A Internacional

__ dementesim . . Do rio que tudo arrasta se diz que é violento Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. . _____ . Quem luta pelo comunismo Deve saber lutar e não lutar, Dizer a verdade e não dizer a verdade, Prestar serviços e recusar serviços, Ter fé e não ter fé, Expor-se ao perigo e evitá-lo, Ser reconhecido e não ser reconhecido. Quem luta pelo comunismo . . Só tem uma verdade: A de lutar pelo comunismo. . . Bertold Brecht

sexta-feira, agosto 10, 2007

SOMOS TODOS IGUAIS?

* Fritz Utzeri
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A tragédia humana no Iraque tem nome. É Razek al-Kazem al-Kahaf. Ele perdeu, em poucos segundos, a mulher, seis filhos, o pai, a mãe, três irmãos e suas cunhadas. Quinze vítimas, mortas pelo exército de George W. Bush. Razek, certamente, agradecerá a Alá pela liberdade em que passará a viver quando o assassino Saddam tiver sido eliminado.
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Como todo mundo sabe, Saddam preparava-se para enlutar famílias americanas usando poderosas armas de destruição em massa. Razek ainda acabará entendendo as razões dos ianques que detiveram a tempo a mão assassina do monstro. E, afinal, como diria Peter Arnett: "Quinze mortos não são tantos assim". Por que chorar?
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Não se deixem enganar pelas imagens de bebês destroçados, ensangüentados, jogados entre trapos sujos e cheios de moscas em rústicos caixotes de madeira. Não se preocupem. Não chorem por eles. São apenas iraquianos, pobres diabos de vida barata, que não merecem sequer uma flor. Meros "danos colaterais", estatísticas de uma guerra contra a barbárie, movida em nome de Cristo e da Civilização.
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Indignados estaríamos se as vítimas fossem crianças brancas, nutridas, que brincam de guerra com seus videogames, usam tênis Nike (aqueles feitos por pequenos escravos chineses), bebem Coca-Cola e freqüentam o McDonald's; ou seja, "nossas" crianças. Imaginem a indignação na terra de Tio Sam se um helicóptero árabe disparasse um míssil sobre a família de um certo John Taylor, eliminando-a. Crime contra a humanidade!
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O local se entupiria de flores, como santuário. As TVs passariam e repassariam a cena. Os EUA não descansariam enquanto não punissem exemplarmente o terrorista e seus mandantes. Graças a Deus, isso não aconteceu. Morreram apenas civis iraquianos e, como se sabe, são necessários muitos iraquianos mortos para equivaler a um único americano perdido. Ninharia... .
Não entendo por que sociólogos ou antropólogos não pleiteiam bolsas para fazer estudos comparativos sobre o valor das vidas dos seres humanos. (Sou candidato a uma, vou precisar.) Diz a lenda que somos todos iguais. Será? Para começar poderíamos estabelecer como referência a vida dos norte-americanos. Quanto vale uma vida ianque? Os EUA já fizeram essa conta há 59 anos e esta resultou em duas bombas atômicas. Hiroshima e Nagasaki. Milhares de crianças, mulheres e velhos japoneses (meros amarelos) foram vaporizados no holocausto nuclear para evitar a morte de GIs do Texas, Califórnia, Ohio etc.
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A vida de um norte-americano vale, certamente, mais do que uma vida inglesa, francesa ou alemã, mas não muito (as duas últimas desvalorizaram um pouco em função da posição da França e da Alemanha nesta guerra). Ousaria dizer que a vida de dois europeus ocidentais (portugueses, espanhóis e italianos valendo menos) equivale a uma vida ianque. Vidas israelenses andam perto dessa cotação. Se tomarmos russos como parâmetro será preciso matar uns cinco, talvez seis. E quantos brasileiros terão que ser eliminados para equivaler a um norte-americano? Agora imaginem árabes, negros ou vietnamitas...
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E o mais irônico é que os assassinos dos filhos de Razek batizaram o sinistro helicóptero que os matou com o nome do povo índio que exterminaram, sem piedade, para roubar-lhe a terra: Apache! Jerônimo deve dar pulos de indignação em sua tumba.
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E a imprensa continua com a ficção das "bombas inteligentes". São bombas serial killers, tão inteligentes quanto Hannibal Lector. A bomba que "libertou" a família de Razek é de fragmentação. Ela carrega 200 minibombas que se espalham e explodem na superfície do solo lançando uma onda de fragmentos, afiados como navalhas, que ferem e matam num raio de 200metros. Não demole, nem danifica, prédios ou pontes. É feita para matar. Equivale a minas terrestres jogadas de avião. É arma assassina.
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O que diz disso a Convenção de Genebra, zelosamente invocada pelos ianques quando os iraquianos mostram prisioneiros norte-americanos na TV? Presos tratados a pão-de-ló, quando comparados à maneira nazista como são torturados os afegãos em poder dos esbirros de Bush & cia, na base de Guantanamo, terra roubada de Cuba em...
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Mas isso já é outra História.
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Fritz Utzeri é jornalista, nascido na Alemanha há 58 anos, 50 dos quais passados no Brasil. Este texto foi publicado originalmente no Jornal do Brasil de 06/04/2003, e está disponível, para leitores cadastrados, em
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in Jornal do Brasil, 06/04/2003

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