos caminhos
Das gentes que vão p'a Baixa.

Nem criados, nem pedreiros
Nem alegres lavadeiras
Dessa nova geração
Das "venidas de alcatrão"
Ouvem o fraco pregão
Da velhinha quitandeira.

- "Kuakiè... Makèzú... Makèzú..."
- "Antão, véia, hoje nada?"
- "Nada, mano Filisberto...
Hoje os tempo tá mudado..."

- "Mas tá passá gente perto...
Como é aqui tás fazendo isso?"

- "Não sabe?! Todo esse povo
Pegó um costume novo
Qui diz qué civrização:
Come só pão com chouriço
Ou toma café com pão...

E diz ainda pru cima
(Hum... mbundo kène muxima...)
Qui o nosso bom makèzú
É pra veios como tu".

- "Eles não sabe o que diz...
Pru qué qui vivi filiz
E tem cem ano eu e tu?"

- "É pruquê nossas raiz
Tem força do makèzú!..."

(Poemas, 1961)
* António Cardoso
Oferta

Sou a quitandeira mais doce
que todos os doces de coco,
minha boca é tão docinha
como a fruta da minha quinda.
Tenho os seios para dar
duas laranjas do loje,
tenho nos olhos pitangas
tão boas de namorar

Tenho o Sol na barriga
e doçura da manga nos braços,
quem quer a minha vida
pra adoçar os seus cansaços?

(No reino de Caliban II - antologia panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa)
Quadro - Quitandeiras - Lívio Morais
Fados do Tempo da Outra Senhora (36)


A quitandeira “condenada” a desaparecer, tal como o quiosque, c. 1895.Marc Ferrez. In: KOK, Glória. Rio de Janeiro na época da Av. Central. São Paulo: Bei Comunicação, 2005.

in
http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/historia/hist31f.htm



Ao contrário da anterior, vendedora ambulante, esta estava no «mercado» VN

Fados do Tempo da Outra Senhora (35)


Quitandeira
Fruit and Vegetable Vendor, Rio de Janeiro, Brazil, 1850s

Fonte

Daniel P. Kidder, Brazil and the Brazilians, portrayed in historical and descriptive sketches (Philadelphia, 1857), p. 167. (Copy in Special Collections Department, University of Virginia Library)

Comentários

Shows female hawker, "The Quitandeira," carrying a tray on her head with her infant tied to her back. "The quitandeiras are the venders of vegetables, oranges, guavas, . . mangoes… sugar-cane, toys, etc. They shout out their stock in a lusty voice . . . . The same nasal tones and high key may be noticed in all. Children are charmed when their favorite old black tramps down the street with toys or doces." The same illustration appears in later editions of this work, e.g., 1866 (6th ed.), 1879 (9th ed.).
in


António Cardoso
Oferta
Sou a quitandeira mais doce
que todos os doces de coco,
minha boca é tão docinha
como a fruta da minha quinda.
Tenho os seios para dar
duas laranjas do loje,
tenho nos olhos pitangas
tão boas de namorar

Tenho o Sol na barriga
e doçura da manga nos braços,
quem quer a minha vida
pra adoçar os seus cansaços?
(No reino de Caliban II - antologia panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa)
Nasceu a 8 de abril de 1933 em Luanda, onde fez os estudos liceais. Teve a sua estreia no boletim "Estudante" (órgão dos alunos do ex-liceu Salvador Correia) e na revista "Mensagem". Foi preso pela PIDE (polícia portuguesa) em 1959 e de novo em 1961, só sendo libertado a 1 de maio de 1974, depois de ter passado cerca de três anos em cadeias de Luanda e aproximadamente dez no Campo de Concentração do Tarrafal, fato que marcou muito a sua obra. Após a independência, exerceu funções superiores na Rádio Nacional e na Secretaria de Estado da Cultura.
Nota: Em Luanda as quitandeiras e muitas mulheres vestiam-se do mesmo modo da gravura e do mesmo modo transportavam os filhos às costas.
VN

terça-feira, maio 08, 2007








Fados do Tempo da Outra Senhora (34)



LATOARIA





Tem um século, pelo menos, a arte de latoeiro de que são portadores os irmãos Freitas da Chamusca. Em mil novecentos e poucos já mestre Henrique Latoeiro tinha oficina aberta, nesse tempo na esquina do largo do coreto com o do hospital velho.Há sessenta anos, Francisco Freitas, que tinha sido aprendiz, comprou-a para seu uso e transferiu-a mais tarde, no fim dos anos 50, para onde está agora, ao pé do Café Império. Ensinou a arte aos filhos, que são no nosso tempo, os únicos representantes dela numa vila que já teve quatro oficinas de latoeiro com trabalho que sabe Deus.
E trabalho há é muito, as vezes nem sabe um homem para onde se há-de virar, porque a procura é crescente e cada vez menos quem a satisfaça a preceito. 0 que mudou foi a obra porque o mundo em que vivemos já não é o de mestre Henrique.
Então eram as quartas para a cura, os pulverizadores, os canos de rega que havia antes do pIástico e que se chegaram a produzir aqui ao ritmo de 200 metros por dia, a trabalhar de empreitada. E alcatruzes para as noras, medidas de folha, do meio decilitro ao almude, balanças de braços, talhas para o azeite, tarefas para os lagares, um ror de coisas que hoje muita gente já nem sequer sabe o que é.
Também se faziam lanternas, de folha, claro, até que o plástico chegou e tomou conta de tudo. Mas cansa, por não ser bom nem verdadeiro, e hoje em dia, curiosamente, é lanternas o que os irmãos Freitas mais produzem outra vez na oficina. De folha, claro, artísticas e perfeitas, e é aí que está a diferença que atrai a clientela e proporciona trabalho a quem assim as faz. Dos tempos da velha oficina ainda tem, a funcionar na perfeição, a bigorna e a calandra, um instrumento que serve para enrolar e quinar chapa ou arame. A fieira, que dobra, vinca, faz rebordos e executa todos os enfeites na chapa, foi adquirida há menos tempo, mas a antiga ainda a conservam como peça de museu. E conservam também, com orgulho, a velha forja, indispensável para soldar antes de se inventarem os maçaricos a gás. Foi ainda mestre Henrique Latoeiro, no princípio do século, que comprou essa forja, carregadinha de História. Era já usada, mas precisamente o uso que teve é que lhe dá valor e significado especial: nesse tempo, tinha acabado de ser construída a Ponte da Chamusca, toda em ferro e chaparia, e, sendo certa a tradição foi nessa velha forja que se recozeram os rebites para ela.
NOTA - Também havia os funileiros ambulantes, que punham pingos de solda em objectos de zinco, como tachos, panelas, azeiteiros, regadores e outro material, quando abriam buracos que deixavam passar o líquido. Hoje já não se vêem pelas ruas.
VN
Fados do Tempo da Outra Senhora (33)

a mula da cooperativa, a mula da cooperativa...
deu dois coices no telhado, ó és tão linda...
deu dois coices no telha-a-a-do...
por causa do José da adega, por causa do José da adega..
não saber cantar o fado...ó és tão linda
intérprete _ Max
NOTA
Embora tenham desaparecido, as mulas, machos e burros não preocupam por serem espécies em vias de extinção, como animias verdadeiros. Porque metaforicamente crescem como cogumelos. Pois aqueles simpáticos animais, uma vezes pachorrentos, outras escouceando ou fazendo finca-pé, eram muito úteis, quer puxando a carroça ou o instrumento agrícola, quer servindo de meio de transporte aos menos abonados ou mais timoratos, como o João Semana, o abade, o escudeiro ou o Sancho Pança ....
Agora os automóveis acabaram com eles, como acabaram com as bicicletas, meio de transporte para homens e mulheres menos abonados, normalmente a caminho da fábrica ou na clandestinidade em actividades ao tempo ditas «subversivas». Como desapareceram as «lambretas» e motorizadas, um nível mais acima.
VN


Fados do Tempo da Outra Senhora (32)

Na Índia o homem toca para encantar a serpente. Cá o amola tesouras tocava para encantar os clientes. Outros ainda havia que encantavam tamborilando o martelo na bigorna que, aquando dos consertos, espetavam entre as pedras da calçada. E eu ficava por ali vidrado na habilidade manual daqueles homens de avental de couro que ganhavam a sopa andarilhando a profissão. Há dias ouvi o toque corrido da gaita do amola tesouras. Raros devem resistir. O consumismo descartável empurrou para o museu da arqueologia o gatar da racha do alguidar, o amolar do fio da tesoura ou da faca e o conserto do guarda-chuva. Era muito mais do que um serviço de proximidade. Era o verdadeiro serviço sazonal do porta-a-porta. Passava de tempos a tempos, dando prazo ao fio da tesoura ficar rombo de tanto tesourar. Geralmente artífices espanhóis, galegos, dizia-se. Asturianos, digo eu, por as Astúrias serem a terra de tudo o que tenha corte afiado. Possivelmente homens refugiados da guerra civil.
Publicado por machede em fevereiro 17, 2004 03:56 PM

Comentários

Gostei desta prosa. De vez em quando a nostalgia apodera-se de nós. Esta do amolador e do seu assobio inconfundível, trouxe-me também à memória as gentes que o tempo levou e que não voltam mais; a leiteira e as suas bilhas de folha, o padeiro na sua bicicletas com os característicos cestos de pão, o “petrolinho” na sua carroça e respectivo macho que vendia muito mais que o simples petróleo ou mesmo o policia gordo no seu andamento vagaroso fazendo o seu giro diário.
Afixado por: vmar em fevereiro 17, 2004 10:34 PM

retirado do blog Alentejanando
Amolador

As peças em exposição foram pertences do Sr. Garcia, conhecido como “Espanhol” e doadas por este ao Museu da Lourinhã. O Sr. Garcia, galego e natural da zona de Orense, veio para Portugal fugido da Guerra Civil Espanhola, assim como muitos dos seus conterrâneos, procurando melhor vida. Estes exerciam, na generalidade, dois tipos de profissão: Amoladores, na qual eram mestres, arranjando chapéus de chuva, amolando facas e tesouras, actividade que lhes deu o nome, colocando “gatos” (espécie de agrafos) em loiça partida, etc.; e Taberneiros, comprando carvoarias, transformando-as mais tarde em tabernas e depois em restaurantes.

O Sr. Garcia foi disso um exemplo típico. Fixou-se na Lourinhã em 1955 executando sempre a actividade de amolador e adquirindo mais tarde uma taberna, na antiga praça antiga, que era conhecida como “Taberna do Espanhol”.

Da exposição sobressai a roda do amolador, roda essa que o Sr. Garcia doou para o Museu e vinha amolar facas e tesouras na presença dos visitantes (....)

fotografia de Américo Ribeiro - Museu do Trabalho - Setúbal






Fados do Tempo da Outra Senhora (31)







Olha o policia sinaleiro
Ai, passa agora,
Mas se não passas
Ficas sem carta e sem dinheiro

***

Sou Polícia-Sinaleiro

Deram-me, um dia, a escolher
Aquilo que queria ser
Doutor, polícia, bombeiro,
Astronauta, marinheiro?...

Sem mais pensar, eu escolhi
Ser polícia – sinaleiro

Digam lá: Não escolhi bem?
Luvas brancas, capacete,
Cinturão e ”cassetete “.
E apito - naturalmente! …

Prri… Prri… Prri… Prri

NOTA - Antes dos semáforos luminosos o trânsito era regulado pelos polícias sinaleiros, normalmente do cimo duma peanha, secos e de gestos claros, luvas e cassetete brancos, capacete «colonial» e braços entendidos ou não, alguns tão «majestosos» que sempre havia basbaques a vê-los. Lembro-me deles em Luanda, Setúbal e Lisboa. Até o toque do apito era breve, quando necessário. No Natal, na base das peanhas, os automobilistas deixavam prendas. Era o Natal do Sinaleiro.

Como disse, hoje foram substituídos pelos semáforos, até mesmo os carros já bão têm aquela lingueta luminosa que saltava indicando viragem à esquerda ou direita, substituídas pelos pisca-pisca. E hoje, quando a polícia orienta o trânsito, fá-lo de modo «nervoso», por vezes difícil de entender, sem a «magestade» de outrora, muitas vezes a soprar no aoiti, (VN)

Fados do Tempo da Oura Senhora (30)
lisboanoguinessblogs.sapo.pt
O Sapateiro - Lavadeiras de roupa - Origens
publicado por Lisboa no Guiness às 2007-04-27

Desde o século XIX e até meio do século XX, o artífice de sapateiro, desde que não trabalhasse para grandes lojas ou para casas senhoriais, para sobreviver, tinham que se estabelecer por conta própria, e para tal, tentar arranjar um vão de escada para alugar, era economicamente o mais viável.

Nesta época havia muitos sapateiros de escada por toda a Lisboa.

Era uma vida dura e pouco gratificante em termos económicos, pois os seus clientes era o povo mais humilde, que muitas vezes mandava reparar o calçado, e ou não o chegava a ir levantar por dificuldades financeiras, ou às vezes passado muito tempo.

A sua postura corporal para trabalhar, era sentado num pequeno banco de madeira muito baixo, e no seu próprio colo sobre um avental de couro era a sua mesa de trabalho, é de ver que sentado nesta posição tantas horas seguidas, com luz deficiente mesmo durante o dia principalmente no inverno, tinham que ter praticamente o candeeiro a petróleo sempre aceso.

Trabalhavam dias e dias a fio, só se parava ao domingo de manhã para ir à missa, a saúde tinha que ser precária e muitas deformações, problemas de coluna, da bacia, na vista, etc..

Meu Bisavô Rodrigo Duarte, já tinha esta profissão no Cadaval , quando com a minha bisavó Gertrudes da Conceição lavava roupa para fora.

Passaram no inicio grande dificuldades, até que arranjaram um local à Praça das Flores, que além do vão de escada para poder montar a pequena bancada de sapateiro, tinha uma arrecadação que mais não era que um corredor comprido e com uma largura razoável, atamancada para poderem lá viver. O corredor dava para um saguão , onde minha avó podia lavar roupa para fora, e foi neste ambiente que Alfredo nasceu e lá tiveram mais três filhos. (esse prédio já hoje não existe)

Rodrigo Duarte morre prematuramente em 1905 com uma "tísica galopante".

Meu avô viu-se assim aos 14 anos como o cabeça de casal, e esteve sempre com sua mãe até à hora da sua morte.

Meu avô Alfredo começa a trabalhar e arranja uma pequena casa na Rua da Páscoa, num pátio lá nasceram os seus filhos, e foi onde viveu os restos dos seus dias.

Foi um filho e irmão exemplar, que o adoravam, foi pai e um avô exremoso.
FONTE: http://blogs.sapo.pt/userinfo.bml?user=joselameiras

Foto - autor não identificado
Nota - Em Setúbal ainda existe um sapateiro deste género, com oficina na garagem da casa onde vive. Havia outro, este na varanda da casa onde vivia. Claro que a iluminação mão era a «pitróleo»

sexta-feira, março 09, 2007


Fados do Tempo da Outra Senhora (29)



A casa da Mariquinhas

É numa rua bizarra
A casa da Mariquinhas
Tem na sala uma guitarra
E janelas com tabuinhas

Vive com muitas amigas
Aquela de quem vos falo
E não há maior regalo
Que a vida de raparigas
É doida pelas cantigas
Como no campo a cigarra
Se canta o fado à guitarra
De comovida até chora
A casa alegre onde mora
É numa rua bizarra

Para se tornar notada
Usa coisas esquesitas
Muitas rendas, muitas fitas
Lenços de cor variada.
Pretendida, desejada
Altiva como as rainhas
Ri das muitas, coitadinhas
Que a censuram rudemente
Por verem cheia de gente
A casa da Mariquinhas

É de aparência singela
Mas muito mal mobilada
E no fundo não vale nada
O tudo da casa dela
No vão de cada janela
Sobre coluna, uma jarra
Colchas de chita com barra
Quadros de gosto magano
Em vez de ter um piano
Tem na sala uma guitarra

P'ra guardar o parco espólio
Um cofre forte comprou
E como o gaz acabou
Ilumina-se a petróleo.
Limpa as mobílias com óleo
De amêndoa doce e mesquinhas
Passam defronte as vizinhas
P'ra ver o que lá se passa
Mas ela tem por pirraça
Janelas com tabuinhas


Letra: Silva Tavares
Música: Alfredo Duarte (Marceneiro)

Gravura - Stuart de CARVALHAIS (1887-1961)

Fados do Tempo da Outra Senhora (28)


Tudo isto é fado

Perguntaste-me outro dia
Se eu sabia o que era o fado
Disse-te que não sabia
Tu ficaste admirado
Sem saber o que dizia
Eu menti naquela hora
Disse-te que não sabia
Mas vou-te dizer agora

Almas vencidas
Noites perdidas
Sombras bizarras
Na Mouraria
Canta um rufia
Choram guitarras
Amor ciúme
Cinzas e lime
Dor e pecado
Tudo isto existe
Tudo isto é triste
Tudo isto é fado

Se queres ser o meu senhor
E teres-me sempre a teu lado
Nao me fales só de amor
Fala-me também do fado
E o fado é o meu castigo
Só nasceu pr'a me perder
O fado é tudo o que digo
Mais o que eu não sei dizer.


Autor: F. Carvalho

Quadro - "Fado", de José Malhoa

Fados do Tempo da Outra Senhora (27)

VINHO

REFRÃO:

Era o vinho, meu Deus era o vinho

Era a coisa que eu mais adorava

Só por morte meu Deus, só por morte

Só por morte o vinho deixava

Ai minha sogra quando morreu

Ai levou o diabo com ela

Ai deixou-me a chave da adega

Ai mas o vinho bebeu-o ela

REFRÃO:

Ai eu hei-de morrer numa adega

Ai com um copo de vinho na mão

Ai o vinho é minha mortalha

Ai a pipa é meu caixão

Letra e musica popular

Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses, era um dos slogans do «Estado Novo», e também uma manifestação de machismo (embora mulheres também bebessem e se desse às crianças para dormirem) considerando-se «copinho de leite» ou pouco homem quem o não fizesse.

A este slogan juntava-se a directiva que para o povo era suficiente saber ler, escrever e contar.


Quadro - "Os Bêbados Festejando o S. Martinho" da autoria de José Malhoa (1885-1933), depositado no Museu José Malhoa (Caldas da Rainha)



quinta-feira, março 08, 2007








Fados do Tempo da Outra Senhora (26)

As Carvoeiras

São tão bonitas as carvoeiras

São tão catitas e feiticeiras

OH! Que belo rancho da mocidade

Dançai raparigas, viva a liberdade

Liberdade, liberdade

Quem a tem chama-lhe sua

Eu não tenho liberdade

Nem de pôr o pé na rua

As carvoeiras são engraçadas,

Passam ligeiras, enfarruscadas.

Parecem morenas, é do carvão,

São boas pequenas com bom coração

Popular

quarta-feira, março 07, 2007


Fados do Tempo da Outra Senhora (25)


Mãe Prêta

Samba-Jongo


Piratini/Caco Velho

* * * * * * * * * * *

Velha encarquilhada,

Carapinha branca,

Gandola de renda,

Caindo na anca,

Embalando o berço,

Do filho do sinhô,

Que há pouco tempo,

A sinhá ganhou.

Era assim que mãe preta fazia,

Criava todo branco,

Com muita alegria,

Enquanto na senzala,

Seu bem apanhava,

Mãe preta mais uma lágrima enxugava.

Mãe preta, mãe preta,

Mãe preta, mãe preta.

Enquanto a chibata,

Batia em seu amor,

Mãe preta embalava,

O filho branco do sinhô.

Interpretada em Portugal pelo Duo Ouro Negro (Angola)

Esta música, com letra de David Mourão Ferreira, numa temática completamente diferente, foi interpretada por Amália Rodrigues com o título de Barco Negro

De manhã, que medo, que me achasses feia!
Acordei, tremendo, deitada n'areia
Mas logo os teus olhos disseram que não,
E o sol penetrou no meu coração.[Bis]

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
E o teu barco negro dançava na luz
Vi teu braço acenando, entre as velas já soltas
Dizem as velhas da praia, que não voltas:

São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
Que nem chegaste a partir,
Pois tudo, em meu redor,
Me diz qu'estás sempre comigo.[Bis]

No vento que lança areia nos vidros;
Na água que canta, no fogo mortiço;
No calor do leito, nos bancos vazios;
Dentro do meu peito, estás sempre comigo.

Quadro -
Família 2000 - Herbert Smagon (alemão - n. 1927)
oil on canavas

Fonte:

http://www.art-smagon.com/
































Fados do Tempo da Outra Senhora (25)


" VAI, MARIA VAI "


Vai
Maria vai
Maria vai
Maria vai trabalhar
Não
Sinhora não
Sinhora não
Sinhora não, Máriá

Vai
Maria vai
Maria vai
A roupa branca lavar
Não
Sinhora não
Sinhora não
Sinhora não, Máriá

Vai
Maria vai
Maria vai
A roupa branca enxaguar
Não
Sinhora não
Sinhora não
Sinhora não, Máriá

Vai
Maria vai
Maria vai
Aquele chão esfregar
Não
Sinhora não
Sinhora não
Sinhora não, Máriá

Vai
Maria vai
maria vai
O meu menino calar
Não
Sinhora não
Sinhora não
Sinhora não, Máriá

Vai
Maria vai
Maria vai
Maria vai trabalhar
Não
Sinhora não
Sinhora não
Sinhora não, Máriá

Zeca Afonso
Do álbum "Contos velhos, Rumos novos " (1969)

Gravura - Lavadeiras -Brasil - ilustração de Thomas Ewbank - in Jangada de Pedra

segunda-feira, março 05, 2007




















Fados do Tempo da Outra Senhora (23)

Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão como um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Intérprete: Elis Regina

Composição: Chico Buarque

FOTO: Charles Chaplin em "Tempos Modernos"

Sinopse:


O clássico do genial Charles Chaplin, Tempos modernos, retrata a interligação da vida com um relógio. O tempo marca a vida de operários de uma fábrica onde se desenvolve boa parte da acção. O filme começa com imagens de um rebanho de ovelhas que, na sequência, são substituídas pela imagem de um grupo de operários saindo da fábrica. Pela cena inicial, nota-se a pressa em mostrar que a responsabilidade de massificação do proletariado corresponde ao processo de desumanização imposto pela máquina. Tempos Modernos mostra um patrão em que ao mesmo tempo brinca de quebra-cabeça e lê gibi [banda desenhada] e paralelamente controla, de sua sala, através de um circuito fechado de televisão o trabalho de seus empregados.


Em Tempos Modernos, Carlitos é um trabalhador da fábrica, em uma lnha de montagem. O seu serviço é ajustar os parafusos a uma velocidade que não consegue nem se coçar, sem que haja quebra no ritmo de trabalho dos companheiros.


O operário fica louco com o ritmo intenso do trabalho braçal onde consegue o seu ganha pão. Demitido, acaba parando em um hospital. Sátira saborosa à vida industrial, TEMPOS MODERNOS é o primeiro filme em que Chaplin fez uso de efeitos sonoros e a última aparição de seu adorável vagabundo Charlot. Aqui ele é um empregado de uma fábrica supermoderna, que entra em crise, perde o emprego e é obrigado a enfrentar a Depressão Americana.


Quando sai, é confundido durante um protesto comunista e acaba preso. Em meio a toda essa confusão, ainda arruma tempo para ajudar uma jovem órfã.

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domingo, março 04, 2007


Fados do Tempo da Outra Senhora (22)


Pedro Pedreiro


Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
E a gente vai ficanto pra trás
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Desde o ano passado
Para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal
Todo mês
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Para o mês que vem
Esperando a festa
Esperando a sorte
E a mulher de Pedro
Está esperando um filho
Pra esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro esta esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro norte
Pedro nã sabe mas talvez no fundo
Espera alguma coisa coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar
Mas pra que sonhar
Se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás
Quer ser pedreiro pobre e nada mais
Sem ficar esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento para o mês que vem
Esperando um filho pra esperar também,
Esperando a festa
Esperando a sorte
Esperando a morte
Esperando o norte
Esperando o dia de esperar ninguém
Esperando enfim nada mais além
Da esperança aflita, bendita, infinita
Do apito do trem

Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem, que já vem, que já vem (etc.)

Chico Buarque
1965



Fados do Tempo da Outra Senhora (21)

Casa comigo Marta

Chamava-se ela Marta
Ele Doutor Dom Gaspar
Ela pobre e gaiata
Ele rico e tutelar
Gaspar tinha por Marta uma paixão sem par
Mas Marta estava farta mais que farta de o aturar
- Casa comigo Marta
Que estou morto por casar
- Casar contigo, não maganão
Não te metas comigo, deixa-me da mão

Casa comigo Marta
Tenho roupa a passajar
Tenho talheres de prata
Que estão todos por lavar
Tenho um faisão no forno e não sei cozinhar
Camisas, camisolas, lenços, fatos por passar
- Casa comigo Marta
Tenho roupa a passajar
- Casar contigo, não maganão
Não te metas comigo deixa-me da mão

Casa comigo Marta
Tenho acções e rendimentos
Tenho uma cama larga
Num dos meus apartamentos
Tenho ouro na Suíça e padrinhos aos centos
Empresto e hipoteco e transacciono investimentos
- Casa comigo Marta
Tenho acções e rendimentos
- Casar contigo, não maganão
Não te metas comigo deixa-me da mão

Casa comigo Marta
Tenho rédeas p'ra mandar
Tenho gente que trata
De me fazer respeitar
Tenho meios de sobra p'ra te nomear
Rainha dos pacóvios de aquém e além mar
- Casas comigo Marta
Que eu obrigo-te a casar
- Casar contigo, não maganão
Só me levas contigo dentro de um caixão

Música: José Mário Branco
Letra: Sérgio Godinho
In: José Mário Branco "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"

Quadro: Andromeda - Tamara de Lempicka (1898 - 1980),

Fados do Tempo da Outra Senhora (20)

ANDAR NA COSTURA

Cem vezes os afazeres do dedal que as agruras fardadas da criada de servir. Mil vezes o calo da tesoura que a manada de calos e dores das mondas e das ceifas.

Andar na costura era visto como uma notória ascensão social. Ainda que o salário fosse uma gota no mar das necessidades e as regalias sociais iguais a zero, mas tinha o usufruto de um horário com contornos mais ou menos definidos e uma forte dose de moderna urbanidade. Era igualmente um trabalho asseado que possibilitava a vaidade do andar sempre de ponto em branco. Tinha o magala que muito adoçar o estilo e o verbo para embeiçar a moça costureira, senão, a outros de maior patente calharia a sonhada e sonhadora conquista.

O fado, o teatro e o cinema, contribuíram abundantemente para relevar no imaginário popular a personagem da costureirinha.

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- Vizinha Adelaide, foi bonita a fita do cenório! Acaba na boda do Xico tipógrafo com a Rosa costureira.

Publicado por machede em maio 14, 2004 12:32 AM

FONTE do texto e da foto: blog «Alentejando»
(Photo de Eduardo Nogueira – 1935 / Arcada de Paris, Rua João de Deus, Évora)


Outra visão - a dos anos 59 do século XX

«Ó linda costureirinha/Teus sonhos e teus segredos/Entre os fusos dos teus dedos/São um novelo de linha. Entre os fusos dos teus dedos/E os teus olhos tão escravos/Do trabalho, sem igual/Tens um cordão de alinhavos/E por anel um dedal». Assim reza o refrão de ‘A Costureirinha da Sé’, um tema popularizado pelo filme com o mesmo nome, do cineasta Manuel Guimarães –

A Costurerinha da Sé
de Manuel Guimarães

com Maria de Fátima Bravo (Aurora), Alina Vaz (Leonor), Jacinto Ramos (Sebastião), Baptista Fernandes (Armando), Carlos José Teixeira (Filipe) e Augusto Costa (Costinha) (Vicente)

Sinopse:

Crónica bairrista do Porto, através de uma aguarela viva de costumes populares, em que se sublinha a faina ribeirinha e o formigueiro humano da laboriosa cidade. Paralelamente, desenvolve-se uma acção típica entre a gente humilde e, em particular, no mundo fresco e colorido dum "atellier" de alta costura, uma frágil e ingénua história de amor, de que é protagonista Aurora, uma das jovens tripeiras que participam no Concurso do Vestido de Chita.

Observações

Erroneamente considerado como o primeiro filme português filmado em cinemascope. De facto, "O Homem do Dia", de Henrique Campos, também produzido em 1958, foi o primeiro a utilizar esse formato.

Manuel Guimarães, com este filme, adaptado de uma popular opereta de Armando Leite e Heitor Campos Monteiro, tentou a via comercial para recuperar o mau acolhimento dos seus filmes anteriores e chamou, para o papel de protagonista, a cançonetista Maria de Fátima Bravo, então no top da popularidade. Estreado no Eden, em 27 de Fevereiro de 1959, o resultado foi um descalabro artístico com fraca adesão do público.


FONTE:

http://www.amordeperdicao.pt/

Manuel Guimarães (Porto, 1915 — Lisboa, 1975) foi um cineasta português que se destacou pela aplicação dos princípios ideológicos do neo-realismo na arte do cinema em Portugal. No entanto, a ditadura salazarista, mais atenta às manifestações da sétima arte que às “transgressões” no domínio da literatura, impediu-o com severidade de levar a bom termo os seus propósitos artísticos.

Biografia

Depois de ter concluído o Curso Geral dos Liceus, seguiu o de pintura, em 1931, na Escola de Belas Artes do Porto. Foi, a partir de 1936, decorador teatral, ilustrador e caricaturista. Desenhador de cartazes de cinema, interessou-se pela arte cinematográfica. Aderiu ao ofício como assistente de realizadores como Manoel de Oliveira, António Lopes Ribeiro, Jorge Brum do Canto, Arthur Duarte e Armando de Miranda.

Realizou em 1949 o documentário de curta-metragem O Desterrado, filme sobre a vida e a obra do escultor Soares dos Reis, que teve o Prémio Paz dos Reis, atribuído pelo o Secretariado Nacional da Informação (SNI) para as melhores curtas-metragens. Saltimbancos é a sua primeira longa-metragem, obra adaptada do romance homónimo do escritor Leão Penedo, cujo tema central era a vida dum pequeno circo ambulante.

Em 1952 Manuel Guimarães realizou o filme Nazaré, com argumento do escritor neo-realista Alves Redol, retratando a vida e hábitos dos pescadores da Nazaré, tal como Leitão de Barros já antes o fizera (Nazaré, Praia de Pescadores1929), mas desta vez numa perspectiva de crítica social. A obra foi amputada pela censura. Vidas Sem Rumo (1956), com argumento do próprio Manuel Guimarães e com diálogos de Alves Redol, sofreu amputações mais graves ainda: cerca de metade do filme foi censurado, várias cenas foram cortadas. O resultado final da intervenção dos censores tornou a obra quase ininteligível.

Acossado pelo regime e desejando não abandonar o ofício, Guimarães viu-se forçado a optar, a partir de 1956, pela realização de filmes de cariz comercial sobre eventos desportivos. A sua tentativa de retomar a ficção (A Costureirinha da Sé -1958) não compensou, visto Guimarães ter de aceitar a condição de integrar no filme publicidade explícita. Fez em seguida alguns documentários de divulgação sobre Barcelos, o Porto e os vinhos seculares.

António da Cunha Telles, que entretanto se envolvera como produtor dos primeiros filmes do Cinema Novo português, interessou-se por ele e aceitou fazer a produção executiva e co-produção de dois dos seus próximos filmes: Crime de Aldeia Velha (1964), adaptação da peça homónima de Bernardo Santareno, e O trigo e o Joio (1965), que, do seu próprio romance, Fernando Namora adaptou a cinema. Na época, o grande público interessava-se porém por filmes mais apelativos. pelo passa-tempo. Manuel Guimarães voltou ao documentário, aplicando-se em temas artísticos.

O 25 de Abril de 1974 trouxe-lhe a esperança, mas já era tarde. Doente, Manuel Guimarães não terminaria o seu novo filme, Cântico Final, adaptado do romance homónimo de Virgílio Ferreira. A obra, afectada pelo desaire, seria concluída pelo seu filho, Dórdio Guimarães. Manuel Guimarães seria considerado por vários comentadores como injustiçado, e não só pelo velho regime.

in Wikipedia

NOTA: António Lopes Ribeiro, Jorge Brun do Canto e Leitão de Barros integraram-se perfeitamente no espírito do chamado Estado Novo, de Salazar, o que a Wikipedia apenas refere quanto a este último - VN



Fados do Tempo da Outra Senhora (19)

(...) Num ápice o [Café] Arcada [Évora] enche‑se. Terminaram as condecorações, os toques de clarim e o desfilar das forças em parada. Já ontem se notavam muitos forasteiros que de longes terras vieram até ao povoado. Aqui à minha direita, muito ternos, uma moça conversa com o namorado e deixa entrever um grande pedaço da pele das costas, entre as calças e a blusa. Questões de posição! à esquerda, um marinheiro com familiares (?) exibe a sua condecoração de fresca data. Além o senhor Jaime abre e fecha os braços, como asas, enquanto vai dando lustro aos sapatos de um cliente. Passam empregados com as bandejas cheias de chávenas, copos e comes. O casalinho de namorados bebe chá com torradas. O mesmo que um casal já caminhando para a meia‑idade aqui à esquerda, na mesa ao lado. Ele já acabou de ler o "Diário de Notícias" (fraco gosto) e ela dá‑lhe uma torradinha. (...) O marinheiro levanta‑se e parte. Afinal a bengala não é dele mas do amigo que o acompanha. O senhor Tenente e o senhor Coronel cumprimentam‑se, batem a pala e apertam as mãos, enquanto as respectivas esposas se beijam. Na carequinha do senhor Coronel o vinco na pele assinala a presença do boné, agora sobre a cadeira. Entram pessoas de luto e há cumprimentos de mesa a mesa. Precisava duma câmara de filmar. Sobre a minha mesa, "O Século" (sabe) que dentro de dias será descerrada em Luanda uma estátua ao Marcelo [Caetano]. Para além d'O Século a lapiseira, um livro ("A Sociedade de Consumo") e o porta‑moedas (agora é incómodo trazê‑lo no bolso). (...) ( MCG - 1973.06.10)

Levanto os olhos e vejo muitos magalas, na sua farda verde oliva. Andam também pelas ruas, aos grupos, espalhafatosos, como quem já tem o seu grão na asa. "Cheira‑me" que haverá dentro em breve mais um contingente para a guerra em África. Alguns escrevem, curvados sobre o papel, a caneta firme na mão, como quem não está habituado a frequentes escrituras. Parecem rapazes muito novinhos; uns conversam, irrequietamente, outros têm um ar absorto, ausente.

O barulho invade‑me e cansa‑me. Há pouco, dei de repente com um silêncio gradual, profundo. Levantei os olhos do papel e era um magote de gente à volta duma mesa, em pé. Um silêncio em crescendo, gradual. Gente levantando‑se, esticando o pescoço. Continuo a escrever. Alguém se deve ter sentido mal, mas o meu curso de primeiros socorros já tem oito anos. Um homem sai do meio do magote, os seus lábios mexem‑se e leio "Desculpe‑me" a mão passada pela testa como quem tem suores ou tonturas. Sai pela porta giratória (há pouco atrás de mim) e perde‑se na noite das arcadas. (MCG - 1973.11.26)

Victor Nogueira RETRATOS - livro inédito

Gravuras:
cartoon - autor não identificado
engraxador de Luanda - Hipóllto de Andrade
recruta zero (
Beetle Bailey) - Mort Walker

Para saber mais sobre o Recruta Zero ver:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Recruta_Zero