A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht

terça-feira, agosto 14, 2012

O último patrão de Passos Coelho. "Se um dia quiser voltar, Passos tem as portas escancaradas"


 As opiniões do "patrão" de Passos de Coelho ou breviário do capitalismo puro e dita-duro, sem disfarces

Jornal de Negócios


o presidente da Fomentinvest, a holding que presta serviços na área do ambiente, mas ficou conhecido por ter sido o patrão do PM.

O último patrão de Passos Coelho. "Se um dia quiser voltar, Passos tem as portas escancaradas"

  http://www.dinheirovivo.pt/Empresas/Artigo/CIECO055893.html?page=0

Realces da responsabilidade de VN

D.R.
10/08/2012 | 19:21 | Dinheiro Vivo
Começou com uma fábrica de latas, depois de uma viagem de carro que fez com a mulher pela Europa, fundou várias empresas, entre as quais a Colep, também passou pela banca e hoje é o presidente da Fomentinvest, a holding gerida por Ângelo Correia e que empregou Pedro Passos Coelho até à sua eleição para primeiro-ministro. Com 73 anos, Ilídio Pinho não desistiu do sonho de criar grupos económicos, mas a partir de fora, porque em Portugal, diz, "não é realizável".

As férias são dadas a balanços. Qual a avaliação que faz do estado do país, o que o preocupa?
Não é o que me preocupa, mas o que me ocupa. O país foi conduzido para um estado de insolvência. Portugal é como uma empresa, que deve ser gerido economicamente e cujos resultados podem significar uma melhor qualidade de vida, ou então sacrifícios. Portugal está na fase de austeridade, há que fazer sacrifícios, mas também reformas que resultem na redução dos custos do Estado. Uma condição absolutamente necessária nos dias de hoje na economia global é ter capacidade de resposta imediata aos acontecimentos. Quem não tiver é melhor que não se meta nisso porque vai perder, é uma questão de tempo. Cada país é um empresa, vivemos numa concorrência interpaíses. O Estado, o sistema, é mau gestor, não tem tido capacidade de resposta em tempo real aos acontecimentos. A culpa não é do "A" ou do "B", o aparelho do Estado, tal qual está, construído na sua confusão, impede a capacidade de gestão em tempo real. As decisões demoram a tomar ou nem se tomam. Isso é o que está na base das dificuldades que temos.

O país está melhor do que há um ano. Estamos no caminho certo?
Sinceramente, acho que sim. Se me pergunta se está bem, não está. Citando Salvador Dalí: "Não te preocupes com a perfeição porque não existe." O Governo, não sendo perfeito, está a fazer um esforço absolutamente patriótico para criar condições para que Portugal seja um país com uma identidade estratégica intercontinental.

O Governo ainda pode pedir mais sacrifícios?
É uma questão que é chocante, essa coisa dos sacrifícios não deveria ser exposta assim. Trata-se antes de uma alteração de hábitos e os sacrifícios que se têm de fazer, nessa alteração de hábitos, infelizmente, ainda não acabaram.

Fará sentido cortar os subsídios às pessoas, se for necessário?
Os sacrifícios devem ser repartidos por todos, e mais por quem pode mais. O que custa é que esta situação se deve ao corporativismo criado pela falta de regionalização em Portugal. Esse corporativismo está centrado em Lisboa, em todos os sectores, nomeadamente, no sindical e na administração pública, no sistema financeiro, sobretudo, na economia de bens transacionáveis. Tudo isso, criou em Lisboa uma bolha que vai ter de se resolver. E é aí que se tem de fazer os grandes sacrifícios. Porque dizer ao povo do Norte que vá trabalhar mais, isso não se faz!

O desemprego no Algarve é mais elevado do que no Norte.
Estou a falar do Norte mas podia falar do Sul. O que estou a dizer é que o corporativismo que reside em Lisboa tem de mudar de hábitos, os interesses ocultos têm de desaparecer.

Mas refere-se a quem?
Por exemplo, à televisão. O Estado deve ser responsável por um canal pedagógico, que informe, que ofereça cultura aos portugueses, uma open university. Agora, um canal para oferecer pornografia ou jogos de futebol ou coisas dessas, porque é que havemos de pagar isso?!

Defende a privatização da RTP?
Em absoluto. Como é que podemos estar a pagar 375 milhões de euros para essa televisão, quando podemos fazer isso só com 125 milhões. São 250 milhões que se podem economizar. Isso, é a iniciativa privada que deve fazer. Ao Estado compete criar condições de pedagogia e conhecimento, à margem do interesse comercial.

O Tribunal Constitucional impede o Governo de cortar os subsídios apenas aos funcionários públicos. O Governo deve compensar a falta dessa receita com mais impostos?
É óbvio que esse caminho já deveria ter terminado, exceto com o aparelho do Estado. O Estado pesa 50% do PIB, isto inviabiliza o país.

A despesa tem uma componente muito grande de salários dos funcionários públicos e o Constitucional impede o corte.
Altere-se a Constituição. O problema existe, ataca-se e resolve-se. Não devemos ter de respeitar uma coisa que está obsoleta. Se pudermos evitar mais sacrifícios através das reformas necessárias do Estado, pois que se altere a Constituição para que os governos resolvam os problemas, senão resulta daí que cada vez teremos de fazer mais sacrifícios, cada vez terá de haver mais sopa para os pobres.

O desemprego é o principal problema da economia portuguesa?
É óbvio que é um problema. Durante toda a nossa vida, o motor da economia foi o imobiliário, mas acontece que temos imobiliário sobrante para as nossas necessidades. Temos os empresários, as máquinas, as paredes das fábricas, os operários, mas não temos mercado. Acabou, tem de haver deslocalização empresarial do sector imobiliário, desse cluster, que são milhares e milhares de empresas. Se não o fizermos, o desemprego continuará a subir e não há governo que consiga resolver o problema. Têm de surgir novos paradigmas económicos, mas para isso são precisos muitos anos, temos de criar cultura da ciência e da tecnologia nas escolas, nas empresas, temos de ter uma open university na TV para se fazerem cursos empresariais, temos de abrir as universidades à sociedade civil e ao mundo empresarial. O país tem mesmo de mudar.

Vivemos com taxas de desemprego recorde. Nos jovens, ronda os 30%.
A situação tenderá a agravar-se se continuarmos a ter uma Assembleia da República muito mais interessada nos debates partidários do que na resolução construtiva dos problemas nacionais.

Sem dinheiro, os empresários não investem e não criam emprego.
Nós temos milhares e milhares, dezenas de milhares de pessoas que vivem dependuradas do Orçamento do Estado, sem acrescentarem nada de riqueza ao valor nacional. E isso resulta do sistema político, falo outra vez de corporativismo. Quando um governo é eleito, a oposição deveria respeitar essa decisão soberana, deixar governar e participar construtivamente na governação, daquilo que acha bem, denunciando o que está mal. Mas não obstaculizar a atividade parlamentar, que é o que está a acontecer. São uns a quererem construir e outros a impedir a construção, destruindo.

Qual a avaliação que faz deste primeiro ano de Passos Coelho?
É preciso ter muita coragem, nomeadamente para suportar os níveis de stress e para tomar as medidas que se tomaram. Poder-se-ia ter feito mais, sim, mas se tivéssemos tido a oposição a ajudar. Como é que se assiste aos debates parlamentares que vão acontecendo?! E quem paga isto tudo são os trabalhadores.

Passos Coelho tem sido um bom primeiro-ministro?
Sim. Ache-me melhor. Só lhe peço um nome, um!
Conhece-o bem, até porque Passos Coelho trabalhou no seu grupo (Fomentinvest).
Tive imensa pena que tenha saído. Perdi um excelente colaborador
.
Já não tem nenhum vínculo com o seu grupo se quiser voltar?
Já não tem, mas se um dia quiser voltar tem as portas escancaradas.

Porque é que Passos Coelho era um bom profissional?
Pelas suas competências, pelo que idealizava e pelo desenvolvimento da sua atividade. Foi um homem com objetivos e que os concretizou.

Envolveu-se na eleição de Passos Coelho para primeiro-ministro?
Votei nele, com muito prazer, mas não estive envolvido na sua eleição. Sobre política, enquanto ele era administrador da Fomentinvest, falámos alguns minutos, creio que somente uma vez. Não misturo atividade empresarial com política. E ser primeiro-ministro não é ser o presidente executivo deste país?! O chairman é o Presidente.

Não lhe aponta erros?
Uma vez perguntaram-me qual foi a decisão que tomei da qual me tinha arrependido. Respondi que já tomei milhares de decisões e que o que conta é o resultado. Ninguém é perfeito e é perfeitamente natural que alguma decisão não tenha sido a óptima. Todas as decisões são discutíveis. Sobre ele, sobre este Governo, a resultante da governação é altamente positiva e abre as portas para que Portugal seja, dentro de alguns anos, um país do qual nos possamos orgulhar.

O primeiro-ministro não errou na constituição da sua equipa ao escolher alguns ministros, nomeadamente Miguel Relvas, que agora lhe causam problemas?
Mas o Miguel Relvas criou algum problema?!

A polémica à volta da licenciatura?
Mas quem criou essas polémicas não foi o Miguel Relvas, foram as pessoas que não têm nada que fazer senão criar problemas, pondo acima dos interesses do Estado os seus interesses pessoais, muitas vezes ocultos. Recomendaria a essas pessoas que, na atual situação, olhassem fundamentalmente pelos interesses do país, para se sentirem verdadeiramente portugueses e úteis à Nação.

Um conselho a Passos Coelho.
Que continue a ser o primeiro-ministro com coragem que tem sido até agora, sem que isso lhe custe privações de muita ordem. Imagino o que ele passa para servir Portugal. Mas ele tem essa missão, e o homem que conheço é um lutador de causas. Estou convencido de que um dia, quando se despedir desta vida, há de ir orgulhoso por ter procurado servir o país.

O que acha quando lhe dizem quejá foi o patrão de Passos Coelho?
Sinto-me muito orgulhoso porque Portugal ganhou um bom primeiro--ministro, determinado e disposto a todos os sacrifícios para oferecer um melhor nível de vida aos portugueses e dar a Portugal o lugar que o país merece no mundo.

Também fez muitos elogios a José Sócrates quando este era primeiro--ministro.
São dois bons primeiros-ministros?
Tive uma excelente opinião sobre José Sócrates durante os primeiros anos da sua governação porque ele tinha uma visão correta para Portugal. Contudo, o evoluir dos acontecimentos mostrou que ele deixou de atuar de acordo com a sua visão. E acabou por se transformar num mau primeiro-ministro.

Teme que isso possa acontecer a Passos Coelho?
Bem, eu não sou o Zandinga, mas é minha convicção que Portugal tem um excelente primeiro-ministro, com visão empresarial para levar Portugal ao caminho que precisa para ser uma base de sustentação económica e cultural de relações intercontinentais. Estamos a ser conduzidos no bom sentido. Não podemos é dizer já que está tudo bem porque há reformas que têm de ser feitas.

Mas se diz que não está tudo bem, o que é que está mal?
Está mal a confusão do sistema em que vivemos. A fiscalidade, por exemplo, deveria estar concentrada na manifestação de riqueza, avaliando-se pessoa a pessoa e tratar isso de forma direta e frontal e não derivar isso, por exemplo, para a Saúde. O Estado deveria oferecer os serviços de saúde a todos e por igual. Quem quiser mais, paga. No ensino, a mesma coisa. O relacionamento do Estado com as universidades públicas e com as privadas coloca os jovens em desigualdade, e os prejudicados são os filhos dos pobres. O Estado deveria oferecer as mesmas condições a todos os jovens.

Isso custa dinheiro, o país não tem.
Não, custa muito menos. A Fundação Ilídio Pinho mandou fazer um estudo sobre o que acontece nos outros países. O Estado paga um terço, a Universidade o outro terço, na sua relação com a sociedade civil, e o aluno paga o último terço da sua formação, através de bolsas de empréstimo. Quando estiver a trabalhar, o aluno repõe ao Estado a sua parte para que outros possam estudar. Isso coloca todos os jovens em igualdade de circunstâncias. Se há pais ricos que não querem que os filhos tenham bolsas, pagam. O atual sistema faz que os jovens estejam dependentes dos pais até aos 23 anos, ou seja, a viver, numa fase de afirmação da sua personalidade, submetidos a uma atitude de pedinte, de mão estendida para com os pais, e isso destrói a personalidade deles, cria uma cultura pedinte. Quando acabam os seus cursos não sabem decidir.

Os jovens licenciados também não têm emprego.
Quando estes jovens são colocados perante esta situação, está a ser criado o caminho para a subserviência permanente. Se passarem a gerir a sua vida a partir dos 17 anos, assumindo a responsabilidade da sua formação, têm afirmação suficiente para serem empreendedores, ou seja, para criarem empregos. É preciso criar condições para os jovens criarem emprego, não é as pessoas formarem-se e ficarem à espera de um emprego fácil. Temos de mudar a cultura instalada e criar uma cultura de formação empresarial, de jovens capazes de assumir o futuro com responsabilidade.

A crise levou muita gente a reavaliar prioridades, a pensar mais na família, a mudar hábitos. Também sentiu isso na sua vida pessoal e empresarial?
Com certeza. Temos de fazer mais com menos. A prazo, iremos ver que aprendemos a encontrar soluções para os problemas e isso é uma escola de vida extraordinária.

Por exemplo?
A decisão mais difícil que tive de tomar, em termos empresariais, foi na Colep, há cerca de 20 anos: parar os investimentos durante um ano. Tínhamos de otimizar tudo dentro de portas. Tivemos de aprender a fazer mais com menos.

E mais recentemente?
Tivemos de ser muito mais estudiosos sobre os investimentos a fazer. Antes era mais fácil, qualquer pedra dava um calhau.

E a nível pessoal?
Compro menos, não me sinto bem, num clima de austeridade, em apresentar manifestações de riqueza que podem ser chocantes para quem tem dificuldades. Por exemplo, vou almoçar todos os dias a um restaurante onde pago cinco euros. Faça o favor de me dizer se isso em Lisboa se faz.

Também há.
Ainda bem. Aqui, é assim que faço e quando digo a algumas pessoas, ficam chocadas. Sinto-me bem partilhando a forma de estar com todos. E dou esmola, mas sou contra. Quando dou uma esmola não faz ideia o sofrimento que tenho.

Porquê?
Estou a subalternizar quem recebe.

Mas está a ajudar.
Mas é uma ajuda negativa. Preferia dar-lhe emprego, mas não posso. Não posso dar emprego e a pessoa não ter o que fazer. Mas acredito em Portugal, acredito que dentro de cinco ou seis anos, Portugal será um país com uma identidade no mundo bem diferente da que tem agora.

Diferente como?
Portugal ainda é um país periférico na forma como se relaciona com o mundo. Entendo que Portugal, pela relação histórica que tem com as Américas, África, Europa e Ásia, pode vir a ser um centro de sustentação de relação intercontinental. Portugal vai ter condições para captar investimento estrangeiro como nunca. Temos é de ter um aeroporto como deve ser, portos de águas profundas, nomeadamente em Sines, um porto em Aveiro para contentores, e temos, de facto, de ter linhas ferroviárias de alta velocidade. Sem isso, não chegaremos lá. Há um momento próprio para isso, mas tem de ser feito.

Disse que acabou o tempo dos grupos com sede em Portugal.
Sempre foi o meu sonho, a criação de grupos económicos. Não posso levantar uma mesa sozinho, mas se formos cinco ou seis conseguimos. Infelizmente, não é realizável, porque os portugueses têm uma forma de estar muito individualista. Depois do 25 de Abril, o próprio Estado não tinha interesse na criação de grupos económicos para não perder o controlo do processo e onde colocar os seus protegidos. A criação de grupos económicos nunca foi bem recebida pelos governos e pelos partidos. E com a interferência do Estado, começaram a aparecer empresários muito mais interessados nesta relação pessoal com o Estado do que com os seus colegas empresários.

Ultimamente, temos assistido à venda de empresas a estrangeiros, como a Cimpor e a EDP.
É o resultado disso. Mas não me faz nenhuma impressão que haja investimento estrangeiro em Portugal, aliás, pugno por isso para ajudar a resolver os problemas. Na situação atual, só com empresários portugueses, é muito difícil resolver o problema do emprego, porque a maioria está descapitalizada. Mas isto é o resultado da interferência do Estado e é também este problema que está na base da corrupção, culpa do aparelho do Estado. A afirmação de certos grupos portugueses podia ser mais desenvolvida, mas há falta de condições e o investimento estrangeiro é sempre bem-vindo.

Mesmo que seja para assumir o controlo das empresas?
E qual é o problema?! Vivemos num mundo aberto. Lá dar pena, dá. Obviamente que temos a nossa autoestima, mas o "é nosso" sem estar aberto ao mundo nos dias de hoje já não é possível. E sem uma mentalidade aberta ao investimento estrangeiro, como é que depois nós havemos de ter vontade de investir no estrangeiro. A relação é a mesma. Mais, é fundamental aprender a ter relações sinergéticas com o mundo. Se estivermos sozinhos, temos de nos despedir do futuro.

É acionista da EDP. Qual a sua participação?
É inferior a 1%.

Faz parte do conselho geral e de supervisão da empresa. O que é que a China Three Gorges poderá trazer à EDP, além de dinheiro?
Eles pagaram para serem acionistas.

Compraram barato?
Na conjuntura atual, pagaram bem, mas a prazo compraram barato por causa da mais-valia que eles trazem à EDP no desenvolvimento internacional, que pode tornar a EDP numa das maiores empresas de eletricidade do mundo. E mais ainda na sua especialidade das energias renováveis, porque as centrais nucleares terão de ser desmanteladas. Portugal vai ter o privilégio de ter em sede própria uma das maiores companhias de eletricidade do mundo. Mas é preciso que Portugal não trate mal a EDP.

O que é que isso quer dizer?
Quer dizer que se o rating de Portugal baixar para lixo...

Isso já é.
Mais lixo ainda. Se Portugal não recuperar o seu rating pode obrigar a EDP a mudar a sede para o estrangeiro, porque assim a EDP está a pagar muito mais caro para se financiar do que se tivesse a sede, por exemplo, em Londres. O facto de a EDP poder ter de mudar a sua sede para outro país será para reduzir os custos de financiamento.

O cenário foi discutido pelo conselho geral e de supervisão da EDP?
Que tenha estado presente, não. Sou eu que estou a levantar a hipótese.

Vai aumentar a posição na EDP? Disse que gostaria de ter 5%.
Tenho, juntamente com a EDP, a China Power e o Johnny Or, 48% da Companhia de Eletricidade de Macau. O nosso objetivo é reforçar e o meu futuro como acionista da EDP pode ter que ver com tudo isto. Poderá ter de haver uma nova arrumação de capitais envolvidos. Porque é que digo que já não tenho mais tempo para perder em Portugal com a criação de grupos? Porque concluí que é uma luta sem concretização possível. Não estou na disposição de viver mais esse sonho porque o tempo passa e nada se faz. Cada dia que passa é menos um dia de vida. Depois de perdido, não há mais nada que compre o tempo, não tenho dias de vida para perder. Quero viver intensamente até ao meu último dia e quero ir feliz por ter vivido a minha vida exaustivamente em todos os aspetos. Pode ser que os grupos económicos comecem a aparecer a partir de fora, por exemplo, de Macau, e eu possa vir a participar. Não perdi o meu sonho, a sede é que está em causa. Acredito na união de esforços para ganhar.

O que é que Portugal ganha com o seu investimento na Companhia de Eletricidade de Macau?
Pode ganhar muito, mais do que com o meu investimento na EDP, onde sou apenas mais um investidor. Se estiver com a EDP e com os parceiros chineses em Macau, podemos levar os interesses da EDP para a China e para o Sudoeste Asiático. Estamos a falar da criação de condições para Portugal no mundo.

Se esse seu investimento em Macau se concretizar, vende a sua participação na EDP em vez de a aumentar?
Vamos ver.

Como é que um empresário que fundou tantas empresas vive sem produzir?
Mas quem disse que não estou a produzir?! Estou a produzir e muito. Um empresário é um criador, não é um industrial que faz a sua fábrica e fica lá a vida toda. O empresário tem de conhecer o mundo e criar novas condições. Eu, passo a imodéstia, considero-me um empresário, um criador, criei ene empresas, mas fiz isso com a ideia básica de continuidade familiar. Eu tinha um filho, que em 1990 faleceu num acidente na Suíça, estava a acabar o seu curso numa universidade casestudy, ele era o meu continuador e eu tive de fazer uma forte reflexão.~

Era o seu único filho.
Tenho uma filha, mas ele é que foi preparado para ser o meu continuador. Tinha duas soluções: Ou me divorciava e arranjava um filho de outra mulher e tinha de esperar 30 anos e tinha condições ou não - fui incapaz de dar este desgosto à minha mulher, que tinha sofrido o mesmo desgosto que eu, que é perder um filho, a pior coisa que pode acontecer a alguém.

Como é que se sobrevive à morte de um filho?
Sobrevive-se com horrores. Mas é obrigação do empresário criar as condições para que o que criou não morra com ele. Gradual e progressivamente fui entregando as empresas a outros e não estou arrependido, porque continuaram a desenvolver-se e a ter sucesso e eu fui fazer outras coisas, criei a Fomentinvest, a Ciencinvest, criei uma fundação da qual me posso orgulhar, e que tem feito coisas extremamente úteis para o país. Deixei de viver só para o meu umbigo para ser útil a Portugal. Amo Portugal, gosto de participar na criação de melhores condições para quem vem a seguir. Gosto de ser português e de ser vale-cambrense, amo a minha terra, onde está o meu filho à minha espera.

O facto de Passos Coelho ter sido seu trabalhador beneficiou-o ou prejudicou-o?
Nunca na minha vida recebi um favor económico do Estado. E quando digo nunca é porque também não recebi este ano. Não sei se sou o único português nessa situação. Mais, estou em condições de lhe dizer que me senti prejudicado várias vezes pela interferência do Estado.

Neste último ano também?
Não. Nem fui beneficiado nem prejudicado. Mas o Estado está a beneficiar da minha Fundação - homenagem à memória do meu filho. Se a Fundação Ilídio Pinho não existisse haveria coisas extremamente importantes que não tinham acontecido em Portugal, nomeadamente o Ciência na Escola, que está a dar origem a uma nova cultura de ciência na escola, a criar novas expectativas aos jovens e de empreendedorismo, de que o país tanto precisa.


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domingo, agosto 12, 2012

Crise do Capital e Estado Neoliberal - Algumas Notas Críticas





Giovanni Alves[1]


É do nosso interesse nesse pequeno paper de cariz ensaístico apresentar algumas considerações teórico-análiticas sobre a natureza da crise do capital e do Estado neoliebral. Acredito que são elementos categoriais importantes para qualquer análise sobre o mundo do trabalho hoje. Uma das nossas hipóteses, dentre outras, é que o Estado neoliberal é a forma de estatalidade capitalista adequada às condições de crise estrutural do capital. Por isso, a alteração da forma de ser do Estado político do capital neste momento de crise estrutural pressupõe, mais do que nunca, a própria abolição deste sistema sócio-metabólico. O que se coloca é verificar quase as formas sócio-históricas de desenvolvimento do Estado neoliberal. Ele possui uma variedade complexa, mesclando formas autocráticas e formas democráticas, no interior do qual se desenvolve a luta de classes.


1. Formas da Crise do Capital

 A precarização do trabalho é um elemento estrutural do hipercapitalismo e da mundialização do capital em sua etapa de crise estrutural. Este processo social de desefetivação da força de trabalho, em suas múltiplas determinações, seja nas instâncias objetivas, seja nas instâncias subjetivas, é intrínseco à dinâmica estrutural do sistema mundial do capital em nossos dias.

É claro que a precarização do trabalho possui uma particularidade sócio-historica candente, que o diferencia da precarização (e precariedade) de outras épocas históricas do capitalismo industrial. O que procuraremos apresentar a seguir são alguns elementos analíticos para apreendermos a particularidade crucial desta precarização do trabalho no século XXI a partir da sua vinculação constitutiva com a crise estrutural do capital. Ou seja, este dado histórico-concreto, a percepção de que o sistema mundial do capital está imerso numa crise estrutural, tende a colocar determinações qualitativamente novas para apreendermos o problema da precarização do trabalho no capitalismo do século XXI (o que podemos denominar de hipercapitalismo).

Iremos sugerir uma teoria da crise do capital nos primórdios do século XXI. É a partir dela que poderemos, num segundo momento, no próximo artigo, acompanhar a natureza particular – e a “novidade” histórica - da precarização do trabalho hoje. O que significa que o que observamos hoje no mundo do trabalho não é uma mera regressão histórica conjuntural à uma situação sócio-institucional dos primórdios do capitalismo. Ao invés de ser uma mera “patologia social”, a precarização do trabalho é a forma de ser da normalidade sistêmica do capital em sua etapa de crise estrutural. Acreditamos que apenas uma nova teoria critica (e dialética), imbuída da mais plena consciência histórica, poderá nos dar a verdadeira dimensão da crise do nosso tempo. Nesse momento, iremos tratar de determinações categoriais num plano mais abstrato.

Poderemos dizer que, desde o desenvolvimento do capitalismo industrial e da constituição do mercado mundial, a partir de meados do século XIX, foram se constituindo, aos poucos, as condições de crise geral do capitalismo internacional (e hoje, mundial). Por isso, a passagem do capitalismo concorrencial para o capitalismo monopolista, na virada para o século XX, com a chegada da era do imperialismo, irá marcar a época da crise orgânica do sistema mundial do capital.

Vale salientar que a idéia de crise é complexa. Na ótica da lógica do capital não possui apenas um mero sentido de negatividade. Pelo contrário, é através dela que o sistema produtor de mercadorias cresce e se expande, recompondo suas estruturas de acumulação de valor. Na verdade, a crise decorre da própria expansividade sistêmica, mesclando, em si, momentos de desenvolvimento ampliados das forças produtivas do trabalho social (o que se verifica através da série de Revoluções Científico-Tecnológicas que atingem os meios de produção, de comunicação e de transporte, desde a expansão do capitalismo industrial nos primórdios do século XIX) e momentos de exacerbação da expropriação, exploração e exclusão social (prenhe de instabilidade política).

Por exemplo, quando Lênin constata a nova etapa de desenvolvimento capitalista (o imperialismo como a fase superior do capitalismo), ele está apreendendo a constituição primordial de uma crise orgânica do capital que irá se desenvolver e ampliar no decorrer de todo o século XX, assumindo, a partir de meados da década de 1970, dimensões estruturais. Ora, o imperialismo anuncia, portanto, a crise orgânica do sistema do capital. E em nossos dias, a “globalização” – ou a mundialização do capital, anuncia a sua crise estrutural.

Deste modo, segundo a teoria da crise do capital que queremos propor, teríamos uma tríplice determinação da crise do capital na época do capitalismo industrial propriamente dito (crise cíclica, crise orgânica e crise estrutural). Um detalhe: tais determinações se dariam no plano da forma (ou modo de ser) e não propriamente do conteúdo, embora, por exemplo, a natureza de crise de superprodução ou de subconsumo (como Marx qualificava as crises capitalistas), possa ser sobredeterminada por esta forma tríplice.

Primeiro, teríamos a crise do capital como crise cíclica (1), o que caracterizaria a dinâmica do sistema em seu desenvolvimento histórico progressivo. É parte da natureza do capitalismo como sistema mundial de produção ter crises cíclicas, com períodos de crescimento seguido por período de recessão, que pode assumir dimensão parcial ou geral, sincrônica ou assincrônicas, etc. A crise cíclica possui uma dinâmica própria, articulando elementos contingenciais (por exemplo, a emergência de uma guerra ou a eclosão de fenômenos naturais como secas e enchentes, com impactos desastrosos na economia) e determinações estruturais ligadas às leis gerais da acumulação do capital (a queda da taxa média de lucro, por exemplo). Na verdade, elementos contingenciais tendem a ser meros “disparadores” de uma crise pressuposta por conta de uma deterioração prévia das condições de acumulação do capital. Por exemplo, a recessão mundial de 1973 é disparada pela eclosão do aumento drástico dos preços do petróleo. Mas desde fins da década de 1960, já se verificava alguns sinais de esgotamento de um ciclo de crescimento capitalista. A taxa média de lucros das grandes corporações industriais já indicava uma linha descendente, prenunciando uma crise de superprodução.  O ciclo capitalismo se impõe como uma natureza deste próprio modo de produção. Ele regula a vida das economias e da sociedade burguesa.

A dinâmica cíclica é atingida, ou sobredeterminada, pela natureza da crise geral. O que significa que o surgimento da crise orgânica do capital, a partir da passagem para o capitalismo monopolista, irá alterar (mas não abolir) a dinâmica cíclica do sistema. Por exemplo, para lidar com tal dinâmica cíclica surgem os instrumentos de política econômica, a partir da década de 1930 do século passado. É uma inovação da teoria econômica burguesa (J.M. Keynes é seu principal arauto científico). Através de mecanismos de política monetária e fiscal no âmbito da gestão macroeconômica do Estado-nação, buscou-se regular o ciclo capitalista, impedindo que ele assumise dimensões depressivas mais agudas, com o ocorreu em 1929.

Ora, nas condições de uma crise orgânica do sistema do capital, um ciclo capitalista desregulado poderia ter conseqüências desastrosas para a reprodução sistêmica. Por isso, implementou-se e se aperfeiçoou na última metade do século XX os mecanismos de coordenação macroeconômica, seja no plano nacional, seja no plano internacional. Dele surgiram um complexo de instituições transnacionais de controle tendencial da dinâmica capitalista, por exemplo, o FMI e o Banco Mundial; mas até mesmo a ONU é parte desta construção sócio-institucional global.

O que veio a se chamar fordismo é um momento histórico desta forma de regulação do ciclo capitalista, impedindo que, nas condições de crise orgânica, ele possa implicar em conseqüências nefastas para a reprodução capitalista, seja no plano da economia, e principalmente no plano da política nos vários paises capitalistas, principalmente do centro desenvolvido.

O denominado fordismo possuiu uma poderosa carga ideológica, de controle preventivo da irrupção revolucionária no Ocidente, afinal, não podemos esquecer, neste processo crítico, a dimensão ineliminável da luta de classe, mediada no contexto da crise orgânica do século XX pela presença, a partir de 1917, da URSS. No plano da periferia capitalismo, os “elos mais fracos” do sistema, os mecanismos de controle social assumiram dimensões autocráticas.

Deste modo, o que queremos salientar é que além da crise cíclica, a crise do capital no século XX tornou-se uma crise orgânica. Esta é uma outra determinação importante – (2) a crise do capital como crise orgânica, que decorre do próprio desenvolvimento cíclico do modo de produção capitalista e do capitalismo industrial constituído no século XIX. Ou seja, a passagem para o capitalismo monopolista nos coloca num novo terreno sócio-histórico que anunciou a crise orgânica do capital. Vários autores marxistas trataram dos aspectos desta crise orgânica (dentre eles, Rosa, Lênin, Kautsky, Gramsci, Trostky, etc).

A crise orgânica aparece com sua dimensão de barbárie nos conflitos sociais, nas Guerras Mundiais e nas guerras localizadas do século XX. É uma etapa superior de desenvolvimento do sistema de contradições do capital numa etapa avançada das forças produtivas (e destrutivas) do trabalho social estranhado. A crise orgânica explicita os paradoxos e contradições inerentes à lógica do capital. Assume o caráter de crise orgânica não apenas devido às contradições dilacerantes postas pela lei geral da produção capitalista, do aumento da composição orgânica do capital que tende a colocar cada vez mais pressão para baixo na taxa média de lucro do sistema, mas devido o grau de expansividade da lógica mercantil-capitalista, da forma-mercadoria e sua penetração na vida social, introjetando na dinâmica reprodutiva, as contradições (e o fetichismo) intrínsecas à forma-mercadoria. Uma sociedade cada vez mais mercantilizada é uma sociedade imersa nas contradições dilacerantes da forma-mercadoria, entre valor de uso e valor de troca, destacado por Marx no Capítulo I de O Capital.

A crise orgânica se desenvolve no século XX, ampliando-se na medida do próprio desenvolvimento da modernização capitalista. Ela não impede o ciclo capitalista, mas o sobredetermina. É claro que existem momentos de expansão (e crescimento) capitalista no interior deste processo de crise orgânica. O próprio fordismo, a “era de ouro do capitalismo”, segundo alguns autores, se desenvolveu no bojo desta crise orgânica do capital. Como salientamos, com a crise orgânica se instauram novas formas de coordenação macroeconômica (e macrosocial) ligadas à presença da esfera estatal na reprodução societária. Inclusive o grau de coordenação sócio-estatal – no tocante a regulação do investimento e da moeda – contribuiu para constituir, naquelas condições históricas (e geopolíticas) específicas, uma dinâmica excêntrica, uma verdadeira singularidade do ciclo capitalista, que apareceu como “ciclo virtuoso”, ocultando as contradições objetivas e dilacerantes da crise orgânica (que iriam de desdobrar na década de 1970).

Entretanto, a crise orgânica é, na verdade, não apenas um processo cumulativo de desenvolvimento do capital, mas de contradições desta própria lógica da capital, com saltos qualitativos que conduziram à crise estrutural do capital a partir de meados da década de 1970. Com o surgimento da crise estrutural, as demais determinações da crise do capital (crises cíclicas e crise orgânica), continuam vigorando. O que ocorre é uma sobredeterminação importante deste processo de crise do capital. Na verdade, hoje a crise orgânica tende a aparecer como crise estrutural do capital, instaurando um novo sócio-metabolismo – o sócio-metabolismo da barbárie. Isto não quer dizer que elementos de barbárie social não estivessem postos no decorrer da crise orgânica, como atestam as guerras e genocídios de massa. Mas a sua posição sócio-metabolica nas condições de uma crise estrutural, atinge uma dimensão qualitativamente nova. A barbárie social torna-se não algo extraordinário, mas um elemento ordinário e espetacular (e por isso, banal) da dinâmica social do hipercapitalismo. De certo modo, ocorre a passagem de uma barbárie social formal para uma barbárie social real, amplificada pelas novas formas de fetichismos e de agudização do estranhamento. Ou seja a barbárie aparece como sócio-metabolismo.

A crise do capital como crise estrutural ocorre a partir de meados da década de 1970. Ela tem sido objeto de consideração de vários autores que constatam o esgotamento de um ciclo de desenvolvimento capitalista e o aparecimento de um outro. Mas o que existe é a passagem para uma nova época histórica do capital com seus socio-metabolismo. O ciclo capitalista continua atuante, provendo altos e baixos na conjuntura da dinâmica capitalista. Mas a crise orgânica tende a se desdobrar em crise estrutural na medida em que um complexo de instituições sociais que garantiam a produção e reprodução do capital se encontram diante de impasses decisivos, com a explicitação de seus próprios limites diante da forma social vigente (tais desdobramentos estruturais possuem importantes impactos na dinâmica conjuntural, tornado-a instável e sinuosa).

Na verdade, o capitalismo se amplia e se encontra diante de seus próprios limites irremediáveis. Aqueles tendências criticas que vinham deste a crise orgânica não apenas se ampliam, mas promovem saltos qualitativos na natureza da crise. Por isso, discutimos em nossos dias, por exemplo, a crise do Estado-nação e a crise de um complexo de instituições e valores ligados à fase pretérita do desenvolvimento capitalista. Outra dimensão desta crise estrutural é a crise do trabalho como atividade social estranhada e elo crucial de socialização da modernidade capitalista. Nesta crise do trabalho, a precarização em suas múltiplas formas (objetivas e subjetivas), aparece como seu dado sócio-historico crucial.


2. O Estado neoliberal

O Estado neoliberal é o Estado político do capital nas condições de sua crise estrutural. Por isso, ele incorpora em si elementos de uma crise de legitimidade, que possui como base material a crise fiscal. O Estado neoliberal é uma estatalidade carente de justificação histórica, pois é incapaz de assumir com efetividadade ampla as novas tarefas históricas impostas pelo processo civilizatório. Ao tornar-se Estado máximo para o Capital, ele se torna um Estado mínimo para os interesses da Civilização do Trabalho. Mesmo que assuma o papel de regulador social, não consegue romper seus laços orgânicos com o grande capital, tornando-se incapaz de arbitrar interesses oligopólicos em conflito. É o que alguns autores salientaram como sendo o capitalismo monopolista de Estado. Mas, o Estado neoliberal é sua forma “apodrecida”. Adota o referente de mercado para se auto-preservar sob a crise de valorização do capital. Na verdade, a função histórica da estatalidade política é ser o complemento orgânico da reprodução social do capital. Estado e capital são entes reflexivos. Sua função primordial é garantir a reprodução da acumulação de valor e a normalidade institucional imposta pela ordem sistêmica do capital.

A forma burocrática é forma de ser do Estado neoliberal (não é exclusiva dele pois pertencia a outras formas passadas) É a aparência essencial desta “máquina” indispensável da modernidade do capital. Mesmo o Estado neoliberal que se diz Estado mínimo é na verdade Estado máximo para os interesses organizativos dos investimentos capitalistas. No decorrer do século XX, seja em qualquer forma social, o Estado político e sua estrutura burocrática fortaleceu-se. Em parte, para lidar com o processo civilizatório que torna as sociedades humanas sociedades cada vez mais sociais, sociedades complexas que exigem nexos organizativos. O capital impõe seus nexos estranhados através da forma burocrática do Estado político. Ele está lidando apenas com uma dimensão da natureza do trabalho humano complexo. Nas condições do sistema do capital, tal determinação orgânico-burocrática torna-se uma necessidade da reprodução social, ou melhor, da reprodução do capital, tendo em vista que a sociedade é a sociedade do capital.

O Estado fascista e o Estado social, tanto quanto o Estado burocrático do socialismo estatal, são formas de estatalidade do capital nas condições de sua crise orgânica que se desdobrou até os anos 1970 da século XX. O Estado neoliberal é o Estado político do capital nas condições de sua crise estrutural. Esta mutação da estatalidade política ocorre a partir da década de 1980 sob as injunções da mundialização do capital e do predomínio do capital financeiro.

É uma estatalidade política global, pois está mais integrada às tecnoburocracias globais que impõe os interesses de uma ordem mundial perversa. Expressa, deste modo, a crise do Estado-nação, pois o Estado do capital se impõe cada vez mais como um Estado global, mas totalmente incapaz de se realizar plenamente pois está clivado pelos interesses de múltiplos capitais oligopólicos, inclusive de coloração nacionais ainda recalcitrantes. O capital é incapaz de um verdadeiro globalismo, por isso, apesar do estado neoliberal ser antes de tudo um estado global, ele é um falso Estado global, pois está imerso nos interesses particularistas de capitais oligopólicos regionais (o que explica as lutas comerciais no seio da OMC).

O Estado neoliberal é uma estatalidade política que abole as restrições à plena exploração do capital pois é auto-consciente da crise de valorização do capital. Por isso, seu deslocamento para o referente de mercado. Mas ao se deslocar-se para os interesses do mercado, ele se propõe como o organizar destes interesses mercantis de cariz oligopólicos. Por isso, o Estado neoliberal adota como principio organizador o mercado, mas não é, em si um mercado auto-regulado, como o liberalismo do século XVIII e XIX, mas o mercado sob regulação estatal. Talvez tal afirmação possa se confundir com as estatalidades políticas do estado social ou do Estado fascista, por isso, podemos dizer de outro modo – o Estado neoliberal adora como principio o Estado social sob regulação mercantil (ao invés do mercado sob regulação estatal), concebendo o mercado não como um ente abstrato, mas sim como os interesses organizados de investidores financeiros.

Dissemos antes, Estado social, pois, a rigor, o Estado neoliberal não deixa de ser um Estado social, pois o processo civilizatório complexo impõe à estatalidade política do capital uma capacidade – precária, é claro – de lidar com necessidades sociais públicas cada vez mais arraigadas na própria reprodução social (o que explica que a queda dos investimentos sociais na era do neoliberalismo não ter sido aquilo que os arautos liberais proclamavam). Mas é um “social” submetido à regulação mercantil, eivado de princípios individualistas de mercado. O que explica toda nova articulação simbólica do “social” que desloca para a suposta “sociedade civil” e não mais para o “Estado” a satisfação de necessidades societárias – desloca, mas não dá as condições necessárias para tal. É portanto uma sociedade espúria, pois mercado e “social” são água e óleo.

O Estado neoliberal é a estatalidade cativa dos interesses do capital financeiro, a fração predominante do capital nas condições de crise estrutural de valorização. À sua crise fiscal original, desenvolve-se uma crise fiscal decorrente de um Tesouro nacional avassalado pelos compromissos financeiros dos blocos de mega-investidores. Tal subsunção financeira aprofunda a crise fiscal e é a causa desta forma neoliberal, aberta aos interesses do mercado, mas um mercado numa determinada etapa de desenvolvimento capitalista, o dos grandes oligópolicos e blocos de investidores institucionais.

O Estado neoliberal também é um ente moral-intelectual, o que pressupõe, como base de legitimidade social, a reconstrução simbólica da sociedade burguesa. É o que tem ocorrido nos últimos vinte anos no mundo capitalista. Ao dizermos Estado neoliberal lidamos não apenas com um ente político propriamente dito, mas um ente moral-intelectual carente de legitimidade simbólica. Ele cria uma nova sintaxe ou melhor uma nova linguagem no tráfico social. Por isso o surgimento de novas expressões capazes de expressar sua lógica hegemônica. Aliás, ele busca a hegemonia social através da reestruturação capitalista nas várias frentes da vida social. Não apenas da produção, mas do consumo e da circulação de mercadorias. Atinge gerações – por isso, podemos falar de uma geração neoliberal e de uma linguagem neoliberal. Enfim, daquilo que Bourdieu veio a caracterizar como “imperialismo simbólico”.


3. Referências Bibliográficas

ALVES, Giovanni (2001). Dimensões da Globalziação – O capital e suas contradições, Editora Práxis: Londrina.
BOURDIEU, Pierre. 1998. Contrafogos : táticas para enfrentar a invasão neoliberal. Rio de Janeiro : Zahar.
CASTELLS, Manuel (1998). A Sociedade Em Rede,  Editora Paz e Terra: Rio de Janeiro
CHESNAIS, François (1995). A mundialziação do capital, Editora Xamã: São Paulo.
HARVEY, David (1992). Condição pós-moderna, Editora Loyola: São Paulo.
IANNI, Octávio (1992). A sociedade global, Editora Civilização Brasileira: São Paulo.
MARX, Karl (1985). O Capital – Crítica da Economia Política: Editora Abril. São Paulo.
MÉSZÁROS, István (2002). Para Além do Capital, São Paulo: Editora Boitempo: São Paulo.



[1] Professor dos cursos de Graduação e de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da Faculdade de Ciências e Letras/UNESP/Marília. E-mail: giovanni.alves@uol.com.br

sábado, agosto 11, 2012

Economia Marxista - o Capitalismo e suas Crises

Economia Marxista - o Capitalismo e suas Crises

Charles Chaplin - Tempos Modernos


Filmes

Tempos Modernos

TÍTULO DO FILME: TEMPOS MODERNOS (Modern Times, EUA 1936)
DIREÇÃO: Charles Chaplin
ELENCO: Charles Chaplin, Paulette Goddard, 87 min. preto e branco, Continental



RESUMO

Trata-se do último filme mudo de Chaplin, que focaliza a vida urbana nos Estados Unidos nos anos 30, imediatamente após a crise de 1929, quando a depressão atingiu toda sociedade norte-americana, levando grande parte da população ao desemprego e à fome.

A figura central do filme é Carlitos, o personagem clássico de Chaplin, que ao conseguir emprego numa grande indústria, transforma-se em líder grevista conhecendo uma jovem, por quem se apaixona. O filme focaliza a vida do na sociedade industrial caracterizada pela produção com base no sistema de linha de montagem e especialização do trabalho. É uma crítica à "modernidade" e ao capitalismo representado pelo modelo de industrialização, onde o operário é engolido pelo poder do capital e perseguido por suas idéias "subversivas".

Em sua Segunda parte o filme trata das desigualdades entre a vida dos pobres e das camadas mais abastadas, sem representar contudo, diferenças nas perspectivas de vida de cada grupo. Mostra ainda que a mesma sociedade capitalista que explora o proletariado, alimenta todo conforto e diversão para burguesia. Cenas como a que Carlitos e a menina órfã conversam no jardim de uma casa, ou aquela em que Carlitos e sua namorada encontram-se numa loja de departamento, ilustram bem essas questões.

Se inicialmente o lançamento do filme chegou a dar prejuízo, mais tarde tornou-se um clássico na história do cinema. Chegou a ser proibido na Alemanha de Hilter e na Itália de Mussolini por ser considerado "socialista". Aliás, nesse aspecto Chaplin foi boicotado também em seu próprio país na época do "macartismo".

Juntamente com O Garoto e O Grande Ditador, Tempos Modernos está entre os filmes mais conhecidos do ator e diretor Charles Chaplin, sendo considerado um marco na história do cinema.

CONTEXTO HISTÓRICO

Em apenas três anos após a crise de 1929, a produção industrial norte-americana reduziu-se pela metade. A falência atingiu cerca de 130 mil estabelecimentos e 10 mil bancos. As mercadorias que não tinham compradores eram literalmente destruídas, ao mesmo tempo em que milhões de pessoas passavam fome. Em 1933 o país contava com 17 milhões de desempregados. Diante de tal realidade o governo presidido por H. Hoover, a quem os trabalhadores apelidaram de "presidente da fome", procurou auxiliar as grandes empresas capitalistas, representadas por industriais e banqueiros, nada fazendo contudo, para reduzir o grau de miséria das camadas populares. A luta de classes se radicalizou, crescendo a consciência política e organização do operariado, onde o Partido Comunista, apesar de pequeno, conseguiu mobilizar importantes setores da classe trabalhadora.

Nos primeiros anos da década de 30, a crise se refletia por todo mundo capitalista, contribuindo para o fortalecimento do nazifascismo europeu. Nos Estados Unidos em 1932 era eleito pelo Partido Democrático o presidente Franklin Delano Roosevelt, um hábil e flexível político que anunciou um "novo curso" na administração do país, o chamado New Deal. A prioridade do plano era recuperar a economia abalada pela crise combatendo seu principal problema social: o desemprego. Nesse sentido o Congresso norte-americano aprovou resoluções para recuperação da indústria nacional e da economia rural.

Através de uma maior intervenção sobre a economia, já que a crise era do modelo econômico liberal, o governo procurou estabelecer certo controle sobre a produção, com mecanismos como os "códigos de concorrência honrada", que estabeleciam quantidade a ser produzida, preço dos produtos e salários. A intenção era também evitar a manutenção de grandes excedentes agrícolas e industriais. Para combater o desemprego, foi reduzida a semana de trabalho e realizadas inúmeras obras públicas, que absorviam a mão-de-obra ociosa, recuperando paulatinamente os níveis de produção e consumo anteriores à crise. O movimento operário crescia consideravelmente e em seis anos, de 1934 a 1940, estiveram em greve mais de oito milhões de trabalhadores. Pressionado pela mobilização operária, o Congresso aprovou uma lei que reconhecia o direito de associação dos trabalhadores e de celebração de contratos coletivos de trabalho com os empresários.

Apesar do empresariado não ter concordado com o elevado grau de interferência do Estado em seus negócios, não se pode negar que essas medidas do New Deal de Roosevelt visavam salvar o próprio sistema capitalista, o que acabou possibilitando possibilitou sua reeleição em duas ocasiões.

quinta-feira, agosto 09, 2012

Medvedev anuncia "desestalinização" da Rússia


DOMINGO, 28 DE NOVEMBRO DE 2010

Medvedev anuncia "desestalinização" da Rússia


Após duas grandes campanhas de desestalinização, sob Kruschev e Gorbachev, a Rússia viverá sua terceira onda anti-stalinista. O Presidente Medevedev a anunciou nesta sexta, dia 26, junto com a sua viagem oficial a Polônia.

 
O fantasma do Comunismo: Stálin
 
Historicamente, após sua morte, Stálin se transformou como o ícone de tudo que dá errado na Rússia. Se a produção de grãos caiu, é culpa de Stálin. Se a economia está estagnada, a culpa é de Stálin. Se os chechenos estão se revoltando, é culpa de Stálin. Se tornou um modo corriqueiro do governo russo se esquivar de suas responsabilidades na violenta crise que acertou a nação com a queda do socialismo. Não importa se ele e o sistema a qual lutou sua vida inteira já foram enterrados há um bom tempo. Há sempre persistências. Afinal, o marxismo é uma "doença" infecciosa monstruosa que acaba com toda o "bem" que o capitalismo foi capaz de produzir para humanidade. Se o capitalismo dá errado, certamente é por causa do passado marxista da Rússia. "Ah, a época de transição foi mal conduzida. Infelizmente o stalinismo ainda não foi erradicado". Procurem ir atrás de qualquer problema na Rússia nas últimas décadas, esta é sempre a desculpa oficial.

Comemoração do Dia da Vitória sobre o Fascismo conta com a presença de Stálin em São Petersburgo

Ora, é muito mais fácil jogar a culpa nos outros do que admitir o fracasso de todo o sistema que supostamente salvaria os russos da "ditadura monstruosa". Ditadura esta, que terrivelmente garantia à população um sistema de saúde eficiente e de graça, infra-estrutura pública de primeira qualidade, educação de alto nível para todos, emprego, direitos trabalhistas avançadíssimos, um baixíssimo custo de vida, segurança e baixíssima taxa de criminalidade, etc. Enquanto isso, o sistema "salvador" trouxe a miséria de volta à Mãe Rússia, a fome, o sucateamento da educação e da saúde, a queda brusca de padrão de vida para a maioria da população, o crime organizado, a corrupção sistêmica e um Estado inoperante e muito pouco preocupado com sua população.

Manifestação comunista na Rússia. Camarada Stálin presente!

Realmente, a culpa é de Stálin, Sr. Medvedev. Este monstro horrendo que ousou derrotar e humilhar os fascistas! Olha que crime! Que ousou esfacelar as velhas elites e modernizar a Rússia. Que ousou dar poder a ralé, fortalecendo os sindicatos e a organização da classe trabalhadora. Que ousou unir dezenas de povos sob a única bandeira da solidariedade comunista e permitir que Cazaques estudassem de graça na gloriosa Rússia, que Tadjiques se "apoderassem" dos conhecimentos técnicos das indústrias russas e que Russos gastassem sua grande "superioridade" intelectual na construção de fábricas, colégios e hospitais nestas repúblicas islâmicas e asiáticas "inúteis". Realmente Sr. Medvedev, a culpa é de Stálin.

Cartaz de Stálin decora as ruas na Rússia

Mas o que esta nova onda de desestalinização realmente mostra é a força e o apelo popular que Stálin goza na velha Rússia. É o fantasma do comunismo. Este ano pudemos observar a crescente nostalgia acerca dos velhos tempos soviéticos na Rússia, o crescimento dos movimentos comunistas. As manifestações populares em marcos históricos comunistas foram enormes. Centenas de milhares de russos foram às ruas no aniversário da Revolução, no Primeiro de Maio, no aniversário de 130 anos de Stálin, no dia da Vitória. E Stálin, agora sim, era onipresente. Cartazes, fotos, tatuagens. O povo marchava e ainda marcha por Moscou carregando orgulhosamente a imagem do grande líder bolchevique, mesmo após meio século de difamação e de bombardeamento ideológico anti-Stálin. E não são meia dúzia de pessoas, são centenas de milhares, são multidões.

Milhares de russos marcham na Praça Vermelha no aniversário de Stálin

Qual será a explicação disso? Ainda há a "lavagem cerebral" do Grande Irmão soviético? Ou será que o Memorial ainda não despejou o tanto de propaganda direitista e reacionária necessárias para "iluminar" o ignorante povo russo? A verdade é que, doa a quem doer - anti-comunistas, liberais, membros de organizações de "direitos humanos", etc. - o povo russo vivia muito melhor sob Stálin do que sob qualquer outro regime implantado por aquelas bandas. 95% da população era privilegiada pelo governo, que investia pesado em cultura, educação, saúde, transporte, segurança, agricultura, indústria, etc. 95% da população representada pelas classes operária e camponesa. Mas enquanto isso, 5% da população amargava a perda de seus privilégios monárquicos e capitalistas. Coitado deles, não podiam mais explorar a força de trabalho alheia para enriquecerem. Não podiam mais deixar seus servos e operários passarem fome para que tivessem dinheiro para construir seus magníficos palácios. E pior, ainda tinham que trabalhar na terra! Pegar na enxada e trabalhar ombro a ombro com seres primitivos e bárbaros! Olha que ultraje!


Stálin vive!

Estes pobre coitados voltaram ao poder. E agora tremem as bases quando vêem o povo caminhando pelas ruas com imagens de Stálin. Eles sabem muito bem o poder do comunismo, o poder do povo. Sabem que são minoria, e que, se o povo quiser, suas cabeças rolarão. Frente à volta deste terrível fantasma à Mãe Rússia, a única saída é a boa e velha desestalinização. Aumentar o controle ideológico sobre a população, suprimir a força dos comunistas e transformar as manifestações populares em crime.

 
Milhares de russos homenageiam os 130 anos de Stálin