A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht

sexta-feira, maio 10, 2013

Rémy Herrera - Alguns problemas (e paradoxos) ligados à internacionalização da economia chinesa

odiário.info

   09.Mai.13 : 


O conhecimento aprofundado da complexíssima realidade económica actual da República Popular da China é uma tarefa central nos dias de hoje. Este estudo é uma notável contribuição nesse sentido: o da compreensão do processo que colocou a China à frente de todas as economias mundiais à excepção dos EUA, e das perspectivas da sua evolução futura – que permanecem largamente indeterminadas, tanto pela sua própria dinâmica, como também porque o capitalismo dos oligopólios financeiros do Norte parece cada vez mais entrar frontalmente em conflito com ele.


Introdução
O sucesso aparente da economia chinesa, ou do que se designa a sua «emergência», que pode ser ilustrado por uma muito elevada taxa de crescimento do PIB (o mais elevado em média nas últimas três décadas) e pelo papel cimeiro que ela tende a ocupar no grupo dos «BRICS», é frequentemente comentado nos média, bem como na literatura académica contemporânea. Um certo «mistério» continua efectivamente a cercar este fenómeno, principalmente porque o conteúdo, as formas e, por vezes, a própria realidade dos debates entre especialistas em assuntos chineses (debates extremamente polémicos e percorrendo todo o espectro político, desde o Marxismo ao Neoliberalismo) escapam em grande medida aos comentadores ocidentais, que se limitam às fontes ou informações, na maioria ocidentais, ou limitadas à visão externa da China. A esta dificuldade, juntam-se a incerteza a respeito de certo número de designações (como «emergência») ou categorias (começando pelos «BRICS») utilizados a propósito, mas também pela indefinição persistente na própria denominação do sistema actual neste país («socialismo de mercado» ou «capitalismo à chinesa», entre outras designações). Incerteza e indefinição (para não falar de confusão) que confundem ainda mais as terminologias ideológicas às quais recorrem muitas vezes os discursos das autoridades oficiais, sejam chinesas ou ocidentais.
É neste estado de coisas que parece estabelecer-se um consenso em torno de certas «evidências» (por exemplo, a China teria um comportamento «imperialista», a sua moeda estaria fortemente desvalorizada, as exportações constituiriam o motor do crescimento da sua economia, etc.), que nos permitimos questionar. Este artigo tentará esclarecer (com prudência, e sem pretender escamotear a complexidade do assunto) alguns dos problemas mais difíceis que se colocam à economia chinesa desde a sua abertura e inserção no sistema mundial. Porque a internacionalização da China: 1) permanece articulada com uma estratégia de desenvolvimento coerente e orientada para o interior, mas que não foi aplicada suavemente (1ª parte); 2) produziu, especialmente através de exportações de mercados e de capitais, efeitos contraditórios, tanto nos países do Norte como do Sul, que trataremos de explicar (2ª parte); e 3) tem que ver igualmente com a moeda nacional (o Renminbi), cuja própria internacionalização requer as condições que, se estiverem reunidas, terão implicações fundamentais para a ordem monetária e financeira internacional em curso de reforma e para a próprio futuro do sistema económico chinês, de que propomos aqui uma breve discussão (3ª parte).

Primeira parte: «emergência», crescimento e crises
Um dos preconceitos hoje mais amplamente disseminados pretende que a «emergência» da China é recente; mais precisamente, teria ocorrido logo após a morte de Mao, com a reorientação e abertura da economia permitida por Deng Xiaoping a seguir ao XI Congresso do Partido Comunista Chinês, em 1978. Afirmando isto, difundem-se implicitamente os argumentos segundo os quais o país não «emergiu» senão graças a essa inflexão recente, viu a sua economia estagnar durante o socialismo do período maoista e descolou logo que se aproximou de uma das variantes do capitalismo. Desde logo se ocultam três factos importantes. O primeiro é que a China na realidade «emergiu» como civilização maior e estado-nação unificado há muitos milénios (e não há trinta anos), até representar uma parte significativa das produções e das trocas mundiais no final do século XVIII. O segundo facto é que, se o crescimento económico acelerou indiscutivelmente a partir dos anos 1980, a ponto de colocar a China, nessa década, ao nível do rendimento per capita, ainda que relativamente baixo, largamente no topo dos países socialistas, onde «existe uma economia historicamente planificada», para retomar uma expressão então utilizada pelas organizações internacionais, a taxa de crescimento da produção material líquida era relativamente elevada durante os dez anos que precederam a decisão de abrir a economia ao sistema mundial. Esta taxa de crescimento, da ordem dos 6,8% em média por década, de 1970 a 1979, de acordo com as estatísticas do Banco Mundial (expressas em Yuans de 1980) era mais de duas vezes superior ao crescimento do PIB dos EUA durante o mesmo período (que era de 3,2%, também de acordo com o Banco Mundial). O terceiro facto a relembrar aqui é que, quando o crescimento ultrapassou na China os 10% em média durante a década de 1980 (contra 3% apenas nos EUA), o essencial das estruturas e das instituições do socialismo estavam em funcionamento no país.
A «descolagem» da economia chinesa é muitas vezes atribuída à abertura e à globalização. Mais uma vez, convém juntar (o que raramente é feito na literatura sobre o assunto) que isso não teria sido possível senão graças às conquistas do período precedente, a saber, as da Revolução Socialista, que explicam em grande medida a posição particular hoje ocupada pela China no grupo dos países do Sul ditos «emergentes». É isso que justifica, a somar aos avanços sociais e infra-estruturas realizadas, o sucesso da sua industrialização, em profundidade, como também e sobretudo a eficácia da resposta à questão agrária, a mais importante para o país até ao presente. Sublinhe-se, a este respeito, que a China é um desses raros países no mundo a ter garantido e a garantir ainda, de direito e de facto, o acesso à terra para a imensa maioria das massas camponesas (o que não tem paralelo entre os seus vizinhos na Ásia, salvo aqueles que também conheceram uma reforma agrária associada a uma revolução, como o Vietname). Poderão verificar-se retrocessos, como nos últimos anos, em que se registaram numerosas violações da lei (com venda de terras públicas e expropriação de famílias, por exemplo) mas umas e outras encontraram a resistência tenaz das massas camponesas, muitas vezes organizadas por fora (ou seja, fora do Partido Comunista); isto dá uma importância crucial da questão do direito à terra nos debates internos da direcção política do país.
É impossível compreender a evolução deste país sem colocar no centro da análise o campesinato (que representa actualmente mais de 700 milhões de pessoas). O primeiro constrangimento que pesa sobre a China é o dever alimentar 22% da população do planeta a partir de apenas 6% das terras cultiváveis do mundo e de uma superfície cultivada por habitante em zona rural de apenas 0,25 por hectare, contra quase o dobro na Índia, dez vezes mais em França, cem vezes mais nos EUA… Uma das chaves da estratégia que permitiu superar este desafio deve procurar-se na afirmação do direito à terra para o campesinato chinês, a conquista mais preciosa da herança maoista. Se bem que os modos actuais de organização, de produção e distribuição do sector agrícola chinês já nada tenham que ver com o período maoista, influenciados que foram pelos mercados, o facto é que, hoje, mais uma vez, a propriedade da terra permanece aí colectiva (muitas vezes sob formas degradadas, muito disseminadas). Eis, a nosso ver, um ponto fundamental que distingue a situação (e o sucesso) da China da de outros países «emergentes» de dimensões continentais, como a Índia ou o Brasil, ou regionalmente dominantes, como a África do Sul, para os quais a questão agrária está longe de ter encontrado as condições para a sua resolução, mesmo parcial.
O peso demográfico (perto de 1,35 biliões de habitantes em 3012, uma população hipotética de aproximadamente 1,41 biliões em 2050) e a imensidão geográfica (com 9,60 milhões de km2) obrigam a desistir de comparar com a China com o único país do mundo que apresenta características semelhantes, no caso, a Índia (1,25 biliões de habitantes em 2012, uns hipotéticos 1,60 biliões em 2050, para 3,29 milhões de km2). Ora, em primeira análise, os dados desses dois países permitem fazer uma série de observações gerais. Desde logo, a política de controlo dos nascimentos aplicada na China, permitiu à sua população não continuar a crescer a um ritmo excessivamente elevado, contrariamente ao que se passa na Índia, cuja transição demográfica não foi totalmente conseguida. De seguida, a evolução dos níveis do produto nacional bruto das duas economias, que eram mais ou menos equivalentes no momento da sua abertura quase simultânea (Beijing em 1978, Nova Deli em 1984), colocam em evidência uma clara divergência de trajectórias, em benefício da China; o produto nacional bruto per capita desta última ultrapassou mesmo o da Índia logo no começo dos anos 1990. Enfim, a taxa de crescimento da economia chinesa foi sempre superior à da Índia nas últimas três décadas, à excepção dos anos 1981 (muito ligeiramente) e 1989-1990 (por pouco).
Entre os múltiplos e complexos factores que explicam estas divergências, de ordem histórica, institucional ou política, insistimos, de novo, na importância das diferenças dos regimes de propriedade da terra (privada na Índia, pública na China) nas economias que permanecem, para além da sua «emergência» (digamos antes «re-emergência»), apoiadas em estruturas sociais ainda maioritariamente agrárias: em 2010, 37% da população activa chinesa era rural (contribuindo cerca de 10% da produção interna), enquanto o sector agrícola ocupava ainda perto de dois terços da produção indiana (para 20% da população total). Na Índia, a liberalização da agricultura fez passar regiões já em situação de auto-suficiência em relação a produtos de primeira necessidade, tais com o arroz, para situações de dependência alimentar, agravadas por profundas contradições internas que o país provavelmente não resolverá sem redistribuir a propriedade da terra, reivindicação fundamental do campesinato indiano.
Esta abordagem, revelando o lugar do campesinato na China moderna, a contracorrente da maior parte das interpretações actualmente disponíveis sobre este país, justifica-se igualmente pela contribuição historicamente considerável que o sector agrícola deu ao desenvolvimento da economia no seu conjunto (via as enormes transferências de excedentes, materiais e humanas, destinadas à industrialização), mas também pela atenção central e recorrente que as autoridades política levaram às zonas rurais depois de cada diminuição da actividade económica. Porque se a economia chinesa registou um crescimento extremamente rápido do produto interno bruto, aproximando-se em média de 10%, numa tendência de médio-longo prazo (entre 1978 e 2011) e acompanhando o aprofundamento do processo de industrialização, ela atravessou, ainda assim, períodos de queda na taxa de crescimento em relação a essa tendência, especialmente em 1979-80, 1989-90, 1993-94, 1997-98 e 2008. Se o ritmo de crescimento anual permaneceu relativamente elevado durante estes períodos (superior a 5%, excepto em 1990, ou seja, sempre mais que o máximo obtido pelos EUA durante o mesmo período), essas quedas correspondem ao retorno periódico de crises na acumulação do capital. Ainda que a volatilidade da taxa de crescimento tenha diminuído com o tempo, as crises cíclicas viram os seus efeitos agravarem-se à medida da progressiva financeirização do modelo económico chinês. Depois do fracasso da «liberalização» dos anos 1989-90, rapidamente interrompida, as intervenções omnipresentes do estado (e do Partido) não pararam de corrigir os desequilíbrios do processo de crescimento, mediante uma expansão massiva das infra-estruturas públicas (sobretudo nas zonas rurais), a promoção de pólos urbanos de dimensão intermédia para o interior do país ou a adopção de políticas favoráveis à população agrícola (denominada estratégia do «San Nong»)… Assim, em resposta à crise de 2008, os rendimentos líquidos das famílias rurais aumentaram, em termos reais e per capita, significativamente mais rapidamente que os dos aglomerados urbanos (10,9 % em 2010, 11,4 % em 2011 e, em previsão, 13,0 % em 2012, face a 8,0 %, 8,5 % e 10,0 %, respectivamente).

Segunda parte. Exportações, taxas de câmbio e «imperialismo»
Uma característica muitas vezes atribuída à internacionalização da economia chinesa é o dinamismo das suas exportações de mercados, donde o impulso, depois dos anos 1990 e sobretudo 2000, que desenha uma curva de crescimento exponencial, que apenas o impacto da crise mundial de 2008-2009 atenua. Conclui-se por vezes um pouco rápido demais que as exportações de bens e serviços viriam a ser o principal motor do país. Isso é esquecer que a estratégia de desenvolvimento, pensada e aplicada regularmente e com pragmatismo pelos dirigentes chineses se apoia num modelo relativamente mais auto-centrado e mais coerente que em todas as outras economias do Sul (e do Leste). Modelo, oficialmente denominado «socialismo de mercado à chinesa», que responde (é esse um dos «segredos» do seu desempenho nos mercados mundiais, sem ofensa para os neo-liberais) pela manutenção dum sector estatal muito forte (na energia, nas telecomunicações, nos transportes, nos materiais de base ou semi-acabados, na construção, mas igualmente no sistema financeiro), pelo papel dinamizador do conjunto da economia, especialmente para as inúmeras pequenas e médias empresas privadas que compõem o tecido industrial local.
Fundamentalmente, a grande maioria dos empresários chineses dos sectores manufactureiros interessa-se antes de tudo pelos mercados internos das suas produções. É sobretudo a expansão da procura doméstica observada nestes últimos anos, estimulada por um consumo das famílias em forte subida e suportada por despesas de capital estatal muito activas (nomeadamente nos trabalhos de infra-estruturas), que imprime optimismo aos seus planos de investimentos. Também o ritmo acelerado dos ganhos de produtividade do trabalho (que eram em média de 5,2% entre 1980 e 1995, de 6,7% entre 1995 e 2005 e de 9,7 entre 2005 e 2010), seguindo um esquema que evoluiu desde o «made in China» ao «made by China» que permite acompanhar o aumento extremamente rápido dos salários industriais expressos em termos reais, sem que o aumento dos custos do trabalho chinês relativamente a outros concorrentes do Sul (da Coreia do Sul ao México) prejudique a competitividade. As exportações (tal como os investimentos directos estrangeiros, porque mais de metade das exportações são ainda de facto de empresas estrangeiras implantadas na China) desempenham um papel de suporte; o que permite compreender que, no ano passado, a sua contribuição líquida negativa para o crescimento do PIB (-5,8%) não tenha prejudicado a dinâmica deste último (com mais de 10%), nem o nível das margens de lucro das empresas.
No entanto, a tendência ascendente num período longo de exportações, sobre o qual se apoia em parte (mas apenas em parte) o modelo de crescimento da China, é suficiente para garantir um ponto de tensão suplementar nas relações económicas internacionais actuais. A moeda chinesa, o Renminbi (cuja unidade monetária é o Yuan) seria fortemente desvalorizada, lê-se nos relatórios de estabelecimentos bancários ocidentais e de organizações internacionais, bem como nos media, juntando-se à origem da persistência de deficits comerciais bilaterais com a maior parte das economias do Norte, com os EUA à cabeça. As estimativas geralmente admitidas avançam uma desvalorização da ordem dos 15 a 20%. Deste modo, as pressões continuamente exercidas por Washington no sentido de uma valorização do Renminbi face ao Dólar (apoiada pelos governos da União Europeia) encontram certamente a resistência de Beijing; mas resultaram ainda assim em várias reavaliações da moeda chinesa ao longo da década passada (a última em Abril de 2012, depois da de Julho de 2005). Assim, entre o Verão de 2005 (desde que as autoridades monetárias chinesas decidiram não ligar as flutuações da sua moeda ao Dólar) e Março de 2012, o valor do Renminbi valorizou em termos reais 32%, em relação à moeda-chave internacional. Há pouco tempo, o Tesouro dos EUA declarou ter registado um enfraquecimento do Dólar face ao Renminbi de certa de 40% depois do começo de 2005. Apesar de tudo, o leitmotiv foi retomado: os produtos exportados pela China, já um bom mercado por causa dos custos do trabalho relativamente pouco elevados, tornar-se-iam ainda mais competitivos junto dos mercados mundiais por uma moeda artificialmente desvalorizada…
É sabido que as discussões sobre o «justo valor» das moedas (por exemplo, sobre as taxas de câmbio efectivas das várias moedas) são polémicas, particularmente quando se articulam com argumentos que apoiam as tomadas de decisão de políticas externas, nomeadamente comerciais e monetárias.
No entanto, entre os argumentos utilizados nesta matéria, é a relação entre o saldo da balança de contas correntes e o PIB que parece hoje recolher maior sucesso junto dos peritos que aconselham o Governo dos EUA. Assim, o referencial usado para definir a taxa de câmbio dita «de equilíbrio» seria um ratio de excedente ou deficit da balança dos pagamentos correntes ao PIB compreendido entre +/- 3% ou 4%. Ora, se escolhêssemos aplicar um tal critério ao caso da China, marcado pela importância determinante das relações bilaterais com os EUA, constataríamos que o ratio chinês mudou de mais de 10% em 2007 (10,6% exactamente) para menos de 3% em 2011 (2,8%) e para 1,4% apenas no primeiro trimestre de 2012. As previsões para o resto do ano 2012 totalizaram pouco mais de 3,5%, deixando pensar que este critério continuará a ser respeitado num futuro próximo. Em consequência, a «forte depreciação» do Renminbi não salta realmente aos olhos (contrariamente à deterioração dos termos de comércio na China) a partir do momento em que se reporta a uma das referências mais utilizadas pela própria administração dos EUA. Isso não impediu os EUA, apesar dos desequilíbrios externos (e internos) que caracterizam a sua economia, de procurar aquilo que muitos observadores chamam uma «guerra das moedas», através da depreciação do Dólar nos mercados cambiais e de procurar impor a Beijing os termos do que parece ser uma «capitulação» e de que uma das implicações imediatas é a desvalorização líquida das gigantescas reservas em divisas da China, ainda maioritariamente em Dólar (mais de 60% no final de 2011, contra menos de 30% em Euro). Mas por quanto tempo ainda?
Um outro ataque que visa frequentemente a China denuncia o seu comportamento «imperialista». Esta crítica é suscitada não apenas pela sua pujança comercial, mas igualmente pela evolução impressionante das suas exportações de capital, que fazem com que tenha um papel incontornável nos planos de refinanciamento do Tesouro dos EUA, bem como nos negócios de reestruturação de dívidas soberanas na Europa. Ela alimenta-se também de reacções nem sempre positivas (nem mesmo objectivas, mas muito disseminadas pelos media ocidentais) face à penetração da China, desde o início dos anos 2000, em várias economias do Sul, especialmente em África. Para o ano 2010, por exemplo, uns 100 biliões de dólares de contratos comerciais haviam sido assinados entre Beijing e o conjunto de países do continente africano, dez vezes mais que uma década antes. Ainda que dificilmente quantificáveis, as estimativas do stock de investimentos directos chineses em África poderiam exceder os 120 milhões de dólares. Neste momento, este continente representa perto de um terço dos abastecimentos em hidrocarbonetos totais da China (Angola recentemente destronou a Arábia Saudita como primeiro fornecedor de petróleo). Os bancos chineses, a começar por um dos mais poderosos, o Industrial and Commercial Bank of China (ICBC), entraram em força na estrutura de capital dos estabelecimentos bancários africanos, incluindo a África do Sul. Mas são os compromissos financeiros da China nos sectores de infra-estruturas para redes de electricidade, de comunicações e transportes, os fenómenos mais visíveis. Assim, para além das diferenças regionais, o facto marcante é que a China se tornou para África (como para os outros continentes do Sul) um parceiro económico e político maior.
Esta penetração, já o dissemos, originou críticas, nalguns casos fundamentadas, noutros não, do Norte, mas também em África, onde são mais frequentemente os comerciantes ou intermediários influentes que se queixam do «perigo amarelo». No entanto, a grande maioria das elites, bem como uma larga maioria das camadas populares, foram além do protesto para ali descobrirem vantagens. Apesar de problemas reais e diversificados, que poderiam ser ultrapassados por uma utilização melhor controlada das ferramentas da política económica à disposição dos estados, estas novas relações, certamente complexas e cheias de contradições, constituem, em nossa opinião, uma oportunidade a aproveitar por África. A recuperação da taxa de crescimento dos países africanos entre 2000 e 2007 (até à crise mundial) não será provavelmente estranha ao dinamismo comercial com a China durante esse período. Os efeitos positivos deste último passam por áreas diversificadas: o impulso comercial em volume e em valor (porque a forte procura chinesa e a competição dos países clientes fazem subir os preços dos bens exportados); a construção de infra-estruturas (uma parte dos contratos comportam uma componente de recursos naturais contra obras públicas); o alívio do fardo da dívida (através de empréstimos chineses concedidos a taxas de juro muito baixas)… mas estes negócios são também, seguramente, interessantes para a própria China, que acede a recursos estratégicos indispensáveis para sustentar o seu crescimento (petróleo, minerais, e metais preciosos…) e que encontra a oportunidade de aqui estabelecer contratos para a sua mão-de-obra excedentária.
Estas trocas China-África são justas? A substituição dos «médicos de pés nus» da revolução maoísta por empresários eficazes mas sobretudo preocupados com o lucro não se fez sem uma mudança radical de valores. Mas a atenuação dos laços de dependência dos países do Sul face aos do Norte pode ser um estímulo para os primeiros. Contra os apologistas do mercado livre, o funcionamento da esfera da circulação de mercado no sistema mundial realmente existente demonstrou que aí intervêm relações de forças intercaladas (de países, de classes, etc.).
Do ponto de vista chinês, partilhado por certos governantes do Sul, cada vez mais numerosos, uma das soluções para os desequilíbrios entre o Norte e o Sul passaria pelo aumento da cooperação entre os países do Sul, a todos os níveis (comercial, energético, tecnológico, etc.).
Mas ainda é preciso que as relações entre os países do Sul se libertem dos problemas que tantas vezes caracterizam as relações entre Norte e Sul. É aceitável que um país do Sul possa agir face a um outro como uma potência dominante, ou exercer pressão para lhe retirar recursos naturais e à destruição do ambiente?

Terceira parte. Reformas financeiras, internacionalização do Renminbi e os «BRICS»
No que respeita, mais especificamente, ao sistema financeiro chinês, muitas vezes julgado obsoleto, uma ideia muito difundida é a de que a sua modernização, graças a um reforço dos mercados financeiros, seria necessário ao desenvolvimento do conjunto da economia. Citemos aqui, a título de exemplo, Mishkin, professor de finanças na Universidade de Columbia e antigo membro do Conselho de Governadores do Sistema de Reserva Federal dos EUA de 2006 a 2008 que, a partir de um raciocínio que se apoia nos postulados da eficiência dos mercados financeiros e da sua superioridade na alocação do capital, observou o que constitui na sua óptica o «paradoxo» do sistema financeiro deste país: a China caminha rapidamente para um estatuto de superpotência (prova-o a taxa de crescimento do seu PIB) ao mesmo tempo que o desenvolvimento do seu sector financeiro estaria «ainda muito atrasado». «Atrasado» significa: um sistema jurídico fracassado, dificuldades para fazer respeitar os contratos, uma contabilidade laxista, a escassez de informação sobre credores, uma regulamentação bancária incompleta e, sobretudo, o peso dominante dos bancos nacionalizados… isso leva-o a insistir nas incertezas que continuam a cercar, não obstante certos «progressos» (privatizações parciais de bancos do estado, reformas dos contratos, legislação sobre falências, etc.), o futuro desta economia, condicionada, segundo o autor, pela modernização financeira. Mishkin ousa um paralelo entre a China de hoje e a URSS dos anos 1950-1960, que teria «características comparáveis» em termos de ritmo de acumulação do capital, permitida por uma taxa de poupança elevada e pela transferência de população activa do sector agrícola de subsistência para as actividades industriais capitalistas e de maior produtividade. A incapacidade que a URSS demonstrou para reformar as suas estruturas e pôr no seu lugar instituições (nomeadamente financeiras) necessárias ao desenvolvimento poderá ajudar a China actual? «Para passar a uma fase mais avançada de desenvolvimento, [a China] precisa de uma alocação de capital mais eficaz, o que exige um reforço do sistema financeiro», escreve ele. E Mishkin acrescenta: «Os dirigentes chineses estão bem conscientes do desafio».
E se aquilo que se crê desejável para a China (ou os EUA nas suas relações com a China) não fosse aquilo que procuram os seus governantes? Dito de outro modo: estes últimos, que se reivindicam ainda, maioritariamente, pelo «socialismo», não teriam objectivos distintos dos que tanto lhes atribuem muitos no Ocidente, até à «modernização» do sector financeiro? Certamente, as reformas do sistema financeiro chinês, que aceleraram a partir de 2005 e tomaram a forma de uma abertura do capital aos grandes bancos do estado e da criação de bolsas de valores, que se seguiriam a empresas públicas progressivamente autónomas em relação às orientações do Plano, transformadas em sociedades por acções e incitadas a adoptar critérios de gestão dos mercados, a inspirar-se nos métodos da finança de mercado e a desenvolver as suas parcerias com os investidores externos. Assim, a introdução em bolsa dos maiores bancos chineses (como o Banco da China, e o Industrial and Commercial Bank of China e o China Construction Bank) foi precedida pela entrada de instituições estrangeiras estratégicas na estrutura do seu capital (respectivamente, a Golden Sachs, a UBS e o Bank of America), promove a «aprendizagem» da corporate governance. Porém, o sistema de financiamento da economia chinesa mantém-se ainda hoje largamente «indirecto» e fundado sobre a intermediação bancária (mesmo se tende a alongar-se, muito rapidamente, pelo motivo avançado pelas autoridades políticas para encontrar um certo «equilíbrio» entre os modelos de financiamento pelo aumento dos mercados financeiros e através do recurso ao crédito bancário).
Os argumentos formulados por Mishkin e, com ele, tantos outros autores ocidentais, a propósito da «repressão financeira» que caracterizaria o modelo chinês, encontram adeptos na China, onde não faltam economistas ou responsáveis políticos que consideram que uma tal «modernização» é desejável, se não inevitável. Alguns avançaram que a importância do crédito bancário no sistema de financiamento da economia chinesa encontraria a sua base em razões de ordem jurídica (direito comercial desadequado ou mal aplicado), cultural (tradição confuciana mobilizadora de relações pessoais em vez de contratos) e social («conservadorismo» e aversão pelo risco). Talvez não devamos confundir «modernização» e adopção da via capitalista, ou de uma das suas variantes, o que implicaria de facto a renúncia ao projecto socialista. Por outras palavras, está longe de ser claro que uma escolha em favor da economia de mercado tenha sido definitivamente feita, de tal modo são em grande número as intervenções das autoridades financeiras no sistema financeiro e perceptível o pragmatismo do seu processo, avançando por golpes ou avanços e recuos num contexto de integração ainda mais profundo e contraditório do país no sistema mundial. É sobretudo o caso em cada fase de abrandamento do crescimento económico, como depois de 2007, marcado por uma activação dos créditos bancários que vieram corrigir as falhas da finança. Já não se recorda que os bancos, que se aventuraram por volta dos anos 1990 nas operações financeiras e outros domínios relacionados (seguros, imobiliário, etc.) foram já interditos de o fazer entre 1992 e 1995 devido a incumprimentos depois da crise de 1989-1991, mesmo se depois disso foram novamente autorizados a realizar «operações mistas» (combinando crédito bancário e mercados financeiros). E, mais recentemente, as autoridades chinesas viram-se obrigadas, por necessidade, a reagir muito firmemente a fim de limitar as consequências desestabilizadoras da crise global, nomeadamente no âmbito social, fazendo evoluir o quadro institucional existente, dotando-se de instrumentos poderosos de controlo e consolidando a sua estratégia de desenvolvimento nacional.
A tese da «eficiência dos mercados financeiros», evocada anteriormente, tem muitos adeptos na China, como o testemunham os apelos a uma reforma em profundidade da ordem monetária e financeira mundial, regularmente lançados pelos dirigentes políticos do país. Estes últimos estão certamente conscientes das disfuncionalidades estruturais dos mercados financeiros, sujeitos auto-proclamados da história, em direcção à profecia auto-realizadora e sofrendo do gangrena das práticas especulativas longe da sua função de utensílios de cobertura. Eles conhecem os defeitos mas sobretudo as vantagens da intermediação bancária, e conservam a grande parte do sistema bancário (cujo funcionamento tem de melhorar, seguramente) sob o controlo do estado. Estão relutantes igualmente a abandonar o modelo dito da «banca universal», preferindo orientar-se em direcção a um esquema que tolere as operações mistas, efectuadas nas filiais especializadas, separadas do resto do holding (público) e colocadas sob vigilância da comissão de regulação bancária.
Por outro lado, as taxas de juro permanecem ainda muito administradas, apesar das reformas, e aceleraram recentemente no sentido da liberalização. Para aquelas que foram liberalizadas (nas obrigações emitidas pelas instituições financeiras, por exemplo), a oferta de crédito mantém-se fortemente controlada pela banca central, nomeadamente através de um dispositivo de reservas obrigatórias. E o relaxamento progressivo das restrições que são impostas aos estabelecimentos bancários para a fixação das taxas sobre os depósitos (que podem hoje exceder em 10% os do Banco Central, contra as margens de manobra que vão até 20% abaixo das taxas centrais para os empréstimos) não se deve esquecer que, historicamente, as autoridades financeiras reduziram voluntariamente ao mínimo (sempre ao ritmo da inflação e por vezes mesmo abaixo de zero) a remuneração dos depósitos (que não inflectiu, ao contrário, a taxa de poupança nacional, extraordinariamente elevada). Limitar a excessiva facilidade dos bancos a dispor duma poupança a bom mercado e a refrear a tendência à liberalização das taxas de juro não é, em si, uma má opção, considerando as catástrofes financeiras em cadeia observadas à escala mundial depois de 2007 e a ineficácia crescente dos bancos centrais ocidentais para conservar a matriz das suas políticas através das taxas de juro sobre o controlo dos oligopólios financeiros e de facto incapazes de relançar o investimento produtivo, ou de fazer respeitar as regras de prudência elementares (em matéria de fundos próprios ou de trading de produtos derivados). Depois do começo da crise e da identificação de riscos sistémicos, como os de uma queda do Dólar ou de uma deslocação do sistema financeiro global, colocou-se a questão da oportunidade de uma internacionalização do Renminbi, para fazer dela uma das moedas da reserva internacional. Em Março de 2012, o Japão, segundo país detentor de títulos dos EUA, depois da China, tornou-se assim o primeiro país do Norte a adquirir obrigações de estado chinesas em Renminbi.
A convergência face a tal objectivo exigiria a adopção de uma série de condições muito estritas. Entre estas figura, em primeiro lugar, uma dimensão a atingir para a economia, no que toca aos níveis de produção interna e capacidade de exportação, susceptível de justificar a internacionalização da moeda nacional. É o caso hoje, evidentemente, uma vez que o peso da China a coloca no segundo lugar a nível mundial quanto ao PIB, atrás dos EUA, e numa posição intermediária entre os dois e o conjunto dos países da zona euro para as exportações de bens e serviços. Outra condição é a reorientação das políticas macroeconómicas de um modo que permita garantir a «confiança» dos mercados financeiros globalizados, particularmente em matéria de luta contra a inflação, de limitação do endividamento público e da estabilidade da taxa de câmbio. Este critério parece igualmente cumprido, na medida em que a adopção de medidas anti-inflacionistas, de controlo das contas públicas e da evolução do Renminbi deram os seus frutos nos últimos anos. Se as pressões inflacionistas permanecem um perigo real para a evolução da economia chinesa, o índice calculado de estabilidade dos preços é claramente melhor na China que nos outros «BRICS». O endividamento das administrações públicas lato sensu foi contida em níveis menos elevados do que na maioria dos países ocidentais. Quanto aos índices de variabilidade da moeda nacional, medidos segundo diferentes métodos, eles tendem a mostrar um Renminbi relativamente menos instável que o Real, a Rupia, o Rublo e o Rande.
Mas isto não é tudo. Uma exigência suplementar sine qua non para internacionalizar a moeda chinesa seria (combinada com o desenvolvimento das bolsas de valores) a abertura de conta de capital e a flexibilização da taxa de câmbio, o que implicaria uma integração ainda mais poderosa dos mercados financeiros chineses no capitalismo mundial. A este respeito, deve reconhecer-se que, apesar da adopção generalizada de mecanismos de mercado em matéria de política monetária e do alívio progressivo das regulamentações relativas à conta de capital e à determinação da paridade do Renminbi, as autoridades monetárias continuam a dispor de poderosos instrumentos de controlo. Ainda assim, e sem estar totalmente ausente desses mercados, a utilização do Renminbi continua a ser extremamente limitada no comércio de produtos derivados «over-the-counter», e relativamente concentrada em ferramentas clássicas de cobertura maioritariamente do tipo forwards.
A internacionalização do Renminbi, cujas condições parecem quase reunidas, teria certamente vantagens para a China; a começar por um direito de senhoria, como com os EUA. No entanto, uma tal orientação de fundo significaria, em nossa opinião, uma submissão prejudicial do país à alta finança mundialmente dominante, donde viria uma perda relativa de controlo sobre a política monetária. Como poderia a China - que se tornou uma superpotência mas não em hegemonia no sistema global - cuja moeda fosse também a moeda-chave mundial, tirar proveito de um Renminbi internacionalizado sem ser constrangida a pagar muito caro o custo associado, neste caso a fragmentação do pleno exercício da sua soberania nacional e, de facto, o abandono de uma estratégia de desenvolvimento autónoma? Neste momento, na própria China, a pressão a favor da liberalização dos mercados financeiros, defendida por muitos economistas e políticos (nomeadamente em Xangai) é muito forte, mas poderão ser atenuadas pelos discursos oficiais que garantem o controlo do processo de «reforma» em curso e a necessidade de «modernização» do sistema financeiro em direcção a uma internacionalização do Renminbi. Esta pressão poderá tornar-se preocupante porque se juntam exactamente as recomendações dispensadas à China pelos peritos do Fundo Monetário Internacional ou certos dirigentes neo-liberais ocidentais (à imagem do antigo presidente francês Nicolas Sarkozy, que, na reunião do G-20 em Cannes em Novembro de 2011, pediu a adopção do neo-liberalismo na China e a incorporação do Renminbi no painel dos Direitos de Saque Especial - DES). O facto dos dirigentes chineses se mostrarem em geral mais reservados sobre este assunto indica, para além das palavras de circunstância, que estão conscientes não apenas dos benefícios mas também e sobretudo dos perigos que implicaria para o futuro do «socialismo de mercado» a convergência no sentido de um Renminbi internacionalizado.
Entretanto, a China escolheu reforçar as suas parcerias estratégicas com os seus vizinhos (em particular no quadro do grupo de Xangai), bem como com os outros «BRICS». Deste modo teve lugar em 29 de Março de 2012 uma reunião em Nova Deli, a IV Cimeira dos BRICS sobre o tema «Parcerias pela Estabilidade, Segurança e Prosperidade Mundiais». Nela participaram, com grandes delegações, os chefes de estado ou de governo implicados (Hu Jintao, Manmohan Singh, Dimitri Medvedev, Dilma Roussef e Jacob Zuma), representando, juntos, 45% da população do planeta, PIB’s acumulados praticamente equivalentes ao dos EUA e dois terços do crescimento mundial. Esta cimeira terminou com um forte consenso que revela a vontade unânime das cinco potências de ultrapassar algumas das principais questões controversas e de melhor coordenar as suas posições na cena internacional a fim de defender uma representação mais alargada dos países em desenvolvimento no seio das instâncias das Nações Unidas e com a ideia de uma reforma da ordem internacional (mensagem que esteve no âmago do discurso da delegação chinesa).
No plano económico, a manifestação mais visível desta aproximação foi o “Ponto 13” da “Declaração de Nova Deli” (que conta 50): o anúncio da constituição de uma equipa, sob a autoridade dos cinco ministros das finanças, tendo como missão explorar as condições de exequibilidade e viabilidade de uma nova instituição multilateral de crédito que seria gerida pelos BRICS e cuja criação poderia ser anunciada na próxima cimeira em 2013. Este banco de desenvolvimento, principalmente destinado a mobilizar recursos para o financiamento de infra-estruturas e projectos de desenvolvimento sustentável nos países do Sul (mas também do Leste e possivelmente do Norte) inscreve-se numa lógica de procura de respostas coordenadas face à crise sistémica actual e de autonomização das decisões dos governos dos BRICS em vez das «soluções» propostas pelas organizações financeiras internacionais. Um dos objectivos visados é também reduzir a importância do dólar enquanto moeda internacional de pagamento e reserva; e um dos meios que permitem alcançar este objectivo é promover o comércio bilateral em moedas locais e a facilitar a ligação das suas bolsas de valores. Como é evidente, a reacção da maior parte dos comentadores e peritos ocidentais (os quais muitas vezes relembram satisfeitos a «qualidade dos serviços» prestados pelas organizações financeiras existentes e falam de uma «falta de competência dos BRICS» em matéria de empréstimos ao desenvolvimento) não esteve à altura do acontecimento, anunciando a construção de um mundo multi-polar.

Conclusão
Não tivemos a pretensão de abordar, no presente artigo, a delicada questão da natureza do sistema político-económico chinês actual, que merece um tratamento aprofundado e à parte. Porque as designações tradicionais de «socialismo de mercado» e de «capitalismo de estado» permitem, pelas suas próprias contradições, fechar um pouco o leque de possibilidades entre os pólos extremos do «socialismo» e do «capitalismo»; mas deixam bem clara a margem de indefinição de uma mistura de formas institucionais única no mundo, cujo sucesso tende a erigi-la em «modelo». O que é certo, por contraste, é que o futuro deste sistema permanece largamente indeterminado, pela sua própria dinâmica, mas também porque o capitalismo dos oligopólios financeiros do Norte parece cada vez mais entrar frontalmente em conflito com ele, apesar da sua estreita interdependência.
As relações que existem entre, por um lado, o poder exercido pelo aparelho de um Partido que se diz ainda «comunista» e o bloco social sobre o qual se apoia (as classes médias que beneficiam do desenvolvimento em curso, mas também os empresários privados) e, por outro lado, as massas operárias e camponesas, são singulares e complexas. A sua evolução, no sentido de uma restauração capitalista ou, pelo contrário, da reactivação de um compromisso social mais favorável às classes populares, em ligação com o conteúdo de certas formas de democratização do país, abre perspectivas de confrontos de grande escala entre forças políticas em presença, bem como de trajectórias divergentes das estruturas da economia chinesa. Uma questão subsiste: de que modo as elites dirigentes chinesas, cuja legitimidade se vê consideravelmente reforçada pelo crescimento e múltiplos benefícios que ela autoriza, chegariam a encontrar as novas modalidades que lhes permitam confirmar o extraordinário desenvolvimento do país sem se apoiar de uma ou outra maneira numa transformação da relação de forças internas em favor das classes populares? Quero dizer, sem reorientar, em profundidade, o «projecto nacional» em direcção a uma prioridade dada às políticas sociais, para não dizer socialistas? Dito de outro modo, a escolha da via «capitalista», francamente assumida pelas elites dirigentes, que conduziria muito provavelmente a quebrar o equilíbrio dinâmico tão particular que caracteriza a evolução do sistema político e à perda de controlo sobre as contradições no crescimento não será o meio mais seguro de garantir o fracasso da estratégia decidida até aqui?
De maneira mais geral ainda, e num contexto em que as condições parecem hoje reunidas para que uma das consequências maiores da crise sistémica do sistema mundial seja a acentuação do confronto Norte-Sul, uma outra interrogação, ou preocupação, surge: que atitude adoptarão os EUA, no plano político e estratégico, aí incluindo um ponto de vista militar, face à crescente força dos países «emergentes» e, entre estes, os «BRICS», em cujo primeiro lugar está a República Popular da China? Porque o facto é que Washington conhece, na matéria, os pontos fracos da nova super-potência, da referida «Taipei Chinesa», até às províncias com populações muçulmanas do Noroeste, passando por Lhassa e Xizang.



*Investigador no CNRS, UMR 8174 Centre d’Économie de la Sorbonne


Tradução de André Rodrigues P. Silva

http://www.odiario.info/?p=2858

sábado, maio 04, 2013

2013 a Ferro e Fogo – Vagas de fundo. A emergência da China e dos “BRIC”, miragem ou realidade? (parte II.4)

Parte I aqui.
Parte II.1 aquiParte II.2 aqui
Parte II.3 aqui
A emergência da China e dos “BRIC”, miragem ou realidade?
2012_Pudong
A China neste momento é a segunda economia mundial e são recorrentes as previsões que irá ultrapassar os EUA e assumir o lugar cimeiro. Para alguns será em 2016, para outros em 2020, varia mais a data de que a certeza que tal dia chegará. É também comum a narrativa do ocidente decadente perante a emergência de novas potências… Não só a China, mas o Brasil, a Índia e a Rússia… Recentemente tem-se também falado da Colômbia, Indonésia, Malásia e alguns países da África subsariana.
Até que ponto tais narrativas são sólidas, ou meras miragens? Não subscrevo por inteiro a tese deste texto – Broken BRICs: Why the rest stopped rising - mas pelo menos tem a virtude de desmistificar o “inexorável” avanço dos países ditos “emergentes” face às potenciais estabelecidas, ao contrário de certas análises simplistas como esta. Pura e simplesmente extrapolar a taxa de crescimento de uma economia, com base na sua performance nos últimos 10 (ou cinco) anos é um exercício coxo, que nos diz mais acerca do passado e presente de uma economia que do seu futuro. Analisar apenas taxas de crescimento oculta também o facto de se estarem a comparar pontos de partida completamente diferentes. É óbvio que nos países “Ocidentais” não há margem para taxas de crescimento equivalentes a países onde a infraestrutura é raquítica e o nível de vida baixíssimo, ou seja onde pequenas melhorias de rendimento ou novos projectos têm um efeito exponencial no PIB, enquanto que as melhorias em países já desenvolvidos têm sempre efeitos marginais no produto agregado. Outro erro comum é assumir que a clivagem fundamental é entre as potencias estabelecidas e os países emergentes. Mais do que desalojar países da Trilateral (EUA/Europa/Japão) da sua posição dominante, o mais comum é certos países emergentes substituírem outros emergentes na hierarquia do sistema-mundo.
Um dos casos que fura mais a corrente narrativa é o da Rússia, considerada uma potência emergente, mas o que é a Rússia de hoje comparada com o que foi a URSS? Se a Rússia de Putin está bem acima do descalabro Ielstiano, não deixa de estar a anos luz do poder social, geopolítico, político e mesmo económico da defunta URSS. Ou pensemos numa Argentina se é verdade que está bem melhor agora do que na década de 80 do século XX, convém lembrar que a Argentina já foi uma potência económica e política bem mais relevante que nos dias de hoje (no final do século XIX e até à segunda guerra mundial, mais coisa menos coisa).
No caso de África, corre o debate se o século XXI não será um século muito favorável a esse continente. Até pode ser, espero que seja, mas daí até achar que a África será uma super potência no final do século XXI vai uma grande diferença.
Mas talvez o caso que mereça maior atenção seja mesmo o da China. São inegáveis os avanços e o desenvolvimento da China nos últimos 30 anos, cuja base foi lançada nos 20 anos antecedentes. Vários números podem ser dados para exemplificar isso, a China ocupa hoje um lugar importante no sistema mundo. Mas irá transformar-se na potência dominante? Os dois textos seguintes dão um bom enquadramento no que concerne à natureza do processo de desenvolvimento Chinês e às tensões a que esse modelo está agora sujeito.
The Global Stagnation and China, John Bellamy Foster and Robert W. McChesney
China’s capitalism and the crisis, Jane Hardy and Adrian Budd
O desenvolvimento de um pujante mercado interno Chinês que absorva as exportações do Ocidente é uma das maiores esperanças dos “mandarins” das potências da Trilateral desejosos de escapar à “espiral recessiva”. Mas a questão prévia é saber se a economia Chinesa conseguirá ajustar-se à queda da procura para as suas exportações no mercado ocidental. A China não sofreu mais com a crise de 2008-2009 porque implementou uma política Keynesiana ao quadrado (ou à escala Chinesa…), até que ponto esses investimentos e o crédito concedido obterá o retorno necessário para sustentar a economia Chinesa e possibilitar a margem de manobra necessária a uma reconversão do seu modelo produtivo com vista a uma dinamização do mercado interno, é algo que está por saber. O que é certo é que entre enunciar um rumo “desenvolver o mercado interno” e de facto operar transformações nesse sentido, vai uma grande distância, até porque essas transformações irão colidir com interesses particulares instalados, interesses que se baseiam no actual modelo produtivo virado para as exportações. Isto num contexto em que a conflitualidade social e laboral atinge níveis importantes, níveis que permitiram de facto, um aumento considerável dos salários na China.
Mas não é só a contracção no consumo a ocidente que força a uma alteração no modelo produtivo Chinês. Existe também o estagnar do outsorcing e das deslocalizações de empresas ocidentais para a China. O debate sobre até que ponto o outsorcing está a morrer (aqui ou aqui) ou até que ponto está a ocorrer um regresso da Indústria aos EUA, está em curso (aqui, aqui ou aqui). O facto de se dar esse debate é só por si revelador, é revelador, de que, no mínimo, o grau de deslocalizações de Industrias ocidentais para a China estagnou. Portanto, aquele que foi um dos maiores motores de desenvolvimento da economia Chinesa parou. A liderança Chinesa sabe disto, daí a nova orientação para o mercado interno e o assumir de que os anos de crescimento exponencial terminaram.
Até que ponto é possível a China re-ajustar o seu modelo a este novo ambiente é uma grande questão. E seja qual for a resposta, esta questão por si só desmonta a narrativa do inexorável avanço Chinês até à primazia no seio do sistema-mundo.
Para lá destas questões, a forma como a China chegou a esta posição no sistema mundo merece uma breve discussão. Sobretudo porque permite desmontar certos mitos difundidos pela elite capitalista, tomados por muitos como verdades irrefutáveis. É essa a maior força do artigo China 2013, de Samir Amin.
To say, as one hears ad nauseam, that China’s success should be attributed to the abandonment of Maoism (whose “failure” was obvious), the opening to the outside, and the entry of foreign capital is quite simply idiotic. The Maoist construction put in place the foundations without which the opening would not have achieved its well-known success. A comparison with India, which has not made a comparable revolution, demonstrates this. To say that China’s success is mainly (even “completely”) attributable to the initiatives of foreign capital is no less idiotic. It is not multinational capital that built the Chinese industrial system and achieved the objectives of urbanization and the construction of infrastructure. The success is 90 percent attributable to the sovereign Chinese project. 
The attraction of foreign capital to China, from which it has benefitted, is not behind the success of its project. On the contrary, it is the success of the project that has made investment in China attractive for Western transnationals.
For my part, I argue that if China is indeed an emerging power, this is precisely because it has not chosen the capitalist path of development pure and simple; and that, as a consequence, if it decided to follow that capitalist path, the project of emergence itself would be in serious danger of failing.
Foi exactamente por seguir uma via de desenvolvimento diferente do modelo capitalista da trilateral que a China chegou onde chegou, a segunda economia mundial, com o maior nível de crescimento económico das últimas décadas!!! Tivesse a China seguido os conselhos do FMI, Banco Mundial e outros que tais, ainda seria uma nação dividida e marginal no sistema mundo… Outro mito comum é de que o desenvolvimento Chinês deveu-se única e exclusivamente aos salários baixos. Se assim fosse o Burundi ou qualquer outro país a roçar o miserável ter-se-ia desenvolvido exponencialmente. Os baixos salários foram certamente parte da equação, mas estão longe de ser a única componente e cada vez mais serão uma parte menor da equação, uma vez que existe um aumento do rendimento dos trabalhadores Chineses, ao mesmo tempo que na Trilateral/ocidente há um congelamento ou redução dos custos laborais. A existência de (e investimento em) infraestruturas de transportes e telecomunicações, a existência de cadeias logísticas, as economias de escala possíveis, a existência de clusters de indústrias, a urbanização e, last but not least, o controlo político e estratégico de todo o processo por parte do Partido Comunista Chinês é que permitiram a China chegar onde chegou. E sobre o ponto onde a China chegou muito se pode dizer, incluindo, que a enorme redução dos níveis de pobreza mundiais entre os anos 80 e a actualidade se deveu, quase em exclusivo, aos esforços desenvolvidos pela República Popular da China.
Com todas as suas vicissitudes e contradições, a China foi seguindo o seu próprio caminho. Um caminho que incluí o crescimento exponencial das últimas décadas e a transformação da China no maior centro de manufactura mundial. Este caminho gerou e gera fortes tensões, tanto a nível interno, como externo.
Quanto às tensões internas e à luta de classes os dois textos que mencionei no início da discussão sobre a China abordam o assunto. Mas acrescentaria mais dois, China in Revolt -Today, the Chinese working class is fighting. More than thirty years into the Communist Party’s project of market reform, China is undeniably the epicenter of global labor unrest - e, The Struggle for Socialism in China.
O texto Imperialism and instability in East Asia today, de Ha-young Kim foca-se no crescendo de tensões inter-imperialistas no extremo-oriente - Contrary to the widespread belief that the economic interdependence between China and the US will deter any geopolitical clash between them, increased trade and investment do not bring peace—as the classical Marxist theory of imperialism warns. Germany and Britain had close economic ties before the First World War, and the same was true of the US and Japan before the Second World War. Above all, East Asia is rife with destabilising factors such as territorial disputes and a divided Korean peninsula, any one of which can trigger a rapid escalation of military tension in the region.
how-america-wants-to-check-chinas-expansion
E o que dizer dos EUA? Sem dúvida que os EUA já não estão na posição dominante inquestionável que por instantes ocuparam após a queda da URSS. Há várias questões que se colocam quanto às bases do seu poderio. Mas neste momento são ainda a potência hegemónica global, o seu poder militar e económico são ímpares. O dólar continua a ser a moeda referência mundial, as forças armadas dos EUA são ainda as mais poderosas do globo (não são é omnipotentes…), em termos de desenvolvimento científico os EUA ocupam um lugar cimeiro, a economia dos EUA (mesmo com problemas) continua a mais pujante do planeta. Desalojar os EUA do seu lugar implica ultrapassar todos estes obstáculos mais a rede de alianças centrada nos EUA (na Ásia com o Japão, Coreia do Sul e outros, na Europa com a NATO, etc…) e a rede de instituições globais (FMI, Banco Mundial, ONU, etc…) desenhadas para manter a hegemonia dos EUA e a actual hierarquia  dentro do sistema mundo encabeçado pela Trilateral, em que o vértice mais alto são os EUA.
A isto acrescento outra vantagem, que os EUA dispõe face à China e mesmo a uma putativa Europa unificada. O seu grau de coesão. É muitas vezes dito que a sociedade dos EUA é muito desigual, que há uma enorme desigualdade social e na distribuição de riqueza. Sem dúvida, isso é verdade. Mas o que não se faz tanto é comparar a realidade dos EUA com a realidade Chinesa ou Europeia. Na verdade, fazendo uma medição através do índice de gini, os EUA apresentam um índice de desigualdade social semelhante ao da União Europeia! O que acontece é que cada país da UE tem um nível de desigualdade inferior ao dos EUA, mas se a UE for tomada no seu todo, as enormes diferenças entre o norte rico (e.g. Holanda, Finlândia, Dinamarca…) e o sul pobre (e.g. Roménia, Grécia, Portugal…) resultam num índice semelhante aos dos EUA. Mas para além do coeficiente de gini está a realidade histórica e cultural. A Europa é uma manta de retalhos de nações com ódios seculares entre si. A China é também uma realidade muito mais plural do que se julga, por extensos períodos de tempo a China nem foi um país  unificado, mesmo hoje em dia por vezes certas regiões reivindicam a independência (e nem estou a falar do Tibete!)… Nos EUA, apesar de existirem alguns regionalismos, a guerra civil resolveu a questão nacional, não existem movimentos independentistas dignos de registo nem tensões inter-regionais/inter-nacionais significativas. Quando comparado com a China ou a Europa, os EUA são uma realidade político-social muitíssimo mais coesa e homogénea. Em tempos de crise esse grau de coesão faz uma grande diferença.
Para concluir direi que é importante ter em conta que no actual sistema mundo as potências da Trilateral já não são os únicos agentes relevantes. A China, outras potências na Ásia, África e América do Sul também ocupam um lugar no “grande jogo“. Outro factor a ter em conta é o reforço das relações ditas “sul-sul”, entre China e África, África e América Latina, em que a Trilateral já não ocupa um ponto de charneira incontornável. Estas novas realidades tem impacto na economia, no social e na geopolítica… ou até no simples design de produtos. As ideologias, ideias, artes, padrões estéticos até há uns anos atrás considerados “universais” eram decalcados do mundo ocidental, haverá uma tendência para que os novos padrões universais incluam reflexos de outras paragens e não exclusivamente os do “Ocidente”.
Dito isto, importa acrescentar que isso não significa que iremos assistir a uma pacífica e inexorável transição para um mundo em que a potência hegemónica seja a China ou outra potência Asiática. Tenho grandes dúvidas que tal venha a acontecer, mesmo a médio prazo. O que é certo é que a emergência destes novos players, sobretudo da China, dará azo a novas contradições inter-imperialistas e irá reacender velhas feridas, isso será cada vez mais visível à medida que a actual crise se agudizar.

sexta-feira, maio 03, 2013

2013 a Ferro e Fogo – Vagas de fundo. A Revolução Digital, telecomunicações e gestão da informação (parte II.3)

Parte I aqui.
Parte II.1 aquiParte II.2 aqui
 A Revolução Digital, telecomunicações e gestão da informação
Industrial-revolution
A máquina a vapor, revolucionou os transportes permitiu o comboio e o barco a vapor. A velocidade, segurança e fiabilidade do transporte de bens e pessoas aumentou de forma significativa, os custos diminuíram de forma importante.  A máquina a vapor também permitiu a produção industrial em massa (em alguns sectores… como os têxteis, químicos ou siderurgia). Claro que não foi a máquina a vapor por si só, sem uma dada envolvente económica, social e política, sem o domínio de outras técnicas pré-existentes, a “invenção” da máquina a vapor seria irrelevante. Não é por um “carola” inventar uma “engenhoca” que seja o que for altera-se de forma significativa. Se assim fosse a Revolução Industrial teria-se dado no século I em Alexandria…
Mas a adopção da máquina a vapor aos transportes e indústria nos séculos XVIII-XIX teve  um impacto tremendo e revolucionário na economia, política e cultura. No final do século XIX o motor de combustão interna e o controlo da produção e difusão da electricidade  tiverem um impacto semelhante, permitindo o avião, automóvel, expansão da indústria e sua aplicação a uma enorme quantidade de bens de consumo. Daí para cá não houve muito mais técnicas que tenham tido um impacto semelhante, a não ser… a não ser talvez aquilo que se tem designado por Tecnologias de Informação e Telecomunicações (TIT)…
Mais uma vez, já na antiguidade clássica aparelhos capazes de gerir informação existiam, mas foi a partir dos anos 70 do século XX e sobretudo dos 80 até ao momento presente que essas tecnologias de Informação e Telecomunicações se difundiram e marcaram a nossa sociedade. Sendo que o grosso dos seus efeitos na política, cultura e economia ainda está por se sentir.
Convém definir exactamente do que é que estamos a falar. Aquilo a que refiro como TIT´s são diferentes técnicas que embora convergentes não são exactamente coincidentes. Temos aquilo que se designa como “computadores”, que vai desde aparelhos móveis, portáteis, até grandes centrais. São equipamentos capazes de armazenar, gerir e processar informação (tudo aquilo que se possa traduzir num código de 0s e 1s… imagens, textos, sons, filmes, números), são também capazes de copiar, reproduzir a custo marginal zero a informação que armazenam/processam. Depois temos a parte das comunicações – satélites, cabos de fibra óptica, GSM, Wifi e Bluray – isto permite a transmissão, comunicação e partilha da informação, o custo marginal não é exactamente zero, visto que a capacidade de tráfego nos vários canais é limitada, mas relativamente há vinte ou trinta anos a quantidade de informação que pode fluir é muitíssimo maior e a custos marginais baixíssimos. Neste último caso as limitações da infraestrutura são também mais relevantes. Em vários países (por exemplo em África), não há cabos para transmitir a informação, tem de se recorrer aos satélites, que têm uma capacidade muitíssimo mais limitada, de qualquer das formas sempre é melhor que nada. Mas para ter uma banda larga a sério, para se ter capacidade para transmitir grandes quantidades de informação só mesmo por cabos… Convém não esquecer, que por mais propaganda que certos sectores façam em prol da economia “imaterial” e “virtual”, a verdade é que, mesmo o fetiche máximo da “imaterialidade” (a Internet) não existiria sem uma robusta infraestrutura material a suportá-la.
O que estas técnicas em conjunto permitem é que hoje em dia seja possível: reproduzir a um custo marginal  zero tudo o que seja composto por imagens e/ou sons; transmitir para grande parte do mundo, praticamente à velocidade da luz, a um custo marginal quase igual a zero tudo o que seja  composto por sons e/ou imagem. Existem certos custos iniciais: os terminais (portáteis, computadores ou smartphones) e a infraestrutura de comunicação (torres, satélites, cabos). Mas descontado esse investimento inicial a reprodução e transmissão de informação é apenas limitada pela capacidade das redes de comunicação… A quantidade de informação que circula é tal que o custo médio por bit é quase zero… E não é só o custo, é a capacidade armazenar a informação, a velocidade a que pode ser transmitida e a quantidade de locais que se tornam acessíveis para o acesso e emissão dessa informação. Mais, sobretudo na última década é cada vez mais possível que essas operações possam ser efectuadas a partir de aparelhos móveis de tamanho reduzido (e respectivas redes de curta distância), que estão acessíveis a um indivíduo 24h por dia, já nem é preciso sentar a uma secretária para aceder, copiar, emitir ou processar a informação, todas essas operações podem ser efectuadas nos transportes públicos, num café, num elevador, a andar pela rua…
O que ainda está na sua infância e ainda está por explodir é a ligação destas técnicas de gestão e transmissão de informação a realidades físicas. Ou seja, a convergência dos computadores e telecomunicações está feita, o passo seguinte é a sua ligação a sensores capazes de interpretar e actuar sobre a realidade circundante (formas, sons, imagem, cheiro, temperatura..), isso está em curso mas ainda não explodiu. Já existem carros que estacionam de forma automática, casas inteligentes, pagamento automático (portagens, supermercado), drones, mas nesse campo ainda há muitas possibilidades por explorar. Tenho dúvidas acerca da recente euforia em torno das impressoras 3d, mas mesmo que isso não se revele o que muitos esperam, existem múltiplas outras áreas onde a convergência de computadores+telecomunicações+sensores pode ser revolucionária. Na produção industrial, na guerra, logística-transportes, saúde, etc…
As consequências políticas, económicas e sociais de tudo isto já se sentem, mas o grosso das consequências ainda estão por vir. Estas tecnologias só emergiram há três décadas, várias componentes só se generalizaram na passada década. Existem ainda inúmeros sectores de actividade e locais onde as tecnologias existentes podem ser aplicadas mas ainda não o foram. Mais, existem novas técnicas que ainda estão na sua infância e estão por se generalizar… A primeira importante conclusão é de que tal como o motor a vapor ou o motor de combustão interna contribuíram para alterar a sociedade, também estas técnicas o farão e o grosso do seu impacto ainda não se fez sentir. Aliás, ainda não existe (nem me parece possível neste momento) uma percepção clara do completo impacto que tudo isto terá no social e político.
Para já, é possível apontar alguns impactos óbvios nas forças e relações de produção. Por exemplo, todo um conjunto de profissões/funções associadas ao processamento de informação e sua difusão tornaram-se obsoletas, essa tendência apenas se reforçará (pensemos em tipógrafos, contabilistas, amanuenses… os típicos manga de alpaca). Uma série de funções que até aqui exigiam o controle por parte de um humano (como por exemplo registar as compras à saída de um supermercado) irão cada vez mais tornar-se obsoletas (ou mais correcto, ocuparão uma posição marginal). O mesmo se passa ao nível de certos produtos, tudo o que é suporte físico para informação (e.g. livros e jornais impressos) será cada vez mais remetido para a categoria de produto de luxo. À partida estas transformações são positivas, podendo libertar a energia humana para tarefas mais criativas e melhorar em muito o bom aproveitamento dos recursos à disposição da humanidade e/ou melhorar em muito as condições de segurança e conforto dos ambientes onde habitamos. Mas existe sempre o potencial que tais avanços sejam sobretudo canalizados para comprimir o poder social, político e económico das classes trabalhadoras. Talvez até de forma mais explícita e dirigida que anteriores inovações tecnológicas, uma vez que a actual revolução aplica-se mais à gestão e apropriação de informação, não incidindo directamente sobre uma realidade física.
O seguinte texto - Technological Breakthroughs and Productivity Growth - é útil (há muitos outros no mesmo estilo +-) na medida em que se percebe  que esta revolução técnica é de uma ordem de grandeza semelhante ao motor a vapor ou da produção/distribuição eléctrica. Embora também se deduzam algumas diferenças importantes, a máquina a vapor teve um impacto sobretudo na produção e movimento daquilo que é material, “os computadores” sobretudo naquilo que é imaterial. Outra importante diferença é que ao contrário das revoluções tecnológicas precedentes, os ganhos de produtividade têm estado sobretudo concentrados nas indústrias directamente ligadas a essa inovação. Ou seja, o aumento de produtividade associado à generalização da máquina a vapor fez-se sentir em várias indústrias de transportes e transformadoras, a indústria de produção de máquinas a vapor ela própria não beneficiou de aumentos de produtividade acima de outras indústrias. Já no caso das TITs as indústrias cuja produtividade mais aumentou com essas inovações foram exactamente as ligadas às tecnologias de informação e comunicações. Portanto esta última revolução tecnológica, embora tenha efeitos em todo o sistema produtivo, acaba por ser muito mais auto-centrada que as revoluções tecnológicas precedentes. Comparando com a máquina a vapor, os motores de combustão interna ou a electricidade, as TITs têm menos impacto noutros sectores económicos, têm menos capacidade de alavancar outras indústrias.
Uma crítica importante ao texto que citei é que apenas através da medição quantitativa dos impactos na produtividade não se podem tirar conclusões acerca do impacto dessas técnicas no social… Por exemplo, parece-me que o domínio do fogo ou a revolução agrícola do neolítico tiveram um impacto maior (no mínimo semelhante) a estas técnicas, mas se se fosse fazer uma medição dos seus efeitos na produtividade esta seria marginal comparada com as revoluções técnicas mais recentes (a escala temporal e geográfica é muito diferente, o mesmo se passa quando se compara os efeitos da máquina a vapor com os avanços mais recentes)…
Outro texto “The Internet’s Unholy Marriage to Capitalism“, é importante porque se entende até que ponto o desenvolvimento da Internet (e o que a ela está associado) está associado à envolvente sócio-política. Também é importante porque mostra como as promessas utópicas da colaboração em rede para o bem comum (wikipédia, wikileaks, Linux?) em grande medida são algo marginal quando comparadas com a os ganhos que meia dúzia de empresas privadas/indivíduos fizeram à volta desta nova tecnologia… Mais, mantendo-se o actual rumo neoliberal, estas novas técnicas serão cada vez mais utilizadas para construir grandes monopólios de informação privados… informação e controlo/comando. A concentração de uma nunca antes vista quantidade informação, facilmente acessível e manipulável, permite um controlo sobre os indivíduos e a sociedade nunca antes visto. O seguinte texto também apresenta uma visão crítica acerca da revolução digital.
Confesso que tenho uma visão um pouco mais positiva destas inovações. Se é verdade que a capacidade de controlo e comando por parte de grandes monopólios privados aliados a um estado repressor aumentaram exponencialmente, é também verdade que a capacidade de partilha e difusão de informação por indivíduos/redes “anti-hegemónicas” também aumentou exponencialmente. Estas tecnologias têm permitido que indivíduos ou grupos de activistas consigam a um baixo custo ter acesso e emitir informação que há vinte ou trinta anos seria impensável. Apesar de tudo parece-me que estas tecnologias, por enquanto, democratizaram, mais do que elitizaram/concentraram, o acesso e difusão da informação.
“We wanted flying cars, instead we got 140 characters.”, esta frase retirada de um artigo do economist ilustra bem outra importante questão… É que à parte destas inovações na gestão de informação e telecomunicações, não houve em nenhum outro sector (talvez na medicina? mas mesmo aí tenho dúvidas) uma revolução nas técnicas. Tudo o que tem a ver com a manipulação e produção de bens hoje em dia já existia na primeira década do século XX. De então para cá têm existido melhorias incrementais, mas os tipo de motores, combustíveis e veículos que hoje usamos são os mesmos de há 100 anos… Ou seja, de há 100 anos para cá houve melhorias incrementais e generalização de certas técnicas, mas nenhuma nova tecnologia foi introduzida no que ao explicitamente material diz respeito (a não ser talvez o nuclear, mas a promessa do nuclear ficou a anos luz dos seus intentos originais…). Ao contrário de toda a mitologia construída em torno da “inovação”, a verdade é que muito pouca inovação técnica tem existido, o caso do recente foguete espacial privado, Antares, é para mim paradigmático. Uma suposta inovação privada numa indústria supostamente de ponta, mas vai se a ver e os motores que propulsionam o foguete datam dos anos 60/70 e foram fabricados e desenhados na União das Republicas Socialistas Soviéticas… Como acima disse, mesmo que não explicitamente, as TIT´s implicitamente também afectaram o mundo material (incluindo da produção e transporte). A convergência que ainda está na sua infância de sensores+computadores+telecomunicações mais influência no material terá. Mas mesmo assim, há um certo amargo de boca, o tal “queríamos carros voadores e em vez disso temos mensagens de 140 caracteres”… A verdade é que na aurora do século XXI, o sistema mundo, chamemos-lhe de “Capitalismo”, de um ponto de vista da inovação técnica (e do aumento potencial da produtividade e de rendimento do capital) está a anos-luz e num estado quase comatoso quando comparado com o que era a situação no início do século XIX ou XX.
Drone
Fazendo uma síntese, direi que o fundamental perceber é que estas tecnologias possibilitam: o processamento e armazenamento de informação a uma escala sem precedentes e com custos baixos; a reprodução e transmissão de informação a custo marginal quase zero e numa extensão sem precedentes. Também importa reter que os impactos de muitas destas técnicas ainda se estão por fazer sentir, nomeadamente da combinação computadores+telecomunicações+sensores (de que os drones ou as “casas inteligentes” são apenas alguns exemplos). Estas novas técnicas embora moldem o social não têm, por si só, um carácter reaccionário ou progressista, a luta social é que determinará a forma como essas ferramentas serão empregues (e até o seu posterior desenvolvimento). Para lá disto convém frisar, que o sector das tecnologias da informação e comunicação é o único onde tem havido inovações revolucionárias. Noutros sectores, nomeadamente em tudo o que diz respeito há produção, manipulação e transporte do que é material as melhorias têm sido de carácter incremental. As inovações na manipulação da informação também têm efeitos no mundo material, mas em menor escala que anteriores revoluções tecnológicas. Olhando para as primeiras décadas dos séculos XIX ou XX os aumentos de produtividade e rendimento prometidos pelas inovações existentes há altura parecem muitíssimo superiores ao que será possível atingir com base na generalização das técnicas que conhecemos na primeira década do século XXI.

quarta-feira, maio 01, 2013

2013 a Ferro e Fogo – Vagas de fundo. Monopolização e economias de escala (parte II.2)

Parte II.1 aqui
Monopolização e economias de escala
InternetMonopolies
Um dos argumentos mais básicos e populares dos partidários do “capitalismo” ou do “livre mercado” reside na tese de que um mercado livre irá sempre tender para o equilíbrio e maximizar os benefícios quer de produtores, quer consumidores. Um dos problemas com este conto de fadas é que nenhum mercado é “livre” e que em lugar ou tempo algum se verifica a “competição/mercado perfeito“.
Uma das condições necessárias para a existência de um mercado perfeito é a inexistência de economias de escala, o problema é que existem de facto economias de escala (ou de escopo, ou de rede) na produção da maior parte dos bens e serviços. Mais, a partir do momento em que uma dada empresa/capitalista adquire algum poder/capital disponível irá empregar esse poder/capital para “deformar” o “mercado perfeito” a seu favor. Nem é preciso ser um cromo em economia, basta pensar que o jogo icónico que celebra o capitalismo se chama… Monopólio (que por acaso surgiu durante a grande depressão dos anos 30 nos EUA). Esta tendência é portanto inerente ao capitalismo. Mas não apenas ao capitalismo.
Para um sistema económico onde: se procure maximizar a produtividade (que não é o mesmo que procurar a acumulação de capital em mãos privadas); onde exista um mercado de dimensão suficiente e procura em larga escala para um dado produto/serviço; onde exista acesso a recursos em quantidade suficiente; onde a tecnologia e modelos organizativos permitam a produção em série/concentrada. Então haverá tendência para se tirar partida de ganhos com economias de escala, ou seja haverá tendência para o monopólio ou oligopólio. Com isto não estou a dizer que o “monopólio” é sempre a mais eficiente forma de organizar a produção, há que ter em conta todos os pressupostos que acima mencionei. Mais, mesmo verificando-se todos esses pressupostos, o que existe é uma “tendência” para a superioridade do “monopólio”, essa “tendência” só se materializa tendo em conta as especificidades concretas do exemplo que se esteja a analisar. Ou seja, mesmo se se verificarem todos os pressupostos, o “monopólio” poderá não ser o modo de organizar a produção/distribuição mais produtivo. Há que ter em conta as características particulares dos produtos, modelos organizativos, tecnologias e contexto sócio-cultural-político em questão.
O “postulado” acima exposto não é a única força pela qual se formam e mantém monopólios. Em muitos casos onde não são economicamente eficientes – pelos mercados terem dimensão reduzida, não existirem recursos em quantidade suficiente e/ou os custos de acesso/transporte serem elevados, tudo factores que impossibilitam tirar partido das economias de escala – mesmo assim os monopólios prevalecem. Isto porque adquirindo capital/poder suficiente num dado local/mercado podem utilizá-lo para exterminar os adversários noutras paragens (uma táctica muito utilizada é o “dumping“).
Ora com a queda dos custos de transportes no pós 2ª Guerra, com a queda dramática dos custos das comunicações com a revolução digital a partir dos 80 (o que facilita manter e coordenar de forma eficaz grandes organizações), a tendência para a expansão dos monopólios tem se reforçado, e quanto mais um monopólio adquire poder mais recursos tem para se expandir, reforçar e defender a sua posição.
Ou seja nos últimos tempos, longe de uma utopia de livre concorrência e reforço da competição, a tendência dominante do capitalismo tem sido para o aumento dos monopólios e a concentração da vida económica num número de empresas cada vez mais reduzido. O seguinte artigo apresenta um estudo detalhado sobre isso:
Monopoly and Competition in Twenty-First Century Capitalism, Foster, McChesney and R. Jamil Jonna
O sector económico mais dinâmico da actualidade, a “Internet” e tudo o que a ela está associado, é uma das áreas onde essa tendência mais se tem reforçado. A imagem que ilustra este texto é retirada de um artigo do economist onde se descreve a guerra entre os vários gigantes que no momento dominam a “Internet”, sendo que cada um desses gigantes é um monopólio na sua área específica. A google domina as pesquisas, a Amazon domina o comércio a retalho e as entregas, a Apple (mais valiosa empresa do mundo e da história, em valor das acções) domina na venda de alguns conteúdos e aparelhos móveis, o facebook monopoliza as redes sociais. Noutro artigo da mesma revista esses mesmos monopólios privados são defendidos contra tentativas de regulação… Regulação, que na melhor das hipóteses é um mal menor, geralmente é mas é uma ganda palhaçada.
Por vezes o monopólio é mesmo a melhor forma de organizar a produção e distribuição de produtos e serviços. Mais, importantes avanços técnicos (ou das forças de produção) nas últimas décadas fazem com que o monopólio faça sentido em cada vez mais sectores e locais. Devo acrescentar que localismos medievais são coisa que não me atrai lá muito, para aqueles que não gostam de monopólios ou controlo central por questão de “princípio” tenho pena de não ter uma máquina do tempo, enviava essa gente para a Idade das Trevas para verem o que é bom.
O problema central não é portanto a existência ou não do monopólio, mas o seu controlo! E não é um regulador que vai controlar seja o que for, não, quando falo de controlo refiro-me há propriedade e poder executivo.
Aliás em Portugal há um caso tragicó-cómico que ilustra bem a realidade da introdução de pseudo-competição e regulação num sector vital. Estou a falar da energia eléctrica. A mandato da União Europeia, embalados pela possibilidade de fazer uns bons negócios e encantados pelas fábulas neoliberais a EDP foi cindida pelo governo português em meados dos anos 90 (por quem? por esse grande estadista Cavaco Silva…), a produção de energia permaneceu na EDP e a distribuição foi para a REN. A “estória da carochinha” é de que só assim seria possível várias empresas entrarem no mercado de produção eléctrica, todas recorrendo a uma empresa neutra de distribuição… Passados quase 20 anos a realidade é qual? O monopólio quase total de produção de energia continua na EDP e depois de privatizada a REN e a EDP ambas têm o mesmo accionista principal… Ambas são propriedade da República Popular da China, uma “empresa privada” conhecida por todos…. Se não fosse trágico seria uma grande comédia.
Esta política ditada pela UE de desmembramento de monopólios sob o controle público é absolutamente criminosa e foi seguida noutros sectores como o do transporte ferroviário. É engraçado que, por exemplo, na Alemanha essas directivas, nomeadamente para o sector ferroviário, não foram seguidas. Nem o desmembramento do monopólio nem a sua privatização… Quem acha que o sector público é inexoravelmente laxista/incompetente é porque é ignorante ou tem interesses ocultos na privatização de bens públicos. Aqui podem encontrar um artigo (entre vários) que desfaz esse mito e propõe várias alternativas à resolução de problemas de gestão em empresas públicas para lá da privatização.
Em resumo: Existe uma forte tendência para a expansão dos monopólios, a mitologia de uma economia de mercado aberta à concorrência não passa de isso mesmo, de uma mitologia. Nas últimas décadas, em vários sectores, incluindo o mais dinâmico da actualidade – a “Internet” - a tendência é para a redução da competição e o aumento dos monopólios. A existência de monopólios não é um problema em si mesmo, sendo até a melhor forma de organizar a produção e distribuição de bens e serviços num crescente número de sectores e locais. O problema está no controlo, propriedade e gestão desses monopólios. Uma das principais batalhas dos próximos anos será sobre o controlo dos monopólios, serão estes cada vez mais propriedade de certos sectores privados-oligárquicos ou existirá hipótese de recuperá-los para a esfera pública? A regulação é uma palhaçada, quanto muito um mal menor, geralmente serve apenas para mascarar políticas criminosas de desmembramento de monopólios naturais sob o controle público e para dar tachos a amigos.
Termino chamando a atenção para dois factores que podem afectar esta narrativa. Primeiro um aumento significativo nos custos de transportes (provocado por um aumento no custo de combustíveis) e segundo uma tendência para organização de agentes em redes colaborativas (em que cada núcleo mantém um importante grau de autonomia mantendo ao mesmo tempo uma colaboração/coordenação com o todo) e não tanto em monopólios centralizados de forma hierárquica. Quanto ao aumento de custos dos transportes parece-me que podendo ocorrer, estes não serão da ordem necessária a afectar esta tendência, um aumento nos custos de transportes afectará a logística e a repartição entre modos mais do que inviabilizará a “marcha dos monopólios”. Sobre a organização em rede, é uma utopia simpática (um bocado à imagem do movimento cooperativo do século XIX), a dinâmica do capitalismo actual não aponta para aí, antes pelo contrário esse tipo de organizações é (e será) combatido pelas actuais oligarquias. A mim, parece-me que há espaço para esse tipo de organizações colaborativas “em rede”, mas tenho dúvidas que alguma vez venham a ser determinantes… De qualquer das formas, haverá sempre sectores estratégicos que necessitaram de um grau de coordenação e controlo só possível numa organização centralizada.